Mostrando postagens com marcador John Lennon. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Lennon. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de fevereiro de 2026

20 FRASES FUNDAMENTAIS PARA QUEM PRETENDE MUDAR O MUNDO

"Ser governado é ser guardado à vista inspecionado, espionado, dirigido, legisferado, regulamentado, depositado, doutrinado, instituído, controlado, avaliado, apreciado, censurado, comandado por outros que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude.

Ser governado é ser, em cada operação, em cada transação, em cada movimento, notado, registrado, arrolado, tarifado, timbrado, medido, taxado, patenteado, licenciado, autorizado, apostilado, admoestado, estorvado, emendado, endireitado, corrigido.

É, sob pretexto de utilidade pública e em nome do interesse geral, ser pedido emprestado, adestrado, espoliado, explorado, monopolizado, concussionado, pressionado, mistificado, roubado.

Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, perseguido, injuriado, espancado, desarmado, estrangulado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar nada, ridicularizado, zombado, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral!

E dizer que há entre nós democratas que pretendem que o governo prevaleça; socialistas que sustentam esta ignomínia em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade; proletários que admitem sua candidatura à presidência! Hipocrisia!" (PIERRE-JOSEPH PROUDHON).


"Onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Dilacerou impiedosamente os variegados laços feudais que ligavam o ser humano a seus superiores naturais, e não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo que não o interesse nu e cru, o insensível pagamento em dinheiro.

Afogou nas águas gélidas do calculo egoísta os sagrados frêmitos da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco e do sentimentalismo pequeno-burguês. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e no lugar das inúmeras liberdades já reconhecidas e duramente conquistadas colocou unicamente a liberdade de comércio sem escrúpulos.

Numa palavra, no lugar da exploração mascarada por ilusões políticas e religiosas ela colocou um exploração aberta, despudorada, direta e árida" (KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS)
.
"Aquele que botar as mão sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo" (Proudhon)

"Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo, de diversas maneiras. Chegou a hora de transformá-lo" (Marx e Engels)

"Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra!" (LEON TROTSKY)

"A propriedade é o roubo" (Proudhon)

"De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades"(Marx e Engels)

"O primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer 'isto é meu', e encontrou gente suficientemente ingênua para acreditar nisso, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: Não, impostor!" (Jean-Jacques Rousseau)

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempos de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar" (BERTOLD BRECHT)

"A religião é o suspiro da criança acabrunhada, o coração de um mundo sem coração, assim como também o espírito de uma época sem espírito. Ela é o ópio do povo" (Marx)

"Imagine que não há países; não é difícil. Nenhum motivo para matar ou morrer e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só" (JOHN LENNON)

"Que meu país morra por mim" (JAMES JOYCE)

"A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e limitados que um objeto só é nosso quando o possuímos" (Marx)

"Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados"  (CHE GUEVARA)

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti"(JOHN DONNE)

"Gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente"(GERALDO VANDRÉ)

"Pereça a pátria e salve-se a  humanidade"(Proudhon)

"Oh, Deus, por que me abandonaste? Porque eu não existo!" (JEAN-LUC GODARD)

"
Se guardo a impossível salvação na loja de retalhos, o que resta? 

Todo um homem, feito de todos os homens, que os vale todos e a quem vale não importa quem" (JEAN-PAUL SARTRE)

"O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros" (ANTONIO GRAMSCI)

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O RAULZITO FARIA 80 ANOS NESTE SÁBADO. EIS UM ARTIGO QUE RELEMBRA O SEU MAIS BELO SONHO: A SOCIEDADE ALTERNATIVA.

No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.

O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências. 

Canções tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda rabugenta se reerguia, passando como um rolo compressor sobre os loucos sonhos dourados da  geração das flores.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria sendo, isto sim, mudado pelo mundo.
Woodstock 69, o festival da paz e amor  

Vimos esta previsão melancolicamente confirmada adiante. Companheiros que um dia travaram dignamente o bom combate foram se tornando indiferentes aos dramas do povo brasileiro; existiram até uns tantos que se bandearam para a direita e outros que, para nossa imensa vergonha, se desnortearam com a embriaguez do poder a ponto de delinquirem. 

