domingo, 30 de novembro de 2014

NO PRESENTE, A ESTAGNAÇÃO. À FRENTE, A PERSPECTIVA DE ANO(S) PERDIDO(S).

Não digam que não avisei. Durante a campanha presidencial, cansei de alertar que o PT já tinha encerrado seu ciclo de contribuições positivas ao Brasil e se tornara um partido sem ideias nem ideais. 

Bastaram 30 dias para isto ficar mais do que evidenciado, com a montagem do novo Ministério decepcionando terrivelmente os eleitores de esquerda que acreditaram nas promessas de Dilma e obtendo a aprovação sarcástica das forças conservadoras e reacionárias que tudo fizeram para evitar a sua reeleição (as quais, para não perderem o hábito, mantém-na pressionada, entoando aos berros o coro de "quero mais!"). 

Trata-se do preço que ela está pagando para escapar de um processo de impeachment (submeter-se ao poder econômico para não ser por ele expelida)? Então, melhor seria encarar os riscos da batalha no Congresso Nacional. Ou deixaria de amargar uma agonia lenta ou adquiriria condições políticas e morais para governar de verdade, não precisando prostrar-se ao deus mercado de forma tão abjeta. 

O veteraníssimo Clóvis Rossi, na sua coluna dominical (Um começo bem medíocre, vide íntegra aqui), diz tudo que havia para se dizer sobre as escolhas de Dilma no fundamental, qual seja a condução da política econômica. Leiam e avaliem: 

Não poderia ser mais medíocre o primeiro ato do segundo mandato de Dilma Rousseff. 

...Se a candidata dizia, durante a campanha, que a governo novo correspondem ideias novas, o primeiro ato teria, obrigatoriamente, que ser o enunciado das tais novas ideias, no pressuposto de que elas de fato existam. 

Medíocre também foi o anúncio de que a prioridade do novo/velho governo será obter um superavit fiscal. Dou o devido desconto ao fato de que não cabia mesmo a Joaquim Levy/Nelson Barbosa/Tombini anunciar ideias novas que fossem além da economia. 

Essa era a tarefa inalienável da presidente. 

Ainda assim, há alguém aí que acredita que o Brasil terá todos os seus problemas resolvidos graças à prioridade concedida ao superavit fiscal anunciado? 

Levy fez apenas o papel para o qual foi convocado, o de falar aos agentes de mercado, que, de resto, nem sequer foram eleitores de Dilma. Nem pensar em falar aos eleitores da própria presidente e ao público em geral, que não fazem parte do que os argentinos gostam de chamar de "patria financiera".

É a fala de um burocrata, quando a estagnação em que se encontra a pátria --e não apenas na economia, mas também em educação, saúde, mobilidade urbana, segurança pública, infraestrutura e um vasto etc.-- exige um estadista. 

O novo governo mostrou-se refém dos detentores dos papéis da dívida pública. São eles que exigem um superavit fiscal que permita continuar tratando a dívida como algo sagrado que não se pode tocar.
  
...não estou pregando o calote, embora ache que, se empresas e indivíduos podem renegociar suas dívidas, por que o governo não pode? 

O que estou defendendo é que pelo menos se pense nas tais "ideias novas" do slogan de campanha. 

Ideias, como, por exemplo, uma taxação excepcional sobre o patrimônio, cujo resultado seria dedicado a eliminar ou reduzir a dívida pública. É a proposta de Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial, em seu livro "O Capital no Século 21". 

Manter o piloto automático (aumentar ou manter o superavit primário para pagar a dívida) é condenar o país à mediocridade por sabe-se lá quanto tempo. 

Até a "Economist", a revista que pediu a cabeça de Guido Mantega e saudou, com muitas ressalvas, a escolha da nova equipe econômica, diz que "o crescimento [da economia] cairá a princípio e pode não se recuperar por um ano ou dois". 

Você acha que o país está em condições de jogar fora nem que seja apenas um ano?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

DIZEM AS MÁS LÍNGUAS QUE ROGÉRIO CENI JOGARÁ ATÉ FICAR SENIL...

A tristeza da última eliminação
Próximo de completar 42 anos, o grande goleiro do São Paulo, Rogério Ceni, passou as duas últimas temporadas marcando e desmarcando sua aposentadoria.

É que ele, por vaidade, pretende pendurar as luvas após alguma conquista, mas o tricolor paulista vem frustrando seu sonho. 

Tendo virado o fio após a conquista do tricampeonato brasileiro (2006, 2007 e 2008), o São Paulo, desde então, só venceu a insignificante Copa Sul-Americana de 2012.

E acaba de perder a insignificante Copa Sul-Americana de 2014 para um timeco colombiano, em pleno Morumbi, com direito a uma das cobranças de pênalti mais ridículas da história do futebol, de autoria de Alan Kardec.
O convite inútil

Dois dias depois é anunciada a renovação do contrato de Ceni até agosto de 2015. 

Ou seja, refugou mais uma vez, depois de a coletiva de encerramento da carreira ter sido agendada e até o convite produzido.

Manga, que defendeu nossa Seleção no Mundial da Fifa de 1966, aguentou jogar até os 45 anos, mas os tempos eram outros.

Ceni ainda consegue realizar grandes exibições, mas as falhas grotescas também têm marcado incômoda presença (*).

Esticando indefinidamente o elástico, na esperança de conseguir algo incerto e cuja data não é sabida, Ceni acabará se desmoralizando. Melhor fez o são Marcos, do Palmeiras, que escolheu a hora certa para o adeus.

A música mais no espírito dos anúncios, desmentidos, hesitações, negaceios, idas e vindas de Ceni, é "Canto de Ossanha" ("Vai! Vai! Vai! Vai!/ Não Vou!/ Vai! Vai! Vai! Vai!/ Não Vou!".

Que, no vídeo abaixo, é magnificamente interpretada por Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho e Miúcha, em 1978, na Itália.



* este post foi escrito e publicado antes de Ceni falhar bisonhamente na tentativa de aplicar um chapéu no adversário, entregando um gol para o Figueirense no último domingo.

VIROU PORNOCHANCHADA: REINALDO AZEVEDO SUGERE QUE BOULOS FOI MOLESTADO NA INFÂNCIA.

A fina ironia de Guilherme Boulos no artigo Sugestões para o Ministério de Dilma (vide aqui) foi respondida por Reinaldo Azevedo com uma avalanche de ad hominem e baixarias, tanto na Folha de S. Paulo (aqui) quanto no blogue da nunca veja (aqui). 

