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terça-feira, 20 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 8: DILMA NO LABIRINTO

 

DILMA NO LABIRINTO 


Dilma nunca foi uma grande presidente. Já tinham ficado para trás seus anos de guerrilheira quando ela foi tirada da cartola por Lula para sucede-lo na Presidência da República. Naquele momento, ela era muito mais lembrada por seu papel de burocrata, por ter alijado Marina Silva do governo - em uma queda de braço por Belo Monte - e por ser a Mãe do PAC, o fracassado programa de obras públicas urdido no segundo governo Lula. 

Nunca havia ocupado cargo eletivo e tão pouco possuía raízes profundas no PT. Após os sucessivos escândalos dos dois governos de Lula, os nomes da alta cúpula do partido haviam se queimado um após o outro, notoriamente José Dirceu, José Genoíno e Antônio Palocci. Com isso, o atual presidente se viu fortalecido dentro da agremiação e, decidido a prosseguir com a mão no leme, escolhe uma sucessora sem brilho próprio. 

Com o trunfo de ser a primeira mulher a chegar à presidência, Dilma buscou mostrar no início de seu governo que não era um simples poste lulista, mas possuía vida própria e, sobretudo, ideias próprias. Logo de saída tratou de exumar o nacional-desenvolvimentismo de seu ocaso de mais de décadas, para isso recorrendo a medidas artificiais, como isenção fiscal e baixa de juros. Sem base econômica e social para levar adiante o projeto, seu plano acabou sucumbindo. 

Pela Copa, ela se unia a companhias nada
recomendadas. 

Muito se atribui a crise econômica da década passada às ações da ex-presidente. Contudo, tal diagnóstico é superficial, pois não leva em conta os efeitos da crise de 2008 no Brasil. Deflagrada nos EUA, a crise logo se alastrou aos países da Europa e do Oriente Médio, nesses últimos devido, sobretudo, à brutal queda no consumo estadunidense do Petróleo, fato responsável por desencadear a Primavera Árabe entre os anos de 2010 e 2013. 

Na América Latina, os efeitos da depressão a princípio não foram sentidos em toda a sua força graças ao fator China: esse país desacelerou seu crescimento econômico no período, mas ainda manteve taxas elevadas, as quais, contudo, foram decrescendo ano após ano. Assim, por exemplo, em 2011, primeiro ano de Dilma no poder, a China cresceu 9,55%, já em 2016, ano do impeachment, o crescimento foi de 6,85%. Essa mudança na economia chinesa é importante a se considerar porque desde a década de 2000 esse país passou a ser o principal destino dos produtos agrominerais brasileiros, tendo sido graças à sua voracidade que o segundo governo Lula pode contar com uma entrada maciça de dólares, garantindo redução no custo de vida no período e relativa ascensão social. 

Mesma lógica é vista no caso do Minério de Ferro, um dos principais produtos de exportação do Brasil. Em 2010, a tonelada era vendida a 163 dólares. Na época do Impeachment havia baixado a 55 dólares. Ou seja, ocorreu forte recuo da quantidade de entrada de dólares no país pela mesma quantidade produtiva. Dito de outra forma, o país empobreceu e, sem dólares suficientes em um contexto de super dependência da importação de bens industrializados, o custo de vida acelerou. 

Na realidade, a ex-presidente sentiu em seu mandato os efeitos da crise, somados ao acúmulo das contradições de décadas do modelo econômico e social do país. Lamentavelmente, tudo foi explodir justamente quando no poder se encontrava alguém tão inábil politicamente quanto a Dilma, pois suas ações também foram absolutamente desastradas.

Era possível mesmo que isso desse certo?

A princípio, diante da convulsão nacional, ela se calou. Limitou-se a operar no plano repressivo, longe dos holofotes, enviando forças militares e policiais para ajudar os Estados no processo de combate aos manifestantes. À medida que a situação crescia exponencialmente, confabulou com seu grupo mais privativo do poder - o único ao qual ela recorria com frequência em seus três anos de governo - e resolveu lançar 5 Pactos:

Responsabilidade Fiscal

Reforma Política

Transporte Público

Saúde 

Educação

De modo sintomático, os pactos se iniciaram com a preservação do sistema econômico urdido pelo plano real e sua necessidade de austeridade fiscal. De fato, ao colocar esse ponto como o principal, Dilma praticamente anulava os três últimos, pois seria impossível - como de fato se mostrou - cumprir qualquer demanda de melhoria nos transportes, na saúde ou na educação preservando o modelo neoliberal em vigor no país. 

Restava, portanto, apenas o segundo pacto, de reforma política. Espertamente, a ex-Gerenta lançava mão do mesmo mecanismo politicista já usado no Brasil desde o fim da ditadura, o de conduzir as insatisfações populares das ruas para o terreno seguro da institucionalidade. Lendo corretamente a falência do sistema político nacional, o lulopetismo apostava em sua reformulação para acalmar a ira do povo. Desse modo, sairiam de cena as demandas sociais e econômicas e ficaria apenas a questão política.

Encaixotada pelo Pacto Conservador,
Dilma tentava seguir a mesma lógica de sucesso
de Lula. 

Em resumo, Dilma deixava intocado o modelo econômico do país e oferecia em troca uma possível oxigenação do modelo político. Seria uma forma de rearranjar a estrutura de dominação no país, substituindo a carcomida República Nova por outra coisa. 

O que teria saído daí, jamais saberemos, pois a proposta dela foi de fazer uma reforma por intermédio de uma Assembleia Constituinte Exclusiva, que trataria unicamente da reforma política. Tão rápido quanto ratos emergindo do esgoto, contudo, todo o banditismo da política nacional se uniu contra a proposta e fez terrível pressão para que o plano fosse abandonado, o que Dilma logo assentiu, pateticamente. A ideia da Assembleia foi substituída por um projeto de lei para logo em seguida cair no esquecimento. 

Assim, sem reformas sociais ou políticas, Dilma passou a viver em um limbo. Não tinha nada a oferecer aos manifestantes e também havia se tornado definitivamente detestada entre a turba da política institucional. Ainda conseguiria vencer as eleições de 2014, graças a mentiras e ao resto de apoio popular, sobretudo no Nordeste, mas não resistiu ao Impeachment após praticar flagrante estelionato eleitoral contra os trabalhadores.

