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sábado, 21 de outubro de 2023

KAROL ELLER PAGOU COM A VIDA PELO CHARLATANISMO DA 'CURA GAY'

 


O
suicídio da influenciadora bolsonarista Karol Eller, muito ativa nas redes sociais, trouxe a público um dos efeitos nefastos do fundamentalismo religioso misturado com a política de extrema direita. Remando contra a maré, Karol levava vida normal de uma homossexual com sua namorada, porém, já em 2016, havia publicado um vídeo no qual explicava ser admiradora do então deputado federal Jair Bolsonaro, mesmo sendo lésbica. Foi o começo de um erro fatal, pois dessa admiração passou à adesão, sem perceber a incompatibilidade existente entre ela e os homofóbicos, e tão pouco a manipulação da qual acabaria sendo alvo.

Para o clã Bolsonaro, evangélicos e o Partido Liberal, essa adesão da homossexual Karol se tornou uma peça importante diante das acusações de homofobia que lhes eram feitas. Por isso, logo houve uma aproximação do presidente com a jovem, já ativa nas redes sociais antes das eleições, em que possuía quase um milhão de seguidores.

Karol, cujos vídeos eram antes dedicados à sua condição de brasileira vivendo nos EUA, logo passou a postar vídeos políticos com Eduardo Bolsonaro e com o deputado Marco Feliciano.

Talvez sem perceber o alto preço que lhe seria cobrado, Karol logo entrou na engrenagem que lhe colocaria em conflito consigo mesma, ao ser integrada na equipe de comunicação do governo Bolsonaro, na Empresa Brasileira de Comunicação - EBC.

Para completar sua imagem de homossexual redimida, Karol anunciou "renunciar à prática homoafetiva por amor a Jesus", no canal de nome bem sugestivo, Cristão Também Pensa... Sua conversão ao evangelismo foi nestes termos: "sem ele eu já estava morta, então minha decisão de morrer para o mundo".

A declaração dessa conversão ocorreu na igreja Assembléia de Deus, de Rio Verde/Goiás, depois de passar por um processo que se poderia chamar de lavagem cerebral usada em ditaduras, num retiro de jovens homossexuais com o nome de Maanaim.

Um pastor, em off, no vídeo em que Karol anuncia sua conversão, usando uma blusa azul celestial com a palavra Deus, impressa verticalmente em grande letras, anuncia: "Karol, depois do seu retiro espiritual, anuncia sua decisão de renunciar aos seus desejos carnais para atender à vontade de Deus".

Apesar de se considerarem cristãos, os evangélicos seguem de perto o Velho Testamento judáico e utilizam nomes e figuras hebraicas. No caso de Manaaim, dois campos, é o nome de uma localidade da época de Jacó, mencionada na Bíblia.

Comentando o trágico suicídio da influenciadora bolsonarista de 36 anos, demonstrativo de uma extrema angústia, depressão e desespero, o ex-apresentador da Jovem Pan, Tiago Pavinatto, disse nas redes sociais que isso foi decorrência "do seu ingresso num processo de reorientação sexual" como os evangélicos denominam a Cura Gay. Bolsonaro dizia que "uma boa surra cura menino gay", os pastores curam os homossexuais com orações, ameaças do fogo do inferno e versículos bíblicos, destruindo a estrutura pessoal de suas vítimas.

Karol não estava doente e nem era uma  pecadora, simplesmente seu corpo não era atraído, não sentia desejo sexual por homens, mas por mulheres. Um absurdo, uma torpeza, o pastor deputado Magno Malta dizer que Deus preparava um "varão para Karol"!

Pobre Karol que, provavelmente, percebeu, um mês apenas depois de anunciar sua conversão, não poder controlar sua natureza de mulher lésbica, mas comprometida com a farsa da cura, num covil dominado por homofóbicos e misóginos, dignos da Idade Média, não viu outra saída senão a morte.

Para o PL, esse suicídio é uma dura perda, pois foi o próprio Jair Bolsonaro quem filiou Karol ao seu partido, numa solenidade na Assembléia Legislativa de São Paulo. O objetivo era o de utilizar a popularidade de Karol, a homossexual convertida, como candidata à vereança pela cidade de São Paulo, para reforçar a campanha dos bolsonaristas contra Guilherme Boulos. Karol desfrutava de toda confiança do clã Bolsonaro e seus seguidores, pois esteve na manifestação golpista do 8 de janeiro em Brasília e, por isso, perdeu seu emprego na EBC. Mas logo se tornou assessora especial do deputado estadual paulista do PL, Paulo Mansur.

A morte de Karol foi lamentada pelo ex-presidente, pelos deputados federais Nikolas Ferreira e por Magno Malta, também pastor, que poderia ser interpretada como uma mea culpa, lágrimas de crocodilo sem reconhecimento do erro e do crime que cometem contra os homossexuais.

Leonardo Sakamoto, do Uol, pronunciou um comentário sobre o mecanismo no qual se envolveu Karol. As redes sociais de esquerda foram ativas na denúncia do processo de Cura Gay, ao qual foi submetido Karol, como o Portal do José e o do Clayson. Marcante foi a declaração ao vivo de Andréa Gonçalves, no seu Canal Youtube, dizendo-se também lésbica, ter uma companheira e denunciando a homofobia evangélico-bolsonarista. Karol Eller acabou sendo uma vítima da ideologia homofóbica de seus amigos, para os quais o homossexualismo é uma doença ou um pecado curável.