Sem querer ele provou que uma sugestão do Boulos era equivocada: um sujeito tão limitado intelectualmente não serviria de jeito nenhum para ministro da Cultura, nem mesmo para suceder à nada brilhante Marta Suplicy. 

RA precisaria de uma professora que o botasse de castigo, obrigando-o a copiar cem vezes a frase: ironia se responde com ironia, sarcasmo com sarcasmo, quem parte logo para a agressão não passa de um desordeiro de botequim

Pessoalmente desaprovo a utilização da orientação sexual (real ou suposta) de algum desafeto como trunfo para sua desqualificação. Mas, não consigo deixar de rir quando a coisa é feita de forma tão espirituosa como num artigo que o Fernando Collor lançou para detonar o Itamar Franco, por quem se considerava traído. 

Não afirmou uma única vez que o dito cujo era gay, mas cada frase continha uma sugestão velada nesta direção. O ghost writer dele caprichou, conseguindo condensar, num espaço reduzido, uma verdadeira coleção de duplos sentidos homofóbicos. Meu lado de escritor foi conquistado pela verve do sujeito... 

Da mesma forma, Boulos bateu no RA com luvas de pelica, ao justificar, dirigindo-se a Dilma, sua indicação para a Pasta da Cultura: 
"Ele vive falando mal da senhora, mas acho que no fundo é tudo ressentimento. Uma ligação e ele se abre que nem uma flor. Vai por mim, até um rottweiler precisa de carinho. É isso que ele deve estar esperando há anos"
A reação do RA foi a mais banal possível, igualzinha a uma que eu tive aos 18 anos, quando era líder secundarista e, numa reunião com estudantes que tentávamos recrutar, uma participante disse que os defensores da luta armada eram homossexuais enrustidos querendo aparentar virilidade. Inexperiente, sem jogo de cintura, só me ocorreu retrucar com uma grosseria: 
"Se você quiser, podemos tirar a prova agora mesmo, na frente de todo mundo!"
Aos 53 anos, o RA só foi capaz de sair por idêntica tangente: 
"Não sei se notam a sugestão, nada sutil, de que sou um veadinho, 'que se abre que nem uma flor'. (...) Ele poderia tentar me ganhar, sem o apoio de seus bate-paus e incendiários, para sentir o perfume, hehe"
Sendo Boulos professor de psicanálise, talvez treplique com um lugar-comum freudiano: negações muito enfáticas costumam equivaler a afirmações às avessas. Mas, com certeza, ele deve ter conquistas melhores das quais se ocupar. Nem como veadinho (uso a terminologia dele) o RA seria atraente. 

Já esta suposição do colunista mais reacionário da revista mais reaça do Brasil está mais para chute na virilha, daqueles que brigões de rua desferem quando estão levando uma surra: 
"Esse rapaz foi molestado na infância e acabou ficando assim?" 
Desde quando ter sido vítima de um crime sexual em plena infância é algo de que alguém deva se envergonhar e que possa servir de munição contra ele?! Como pode um jornalista ter uma cabecinha tão pequena? Que conceitos aberrantes povoam a mente desse formador de opinião!

O RA parece um pugilista que está nocauteado em pé e continua lançando os braços mecanicamente para a frente. Por caridade, o Boulos deveria mandá-lo logo para a lona.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O BOLSONARO E O REINALDO AZEVEDO NÃO PODEM FALTAR NESSE DESPAUTÉRIO!

Faz muito tempo que eu não leio um artigo político tão pertinente e bem humorado como este que reproduzo abaixo, merecidamente na íntegra. 

O Guilherme Boulos, formado em filosofia pela USP e membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, está de parabéns! Deu o tratamento adequado à piada de mau gosto que a Dilma está tentando fazer passar por um Ministério

E que esta bem mais para um despautério... 

SUGESTÕES PARA O MINISTÉRIO DE DILMA 

Guilherme Boulos 

Nós dos movimentos sociais nos sentimos amplamente contemplados com os primeiros nomes para seu ministério. Governo novo, ideias novas. Os gestos não poderiam ter sido melhores. 

Joaquim Levy na Fazenda foi uma sacada de gênio, com grande sensibilidade social. Pena que o Trabuco não quis, mas confio que seu subordinado no Bradesco dará conta do recado. A Marina queria indicar gente do Itaú. O Aécio tinha obsessão pelo Dr. Armínio.

Mas esses, como a senhora disse na campanha, tomariam medidas impopulares. A solução certamente está com o Bradesco. Itaú de fato não pode, mas Bradesco... vá lá! 

Kátia Abreu na Agricultura achei um pouco ousado demais. Cuidado pra não ser chamada de bolivariana! Os índios e os sem-terra estão em festa pelo país. Não temos dúvidas de que o ministério terá um compromisso profundo com a demarcação das terras indígenas, o combate ao latifúndio e com a Reforma Agrária. 

Armando Monteiro no Desenvolvimento deixa seus detratores sem argumentos, muito bem! Dizem que a senhora não dialoga com a sociedade civil. Ora, como não? A Confederação Nacional da Agricultura em um ministério e a Confederação Nacional da Indústria em outro. Aí está a gema da sociedade civil, as entidades patronais. 

Tem gente sendo injusta com a senhora, dizendo que essas indicações sinalizam que seu governo irá aplicar o projeto derrotado nas urnas. Não se deixe levar por isso. Estão fazendo o jogo da direita, no fundo querem mesmo é desestabilizá-la. 

A senhora está no caminho certo. Para onde? Bom, esta é outra questão. Mas o que eu gostaria mesmo é de humildemente lhe apresentar algumas sugestões para a composição dos ministérios. 

Para a pasta das Cidades o nome é o Kassab. Homem experiente, foi prefeito de São Paulo e terá a oportunidade de aplicar nacionalmente o que fez por aqui. Imagine incêndios em favelas no Brasil todo! Vamos acabar de vez com esta herança arcaica que são as favelas, Kassab já mostrou que sabe fazer. 

Tem também a política de despejo expresso, sem necessidade daquela burocracia toda de uma ordem judicial. E é claro, leva com ele uma equipe íntegra e competente. Talvez o Aref como secretário-executivo, que tal? 