De nossa parte, em vez de conquistarmos o governo para acumularmos poder e tentarmos implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos deslocar o eixo para o sentido horizontal. 

Ou seja, acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga. Hoje a coisa não seria tão simples assim, mas, como ponto de partida, por que não?

As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste inferno pamonha que o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao esquecimento. 1968 ainda é tabu..
O NÉO-ANARQUISMO 
.
Maio de 1968: barricada numa rua de Paris.
Se, como todo mundo diz, a sociedade alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.

Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos, na convivência solidária com os irmãos de fé em nossos territórios livres.

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, p. ex., na segunda estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou."

Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores consequências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento bizarro, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.

Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.

Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.
.
LIKE A ROLLING STONE 
.
Woody Guthrie (esq.) inspirou fortemente Bob Dylan
Eu morei numa comunidade alternativa, em 1971/72. 

Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.

Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a liberdade que conseguíamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo que grassavam lá fora.

Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o seu quinhão do  milagre brasileiro.

Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada: parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".

Acostumado aos tempos em que se labutava para viver, eu não consigo aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.).
A lendária comunidade pioneira
E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir –querem apenas usar umas às outras.

Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos, como então, estarmos todos nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor.

Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta em 1968 e anos seguintes), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.

Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para toda a sociedade...

COMO FAZER 
.
Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.

Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados ao sexo grupal).

Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Na Bahia, Arembepe era o paraíso agora... 

Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa 
comuna.


Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam.

O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária.

Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos.

Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram a comuna. 
...dos bichos grilos daqui e de hermanos

Uma foi deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o propósito era abrirmos as  portas da percepção, no dizer de Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo conflitos, rompimentos.

A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que surgiam, vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos marginais. E a polícia veio atrás.

Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela sobrevivência. Era uma tortura sermos obrigados a correr de novo atrás do ouro de tolo, quando não tínhamos mais  aquela velha opinião formada sobre tudo...

Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez. Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".
.
O NOVO DESAFIO
.
A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.
Acidente nuclear japonês: um terrível alerta. 

Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos, maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o fim da espécie humana não estará descartado.

O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.

Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez de competirem.

Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências que malograram!

É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.

Precisaremos construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos cidadãos. Mostrarmos que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses individuais. Convencermos os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova sociedade que estivermos criando. E isso fazendo o possível e o impossível para evitarmos que ela também descambe para a coerção e a repressão.
"...e o mundo será um só!"

E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de governos e partidos políticos.

Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará. (por Celso Lungaretti)

domingo, 20 de outubro de 2024

A VERDADEIRA POLARIZAÇÃO É O DA LUTA DE CLASSES: ENTRE CAPITAL E TRABALHO

 


Existe uma ideia fixa da mídia burguesa brasileira: o fim da polarização política. Em seu mundo dos sonhos, o Brasil deveria ser formado apenas por centristas cêntricos, vivendo no consenso liberal do mercado e da democracia que não muda nada. O modelo maior desse sonho são os EUA do período pós Segunda Guerra, quando Democratas e Republicanos se revezaram na Casa Branca mantendo essencialmente as mesmas práticas. 

Por óbvio, em um país periférico e de extração colonial igual o Brasil, o sonho de um regime político de consenso liberal é mero delírio de uma burguesia siderada, que vive de costas para o seu próprio país e sempre se pensando como parte do mundo cosmopolita dos grandes capitalistas estadunidenses e europeus. Contudo, um país afundado na super exploração do trabalho, na dilapidação de seus recursos naturais, na economia desnacionalizada e que possui uma classe dominante que jamais chegou a ser ilustrada só pode ser o lugar da furiosa polarização entre pouquíssimos possuidores de muito e muitíssimos possuidores de nada

Polarização brasileira em ato. 

Pior, pois sequer nos EUA e na Europa o dito consenso liberal existe mais. Ao contrário, a polarização se acentua no centro do capitalismo, refletindo o aprofundamento da concentração de riqueza e da espoliação dos trabalhadores. Ao invés do Brasil se tornar o primeiro mundo, é ele quem está virando o Brasil, em um fenômeno batizado de brasileirização do mundo. Ou seja, o abismo da polaridade entre uma multidão de miseráveis e um grupo diminuto de possuidores vai se alastrando por todo lugar, levando à erosão dos regimes políticos desses países e à instabilidade como regra. 

