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quarta-feira, 26 de junho de 2019

SÓ AGORA PERCEBERAM QUE UMA DROGA CRUZA OS CÉUS EM AVIÃO DA FAB?!

O avião brasileiro no qual se transportavam 39 quilos de cocaína estava integrado à comitiva presidencial, mas era o reserva.

No titular havia mais ou menos o dobro de droga, só que de um tipo diferente: é consentida por um Judiciário pusilânime e seus efeitos, ao longo de quatro anos, serão muito piores que os da cocaína.

De resto, aproveito para repetir a ótima sacada do Juca Kfouri: ele escreveu que Caetano Veloso foi profético quando, meio século atrás, descreveu Brasília como a cidade na qual tinha "sob meus pés os caminhões, sobre a cabeça os aviões, aponta contra os chapadões meu nariz"...

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O CD DE ESTRÉIA DO COMPANHEIRO DALTON ROSADO ESTÁ DISPONIBILIZADO NO BLOG "NÁUFRAGO DA UTOPIA". IMPRESCINDÍVEL!!!

Caros leitores,

como muitos já sabem, sou compositor. Faço disto um hobby, sem a menor pretensão de me tornar famoso (a fama é perigosa e restritiva, como disse Bob Weir, do Grateful Dead). 

Devo, contudo, admitir que gostaria que as minhas composições caindo no gosto popular proporcionando prazer e diversão aos que as escutam, já que me dá imenso prazer compô-las.

Como militante da causa da emancipação popular, a que me dedico há mais de 40 anos, as letras têm um óbvio conteúdo contestatório e reflexivo em sua maioria, embora eu componha, também, melodias mais afinadas com as afetividades humanas de todas as espécies; devemos ser leves em nossos propósitos de tornar melhor a vida de todos, ainda que tenhamos que ser duros e firmes no nosso combate à tirania, como dizia Che Guevara. 

O CD Tripalium, ora apresentado, reúne 13 composições minhas (melodias e letras) e são interpretadas por vários cantores e em variados ritmos (sou um pesquisador musical). 

Trata-se de um CD conceitual,cujo título é o nome de um instrumento de tortura dos escravos para obriga-los ao sacrifício. 

Dele se origina palavra trabalho, objeto de nossa crítica musical por se referir a uma categoria capitalista (ou seja, o nome moderno da escravização de todos nós à forma-valor). O trabalho é o oposto da saudável e ontológica interação do ser humano com a natureza objetivando a obtenção do seu sustento. 

A publicação se dará às segundas-feiras, com a disponibilização de vários CDs de minha autoria, agrupando gêneros musicais variados, à medida que eu for completando a edição cuidadosa das faixas (muitas delas ainda em demos). 

Sempre no blog Náufrago da Utopia, que é a nossa cidadela de luta, reflexão e prazer. 

Espero que ouçam e gostem. Um forte abraço a todos.
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Dalton Rosado    

sexta-feira, 1 de julho de 2016

A MÚSICA BRASILEIRA É UM MARAVILHOSO BEM IMATERIAL DO NOSSO POVO.

Por Dalton Rosado
"Eu sou o samba
A voz do morro sou eu mesmo sim senhor
Quero mostrar ao mundo que tenho valor
Eu sou o rei do terreiro"
(Zé Keti, A voz do morro)
Houve um tempo em que o futebol era a pátria de chuteiras (Nelson Rodrigues), tal o encantamento mundial com a nossa habilidade nesse esporte. Infelizmente, os desmandos dos dirigentes nas máfias instaladas nas entidades esportivas do futebol se encarregaram de prejudicar burocraticamente aquilo que o povo desenvolveu a partir de um pedaço de terreno baldio e uma velha bola remendada. 

Mas, mesmo antes do futebol sempre tivemos uma arte na qual podemos dizer que nos igualávamos e nos igualamos aos melhores do mundo: a música.  A música brasileira sempre foi resultado de um fazer artístico que se igualava aos melhores do mundo; os nossos compositores e músicos a todos encantavam com suas letras, melodias e domínios instrumentais inatos. O conjunto histórico da obra musical brasileira representa um rico acervo, que se constitui em riqueza imaterial do povo brasileiro. 