A rigor, as ações de Dilma durante as Jornadas de 2013 são expressão cabal do próprio movimento do lulopetismo. Diante da insurreição popular, se compôs inequivocamente com a burguesia nacional na preservação do status quo econômico e social, mas, ao mesmo tempo, tentou estabelecer outro processo de conciliação de classes pela via da reforma política. Ao fim, fracassou na recomposição do processo conciliatório e deixou nas massas, de forma indelével, a marca da traição. Como resultado, o lulopetismo perdeu por completo o apoio da classe trabalhadora urbana, das grandes metrópoles, resultando na quase derrota de 2014, no desastre de 2018 e na vitória na bacia das almas de 2022.

Sem nenhuma surpresa, as duas criaturas de Lula
foram dois completos desastres. 

Medíocre, truculenta, inexperiente e encaixotada pela camisa de força do Pacto conservador pós-ditadura, Dilma não pôde dar respostas ao movimento insurrecional surgido no país. Sua visão tecnocrata não lhe permitia admitir que a mobilização popular pudesse ser canal de mudanças. Acabou tendo um fim trágico e hoje é mantida pelo lulopetismo apenas pela força da conveniência, igual se mantém uma parente inconveniente unicamente por força dos laços familiares. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

DE OLAVO A BOZO, O CRESCIMENTO DA EXTREMA-DIREITA DEPENDE DA CRISE DO CAPITAL

 


grevo de vergere

Alguns centavos sobre essa loucura toda 

(trechos selecionados)

Olavo de Carvalho foi sem sombra de dúvidas o parteiro da nova direita brasileira, em suas diversas expressões. Influenciou até aqueles que, logo em seguida, romperiam com ele. No Orkut, comunidades oficiais e comunidades o sacaneando coexistiam, movimentando os mesmos participantes de diferentes idades, ideologias, críticos ou apoiadores seus e do Mídia sem Máscara - portal de notícias do qual foi fundador. 

Algumas dessas comunidades que giravam em torno da figura do Olavo, seja na defesa, seja no hate, acabaram se tornando fóruns de discussões sobre diversos autores e temas indicados pelo Olavo em suas aulas. Papos esotéricos e iniciáticos e debates em torno do tradicionalismo, guenonismo, Dugin, etc. começaram a se desenvolver e pode-se dizer que um neotradicionalismo começa a surgir daí, muitos destes temas ligados ao Olavo dos anos 80, esotérico, ocultista, tradicionalista, participante da Tariqa de Frithjof Schuon — o que o próprio Olavo chama de seu período de aprendizado, que terminaria com uma ruptura que inauguraria o Olavo tal como conhecemos — católico, conservador e defensor dos valores americanos. 

Tinha Olavo razão?
Nessas comunidades coexistiam liberais como o Rodrigo Constantino - na época um hater de Olavo que refez as pazes com seu mestre há poucos anos atrás e que atualmente se parece cada vez mais com o falecido - e alguns moleques que quase uma década depois participariam da formação do MBL, simpatizantes de Dugin, René Guenon e Julius Evola, olavistas, integralistas, libertarianos, sociais-democratas e até alguns comunistas e anarquistas.

Alguns participantes das comunidades em torno de Olavo, principalmente os que se articulariam em torno da criação de eventos sobre o pensamento de Julius Evola, apelidam esse campo de Dissidência Tradicionalista, ou apenas Dissidência — chamarei de neotradicionalismo. Grupos como o Frente Sol da Pátria e Nova Resistência são expoentes desse neotradicionalismo e mobilizam ideias e símbolos tanto de direita como de esquerda. Alguns olavistas chegaram a frequentar os Evolianos, embora o olavismo de fato tenha se desenvolvido longe dali.

 Com a aproximação dos neotradicionalistas das teorias duginistas, não durou até a comunidade articular um debate entre Olavo e Dugin, que foi posteriormente publicado em livro mas pode ser encontrado em blog na internet. Com o flerte dos neotradicionalistas brasileiros — dentre eles alguns de seus alunos — com o pensamento de Dugin, Olavo só podia os considerar guenonistas de botequim. E segue: 

"se você não é capaz de aguentar a solidão de ver as tradições espirituais serem todas destruídas, tudo sendo destruído por um materialismo grosso, você não é de nada, você é um fracote, você é um bosta. Um homem espiritual de verdade não conta com as forças deste mundo, não precisa ter um movimento eurasiano pelas costas. Conta apenas com Deus e sabe que mesmo que esteja sozinho ele vai vencer a parada" 

Ou seja, um guardador das tradições, um homem espiritual não se aventura em política, se mantém como um centro intelectual, um ponto de ligação entre o velho e o novo, entre a destruição e a criação, uma testemunha do fim do mundo. Os conselhos de Olavo para seus alunos não podiam ser diferentes: 

“Se você está assoberbado de problemas, dívidas, doenças, dramas de família, despreze tudo e se concentre ainda mais nos estudos e na oração. Enquanto tudo em volta desaba, você vai ficando dia a dia mais forte. Quem dura mais, vence. É só isso”.

 Ao contrário dos neotradicionalistas ou dos liberais, o olavismo responde a uma única figura, o próprio Olavo. Nesse sentido, é de se notar que o olavismo cresceu bastante com a popularização dos vídeos do Olavo no YouTube xingando e apelidando seus desafetos políticos, citando casos insanos do uso de células de fetos abortados como adoçante na produção da Pepsi, denuncias infindáveis ao Foro de São Paulo, ao movimento antitabagista e à implantação do comunismo no Brasil, negações da física newtoniana, etc. Tudo isso regado à metafísica e citação de autores obscuros que só ele leu - se é que realmente leu

É nessa aceleração proporcionada pelos vídeos no YouTube que Olavo alcançaria um outro status, de ícone pop saído do underground pelas mãos de pessoas que não o conheciam profundamente. Os novos olavistas conhecem pouco do pensamento filosófico do Olavo — ao contrário dos neotradicionalistas e dos próprios olavistas raiz —, mas se encantaram com sua personalidade politicamente incorreta, que fala coisas das quais eles não compreendem muito bem, misturadas com coisas que eles acham que entendem, temperadas com muito conspiracionismo e histeria e servidas com uma arrogância e desdém para com tudo o que está no mainstream. Olavo se tornou um verdadeiro punk. (...) 

