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sexta-feira, 14 de março de 2025

DOIS DESAFIOS: O DO VELHO BLOGUEIRO E O DO PISTOLEIRO DESILUDIDO.

Depois de passar um constrangedor período de oito dias sem postagem nova, o blog Náufrago da Utopia levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. 

Não foi ainda desta vez que os ex-querdistas, ansiosos pelo esvaziamento do pensamento crítico e pelo abandono do combate intransigente ao capitalismo, livraram-se desta pedra no sapato deles. 

Mas, como não sou nem pretendo ser um homem de ferro, será aos poucos que atualizarei minhas análises sobre o estágio atual da agonia do capitalismo. 

O regime da exploração do homem pelo homem agora parece retornar aos contornos da distopia célebre de George Orwell, 1984, sobre três grandes blocos de poder disputando a hegemonia, mas priorizando, acima de tudo, usar os rivais como espantalhos para manter abúlicas as massas que exploram, intimidam e humilham.  

O retrocesso civilizatório se torna cada vez mais profundo e chocante, nos fazendo suspeitar de que chegaremos finalmente ao ponto de não-retorno. Mas disto trataremos em posts vindouros.

Por enquanto, vou me conceder a satisfação que sempre tenho em revelar aos leitores uma ou outra exceção no esgotamento do bang-bang como gênero cinematográfico. 

Isso me emociona desde que fui um dos poucos críticos a saudar no ato o surgimento do western italiano como um fenômeno importante na sétima arte. Isto eu fiz muito antes de Quentin Tarantino deslumbrar-se com a genialidade de Sergio Leone e Ennio Morricone, inclusive reverenciando em Kill Bill o clássico duelo na arena redonda...

O filme subestimado da vez é Desafio de um pistoleiro, que passou despercebido pelos cinemas mundiais em 1995 e só veio a ser notado a partir de sua inclusão nos pacotes das novas mídias.

Tal qual Keoma, de Enzo G. Castellari (1976), ora alçado a cultDesafio de um pistoleiro, de Larry Ferguson (1995) parece ser o desabafo de um diretor obrigado a entregar um montão de tralha cinematográfica até que, num afortunado momento, conseguiu  boas condições para realizar o filme com o qual sonhava. 

Algo tipo "vejam só o que eu poderia ter feito sempre se a indústria cinematográfica me bancasse".  

Também roteirista e ator, Ferguson não só soube criar uma história diferente do ramerrão dos westerns outonais que pululavam em fins do século passado, como descobriu seu intérprete ideal num eterno coadjuvante que aproveitou bem a chance de ombrear-se ao Clint Eastwood ou ao Franco Nero. 

Lance Henriksen tem um desempenho tão marcante que nos leva a indagar por que nenhum outro diretor pensara nele como anti-herói de faroeste.

Não se trata, evidentemente, de um novo Três homens em conflito, mas quem esperava muito pouco desse filme desconhecido teve uma grata surpresa. Foi o meu caso.

Duelista famoso do velho Oeste decepcionou-se com a vida que levava e procura manter-se incógnito num povoado mexicano para não ter de continuar matando os tolos que o provocavam, ansiosos por herdarem sua lenda.

Quando recebe um pedido de ajuda da única mulher que amara, faz longa viagem para ir atendê-la, com a esperança de reatar o antigo romance. Mas, como uma amarga ironia, ela não estava necessitada do homem cuja vida perigosa não quisera compartilhar, mas sim do atirador que pudesse salvar o marido marcado para morrer. 

E que, ao ficar conhecendo a filha que nem sequer vira nascer, é obrigado a escolher entre a retaliação (omitir-se) que até se justificaria num caso desses e o dever paterno de zelar pela segurança e felicidade da moça que outro homem estava criando no seu lugar. (por Celso Lungaretti)

 

domingo, 14 de abril de 2024

O REI MORTO É O BOLSONARO, CUJA PRISÃO NÃO TARDARÁ. TENDO COMO CREDENCIAL 56 EXECUÇÕES, TARCÍSIO QUER SER O REI POSTO.

Jair Bolsonaro, conforme cansei de antecipar, não se perpetuou no poder nem sobreviverá politicamente à perda da faixa presidencial. 

