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quarta-feira, 3 de julho de 2024

PAPEL DO STF NA INSTITUCIONALIDADE BURGUESA

 


O STF é um órgão judicante constitucional, ou seja, é o guardião do espírito da lei contida na carta magna, assim denominada por ser a espinha dorsal de uma região ou país, no que se refere: 

- à sua organização política;  

- à definição dos direitos civis fundamentais; e 

- à natureza e essência da forma e conteúdo da relação de produção social ali estabelecida.  

A nossa constituição federal, assim denominada por ter abrangência de federação de estados membros a ela subordinados, tem natureza republicana burguesa e, portanto, defende a lógica do capital procurando equalizar a relação político-jurídica entre capital e trabalho de modo a que estas duas faces de uma mesma moeda possam pretensamente conviver harmoniosamente.  

Ora, por assim ser, o STF, em sua função institucional, tem caráter eminentemente político-jurídico e processual-constitucional burguês.  

A República - res publica, do latim, coisa pública - que vem sendo aprimorada juridicamente ao longo dos dois últimos séculos mundo afora, divide-se em duas vertentes na questão de forma política, e se unificam na questão de conteúdo. 

As duas formas políticas, com variações no seu interior respectivamente, são: 

- as que se inclinam para o liberalismo clássico, do estado mínimo, sem incumbências sociais mais relevantes, por entender que a “mão invisível do mercado” (Adam Smith) tudo equaliza;  

- e a vertente keynesiana, do estado intervencionista na economia, estrategicamente estatizante, com preocupações sociais que julga indispensáveis a serem patrocinadas pelo Estado.        

A vertente política marxista-leninista-maoista do capitalismo de estado experimentada na Rússia e na China mais não foram do que a exacerbação de uma visão capitalista político-econômica aparentemente sui generis, que se denominou como socialismo real, mais não sendo do que um keynesianismo mais radical.    

Nos casos da Rússia e China, e apenas incialmente, com um estado exclusivamente detentor dos meios de produção com estatutos jurídicos constitucionais próprios de ascensão ao poder político estatal unipartidário que, inevitavelmente, derivou para um capitalismo liberal de mercado por consequência natural da imposição das categorias capitalistas mantidas nestas duas experiências políticas.  

A lógica da forma valor, que consiste na acumulação capitalista, é absolutista  e não admite outro deus a lhe comandar as ações, senão a sua própria função autotélica.   

Na questão de conteúdo, tanto as experiências republicanas burguesas, como as marxista-leninistas remanescentes - Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, e talvez Nicarágua -, identificadas como socialistas, que se pretendem antirrepublicanas burguesas, identificam-se, no conteúdo de suas relações sociais de produção, como produtoras de mercadorias, razão pela qual podemos dizer que todas elas são espécies políticas do gênero capitalismo.   

Nas democracias republicanas burguesas clássicas, as supremas cortes são antenadas com o interesse econômico que dita as ordens para todas as instituições que lhe servem, razão pela qual estas cortes judicantes assumem, principalmente, um papel político na definição daquilo que esteja coadunado com tal interesse.  

Se a constituição é burguesa, todo o pensamento dominante nestas cortes obedece ao desenvolvimento, estabilidade e indução à manutenção constitucional do conjunto da institucionalidade política e econômica burguesa.  

O pé de laranja não dá manga.     

Nos regimes ditatoriais burgueses, as cortes supremas são moldadas ao seu feitio absolutista; nas democracias liberais são moldadas por critérios políticos menos acintosos, mas sem deixar de serem flagrantemente politicistas, uma vez que são escolhidas num filtro político majoritário de indicação dos seus membros. 

No capitalismo, sob a égide do deus valor, quem manda é o capital, e a ordem política é moldada para lhe servir, razão pela qual os poderes executivo, legislativo e judiciário, obedientes à constituição, não têm soberania de vontade e atuam de modo que tudo na sua ordem institucional se processe de modo a lhe dar manutenção e sustentação econômico-financeira, além de indução ao desenvolvimento de tal conteúdo.   

É por isso que quando Bolsonaro, o ignaro, passou a promover manifestações domingueiras temerárias em Brasília, estimuladas pelas suas redes sociais, o chamado gabinete do ódio, nas quais se liam frases como “Abaixo o STF”; “intervenção militar Já”; “AI 5 Já”, e com disparos de rojões contra as sedes dos poderes legislativo e judiciário, a elite brasileira - política, econômica, militar, alguns segmentos de setores religiosos, e o mercado, avesso a incertezas políticas - puseram as suas barbas de molho. 

Antes mesmo das manifestações pró golpe contra a posse de Lula e de golpe no 08 de janeiro de 2023, o mercado e toda a entourage do sistema financeiro e do grande capital industrial e comercial, e até mesmo a cúpula militar, entendeu que era hora de dar um freio nesse embalo considerado de futuro duvidoso capitaneado por um energúmeno militar afastado da caserna por insubordinação corporativa e mentor de um projeto ditatorial num momento de depressão mundial capitalista. 