Com o fracasso de Junho de 2013, foi a extrema-direita quem
tomou as rédeas da insatisfação popular.

  Talvez Olavo tivesse sempre razão, mas não teria uma completa razão se os abalos e embalos de Junho de 2013 não decorressem de uma enorme crise pela qual passava o Kapital no Brasil e no mundo.  (...) Olavo não teria razão se a crise de 2008 não tivesse rebentado no núcleo central do Kapital e se alastrado como pólvora pelo mundo inteiro através de um sistema completamente integrado mundialmente. Um verdadeiro tsunami que foi, ao menos até a eclosão da pandemia da COVID-19, combatido com medidas de austeridade que levou à devastação de países como a Grécia, por exemplo, e foi motivo de intensas mobilizações. No Brasil esse tsunami não passou, segundo o então presidente Luiz Inácio. No entanto, Painho estava enganado. Se aparentemente essa crise não surtiu efeitos no Brasil de forma imediata, sobretudo, pela demanda de commodities no mercado internacional, logo ela apareceria para cobrar seu preço, com juros.

Olavo tinha razão… mas talvez não tivesse tanta razão assim se o governo Dilma não tivesse trabalhado sistematicamente para destruir o pacto de conciliação de classe tão arduamente costurado por painho Lula nos seus dois mandatos como presidente. Entre os anos de 2003 e 2010, Luiz Inácio pôde surfar economicamente numa conjuntura internacional que lhe possibilitou o sonho de implementar uma política econômica e social em que todos os setores da sociedade brasileira ganhariam. O triste, batido, surrado e modorrento chavão de que nunca na história desse país foi repetido e espalhado como fumaça ao vento. É verdade, no entanto, que basicamente todos os grandes setores da classe dominante no Brasil viram seus lucros crescerem quase que exponencialmente no período Lula. (...)

 Houve programas de transferência de renda  - o mais importante deles, o Bolsa Família -, um aumento do salário nominal e também do salário real, a criação de empregos e, sobretudo, a propagação, como uma verdadeira panaceia, da criação de um mercado interno mais robusto via concessão de crédito. Lula, então, pôde tentar o sonho conciliatório de colocar ao mesmo lado todos os setores dominantes, mais a classe trabalhadora e os setores pauperizados. Esse sonho perdurou enquanto todos ganhavam… como um castelo de areia se desfez depois que a marolinha da crise de 2008 foi transformando-se gradativamente em tempestade até explodir num grande maremoto ainda durante o primeiro governo de Dilma.

 Dilma, a mãe guerrilheira, fez questão de dar toda a razão ao filósofo de Virginia. Se durante o primeiro ano do 1º mandato, Dilma ainda conseguiu evitar a debacle (...) no entanto, não foi possível segurar a rebordosa da crise de 2008 que já perturbava a consciência do capitalismo brasileiro. Em termos de PIB, há uma queda drástica ainda nesse 1º mandato: de 3,9% em 2011, cai para 1,9% em 2012. A desconfiança dos donos do dinheiro se reflete na taxa de investimento que desabou de 6,7% em 2011 para 0,8% em 2012. A crônica já estava se escrevendo, e morte logo seria anunciada. (...)

Dilma foi pega no contrapé da crise de 2008 e terminou
escorraçada do poder em um piparote parlamentar.

Essa desaceleração na acumulação capitalista passou a fazer eco no campo político - onde teve papel circunstancial a Operação Lava Jato - e a conhecida inépcia da presidente para o diálogo com todos os setores da burguesia agravou a situação a ponto de o impeachment ser cogitado como uma solução possível e necessária para que a classe dominante reavaliasse e redesenhasse os caminhos que poderiam ser na busca da saída da crise e retomada da valorização do valor. Em dezembro de 2015, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha aceita o pedido de impeachment e em agosto de 2016 Dilma é definitivamente afastada da Presidência da República.

 O contexto social que possibilita o surgimento de Bolsonaro é o de sensação de vitória contra o petismo através do impeachment de Dilma, seguida de uma reorganização das forças da direita em torno de uma única figura que centralizasse uma alternativa institucional ao Partido dos Trabalhadores. Nesse sentido, era de extrema importância uma personalidade que conseguisse sinalizar para todos os diversos setores de direita que se organizavam em torno da pauta do impeachment, continuar o trabalho de síntese de ideias que o neo-olavismo havia cumprido até então. 

É nesse contexto que Bolsonaro surge como opção viável. Militar reformado que goza de certo apreço pelas viúvas da ditadura militar, ao mesmo tempo que faz defesas vagas do livre-mercado e de ideias liberais. As pessoas de que se cercou não poderiam ser diferentes, nessa tentativa de manutenção da síntese: Paulo Guedes, cumprindo o papel da liberalização da economia; Mourão, cota do Exército; embora houvesse sinalizado para Luiz Philippe de Orléans e Bragança, causador de êxtase nos militantes monarquistas, este só não foi chamado para ser seu vice por conta de rumores de um dossiê contendo fotos em uma orgia gay. 

Bolsonaro tentou chamar Olavo para ser seu Ministro da Cultura, que recusou mas indicou dois alunos seus: Ernesto Araújo e Abraham Weintraub. Acrescentou um juiz, um astronauta, uma neopentecostal, vários militares e alguns engomadinhos. Completado o seu Village People reaça e utilizando todas as estratégias e aparatos de propaganda que a direita havia constituído nos últimos anos, Bolsonaro sai eleito. (...) 