O pior presidente do Brasil em todos os tempos está em vias de iniciar uma longa temporada atrás das grades, pois o rosário de graves crimes comprovadamente cometidos agora desabará sobre ele com o peso:
— de uma circense micareta golpista que fez do Brasil piada para o mundo civilizado, e
— de umas 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas caso o combate científico à pandemia de covid não fosse por ele flagrantemente sabotado (afora episódios menos graves, mas nem por isso insignificantes em termos penais). 

E já dá para percebermos sem sombra de erro quem será o novo líder da extrema-direita brasileira, em substituição ao rei que  para todos os efeitos estará morto tão logo o trancafiem na cela a que fez jus: Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, que acaba de apresentar uma segunda credencial fortíssima para o cargo.

A primeira, obviamente, é o próprio posto que ocupa. à frente do estado mais poderoso e rico da federação. 

Quem era Bolsonaro antes da faixa presidencial? Um ninguém ao qual só um punhado de fanáticos obtusos levava a sério.
Da mesma forma, o outro ninguém chamado Tarcísio de Freitas poderá ir ainda muito longe por força de ser o atual inquilino do Palácio dos Bandeirantes.

Considero simplesmente risíveis as elucubrações sobre a possibilidade de Michelle Bolsonaro ocupar o trono vago, pois ela não passa de uma acompanhante de jornada bonitinha para os varões que tentam atingir o gozo orgástico do poder presidencial...

A segunda credencial de Tarcísio para liderar os truculentos desvairados foi a Operação (chacinas de) Verão, que ele respaldou embora não passasse de uma evidente retaliação fardada à morte por bandidos de três PMs na Baixada Santista. 

A resposta foram  58 dias de matança destrambelhada, com um total de 56 assassinatos por parte de efetivos da Rota sem câmeras corporais e que cometeram excessos gritantes.

Uma cabelereira foi baleada na cabeça enquanto conversava com uma amiga, sentada num banco de praça; a Secretaria de Segurança Pública de SP alegou troca de tiros com dois motoqueiros, os quais, como costuma ocorrer nesses episódios, teriam escapado.

Dois jovens negros foram baleados mortalmente quando policiais invadiram sua casa, ao que tudo indica por engano.

Um cego a quem restavam apenas 20% de visão, acamado, foi executado a queima-roupa por agentes da Rota; eles alegaram que o suposto Robin Hood tinha um fuzil embaixo da cama e iria disparar contra eles. Acredite quem quiser... 

Um coitadeza morreu sentado sobre suas muletas, após ser baleado sem aviso, etc.

Michelle nunca conseguirá igualar tais
trunfos de Tarcísio. Podem anotar: será ele o sucessor do Bolsonaro, devendo receber a coroa tão logo o rei morto seja devidamente enterrado num presídio. (por Celso Lungaretti)   

 
Dirigido por Enzo G. Castellari, com o veterano Gilbert Roland, este
western italiano  de 1968 tem tudo a ver com a polícia do Tarcísio 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

EM "KEOMA", CIDADE EMPESTEADA (mas não é daqui) ESTÁ SOB DOMÍNIO DE MILICIANOS QUE IMPEDEM ENTRADA DE MEDICAMENTOS

Keoma (1976) foi o canto do cisne do western italiano, tendo encerrado tal ciclo com extrema dignidade.

Trata-se daquela obra-prima que eventualmente um diretor convencional (no caso, Enzo G. Castellari) realiza uma única vez na vida, como se tentasse provar que tinha talento para voos maiores.

Mestiço (Franco Nero) volta da guerra da secessão e encontra sua cidade dominada por uma milícia de ex-soldados, desengajados  após o final do conflito; dela fazem parte seus três meio-irmãos, que sempre o hostilizaram por ser filho de uma indígena e não da mãe deles.

Grassa a peste e Keoma salva uma mulher grávida (Olga Karlatos) que estava sendo levada para o confinamento de leprosos porque o marido contraíra a doença, embora ela mesma não apresentasse sintomas.