Nos direitos humanos não há muito o que discutir. É Bolsonaro na certa. Um homem que pauta com coragem grandes temas tabus como a tortura, o direito ao aborto, a maioridade penal e o papel dos militares na sociedade. Cabeça arejada e capacidade de dialogar com todos os setores sociais. Ele e a Kátia poderiam ser os novos interlocutores do movimento popular no governo. 

Nas Comunicações sugiro o Fabio Barbosa, da Veja. Já mostrou ser um tipo criativo. Sua capacidade de criar fatos e transformá-los em manchetes está mais do que demonstrada. 

Imagine isso tudo a serviço de seu governo! Os blogueiros radicais, que defendem democratização da mídia, podem não gostar. Mas paciência, nem Jesus agradou a todos. Afinal, a senhora poderá argumentar que a alternância no poder é necessária. A Globo já teve três ministros, agora é a vez da Veja

Para a Cultura eu tenho dúvidas. A Marta saiu com aquela cartinha mal-educada, querendo fazer média com o mercado. Convenhamos, a senhora foi muito mais esperta. Ao invés de fazer média com o mercado, trouxe ele para dentro do governo. Deixou a Marta falando sozinha. É preciso resgatar a credibilidade do ministério. 

Pensei primeiro no Lobão, porque ele pararia com essa história de impeachment e ainda traria o apoio da turminha dos Jardins. Se bem que esta turminha tem cada vez menos razões para lhe fazer oposição. Mas acho que ele prefere construir a carreira junto com o Aécio, não toparia. 

Talvez então o Reinaldo, homem culto e com ampla visão. Reinaldo Azevedo, sabe? Ele vive falando mal da senhora, mas acho que no fundo é tudo ressentimento. Uma ligação e ele se abre que nem uma flor. Vai por mim, até um rottweiler precisa de carinho. É isso que ele deve estar esperando há anos. 

Há quem possa achar minhas sugestões muito conservadoras. Mas estou preocupado com a governabilidade. Governabilidade é tudo, presidenta! É um fim em si, como demonstram suas escolhas e as decisões de governo nos últimos 12 anos. 

Se seguir minhas sugestões ao menos não poderão acusá-la de incoerente. Quem já convidou Levy, Kátia e Armando pode, pela mesma lógica irrefutável, convidar Bolsonaro, Fábio Barbosa e Reinaldo. Quanto ao Kassab, admito que a senhora teve a ideia antes e já anda sondando com ele. 

Cordialmente, despeço-me certo de que teremos a opinião considerada.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A INGRATIDÃO, ESSA PANTERA, VOLTA SUA SANHA CONTRA O OSCAR SCHMIDT.

Um dos traços mais deploráveis dos brasileiros é a ingratidão, essa pantera. 

Temos poucos grandes nomes e os tratamos a pontapés depois que passa o seu apogeu. Como se muitos, invejosos de quem fez é por merecer irrestrita admiração, estivessem esperando apenas o momento certo para os apedrejar. 

E não precisam esperar muito, pois a memória é bem curta nestes tristes trópicos 

O Tiradentes, nosso maior revolucionário do passado, está quase esquecido e seu feriado é dos menos festejados. Dez vidas ele tivesse, dez vidas ele daria. Quantos disseram o mesmo neste país pachorrento, cujo povo é tão submisso face aos tiranos? 

A extrema-direita consegue impedir, com manobras jurídicas, que a família do Lamarca receba uma reparação merecidíssima; e quase ninguém se incomoda. Ele ousou lutar, foi abatido como um cão por jagunços travestidos em agentes do Estado e agora os beneficiários do seu sacrifício extremo não ousam sequer pronunciar o seu nome! 

O Plínio Marcos, cujas peças a censura impedia que fossem encenadas, era obrigado a vender textos mimeografados na porta de teatros para sobreviver. Muitos que passavam para assistir às inocuidades em cartaz se desviavam como se ele fosse pestilento.

O Garrincha, que carregou nossa seleção nas costas em 1962, morreu praticamente na sarjeta. 

Depreciam o Oscar Schmidt por uma coisa (a política) infinitesimal diante dos seus feitos como esportista. E isto lhes dá pretexto para até ignorarem suas agruras terríveis, motivo óbvio do mau momento que teve como palestrante (vide aqui). 

Não deveria fazer palestras porque já é incapaz de controlar as alterações de comportamento que o tumor cerebral às vezes lhe provoca? Mas, abdicando do pouco que lhe resta na vida que ainda lhe resta, certamente morrerá mais depressa. A frustração dos pífios (*) de Caruaru pesa mais do que a compaixão do que qualquer ser humano nos deveria inspirar (e muito mais um dos nossos poucos nomes superlativos e memoráveis na atividade que exerceu!).  

Não reverenciam como deveriam a Maria Esther Bueno, o Gustavo Kuerten, o Nelson Piquet, o Emerson Fittipaldi, etc. 

O Eder Jofre disse tudo: "Se alguém quer me homenagear, que o faça agora, porque depois de morto não adianta nada". 

Como o Raul Seixas, que se ressentia muito do abandono por parte dos fãs quando o conheci, em 1980. Só após sua morte foi que o redescobriram. 

E é por ter falecido que o Ayrton Senna continua sendo tão cultuado; se estivesse vivo, enxergariam nele tantos defeitos quanto no Pelé ou no Oscar. 

Quando o mão santa morrer, talvez finalmente nos lembremos de como ele foi grande um dia... 

Faço restrições aos estadunidenses por muitos e bons motivos, mas nisto eles são bem melhores do que nós: sentem gratidão por seus ídolos e lhes dão todo reconhecimento. 

Só sobre o Muhammad Ali já vi ou tomei conhecimento da existência de uns 20 filmes. Sua carreira terminou em 1981, hoje é uma sombra do que foi, mas vive rodeado de enorme carinho, respeito e admiração. Como é o correto.

Por aqui, estaria esquecido e só se falaria dele quando surgisse oportunidade para o agredir covardemente, como acaba de fazer uma malta de linchadores virtuais. 

* é absoluta má fé me acusarem de desprezo pela cultura popular nordestina, pois nunca o tive. Inclusive, respeito e aprecio o trabalho da Banda de Pífanos de Caruaru. O que detestei foi a postura de alguns mimadinhos pífios de Caruaru. E isto está bem claro no meu texto anterior.

domingo, 23 de novembro de 2014

A BANDA DE PÍFIOS DE CARUARU E A LENDA VIVA OSCAR SCHMIDT

Oscar Schmidt é, simplesmente, o melhor jogador do basquete mundial em todos os tempos, o recordista absoluto de pontuação (49.703 pontos), o jogador de bola-ao-cesto que mais participou de Olimpíadas (5) e o que nelas mais pontos marcou (1.093). 