Na falta de um projeto social para os brasileiros, a bancada evangélica homofóbica agita e mobiliza seus seguidores bolsonaristas com manifestações contra o aborto e em favor do projeto de lei proibindo o casamento entre homossexuais, o que constituiria um retrocesso na legislação brasileira! (por Rui Martins) 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

ZANIN E O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO NO STF

 


Qual a diferença entre um fanático islamita do Iraque e um fanático cristão evangélico brasileiro? Vamos recorrer à literatura. No caso, ao prestigioso prêmio Goncourt do primeiro romance de 2021, concedido à escritora argelina Emilienne Malfatto por seu livro Que por você se lamente o rio Tigre.

É a história do último dia de uma jovem iraquiana que será morta por seu irmão pelo crime de ter ficado grávida sem ter antes se casado religiosamente, como manda a lei do Profeta. Para manter a honra da família, seu irmão, assim que chegar do trabalho, quebrará sua cabeça com uma grande pedra e ninguém mais poderá pronunciar seu nome. Esse crime não será punido porque, na verdade, sua irmã pecadora nunca existiu…

A outra história de pedra, ou melhor pedras, é contemporânea. São 40 mil metros quadrados de pedras, importadas de uma pedreira de Hebron, na Cisjordânia, terra do patriarca Abraão, pelo fanatismo de Edir Macedo, para construir o Templo de Salomão da Igreja Universal. Pedras consideradas sagradas, na qual tocam com fervor as mãos dos fiéis pentecostais, à espera de bençãos e milagres, em gestos idólatras de pedralatria?

Vamos deixar de lado o fanatismo feminicida iraquiano. Felizmente, as fogueiras cristãs onde se assavam hereges já se apagaram faz tempo, embora a exigência da submissão feminina ao homem, considerado ser superior pelo livro sagrado, continue de maneira mais soft. O que nos interessa agora são as pedras. As pedras vindas em navio cargueiro em 2011.

Quantos milhões de reais teriam custado esses 40 mil metros quadrados de pedras sagradas, que não podem ser mastigadas pelos 30 milhões de famintos brasileiros? Quantos pãezinhos poderiam ter sido comprados para serem distribuídos numa Santa Ceia nacional? De nada adiantou Jesus ter alertado: “qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra?”; Edir Macedo trouxe pedras de Hebron, na Cisjordânia, em lugar de pão, e essa importação de pedras sagradas não preciosas implicava no pagamento de um imposto de importação igual a 85 mil reais. Edir Macedo se revoltou com essa imposição tributária.

É verdade, embora o Brasil seja um país laico, não siga a lei mosaica e garanta a liberdade de as pessoas terem outras crenças além da evangélica, existem as exceções, e no Brasil as exceções parecem ser a regra! Uma dessas exceções é a de que os pastores e as igrejas evangélicas não paguem impostos, nem o de renda. Ao que a Receita Federal retorquiu com outra exceção: a imunidade tributária concedida aos evangélicos e às outras religiões só vale dentro do território brasileiro, não inclui o comércio exterior.

De nada adiantou Edir ter convidado Dilma Rousseff à inauguração do Templo de Salomão com pedras de Hebron. Como também de nada adiantou Dilma ter quebrado o princípio da laicidade ao participar dessa inauguração, esperando ali conquistar a confiança dos pentecostais evangélicos. Se as pedras falassem, muito teriam o que contar.

Diante da resistência da Receita Federal, apoiada numa decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, existe a informação do pagamento do imposto pela Igreja Universal, no ano passado, no governo Bolsonaro. Porém, Edir Macedo fez um apelo à suprema instância que, provavelmente por milagre divino, caiu por sorteio para decisão monocrática com o ministro terrivelmente evangélico, André Mendonça, que chutou mais para baixo o princípio da laicidade do Estado brasileiro. Agora, a imunidade a impostos, ICMs inclusive, é mista, incluindo “o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades imunes”.

Ou seja, essa decisão de que importar pedra sagrada não precisa pagar imposto, pode abrir caminho para outras importações religiosas talvez mais valiosas do que pedras, desde que sirvam à missão da igreja. A porta foi aberta. Se Lula decidir dar mais alguns favores aos evangélicos, poderemos falar numa evangelização do STF, mesmo porque, embora não sendo evangélico, o mais recente ministro Cristiano Zanin vem se revelando conservador como os evangélicos, reforçando posições retrógradas e poderá travar aberturas esperadas pela esquerda.

Isso é bastante sintomático, ou seja, em poucos dias como ministro, a imprensa de esquerda e mesmo centro esquerda está assustada, pois Zanin terá pela frente uns 25 anos como ministro. Zanin preocupa os líderes de movimentos sociais petistas, que se sentem traídos, depois dos votos do novo ministro contra a equiparação da homotransfobia ao crime de injúria racial, contra a esperada descriminalização do porte de maconha para consumo pessoal e contra o princípio da insignificância para furtos de pequeno valor. Jurista experimentado na advocacia, Zanin parece mais fiel ao teor e letra da lei que à aplicação social da lei, lembrando nisso o rigorismo do inspetor Javert de Os Miseráveis.