Ele não saberá depois explicar direito a ela o porquê de haver comprado tal briga, justificando-se com a frase "todos têm direito de nascer". Mas, seu ato trará graves consequências para o pai (William Berger), o empregado negro que o criou (Woody Strode), os irmãos, o bando de Caldwell (Donald O'Brien) e, enfim, para toda a cidade.
O subtexto é dos mais ricos:
  • a briga entre os quatro irmãos remete, é óbvio, a Freud e suas teorias sobre a horda primitiva;
  • o nascimento da criança num estábulo é um paralelo bíblico, assim como a crucificação do herói;
  • a presença da velha índia (Gabriela Giacobbe) nos momentos culminantes do filme vem da mitologia grega, ela é um tipo de deusa do destino;
  • o herói errante em busca de um desígnio que dê sentido à sua vida também tem inspiração mitológica;
  • a peste se constituiu num elemento bíblico e mitológico ao mesmo tempo, além de estabelecer uma ponte com o escritor Albert Camus (A PesteO Estrangeiro), cujas obras são uma óbvia referência no delineamento do personagem principal;
  • finalmente, Castellari reverencia seus mitos cinematográficos – Keoma é filho de Shane, o mocinho (Alan Ladd) de Os Brutos Também Amam, enquanto a presença de Woody Strode no elenco constitui uma homenagem a John Ford, de quem era um dos atores prediletos.
E não foi só Castellari quem se superou, atingindo uma qualidade de que ninguém o suporia capaz. A  dupla de compositores Guido e Maurizio de Angelis fez uma trilha musical extraordinária, capaz de rivalizar com as melhores de Morricone. O contraste do baixo com a soprano chega a nos arrepiar, as letras se casam maravilhosamente com o filme.

Em suma: trata-se de um merecido cult e, por enquanto, de um clássico não reconhecido. 

E será uma pena se Castellari afinal concretizar o projeto que acalenta há bom tempo, de criar uma sequela chamada Keoma rises (ou The Fourth Horseman, ou Badlanders), estrelada por um Franco Nero que acaba de tornar-se octogenário e tendo como vilão... Quentin Tarantino! 

Prenuncia-se tão descartável quanto Django – a volta do vingador, que o inexpressivo diretor Nello Rossati (aka Ted Archer) cometeu em 1987 (por Celso Lungaretti)
Clique no ícone do Youtube se quiser assistir no modo tela cheia

sábado, 3 de janeiro de 2015

O MELHOR DO NÁUFRAGO: O WESTERN ITALIANO, QUE FLERTAVA COM A REVOLUÇÃO...

Clint Eastwood no clássico
"Três homens em conflito"
Um dos gêneros cinematográficos que mais falou da revolução para platéias amplas foi o western italiano. Poucos, hoje, sabem disso.

Nascido em meados da década de 1960, ospaghetti-western foi também muito caro para a minha geração noutro aspecto: lavou a alma de todos que gostávamos dos bangue-bangues, mas não da  caretice  dos estadunidenses.

Teve surpreendente sucesso nas bilheterias: O Dólar Furado (1), p. ex., chegou a ficar em cartaz durante cerca de um ano num cinema de São Paulo. Isto se deveu não só a ter ocupado um espaço vazio, já que os norte-americanos haviam deixado de fazer westerns, como também a haver trazido um novo enfoque e uma nova moldura para o gênero.

Tirando obras de exceção como Matar ou Morrer (2), Sem Lei e Sem Alma (3), O Matador (4), Estigma da Crueldade (5) e Rastros do Ódio (6), os faroestes made in USAde até então tinham o insuportável defeito de tentarem nos impingir aquela ladainha da luta eterna do Bem contra o Mal -- um tédio!

mocinho não fumava, não bebia, não praguejava e nem trepava. A mocinha era recatada donzela. O xerife, pachorrento mas digno. Os índios, selvagens bestiais que tinham de ser tirados do caminho para não atrapalharem o progresso. Os mexicanos, beberrões subumanos.

Mesmo no mato, conduzindo boiada, o mocinho tinha a decência de manter-se sempre limpo e escanhoado. Bah!

O western italiano surgiu meio por acaso. A indústria cinematográfica italiana conseguira nos anos anteriores faturar uma boa grana com filmes épicos e mitológicos. Hércules, Maciste, Ursus, Golias, fundação de Roma, guerra de Tróia, etc. O filão, entretanto, estava esgotando-se e a Cinecittà saiu à cata de um novo produto.