E mais: o atleta que lavou a alma de todos nós, brasileiros, nos Jogos Panamericanos de Indianápolis, EUA, em 1987. 

Os estadunidenses se julgavam senhores absolutos do basquete e não levavam a sério o adversário da finalíssima: nós. Tanto que uma jogadora da equipe feminina, depois de sagrar-se campeã no jogo inicial, pendurou sua medalha no pescoço do namorado, integrante da seleção masculina. Sem maldade; é que a vitória era dada como favas contadas, a ponto de ela nem sequer perceber quão arrogante e anti-esportivo havia sido seu gesto.

No primeiro tempo, eles chegaram a colocar 20 pontos na nossa frente, mas foram para o intervalo com uma vantagem um pouco menor: 14.

Oscar voltou do vestiário com incrível disposição, empolgando os companheiros. E passou a ter um aproveitamento fantástico nos arremessos de fora do garrafão. Fez jus ao apelido de mão santa.

Os estadunidenses, até então, não davam muita importância à novidade de os arremates de longe terem passado a valer três pontos, ao invés de dois. Estavam acostumados a articular tão bem suas jogadas que acabavam quase sempre finalizando de perto -e convertendo. Para que arriscar de longe, com risco bem maior de errar?

A incrível derrota diante do Brasil, por 120 x 115, os fez reconsiderar este conceito. Por obra e graça do Oscar, o brasileiro que deu uma aula de basquete na terra dos Harlem Globetrotters.

Como extraordinário esportista e como homem exemplar, ele fez por merecer nosso irrestrito respeito e a nossa mais humilde gratidão. 

Assim não pensaram, no entanto, alguns alunos de uma faculdade particular do Agreste de Pernambuco, que abriram o maior berreiro virtual por causa dos maus modos do jogador ao ministrar uma palestra. Como se seus egos chamuscados fossem tudo que importasse e uma trajetória grandiosa tivesse passado a significar nada.

Sentirão vergonha de sua pequenez, ao saberem agora o verdadeiro motivo do comportamento de Oscar? Duvido. A única imagem que importa para os mimadinhos da vida é aquela que eles veem no espelho.

Eis o outro lado da história, apresentado pelo jornalista esportivo Milton Neves:

"Sim, ele foi mal em Caruaru, decepcionando os pernambucanos.

Mas não foi de caso pensado.

Quem não sabe, graças a Deus, o que é ter um tumor maligno no cérebro, que atire tantas pedras neste bom homem, hoje atormentado e talvez condenado.

Meu saudoso avô materno, Luis Carlos Fernandes, ferroviário da Mogiana em Muzambinho-MG, morreu no Rio não resistindo a uma operação para retirada de tumor no cérebro.

Era um homem doce, mas se transformava com terríveis dores de cabeça.

Tanto que atirou um paralelepípedo em um galo do Sítio Invernada só porque o dono do terreiro cantou bem alto perto dele, um homem doente, com o fatal tumor na cabeça.

Calma com o Oscar, gente, o gigante nasceu no Rio Grande do Norte para ajudar o Brasil inteiro.

E como nos deu alegrias, hein?

Mas, hoje, ele não é mais dono de si ou de seus desatinos.

E nem de seu destino".

Obs.: o nome do ótimo conjunto de música instrumental da cidade é, claro, Banda de Pífanos de Caruaru. Mas, foram mesmo pífios os que se mostraram tão alheios e indiferentes à via crucis do Oscar.

UM RETROCESSO CHAMADO KÁTIA ABREU

Jânio de Freitas é um jornalista veterano (82 anos) que, após passar pela revista Manchete e pelo Jornal do Brasil (RJ), integrou uma equipe de redação lendária do Correio da Manhã (RJ) nos anos 60. 

Passou depois pela Última Hora (RJ) e pelo Jornal dos Sports, ingressando na Folha de S. Paulo em 1980. Sua coluna política, lançada em 1983, subsiste até hoje.

Não esconde sua simpatia pelo Partido dos Trabalhadores, mas é um profissional honesto, à moda antiga: não deixa de bater pesado no PT, quando o partido faz opções incoerentes com seus valores e sua história, como a anunciada transformação do Ministério da Agricultura em Ministério da Promoção do Agronegócio Predatório (pois esta será, na prática, a consequência de ter a ruralista Kátia Abreu como à sua frente).

Eis o que Jânio disse --e eu assino embaixo-- em sua coluna dominical, cuja íntegra pode ser acessada aqui

"...a apontada indicação da senadora Kátia Abreu para a Agricultura sugere, ou confirma, uma disposição incomum de Dilma Rousseff para incrementar problemas com as correntes não conservadoras. A senadora exerce com muita competência a liderança do agronegócio e dos grandes proprietários de terra. Mas nem todos os interesses que defende coincidem com o que deveriam ser objetivos do governo, de todo governo.

Dilma Rousseff entra no segundo mandato devendo muito para reparar os desempenhos deploráveis do seu governo em três capítulos da desgraça nacional: 
  • o problema indígena, sem as demarcações territoriais devidas e com o genocídio em progressão; 
  • a questão fundiária em geral, com imensos territórios tomados e explorados; 
  • e, ainda e sempre, a reforma agrária, pendente de correções e de avanços. Três assuntos em que o responsável pela Agricultura tem deveres e poderes muito grandes. 
Três assuntos em que os interesses representados pela senadora Kátia Abreu conflitam, em todos os sentidos desta palavra, com as vítimas e com as obrigações e as dívidas administrativas e sociais do governo Dilma.
O primeiro movimento para o novo governo parece feito em marcha a ré".

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

VÃO SURGINDO OS NOMES DO MINISTÉRIO FIM DE FEIRA

Para atrair tico-ticos o fubá do Palácio do Planalto serve...
Segundo mandato presidencial no Brasil costuma ser fim de feira, mas Dilma Rousseff não precisava exagerar. Os nomes que vão sendo definidos para o seu novo Ministério parece que conseguirão o impossível: fazer-nos sentir saudades do anterior...

Para pilotar a economia em transe, dois subalternos de governos anteriores, os esforçados Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento). Igualzinho a time de futebol sem banco de reservas à altura: quando o titular é convocado para a Seleção, o técnico bota um garoto da base e fica rezando para dar certo. Deus dificilmente atende. 