Foi aí que Lula voltou institucionalmente ao jogo eleitoral como única forma de derrotar o projeto brasileiro de um novo Hugo Chavez absolutista, militar de baixa patente comandando o generalato, e o STF soube muito bem como explorar as falhas técnicas processuais e suas imparcialidades na Operação Lava Jato para tornar nulas as decisões de instâncias anteriores retirando o petista da prisão e reabilitando-o à elegibilidade, ainda que fossem feitas delações premiadas e reapropriadas as devoluções de bilhões de reais recuperados do exterior por conta da corrupção com o dinheiro da União Federal, dito público.   

 Essa talvez tenha sido a mais clara demonstração da intervenção política de uma corte superior, que nesse caso agiu de modo a evitar uma possível guerra civil brasileira, tal fosse o acirramento, que ainda persiste, de um país dividido pela animosidade política irrefletida, mais de um lado, a direita irascível, que do outro, a esquerda institucional socialdemocrata trabalhista. 

Os governos militares de 1964 a 1985, sabedores da função político-jurídica constitucional do STF, desde cedo se incumbiram de manipulá-lo ao seu favor, e na medida que seria melhor do que fechá-lo, como fizeram com o parlamento brasileiro por três vezes, porque era melhor tê-los sob sua tutela do que passar recibo de uma ditadura primitiva - os militares queriam dar um ar de legitimidade por apoio popular e convivência com políticos civis da oposição consentida, porque mantidos de boca fechada sob ameaça de cassação.    

Já no AI-2, de 25 de outubro de 1965, alteraram a composição dos Ministros de STF de 11 para 16 membros, de modo a que pudessem colocar lá os seus pretendidos e obedientes magistrados superiores, e não ficaram por aí: cassaram o mandato de três ministros pela via da aposentadoria compulsória - Evandro Lins, Hermes Lima e Victor Nunes -, sem falar que outros dois ministros abandonaram o  colegiado em protesto contra tais cassações e evidentes restrições ao ato soberano de julgar, Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada.  

A direita golpista brasileira hoje vocifera contra a interveniência do STF na vida política brasileira pelo simples fato de não ter podido colocá-la de joelhos sob seus interesses absolutistas burgueses, impedidos que foram pela elite política e militar brasileira que tem mais sorte do que juízo.  

O problema das instituições burguesas é a decomposição inconciliável dos fundamentos e contradições da lógica do capital em depressão que se explicitam e terminam por minar a credibilidade e aceitação popular dos poderes políticos instituídos, mesmo que o povo não estabeleça a conexão dessas mesmas instituições com a ordem político-econômica subtrativa e segregacionista que sustentam. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

JOSÉ GENOÍNO E OUTROS FIGURÕES DO PT TEMEM QUE O PGR INDICADO POR LULA RESSUSCITE A OPERAÇÃO LAVA JATO

Na semana que vem, o polêmico indicado por Lula para novo procurador geral da República, Paulo Gonet, deverá ser submetido à sabatina no Senado. 

Há nas fileiras do PT um temor generalizado de que se trate de um cavalo de Troia que poderá escancarar as portas do partido para a invasão dos inimigos. 

A extrema-direita exulta, como a deputada bolsonarista Bia Kicis bem expressou:
"Paulo Gonet é conservador raiz, cristão, sua atuação no STF nos processos da Lava Jato foi impecável".
É exatamente aí que mora o perigo, segundo o competente colega Marcelo Godoy, do Estadão, ouviu da boca de José Genoíno, um dos dirigentes históricos do PT:
"A Lava Jato não foi um desvio do Moro, mas uma concepção que fazia da Justiça um instrumento político. Quando se pega um procurador-geral com uma concepção lavajatista, a qualquer momento, dependendo das circunstâncias, pode surgir o fantasma da Lava Jato. Em que momento pode aparecer, não sei, mas que é um problema, é".
Ou seja, as muitas ressalvas internas ao nome de Gonet advêm de seu perfil ser exatamente o oposto daquele que se esperaria de uma escolha do autocrata do PT

Das duas, uma: ou Lula é o gênio que sempre acreditou ser ou não passa de um jenio que novamente vai botar os pés pelas mãos. Seu decepcionante desempenho no primeiro ano do Lula.3 nos faz prever (e temer) a segunda hipótese.

Eu, que sempre considerei o combate à corrupção uma bandeira da direita, cansei de advertir que o flerte com tal punitivismo demagógico, tão estridente quanto inócuo enquanto estivermos sob o jugo do capitalismo, seria desastroso para a esquerda. 

Este artigo dá uma boa ideia das minhas insistentes tentativas de conjurar tal perigo, desde a Operação Satiagraha, uma antecessora da Lava Jato. 

Fui ignorado e o PT pavimentou o caminho para sua derrocada na década passada e consequente volta triunfal da extrema-direita.

Sou teimoso e lancei, contra o atual tiro no pé do Lula, um dos meus artigos mais contundente de 2023: este. Constato agora que até o Genoíno compartilha minha avaliação (quem diria...).