No campo da música a nossa tradição vem de longe e abrange desde a erudita até a chamada música popular. Temos compositores clássicos, como: 
Villa Lobos: folclore em abordagem erudita.
  • o paulista Carlos Gomes, que se tornou internacionalmente conhecido a partir do seu sucesso na Itália e depois por toda a Europa, com obras imortais como O guarani, que foi inspirada no conto do mesmo nome do cearense José de Alencar; 
  • o carioca Heitor Villa Lobos, a partir do seu sucesso na França com obras como Trenzinho caipira, uma abordagem erudita da cultura popular; 
  • os cearenses Alberto Nepomuceno e maestro Eleazar de Carvalho, reconhecidos mundo afora; 
  • precursores como Chiquinha Gonzaga, gênio nascida da maravilhosa miscigenação genética e cultural brasileira (ela era filha da união de um senhor da aristocracia militar do império com uma descendente de escravos); 
  • o carioca Ernesto Nazaré, virtuose do piano e da composição; 
  • o paulista Zequinha de Abreu, autor de Tico-tico no fubá
  • Catulo da Paixão Cearense, autor de um dos hinos nacionais, Luar do sertão
  • Joaquim Calado, conhecido como criador do choro, ritmo que precedeu ao surgimento do samba, e autor do clássico Flor amorosa.      
São nomes e criações que estão inscritos(as) como representativos do que há de melhor na arte musical, em termos mundiais. 
Superespetáculos: a parafernália conta mais que a arte.
A música, infelizmente, foi  se tornando cada vez mais uma mercadoria, objeto de consumo mercantil, e como tal o mercado fonográfico passou a tratá-la, submetendo-a à insensibilidade artística, ao caráter onívoro da forma mercadoria, destituindo-a do lirismo e sensibilidade indispensáveis, comprometendo a sua qualidade. 

Mas ainda que esse mercado internacional (e nacional) fonográfico e midiático tenha moldado um determinado gosto padronizado de musicalidade, o que é verdadeiramente bom termina sempre por superar o fugaz imediatismo midiático, permanecendo na memória coletiva e se reproduzindo, independentemente de qualquer controle ou preconceito (como as músicas de domínio público que se perpetuaram sem que sequer se saiba quem é o autor). 

A música tem o poder de se impor contra a vontade das elites, se não vejamos: 
  • o tango argentino surgiu nos cabarés da próspera Buenos Aires do final do século XIX e foi tratada pela empedernida e rica elite argentina de então como música brega. Até que ganhou espaço a partir surgimento de um cantor do calibre de Carlos Gardel, que encantou o mundo. A partir daí, reconhecido na Europa (principalmente na França, onde, aliás, Gardel nasceu, tendo se mudado para a Argentina com meses de idade causa da intolerância dos franceses com relação às mães solteiras, caso da sua), o tango foi absorvido nos grandes salões e teatros portenhos, até se tornar a identidade nacional da Argentina;
    Carlos Gardel em sequência de dança com Mona Maris 
  • o blues afro-americano nasceu nos guetos negros do sul escravista dos Estados Unidos e foi inicialmente cantado nos ambientes fechados das residências e terreiros dos escravos, sendo depois incorporado aos cultos das igrejas evangélicas, sob um disfarce gospel. O blues profano somente foi aceito pela elite branca americana quando do surgimento de Elvis Presley, um brilhante intérprete branco que cantava e dançava como os negros (com os quais conviveu como white poor trash, como eram pejorativamente tratados os americanos brancos pobres). Elvis popularizou o nascente rock’n’roll, que nada mais era do que uma fusão do rhythm' and blues (o blues com a incorporação das guitarras elétricas) com o country & western branco, das regiões rurais. O sucesso avassalador entre os jovens passou por cima do fundamentalismo religioso cristão pentecostal americano e se impôs como identidade nacional americana, admirada no mundo inteiro e incensada como a mais nova oportunidade de faturamento e instrumento de propaganda cultural americana (assim a rebeldia blues/rock’n’roll dos negros foi colocada debaixo do tapete);
    A malandragem carioca de um século atrás
  • o samba afro-brasileiro, como sabemos, foi perseguido pela polícia, pois, afinal, a dita abolição da escravatura se deu para dar azo à escravidão do trabalho abstrato, produtor de valor mercantil, e não para os negros fazerem música. Os negros sambistas eram presos como capadócios (crime de vadiagem) e bastava um calo na ponta dos dedos para ser considerado um criminoso malandro violonista cantador de samba, crime ainda pior do que ser comunista. Tinham o violão apreendido e eram presos. O percussionista João da Baiana, além de cantor e compositor, certa vez teve o seu pandeiro apreendido, e o instrumento delinquente somente foi devolvido após a interferência de políticos que tomavam uns goles às escondidas no terreiro de samba da baiana Tia Ciata. Não obstante, o samba tomou as ruas, principalmente no carnaval do Rio de Janeiro, quando todos vestiam "uma camisa listrada" e saíam "por aí" (superando momentaneamente a cisão entre as classes sociais) e, "ao invés de chá com torradas", bebiam "paraty” (cachaça), como imortalizou Assis Valente. Assim, o samba se tornou uma identidade nacional.      
Carmen Miranda com Groucho Marx
Foi o samba, na voz de Carmen Miranda (favorecida pelo interesse dos EUA em promover a boa vizinhança durante a guerra) e a bossa nova (variação sofisticada, jazzística, do dito cujo) na voz de João Gilberto, que furaram o bloqueio do mercado fonográfico estadunidense e internacional, tornando-o mundialmente conhecido e admirado. 