Sergio Leone, então com 34 anos, tinha começado a carreira no neo-realismo italiano (como assistente de direção e diretor de segunda unidade), mas não conseguira alçar-se à direção. Era difícil abrir um espaço entre mestres como Vittorio De Sica, Lucchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, etc.

James Coburn e Rod Steiger em "Quando explode a vingança"
Então, entre atuar eternamente à sombra dos medalhões do cinema de arte ou mostrar seu trabalho no cinema dito comercial, escolheu a segunda opção. Depois de dirigir os épicos Os Últimos Dias de Pompéia (7) e O Colosso de Rodes (8), teve a sorte de estar no lugar certo, no momento exato, para dar o pontapé de partida num novo ciclo.

Adaptou para o Oeste a história de Yojimbo (9), um filme de Akira Kurosawa sobre samurai que açula a discórdia entre dois senhores feudais para prestar-lhes serviço alternadamente, sem que percebam seu jogo duplo. O que Leone fez em Por Um Punhado de Dólares (10), basicamente, foi mudar a ambientação e colocar um pistoleiro caça-prêmios no lugar do samurai.

O protagonista também teve aí seu grande golpe de sorte. Clint Eastwood não emplacara em Hollywood como mocinho, ficando relegado a séries de TV e a filminhos classe “B” e “C”.

Leone percebeu nele um bom anti-herói. Compôs seu personagem (o Estranho Sem Nome) com barba rala, chapéu sobre os olhos, charuto na boca, fala arrastada e um poncho. Com isto, acabou alçando-o ao estrelato e fazendo jus à homenagem que depois Eastwood lhe prestaria, ao dedicar-lhe sua obra-prima Os Imperdoáveis (11).

O que diferenciou o western italiano foi exatamente ter sido feito por cineastas bem diferentes dos tarefeiros hollywoodescos (os ditos artesãos, que se limitavam ao feijão-com-arroz artístico que lhes garantisse o dito cujo gastronômico).

Damiano Damiani, Carlo Lizzani e Sergio Corbucci eram outros talentos com a cabeça feita pelo cinema de arte, assim como o superlativo roteirista Sergio Donatti (aliás, até os grandes diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento chegaram a escrever histórias para westerns).

Então, não se limitaram a realizar filmes com muita ação e nenhuma vida inteligente; fizeram questão de deixar sua marca, passando mensagens cifradas, dando toques, propondo outra abordagem para o gênero.

Em vez de um palco em que o Bem vence sempre o Mal, o bangue-bangue italiano mostrou o  velho Oeste como uma terra de ninguém, primitiva e selvagem, em que todos perseguem seus objetivos como podem.

O Django original, infinitamente superior ao pastiche do Tarantino. 

Evidentemente, há muito mais verossimilhança nesse enfoque do que no estadunidense. O Oeste do século 19 seria algo como o garimpo de Serra Pelada no seu apogeu. Um grotão selvagem onde prevalecia a lei do mais forte.

No lugar do herói, o western italiano consagrou o anti-herói: barbudo, desgrenhado, com roupas sinistras, muitas vezes um caça-prêmios, quase sempre um mau-caráter. No fundo, só se diferenciando dos bandidos por agir sozinho enquanto os outros atuam em bando.

Lembrem-se: era a década de 1960, quando havia um imenso desencanto com a ordem estabelecida. Rebeldes eram tudo que queríamos ver. Não suportávamos mais os heroizinhos c.d.f. de Hollywood, daí termos sido imediatamente cativados pela alternativa européia, os Djangos, Sabatas e Sartanas (os  únicos  mocinhos  nos moldes estadunidenses eram os protagonizados por Giuliano Gemma).

E, enquanto os poderosos viraram vilãos, os índios e os peões mexicanos passaram a ser mostrados como vítimas e heróis. Afinal, vários cineastas italianos tinham inclinações revolucionárias, mas não havia nada revolucionário para destacar nos EUA do século 19.

A solução foi transferir a ação para o efervescente México, como em Quando Explode a Vingança (12), Gringo (13), Reze a Deus e Cave Sua Sepultura (14), Réquiem Para Matar (15), Os Violentos Vão Para o Inferno (16), Companheiros (17),  O Dia da Desforra (18) e Tepepa (19).
Franco Nero como Keoma: de arrepiar!