Alguém precisa avisar o
 jenio que ele está flertando com impeachment e até com uma nova temporada em cana

Para piorar, o Lula não leva jeito nenhum de que conseguiria dar nova volta por cima. O tempo passou na janela, só Lulalina não viu... (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 4 de julho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 10: LUTA DE CLASSES NO BRASIL

LUTA DE CLASSES NO BRASIL

 De acordo com o DIESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - em 2013 foram registados cerca de 2050 greves no Brasil, um aumento de 133% com relação a 2012, quando foram registradas 877. Foram 11.1342 horas paradas no país, contra 86.291 um ano antes. 

Esses números mostram o quanto as Jornadas de Junho de 2013 foram um movimento orgânico da classe trabalhadora brasileira que foi às ruas em peso, mas também se mobilizou em seus locais de trabalho. Mais que isso, quando se observa analiticamente as greves do período, é possível ver que a maioria foi feita apesar, e mesmo contra, as lideranças sindicais, reproduzindo o traço de questionamento à política institucional e seus aparatos vistos nas ações de rua. 

Ou seja, na realidade Junho de 2013 se mostrou como uma potente sublevação dos trabalhadores, situação potencialmente revolucionária e momento chave da luta de classes no Brasil. Não à toa, a resposta contrária por parte dos capitalistas, através da mídia, dos governos locais e, sobretudo, do governo lulopetista, foi dura e engenhosa, combinando repressão com cooptação do sentimento popular contra o status quo socioeconômico. 

As justas palavras de Florestan Fernandes, de que o Brasil vive uma contrarrevolução permanente, se faz marcar aqui também, mas com uma mudança qualitativa, pois pela primeira vez na história a burguesia brasileira não simplesmente impôs medidas de repressão ou conduziu a insatisfação para os marcos seguros da institucionalidade. Dessa vez, ela engendrou algo que as burguesias europeias já tinham feito há cem anos: ela mesma se tornou rebelde e líder da revolta popular. 

O nome tradicional desse movimento da burguesia é fascismo. O processo consiste em canalizar a insatisfação popular desviando-a do questionamento à propriedade privada para algum outro alvo - geralmente minorias sociais - e dar respostas moralistas para os problemas socioeconômicos. Mas tudo isso é feito encenando rebeldia contra as instituições apodrecidas e, às vezes, até mesmo contra o capitalismo, de forma genérica. Para dar certo, as lideranças dos movimentos sempre precisam ser outsiders.

O fascismo, contudo, é sempre imperialista e, por isso, um país periférico e subordinado igual o Brasil não pode ter um movimento fascista pleno, mas apenas cópias. Por aqui, nunca aparecerá um Hitler ou um Mussolini, no máximo alguém palidamente parecido com Salazar ou Franco, aliás, foi isso mesmo que aqui se vivenciou com Vargas e os ditadores fardados, desfoques do nazifascismo original. 

Ainda está em aberto o debate sobre a natureza do movimento atual da extrema-direita. Não há dúvidas, porém, das semelhanças com o fascismo do século passado, mas ainda em um grau menor de organicidade e estrutura que aquele. Não existem, por exemplo, milícias paramilitares ou estruturas sindicais, sendo, contudo, provável seu aparecimento futuro, sobretudo com o acirramento da guerra da Ucrânia, onde hoje milhares de neonazistas são abastecidos com armas pela OTAN, algo também existente na Rússia do grupo de inspiração fascista Wagner - batizado com o nome do compositor favorito de Hitler e sempre lembrado pelo tom antissemita de muitas de suas músicas. 

Seja qual for o termo mais adequado, a burguesia brasileira se lançou em nova estratégia contrarrevolucionária em 2013 urdindo o movimento que, na falta de melhor designação, pode ser chamado de bolsonarismo. O centro desse processo ocorreu a partir do alto comando militar que fez leitura atenta e engenhosa da conjuntura. 

Em 2014, quando as ruas ainda queimavam ao redor do país, os generais começaram a abrir as portas dos quartéis para um deputado federal ainda pouco relevante, mas já em meteórica ascensão de popularidade, Jair Bolsonaro. Suas participações em programas de TV e suas polêmicas sobretudo contra a comunidade LGBT, além do discurso moralista, o iam tornando a face mais destacada do movimento direitista. Por fim, seu alijamento do centro do poder o tornava uma figura aparentemente contrária ao sistema, aos poderosos, indo ao encontro dos anseios populares de luta contra o status quo

No mesmo ano, outro movimento importante foi efetuado pela classe dominante brasileira através do surgimento da Operação Lava Jato com o intuito de ser a saneadora da República. A operação condizia perfeitamente com o discurso anticorrupção encampado pela mídia e entregue como pauta aos manifestantes e vinha como uma forma de satisfazer a fúria popular com a política tradicional. 