Agora chegamos à era da internet, que, mesmo com as limitações próprias de uma telinha de celular ou de computador, tem o condão de arrebentar com o controle mercantil da música, oportunizando o aparecimento de tantos talentos nascidos do povo. 

Não devemos ter preconceitos com artistas em formação e novos ritmos como o funk da Anita ou o forró eletrônico dos Safadões da vida, porque o tempo se encarregará da depuração própria à seleção das obras artísticas musicais duradouras. 

Quem sabe eles não sejam considerados no futuro (que me perdoem a possível heresia) como clássicos da música popular brasileira?
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Um clássico absoluto do cinema com temática
relacionada ao samba: Orfeu Negro.

sábado, 15 de agosto de 2015

DEDICO ESTA MÚSICA AO PRESIDENTE DA CUT...

...POR HAVER DITO BOBAGEM MUITO MAIOR QUE A DO WILSON BATISTA, A QUEM NOEL ROSA RESPONDEU COM UM CALABOCA ANTOLÓGICO:
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É besteira "ir para as ruas entrincheirados, de armas na mão, se deitar e lutar", sem ter feito a lição de casa lá atrás. Amadores sem treinamento estão muito longe de serem "o exército que vai enfrentar essa burguesia"; só servem como alvos, patinhos de parque de diversão.

E luta armada se convoca quando um governante é tirado do poder ao arrepio da Constituição. O que se vê, até agora, são pessoas à cata de uma justificativa legal para o impeachment de Dilma. 
O que é isso, companheiro? Levantando a bola pro inimigo?!

Têm o direito de tentarem, desde que continuem dando os passos previstos na nossa Carta Magna. O Congresso Nacional poderá fulminar cada um desses pedidos, agindo igualmente de acordo com os pesos e contrapesos de uma democracia.

O Vagner Freitas é que está viajando na maionese, com suas bravatas vazias. Fez-me lembrar o Luiz Carlos prestes, pouco antes do golpe de 1964, vangloriando-se de que o Partido Comunista já estava no poder. A propaganda inimiga deitou e rolou em cima de sua incontinência verbal, assim como hoje está deitando e rolando em cima do que ela qualifica de ameaça ao Congresso.

Os arroubos demagógicos também são inoportunos. Ao qualificar de golpistas os que até agora não se comportaram como tais, candidata-se a ser mais um menino que grita lobo! fora de hora. 
Golpe é isto aqui

Infelizmente, não é o único. Até a presidenta segue o conselho de Goebbels e fica martelando sem parar uma mentira, para que acabe passando por verdade. Desmoraliza-se aos olhos das pessoas conscientes e equilibradas.

Golpistas foram os milicos que tomaram o poder pela força em 1930 e 1964, muito dos quais participaram de ambos os golpes, fascistas com carteirinha assinada, embora haja na esquerda quem, aberrantemente, estabeleça uma diferenciação entre a primeira e a segunda quarteladas.