A esperança agora é a indicação de uma mulher negra, porém desde que não seja evangélica porque isso poderia significar mais um reforço dos conservadores e criaria problemas em questões relacionadas com LGBT, aborto e igualdade racial. (por Rui Martins) 


domingo, 20 de novembro de 2022

COMEÇA O MUNDIAL 2022 NUM PAÍS QUE AINDA ESTÁ EM 1022

"A miséria religiosa constitui, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola" (Karl Marx)

segunda-feira, 23 de maio de 2022

A HOMOFOBIA NO CLÁSSICO, O IDENTITARISMO E OUTRAS MAZELAS

S
ou neto de italiano por parte de pai e bisneto por parte de mãe. Mas as raízes familiares, se me influenciaram em algo, foi pouco, porque me chegaram bem diluídas. 

Mesmo meu pai, que ficou órfão aos 11 anos, só aprendeu a arranhar o idioma porque era empregado de um grande cotonifício cujo proprietário, dirigentes e muitos colegas de trabalho tinham origem italiana.

Então, eu diria que pesaram muito mais na formação da minha personalidade os filmes humanistas e irreverentes que os italianos produziam nas décadas de ouro de1960 e 1970.

Assisti a boa parte deles e me senti traído quando, defendendo a liberdade do escritor Cesare Battisti, percebi que a outra face do povo italiano (a prostração infantilizada a homens fortes como Mussolini, Berlusconi e Salvini) atravessava os tempos, sobrevivendo à derrocada fascista na 2ª Guerra Mundial. 

Enfim, por temperamento e reações, desde cedo pareço me reger pelo bordão aristotélico a virtude está no meio. A ponto de quem me conhecia apenas pelos textos às vezes estranhar quando constatava que eu pessoalmente me assemelhava mais aos brasileiros cordiais de outrora do que aos estereótipos de revolucionário inflamado.

Mas, aí entrava a minha formação teórica: aos 17 anos já estava careca de saber que as soluções intermediárias nada resolvem na política brasileira, pois a desigualdade e o autoritarismo estão de tal forma entranhados que só uma transformação em profundidade fará com que os brasileiros em si se transformem em brasileiros para si

Daí eu nunca, nem mesmo durante a ditadura militar, ter-me sentido tão peixe fora d'água como neste terrível retrocesso civilizatório que vem desde que os erros crassos do PT ensejaram a volta triunfal da ultradireita ao poder na segunda metade da década passada, encorpada como nunca, embora ainda minoritária.
E o que me parte o coração é ver a esquerda reagir da pior maneira possível, estimulando o ódio e a polarização, ao invés de defender o legado civilizatório que deveria estar personificando. 

É fácil acusar o bolsonarismo de único responsável pela barbárie atual, mas, com sua ojeriza extremada à autocrítica, o PT omite que foi assim que combateu os tucanos no passado, recorrendo às mentiras e às meias-verdades para desqualificá-los, já que desertara do front revolucionário. 

Abdicou da superioridade moral indiscutível que detínhamos como marxistas ou anarquistas e acabou tornando as eleições meras escolhas do mal menor.

E também me deixa agoniado perceber que a confusão grosseira entre adversário e inimigo se irradia para todos os lados, a ponto de os piores preconceitos agora estarem envenenando até as torcidas de times de futebol com as melhores tradições, como a do Corinthians.

Sim, o Corinthians que, fundado em 1910, apenas duas décadas após o fim da escravidão, logo tentava incluir um jogador negro no seu time de futebol, o que foi vetado pela liga paulista, mas voltou à carga em 1919 e conseguiu inscrever o goleador Bingo.

E o Corinthians que brilhou não só na luta contra a ditadura militar como também no enfrentamento do autoritarismo no plano esportivo, graças a Sócrates e seus companheiros. Os gritos homofóbicos de parte de sua torcida no clássico deste domingo (22) contra o São Paulo devem ter feito o doutor revirar-se na cova.

Também aí percebo que chegamos a um beco sem saída. Há flagrantes excessos por parte dos que combatem os preconceitos tão inflexivelmente que tentam cancelar as criações populares do passado. Versos que outrora eram meramente singelos agora são fulminados como verdadeiras heresias a serem apagadas da linha do tempo.

Mas existe, por infelicidade, o outro lado: antigamente ninguém agredia e matava por causa deles, hoje há quem o faça. E isto hoje acaba  justificando um retrocesso civilizatório de outra espécie, mas igualmente lastimável. 

Eis alguns exemplos, extraídos de sambas e marchinhas carnavalescas:
— "Você só pensa em luxo e riqueza/ Tudo que você, você quer/ Ai, meu Deus, que saudade da Amélia/ Aquilo sim é que era mulher" (de Mário Lago e Ataulfo Alves, 1942);
— "Nega do cabelo duro/ Qual é o pente que te penteia?/ Qual é o pente que te penteia?/ Qual é o pente que te penteia?" (de Ary Barroso,  David Nasser e Rubens Soares, 1942);
— "Olha a cabeleira do Zezé/ Será que ele é?/ Será que ele é/... Será que ele é transviado?/ Mas isso eu não sei se ele é" (de João Roberto Kelly, 1963);
— "Tá na cara/ Não minta/ Você já passou dos trinta" (de uma marchinha de carnaval hoje esquecida);
"Maria Sapatão/ Sapatão, Sapatão/ De dia é Maria/ De noite é João" (de João Roberto Kelly, 1981);
"A pipa do vovô não sobe mais/ A pipa do vovô não sobe mais/ Apesar de fazer tanta força/ O vovô foi passado pra trás" (de Manoel Ferreira e Ruth Amaral, na década de 1980);
"A mulher do branco é esposa/ E a esposa do preto é mulher/ Mas minha mulher é só minha/ A do branco eu não sei se só dele é" (de César Roldão Vieira, provavelmente em 1965).