Toques esquerdistas, sim, eles podiam inserir em filmes cuja ação transcorria nos EUA:
  • o próprio Django (20), no qual os vilões são obviamente inspirados na Ku-Klux-Khan;
  • Quando os Brutos Se Defrontam (21), reflexão sobre a gênese de líderes oportunistas;
  • O Especialista (22), que coloca jovens rebeldes (referência às barricadas francesas de 1968) em ação no Oeste;
  • O Vingador Silencioso (23), denunciando o massacre de Johnson Country, quando centenas de imigrantes eslavos foram dizimados pelos barões de gado do Wyoming – o mesmo episódio histórico que seria depois retratado na superprodução O Portal do Paraíso (24); e
  • o extraordinário Três Homens em Conflito (25), com algumas das mais marcantes seqüências antibelicistas do cinema em todos os tempos.
Uma última característica notável foi libertar a trilha musical da tirania do country. Não mais o que realmente existia nos EUA do século retrasado, como violões, violinos, banjos, gaitas e sanfonas, mas também flauta, saxofone, órgão, sintetizadores, castanholas -- tudo que se harmonizasse com o clima daquela seqüência, pouco importando se tais instrumentos eram encontrados ou não no velho Oeste.

Para completar, o uso criativo de sinos, caixas de música, assobios e outros achados. Morricone é, com certeza, o melhor criador de trilhas musicais de todos os tempos.

Três homens em conflito, para mim o melhor western de todos os tempos.

E as músicas diferentes se casaram às mil maravilhas com as apresentações diferentes dos créditos iniciais, misturando cenas da fita com grafismos. O cinema estadunidense nunca se preocupara muito em valorizar a abertura do filme e levou um banho de criatividade do faroeste italiano,  que adotou esta particularidade como uma espécie de marca registrada. Gosto particularmente da introdução de O dia da desforra, cuja canção-tema é um arraso.

FILMES INESQUECÍVEIS

Quando Explode a Vingança está entre os melhores filmes do Leone. É, na verdade, o segundo da trilogia era uma vez, que inclui Era Uma Vez No Oeste (26) e Era Uma Vez Na América (27). Deveria ter-se chamado Era Uma Vez a Revolução, mas acabou com um título que em italiano significa "abaixe a cabeça" e, nos EUA, "agache-se, otário!".

Na visão do Leone, os verdadeiros heróis da revolução são os anônimos homens do povo, enquanto os líderes acabam sempre traindo a causa -- seja no México (o médico interpretado por Romolo Valli) ou na Irlanda (o dirigente do IRA que é amigo do John/James Coburn).

Foi feito em 1971, quando os movimentos revolucionários pipocavam na Itália, radicalizando-se progressivamente. Parece expressar o desencanto do Leone com o Partido Comunista Italiano e ser um alerta de que as Brigadas Vermelhas e congêneres teriam destino trágico.

Um lance interessante é mostrar de forma totalmente desumanizada o comandante das forças contra-revolucionárias: ele é visto escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, olhando pelo binóculo. Leone não lhe concede sequer a dignidade da fala. De sua forma sutil, expressa o desprezo absoluto que tinha pela direita troglodita.
Thomas Milian e Lee Van Cleef no cult "O Dia da Desforra"
Outra grande sacada do Leone é ressaltar que a História nunca fixa a versão correta dos fatos. A frase que o Irlandês sempre repete, sobre "os grandes e gloriosos heróis da revolução", é um primor de sarcasmo.

* * *

Três Homens em Conflito foi, claramente, o divisor de águas na carreira de Sergio Leone, o momento em que ele mostrou ser muito mais do que um (brilhante) artesão.

Até então, em Por um Punhado de Dólares ele introduzira a figura do anti-herói no centro da trama; a amoralidade básica dos tipos e das situações; a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação; a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.

Depois, em Por Uns Dólares a Mais (28), todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço dos antigos mocinhos.