Milagreiro dos milicos pode ser ministro de fato. De direito, não.
Fico surpreso por ela não ter recorrido ao Delfim Netto, eminência parda da política econômica nos dois primeiros governos do PT.  Pelo menos, já está acostumado a jogar no time principal.

Talvez seja apenas para não associar-se de forma tão explícita à nefanda ditadura militar. Por baixo do pano pode, conforme reza o evangelho segundo Lula: bastaria botar um Antonio Palocci qualquer fingindo dar as ordens, enquanto estivesse seguindo aplicadamente as diretrizes traçadas por quem é do ramo.

Mas, se o motivo for a péssima reputação do gordo signatário do AI-5, o que dizer da escolha da grande dama do agronegócio selvagem, Kátia Abreu, para o Ministério da Agricultura? Aí eu não entendo mais nada...

Por que não mudar o nome para Ministério do Agronegócio?
Finalmente, como Dilma é bem diferente de Marina Silva e Aécio Neves (a quem ela atribuía vassalagem ao grande capital), o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio será Armando Monteiro, a menina dos olhos da Confederação Nacional da Indústria. 

E o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, só não ficou com a Pasta da Fazenda porque não quis. Entre o poderoso chefão Lázaro Brandão e a presidenta da República, ele preferiu obedecer ao primeiro. Entre o poder econômico e o poder político, ele sabe muito bem quem realmente manda no Brasil

Mais fim de feira, impossível.

PARA GABEIRA, DEPOIS DO JUÍZO FINAL VEM O APOCALIPSE...

Cada vez que aqui reproduzo textos alheios, recebo como troco as habituais espinafrações ad hominem, pois o debate de idéias e argumentos é estranho à maioria dos internautas. Estes preferem impugnar pessoas do que refletir sobre o que elas pensam. Seguem sempre a lei do menor esforço.

O diabo é que, assim, não sobra ninguém. Todo autor que escreve coisas minimamente interessantes pode ser acusado disto ou daquilo. A burrice, penhorada, agradece.

Então, tomei a decisão de acolher neste espaço o que, na minha avaliação, for inteligente e/ou consistente e/ou criativo e/ou relevante, pouco me importando os pecados e pecadilhos outrora cometidos ou atribuídos ao autor.

P. ex., vêm de longe minhas discordâncias e dissonâncias em relação ao Fernando Gabeira, mas seu artigo desta 6ª feira, 21, em O Estado de S. Paulo -Apocalipse, agora (acesse a íntegra aqui)- pegou no breu em vários trechos, os quais  reproduzo em seguida. 

Não estou endossando tudo que ele já escreveu, nem todas as decisões que tomou na vida. Mas, como o bom jornalista e perspicaz analista que ele é, hoje acertou várias vezes na mosca. E é isto o que importa, hoje. Quem fica escarafunchando o passado é arqueólogo.

Eis os trechos em questão:

"Passada uma semana do juízo final, ainda me pergunto: cadê a Dilma? Ela disse que as contas públicas estavam sob controle e elas aparecem com imenso rombo. Como superar essa traição da aritmética? Uma lei que altere as regras. A partir de hoje, dois e dois são cinco, revogam-se as disposições em contrário.

...Cadê você, Dilma? Disse que o desmatamento na Amazônia estava sob controle e desaba sobre nós o aumento de 122% no mês de outubro. Por mais cética que possa ser, você vai acabar encontrando um elo entre o desmatamento na Amazônia e a seca no Sudeste.

Cadê você, Dilma? Atacou Marina porque sua colaboradora em educação era da família de banqueiros; atacou Aécio porque indicou um homem do mercado, dos mais talentosos, para ministro da Fazenda. E hoje você procura com uma lanterna alguém do mercado que assuma o ministério.

Podia parar por aqui. Mas sua declaração na Austrália sobre a prisão dos empreiteiros foi fantástica. O Brasil vai mudar, não é mais como no passado, quando se fazia vista grossa para a corrupção. Não se lembrou de que seu governo bombardeou a CPI. Nem que a Petrobrás fez um inquérito vazio sobre corrupção na compra de plataformas. A SBM holandesa confessou que gastou US$ 139 milhões em propina.

E Pasadena, companheira?

O PT está aí há 12 anos. Lula vez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.

...É muito aflitivo ver o País nessa situação, enquanto robôs pousam em cometas e EUA e China concordam em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O realismo precisa chegar rápido para a equação, pelo menos, de dois problemas urgentes: água e energia. Lobão é o ministro da energia e foi citado no escândalo. Com perdão da rima, paira sobre o Lobão a espada do petrolão. Como é que um homem desses pode enfrentar os desafios modernos da energia, sobretudo a autoprodução por fontes renováveis?

Grandes obras ainda são necessárias. Mas enquanto houver gente querendo abarcar o mundo a partir das estatais, empreiteiras pautando os projetos, como foi o caso da Petrobrás, vamos patinar. O mesmo vale para o saneamento, que pode ser feito também por pequenas iniciativas e técnicas, adequadas ao lugar.

Os homens das empreiteiras foram presos no dia do juízo final. Este pode ser um caminho não apenas para mudar a política no Brasil, mas mudar também o planejamento. A crise hídrica mostra como o mundo girou e a gente ficou no mesmo lugar. Existe planejamento, mas baseado em regularidades que estão indo água abaixo com as mudanças climáticas.

O dia do juízo final não foi o último dia da vida. É preciso que isso avance rápido porque um ano de dificuldades nos espera. Não adianta Dilma dizer que toda a sua política foi para manter o emprego. Em outubro, tenho 30.283 razões para desmentir sua fala de campanha: postos de trabalho perdidos no período.

Não será derrubando a aritmética, driblando os fatos que o governo conseguirá sair do seu labirinto. 

...O ministro da Justiça vê o incômodo de um terceiro turno. Não haverá terceiro turno, e, sim, terceiro ato. E ato final de uma peça de teatro é, quase sempre, aquele em que os personagens se revelam. Por que esses olhos tão grandes? Por que esse nariz tão grande, as mãos tão grandes, vovozinha?"

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

JUÍZO FINAL: RIU MELHOR QUEM RIU POR ÚLTIMO!