A política já chegava a ser amiúde um terreno minado, mas, quanto ao resto, bons tempos eram aqueles em que essas besteirinhas eram levadas na galhofa pelos demais e na esportiva pelos que se encaixavam em tais estereótipos, 

Agora, são tantos os terrenos minados que já nem sabemos mais onde pisar! (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

MAS, QUEM ELEGEU O CAPITÃO DESGRAÇA?

N
as comemorações da virada, externei (neste artigo) meu pessimismo diante da realidade de haver ainda um ano inteiro de Bolsonaro pela frente. É um período longo, no qual se pode fazer muita besteira – e, certamente, esse presidente fará.

Hoje, gostaria de fazer uma volta ao passado e lembrar como pôde acontecer tal desgraça: a eleição de um presidente incompetente, desqualificado para o cargo, sem classe alguma, sem cultura, que até mesmo comprometeu o nome do Brasil nas grandes organizações internacionais como a ONU e a Organização Mundial da Saúde.

Essa pergunta todos nós já fizemos, inúmeras vezes, encontrando algumas respostas que nos ajudam a entender.

E, no processo, vamos nos lembrando de amigos que foram nos bloqueando por termos criticado o desmatamento da Floresta Amazônica. Como se para defenderem o capitão Desgraça, precisassem também aceitar a destruição das árvores e os assassinatos de indígenas.

Outros, fomos nós mesmos que bloqueamos, por se revelarem, ainda hoje, defensores da ditadura militar e do golpe de 1964. Amigos, parentes que, mesmo sabendo dos crimes e das torturas cometidos, de repente tomaram coragem de nos dizer que tinham apoiado e continuavam apoiando os gorilas de 64.

Estes três anos de Bolsonaro têm sido anos de descobertas tristes, porque nos mostraram a outra face de pessoas que faziam parte do nosso convívio, das nossas mesas. Pessoas que, de repente, sem vergonha de esconder, defendiam as prisões, o extermínio dos chamados esquerdistas, comunistas ou corruptos, apregoado por Bolsonaro, não só na sua campanha eleitoral como nos encontros com seus admiradores.

Mas como pudemos chegar a isso, se entre os defensores da linguagem do ódio havia frequentadores de igrejas, padres e mesmo pastores que conheci pessoalmente. 

Gente que se esqueceu daqueles episódios em que seus pais abrigaram ou tomaram conta de filhos pequenos de pessoas presas ou perseguidas pela ditadura. “Eu não acho que a ditadura tenha sido ruim ou perseguido pessoas inocentes”, me disse um deles, esquecido de que sua mãe guardara minha filha.

O que teria feito tantas pessoas comuns, amigas, frequentadoras dos mesmos cafés, missas e cultos, leitoras da Bíblia, se tornarem más, apoiarem as frases mais maldosas, as ameaças mais duras, o escárnio, a linguagem chula de um presidente sem formação moral, sem nenhum respeito sequer pelos mortos, tanto no início da pandemia, como ainda há alguns dias na tragédia que se abateu sobre a Bahia?

Por que se tornaram pessoas desumanas, maldosas, redistribuindo as mentiras cheias de ódio que mantiveram o apoio popular aos dois primeiros anos do governo do genocida? Quantos de nós se perguntam ainda hoje, nas reuniões com os amigos, que fatores levaram tanta gente boa a aderir à linguagem e à teoria do Mal? Mesmo pastores?

Todos nós chegamos a conclusões semelhantes, mas decidi tocar nesse tema ao me chegar um texto de um professor de sociologia de uma universidade gaúcha, que sintetiza nossas respostas e as unifica quanto àquela questão: como pudemos chegar a isso? 

Trata-se do professor e doutor em Sociologia Política, Ivan Lago, cujo longo artigo me fez lembrar do livro de Mário de Andrade, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter

Eis alguns trechos:
"Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país".

Não a "imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e malandro".

"No mundo real o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto”.

É esse brasileiro que se viu bem representado no Bolsonaro.

"Agora esse cidadão comum tem voz. Ele de fato se sente representado pelo presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. 

Ele se sente importante quando seu mito enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender”. (um artigo de Rui Martins)

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

QUANDO VÊ ALGUÉM SENDO APEDREJADO, A REAÇÃO TÍPICA DO BRASILEIRO É APANHAR PEDRAS PARA APROVEITAR O EMBALO

Por que Jair Bolsonaro pôde disputar a presidência da República depois de passar décadas rasgando seda para criminosos atrozes do regime militar, negando que eles fossem torturadores e assassinos a serviço de uma ditadura bestial e condecorando mafiosos tão repulsivos como os milicianos do Rio de Janeiro?

Porque, ao contrário das nações civilizadas, o Brasil não pune como deveria quem apregoa genocídios e crimes contra a Humanidade. Se ele houvesse, num país de  verdade, defendido práticas equivalentes, como as do Holocausto, não teria concorrido a eleição nenhuma em 2018, salvo, talvez, a de xerife da sua cela.