Por enquanto não há tanques nas ruas, nem sequer vivandeiras batendo na porta dos quartéis. E o nosso interesse é que continue assim, pois uma luta armada agora seria mais desigual ainda para o nosso lado que a dos anos 60/70. Daquela vez tínhamos bons guerreiros, só que foram insuficientes. Agora nem isso temos.

Então, Freitas, devagar com o andor, que o santo é de barro...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

VERSOS BELÍSSIMOS, INTERPRETAÇÃO DILACERANTE

Jacques Brel me chamou a atenção como ator de um filme notável de André Cayatte: Testemunhas do Medo (Les assassins de l'ordre).

Interpretou um juiz de instrução íntegro, tentando fazer com que policiais fossem condenados por espancarem um preso comum até a morte, na conservadora sociedade francesa do pós-1968.

Seus esforços e sacrifícios são inúteis, a impunidade dos assassinos da ordem prevalece.

O filme é de 1971, mas, tendo sido lançado com grande atraso no Brasil, estava em evidência mais ou menos na época do Caso Herzog. Os pontos de contato nos chocaram, a arte antecipara a vida.

Depois, tomei conhecimento da carreira musical de Brel, cujo destaque absoluto é a canção que está na janelinha abaixo, "Ne me quitte pas", composta para a companheira que o estava abandonando: a cantora, atriz e apresentadora de TV Suzanne Gabrielle (desimportante nas três atividades,  hoje ela só é lembrada como musa de Brel).

Foi em 1959, quando ele tinha 30 anos.

Os versos são um arraso. Belíssimos. Daqueles que qualquer poeta gostaria de ter escrito.

E a interpretação de Brel, no calor dos acontecimentos, é simplesmente dilacerante.

Merece ser vista e revista infinitas vezes, por aqueles que são suficientemente fortes para gritar suas dores, ao invés de sofrerem em silêncio, como é de bom tom na nossa sociedade repressiva e hipócrita.

Houve internauta  a depreciando como "canção de rastejar". Sou muito mais o Paulo Vanzolini: "Se eu tivesse de chorar, chorava no meio da rua".

UMA CURIOSIDADE DA ERA DO VOZEIRÃO: OSNY SILVA.

O post anterior, sobre o Ivan Rebroff, me dá pretexto para apresentar a vocês outro artista pouco lembrado hoje em dia, de voz igualmente portentosa: o brasileiro Osny Silva (1919-1955).

Quando tinha 12 anos, venci uma competição de conhecimentos de História do Brasil num programa do Vicente Leporace e, dentre as dezenas de discos dos quais a rádio Bandeirantes não precisava mais e dava como prêmio, veio o do tal Osny Silva, já bem rodado (era de 1954 e estávamos em 1963): Funeral d'um rei nagô + Banzo.

Já naquele tempo eu estava muito mais para a bossa-nova do que para os cantores da era do vozeirão, idolatrados por meus pais. Mesmo assim, as duas canções do Osny Silva, com sua temática afro-umbandística, me fascinaram. Nem sei porquê, mas a reação do público da época tinha sido a mesma: a primeira foi seu maior sucesso e lhe valeu até um troféu Roquete Pinto de melhor cantor.

O vinil sumiu, passei décadas sem escutá-las, até que as encontrei no Youtube. Hoje, o saudosismo me faz gostar delas mais ainda.

De origem humilde, ele cantava desde o coral do liceu e foi também locutor radiofônico no RJ e SP, tendo gravado mais de 40 discos. O seu maior trunfo era ressaltado nos slogans: "a mais bela voz do rádio paulista", "a voz triunfal das Américas" (este, quando se apresentava na Argentina).

Escutar esta relíquia de seis décadas atrás deverá ser uma experiência, no mínimo, interessante. Tentem, sem preconceitos.

DICA DE LEITOR: IVAN REBLOFF, QUE CANTAVA A MARAVILHA DESTE MUNDO E DENUNCIAVA AS INJUSTIÇAS DA VIDA.

