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terça-feira, 10 de setembro de 2024

PARASITA DA VELHA POLÍTICA, BOLSONARO APENAS SURFAVA NA ENTROPIA DO OLAVO DE CARVALHO. PABLO MARÇAL NELA CRÊ

U
ltradireitista com carteirinha assinada, neto e admirador do Mário Andreazza (ministro dos Transportes que o ditador Figueiredo escolheu como sucessor mas, na convenção partidária do PDS, levou um chapéu do Paulo Maluf), Carlos Andreazza é quem melhor decifrou o fenômeno Pablo Marçal.

No programa Estadão analisa desta terça-feira (10), ele o decodificou como o mais extremado patrono do achincalhe geral, ao apostar todas as fichas na derrota/esculhambação do sistema.

Com intensidade sem precedente no Brasil, Andreazza encarna a promessa de retaliação ao que representariam os adversários, atores num velho teatro entre farsantes

Vote – não para eleger – para punir. Não por realizações estruturais de governo. Por forra instantânea. 

Daí o fascínio que desperta entre os náufragos da debacle capitalista: Muitos entre os que lhe votarão têm nada a perder, despedaçados pelo fim da classe média. Ressentidos de repente apaziguados sob a percepção de que a existência não ficará pior. Não pode piorar. E terão algum prazer.

Todo esse amargor niilista já estava presente na campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018, mas não passava de um engodo, sendo o Bozo um político profissional com três décadas de mandatos legislativos nas costas, durante os quais assentara frondosa empresa familiar nas banhas do estado.

Pablo Marçal, sem tal limitação, seria o verdadeiro genérico da entropia pregada por Olavo de Carvalho, enquanto o palhaço psicopata não passaria de um similar oportunista.

Aonde leva esse furor vingativo? A prováveis vitórias eleitorais seguidas de fracassos catastróficos nas tentativas de governar países a partir de uma destruição indiscriminada. 

Daí todos os rebentos da nova direita estarem se revelando autênticas monstruosidades quando chegam ao poder.

Mas, por que eles têm vencido sucessivos embates contra a esquerda? Também aí não existe mistério nenhum. É porque a esquerda desistiu de superar o capitalismo e hoje atua apenas para dar-lhe sustentação e sobrevida, como mero serviçal do poder econômico  na agonizante democracia burguesa.

É ela quem poderia propor um passo adiante: a construção de uma sociedade que priorizasse o atendimento pleno das necessidades humanas ao invés do lucro. 

Mas, se não reagir em tempo, secundará a destruição da espécie humana pelo capitalismo, ao invés de servir-lhe de antidoto. (por Celso Lungaretti)
Obs. os trechos destacados em negrito são
reproduções exatas do artigo do Carlos Andreazza.

domingo, 1 de janeiro de 2023

O MALIGNO JÁ NÃO DÁ EXPEDIENTE NA PRESIDÊNCIA

josias de souza
3º MANDATO DE LULA SERÁ A 12ª TENTATIVA DE RECOMEÇO EM 6 DÉCADAS
É comum a vontade de começar tudo de novo, para ver se desta vez dá certo. 

Todo mundo já sonhou com a possibilidade de ter uma nova chance, de voltar atrás e, naquele momento decisivo, revisar os erros como se revisa um texto, apagando frases, suprimindo parágrafos, aperfeiçoando o enredo. 

O terceiro mandato de Lula será a 12ª tentativa de renascimento do Brasil em seis décadas de história republicana. 

A fuga de Bolsonaro para os Estados Unidos na antevéspera da nova posse de Lula potencializou a certeza de que o novo recomeço terá de partir do zero. Fracassos anteriores deixaram ensinamentos, aproximando o país de resoluções relevantes. 

O desastre Bolsonaro serviu apenas para demonstrar o que não deve ser tentado nunca mais. O brasileiro foi arrastado para o passado. Vive hoje a ressaca dos anos 60. 

Jânio Quadros e a vassoura que ele prometera usar para varrer a corrupção terminaram em renúncia. 

João Goulart, o vice que assumiu graças ao arranjo do parlamentarismo, acabou em deposição. 