Então, fico chocado ao ver tamanha tempestade de ódio desabando sobre o jogador de vôlei Maurício Souza por ter escrito uma besteirinha ("Ah, é só um desenho, não é nada demais. Vai nessa que vai ver onde vamos parar"), a respeito do manjadíssimo truque de difundirem uma imagem chocante para promoverem um produto qualquer  no caso, a do beijo gay dado pelo Superman, um personagem de quadrinhos no qual só debiloides e infantilizados prestam atenção.

Isto foi infinitamente menos grave do que as loas a homicidas, torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres e outros crimes hediondos, aquelas loas que jorravam da boca de um deputadozinho do baixo lixão (ôps, quer dizer, do baixo clero) chamado Jair Bolsonaro, vulgo palhaço sinistro.

No entanto, nunca houve uma corrente semelhante, que obrigasse o Legislativo a expurgar do seu seio um personagem tão transgressor de nossas leis, tão desumano, tão grosseiro e tão contumaz nas quebras do decoro do cargo. E centenas de milhares de brasileiros, durante a pandemia, morreram de óbitos evitáveis porque tal mostrengo estava envergando (na verdade envergonhando) a faixa presidencial.

É claro que, para denunciar o protegido da máfia miliciana, era necessário um mínimo de coragem. Para crucificar um mero jogador de vôlei, basta a ânsia de descarregar suas frustrações e a existência de um alvo fácil à disposição. 

O esporte favorito dos brasileiros não deveria ser futebol, mas sim bater em bêbados. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 1 de agosto de 2021

OS PROBLEMAS MENTAIS DE ESPORTISTAS CAUSAM DECEPÇÕES E ATÉ TRAGÉDIAS; OS DE CHEFES DE GOVERNO, ATÉ GENOCÍDIOS – 2

celso lungaretti
BRASIL VIVE TRAGÉDIA NA POLÍTICA POR
IGNORAR IMPORTÂNCIA DA SAÚDE MENTAL
U
ma ginasta deixou de disputar várias provas em que era favorita, perdendo a chance de brilhar nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020; um goleiro cometeu suicídio em 2009, na Alemanha, embora atravessasse ótima fase; outro teve de buscar ajuda psicológica, e eis que a esfera esportiva, conforme acurada análise do comentarista Rafael Reis, começa a se dar conta de que atletas não são máquinas e podem ter seu desempenho comprometido mesmo quando não apresentam problemas físicos.

Enquanto isto, o Brasil vive a maior tragédia sanitária de sua história, submetido a um presidente cujos transtornos mentais se tornam cada vez mais acentuados e cuja frequência dos surtos aumenta sem parar, dificilmente atravessando uma semana inteira sem evidenciar seu desequilíbrio e incapacitação para o cargo.
É isto que tenentes costumam entregar a repórteres?!
O pior de tudo é que já em 1987, quando tenente, ele dava mostras de insanidade, ao tramar a explosão de bombas em quartéis e num reservatório de água como forma de reivindicar aumento do soldo, além de haver desenhado e entregue a uma repórter (!) o croqui desse último atentado em planejamento.

Pode-se, evidentemente, supor que ele queria mesmo ser contido antes de deixar a população sedenta. Mas, gente normal age assim?!

O Exército chegou a prendê-lo, mas, ao que se saiba, não o submeteu a um exame de sanidade mental e deu um jeito de convencê-lo a pedir baixa, passando o abacaxi adiante, para a sociedade.

Depois, entre a Câmara Municipal do Rio de Janeiro e a Câmara Federal ele atravessou três décadas a dizer cobras e lagartos sobre resistentes à ditadura militar, mulheres, homossexuais, negros, indígenas, etc., chegando ao cúmulo de zombar de defuntos (no caso, os guerrilheiros exterminados no Araguaia).
É normal políticos desrespeitarem até os mortos?!

E, mesmo tendo empilhado motivos aos montes para que sua sanidade mental fosse colocada sob suspeita (bem como, aliás, para que seu mandato fosse cassado por quebra de decoro), ela nunca foi colocada em xeque.

Agora, como presidente da República, está destruindo o país e algumas das mais respeitadas instituições científicas da Europa garantem que, por seu negacionismo e sabotagem premeditada, ele é pessoalmente responsável  por pelo menos 40% dos óbitos causados pela covid-19.

Por quê? Porque desde 1987 as suas esquisitices deveriam estar sendo verificadas por psiquiatras, ao invés de ignoradas. A negligência mata... e nunca matou tantos brasileiros como agora! (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

PRESIDENTE EXTERMINADOR DO SEU POVO TEM MORAL PARA CRITICAR ORIENTAÇÃO SEXUAL DE QUEM QUER QUE SEJA? – 1

dalton rosado
REFLEXÕES SOBRE A TIRANIA
Ah, tirania, essa megera que acompanha o itinerário da humanidade! 

Por que somos os únicos animais que matam a sua própria espécie de um modo coletivo e genocida? 

Quisera eu compreender o componente irracional da nossa racionalidade; compreender a estupidez dos seres humanos de irem a uma guerra matar outros seres humanos que sequer conhecem e sem saber exatamente por que o fazem. 