Na realidade, a polarização não vem de outro lugar senão da oposição entre capital e trabalho. O capitalismo está fundado na exploração do trabalho no interior da propriedade privada em que o trabalho concreto é transformado em abstrato gerando o valor. Essa oposição é a raiz da sociedade capitalista e não pode ser anulada pela mera vontade de quem quer que seja. É a partir dela que está fundamentada a luta de classes. 

No mundo da mídia brasileira não existe 
contradição entre capital e trabalho. 
O que ocorreu durante décadas nos EUA e na Europa foi a denominada exportação das contradições. Rosa Luxemburgo foi uma pioneira na análise desse fenômeno em que os países centrais do capitalismo diminuem suas tensões internas absorvendo riqueza da periferia do sistema. Ao fazer isso, é possível aumentar a renda média dos trabalhadores enquanto a super exploração é imposta aos trabalhadores dos países periféricos. Foi exatamente o acontecido nos países centrais no período pós-guerra através das multinacionais que arrochavam o trabalhador na periferia e conseguia, com o valor importado, manter um padrão elevado para a média da população de seus países de origem. Tinha-se, assim, países majoritariamente de classe média. 

Mas a restruturação neoliberal colocou fim a esse processo ao cortar benefícios sociais, flexibilizar leis trabalhistas e impor uma reorganização do sistema produtivo em que os trabalhadores do centro perderam seus empregos seja para a automação, seja para trabalhadores da periferia, ao verem suas fábricas e empresas migrarem para países da América Latina, Ásia e África. O novo status da globalização na prática colocou fim às separações dos mercados nacionais ao impor um mercado unificado e homogêneo, controlado por oligopólios e em que os trabalhadores competem globalmente entre si. O resultado é a agudização da luta de classes em nível global e, logo, da polarização. 

Até na Europa, as contradições estão se 
acentuando.
Ao invés de diminuir, a polarização está se acentuando, acompanhando o processo de agudização da própria luta de classes e a crise crônica do capitalismo. Os nomes que encampam cada polo não importam, o importante é considerar a dinâmica política e social desse processo cuja base material não depende da vontade deste ou daquele sujeito.

Longe de demonizarmos a polarização, é preciso compreende-la em radicalidade e avançar na verdadeira polarização contra o capitalismo. Contudo, não podemos ter a ilusão que iremos todos ficar de mãos dadas como se estivéssemos em um clipe da música Imagine do John Lennon. A era do socialismo utópico já passou há mais de século. Na prática, a divisão da sociedade entre aqueles que desejam preservar o capitalismo e aqueles que desejam ir além fatalmente ocorrerá. Cabe a nós estarmos preparados para o momento decisivo do enfrentamento. (por David Coelho)

sábado, 28 de outubro de 2023

POLÍCIA MORAL DO IRÃ MATA OUTRA JOVEM POR RECUSAR O VÉU ISLÂMICO: A CEGUEIRA RELIGIOSA É O PIOR DE TODOS FANATISMOS!

Esta adolescente de 16 anos foi impiedosamente assassinada pelo inadmissível, inaceitável, grotesco, repulsivo, abominável e aberrante governo que sustenta o fanatismo religioso no Irã.

Não há desculpa nem qualquer justificativa aceitável para se torturar mortalmente uma jovem só porque não quis enfear-se utilizando o hijab, aquele véu islâmico que esconde os cabelos e torna sua usuária um ser assexuado, sem espontaneidade, sem alegria, sem vida, sem nada: uma réplica de zumbi. 

Quanta paúra do diabo interior esses sacerdotes aiatolados nas trevas medievais têm da liberdade sexual!!! 

O crime pelo qual Armita Geravand recebeu a pena capital foi viajar de metrô sem o véu ridículo. Os primatas da polícia moral tanto a espancaram que já saiu em coma da estação. A morte cerebral chega após passar quatro semanas hospitalizada.

Vale lembrar que pelo mesmíssimo crime foi morta em setembro Mahsa Amini, de 22 anos, esta à maneira do DOI-Codi brasileiro: estava numa prisão quando sofreu os espancamentos. 

Uma grande luta de nossos tempos é entre a civilização e a barbárie.

