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quarta-feira, 1 de maio de 2024

ESTE TRIBUTO A AYRTON SENNA É, ATÉ HOJE, MEU ÚNICO ARTIGO SOBRE AUTOMOBILISMO

Artigo que escrevi para o Jornal da Tarde (SP) após a tragédia
de Ímola, sobre um esporte que não me empolgava, mas conhecia
um pouco devido à devoção dos meus pais pelo Senna. Foi minha
reação 
à cobertura piegas e choramingas da imprensa brasileira.
 
RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram aos borbotões da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. 

Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. 

O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.

São os gladiadores do século 20, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos –principalmente os circulares da Fórmula Indy– lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha –sua, dos outros ou do equipamento– poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes –
e perigosíssimas– corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)
Entrevista de 102 min. com Senna no programa Roda Viva, da TV Cultura (SP)

terça-feira, 30 de abril de 2019

HÁ 25 ANOS MORRIA AYRTON SENNA. FOI QUANDO LHE PRESTEI ESTE TRIBUTO.

Abaixo reproduzo meu Réquiem para um gladiador, publicado no 
Jornal da Tarde (SP), logo após o 01/05/1994 do acidente fatal em Ímola.
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.
São os gladiadores do século XX, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos – principalmente os circulares da Fórmula Indy –lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha – sua, dos outros ou do equipamento – poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes – e perigosíssimas corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias. (por Celso Lungaretti)
Entrevista de 102 min. com Senna no programa Roda Viva, da TV Cultura (SP)

domingo, 5 de junho de 2016

ESTAMOS NO FUNDO DO POÇO: SEGUNDO DALTON ROSADO, ATÉ OS ESCROQUES DE OUTRORA ERAM MELHORES QUE OS ATUAIS!

Chatô, o bom chantagista.
ASSIS CHATEAUBRIAND,
 PELÉ E O BRASIL.
Houve um tempo em que os escroques brasileiros, ao invés de mandarem dinheiro para o exterior, traziam riquezas para o Brasil e malandro carioca, o mais que fazia, era vender o Cristo Redentor para um caipira endinheirado que, sob o fascínio do Rio de Janeiro, se revelasse um perfeito otário. 

Explico. O paraibano Assis Chateaubriand, dono do maior complexo jornalístico da metade do século XX no Brasil (o nosso William Randolph Hearst de então), percebendo a falência da Europa do pós-guerra, chantageou Deus e o mundo no Brasil para obter os recursos que lhe permitissem adquirir barato as mais importantes obras de arte que o mundo civilizado produzira. 

E conseguiu. Graças a ele, o corrupto empresário do jornalismo brasileiro, por muitos, considerado um adorável benfeitor (e o era, se comparado aos atuais congêneres alcaguetes), é que temos o Museu de Arte de São Paulo. 

Trata-se do mais completo museu da América Latina, e um dos mais importantes do mundo, com obras de artistas como Vincent Van Gogh, Henri Matisse, Claude Monet, Rembrandt Harmenszoon Von Rijn, Pierre-Auguste Renoir e Pablo Picasso, dentre outros grandes nomes das artes plásticas da história mundial. 

Coisa de fazer inveja aos europeus empedernidos! Eles acham que essas obras lhes pertencem e gostariam de tê-las em seus museus, lamentando tê-las perdido para o Brasil por conta da barbárie e destruição que promoveram por meio da genocida II guerra mundial.   
       
Os tempos são outros, e pioraram. Os corruptos atuais falam em bilhões de dólares enviados para o exterior, enquanto o malandro carioca já não existe, tendo em seu lugar entronizado-se o traficante de drogas e de armas que mata e ensina o menino pobre e sem perspectivas da favela a fazer uma parada e ganhar dinheiro fácil; trata-se do caminho mais curto para transformá-lo numa máquina de matar, imerso numa marginalidade bestial que afronta a dignidade humana. 
Mais um grande ídolo  no sufoco e tendo de virar-se sozinho!