Num exercício de análise simplória, poderia dizer que é a sede de poder, mas fico a imaginar outros componentes que interfiram nos atos de tirania, tão comuns até mesmo dentro das casas tidas como sacrossantos lares, quando ocorre, p. ex., um abuso sexual incestuoso. 

Além da conhecida busca fratricida do poder político e econômico, seria o preconceito elemento componente de um outro tipo da tirania?

O que move um presidente da república a afirmar que o governador do Rio Grande do Sul está incitando a homossexualidade, condenando-o preconceituosamente ao fogo dos infernos pelo simples fato de o gaúcho ter assumido de público a sua orientação sexual? 
Seria o preconceito arraigado na sua mente simplória de um pretenso
macho alfa

Mas, o que tal condição humana e pessoal tem a ver com os atos de um governante? Por que ele precisa afirmar a sua homossexualidade? 

Tal declaração seria apenas forma de contraposição ao preconceito, num ato de quem sente na alma a rejeição tão comum às pessoas comuns, e tão comuns a todos os preconceitos de que são vítimas os seres humanos?

Por que ninguém precisa afirmar a sua condição de heterossexual? Seria porque o padrão consagrado como normal e por todos aceitos é excludente de outros padrões, como resultante de códigos morais de comportamento preconceituosos?  
Motivo para preconceito tinha
o da esquerda, não o outro...

Li, recentemente, que a Berthe Gardes (mãe de Carlos Gardel), ao tornar-se mãe solteira na França, teve de sair de sua cidade (Toulouse) no início do século 20 e emigrar para a América do Sul, por puro preconceito, indo parar na Argentina. Quantas mães solteiras tiveram de fugir de sua comunidade como vítimas do preconceito ao longo da história? 

Soube, também, que o tango argentino, cantado nos cabarés portenhos de prostituição portuária, era considerado brega demais para a empedernida elite de Buenos Aires. Mas isto durou apenas até a considerada erudita e civilizada França, que havia rejeitado a sua mãe, afirmar que aquele ritmo (cantado por um seu filho tido como bastardo até poucos anos antes) era absolutamente delicioso.

Por que a música considerada brega de ontem pode ser a música hoje representativa da alma cultural de um povo, como ocorre com o samba brasileiro? 

E o preconceito burro contra a etnia africana escravizada no sul dos Estados Unidos, que era obrigada a cantar os seus blues nas igrejas, únicos locais nos quais tal manifestação cultural era permitida; mas, portando a força com que a verdade sempre se impõe, o blues se transformou na base musical de todos os ritmos mais representativos de cultura estadunidense. 

Seria a prova de que a verdade sempre vence o preconceito, ou é o preconceito que sempre se apropria da verdade para continuar existindo, como no caso da aceitação de um branco pertencente ao famigerado white poor trash, mas branco, bonito e talentoso, foi assim transformado no rei do rock’n’roll – esse tipo de música também originalmente discriminado como ritmo dos negros e como corruptor dos comportamentos tidos como corretos? (por Dalton Rosado)
(continua neste post)
"Qualquer maneira de amor vale a pena/ Qualquer 
maneira de amor vale amar"

sexta-feira, 14 de maio de 2021

PRECISAMOS FALAR SOBRE SEXO E PODER

vladimir safatle
GOVERNAR ATRAVÉS DO SEXO
No final do século 19, o Ocidente desenvolveu uma forma de falar de sexo que até então nunca vira a luz. 

Nós conhecíamos discursos jurídicos sobre comportamentos sexuais, que tipificavam o permitido e o proibido. Conhecíamos discursos morais e teológicos, com suas distinções entre o moral e o imoral. Mas, nunca havíamos visto discursos médicos e clínicos sobre o sexual. Ou seja, nunca a definição sobre o que é da ordem do sexual havia passado por distinções como normal e patológico

Não por acaso, foi exatamente nessa época que o Ocidente viu proliferar, pela primeira vez, tratados sobre perversões, classificações clínicas detalhadas e precisas a respeito de desvios em relação a uma sexualidade normal. O mundo então descobriu, entre nós, a existência de pessoas descritas como sádicas, fetichistas, exibicionistas, masoquistas, zoofílicas, homossexuais, entre tantos outros rótulos.

O primeiro texto no qual um comportamento sexual era definido como um transtorno psíquico fora publicado em 1870 pelo médico alemão Carl Friedrich Otto Westphal. Nele, tratava-se de descrever o sentimento homoafetivo como sentimento sexual contrário. A partir de então, o Ocidente rapidamente criou uma forma totalmente nova de falar de sexo.

Essa forma, no entanto, não era uma descrição mais acurada de doenças que já existiam, mesmo sem serem reconhecidas enquanto tais. Ela era sobretudo uma maneira mais minuciosa de regular os corpos, de normatizar e intervir nos desejos, de organizar as formas da vida social. 

Como já se sabia a época, sexo não é um problema privado, mas uma questão pública. A ele estão vinculadas instituições como a família e o casamento, regras de aliança e filiação, hierarquias de gênero e sujeição, disciplina, natalidade e reprodução, trabalho. 

Ao definir as patologias da vida sexual, esse funcionário público que era o médico podia ir às casas para sentenciar a masturbação das crianças, separar pais e filhos do mesmo quarto, exortar que as mulheres reconhecessem seu lugar natural, receitar trabalhar com afinco em sua vocação como remédio para a dispersividade do desejo.