Regimes hediondos como o do Irã ajudam a perpetuar a desumanidade igualmente extremada de Israel, porque ambos igualam-se no absoluto desprezo pelos que têm convicções diferentes, estando sempre prontos para exterminá-los sob quaisquer pretextos.

Então, não nos podemos alinhar com  um nem com o outro sem trairmos a essência do que somos: seres humanos empenhados em construir uma sociedade igualitária e livre. 

Cabe-nos, portanto, os devolvermos para o passado odioso ao qual pertencem, pois, quando finalmente livrarmos a humanidade da exploração do homem pelo homem, eles serão sempre um corpo estranho, destoante, em meio à civilização. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

EM 1970, 0S JOVENS DO MUNDO INTEIRO CANTAVAM "GIVE PEACE A CHANCE". HOJE EMUDECERAM. QUE JUVENTUDE É ESSA?

"Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada
homem é parte do continente, parte do todo. 

Se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor,
como se fosse um promontório, como se fosse
uma parte de seus amigos ou mesmo sua. 

A morte de qualquer homem me diminui, porque eu
sou parte da humanidade. E, por isso, nunca
procures saber por quem os sinos
dobram: eles dobram por
ti." (John Donne)

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

SOMENTE A EMANCIPAÇÃO HUMANA PODERÁ NOS COLOCAR NO RUMO CORRETO

 


Antes havia o objetivo a ser buscado e consubstanciado numa sociedade sem classes sociais, sem estado, sem partidos e sem a forma valor: uma sociedade comunista

Perdemo-nos no caminho?  

O Estado, com suas tetas mesquinhas para quem dele participa e nele está inserido, passou a ser objetivo a ser preservado?  

O capitalismo de Estado, submisso à lógica ditatorial de reprodução do capital nas mãos concentradas do Estado e seus iluminados dirigentes, representam o caminho para a construção de uma sociedade comunista? 

A estatização de empresas estruturais do capitalismo na sociedade burguesa, e outras nem tanto, passou a ser princípio de programa consolidado e perpétuo da esquerda estatista? 

O sindicalismo de resultados, defensor do emprego que extrai mais-valia, como perpetuação de pretensa bandeira de luta heroica, passou a ser sinônimo de combatividade anticapitalista? 

O trabalho abstrato produtor de valor, categoria capitalista e fonte da acumulação do capital de quem o detém, deve ser incensado como bandeira perpétua - a foice e o martelo sobre um vermelho esmaecido que o diga? 

O partido trabalhista, ou pseudo comunista - igual o Chinês -, devem ser instituições perenizadas? 

A verticalidade do Estado burguês e a sua democracia burguesa, como contraponto ao nazifascismo, é um fim em si a ser preservado?  

A preservação da forma-mercadoria e suas compras e vendas no altar do mercado - a mão invisível de Adam Smith - é mecanismo a ser preservado, até mesmo numa sociedade estatal dita proletária? 

Aplaudir ou contemporizar o genocídio de civis com argumentos falaciosos que encobrem um sentimento inconfessado de pertencimento a blocos econômicos que se digladiam em busca de hegemonia capitalista, é justificável? 

Propor a retomada de desenvolvimento econômico diante da depressão capitalista mundial, do escravismo indireto do capital e sua conhecida concentração, agora mais concentrado que nunca, é bandeira emancipatória da humanidade?   

Escolher políticos social-democratas e suas conhecidas bandeiras civilizatórias nos costumes, mas conservadores no cerne da exploração capitalista, é caminho para uma tomada de consciência das transformações emancipatórias necessárias? 

Não, companheiros da esquerda institucional! Pensar a agir sob pressupostos acima elencados é trair o sentimento libertário e emancipacionista que nos engrandece! 

A conciliação política de classes e o medo de perdermos o que não temos, ou o pouco que se nos oferecem como forma de nos mantermos silentes, não deve servir como programa emancipatório da esquerda. 

Romper com os grilhões que nos acorrentam é medida histórica libertária que deve ser retomada, antes que sejamos extintos como espécie humana! 

Parece que propor princípios constitucionais fora da lógica de produção do valor e do processo democrático burguês passou a ser considerado como objetivo utópico ou até mesmo ingênuo. 