"[Quando se constatou que] havia alguma coisa de podre no reino da Petrobras, meu primeiro pensamento foi o calvário de um jornalista, meu amigo Paulo Francis. No programa que então fazia, gravado em Nova York, ele acusou os sobas que mandavam na maior estatal do Brasil.

Não chegou a citar nomes, falou que o estado maior da Petrobras, engenheiros, diretores e seus respectivos patronos formavam uma quadrilha de bandidos que roubavam descaradamente a empresa, justamente em sua cúpula administrativa e técnica.
Evidente que a 'suspeita' do Francis foi desmoralizada pela própria Petrobras, que usando e abusando do dinheiro da fraude, processou o jornalista por calúnia, no foro de um país que tem a fama de ser o mais severo na matéria. A multa chegaria a US$ 100 milhões, mais custas e honorários.

...A Petrobras, com o dinheiro dos outros, venceu a questão.

Paulo Francis entrou em depressão, tal e tanta, que meses depois morreu subitamente..." (Carlos Heitor Cony)

domingo, 16 de novembro de 2014

JUÍZO FINAL: O QUE VEM DEPOIS?

Dois dos expoentes mais conhecidos da nova direita se indignaram com a participação de pregadores de um golpe militar nos protestos deste sábado, 15: Reinaldo Azevedo garantiu que, na capital paulista, a grande maioria dos participantes estava lá só para pedir o impeachment de Dilma, e não uma reditadurização do País; e Lobão foi embora quando notou a existência de faixas das vivandeiras de quartéis.

Sinceridade ou conveniência tática? Sei lá. Não serei eu a apresentar como verdades absolutas as minhas conjeturas -ainda mais quando estas se referem a personagens com os quais antipatizo. Vejo o ad hominem e as campanhas de satanização como duas das maiores pragas da internet, então tento ser justo com todos, até mesmo com os Azevedos e Lobões.

O certo é que o ingrediente verde-oliva só entra nas receitas golpistas no momento de levar a porcaria ao forno. Trata-se do toque final do chef. Então, quem fala nisso precocemente está sendo tão desastrado quanto quem vandaliza portas de editoras.

É gratificante perceber que as quarteladas se tornaram tão impopulares no Brasil que a própria direita tenta delas se dissociar.

Mesmo assim, não devemos baixar de todo a guarda. Salta aos olhos que a cartada do impeachment será tentada e tem chance de resultar. As hipóteses, então, serão três:
  • o governo conseguir evitar que o impedimento seja votado pelo Congresso, o que manteria  intacto o potencial nocivo desta bandeira e, pior ainda, levaria água para o moinho dos que defendem uma solução inconstitucional;
  • o impeachment tramitar, ser votado e rejeitado, o que provavelmente desarmaria a bomba-relógio, garantindo a incolumidade do Governo Dilma;
  • o impeachment ser aprovado, o que levaria ao poder Michel Temer, o qual dificilmente terá deixado sua digital impressa numa ilegalidade que justificasse também sua impugnação (é matreiro demais para isto e não responde pelos pecados alheios, como a presidenta). 
Numa análise fria, as perspectivas são estas.

E eu insisto que a pior possibilidade possível é a do golpe de estado. No século passado, nossa primeira ditadura durou 15 anos e a segunda, 21. Depois de instaladas, é muito difícil as removermos. E o preço que por elas pagamos, do ponto de vista da civilização, é altíssimo. Equivale a retrocedermos um milênio, voltando ao absolutismo medieval.

Acredito que, como consequência da Operação Lava-Jato da Polícia Federal e de seu novo desdobramento (Juízo Final), bem como do que ainda está por vir, o Governo Dilma terá pouquíssima credibilidade se simplesmente driblar o desafio. Vai se tornar um morto-vivo, a exemplo de Guido Mantega, que está ministro da Fazenda mas há bom tempo deixou de ser visto, acatado e respeitado como tal.

Para o Brasil, o melhor será se a rejeição do impeachment colocar uma pedra em cima do assunto da conivência ou não de Dilma com a corrupção na Petrobrás; ou se a aprovação do impeachment desobstruir os trilhos para sairmos do limbo atual. 

sábado, 15 de novembro de 2014

TEMPESTADE À VISTA!

O post do início da tarde desta 6ª feira (14), Amanhã é dia do PT segurar seus radicais (clique p/ abrir), foi a forma que encontrei para ir fazendo os companheiros petistas se compenetrarem de uma perspectiva desagradável: Dilma Rousseff dificilmente chegará ao final de 2015 como presidenta da República.

E a crise se agravou ainda mais com o lançamento, por parte da Polícia Federal, de uma nova e estridente fase da Operação Lava-Jato --a qual, somada às investigações estrangeiras, praticamente obriga outros órgãos e Poderes a saírem de sua letargia, começando a cumprirem verdadeiramente seu papel. 

Para os petistas ainda lembrados da velha dialética que aprendíamos no comecinho da nossa trajetória na esquerda, explico didaticamente: a quantidade de evidências insofismáveis de corrupção governamental já é suficiente para gerar um salto de qualidade, qual seja o questionamento do governo como um todo. O escândalo tem proporção muito maior que o do mensalão e deixa o Collorgate no chinelo.

Dilma, pateticamente, reluta em descartar Graças Foster, quando deveria é estar se ocupando das próprias chances de permanência no poder, cada vez menores.

Então, só me resta reforçar o recado dado nas entrelinhas do texto anterior: é o pior momento possível para radicalismos na defesa do mandato de Dilma, pois existe enorme risco de novamente inaugurarmos a temporada de golpes de direita na América do Sul, como aconteceu em 1964.

Caso as consequências políticas da petrotempestade sejam decididas pelo Congresso, aprovando ou negando o impeachment de Dilma, permaneceremos no terreno da civilização. Com as regras do jogo democrático mantidas, o PT poderia até dar a volta por cima na eleição presidencial de 2018, por que não? Foi o que Getúlio Vargas fez em 1950.

Se, contudo, os petistas conseguirem fechar esta porta, evitando que o impeachment seja objeto de deliberação do Legislativo, todos deveremos precavermo-nos contra a repetição dos cenários de 1954 e 1964, que passará a ser uma possibilidade bem concreta. 

Quem conhece a direita brasileira sabe que, em tais situações, a porta seguinte na qual ela bate é sempre a mesma: a dos quartéis.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

AMANHÃ É DIA DO PT SEGURAR SEUS RADICAIS

Os radicais de 1975 foram contidos e a redemocratização avançou.
Um episódio emblemático da redemocratização do Brasil, verdadeiro divisor de águas, foi a missa de sétimo dia de Vladimir Herzog, oficiada por religiosos de três confissões na Catedral da Sé, em 31 de outubro de 1975.

