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domingo, 22 de agosto de 2021

VOCÊ QUER SABER POR QUE HÁ MUITO MAIS CHANCES DE O BOZO SER EXPELIDO QUE DO SEU AUTOGOLPE TER ÊXITO? LEIA AQUI – 1

fernando canzian
CUSTO BOLSONARO COBRA FATURA COM
 DOLAR, INFLAÇÃO, JUROS E MISÉRIA EM ALTA 
O
Brasil vem sofrendo queda abrupta no ingresso de investimentos estrangeiros produtivos, e até empresas brasileiras evitam trazer ao país dólares obtidos em exportações, que cresceram muito nos últimos meses.

A nova tendência engrossa o que vem sendo chamado de custo Bolsonaro. Ele não se reflete apenas no dólar bem mais caro do que os fundamentos econômicos justificariam, mas em mais inflação e juros, com impactos deletérios sobre a dívida pública.

Essa combinação, numa espécie de círculo vicioso, colocou em xeque a recuperação pós-pandemia em 2021 e 2022 e vem aumentando o total de miseráveis no país.

custo Bolsonaro é identificado como a transmissão para a economia da instabilidade política alimentada diariamente pelo presidente Jair Bolsonaro, com declarações golpistas, confronto com outros Poderes e questionamentos sobre o processo eleitoral.

Com menos crescimento e com dólar, inflação e miséria em alta, a expectativa é que Bolsonaro crie subterfúgios para gastar mais para tentar se reeleger. Hoje, o presidente está longe de ser o favorito no pleito de 2022.

A proposta de adiar o pagamento de dívidas judiciais (precatórios) para turbinar o Bolsa Família (rebatizado Auxílio Brasil) é o ponto mais visível desse contexto, em que se buscam alternativas para furar o chamado teto de gastos, que corrige a despesa pública pela inflação e é o principal instrumento de controle da elevada dívida pública brasileira.

Mas especialistas também veem o governo perdido, sem articulação política ou propostas coerentes de reformas, como no caso da tributária, e agora refém do chamado centrão, com seus políticos pressionando por mais verbas para o período eleitoral.

O resultado tem sido a deterioração de indicadores financeiros (índice Bovespa, dólar, inflação e juros futuros) e, mais recentemente, a paralisação dos planos de investidores estrangeiros e locais de ampliar a produção e o emprego no Brasil.

No acumulado em 12 meses, os investimentos líquidos de estrangeiros dirigidos ao setor produtivo no país caíram de quase US$ 70 bilhões, há um ano, para cerca de US$ 24 bilhões.

Mesmo empresas exportadoras nacionais, que multiplicaram recentemente suas receitas com o dólar em alta e um novo ciclo de valorização de commodities agrícolas e metálicas, têm preferido manter seus dólares longe do Brasil diante da instabilidade atual.

Os dois movimentos ajudam a pressionar ainda mais o valor da moeda estadunidense. Na comparação com outros países bastante endividados (com relação dívida bruta/PIB acima de 65%), é no Brasil onde o dólar mais sobe.

Grande parte dessa alta é transmitida diretamente para a inflação, via produtos importados ou commodities cotadas em dólar, como petróleo e gás, proteína animal e trigo.

Mesmo assim, segundo cálculos do economista Livio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, os fundamentos econômicos do Brasil, sobretudo por causa das contas externas equilibradas, não justificam o dólar na faixa de R$ 5,30/R$ 5,40.
Pelas suas contas, sem
o gol contra da bagunça institucional atual, a moeda estadunidense poderia valer ao redor de R$ 4,20 
quase 30% menos.

“Mas, dadas a estrutura de risco e a incerteza no Brasil, os exportadores agora mantêm a maior quantidade possível de dólares no exterior”, diz Ribeiro. Isso passou a ser permitido desde a virada da década passada.

“Em outros ciclos positivos de exportação como o atual, a entrada de dólares valorizava o real. Mas perdemos esse canal estabilizador.”

As reservas cambiais do Brasil explicitam a tendência: mesmo com um saldo positivo de US$ 44,1 bilhões na balança comercial (exportações menos importações) até julho, as reservas em dólar do país não aumentaram neste ano, permanecendo estacionadas ao redor de US$ 355 bilhões.