Depois dos personagens interpretados por Clint Eastwood/Lee Van Cleef em Por Uns Dólares a Mais, tivemos Clint Eastwood/Eli Walash (Três Homens em Conflito), Charles Bronson/Jason Robards (Era Uma Vez no Oeste), Rod Steiger/James Coburn (Quando Explode a Vingança) e Robert De Niro/James Woods (Era Uma Vez na América). Além de Terence Hill/Henry Fonda em Meu Nome É Ninguém (29), um filme concebido por Leone, cuja direção foi creditada ao discípulo Tonino Valerii (mas, dizem, como uma forma de gentileza, pois o teriam dirigido a quatro mãos).

Quando explode a vingança, a magistral parábola revolucionária de Leone.

Aí, finalmente, estava pronto para seu tour-de-forceTrês Homens em Conflito foi a obra em que Leone definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito. É um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques subjacentes.

E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com algumas das seqüências mais comoventes que o cinema já apresentou: o oficial bêbado sem coragem para destruir a ponte, a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura, o jovem soldado agonizante a quem o Estranho Sem Nome dá seu charuto.

Nos três filmes seguintes ele dissecaria a lenda (vinganças) e a realidade (construção da ferrovia) no Velho Oeste; as verdades e mentiras de uma revolução; e a transição da época glamourosa do aventureirismo para a hegemonia insípida das corporações.

Foi o cineasta que conseguiu ir mais longe na proposta de mesclar entretenimento e reflexão, saindo-se tão bem nas bilheterias quanto em termos de qualidade cinematográfica.

* * *

Keoma (30) foi o canto do cisne do western italiano. E encerrou o ciclo com extrema dignidade. Trata-se daquela única obra-prima que, às vezes, um diretor convencional faz na vida, como que para provar que tinha talento para voos maiores.
Gian-Maria Volonté (centro) como bandido mexicano em "Gringo"
O subtexto é riquíssimo:
  • a briga entre os quatro irmãos remete, evidentemente, a Freud e suas teorias sobre a horda primitiva;
  • o nascimento da criança num estábulo é um paralelo bíblico, assim como a crucificação do herói;
  • a presença da velha índia nos momentos culminantes do filme vem da mitologia grega, ela é um tipo de deusa do destino;
  • o herói errante em busca de um desígnio que justifique sua vida também tem inspiração mitológica;
  • a peste se constituiu num elemento bíblico e mitológico ao mesmo tempo, além de estabelecer uma ponte com o escritor Albert Camus (A PesteO Estrangeiro), cujas obras são uma óbvia referência no delineamento do personagem principal;
  • finalmente, Castellari reverencia seus mitos cinematográficos -- Keoma é filho de Shane, o herói protagonizado por Alan Ladd em Os Brutos Também Amam (31), enquanto a presença de Woody Strode no elenco constitui uma homenagem a John Ford, de quem era um dos atores prediletos.
O digno canto do cisne do western italiano: Keoma.

E não foi só Castellari quem se superou, atingindo uma qualidade de que ninguém o suporia capaz. A  dupla de compositores Guido e Maurizio de Angelis fez uma trilha musical extraordinária, capaz de rivalizar com as melhores de Morricone. O contraste do baixo com a soprano chega a nos arrepiar, as letras se casam maravilhosamente com o filme.

Em suma: trata-se de um clássico ainda não reconhecido.