 Lutar, mesmo diante das atuais condições de dominações políticas, ideológicas, níveis elevados de inconsciência da grande maioria da sociedade sobre a natureza dos males de é vítima, passividade mantida pela lavagem cerebral sublinear midiática e conceitos equivocados adotados nos currículos educacionais que positivam o negativo, que provocam o embotamento do pensar, e o domínio opressor exercido pelo capital sobre as pessoas iludidas pelo fetichismo da mercadoria, mesmo na atual fase de depressão econômica, é postura que nos credenciará perante o povo sofrido e manipulado. 

As condições objetivas de vida social e as ameaças de autodestruição bélica e ecológica, pari passu ao aumento do enraizamento social do crime organizado diante da corrupção policial e impossível contenção estatal deste lamentável fenômeno - ainda outro dia explodiram as agressões dos milicianos no Rio de Janeiro, com dezenas de ônibus queimados -, além do crescimento da fome e da pobreza mundo afora, que já atinge até mesmo os países que antes se constituíam como ilhas de prosperidades e modelos a serem seguidos, insistem em demonstrar que ingênuo e irracional é continuarmos esperando que dê certo algo que se sabe de antemão que vai dar errado por se constituir como equação matemática irresolúvel: a vida social sob o capital no atual estágio das contradições dos seus próprios fundamentos. 

Sei que há uma diferença entre o que queremos e a possibilidade de fazermos; mas querer fazer já é caminho. Disse John Lennon certa vez, e corretamente, que se você quiser, a guerra acaba amanhã! 

Assim, a retoma de proposições que sirvam de norte referencial da esquerda, ainda que muitos considerem inexequíveis, devem ser feitas sem medo e como pressuposto revolucionário a ser colimado, ou pelo menos como norte referencial a ser alcançado e aperfeiçoado, que motive o querer, vez que saber aonde ir já é um começo da possibilidade de se trilhar o caminho para se chegar lá. 

Vamos em frente! (por Dalton Rosado)



sexta-feira, 8 de setembro de 2023

NASCIDO DA REJEIÇÃO AO TOTALITARISMO ULTRADIREITISTA, O GOVERNO DO PT É UMA DECEPÇÃO: AUTORITÁRIO E RETRÓGRADO!

Em 2004/2005 consegui esclarecer o episódio da luta armada do qual decorrera minha estigmatização injusta. Levei quase 35 anos, mas resgatei a verdade. 

Pensava que, dali em diante, teria possibilidade de dar uma contribuição bem mais efetiva à causa revolucionária. Só que a sensação de alívio me deixou otimista demais. 

Antes mesmo de ser marxista, já sabia o quanto um Estado todo poderoso pode destruir qualquer indivíduo. Lera Kafka, que expressava seus pesadelos de forma artística, mas também George Orwell e Arthur Koestler, que partiam da história real dos julgamentos stalinistas.

Contudo, enfrentando uma ditadura assassina, esqueci um pouco esse lado, tentando crer que tudo se resolveria depois que nos livrássemos dos militares.

Até que experimentei na carne tudo que um Estado pode fazer tendo poder de vida e de morte sobre um cidadão. Concluí então que nada, absolutamente nada, justificava conceder aos Estados tal poder.

Ao voltar à liberdade, estava decidido a não transigir mais com os regimes esquerdistas autoritários, proponentes ou praticantes da ditadura do proletariado. E a esquerda brasileira, infelizmente, tem um acentuado vezo autoritário, a ponto de até partidos com tradição trotskista defenderem a estatização da economia.

Como se a experiência soviética já não tivesse sido uma comprovação cabal de que todos os Estados tendem a se tornar leviatânicos, dominados por nomenklaturas! Estatizar 100 empresas significa apenas dar a essas excrescências mais 100 opções para concederem a si próprias privilégios inacessíveis aos trabalhadores.

Adorei quando li O Estado e a revolução (1917), do Lênin, no qual ele teorizou que a função do Estado, num regime revolucionário, seria a de criar as condições para sua extinção por se ter tornado supérfluo. 
O filme Leviatã mostrou o Estado russo tão monstruoso
sob o comunismo quanto na atual volta ao capitalismo
Pena que isto nunca aconteceu. Todas as nomenklaturas só fizeram aumentar cada vez mais o poderio estatal que as beneficiava, até serem desalojadas pela força.