Mas seria interessante se perguntar por que, em um dado momento histórico, o poder público entendeu que deveria aproximar-se mais dos corpos, classificá-los, perscrutar de forma minuciosa os desejos. 

Por que, em um dado momento histórico, o poder e suas instituições (como o hospital, a escola, as universidades, os institutos de pesquisa) precisaram falar tanto de sexo, em um tom de quem alerta para um pretenso risco generalizado de degenerescência? 

Não seria exatamente nos momentos em que a ordem social se sente mais ameaçada, no momento em que os corpos parecem enfim se mover e sair de seus pretensos lugares naturais, que o poder tem que aproximar mais, chegar até os quartos e corpos dos sujeitos?

Se isso for verdade, então não será estranho ver, em vários momentos históricos, tanta preocupação do poder com sexo. Não se trata de uma espécie de manobra diversionista feita para desviar a atenção de questões estruturais da sociedade. Na verdade, essa é uma questão absolutamente estrutural, pois diz respeito não apenas a como a sociedade vai se reproduzir, mas também como as hierarquias serão desejadas, como a insubmissão em relação à norma será afastada.

Nesse sentido, há de se sublinhar as razões pelas quais tal discurso médico sobre o sexual apareça exatamente em um momento histórico marcado por inúmeras convulsões sociais e levantes revolucionários. Os anos de 1830, 1848, 1871 são apenas algumas datas que nos lembram como a Europa foi tomada por corpos que ocupavam as ruas, bloqueavam a circulação, exigiam uma nova ordem e saiam, de forma violenta, de seus lugares naturais

Corpos em contato e em fusão. Contra essa insubmissão dos corpos nas ruas nada melhor do que ensinar a submissão à norma sexual e a desconfiança perpétua em relação à polimorfia confusa de nossos desejos. Nada melhor do que instaurar um policial no interior de cada sujeito, nem que ele esteja vestido com as roupas do médico. Fazer as pessoas temerem a insubmissão nas ruas através do temor que se instaura contra a insubmissão do seu próprio desejo.
Festival de Woodstock, 1969: a geração paz
& amor
desencanou totalmente do pudor

De fato, essa percepção não estava errada. Afinal, quando uma revolução enfim tomar o poder e durar, como foi o caso da revolução soviética, o mundo assistirá a um questionamento sistemático e um desejo profundo de reconstrução institucional de tudo relativo a sexo. 

Ao menos entre 1917 e 1924, a revolução soviética irá questionar os sistema de trabalhos e exploração no interior da família burguesa, fazendo de tarefas privadas tarefas que deveriam ser de responsabilidade do poder público. A União Soviética irá proliferar creches, restaurantes e lavanderias públicas para liberar as mulheres do trabalho doméstico, modificar a estrutura das relações de gênero, compreendendo que a igualdade social exige fortalecimento do reconhecimento da plasticidade libidinal dos sujeitos.

Ela irá facilitar os divórcios, legalizar o aborto (a URSS será o primeiro país no mundo a adotar o direito de aborto em estruturas públicas e gratuitas), descriminalizar relações homoafetivas, criar pensões mesmo para os ditos filhos ilegítimos, discutir invenções jurídicas para formas não monogâmicas de relações afetivas como a paternidade coletiva, ou seja, paternidade reconhecida por mais de um homem. 

Alexandra Kollontai, p.ex., era uma daquelas que lutavam para que, no comunismo, o ato sexual seja algo tão simples quanto beber um copo d’água.

Vale a pena lembrar disso neste exato momento histórico que é o nosso, no Brasil de 2021. Pois assim, não será surpresa para ninguém que, neste exato momento, o poder fale tanto de sexo. Fale todos os dias, de forma jocosa, sarcástica, ameaçadora, apocalíptica.  
Nas paradas de Orgulho LGBTQIA+ ainda há quem
conserve a visão da contracultura: sexo como libertação
  

Fale através de piadas preconceituosas ou de pregações sobre o fim do mundo que estaria a galope através de crianças 
que não sabem ler, mas sabem usar camisinha, como disse o senhor que atualmente ocupa o cargo de ministro da Educação.

Ou seja, talvez não seja estranho que ele fale de uma maneira muito similar àquela que os alemães ouviam, na década de 1930, quando eram exortados a desenvolver aversões contra o que se chamava à época de bolchevismo sexual e suas perversões.

Aversões produzidas através de textos que afirmavam, p. ex.: 
"Nossa mais alta tarefa consistirá em facilitar a formação de uma família aos dois companheiros ligados pela vida. Sua destruição definitiva equivalerá à supressão de toda humanidade superior. Mesmo concedendo à mulher um vasto campo de atividade, nunca deveremos perder de vista que o objetivo último de uma evolução verdadeiramente orgânica e lógica é a formação da família. 
Ela é a menor unidade mas também a mais importante de toda estrutura do Estado (...) Como o bolchevismo quer aniquilar toda individualidade, ele destrói a família, que imprime ao homem sempre uma marca individual. É por isto que ele detesta todas as aspirações nacionais. Ele quer uniformizar os povos tornando-os dóceis... 
Mas todas as tentativas de aniquilar a vida pessoal serão reduzidas a nada enquanto restar no coração do homem uma centelha de religião, pois é na religião que sempre se manifesta a liberdade pessoal em relação ao mundo ambiente".
Esta peça encenada por soldados alemães na caserna
revela que a homofobia não era unânime no nazismo
 