Geisel, que via fortemente ameaçada sua distensão política lenta, gradual e progressiva, prometeu que o ato ecumênico não seria reprimido, desde que houvesse comedimento por parte dos participantes: "Segurem seus radicais, que eu segurarei os meus!"

Isto não significava apenas colocar focinheiras nos agentes da repressão que obedeciam estritamente à cadeia de comando; ele assumiu, na prática, o compromisso de evitar as provocações daqueles que, nas sombras, tentavam criar ou propiciar incidentes capazes de frustrar a redemocratização do País (há quem afirme que a própria prisão de Herzog teve este objetivo, pois poderia ensejar manifestações estudantis em solidariedade a um dos professores mais queridos da ECA/USP). 

Os aloprados de 2014 só deram munição para o inimigo
Ele cumpriu a palavra. Então, afora o enorme congestionamento de trânsito que as autoridades causaram para atrapalhar a chegada da multidão à cerimônia, nada houve para empanar o brilho daquela altaneira manifestação de repúdio ao arbítrio. E a abertura não só continuou avançando, como ganhou impulso.

Segurar os radicais é a postura que as autoridades governamentais e os movimentos sociais afinados com o petismo deveriam adotar neste 15 de novembro, quando descontentes com a reeleição de Dilma Rousseff e com os escândalos de corrupção prometem sair às ruas em várias cidades brasileiras. 

Dificilmente tais atos de inconformismo reunirão mais de alguns milhares de manifestantes e, não havendo conflitos, sua repercussão política tende a ser pouca.

Já se ocorrer truculência policial ou enfrentamento com aloprados do petismo (como aqueles que foram dar tiros no pé diante da Editora Abril), poderá ser o estopim de uma nova temporada de protestos, do tipo da iniciada em junho/2013.

Com a diferença de que os focos, daquela vez, foram bem menos perigoso para as instituições: inicialmente as tarifas do transporte coletivo, depois as maracutaias da Copa. 

Agora o que se pretende, em última análise, é colocar em xeque a permanência de Dilma Rousseff na Presidência da República.

Por ora, são marchas de gatos pingados. Que fiquem assim.
Então, todo cuidado é pouco. Se isto virar campanha de rua, poderá crescer como bola de neve e começaremos a flertar com o pior retrocesso possível e imaginável: um novo 1964.

Olhando o quadro pragmaticamente, parece-me inevitável que as forças de direita façam alguma tentativa nesta direção. Ao governo caberá a escolha do terreno em que travará a batalha: 
  • se tudo fizer para evitar que o impeachment seja votado no Congresso Nacional, correrá o risco de ver seu eventual sucesso transferir a decisão para as ruas, na forma de golpe de Estado;
  • se preferir encarar essa luta no parlamento, ou perderá o anel  mas conservaremos os dedos, ou vai obter uma categórica confirmação do mandato de Dilma, que servirá como forte dissuasivo contra eventuais tentativas golpistas.
Aliás, vale esclarecer, a retórica petista é falaciosa ao confundir pedido de impeachment com golpismo. Trata-se, isto sim, da via constitucional para os cidadãos se livrarem de governantes que estejam descumprindo gravemente sua missão. Têm todo direito de o tentarem, desde que cumpram os requisitos legais para tanto, e o Brasil não acabará por causa disto, como não acabou quando Fernando Collor foi expelido.

Já os golpes de estado desencadeiam horrores e atrocidades em cascata, além de tornarem o país um pária entre as nações, com os enormes danos econômicos, políticos e sociais decorrentes.

BIGODES CONVERGENTES

"Lá estava eu, trabalhando duro, procurando fazer meu dever, sem saber que tivesse algo de mau na cabeça. E daí comecei a falar dormindo. Sabes o que me ouviram dizendo? (...) 'Abaixo o Grande Irmão!'. Sim, foi o que eu disse. E disse muitas vezes, ao que parece...

- Quem te denunciou? - perguntou Winston.

- Minha filhinha - respondeu Parsons, com uma espécie de melancólico orgulho. - Escutou pelo buraco da fechadura. Ouviu o que eu disse e contou às patrulhas no dia seguinte." (1984, George Orwell)

Esta reminiscência do stalinismo veio-me à mente ao ler que o Partido Socialista Unido da Venezuela lançou uma repulsiva campanha para incentivar seus membros a delatarem supostos inimigos infiltrados. Questão de ordem, companheiro: acabei de te denunciar como espião...

Nem precisarão dedurá-los pessoalmente à Polícia do Pensamento versão 2014; vão poder fazê-lo por e-mail ou SMS.

Não se trata da vida imitando a arte, porque Orwell se baseou em situações reais: crianças caguetavam mesmo seus pais na pátria da revolução traída.

O bigodudo Maduro parece ser bom discípulo do bigodudo georgiano...

"O GENTLEMAN JOGOU, MAS NÃO DESTRUIU"

Nesta 5ª feira (13), o maior tenista de todos os tempos comprovou novamente que, além de extraordinário esportista, é um grande homem.

No torneio final da temporada da ATP, reunindo os oito melhores do ano, ele reduzia a pó Andy Murray: venceu o 1º set por 6x0 (o chamado pneu), vencia o 2º por 5x0 e, já estando com 0-30, poderia facilmente impor ao escocês uma bicicleta, suprema humilhação para o adversário. Bastaria marcar outros dois pontos.

De repente, seu jogo perdeu contundência e precisão por alguns instantes, o suficiente para Murray recuperar-se e salvar o game. Depois, claro, Federer voltou ao normal, liquidando a fatura em 6x1.

Fernando Meligeni, o bom Fininho, disse tudo:
"...tenho certeza de que ele viu o tamanho do buraco em que o adversário, mas não inimigo, iria entrar. O gentleman jogou, mas não destruiu".
Atitude idêntica à dos jogadores alemães que não se esforçaram para impedir o gol de honra brasileiro, quando massacravam nossa Seleção por 7x0 no último Mundial da Fifa.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

PECADO MORTAL DO PT, SEGUNDO O FREI BETTO: "O PROJETO DE BRASIL DEU LUGAR AO DE PODER".