Na operação, os membros mais débeis da burguesia foram sacrificados. Políticos tradicionais ou mais odiados, à esquerda e à direita, foram limados. Tudo ocorreu como se acontecesse uma espécie de oferenda para aplacar a fúria do povo, ao mesmo tempo em que novos líderes eram forjados a partir da tônica do moralismo. Foi a era dos Tenentistas Togados, em que um Juiz de primeira instância de uma capital secundária do sul, de dentro de seu escritório, concentrava em si todos os poderes da nação em sua caneta. 

Enquanto o bolsonarismo foi predominantemente arquitetado a partir dos militares, a lava jato nasceu das entranhas da mídia burguesa. Os dois movimentos andaram de forma paralela e se retroalimentaram no período, com Bolsonaro frequentando ambientes midiáticos e os togados sendo recebidos pela milicada país afora. A culminância viria a ser o Impeachment de Dilma, período em que a aliança entre os dois se aprofundou e praticamente se tornou uma coisa só. Assim continuaria até o começo do governo Bolsonaro, quando a ambição togada incomodou o ex-presidente fujão e a aliança foi dissolvida.  

De qualquer forma, os dois movimentos de extrema-direita cumpriram importante função para a burguesia brasileira no período posterior a Junho de 2013, pois, cada qual a seu modo, conseguiram canalizar a insatisfação popular para uma forma reacionária de rebelião, puramente performática e cirúrgica, dando à burguesia um respiro em um contexto de forte assédio popular. Ao mesmo tempo, a institucionalidade política pode se reorganizar durante o período, voltando em 2022 com um pacto renovado, posando de salvacionista diante das atrocidades da extrema-direita, quando, na realidade, é apenas o velho mofo retrógrado. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE VERDE E AMARELO

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA


sábado, 17 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 7: O LEVANTE NACIONAL



O LEVANTE NACIONAL 


 Após o massacre perpetrado pelas forças policiais de São Paulo na quinta-feira, dia 13 de Junho, a população brasileira se indignou profundamente e manifestações começaram a ser convocadas em todo país. 

Dia 17 de Junho de 2013 pode ser considerada a data chave para as manifestações em nível nacional. Naquele dia, milhões de pessoas tomaram as ruas das grandes, médias e pequenas cidades para mostrar seu descontentamento com a ação arbitrária contra os manifestantes de São Paulo e demandar melhores condições de vida. A contagem da mídia e das autoridades é enviesada, pois apenas metrópoles como Belo Horizonte e Rio de Janeiro contaram com número superiores aos cem mil nas ruas.

Em Brasília, a cúpula exterior do Congresso Nacional é tomada por milhares de manifestantes. Ao contrário do 8 de janeiro de 2023, os manifestantes não depredaram a sede do poder legislativo, mesmo estando em número milhares de vezes maior que os pouquíssimos gatos pingados bolsonaristas. Lá subiram pacificamente, com cartazes e palavras de ordem em uma forma clara de exigir da classe política nacional o cumprimento de suas demandas. 

Em todas as capitais, grandes manifestações são registradas, com milhares e até milhões de pessoas tomando os logradouros públicos. De acordo com pesquisas da época, a maioria esmagadora - cerca de 70% - dos manifestantes tinha entre 15 e 25 anos, ou seja, eram adolescentes e jovens mostrando sua insatisfação. Importante notar o quanto esse quadro é destoante do que viriam a ser as manifestações direitistas, formadas majoritariamente por pessoas de meia idade - por volta de 45 anos - e mesmo os atos bolsonaristas, dominados pela terceira idade. É como se a juventude estivesse lutando pela mudança e a velha guarda estivesse na reação, se posicionando pelo antiquado. 

Esse quadro etário também desmente a propaganda lulopetista de que os manifestantes de Junho de 2013 eram fascistas ou foram a base para o bolsonarismo. Na realidade, aqueles manifestantes foram dramaticamente derrotados pelo governo Dilma, dando passagem à tomada da dianteira da insatisfação popular pela direita fascistóide. 

A principal característica de todas as manifestações ao redor do país era a aspiração pelo cumprimento das promessas inscritas na Constituição de 1988, ou seja, a plena execução dos direitos cidadãos à saúde e à educação, sobretudo. Contudo, implicitamente havia um ultimato ao próprio capitalismo brasileiro, pois as demandas populares só poderiam ser cumpridas se viesse abaixo o Pacto urdido na República Nova e fossem feitas reformas profundas na estrutura social e econômica do país. 

Enquanto portador maior do Pacto conservador, o lulopetismo não titubeou: assumiu o lado da burguesia e descambou forte campanha criminalizadora contra os manifestantes, além de fazer todos os esforços em apoiar a repressão. Dilma colocou nas ruas do país tropas do Exército e da Força Nacional de Segurança a fim de cooperar no esforço dos governos locais em conter a revolta.