Eu quase vomito quando vejo esquerdistas vibrando com o pré-sal e defendendo com unhas e dentes a Petrobrás, pois deveriam é estar defendendo com unhas e dentes a substituição dos combustíveis fósseis por energia limpa, para salvar a humanidade!

Enfim, desde 1973 sou totalmente contrário a todas e quaisquer ditaduras, inclusive a do proletariado, e coloco como metas revolucionárias primordiais a justiça social e a liberdade, em pé de igualdade. Não aceito de forma nenhuma que se sacrifique a liberdade em nome da justiça social, pois sei que isto sempre acaba mal.

Mais: a defesa dos direitos humanos se tornou uma das linhas-mestras da minha atuação. Como não sou caçador de holofotes, evito oferecer minha colaboração a todas as lutas travadas, mas nunca deixei de fazer o máximo que podia quando companheiros vieram me pedir ajuda para o bom combate. 

Consegui levar a bom termo algumas batalhas, noutras a vitória era impossível, mas tentar, sempre tentei. Revolucionário de minha geração jamais recusa pedidos formulados em nome da solidariedade revolucionária.

Com relação ao desenho de um regime revolucionário, eu penso na organização das atividades produtivas de forma a atender as necessidades coletivas e viabilizar o bem comum. Já existem condições tecnológicas para todos disporem de tudo que necessitam para uma existência gratificante e digna, e isto trabalhando bem menos do que na atualidade. A autogestão se disseminaria, tirando do Estado o poder de impor gestores a seu bel prazer.

Quanto ao que cada indivíduo quisesse fazer com seu tempo livre, considero que não seria problema do Estado, desde que não explorasse outras pessoas para enriquecer cada vez mais, colocando em xeque a base igualitária do regime. Que cada um empreendesse, criasse, inventasse, mas essa esfera secundária nunca poderia adquirir poder suficiente para competir com a principal.

Se a vida deixasse de ser uma batalha de todos contra todos, quem sabe as pessoas espontaneamente preferissem desfrutá-la em comunhão com as outras pessoas ao invés de moverem céus e terras para se colocarem em patamar superior a elas. (por Celso Lungaretti) 
Observações: o texto acima é de 08/10/2022 e não foi então publicado na forma de post, mas sim como resposta a um comentarista. 

Hoje, contudo, resolvi transformá-lo em post, para traçar um paralelo com o novo governo do PT, que se vendeu como uma alternativa ao totalitarismo bolsonarista e agora arranca a máscara, mostrando-se não só autoritário como, inclusive, retrógrado, embora nunca vá chegar ao cúmulo de sabotar o combate científico a uma pandemia ou iniciar golpes de Estado.   

Achei mais útil dar o recado da forma como estou dando agora (o link do post original. que o ensejou, é este), colocando em destaque meu desenho de uma sociedade pós-capitalista e como cheguei a ele. No mínimo, isto pode motivar os leitores a refletirem sobre o assunto.

De resto, faço uma ressalva: mais importante do que detalharmos aonde queremos chegar é, neste momento, discutirmos como poderemos lá chegar. 
Sendo a correlação de forças muito desfavorável a nós em escala mundial, nosso grande desafio é fazermos crescer acentuadamente as fileiras revolucionárias, pois enquanto o embate principal for entre o capitalismo (tendo a esquerda reformista como força auxiliar) e o fascismo, não chegaremos a lugar nenhum.

Já passou da hora de a esquerda deixar de submeter-se à chantagem que a desfigura: a de ter de alinhar-se com os capitalistas civilizados para evitar a prevalência do capitalismo bestializado.

A opção pelo mal menor se eternizará enquanto não recolocarmos a luta na ótica correta: a civilização (encarnada na superação do capitalismo, sem a qual a humanidade tem os dias contados) contra a barbárie (encarnada tanto no capitalismo civilizado quanto no capitalismo bestializado).

É fundamental voltarmos a desenvolver uma atuação autônoma, acumulando forças para, tão cedo quanto possível, representarmos uma alternativa de poder, ao invés de nos avassalarmos vergonhosamente ao médico capitalista por paúra do monstro capitalista, esquecendo-nos de que o dr. Jekyll e Mr. Hyde são a mesma pessoa. (CL)  
Related Posts with Thumbnails