 Durante todo o governo Bolsonaro o movimento bolsonarista permaneceu ativo, atualizando seus repertórios das lutas, suas pautas, suas personalidades. Os movimentos contra o lockdown, que se desdobraram em defesa da cloroquina e do chamado tratamento precoce, foram responsáveis por um fortalecimento dos laços de solidariedade dos que lutavam contra o autoritarismo dos governadores e prefeitos de fazer as pessoas ficarem sem trabalhar — ao menos era assim que esses manifestantes e o próprio presidente viam a situação. Dessa forma políticos de oposição, empreendedores locais, trabalhadores autônomos, médicos bolsonaristas e adeptos das diversas teorias da conspiração sobre o vírus chinês conseguiram articular um campo de acordos táticos e tomar as ruas de várias cidades do Brasil. “Queremos trabalhar!” 

Vários desses grupos e movimentos constituídos em plena luta viriam posteriormente a ser integrados na cibernética bolsonarista, isso quando já não estavam. Nessa síntese tática, o bolsonarismo consegue incorporar bem tudo, aproximando até os não-bolsonaristas mas que começaram a participar dos movimentos pelo trabalho. Contatos foram sendo realizados entre articuladores de movimentos de diversos lugares, e novos grupos de coordenação de ações começaram a surgir, um processo de operação ao mesmo tempo integrado com o centro oficial bolsonarista e autônomo a ele. Alguns líderes subiram alguns degraus no esquema de pirâmide desse populismo virtual, começando a participar de lives de canais bolsonaristas maiores, entrevistas, etc. Como todo milieu, o bolsonarismo também gera suas próprias personalidades, que só são conhecidas uma vez que você está integrado em suas redes. É também nessa formação de influencers que o movimento se reproduz.

Mesmo sendo um político abaixo da crítica, Bolsonaro
conseguiu chegar na presidência.

 Em um discurso 10 dias antes do 7 de Setembro de 2021 — o dia em que muitos dos seus apoiadores esperavam um autogolpe — Bolsonaro afirmou que só existiam três alternativas para seu futuro: estar preso, ser morto ou a vitória — três alternativas heroicas que, em sua análise, o colocariam nos braços do povo. Com as destruições nas sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário e a opinião pública em conjunto com os Três Poderes em uníssono condenando o ataque, abriu-se um pretexto para cair matando em cima do governo Bolsonaro, e talvez essa prisão seja menos glamourosa do que o ex-presidente havia pensado anteriormente. 

A institucionalidade democrática parece, contudo, não querer apostar na prisão. Seria melhor caçar seus direitos políticos e o deixar inelegível, questão já dada como certa pelo próprio PL, que começa já a procurar uma alternativa dentro do próprio núcleo familiar do ex-presidente. A questão é, sem Bolsonaro como possibilidade institucional, haveria condições de um fortalecimento do bolsonarismo, ou dessa nova coisa que começa a se constituir em um pós-Bolsonaro? O contra-ataque disparado pelos Três Poderes após o putsch bolsonarista parece começar a surtir efeito considerável na capacidade de mobilização do movimento. A potência dos atos de rua e ação direta parecem ter atingido seu ápice e, agora, poderão entrar em declínio.

 Não é possível afirmar que o movimento se extinguirá, ao menos não de maneira imediata. Duas possibilidades apontam para esse processo: 

a) poderá haver uma recomposição em que atores intermediários da pirâmide da cibernética populista bolsonarista - os líderes de movimento de suas respectivas cidades, os empreendedores radicalizados que financiam ações, as páginas de direita que bombam, os sites de notícia, os pastores bolsonaristas, etc. - saiam fortalecidos em seus nichos políticos/sociais locais, começando a constituir bases, que se estabeleceriam na criação de grupos para agitação permanente em suas cidades, na criação de um movimento para espalhar as ideias de direita, um fenômeno que vem crescendo, principalmente em cidades pequenas, na criação de canais de mídias locais, na unidade com os colegas de trabalho ou vizinhos que pensam parecido ou mesmo no lançamento de candidaturas; 

b) a segunda possibilidade é que é possível pensar que o auge da existência e potência desses grupos já tenha passado, talvez eles não tenham mais a possibilidade de ir tão longe nos cargos do Estado e, se eles foram essa espécie de ejaculação precoce de uma nova direita que não estava preparada para a tarefa histórica que Olavo imaginava para ela, tanto pior para eles. 

Terá Lula o mesmo destino de sua criatura, Dilma? O ritmo
da crise capitalista dirá.

Não é possível afirmar, neste momento, se Bolsonaro vai estar apto a concorrer em 2026 e, mesmo se estiver, as chances que ele teria dependeriam muito de como vai ser o governo Lula. Se o governo Lula controlar bem a crise do Kapital, o que parece difícil, ele estará autorizado a eleger quem ele quiser, de novo — como em 2010 elegeu a mãe Dilma —; se ele não controlar, não é possível dizer que termine o seu mandato. (Grevo de Vergere)



domingo, 15 de janeiro de 2023

NÃO É A BURGUESIA QUE SALVARÁ NOSSA CIVILIZAÇÃO. SOMOS NÓS, OU NINGUÉM

Vamos supor que o capitalismo esteja sendo minado porque as tecnologias por ele desenvolvidas, ao tornarem cada vez mais desnecessária a mão-de-obra humana, fazem aumentar progressivamente o número de desempregados.

Vamos supor que tal processo esteja alargando ao máximo o fosso entre os que trabalham para as empresas modernas e obtêm remuneração que lhes permite comprar algumas das mercadorias produzidas, e os que ficam fora de tal universo, relegados a empregos desvalorizados, a serviços temporários, aos sub-empregos, à criminalidade e à marginalidade.

Vamos supor que, com isto, a desigualdade econômica esteja disparando, repetindo a situação do fim do Império Romano, quando havia cada vez mais bárbaros fora de suas fronteiras, até que os ataques vindos de todos os lados conduziram ao colapso final. 

Vamos supor que, ademais, a riqueza de uns poucos bilionários (já se antevê o surgimento dos primeiros trilionários) dote-os de um poder político tão imenso que lhes permita, por exemplo, retardarem criminosamente a substituição dos combustíveis fósseis pela energia limpa, colocando em risco a própria sobrevivência da espécie humana.

Vamos supor que o desequilíbrio entre a oferta de produtos e a falta de poder aquisitivo por parte dos seus potenciais consumidores gere distorções em escala crescente, de forma que a economia cada vez mais se artificializa, com a contínua disponibilização de créditos a quem não será capaz de os honrar, multiplicando-se as manobras para retardar um acerto  de todas as contas, quando tal sistema implodiria como uma bolha de sabão.