Ao mesmo tempo, soou o alarme da classe capitalista brasileira através de sua mídia. Tendo a princípio assumido o discurso repressor, a imprensa burguesa mudou de tática diante do crescimento contínuo dos atos. Ao invés de simples condenar os atos, ela passou a usar dois métodos: por um lado, começaram a separar os manifestantes entre os bons - ordeiros, pacíficos - e os maus - baderneiros, vândalos infiltrados; de outro, passou a disputar a pauta das manifestações, trazendo a temática da luta contra a corrupção e colocando as questões econômicas e sociais em segundo plano.

Na época, se discutia no Congresso Nacional a PEC 37, um projeto de lei que visava ampliar o controle externo do Ministério Público. Nas manifestações ninguém havia elegido a luta contra a referida PEC uma pauta importante, pois era um assunto pouquíssimo debatido, mas acabou se tornando, para a mídia, a principal bandeira a ser entregue aos manifestantes. Assim, a luta moralista tomava o lugar da luta social, um prenúncio do processo vindouro da lava jato. 

Sintomático desse processo de mudança tática da mídia é o papelão desempenhado pelo medíocre Arnaldo Jabor. Cumprindo fielmente o script determinado por seus patrões da Globo, em primeiro lugar ele aparece em vídeo atacando os manifestantes e se perguntando se toda aquela violência era mesmo por 20 centavos. Posteriormente, diante da nova tática, se retifica e passa a defender as manifestações, mas com a pauta anticorrupção. 

Ou seja, se uniram na luta contra os levantes populares o lulopetismo, através de sua militância e do governo Dilma, e a mídia burguesa. À burguesia ficou claro que o lulismo não tinha mais o controle das massas e que agora era preciso reconstruir um processo de dominação e controle do povo. Esse processo, a rigor, começou ali com as pautas vazias anticorrupção e continuou nos anos seguintes até se cristalizar com o bolsonarismo, embora esse tenha se mostrado incontrolável por demais. 

A rigor, a mídia criou o ideário, disseminado até hoje, de que os manifestantes não possuíam pautas claras, de que os atos eram dispersos e sem foco, implicando implicitamente que apenas a pauta anticorrupção, introduzida por ela, teria validade. Na realidade, os atos questionavam de forma radical e muito bem estruturada toda a lógica excludente do capitalismo, em particular o modo como esse se configura no Brasil. 

De qualquer forma, naquela semana do dia 19 de Junho o Brasil começava um período crítico de possibilidades revolucionárias, tendo todas o país ficado em suspenso. Viveram-se ali aqueles períodos únicos na história em que tudo de sólido se desmanchava e em que tudo era possível de acontecer enquanto a história se acelerava bem diante de todos. (por David Emanuel Coelho) 



LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 


quinta-feira, 18 de maio de 2023

A VEZ DE DELTAN JÁ CHEGOU, A DE MORO CHEGARÁ EM BREVE

 


A
cassação de Deltan Dallagnol é mais um capítulo do processo de ostracismo que vem sendo imposto aos ex-membros da outrora poderosa operação Lava Jato, responsável por abalar os pilares da podre República brasileira entre os anos de 2014 e 2018.

Os chamados Tenentistas Togados espalharam o terror nas hostes políticas nacionais, atacando a tudo e a todos. Inicialmente, pareciam seguir a cartilha do Mensalão, focando o discurso da  moralidade contra o governo petista, particularmente contra Lula, e por isso ganharam incondicional apoio da mídia e das altas instâncias do Judiciário. Gilmar Mendes, por exemplo, hoje grande inimigo dos lavajatistas, foi um entusiasmado apoiador de primeira hora da trupe. 

Logo porém os tenentistas mostraram possuírem seu próprio programa político e começaram a estender investigações e devassas para todos os partidos e para todo o espectro do sistema. O objetivo não era apenas derrubar o lulopetismo, mas fazer vir a baixo toda a República, abrindo caminho para outra coisa mais assemelhada a um estado policialesco. Enquanto vigorou a aliança tática com o tucanato e a burguesia para viabilizar o Impeachment de Dilma, a corda dos togados foi sendo alongada, mas tendo se obtida a retirada da ex-presidente e, sobretudo, com a saída de cena de Lula, devido à sua prisão, as coisas começaram a desandar e o lavajatismo foi sendo paulatinamente minado. 

A vitória de Bolsonaro em 2018 foi vista pelo establishment como efeito colateral do lavajatistismo graças ao seu discurso moralista e de crítica radical ao sistema político da República Nova. O plano era a vitória de Alckimin e o retorno do tucanato ao poder após quase 20 anos longe da rapadura, mas o ex-presidente fujão acabou faturando dentro da falência generalizada do sistema. A ida de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça apenas evidenciou a íntima conexão entre a Lava Jato e a extrema-direita.

Foi sob a tutela de Bozo e de Moro que a Lava Jato começou a ser ostracizada. Já tendo cumprido seu objetivo de arruinar o lulopetismo e sob pressão dos políticos tradicionais - que condicionaram apoio ao governo em troca do desmonte da operação -, as investigações foram rareando e a autonomia da chamada República de Curitiba foi sendo podada. Em 2019, a Vaza Jato expôs os intestinos nada republicanos do grupo, demonstrando claramente o conluio existente entre MPF e Sérgio Moro e o quanto esse último era de fato o chefe do processo investigativo e não apenas um neutro juiz. 