Agora, vejo na televisão, espantado, que as relíquias de Pelé, o rei do futebol, o atleta do século (e aí cabe, no mínimo, uma menção honrosa para Muhammad Ali, ou Cassius Marcellus Clay Jr., pela dignidade con que defendeu os direitos civis dos negros estadunidenses e combateu a intervenção dos EUA No Vietnã), estão sendo ofertadas numa casa de leilão europeia a preços de banana. 

O que se pretende é arrecadar míseros R$ 25 milhões. Cabe perguntar: que valor é este, diante dos muitos bilhões de dólares que diariamente aparecem no noticiário da imprensa como tendo sido surrupiados dos cofres do erário público ou de empresas públicas e enviados para o exterior? Será que não seria o caso de, pelo menos, imitarem o Chateaubriand e conservarem essas relíquias num Museu do Futebol Brasileiro? 

Não, Pelé. A justificativa de que tais relíquias estariam melhormente colocadas nas mãos de europeus, mais aptos para divulgá-las, não convence. E mais triste ainda é saber que você, depois de tudo que fez pelo Brasil em matéria de futebol, precise vendê-las aos mercadores do velho mundo para poder cuidar direito dos seus problemas de saúde. 

Não se trata de nacionalismo piegas, mas de valorização do que o povo brasileiro foi capaz de fazer, apesar de todas as agruras a que é submetido. 
Relíquias do Pelé sendo exibidas num museu chileno  

E você, Pelé, é um prodígio nascido do seio desse povo; devemos agradecer-lhe por tudo de bom que você nos propiciou, ainda que não queira defender as causas do povo mais confrontadoras com a mesquinhez do sistema que sempre excluiu e exclui a maioria dos seus (e nossos) irmãos de raça. 

Mas não devemos crucificá-lo por seu não comprometimento, seria pedir algo além de suas capacidades, que já são extraordinárias do ponto de vista atlético, como gênio esportivo da raça que você é.   

Mas o que se esperar de um país dominado por uma casta política como a que nós temos? 

O que esperar de um país onde os banqueiros auferiam os maiores lucros da história do seu capitalismo no exato momento em que mergulhava na mais recessiva crise de sua história econômica? 

O que esperar de um país onde a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos está entre as mais acentuadas do mundo, fazendo com que o cálculo da relação PIB/população (que define a renda per capita) se torne mera ilusão contábil. 
Policial exibe quadro comprado com grana do petrolâo

Ademais, uma ilusão perniciosa, pois maquila a realidade de que há uma imensa população de empobrecidos, vivendo em situação de miséria nas enormes favelas dos grandes centros urbanos, principalmente nas mecas do capitalismo como São Paulo, mendigando por educação nas grandes filas das escolas públicas ocupadas por alunos carentes de saber e com professores em greve; implorando por atendimento médico nos corredores dos hospitais públicos lotados, etc.

Os corruptos da Lava Jato e da Confederação Brasileira de Futebol, que compram quadros caríssimos como forma de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, bem que poderiam, agora, adquirirem as relíquias do Pelé (um patrimônio sentimental do nosso povo) e doá-las ao Museu do Futebol Brasileiro. 
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Ótimo filme! Ative as legendas no canto inferior direito.
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Tal gesto, ainda que não tivesse o condão de abater o tempo de suas penas criminais, seria mais simpático e proveitoso do que as repetidas delações premiadas nas quais todos se denunciam mutuamente, ansiando por serem parcialmente absolvidos. 

Mas, eles não são capazes de pensar no Brasil. 

Ah, que saudade dos tempos nos que os corruptos e marginais tinham, pelo menos, um caráter nacionalista! Como Chateaubriand e os malandros com lenço no pescoço e navalha no bolso, que cantavam sambas e eram apenas uma doce caricatura desses marginais de hoje que estupram e matam... (por Dalton Rosado)
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O samba que eternizou a mística do malandro carioca

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A INGRATIDÃO, ESSA PANTERA, VOLTA SUA SANHA CONTRA O OSCAR SCHMIDT.