O chamado custo Bolsonaro, agora turbinado pela expectativa de descontrole no gasto público, também leva investidores a buscar proteção no dólar, alimentando um ciclo vicioso.

Nele, o dólar alto pressiona a inflação, sobretudo pelo canal das commodities, o que obriga o Banco Central a subir os juros para controlar os preços. Como o juro mais alto corrige a dívida pública, ela cresce. Para atrair investidores dispostos a financiá-la, o BC pode se ver obrigado a subir ainda mais os juros, tornando a dívida ainda maior.

“O comportamento errático de Bolsonaro vem produzindo estragos de ponta a ponta, expondo um governo que se revelou muito despreparado no geral”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Segundo ele, não só os investidores estrangeiros estão evitando o Brasil.

“Sem estabilidade política e macroeconômica, projetos na agroindústria e no óleo e gás também sofrem.”

O próprio Ministério da Infraestrutura admitiu há alguns dias que o cenário político conturbado deve afetar concessões importantes previstas para até 2022, como a Ferrogrão (ferrovia que ligará Sinop, em Mato Grosso, ao porto de Miritituba, no Pará), aeroportos de Congonhas (SP) e Santos Dumont (RJ) e a Via Dutra (BR-116, no trecho que liga São Paulo ao Rio de Janeiro).

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre/FGV, o quadro de deterioração agravou-se com a adoção, por um Bolsonaro em baixa nas pesquisas eleitorais, de uma narrativa para que se possa gastar mais visando maior apoio popular.

Desde o segundo semestre de 2020, auge do pagamento do auxílio emergencial na pandemia, o total de pessoas na extrema pobreza no Brasil (renda mensal abaixo de R$ 261) disparou, passando de 5% da população (10,5 milhões) para 13% (27,4 milhões), segundo dados do FGV Social.

”Nos últimos 12 meses, a inflação dos pobres foi de 10%, quase três pontos percentuais maior que a da alta renda, resultado do aumento dos alimentos e do gás de cozinha, entre outros”, diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

“Enquanto a renda média do trabalho caiu 11% entre os primeiros trimestres de 2020 e 2021, a queda na metade mais pobre foi de 21%.”
Assim, não só a pobreza extrema aumentou. Quase 32 milhões de pessoas deixaram a classe C (renda domiciliar de R$ 1.926 a R$ 8.303) desde agosto de 2020. A classe E (até R$ 1.205) foi a que mais inchou, com 24,4 milhões de pessoas. Já a D (R$ 1.205 a R$ 1.926) ganhou 8,9 milhões.

Nesse percurso, a taxa de reprovação de Bolsonaro saltou de 32% para 51% entre o fim de 2020 e julho deste ano, segundo o Datafolha. Num eventual segundo turno contra Lula (PT) em 2022, Bolsonaro seria derrotado por 31% a 58%.

“Mas tentar comprar a sociedade com estímulos acaba não dando certo e não se sustenta”, diz Silvia Matos. “Como o mercado se antecipa a esse movimento, com pressões sobre dólar, inflação e juros, o país acaba perdendo tempo e a oportunidade de consolidar a retomada do pós-pandemia.”

Grande parte das previsões de crescimento, do valor do dólar e do comportamento da inflação vem se deteriorando. O banco Fator, p. ex., já trabalha com o dólar a R$ 5,80 em 2022 e crescimento do PIB ao redor de 1%.

“É uma grande frustração para quem esperava alguma coisa com pé e cabeça do governo Bolsonaro e sua equipe”, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Fator.

Gonçalves lembra que os próximos meses devem ser marcados por uma reversão nos estímulos monetários pelos Estados Unidos, tornando cada vez mais provável o aumento dos juros estadunidenses para conter pressões inflacionárias.

Quando isso ocorre, países muito endividados e desarranjados sofrem com a fuga de investidores para mercados mais seguros, derrubando preços de ações, de ativos como imóveis e desvalorizando a moeda local. O resultado é uma sociedade mais pobre e mais inflacionada.

“No caso brasileiro, teremos um problema adicional de inflação. A energia elétrica vai subir, o petróleo não deve cair e haverá uma crescente inflação nos serviços [que representam 2/3 do PIB] com a volta de alguma normalidade a partir de agora”, afirma Gonçalves.