Vamos supor que nada disto seja suposição, mas a pura realidade; e que se aproxime o dia em que a bolha de sabão do capitalismo vá estourar, como quase ocorreu a partir da crise dos subprimes estadunidenses, em 2008.
Então o capitalismo, cuja saúde
depende de uma contínua expansão, já não avança, estagnou. E é o desenvolvimento econômico insuficiente que provoca explosões de descontentamento em tantos países. 

Dá para presumirmos que o colapso final virá a partir de uma depressão generalizada, como a que devastou o mundo a partir de 1929, estendendo-se por quase toda a década seguinte; ou a partir de uma escalada de protestos como os de 2019, só que com maior abrangência.

Este é o pano de fundo sobre o qual se projetam os acontecimentos brasileiros.

Nosso país está entre os mais desiguais do mundo. Nele a dominação do poder econômico é absoluta e os três Poderes da democracia há muito apenas a coonestam, satélites que dele são.

Então, os protestos de 2013, iniciados por um motivo localizado (a majoração das tarifas do transporte coletivo em São Paulo), alastraram-se por todo o País, como uma explosão de inconformismo contra a situação econômica brasileira (o PIB só viria a crescer 2,3% naquele ano) e a classe política corrupta, fisiológica e incompetente.

Era um movimento predominantemente de esquerda, mas o governo do PT voltou-lhe as costas e o deixou entregue à sanha de governadores conservadores que contra ele desencadearam uma repressão cuja truculência não se via desde que o Brasil se redemocratizara, bem como à tendenciosidade dos judiciários estaduais com eles alinhados.

O quadro se repetiu com o movimento #NãoVaiTerCopa, quando o governo petista até  Lei Antiterrorismo aprovou para calar a insatisfação popular contra as escandalosas maracutaias que o evento futebolístico propiciou.

Foi quando a extrema-direita aproveitou a brecha para projetar-se 
mentirosamente como outsider, antagonista da podridão da institucionalidade burguesa, enquanto os jovens manifestantes de esquerda, desiludidos com o abandono ao qual foram relegados no momento  em que eram perseguidos encarniçadamente pelos inimigos, saíram de cena.

As consequências foram a perda da batalha das ruas, a gestação do maior movimento popular ultradireitista desde o pré-1964, o impeachment da Dilma, a prisão do Lula e a eleição de Bolsonaro.

O xis da questão sempre foi o de que as massas despolitizadas ou pouco politizadas culpam os governantes de plantão por suas agruras. 

Exatamente por isto, os pesos da balança começaram a se reequilibrar quando os fascistas passaram a ser também vidraça, com o péssimo governo de Bolsonaro e seu manejo catastrófico da pandemia, pois o negacionismo e sabotagem da vacinação o tornaram culpado pela maior matança de brasileiros jamais ocorrida.

O PT, que desde a década passada comete o erro crasso de deixar que os cidadãos comuns o percebam como parte da institucionalidade burguesa execrada e não como seu adversário, tornou-se um partido tão enfraquecido que precisou fazer uma aliança com quase todas as forças à sua direita (a única exceção, claro, foram os bolsonaristas), ao mesmo tempo que absorvia pantagruelicamente os agrupamentos à sua esquerda. 

Isto para conquistar uma vitória por míseros 50,9% x 49,l% contra um insano e desmascarado genocida, o pior presidente brasileiro de todos os tempos!!! 

E só se salvou do golpe tentado no 08/01 graças, novamente, ao pacto sinistro com o 
stablishment político, para o qual os desvarios bolsonaristas se tornaram muito mais prejudiciais aos negócios do que o mais do mesmo lulista.

Pior: o fez erigindo a democracia burguesa em heroína suprema que salvou a civilização, coonestando um edifício que se assenta sobre a eternização do direito de propriedade privada dos meios de produção dos bens socialmente úteis, cláusula pétrea que consagra a exploração do homem pelo homem.

Mas, a recessão permanente (que é como prefiro chamar o desenvolvimento econômico insuficiente para atender às necessidades do país que vem desde a década perdida de 2011/2020, a pior de 1900 até hoje) não depende de boa ou má governança, mas reflete a crise global do capitalismo, que atinge com mais contundência os países periféricos como o nosso. Então, nada indica que a economia brasileira vá decolar sob Lula. 

Muito menos com a repetição de práticas  já fracassadas no passado, que é o cardápio que se antevê dos novos ministros da área econômica.

Então, passada a lua-de-mel do Lula 3 que, graças à tentativa grotesca de putsch bolsonarista, tende a durar um pouco mais, lá por 2024 ou 2025 a realidade da penúria econômica tende a impor-se novamente, ensejando a provável volta da extrema-direita à batalha. 

Com toda chance de estar reforçada pela troca do líder desmoralizado por outro que não coloque os comandados no campo de luta e corra a distanciar-se o máximo possível para não ser responsabilizado por nada que aconteça.

Ou seja, o que vencemos a dura penas foi apenas um round. Ou uma vitória de Pirro, que escancarou nossas vulnerabilidades a tal ponto que o inimigo dificilmente deixará de tentar outra vez, pois, embora saia derrotado, conseguiu ir muito mais longe do que seria de esperar-se.

Se não aproveitarmos a pausa para rever nossa estratégia de luta, a chance de sermos nocauteados nos assaltos seguintes continuará sendo enorme.

Fatal será nos mantermos identificados com a podridão da política convencional
, vistos pelo povo como quase iguais ao centrão e deixando a aura combativa para os fascistas. 

Temos de resgatar a identidade da verdadeira esquerda, que não existe apenas para preservar, botando remendos cá e lá, o status quo capitalista, mas sim para dar um fim ao primado da ganância e da desigualdade, substituídas pela priorização do bem comum e do atendimento pleno das necessidades humanas.

É uma guinada que, por motivos óbvios, um PT no governo teria dificuldade para dar, mas à qual todos os verdadeiros esquerdistas estão obrigados, sob pena de acumpliciarem-se com tudo de ruim que nos espera adiante. 