Filmes citados:
  1. Un Dollaro Bucato, 1965, d. Giorgio Ferroni
  2. High Noon, 1952, d. Fred Zinneman
  3. Gunfight at O.K. Corral, 1957, d. John Sturges
  4. The Gunfighter, 1950, d. Henry King
  5. The Bravados, 1958, d. Henry King
  6. The Searchers, 1956, d. John Ford
  7. Gli Ultimi Giorni di Pompei, 1959, creditado, entretanto, a Mario Bonnard
  8. Il Colosso di Rodi, 1961, d. Sergio Leone
  9. Yojimbo, 1961, d. Akira Kurosawa
  10. Per un Pugno di Dollari, 1964
  11. Unforgiven, 1992, d. Clint Eastwood
  12. Giù la Testa, 1971, d. Sergio Leone
  13. El Chuncho, Quién Sabe?, 1967, d. Damiano Damiani
  14. Prega Dio... e scavati la fossa, 1968, d. Edoardo Mulagia
  15. Requiescant, 1967, d. Carlo Lizzani
  16. Il Mercenario, 1968, d. Sergio Corbucci
  17. Vamos a Matar, Compañeros, 1970, d. Sergio Corbucci
  18. La Resa dei Conti, 1966, d. Sergio Sollima
  19. Tepepa,  1969, d. Giulio Petroni
  20. Django, 1966, d. Sergio Corbucci
  21. Faccia a Faccia, 1967, d. Sergio Sollima
  22. Gli Specialisti, 1969, d. Sergio Corbucci
  23. Il Grande Silenzio, 1968, d. Sergio Corbucci
  24. Heaven’s Gate, 1980, d. Michael Cimino
  25. Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966, d. Sergio Leone
  26. C’Era Uma Volta il West, 1968, d. Sergio Leone
  27. Once Upon a Time in América, 1984, d. Sergio Leone
  28. Per Qualche Dollaro in Più, 1965, d. Sergio Leone
  29. Il Mio Nome É Nessuno, 1973, d. Tonino Valerii.
  30. Keoma, 1976, d. Enzo G. Castellari
  31. Shane, 1953, d. George Stevens
Meu Nome É Ninguém, outro clássico com Henry Fonda.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O ADMIRÁVEL CANTO DO CISNE DE UM CICLO QUE VALE A PENA REAVALIARMOS

Keoma (1976) é uma ave rara, única obra-prima da carreira de um diretor que sempre atuou mais como artesão do que como artista criativo, Enzo G. Castellari. É paradoxal que lhe tenha cabido realizar o último grande western italiano, provendo um admirável canto do cisne para o ciclo (saiba mais sobre este interessantíssimo filão, bastante influenciado pela efervescência revolucionária dos anos 60, aqui).

Afora esta moeda que caiu em pé, Castellari é lembrado por um western apenas razoável (Vou, mato e volto, 1967) e pelo fato de seu O expresso blindado da SS nazista (1978) ter inspirado remotamente o Bastardos inglórios do Quentin Tarantino --inclusive, The inglorius bastards havia sido o título dessa fita italiana no mercado estadunidense.

A história é de um mestiço que luta na Guerra Civil dos EUA e, ao voltar para casa, encontra a cidade assolada pela peste e subjugada a veteranos do exército confederado. Os três meios-irmãos, que sempre o hostilizaram, estão integrados na quadrilha.

Keoma (Franco Nero) cruza com uma mulher grávida sendo atormentada por suspeita de estar com a peste (Olga Karlatos) e a salva. O ato gratuito acaba o levando a confrontar todo o bando. Quando ela lhe indaga o porquê de a estar ajudando, ele só responde que "todos têm o direito de nascer".

O subtexto é riquíssimo:
  • a briga entre os quatro irmãos remete a Freud e suas teorias sobre a horda primitiva;
  • o nascimento da criança num estábulo é um paralelo bíblico, assim como a crucificação do herói;
  • a presença da velha índia nos momentos culminantes do filme vem da mitologia grega, ela é um tipo de deusa do destino;
  • o herói errante em busca de um desígnio que justifique sua vida também tem inspiração mitológica;
  • a peste se constituiu num elemento bíblico e mitológico ao mesmo tempo, além de estabelecer uma ponte com o escritor Albert Camus (A PesteO Estrangeiro), cujas obras são uma óbvia referência no delineamento do personagem principal;
  • finalmente, Castellari reverencia seus mitos cinematográficos -- Keoma é filho de  Shane, o herói protagonizado por Alan Ladd em Os Brutos Também Amam, enquanto a presença de Woody Strode no elenco constitui uma homenagem a John Ford, de quem era um dos atores prediletos.
E não foi só Castellari quem se superou, atingindo uma qualidade de que ninguém o suporia capaz. A dupla de compositores Guido e Maurizio de Angelis fez uma trilha musical extraordinária, capaz de rivalizar com as melhores de Ennio Morricone. O contraste do baixo com a soprano chega a nos arrepiar, as letras se casam maravilhosamente com o filme.

Em suma: trata-se de um clássico ainda não reconhecido (embora muitos já o tenham como cult). Só lamento não o poder postar aqui legendado; a dublagem é um substituto dos mais insatisfatórios.

Veja Keoma, na íntegra e dublado em português
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