Para Silvio Campos Neto, economista-sênior da consultoria Tendências, muitos agentes econômicos aceitariam, sem solavancos, um aumento de cerca de 50% nos benefícios hoje pagos pelo Bolsa Família, que poderiam chegar a R$ 300, em média.

“Haveria algum espaço no teto de gastos para isso. O problema é que parece não existir no governo um consenso mínimo do que fazer com a economia”, diz.

Em sua opinião, o fato de o Brasil estar com as contas externas equilibradas justificaria um dólar abaixo de R$ 4,50. Somando-se a isso, a ociosidade no mercado de trabalho (com 14,8 milhões de desempregados) e nas empresas suportaria uma eventual recuperação mais robusta sem grandes pressões inflacionárias.

“Seria toda uma outra história se tivéssemos outro tipo de liderança e postura. Isso cai na conta do presidente, símbolo desse desarranjo e principal causador de ruídos”, afirma o economista. (matéria de capa da edição dominical da Folha de S. Paulo, escrita por Fernando Canzian)

terça-feira, 27 de julho de 2021

PIB E MISÉRIA: SOBRE A ESSÊNCIA DO CAPITALISMO

Poucos dias atrás, rodaram a internet imagens de uma fila para doação de ossos. O impacto maior não estava no fato de existir doação de ossos ou gente precisando disso para ter o mínimo de proteínas, mas a localização desta fila: Cuiabá, capital do Mato Grosso, estado com a maior produção pecuária do Brasil e uma das maiores do mundo. 

Em Mato Grosso, o número de cabeças de gado é dez vezes o de seres humanos (30 milhões de bois contra 3 milhões de pessoas). Unido à produção de soja e milho, a região é irrigada com dinheiro vutuoso, o qual ajuda a erguer prédios, aras, comprar pickups e patrocinar shows e mais shows sertanejos no vetor norte do estado. 

No entanto, há filas de pessoas para receber doações de ossos... 

Este é um exemplo eloquente da contradição intrínseca do capitalismo, entre a geração titânica de riqueza de um lado e a miséria escrachante do outro. 

Já no século 19, Marx apontava que, quanto maior a produção de riquezas pelo capitalismo, maior é a miséria do trabalhador.

Tal lição foi esquecida pela esquerda, não apenas brasileira. Em seu lugar, entrou a crença mítica de que o crescimento econômico e a geração de empregos são a rota para a prosperidade social. Não são. 

O capitalismo é essencialmente um sistema de espoliação e transferência de riqueza. 

Ele funciona como se fosse uma convecção amputada, indo apenas de baixo para cima: transfere riqueza da base para o o topo, de modo que o topo fica cada vez mais inchado e a base cada vez mais raquítica. 

Tal sistema de transferência funciona em nível mundial, com as burguesias periféricas transferindo riqueza para as centrais. Por isso, a periferia é mais pobre que o centro, o que não significa serem as burguesias periféricas mais pobres. Muitas vezes, elas são tão ricas quanto suas congêneres centrais, apenas menores em termos numéricos e mais frágeis politica e economicamente. 
A fé no crescimento econômico enquanto motor de prosperidade social levou ao surgimento, no Brasil, do desenvolvimentismo, ideologia de uma fração da burguesia nacional em que se defendia a industrialização do país como meio para dar-se fim à miséria e ao suposto atraso do país. 

A burguesia dominante fez o desenvolvimentismo ao seu modo, fazendo explodir o PIB durante o milagre da ditadura, ancorado na super-exploração dos trabalhadores. 

Mas ficou no senso comum a ideia do crescimento econômico enquanto fim para a superação da pobreza e das mazelas nacionais. A ponto de FHC e Lula celebrarem o projeto econômico da ditadura e transformarem um desacreditado Delfim Netto em um gênio da economia. 