Já no final daquele ano Lula era libertado e algum tempo depois teria seus processos anulados pelo STF. Estava montado o palco final do grande acordo nacional, com supremo, com tudo, nas imortais palavras de Romero Jucá, em que o petista seria a última salvação para o establishment impedir o bolsonarismo de engolir todas as instituições nacionais e ser definitivamente varrido do mapa. 

Para os outrora heróis da Lava Jato o cenário agora era difícil. A maré virara e tinham feito inimigos para todos os lados, até mesmo com o próprio Bolsonaro, insatisfeito com as pretensões eleitorais de Moro. Esse abandona o governo acreditando na miragem de que seria candidato de uma suposta terceira via, nunca concretizada. Sem viabilidade presidencial, se agarra em um cargo de senador para ter imunidade e renda. 

Deltan fareja o mesmo contexto difícil e o MPF, sob a tutela de Augusto Aras, inicia processo disciplinar contra ele. Para escapar, se demite do cargo do Ministério Público e, mesmo contrariando a Lei da Ficha Limpa, se lança candidato a deputado federal, conseguindo a vitória com tranquilidade. 

No entanto, os tempos são outros e hoje o lavajatismo não possui mais nenhum poder para levar adiante qualquer ação política. A presença de seus membros no legislativo tem muito mais o papel de blindagem e salvaguarda financeira que o de avanço em um programa reformista. Não interessa mais à burguesia nacional e à plutocracia reviver os dias jacobinistas do Tenentismo Togado. Como resultado, deixam seus antigos vassalos entregues à sanha da miríade de inimigos que fizeram por todo lado naquela época. 

Fosse possível sintetizar com uma só palavra a situação de Moro e Dallagnol neste momento e essa seria solidão. Tendo aberto múltiplos flancos de batalha, pois acreditavam estar fazendo desmoronar todo o sistema, fizeram centenas de inimigos, mas quase nenhum aliado. A conta está chegando e não parará de chegar tão cedo. (por David Emanuel Coelho) 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

RELAÇÃO COM ROBERTO TEIXEIRA PREJUDICA A IMAGEM DO LULA DE NOVO

O tal Roberto Teixeira é um óbvio
calcanhar de Aquiles do Lula
Notícia de Marcelo Godoy e Luiz Vassallo, publicada n'O Estado de S. Paulo, desta 5ª feira (16), trombeteia que Justiça decreta sequestro de bens do PCC e do contador ligado a Lula. Eis os parágrafos principais:
"...a Justiça estadual de São Paulo determinou o bloqueio de R$ 45 milhões em imóveis e ônibus de integrantes do PCC e do contador João Muniz Leite, que foi responsável pelo Imposto de Renda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, até hoje, cuida da contabilidade e divide sala com empresas do filho do petista, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

...O ex-presidente Lula não é alvo da investigação. Muniz é contador da família do ex-presidente até os dias atuais. Levam o logo da JML Assessoria Contábil e Fiscal os documentos de cadastro (...) da mais recente empresa criada por Lulinha, a LLF Tech Participações, sediada no apartamento onde o filho do ex-presidente reside. 
O imóvel está em nome do empresário Jonas Suassuna, que foi sócio de Lulinha e proprietário formal do sítio Santa Bárbara, em Atibaia, propriedade em razão da qual Lula foi processado na Lava Jato".
A Folha de S. Paulo, por meio dos repórteres Rogério Pagnan e Victoria Azevedo, acrescentou detalhes ao furo do jornalão concorrente, como este:
"Em seu depoimento a [Sérgio] Moro [na Operação Lava Jato], o contador disse ter sido responsável pelas declarações de renda de Lula, a pedido do advogado Roberto Teixeira, compadre do ex-presidente, de 2011 a 2015".
Ou seja, trata-se de mais um fruto podre da relação de Lula com Roberto Teixeira, confirmando meu alerta de 25 ANOS ATRÁS (!!!).

Foi quando enfatizei, em artigo publicado no Jornal da Tarde (SP), que, ao não expulsar Teixeira como corruptor, mas expulsando um militante honesto que denunciou suas falcatruas, o PT sinalizava um liberou geral para as práticas viciadas da política convencional alastrarem-se por suas fileiras.

Ou seja, se a cúpula do partido tivesse levado a sério minha advertência, não teriam existido mensalãopetrolão e outros escândalos que ainda hoje vêm a público, fornecendo trunfos valiosos para os tucanos no passado e os bolsonaristas no presente. Quem estava certo?
.
PT EXPULSA PT – Foi a insistência de Lula em manter o Roberto Teixeira dentro do PT que determinou uma das decisões mais infames tomada pelo partido no século passado: a expulsão de Paulo de Tarso Venceslau, veterano do movimento universitário e da resistência à ditadura (foi da ALN), militante dos mais honestos e dignos, tão identificado com o partido que era chamado carinhosamente de PT Venceslau.