Este era um texto do Partido Nazista alemão que concorria à eleição de 1932. Religião, família, liberdade individual, luta contra a homogeneização: tudo isso em nome de uma sexualidade que assuma
lugares naturais, que não perverta as formas sociais orgânicas da evolução, a lógica do existente, em suma, toda humanidade superior. Essa era, como dizia o panfleto, nossa mais alta tarefa

No que se via como a luta contra o comunismo era não apenas luta contra uma nova ordem econômica, mas luta contra a potencialidade de uma nova circulação do desejo, que de fato ocorrera nos anos iniciais do período revolucionário. Eram corpos insubmissos que procuravam não apenas circular no espaço social, mas mudar a ordem legal e institucional. 

A lembrança dessa potencialidade era diuturnamente levantada. Era contra ela que o discurso da luta contra o comunismo era vociferado. Ontem e hoje. (por Vladimir Safatle, no jornal global El Pais)
O musical Hair, que estreou no final de 1967 e se tornaria sucesso
mundial, foi o primeiro a enaltecer para o grande público
as práticas sexuais até então tidas como pervertidas

sábado, 23 de janeiro de 2021

É DEUS MESMO QUEM ESTÁ INSPIRANDO A EXTREMA-DIREITA? OU SERÁ ASMODEUS?

rui martins
A DOUTRINA DIVINA DO AUTORITARISMO
Vamos limpar a cabeça e repensar tudo.

Quem eram os grandes apoiadores de Trump nos Estados Unidos? Os supremacistas brancos, sem dúvida, como mostram as fotos e filmes feitos durante a invasão do Capitólio. Eles se julgam os melhores, os superiores, e integram as diversas tendências da extrema-direita.

Mas, não são os únicos a preferirem governos anti-democráticos, dominadores, por redundância racistas, autoritários, machistas e intolerantes. 

Um politólogo estadunidense da Universidade de Massachusetts, Matthew MacWilliams, demonstrou, na sua tese de doutorado, ter sido a atração do autoritarismo de extrema-direita o fator determinante da escolha de Trump, nas primárias do Partido Republicano. E essa preferência foi marcante não só entre os supremacistas, como entre os afroamericanos e os chamados latinos.

Ademais, pesquisas feitas nos anos 1950 teriam também mostrado, já naquela época, uma atração por políticos de tendência autoritária por estadunidenses de origem mexicana. 

A tese, cujo título é Autoritarismo Estadunidense nos Negros e Brancos, parece absurda, porém explicaria a popularidade e mesmo um certo fanatismo por Trump, entre as minorias por ele insultadas, xingadas, menosprezadas e diminuídas, como os hispânicos, os muçulmanos e os asiáticos. E inclusive entre as mulheres.

Para não ficar só nos EUA, feitos os ajustes necessários, a eleição de Bolsonaro se deveu justamente aos seus fanáticos eleitores por ele desprezados, os pobres. Ainda hoje ao apoiarem Bolsonaro, grande parte é atraída por sua imagem autoritária, que se volta contra tudo, contra a ONU, contra a OMS, contra a existência de um vírus, contra a ciência. 

Essa oposição quase demente, de um presidente grotesco e ridículo, contra as organizações mundiais, incentivada pelas redes do ódio e
fake news, gera o mesmo paradoxo do Trump estadunidense –os rejeitados adoram seu algoz!

Nos Estados Unidos, as mulheres brancas suportam o comportamento misógino do líder autoritário porque compartilham do seu poder na relação de domínio com as mulheres negras? 

Desse estranho compartilhamento do exercício do poder e submissão participariam também os latinos, chamados de traficantes, criminosos e violadores por Trump, que se sentem superiores aos negros? E assim por diante?

De onde vem isso? Da colonização, da escravidão ou de uma educação de sujeição à classe dominante? Ou também da religião? Na tese do professor MacWilliams, a influência da religião na vida dos afromericanos é determinante, devido ao aprendizado da submissão e obediência, que leva ao culto da extrema-direita autoritária. 

A conclusão é alarmante – os ovos da serpente nazifascista poderiam estar sendo chocados nos altares e nos púlpitos das igrejas.

No Brasil, não se precisa ir longe para saber terem sido os evangélicos os grandes eleitores de Bolsonaro. Os fanáticos adoradores do
mito, talvez nem tenham percebido terem sido também vítimas do caos, do desgoverno e do genocídio, ainda engambelados por pastores em nome de um Deus todo poderoso. 

Os crentes não morrem como os infiéis –são chamados por Deus, por intermédio do coronavírus, e deixam a vida terrena para subirem aos céus. Para aqueles cuja hora da gloriosa morte ainda não chegou, Deus cura.

A ideia de Deus todo-poderoso também poderia justificar e estar subjacente no comportamento de muitos fiéis. Deus, símbolo de bondade e justiça, tem também a imagem do ditador e juiz supremo, de cujas sentenças não se pode apelar. É ele quem fixou em definitivo os conceitos de Bem e do Mal, é o ditador supremo

Trump seria um eleito ou imitador, Bolsonaro seria o messias enviado. Não esqueçamos, já era assim na Idade Média. (por Rui Martins)
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