O companheiro Eduardo Rodrigues Vianna, comentarista frequente deste blogue, aproveitou a dica musical que eu dei no último post para fazer também sua sugestão:
"Você conhece este aqui? Ivan Rebrov, um desses artistas cuja obra tem uma identidade internacional, internacionalista; eu escreveria uma carta a ele se estivesse vivo, para dizer que me inspirou demais num momento pra lá de brabo da minha vida, porque a obra dele é daquelas que dão forças ao ser humano. 
Um trabalho do Rebrov que obteve destaque aqui no Ocidente foi a interpretação, como ópera, das músicas do filme Um violinista no telhado
Essas pessoas dão-me a certeza de que a humanidade ainda irá muito longe.
O lema dele: 'Aqui estou, para cantar a maravilha deste mundo e denunciar as injustiças da vida!'"
Como respondi ao Eduardo, não faz exatamente o meu gênero, mas sensibilidade é algo bem pessoal. Ainda mais quando a música se associa a uma etapa difícil da nossa vida.

Com certeza, muitos gostarão da voz portentosa do Rebrov (no Google é mais fácil achá-lo como Rebroff) e de suas canções características da Rússia do tempo dos czares.

Curiosamente, apesar da aparência e das roupas de cossaco que usava nos shows, era alemão de nascimento.

O Eduardo recomenda este vídeo aqui, com 86 minutos. E uma boa amostra do trabalho do artista é "Havah Nagila", canção folclórica ucraniana composta em 1918 e que fez algum sucesso entre nós na década de 1950, interpretada por Carlos Gonzaga. Ei-la:

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O MELHOR REGISTRO DE CONCERTO QUE VI NA VIDA...

....acaba de ser disponibilizado integralmente no Youtube, com legendas brasileiras e excelente qualidade de imagem e som: Nights from the Alhambra, gravado ao vivo em setembro de 2006, na cidade espanhola de Granada, num palácio que pertenceu ao rei Carlos V.

Além do DVD de quase 100 minutos, que vocês podem assistir na janelinha abaixo, o concerto rendeu um álbum duplo.

Trata-se do ápice da carreira da cantora, compositora e multi-instrumentista Loreena McKennitt, uma canadense de ascendência irlandesa e escocesa. 

Ela se projetou na voga da música celta, na década de 1980, mas seu trabalho só decolaria pra valer a partir da incorporação da música folclórica de outros países, com destaque para as sonoridades orientais. Pesquisa lendas para enfocá-las em suas letras e mostra ótima carpintaria poética.

Tornou-se sucesso mundial com "The mummer's dance", em 1997. Depois, encaixando músicas na trilha sonora de As brumas de Avalon, sua notoriedade aumentou.

O espetáculo na Andaluzia teve tudo de bom: o cenário majestoso do castelo, os mestres de música tocando instrumentos antigos, a qualidade superlativa da maioria das canções, imagens de rara beleza. Recomendo com entusiasmo.

E sugiro a quem sabe baixar do Youtube, que o faça logo, antes que algum cão de guarda da indústria cultural consiga tirá-lo de ar. Vale muito a pena conservar uma cópia.

E aos demais, que assistam enquanto é tempo!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

CHILE, 1907: MILHARES DE TRABALHADORES FORAM ABATIDOS COMO MOSCAS!

Tenho sangue latino e, "por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que 
um blues". Então, sem menosprezo nenhum 
às vítimas de 1886 em Chicago e às de 1891 
na cidade francesa de Fourmies, escolhi 
para reverenciar as lutas dos trabalhadores 
o movimento dos desempregados pela 
indústria do salitre nos pampas 
chilenos, que culminou no terrível 
massacre de Iquique, em 1907.


A cantata Santa Maria de Iquique foi uma das culminâncias da Nueva Canción Chilena -movimento musical inspirado por Violeta Parra, que aglutinou artistas como Víctor Jara, Patricio Manns, Isabel Parra, Ángel Parra, Osvaldo Gitano Rodríguez, Tito Fernández e os grupos Quilapayún, Inti-Illimani, Illapu e Cuncumén.

Lançado na segunda metade da década de 1960, durou até o pinochetazo de setembro de 1973. Tinha como características básicas a opção pelas raízes musicais chilenas e o engajamento político. 

Composta em 1969 pelo músico Luis Advis, esta cantata popular (que reconstitui o bestial massacre de 3,6 mil trabalhadores por parte do exército chileno, em 1907) correu mundo, na primorosa interpretação do conjunto Quilapayún.