Tal economista foi a única voz no partido a protestar contra o primeiro grande esquema de desvio de recursos públicos para financiamento partidário, por meio de uma firma chamada CPEM.

Tendo sido secretário das finanças de duas prefeituras do PT no interior paulista, em ambas ele resistira às pressões para contratar a CPEM ou para pagar-lhe valores exorbitantes por serviços não prestados, acabando por ser exonerado da última delas, a de São José dos Campos.

Depois de dois anos de denúncias infrutíferas aos dirigentes máximos do partido, Venceslau tornou público o favorecimento escuso à CPEM em entrevista ao
 Jornal da Tarde (SP).

Como resposta ao escândalo, o PT submeteu o assunto a uma Comissão Especial de Investigação presidida por Hélio Bicudo, cuja salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa; e o Roberto Teixeira, titular da CPEM, deveria ser julgado por corrupção.
Para preservar o Teixeira, o PT
perdeu o Bicudo. Compensou?
Vale a pena lembrar o que concluiu a Comissão a respeito do segundo, em relatório assinado por Bicudo, Paul Singer e José Eduardo Cardozo:
 
"...parece provável que ROBERTO TEIXEIRA possa ter se valido, de forma pouco ética, da amizade com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, para não só se omitir face ao dever de informar e acautelar em relação à CPEM como também para desqualificar denúncias contra a mesma. 
No caso presente, parece ser difícil descartar a hipótese de que ROBERTO TEIXEIRA tenha cometido ‘abuso de confiança’ com ‘aproveitamento das relações de amizade’ que mantém com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Entre a defesa da empresa que gerou renda para seu irmão e presumivelmente para si e o interesse público e partidário, ROBERTO TEIXEIRA optou pela primeira. No âmbito desta opção deve ser, portanto, avaliado em sua conduta. 
Assim sendo, a presente Comissão de Investigação não pode deixar de concluir que a presumível conduta de ROBERTO TEIXEIRA, na conformidade do que acima se relatou, não se coadunaria com os rígidos padrões éticos que devem orientar as condutas dos militantes do PARTIDO DOS TRABALHADORES. Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis. 
É, portanto, dentro desta dimensão que esta Comissão sugerirá ao final deste Relatório à Executiva Nacional do PT a abertura de processo ético-disciplinar contra o militante ROBERTO TEIXEIRA pela prática de grave conduta a ser avaliada e julgada, após regular direito ao contraditório e ampla defesa, pelo órgão partidário competente".
O companheiro Venceslau, outro símbolo do PT idealista.
Lula ameaçou desfiliar-se do PT caso fosse instaurado tal procedimento contra Teixeira – que era seu compadre e lhe fornecia um apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo para morar de graça com sua família .

A direção partidária optou, então, por desconsiderar o parecer da Comissão, expulsando Venceslau e aliviando para Teixeira. Foi o instante em que se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar e revolucionário para preservar uma maçã podre

Segundo Venceslau, o tal Teixeira teria sido, inclusive, "torturador do delegado Fleury". 

Tudo que de ruim aconteceria depois foi consequência dessa terrível decisão. Orgulho-me de haver me solidarizado a Venceslau, antecipando que o partido tendia ao desvirtuamento, no artigo PT expulsa PT – que o Jornal da Tarde então publicou com destaque na sua página de Opinião,

Faço questão de reproduzir um trecho do meu artigo de então, desagravando o companheiro injustiçado (ele mereceu isto e muito mais!). 
"Poucos no Brasil levam suas convicções às últimas consequências, como Paulo de Tarso. Ele correu todos os riscos em nome de princípios que acreditava serem compartilhados por seus companheiros. Terão eles a coragem de manter-se fiéis a esses princípios? Cada um, ao definir sua atitude em relação a Paulo de Tarso, estará definindo quem é e o quanto vale"
Depois daquele episódio de 1997/78, o nome de Teixeira reapareceria no noticiário político-policial:
— em 2006, quando era advogado da Brasil Telecom e foi convocado para depor na CPI dos Bingos (ele admitiu conhecer Daniel Dantas, mas se disse impedido de dar mais detalhes por haver cláusula de confidencialidade). 
— em 2017, quando se tornou réu da Operação Lava jato, após ser citado nas delações premiadas da Odebrecht; e
— em 2020, quando a Polícia Federal investigou tráfico de influência no STJ e no TSU, com desvio de recursos públicos do Sistema S e foram tornados réus dois advogados do Lula, Cristiano Zanin e ele próprio, Roberto Teixeira, acusados de liderar o esquema.

Para não perder o hábito, ei-lo novamente na origem do noticiário adverso ao Lula, e isto num momento dos mais importantes... (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O MITO JAIR BOLSONARO E O MICO DANIEL SILVEIRA: CARA DE UM, FOCINHO DO OUTRO

Parafraseando o poeta Marcus Accioly, em se tratando desses dois eu sou sincero: 1+1=0
ricardo kotscho
O TENENTE DAS BOMBAS E O SOLDADO
 MILICIANO: COMO ELES PUDERAM SER ELEITOS? 
A que ponto chegamos", lamenta Merval Pereira em sua coluna no Globo, desconsolado com os rumos do país. 