Lembrando que, afora o quadro especificamente brasileiro, estamos também na iminência de uma depressão mundial de consequências imprevisíveis e das catástrofes  decorrentes das alterações climáticas que, mais dia, menos dia, desabarão sobre nós. Precisaremos, como nunca, de uma esquerda de verdade no Brasil.

E somos apenas nós que estamos aqui para construi-la, apostando nas chances que ainda temos para, no tempo que nos resta, evitarmos o pior.

Lembrando a frase lapidar do genial Zé Celso, meio século atrás:
.
"Cada geração tem, num curto espaço de tempo e dentro de uma relativa escuridão, que descobrir sua missão, 
cumpri-la ou traí-la".
.
Não é a burguesia que salvará nossa civilização. Somos nós, ou ninguém. (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

PRESIDENCIÁVEIS PASSAM LONGE DAS SOLUÇÕES ESTRUTURAIS NECESSÁRIAS

dalton rosado
O DESESPERO SOCIAL (uma breve análise eleitoral)
Fico a me perguntar o que levou 57,8 milhões de brasileiros, correspondentes a 39,3% de um eleitorado total de 147,3 milhões de cidadãos aptos a votar em 2018, a tornarem presidente um candidato com as características grotescas e aberrantes do Boçalnaro, o ignaro, por ele anunciadas e alardeadas, sem o menor pejo, como capazes de proporcionar um governo redentor?

O que leva hoje a mesma população, após o desmascaramento das suas falácias de campanha e da derrocada flagrante do seu (des)governo genocida, ainda pretender desperdiçar com ele, segundo os institutos de pesquisa mais confiáveis, cerca de 32% dos votos válidos?

A resposta não pode ser outra além do desespero social inconsciente que busca soluções milagrosas com falsos profetas e ainda acredita num prepotente e autoritário bravateiro de quinta categoria como salvador da pátria.

A realidade é que temos uma vida social na qual se constata:
— baixo nível de renda per capita para a grande maioria da população, calculado em R$ 1.353,00 no ano de 2020, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE;
— um grau de violência tal que morrem cerca de 60 mi pessoas assassinadas por ano (a maioria pretos e pobres);
— um verdadeiro colapso do sistema prisional, policial e jurídico processual criminal, que se mostra incapaz de administrar e conter tamanha avalanche de produção social de criminosos de colarinho sujo e muitos outros de colarinho branco;
— um aumento dia após dia do poder do crime organizado, seja nos confins da Amazônia, seja nos subúrbios das grandes metrópoles cindidas socialmente por acentuada desigualdade social;
— um colapso no sistema de saúde, de vez que o SUS, apesar de bem intencionado, não tem recursos para atendimentos médico-cirúrgicos mais complexo;
— a impossibilidade de a prole da população da periferia estudar senão em escolas públicas, com as deficiências que todos conhecemos (mas com a melancólica vantagem de proporcionar àquelas crianças seu único alimento no dia);
— a reentrada do Brasil no mapa da fome mundial, mesmo sendo grande exportador de alimentos para o mundo;
— um número absurdo de favelas nas quais inexiste uma mínima infraestrutura urbana (água, luz, esgotamento sanitário, ruas pavimentadas, etc.);
— um nível de analfabetismo em torno de 6,6% da população, ou 11 milhões de analfabetos totalmente incapazes de ler e escrever, afora os analfabetos funcionais que não sabem interpretar um texto ou escrever sem erros crassos;
— um universo de cerca de 10,1 milhões de desempregados aptos ao trabalho; 4,3 m milhões de desalentados (os que já não procuram empregos) e 21,1% de subutilizados, segundo o IBGE;
— uma inflação acumulada de 10,7% nos últimos 12 meses (IGPm), a corroer os já insuficientes ganhos dos assalariados;
— uma cultura de valores morais deturpados, na qual prepondera como virtude o conceito da esperteza (individual ou empresarial) em enganar os outros para obter vantagens pecuniárias e ser respeitado como vencedor da guerra pela sobrevivência.

Ouvi ainda hoje, de uma mulher doce, digna e profissionalmente virtuosa na modéstia dos sua profissão, a informação de que estava fazendo um grande esforço de compreensão sobre o significado de sua vida, por não sentir-se enquadrada nos padrões sociais estabelecidos.

Tal mulher, que tem 47 anos, perdeu em 2020 um filho maravilhoso, músico que fazia um
bico como motorista de aplicativo para ajudar no orçamento doméstico e foi assassinado a tiros por milicianos ao entrar numa região da periferia de Fortaleza.

Num esforço pessoal de superação do trauma sofrido, disse-me que, se voltasse a ser jovem, não teria mais nenhum filho, para evitar o desgosto de vê-lo smsthsnfo as injustiças desse Brasil que aí está.

Por que temos que aceitar passivamente eleições que (embora alardeadas como salvadoras, democráticas e antídotos ao totalitarismo despótico) apenas reproduzem um modelo de mediação político, econômico e social com todas as distorções acima alinhavadas?

Quando vemos os discursos eleitorais de anos anteriores, identificamos a semelhança com os atuais, já que todos os candidatos prometem soluções milagrosas para nossos trágicos problemas os quais, por serem estruturais, requerem, isto sim, soluções estruturais.

Constatamos que os discursos falaciosos daqueles que pregavam o novo (caso do farsante que falava mal dos políticos, mesmo sendo um deles havia três décadas) evidenciaram-se como miseravelmente falsos.

Boçalnaro, com total desfaçatez, reconhece agora que sempre pertenceu ao segmento político e, pior, como medíocre integrante dq faixa podre deste segmento, o centrão (que sempre existiu e governa o orçamento fiscal brasileiro desde os tempos do Congresso Imperial, ou seja, tem idade maior até  que os 200 anos da independência ora comemorada.

Lula
, que qualificou a crise do subprime de 2008/2009 de mera marolinha, viu, impotente, o tsunami da crise do capitalismo (que defende intransigentemente, como eterno advogado dos trabalhadores submissos ao capital e sem o menor interesse em superar tal condição) consumir o governo da sua pupila Dilma Rousseff.  