Lembro-me da emoção com que a ouvi pela primeira vez, em meados dos '70, na rádio Cultura FM. Não parei mais de tocar a gravação meio tosca que fiz, ligeiro no gatilho, ao perceber do que se tratava pela introdução do locutor. 

No início dos '80, quando a nossa ditadura entrava na fase de despotismo esclarecido, a gravadora Copacabana pôde, finalmente, lançar as principais obras dessa corrente, inclusive a cantata. Foi um prato cheio para mim, que simpatizara muito com o governo de Allende, horrorizara-me com o golpe sanguinário de Pinochet e tinha (tenho) um bom amigo chileno, que me contava mil detalhes sobre os artistas e a política do seu país.

Victor Jara sempre me pareceu o Geraldo Vandré chileno, seja pelo estilo das composições, pela empostação de voz que nos deixava uma impressão de total sinceridade, e também pelo fim trágico de ambos (um morto fisicamente, o outro espiritualmente).

Já o Angel Parra me decepcionou, mas não por culpa dele. Como só tomei conhecimento do seu dilacerante disco de 1976, Angel Parra de Chile, (ouça-o aqui) quando a Copacabana o lançou (uns cinco anos depois), fiquei com a imagem dele como um homem sofredor e amargurado.

Aí ele veio ao Brasil e eu o conheci numa festa. Brincalhão, pândego, dava em cima de todas as meninas. Perguntei-lhe sobre seu disco do exílio e ele respondeu que eram águas passadas, não adiantava ficar remoendo aqueles dramas para sempre.  No momento, fiquei chocado. Depois, refletindo melhor, dei-lhe razão.

É enorme a minha satisfação em disponibilizar este vídeo e a belíssima letra integral da Cantata Santa Maria de Iquique.


1. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores,
venimos a contar,
aquello que la historia
no quiere recordar.

Paso en el norte grande,
fue Iquique la ciudad,
1907 marco fatalidad,
aya al pampino pobre
mataron por matar,
aya al pampino pobre
mataron por matar.

Seremos los hablantes,
diremos la verdad,
verdad que es muerte amarga
de obreros del salar.

Recuerden nuestra historia
de duelo sin perdón,
por mas que el tiempo pase
no hay nunca que olvidar.

Ahora les pedimos que pongan atención,
ahora les pedimos que pongan atención.

2. Prelúdio instrumental

3. Relato: Si contemplan la pampa y sus rincones
Si contemplan la pampa y sus rincones verán las sequedades del silencio, el suelo sin milagro y oficinas vacías como el último desierto. Y si observan la pampa y la imaginan en tiempos de la industria del salitre, verán a la mujer y al figón mustio, al obrero sin cara, al niño triste. También verán la choza mortecina, la vela que alumbraba su carencia, algunas calaminas por paredes y por lecho los sacos y la tierra. También verán castigos humillantes, un cepo en que fijaban al obrero por días y por días contra el sol, no importa si al final se iba muriendo. La culpa del obrero muchas veces era el dolor ambiguo que mostraba rebelión impotente, una insolencia! La ley del patrón rico es ley sagrada. También verán el pago que les daban; dinero no veían, solo fichas, una por cada día trabajado y aquella era cambiada por comida. Cuidado con comprar en otras partes! De ninguna manera se podía, aunque las cosas fuesen mas baratas; lo había prohibido la oficina. El poder comprador de aquella ficha había ido cambiando con el tiempo, pero el mismo jornal seguían pagando. Ni por nada del mundo un aumento! Si contemplan la pampa y sus rincones, verán las sequedades del silencio. Y si observan la pampa como fuera, sentirán destrozados los lamentos.

4. Canção: El sol en desierto grande
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada,
las casas desposeídas
y el obrero que esperaba,
al sueño que era el olvido,
solo espina postergaba,
el viento en la pampa inmensa
nunca mas se terminara,
dureza de sequedades,
para siempre sequedades,
salitre lluvia bendita,
se volvía la palpada,
la pampa pan de los días,
cementerio y tierra amarga.

Seguía pasando el tiempo
y seguía historia mala
de sequedades,
para siempre, sequedades,
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada.