E agora que a crise brasileira se acentua, com miseráveis tomando conta das ruas do país e a fome a instalar-se no dia a dia, a mídia glorifica o crescimento do PIB, esquecendo-se que ninguém se alimenta, se veste ou mora num PIB. (por David Emanuel Coelho)

domingo, 20 de junho de 2021

FAMÍLIAS POBRES FORAM ÀS RUAS SÁBADO POR NÃO CONSEGUIREM SOBREVIVER COM AUXÍLIO EMERGENCIAL TÃO IRRISÓRIO

leonardo sakamoto
FOME, FILHA DE BOLSONARO, TAMBÉM ESTAVA
NOS PROTESTOS POR SEU IMPEACHMENT
P
ostagens que circulam em grupos bolsonaristas tentam fazer crer que os protestos contra Jair Bolsonaro, ocorridos em todo o país neste sábado (19), reuniram militantes de partidos políticos para eleger Lula. Apontam como prova o uso de bandeiras e camisas vermelhas. Argumentos pró-Terra plana são mais elaborados do que isso. 

Para além de estudantes, professores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil, sindicatos, partidos políticos e uma massa de cidadãos comuns cansados da sabotagem do governo federal contra a vacina e a favor do coronavírus, as manifestações também trouxeram novamente brasileiros que não estão conseguindo sobreviver com a mixaria paga pelo governo como auxílio emergencial. 

Ou seja, a fome, que não tem cor, também estava lá representada. A incapacidade de enxerga-la só reforça que ela parece invisível aos planos do presidente e de seu rebanho. 

Conversei com mulheres que chefiam famílias em ocupações nas zonas Leste e Sul após os dois atos na avenida Paulista. Apesar de algumas terem, finalmente, conseguido sacar o benefício após um longo trâmite, elas continuam relatando o óbvio: que o valor pago não é suficiente para alimentar seus filhos, dependendo de doações. 

O auxílio emergencial está sendo pago em parcelas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375. O piso compra menos de 25% da cesta básica em Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, segundo o Dieese

Na primeira onda da pandemia, o governo propôs um auxílio de apenas R$ 200, mas o Congresso Nacional forçou o aumento do valor, que passou a ser de R$ 600/R$ 1.200 por domicílio. No segundo semestre, o benefício foi reduzido para R$ 300/R$ 600 por família.
PRESIDENTE CONTINUA RECORDISTA EM ARREMESSO DE RESPONSABILIDADE À DISTÂNCIA – Bolsonaro culpa prefeitos e governadores pela fome, afirmando que ela é fruto das medidas de isolamento social. Terceirizando responsabilidades que são suas, como sempre faz, joga uma cortina de fumaça sobre as reais causas da falta de alimentos nas casas dos brasileiros pobres. 

O Brasil é um dos recordistas em duração de quarentena porque, enquanto governadores e prefeitos tentavam conter o aumento do contágio fechando atividades econômicas, o presidente da República atuava para boicotar as medidas. Se houvesse ajudado, ao invés de atrapalhar, os fechamentos seriam bem mais curtos, como em outros países, e teriam afetado menos o emprego e a economia. 

Mas Bolsonaro acreditou nas palavras de seu gabinete das sombras, de que a pandemia iria durar pouco e a saída era forçar a contaminação em busca de uma imunidade coletiva. Uma mentira que ignora as mutações do vírus. 

Da mesma forma, se tivesse comprado vacinas no ano passado, aceitando as dezenas de milhões de doses ofertadas pela Pfizer e pelo Instituto Butantan, estaríamos tão adiantados que discutiríamos agora a reabertura geral. 
Com isso, chegamos a 500 mil mortos e 14,8 milhões de desempregados. Sem falar de 19,1 milhões de famintos em um universo de 116,8 milhões que não tiveram acesso pleno e permanente à comida. 

A pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional que chegou a esses números foi realizada em dezembro do ano passado, quando o auxílio emergencial estava sendo pago em parcelas de R$ 300 ou R$ 600. 

Há seis meses, a fome chegava a 9% da população, a maior taxa desde 2004. A situação hoje está bem pior, ainda mais porque Bolsonaro suspendeu por 96 dias o pagamento do benefício no começo de 2021. 

Tudo o que o presidente faz na pandemia é pensando em outubro do ano que vem. Foi assim, p. ex., na briga com o governador João Doria, que fez atrasar a aquisição da CoronaVac. Ainda hoje, aliás, ele sabota esse imunizante por questões eleitorais – na semana que passou, disse que ele não tem eficácia nem comprovação científica. 