Agora, faz questão de eximir-se das responsabilidades por tal debacle, como se o seu partido não tivesse nada a ver com o que aconteceu. Recusa-se até mesmo a fazer autocrítica por ele e o PT terem entragado, numa bandeja, as rédeas da política econômica a um neoliberal de segundo ou terceiro escalão. .

Ciro Gomes vende o Ceará para o Brasil como se fosse o paraíso na terra, mas omite que quem lidera as eleições no seu Estado é o capitão Wagner, um militar inexperiente, metido a político esperto e oportunista, que agora tenta desvincular sua imagem da do seu ídolo fracassado, ainda que, tanto quanto o Boçalnaro, surfe no desespero de uma população aflita, que acredita na força das armas para a contenção de problemas sociais insolúveis sob a perspectiva capitalista em fim de feira.

O presidenciável pedetista já foi tudo em termos partidários, mas trabalhista ele não é, pelo menos na acepção do seu partido. Apesar de sua retórica empolada, que mistura populismo com juridiquês que o povo não entende, nada é além de mais do mesmo, ou seja, um proponente da solução dos nossos problemas estruturais como se fossem questões meramente administrativas, fáceis de resolver.
 
Como o povo diz aqui no Nordeste, "nós estamos mesmo é precisando de uma outra lavagem de roupa". (por Dalton Rosado) 

sexta-feira, 11 de março de 2022

O MUNDO VIVE EM CHAMAS OU SOB UMA TENSÃO ETERNA PARA A GUERRA – 1

dalton rosado
O NIILISMO PELOS MAUS EXEMPLOS
A guerra geopolítica é o mais explícito mau exemplo que as nações beligerantes têm dado para a humanidade.

Trata-se da resultante prática de um modo de relação social segregacionista no interior das nações, que se extrapola extramuros. A bestialidade da iniciativa da guerra é inaceitável sob qualquer argumento, mesmo o de legítima defesa contra pretensa e iminente agressão.

Sei que muitos humanistas bem intencionados encontram justificativas para as ocorrência da guerras, considerando ingênuos os argumentos pacifistas e aceitando a invasão militar de um país por outro em determinadas circunstâncias (todos os países, vale dizer, têm travados guerras). 

A guerra é algo estranho aos explorados de todos os países. Eles não devem ter uma pátria que os oprima, mas sim o sentimento de solidariedade a nortear as suas vidas em qualquer canto do planeta.
Em 01/02/1968, um vietcong preso é levado ao chefe...

Na chamada modernidade, é a guerra concorrencial de mercado da lógica capitalista one world que está subjacente às guerras com armas altamente letais. 

A briga do pequeno comerciante com seu concorrente da esquina se reproduz numa escala global entre países. 

Não há nenhum santo nesta história, apenas governos movidos pela insensatez do capital que os comanda.   

O mundo vive em chamas ou sob uma tensão eterna para a guerra, que vai desde as ditaduras sanguinárias e genocidas da África, passando pelos fundamentalistas religiosos islâmicos; pelos capitalistas de Estado ora convertidos em capitalistas de mercado; ou, ainda, pelas democracias burguesas do ocidente. 

O móvel de tal estado de guerra ou de tensão para a dita cuja é o milenar desejo de uns povos subjugarem outros. 
...de polícia do Vietnã do Sul, que o baleia em plena rua...
Isto vem desde a escravidão direta que fazia dos seres humanos animais de carga, até a atual subjugação do trabalho abstrato que provoca a produção e acumulação do capital, o qual proporciona poder econômico a quem o detém.

Quanto aos senhores desse capital, nem sequer se dão conta de que, ao invés de administrá-lo, são por ele administrados (ainda que se beneficiem do dito cujo).

O capital:
— é senhor dos que pretendem ser senhores;
— tem caráter onívoro retroalimentado e autocentrado; 
— é insensível ao drama humano e utilitário do mesmo ser que o conduz;
— é individualista e meramente utilitário da necessidade de consumo humana; e
— sua lógica funcional, de início destrutiva, é, por fim, autodestrutiva, autofágica. 

A guerra é a sua síntese mais claramente exposta.
...dele restando apenas outro corpo estendido no chão...

O capitalismo, que desde a crise de 2008 vem dando sinais claros de exaustão, tem, mais do que antes, se sustentado artificialmente pela emissão de moeda sem valor pelos países de moeda forte (EUA e União Europeia); a sua crise fundamental ora se vê agravada por fatores externos, quais sejam o aquecimento global e a pandemia do coronavírus. 

A exacerbação disso tudo mexe com as peças do tabuleiro econômico mundial, prenunciando tempestades.  

É impressionante como a lógica funcional do capital se introjeta nas mentes humanas para justificar a bestialidade da guerra como egressão para uns e legítima defesa para outros; seja para capitalistas ambiciosos ou mesmo para os humanistas bem intencionados. 

Estava certo Karl Marx ao dizer que de boas intenções o inferno está cheio.  
...e outro motivo para o povo lutar contra seus algozes.

O pensamento humanista do velho barbudo deu cientificidade às suas análises contidas na crítica da economia política.

Já os erros do politicista Marx foram aproveitado pelos pensamento oportunista dos capitalistas de Estado para, em seu nome mas de forma indevida, exaltarem aspectos (positivos na aparência, porém negativos em essência) da parte politicista de sua obra, como a eternização de práticas e posturas que ele só admitia em caráter transitório. (por Dalton Rosado – continua neste post)

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O GIGANTE CHINÊS TEM PÉS DE BARRO?