5. Interlúdio instrumental

6. Relato: Se había acumulado mucho daño
Se había acumulado mucho daño, mucha pobreza, muchas injusticias. Ya no podían mas y las palabras tuvieron que pedir lo que pedían. A fines de 1907 se gestaba la huelga en San Lorenzo y, al mismo tiempo, todos escuchaban un grito que volaba en el desierto. De una a otra oficina, como ráfagas, se oían las protestas del obrero. De una a ora oficina los señores, el rostro indiferente o el desprecio. Que les puede importar la rebeldía de los desposeídos, de los parias? Ya pronto volverán arrepentidos; el hambre los traerá, cabeza agacha. Que hacer entonces, si nadie escucha? Hermano con hermano preguntaban. Es justo lo pedido y es tan poco. Tendremos que perder las esperanzas? Así, con el amor y el sufrimiento, se fueron aunando voluntades. En un solo lugar comprenderían: habia que bajar al puerto grande.

7. Canción: Vamos mujer
Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

Toma mujer, mi manta te abrigara,
ponte al niñito en brazos no llorara.
No llorara, confía, va a sonreír.
Le cantaras un canto, se va a dormir.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.

Largo camino tienes que recorrer,
atravesando cerros, vamos mujer.
Vamos mujer, confía, que hay que llegar,
en la ciudad podremos ver todo el mar.

Dicen que Iquique es grande como un salar,
que hay muchas casas lindas, te gustaran.
Te gustaran, confía, como que hay Dios.
Haya en el puerto todo va a ser mejor.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.

Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

8. Interlúdio instrumental

9. Relato: Del quince al veintiuno
Del 15 al 21 mes de diciembre se hizo el largo viaje por las pendientes. 26.000 bajaron, o tal vez mas, silencios gastados en el salar. Iban bajando ansiosos. Iban llegando los miles de la pampa, los postergados. No mendigaban nada, solo querían respuesta a lo pedido, respuesta limpia. Algunos en Iquique los comprendieron y se unieron a ellos: eran los gremios. Y solidarizaron los carpinteros, los de la maestranza, los carreteros, los pintores y sastres, los jornaleros, lancheros y albañiles, los panaderos, gasfiteros y abasto los cargadores. Gremios de apoyo justo, de gente pobre. Los señores de Iquique tenían miedo. Era mucho pedir ver tanto obrero! El pampino no era hombre cabal, podía ser ladrón, asesinar. Mientras tanto las casas eran cerradas, miraban solamente tras las ventanas. El comercio cerro también sus puertas. Había que cuidarse de tanta bestia! Mejor que los juntaran en algún sitio, si andaban por las calles era un peligro.

10. Interlúdio cantado: se han unido com nosotros
Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos, 
no nos quieren dar la cara. 

Hasta Iquique nos hemos venido, 
pero Iquique nos ve como extraños, 
nos comprenden algunos amigos 
y los otros nos quitan la mano. 

Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos, 
no nos quieren dar la cara, 
no nos quieren dar la cara.

11. Relato: El sitio al que los llevaban
El sitio al que los llevaban era una escuela vacía y la escuela se llamaba Santa Maria. Dejaron a los obreros, les dijero con sonrisa que esperarán solo unos días. Los hombres se confiaron, no les faltaba paciencia, ya que habían esperado la vida entera. 7 días esperaron, pero que infierno se vuelven cuando el pan se esta jugando con la muerte! Obrero siempre es peligro, precaverse es necesario. Así, el estado de sitio fue declarado. El aire trajo un anuncio, se oía tambor ausente. Era el día 21 de diciembre.

12. Canção: Soy obrero pampino y soy
Soy obre, soy obrero pampino y soy
tan revie, tan reviejo como el que mas
y comien y comienza a cantar mi voz
con temo, con temores de algo fatal.

Lo que sien,lo que siento en esta ocasión,
lo tendré, lo tendré que comunicar,
algo tri, algo triste va a suceder,
algo horri, algo horrible nos pasara.

El desie, el desierto me ha sido infiel,
solo tie, solo tierra cascada y sal,
tierra amar, tierra amarga de mi dolor,
roca tris, roca triste de sequedad.

Ya no sien, ya no siento mas que mudez
y agoni y agonía de soledad,
solo rui, solo ruinas de ingratitud
y recue, y recuerdos que hacen llorar.