"...os princípios éticos foram maculados..."
Mais um dos grandes nomes do petismo admite que o partido se descaracterizou a ponto de estar hoje quase irreconhecível: o Frei Betto, um dos dominicanos presos e torturados pela ditadura militar por apoiarem a ALN de Carlos Marighella. 

Autor de 59 livros, dentre eles o clássico Batismo de sangue, é assessor de movimentos sociais e recebeu vários prêmios por sua atuação na defesa dos direitos humanos.

Em A fábula petista (clique p/ acessar o texto integral), artigo publicado nesta 2ª feira, 10, na seção de debates da Folha de S. Paulo, ele se alinha com os petistas que exigem uma correção de rumos e urgente volta às origens do partido.

Eis os trechos principais: 

"...os núcleos de base desapareceram..."
Nas décadas de 80 e 90, o partido se fortaleceu com filiados e militantes trabalhando como formigas na base social, obtendo expressiva capilaridade nacional graças às Comunidades Eclesiais de Base, ao sindicalismo, aos movimentos sociais, respaldados por remanescentes da esquerda antiditadura e intelectuais renomados.

No fundo dos quintais, havia núcleos de base. Incutia-se na militância formação política, princípios ideológicos e metas programáticas. O PT se destacava como o partido da ética, dos pobres e da opção pelo socialismo.

À medida que alcançou funções de poder, o PT deixou de valorizar o trabalho da formiga e passou a entoar o canto presunçoso da cigarra. O projeto de Brasil cedeu lugar ao projeto de poder. O caixa do partido, antes abastecido por militantes, "profissionalizou-se". Os núcleos de base desapareceram. E os princípios éticos foram maculados pela minoria de líderes envolvidos em maracutaias.

...Em 12 anos, os êxitos de políticas sociais e diplomacia independente não foram consolidados pela proposta originária do PT: "Organizar a classe trabalhadora" e os excluídos.
"...o PT despolitizou o Brasil..."

Os avanços socioeconômicos coincidiram com o retrocesso político. Em 12 anos de governo, o PT despolitizou a nação. Preferiu assegurar governabilidade com alianças partidárias, muitas delas espúrias, em vez de estreitar laços com seu esteio de origem, os movimentos sociais.

...O PT até agora robusteceu o mercado financeiro e deu passos tímidos na reforma agrária. Agradou as empreiteiras e pouco fez pelos atingidos por barragens. Respaldou o agronegócio e aprovou um Código Florestal aplaudido por quem desmata e agride o meio ambiente.

...Se o PT pretende se refundar, terá que abandonar a postura altiva de cigarra e voltar a pisar no chão duro do povo brasileiro, esse imenso formigueiro que, hoje, tem mais acesso a bens materiais, como carro e telefone celular, mas nem tanto a bens espirituais: consciência crítica, organização política e compromisso com a conquista de "outros mundos possíveis".

sábado, 8 de novembro de 2014

MAIS RESPEITO COM BOLIVAR E COM CHÁVEZ, POR FAVOR!

Uma pretensa inclinação bolivariana do PT vem sendo, há bom tempo, o principal espantalho que a direita golpista utiliza em suas tentativas de recriar o clima de 1964.

Então, quando o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, bate de novo nesta desafinada tecla, vem bem a calhar a desmistificação da dita falácia por parte de Demétrio Magnoli (o qual, aliás, ostenta o pitoresco título de "doutor em geografia humana" -existirão também doutores em antropologia territorial?). A sua coluna deste sábado  (8) na Folha de S. Paulo,  'Bolivariano', você disse?, pode ser acessada aqui.

Há quem considere inadmissível um homem de esquerda concordar em seja lá o que for com Magnoli, mas isto não passa de grotesquerie stalinista com ranço de fanatismo religioso medieval. Lembrando um velho chavão, até um relógio quebrado (daqueles antigos, com ponteiros) marca a hora certa duas vezes ao dia. Eu julgo quaisquer argumentos por seu valor intrínseco, ponto final.

De quebra, Magnoli desfaz outra empulhação, a de que o PT atual tenha conservado um mínimo que seja do revolucionarismo presente no seu DNA de 1979.  Nem a pau, Juvenal...

Eis os oportunos esclarecimentos de Magnoli:
"A revolução 'bolivariana' definiu como meta política a unificação da América Latina contra os EUA e, como meta econômica, a implantação de um sistema estatista. 
No tempo do 'Lula-lá', aqui também era assim...
O lulopetismo não compartilha tais metas. Na economia, procura modernizar o capitalismo de estado varguista. Na política, almeja apenas uma perene hegemonia. O regime chavista é revolucionário; o lulopetismo é populista e conservador... 
Há uma diferença crucial de origem. O movimento 'bolivariano' é fruto da ruptura: nasceu do colapso da democracia oligárquica venezuelana, no 'caracazzo', o levante popular de 1989, e consolidou-se após o frustrado golpe antichavista de 2002.
O lulopetismo, pelo contrário, é fruto da continuidade: surgiu com a redemocratização e conquistou o Palácio na moldura da estabilização da democracia. O chavismo substituiu a desmoralizada elite política venezuelana; o lulopetismo integrou-se às elites políticas tradicionais, até converter-se no fiador principal de seus negócios e interesses.
Palavras servem para iludir. Os ataques 'bolivarianos' da campanha de Dilma contra Aécio funcionaram como toque de reunir para os movimentos sociais, o PSOL e os intelectuais de esquerda. Confrontado com o risco de derrota, o lulopetismo precisava recuperar uma franja periférica do eleitorado que se dispersava.
...ahora, no más. O fervor das massas ficou na saudade. 
Concluída a disputa, o governo realiza o giro ortodoxo, abandonando a 'nova matriz econômica'. 
O estelionato, anunciado pela elevação dos juros, tem roteiro conhecido: recomposição de preços de combustíveis, choque de tarifas de energia, ajuste fiscal. Os chavistas vestem-se de vermelho o tempo todo; Lula e Dilma trocam o vermelho pelo branco assim que as urnas se fecham".
Nada a objetar. Magnoli está certíssimo ao concluir que "a Venezuela não é aqui" e que inexiste risco de o STF se transformar numa corte bolivariana, "pois não será posto a serviço de um projeto político revolucionário".

E, para esquerdistas que não abdicaram do espírito crítico, ele não conta nenhuma novidade ao constatar que o PT só retira a retórica antiga do arquivo morto em períodos eleitorais, logo remetendo-a de volta para o esquecimento.
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