Para entender como chegamos até aqui, caro colega, bastaria pegar o currículo, ou melhor, o prontuário de dois personagens que se cruzaram nas eleições de 2018, e analisar a nossa responsabilidade como jornalistas nesta história, que começa na Lava Jato, passa pelo Alto Comando do Exército e desemboca nas ameaças ao Supremo Tribunal Federal. 

Ambos abandonaram as fardas para se tornar políticos, depois de serem processados e presos por suas corporações
Foram candidatos pelo PSL, um partido nanico de aluguel, que lhes ofereceu a legenda, assim como a muitos outros policiais e militares eleitos na onda conservadora da chegada pelo voto da extrema-direita ao poder. 

Por isso, urge criar antes das próximas eleições uma cláusula de barreira para exigir dos candidatos a apresentação do atestado de antecedentes e de um exame de sanidade mental. 

Falo, é claro, do presidente Jair Bolsonaro e do deputado federal Daniel Silveira, dois personagens emblemáticos destes tempos de insânia, idiotia, cólera e demência, que colocam em risco a nossa democracia. 

A falta dessas exigências básicas para o exercício de um mandato popular ajuda a explicar como chegamos até aqui, em meio a mais uma crise institucional que paralisa o país, já assolado pela pandemia e a falta de vacinas. 

Como eles puderam ser eleitos? 

O tenente Bolsonaro foi processado no Superior Tribunal Militar por vários delitos graves, ao planejar atentados a bomba a quartéis e à estação de abastecimento de água do Rio de Janeiro, para reivindicar aumento de salários da tropa.  

Punido com alguns dias de prisão, acabou sendo absolvido no STM e reformado como capitão, aos 33 anos, para se candidatar a vereador e iniciar sua carreira política.

O soldado da PM Daniel Silveira, que usava a sua página no Facebook para atacar líderes religiosos e a imprensa, tem um robusto prontuário em que constam 26 dias de prisão, 54 de detenção e 14 repreensões por atos de desobediência e falta ao trabalho. 

Em 2018, seguiu a mesma trajetória de Bolsonaro e se elegeu deputado federal, com 31 mil votos, depois de rasgar uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, fuzilada por milicianos, também ex-PMs. 

A Polícia Militar do Rio, na qual a família Bolsonaro recrutou assessores para seus gabinetes, é a maior fornecedora de mão-de-obra para as milícias cariocas. 

Daniel Silveira pode até não ter carteirinha de miliciano, mas revela no seu comportamento o mesmo vocabulário grosseiro e métodos violentos e cafajestes dos ex-colegas de farda, que trocaram a segurança pública pelo crime organizado (e foram protestar contra a sua prisão diante da carceragem da Polícia Federal, no Rio, onde está detido). 

Esse é o caldo de cultura onde vicejou o bolsonarismo-raiz, bem retratado nos filmes Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, com roteiro de Bráulio Mantovani, que termina com um sobrevoo de Brasília, para mostrar numa cena premonitória onde eles poderiam chegar. 

Até desfechar num vídeo inenarrável o violento ataque verbal ao STF, onde é investigado por participação em atos antidemocráticos, Daniel Silveira fazia parte da tropa de choque do presidente Bolsonaro no Congresso, era um dos seus homens de confiança.   
O deputado bolsonarista quando não está preso...
Como dizia o costureiro e ex-deputado Clodovil, boi preto conhece boi preto.

Até o momento em que escrevo, o presidente Bolsonaro ainda não havia saído em defesa do correligionário, depois de o pleno do STF chancelar a prisão de Silveira por 11 a 0, algo muito raro na Corte.

Assim como seu líder, o ex-PM, legítimo cidadão de bem, resolveu testar os limites das instituições. Perdeu. 

A pergunta não deveria ser o que ele fará agora, mas como um meliante com esse perfil pode chegar à Câmara dos Deputados? 

Se a cláusula de barreira para candidatos já estivesse em vigor, e as instituições realmente funcionassem, Daniel Silveira seria apenas mais um miliciano aloprado, e Jair Bolsonaro jamais chegaria à Presidência da República.  
O deputado bolsonarista quando vai responder a seus processos
Agora, não adianta ficar indignado com as confissões do general Villas Bôas sobre a participação do Alto Comando do Exército na operação golpista para impedir Lula de ser candidato em 2018.

Os eleitores poderiam não saber quem era o mito, mas os jornalistas e o comandante do Exército tinham obrigação de conhecer seu currículo. 

Pois foram eles, junto com a Lava Jato de Sergio Moro, os responsáveis por abrir o caminho para a eleição do tenente terrorista que, na garupa dele, levou os militares de volta ao poder. 

Só falta saber agora quem será capaz de mandá-los de volta aos quartéis. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
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