En la vi, en la vida no hay que temer,
lo aprendí, lo aprendido ya con la edad,
pero aden, pero adentro siento un clamor
y que aho, y que ahora me hacen temblar.

Es la mue, es la muerte que surgirá,
galopan, galopando en la oscuridad,
por el mar, por el mar aparecerá,
ya soy vie, ya soy viejo y se que vendrá.

13. Interlúdio instrumental

14. Relato: Nadie diga palabra que llegará
Nadie diga palabra, que llegara un noble militar, un general! El sabrá como hablarles, con el cuidado que trata el caballero a sus lacayos. El general ya llega con mucho boato y muy bien precavido con sus soldados. Las ametralladoras están dispuestas y estratégicamente rodean la escuela. Desde el balcón, les habla con dignidad. Esto es lo que les dice el general: que no sirve de nada tanta comedia; que dejen de inventar tanta miseria; que no entienden deberes, son ignorantes; que perturban el orden, son maleantes; que están contra el país, son traidores; que roban a la patria, son ladrones; que han violado a mujeres, son indignos; que han matado a soldados, son asesinos. Que es mejor que se vayan sin protestar, que aunque pidan y pidan, nada obtendrán. Vayan saliendo entonces de ese lugar, que, si no acatan ordenes, lo sentirán! Desde la escuela, el rucio, obrero ardiente, responde sin vacilar, con voz valiente: "Usted, señor general, no nos entiende. Seguiremos esperando, así nos cueste. Ya no somos animales, ya no rebaños. Levantaremos la mano, el puño en alto, vamos a dar nuevas fuerzas con nuestro ejemplo y el futuro lo sabrá, se lo prometo. Y si quiere amenazar, aquí estoy yo. Dispárele a este obrero al corazón!" El general, que lo escucha, no ha vacilado: con rabia y gesto altanero, le ha disparado. Y el primer disparo es orden para matanza y así comienza el infierno con las descargas.

15. Canção-litânia: Murieron tres mil seiscientos
Murieron 3.600, uno tras otro.
3.600 mataron, uno tras otro.

La escuela Santa Maria vio sangre obrera,
la sangre que conocía solo miseria.
Serian 3.600 ensordecidos
y fueron 3.600 enmudecidos.

La escuela Santa Maria fue el exterminio
de vida que se moría solo alaridos,
3.600 miradas que se apagaron,
3.600 obreros ¡asesinados!

Un niño juega en la escuela Santa Maria,
si juega a buscar tesoros ¡que encontraría!

16. Canção: A los hombres de la pampa
A los hombres de la pampa, que quisieron protestar,
los mataron como perros, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amigo, es peligroso.
Ser pobre amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.

Las mujeres de la pampa se pusieron a llorar
y también las matarían, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amiga, es peligroso.
Ser pobre amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.

Y a los niños de la pampa, que miraban, nada mas.
También a ellos los mataron, porque había que matar.
No hay que ser pobre, hijito, es peligroso.
Ser pobre, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.

Donde están los asesinos, que mataron por matar?
Lo juramos por la tierra, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la vida, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la muerte, los tendremos que encontrar!
Lo juramos, compañeros, ese día llegara!

17. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores, aquí termina 
la historia de la escuela Santa Maria. 

E ahora, con respeto, les pediría 
que escuchen la canción de despedida.

18. Canção final: Ustedes que ya escucharon
Ustedes que ya escucharon 
la historia que se contó,
no sigan allí sentados, 
pensando que ya paso.

No basta solo el recuerdo, 
el canto no bastara.
No basta solo el lamento, 
miremos la realidad.

Quizás mañana o pasado 
o bien en un tiempo,
la historia que han escuchado
de nuevo sucederá.

Es chile un país tan largo, 
mil cosas pueden pasar
si es que no nos preparamos, 
resueltos para luchar.

Tenemos razones puras, 
tenemos porque pelear,
tenemos las manos duras, 
tenemos porque ganar.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro, 
que nadie vas a ceder.

No hay que ser pobre, amigo, es peligroso. 
Ser pobre, amigo, es peligroso. 
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
Hablar, amigo, es peligroso.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!
si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!
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