"O Clube  de Paris geralmente impõe uma taxa de  juros
de 9% enquanto as coisas são renegociadas. Com
taxas de juros de 9%, sua dívida dobra a
cada oito anos" (Joseph Stiglitz)
Causou espanto ao mercado e às comunidades mundo afora o anúncio do default da incorporadora chinesa Guangzhou Evergrande, do bilionário Xu Jiayin, uma das maiores empresas imobiliárias da China, estimado em US$ 300 bilhões. O espanto decorre do desconhecimento por parte dos investidores sobre a real situação econômica do precário endividamento chinês. Os operadores do mercado vendem a prosperidade futura do capitalismo, aí incluída a China, sob a forma de promessa da retomada do desenvolvimento econômico, como forma de empurrarem para os rentistas investimentos de risco que remuneram melhor as comissões de agenciamentos das aplicações financeiras, de vez que muitos deles agem de acordo com o interesse de comissões de agenciamento. Mas não é este o papel de quem dedicou a vida ao combate à segregação social capitalista e estudou criticamente a equação irresolúvel da mediação social pela forma-valor denunciada por Karl Marx há mais de 160 anos, mas, infelizmente, pouco conhecida pelos revolucionários politicistas do marxismo tradicional ou pelos bem intencionados sociais-democratas da humanização e perpetuação da relação capital/trabalho. Não me causaram surpresa as dificuldades de liquidez imobiliária da China, pois foi justamente neste setor da habitação, que carece de mão-de-obra menos qualificada e movimenta a economia numa grande diversidade de mercadorias, que a roda do capital encontra espaço (de fôlego curto) de sobrevida.

Da mesma forma que no ocidente, os chineses também apostaram nesta vertente para alavancar a economia. Ledo engano. Sabemos, apesar das restrições governamentais à comunicação midiática chinesa, que por lá existia em 2018 cerca de 50 milhões de unidades residenciais vazias, número que aumentou nos últimos três anos, seja por falta de compradores financeiramente aptos para a aquisição, seja por despejos de inadimplentes. O capitalismo tem regras draconianas que não podem ser contraditadas sob pena de falência de sua dinâmica, mesmo que a insatisfação popular seja contida por um regime totalitário como o chinês, ou justamente por causa dos ditos cujos, porque a lógica do capital é soberana em relação à política. Apesar das diferenças operacionais, podemos relacionar a crise imobiliária chinesa com a crise do
subprime dos Estados Unidos em 2008/2009, já que se constituem em bolhas financeiras imobiliárias do endividamento fácil e sem lastro mercadológico que garanta a valorização patrimonial dos investimentos (ou especulações) nas respectivas construções de unidades habitacionais. Na verdade, em face dos números das hipotecas imobiliárias dos Estados Unidos inadimplidas, o Banco Central daquele país teve de intervir, sendo o custo total ampliado de US$ 700 bilhões para US$ 850 bilhões, dos quais até US$ 700 bilhões foram usados para comprar títulos podres, conforme o projeto original, e os outros US$ 150 bilhões foram acrescentados pelo Senado na forma de cortes de impostos e incentivos fiscais.
A falta de correspondente liquidez de mercado para as hipotecas contaminou todo o mercado financeiro mundial de ponta, exigindo dos países da União Europeia, onde se situam grandes bancos ameaçados de falência, uma cobertura financeira portentosa que elevou a conta toda para a casa de trilhões com a emissão de moeda sem lastro pelo Banco Central europeu. 

Tais medidas não só aumentaram as dívidas públicas e privadas estatais, como criaram expectativas de insolvências mundiais, tanto dos Estados Unidos como dos países da União Europeia, bem como acendeu a luz amarela para todo o sistema bancário com relação a fenômenos similares que viessem a ser formatados.
O recentíssimo estremecimento dos mercados com o caso específico da incorporadora Evergrande se deve à perspectiva de insolvabilidade da astronômica dívida chinesa que corresponde a cerca de 300% do seu PIB, e que já se anuncia como impagável até mesmo para o chamado serviço da dívida, ou seja, insolvabilidade dos juros cobrados pelos credores internacionais. O governo chinês ainda tem fôlego para colocar o dedo na trincadura do dique, mas a possibilidade de rompimento avassalador existe! Não devemos nos esquecer de algo que, de tão trivial, muitas vezes nos passa desapercebido: são os rentistas, com suas aplicações financeiras, que emprestam suas economias ao sistema financeiro, o qual, por sua vez empresta ao Estado e às empresas privadas, almejando remuneração pelo capital investido.

Se observar-se qualquer fissura na confiança dos rentistas em suas aplicações e isto provocar uma corrida de resgate monetário, certamente que teríamos não apenas um tsunami, mas um abalo em todo o sistema monetário e de crédito (isso corresponderia em termos de paralelos financeiros, ao estrago que o choque físico de um meteoro gigante causaria ao colidir com o nosso planeta. O Fundo Monetário Internacional, já em 2019, alertava para o risco do crescente endividamento chinês e a previsível queda do crescimento do PIB chinês, justamente porque não seria possível à China continuar crescendo no ritmo anterior. O consumo de mercadorias tem um limite físico e monetário. Com o advento da crise sanitária do coronavírus, que causou mortes em torno de 2% a 3% dos contaminados mundo afora, obrigou-nos todos a um confinamento nunca antes experimentado pela humanidade. Com isto veio a redução do crescimento do PIB chinês, que já vinha ocorrendo e ficou ainda mais acentuada (de 6,6% em 2018 para 6,1% em 2019 e 2,3% em 2020), e a expectativa de default de muitas das empresas chinesas passou a estar na pauta das expectativas. Mas a economia globalizada está de tal forma interligada que há um temor geral das consequências de uma provável falência da China, porque se trata do segundo maior PIB mundial e de um contingente humano que corresponde a cerca de 20% da população mundial.
A insolvência chinesa provocará a insolvência em cadeia de muitos países, porque a China é grande compradora de commodities; isto pode acarretar uma paralisia ainda maior na economia mundial.
O investidor anônimo da região mais remota do planeta que aplica suas economias num banco multinacional, poderá se ver privado de usar os seus recursos, e isto, evidentemente, vai abalar o consumo de mercadorias e, consequentemente, deverá emperrar toda a engrenagem capitalista. Da mesma forma, a queda da arrecadação de impostos representará para os países endividados (todos, sendo os mais pobres escorchados pela agiotagem internacional bancária) a impossibilidade de rolagem de suas dívidas e pagamento dos juros, paralisando definitivamente o funcionamento da dita engrenagem capitalista. Este é um desfecho já anunciado para a economia mundial, com as tragédias dele decorrentes, que em face desta realidade terá de se valer de um novo modo de produção social capaz de evitar as dramáticas consequências que advirão de um crash internacional capitalista.
(por Dalton Rosado)
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