O golpe militar de 64, que foi o desejo de mudança de muita gente, resultou em duas décadas de ditadura. 

A mobilização épica pelas Diretas Já, quarta tentativa de recomeço, deu em frustração. Decepcionaram-se os democratas, que tiveram que adiar o direito ao voto, e João Figueiredo, o último general-presidente, cujo epílogo foi uma declaração patética.

Instado numa entrevista de despedida a dirigir algumas palavras ao
povão, Figueiredo sapecou:
"Bom, o povo, o povão que poderá me escutar será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então, desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam"
Tancredo Neves, a quinta tentativa de reescrever a história, terminou na cova. Tancredo saltou da vitória no colégio eleitoral para a cama de hospital. Morto, foi velado no Planalto antes de descer à sepultura. Deixou como herança o vice José Sarney, egresso da ditadura. 

Na gestão Sarney, a sexta tentativa, a restauração democrática confundiu-se com a anarquia econômica e administrativa. 

Fernando Collor, primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização foi o sétimo recomeço. Escorraçado pelo impeachment, revelou que o Brasil não aprendera com Jânio a desconfiar dos salvadores providenciais. 

Fernando Henrique Cardoso aproveitou o interlúdio representado por Itamar Franco para encaminhar, como ministro da Fazenda, a resolução do problema do combate à superinflação. 

Como presidente, após consolidar a mudança do regime monetário introduzida pelo Plano Real, FHC como que tirou das sombras todas as precariedades nacionais que eram obscurecidas pelo descalabro inflacionário: saúde sofrível, educação precária, desigualdade inaceitável... 

A Presidência pluritemática empurrou a oitava tentativa de renascimento para uma impopularidade que mantém o tucanato longe do Poder há mais de duas décadas. 

Em 2022, em estágio avançado de autocombustão, o PSDB desistiu de apresentar um candidato à Presidência. Saiu das urnas como um pequeno partido, a caminho do nanismo. 

Lula.1, o oitavo recomeço, tornou-se um caso único de presidente que sofreu emboscadas da Presidência quando já estava fora dela. 

Seu estilo de governar, firmando alianças tóxicas financiadas à base de mensalões e petrolões, revelou-se uma rendição à oligarquia política e empresarial. 

Após usufruir de seus dois primeiros mandatos, Lula deixou o Planalto enfiando os dedos no favo de mel de uma taxa de popularidade de 84%. Lambendo as mãos, elegeu a sucessora duas vezes. Tentava fugir das abelhas quando foi preso. 

Dilma Rousseff, o novo recomeço, foi vendida por seu criador como supergerente. Revelou-se um conto do vigário no qual o próprio Lula caiu. Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua como 12 milhões de pessoas. 

Se Lula passou à história como presidente que fez a sucessora, Dilma imortalizou-se como a criatura que desfez a obra do criador. 

Michel Temer, resultado da deposição de Dilma, sonhou em passar à história como presidente reformista. Depois do grampo do Jaburu, tudo virou epílogo no enredo do seu governo. 

Sobreveio Bolsonaro, o 11º recomeço. Catapultado pelo antipetismo do baixo clero parlamentar para o Planalto, Bolsonaro comandou o governo civil mais militar da história. 

Em quatro anos de Bolsonaro, o Brasil consolidou-se como o mais antigo país do futuro do mundo. Experimentou uma metamorfose às avessas. Como uma borboleta que volta à condição de larva, a pátria chega a 2023 arrastando atrás de si o seu passado como um casulo pesado e pegajoso. 

Mal comparando, Bolsonaro transformou a Presidência em algo muito parecido com um cano furado. Um esbanja água em esguichos perdulários. Outro esbanjou tolices e inverdades. O penúltimo jorro de Bolsonaro aconteceu na última 6ª feira (30). 

Antes de fugir para Orlando, paraíso do rato Mickey Mouse, o capitão ressurgiu numa live para dizer coisas assim: "Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!"