Um dos traços mais deploráveis dos brasileiros é a ingratidão, essa pantera. 

Temos poucos grandes nomes e os tratamos a pontapés depois que passa o seu apogeu. Como se muitos, invejosos de quem fez é por merecer irrestrita admiração, estivessem esperando apenas o momento certo para os apedrejar. 

E não precisam esperar muito, pois a memória é bem curta nestes tristes trópicos 

O Tiradentes, nosso maior revolucionário do passado, está quase esquecido e seu feriado é dos menos festejados. Dez vidas ele tivesse, dez vidas ele daria. Quantos disseram o mesmo neste país pachorrento, cujo povo é tão submisso face aos tiranos? 

A extrema-direita consegue impedir, com manobras jurídicas, que a família do Lamarca receba uma reparação merecidíssima; e quase ninguém se incomoda. Ele ousou lutar, foi abatido como um cão por jagunços travestidos em agentes do Estado e agora os beneficiários do seu sacrifício extremo não ousam sequer pronunciar o seu nome! 

O Plínio Marcos, cujas peças a censura impedia que fossem encenadas, era obrigado a vender textos mimeografados na porta de teatros para sobreviver. Muitos que passavam para assistir às inocuidades em cartaz se desviavam como se ele fosse pestilento.

O Garrincha, que carregou nossa seleção nas costas em 1962, morreu praticamente na sarjeta. 

Depreciam o Oscar Schmidt por uma coisa (a política) infinitesimal diante dos seus feitos como esportista. E isto lhes dá pretexto para até ignorarem suas agruras terríveis, motivo óbvio do mau momento que teve como palestrante (vide aqui). 

Não deveria fazer palestras porque já é incapaz de controlar as alterações de comportamento que o tumor cerebral às vezes lhe provoca? Mas, abdicando do pouco que lhe resta na vida que ainda lhe resta, certamente morrerá mais depressa. A frustração dos pífios (*) de Caruaru pesa mais do que a compaixão do que qualquer ser humano nos deveria inspirar (e muito mais um dos nossos poucos nomes superlativos e memoráveis na atividade que exerceu!).  

Não reverenciam como deveriam a Maria Esther Bueno, o Gustavo Kuerten, o Nelson Piquet, o Emerson Fittipaldi, etc. 

O Eder Jofre disse tudo: "Se alguém quer me homenagear, que o faça agora, porque depois de morto não adianta nada". 

Como o Raul Seixas, que se ressentia muito do abandono por parte dos fãs quando o conheci, em 1980. Só após sua morte foi que o redescobriram. 

E é por ter falecido que o Ayrton Senna continua sendo tão cultuado; se estivesse vivo, enxergariam nele tantos defeitos quanto no Pelé ou no Oscar. 

Quando o mão santa morrer, talvez finalmente nos lembremos de como ele foi grande um dia... 

Faço restrições aos estadunidenses por muitos e bons motivos, mas nisto eles são bem melhores do que nós: sentem gratidão por seus ídolos e lhes dão todo reconhecimento. 

Só sobre o Muhammad Ali já vi ou tomei conhecimento da existência de uns 20 filmes. Sua carreira terminou em 1981, hoje é uma sombra do que foi, mas vive rodeado de enorme carinho, respeito e admiração. Como é o correto.

Por aqui, estaria esquecido e só se falaria dele quando surgisse oportunidade para o agredir covardemente, como acaba de fazer uma malta de linchadores virtuais. 

* é absoluta má fé me acusarem de desprezo pela cultura popular nordestina, pois nunca o tive. Inclusive, respeito e aprecio o trabalho da Banda de Pífanos de Caruaru. O que detestei foi a postura de alguns mimadinhos pífios de Caruaru. E isto está bem claro no meu texto anterior.
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