Não se importa se suas mentiras matarem, contanto que se reeleja. 

A mesma lógica é adotada ao discutir um aumento no Bolsa Família, que deve ir de R$ 190, em média, para algo em torno de R$ 280. O efeito disso é para 2022, ano de eleições. Mas as pessoas estão passando fome neste momento, vivendo da caridade de outras pessoas. 

O governo usa como escudo o teto de gastos, mas o Congresso Nacional estava pronto para costurar uma saída que permitisse um auxílio digno. Jair é que não quis. Preferiu distribuir trator para a base aliada que impede que seu impeachment seja apreciado. 

Agora, redes bolsonaristas tentam apagar o fato de famílias pobres terem engrossado o caldo dos protestos, pois isso é uma pedra no sapato do argumento presidencial. 

Após serem tratados como invisíveis na política pública, agora são invisibilizados até na hora de reclamar. (por Leonardo Sakamoto)
"Meus filhos de perna bamba, pelo amor de Deus. / Inda tem minha Maria,
pelo Zebedeu, / que traz mais um na barriga, pelo amor de Deus, / com os
que tem no pensamento, pelo zebedeu. / Até se perdeu a conta, pelo amor
de Deus. / Vá sentar minha filhinha, pelo zebedeu. / Joguem um pouco de
dinheiro, pelo amor de Deus, / aumentou mais a farinha, pelo zebedeu"

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O ADEUS ÀS ILUSÕES E ALGUMAS LIÇÕES HISTÓRICAS

“A consciência é o último ramo da alma que floresce;
só dá frutos tardios” (Joaquim Nabuco, abolicionista)
.
A fase desenvolvida do capitalismo teve início com a primeira revolução industrial inglesa (final do século 18) e se consolida durante o século 19. Karl Marx viveu o final sua vida na Inglaterra (por longo período) após fugir de perseguições políticas. Assim, pôde desenvolver seus estudos críticos da economia política auxiliado pela portentosa biblioteca do Museu Britânico, de Londres, onde passava muitas horas diárias, e vivendo no berço mais desenvolvido da vida mercantil mundial. 

Foi na capital inglesa que se deu a evolução e, finalmente, a virada no seu pensar, adotando conceitos que deveriam ter orientado uma nova práxis revolucionária. Não foi o que se viu. Os marxistas, inclusive apoiados por Friedrich Engels (que mais se inclinava para o Marx exotérico, da luta de classes), não perceberam que a crítica da economia política outrora formulada e a práxis revolucionária nela embasada (e muito mais difícil de ser efetivada, principalmente pelo espaço expansionista que ainda havia de ser percorrido pelo capitalismo) estavam em completa falta de sintonia com a luta política pela hegemonia da classe trabalhadora (bem menos difícil de ser efetivada pelo empirismo da exploração nela contido). 

Na crítica da economia política se critica o trabalho abstrato como fonte de produção e acumulação do capital e, portanto, do trabalhador como instrumento indispensável do capital, enquanto que na luta de classes se defende tanto o trabalho abstrato como o trabalhador como sujeito revolucionário capaz de dominar o capital, sem superá-lo. São conceitos de tal forma contraditórios, mas que não foram observados, que resultaram no fracasso de toda a doxa socialista e na capitulação envergonhada para o capitalismo liberal burguês pós-revolucionário.          
Marx e família com Engels
Mas, por mais tortuosos que sejam os caminhos, a verdade é como óleo dentro d’água: insiste em vir à tona. Percorridos quase 160 anos de sua obra incompreendida, eis que o Marx da crítica da economia política ressurge com a força revolucionária de sempre, impelido pelo empirismo do limite interno de expansão capitalista por ele prospectado teoricamente, e como um fantasma a perseguir tanto capitalistas ortodoxos quanto socialistas estatizantes que tudo negam, mas que excluem dessa crítica, sem o saber, o capital e suas categorias, que dizem combater.

Em recente resposta ao comentário da professora universitária Zenilda Batista Bruginski (clique aqui para lê-lo), no qual ela faz uma crítica à mesmice da esquerda com a citação do apenas relativo antagonismo entre capital e trabalho, defendendo a necessidade de ruptura com o capitalismo de forma radical, sem, entretanto, conseguir retirar de sua mente revolucionária alguns dos construtos capitalistas (sem cujas remoções não podemos chegar a nenhum lugar), pude dizer o seguinte: 
"Não tenha dúvidas de que a esquerda se enquadrou, nesses 170 anos, aos limites da luta de classes que significou apenas um embate entre os donos dos meios de produção (os capitalistas, privados ou estatais) e os trabalhadores em busca do dinheiro, sem questioná-lo enquanto tal. Dessa forma, a busca da hegemonia política pelos trabalhadores resultou na criação do estado pretensamente proletário, que faria a extração de mais-valia em nome dos próprios trabalhadores (criaram um ladrão em defesa da vítima do roubo). 
Tal postura deriva do desconhecimento (ou da desonestidade, o que é sempre pior) do caráter autotélico da forma-valor e de todos os seus construtos, que não permite a justa distribuição do dinheiro.
Cidadão Kane, o emblemático magnata desumanizado.
O dinheiro é como um dragão que, quanto mais se alimenta e maior fica, mais precisa de alimentos. Os trabalhadores sempre se ferraram na vã esperança de se tornarem senhores do valor que produzem. Nunca lhes ensinaram que precisavam superar o valor, o trabalho abstrato e a sua própria condição de trabalhadores, ao invés de incensá-la. 
O capital e o trabalho são faces de uma mesma moeda; espécies de um mesmo gênero (a forma-valor); e um não existe sem o outro. Portanto, ser anticapitalista e, ao mesmo tempo, defender o trabalho abstrato produtor de valor, que acumula capital, corresponde a uma contradição no próprio objeto teleológico. 
Assim, não precisamos de um governo diferente, mas de uma sociedade sem poder governamental; não existe economia solidária, vez que a lógica econômica é antes de tudo anti-solidária (precisamos de produção solidária); não precisamos de moedas próprias, mas de uma forma de distribuição dos bens produzidos, que, nem de longe, lembre a ideia de valor monetário; nem precisamos de escambo, que é a troca quantificada e mensurada pelo padrão valor, mas precisamos de trocas não quantificadas havidas em razão das necessidades de cada um e da capacidade de cada um produzir bens e serviços que não sejam mercadorias".
Nunca as condições da conjuntura político-econômica faram tão ricas em lições sobre a necessidade de rompimento com os pressupostos de produção e organização sociais capitalistas em fase de decomposição, que estão a promover um regresso ao asselvajamento bárbaro da humanidade. 
O aprofundamento da miséria, por si só, não promove a emancipação dos povos.
Entretanto, apesar da miséria e da barbárie se aprofundar, não é exatamente tal aprofundamento que poderá promover, por si só, a superação dos problemas. Se a miséria fosse um sinônimo de emancipação, os 15 países mais pobres do mundo (14 africanos, mais o Afeganistão) seriam a vanguarda do movimento emancipatório. 

O que é capaz de promover a emancipação diante das dificuldades crescentes é a consciência sobre as causas promotoras dessas mesmas dificuldades e que possibilitem, conscientemente, a tomada de posições emancipatórias. E é neste sentido que podemos buscar em Marx, tantas vezes considerado morto e sepultado, os ensinamentos tão úteis a tal conscientização, e sobre os seus ombros darmos a salto qualitativo que a vida social está a nos exigir. 

Se as forças reacionárias podem parecer fortes e bem encasteladas nas suas trincheiras institucionais e no poder do capital, a fragilidade dos seus pressupostos é ainda maior: eles podem ser superados com a força de uma postura coletiva que os negue, desde que se saiba o que fazer e por que fazer.  
Por Dalton Rosado

Já se tornou enfadonho nos debruçarmos sobre o lodaçal da política local e mundial, ainda que estejamos disputando o título de campeões nessa desonrosa disputa. O foco, agora, tem que ser outro. 

Nós não podemos mais nos iludir com a falsa dicotomia entre políticos de direita e de esquerda; entre a infrutífera e afirmativa briga do capital e do trabalho em busca do dinheiro, cada vez mais escasso; e na vã tentativa de retomada do desenvolvimento econômico, defendida por 100% dos políticos e pelos indivíduos sociais desavisados, buscando na causa do mal a solução para o próprio mal. 
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