Ou assim: "Tem gente chateada comigo, dizendo que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio"

A certa altura, Bolsonaro assumiu sua condição de camundongo autocrata:
"Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições"
Ficou entendido que o Brasil só não virou uma
ratocracia porque as barricadas erguidas pela imprensa e pelo Judiciário, o instinto de sobrevivência dos aliados no Legislativo, a reação da maioria do eleitorado e os sinais emitidos pela comunidade internacional forçaram o capitão a se render à realidade:
"Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais".
Bolsonaro desce ao verbete da enciclopédia como o presidente que virou a página da história para trás. Tornou-se um sub-Figueiredo. Há, porém uma diferença notável: o pedido do último presidente do ciclo militar –"Me esqueçam"– foi prontamente atendido pelos brasileiros. 

Bolsonaro adicionou à recusa de passar a faixa presidencial ao sucessor a fuga para o exterior.  Entretanto, continua boiando na atmosfera como uma ameaça insepulta. Avisou que não cogita jogar a toalha

Nas urnas de outubro, 60,3 milhões de brasileiros o equivalente a 50,9% dos votos válidos no segundo turno de 2022 concederam a Lula 3 a oportunidade de liderar uma 12ª tentativa de renascimento . Foi uma vitória apertada. Bolsonaro degustou a preferência de 58,2 milhões de eleitores ou 49,1% dos votos válidos. 

A despeito da vantagem magra, imaginou-se que, depois de tantos recomeços em falso, o Brasil finalmente deixaria de ser uma Terra plana. Entretanto, pesquisa Datafolha revelou que 39% dos brasileiros avaliam que a gestão ruinosa do capitão foi ótima ou boa. Outros 24% consideram que o desempenho de Bolsonaro foi regular. 

É como se 63% da sociedade transitasse entre o inacreditável e o inaceitável. Um pedaço do país tem dificuldades para acatar as ideias de Copérnico, para quem a Terra gira em torno do Sol. Outro naco hesita até mesmo em aceitar Darwin. 
Bolsonaro definiu a disputa eleitoral de 2022 como uma
guerra do bem contra o mal. A agora ex-primeira-dama Michelle rogou a Deus que afastasse do Planalto as assombrações demoníacas. Suas preces foram momentaneamente atendidas. O maligno já não dá expediente na Presidência, E madame tornou-se um adereço da fuga do marido. 

Nos mais de 60 anos que separam Jânio de Bolsonaro, o Brasil conviveu com duas formas de Poder discricionário: a ditadura institucionalizada e a ditadura da personalidade. Excetuando-se certos personagens que foram mais transições do que presidentes, proliferaram os ditadores e os loucos. 

A benevolência divina vinha poupando o país de alguém que acumulasse as duas condições. Súbito, surgiu Bolsonaro. 

O Brasil é um país que, além de dois presidentes submetidos ao impeachment, teve outro presidente que morreu no dia da posse. Antes, teve um que renunciou. E, antes ainda, teve um que se suicidou no Palácio. Nesse contexto, Lula tem a oportunidade de transformar a herança maldita de Bolsonaro num desastre didático e purgativo. 

Do contrário, arrisca-se a levar o país a confundir novamente em 2026 o histrionismo autocrático com substância e a loucura com solução. (por Josias de Souza)

domingo, 4 de julho de 2021

NÃO EXISTE ALEGRIA COMPARÁVEL À DE ESTAR NA AVENIDA COM OS IDEALISTAS; MAS HÁ OS QUE GOSTAM MAIS DE MOTOQUEIROS.

Entre os 100 mil participantes estimados pelos organizadores do #ForaBolsonaro deste sábado (3) em São Paulo e os 5.500 alegados pela Secretaria de Segurança Pública, só posso dizer, com o olhômetro de repórter obrigado a dimensionar multidões em seu ofício e de torcedor de futebol presente em dezenas de clássicos com estádios lotados, que a virtude não estaria no meio (52.750), mas em muito o ultrapassou, embora talvez não atingisse a centena de milhar.

E houve manifestações em todas as capitais brasileiras e em centenas de outras cidades, todas trazendo às ruas os melhores brasileiros, aqueles que não compactuam com a destruição do nosso país por um genocida desembestado mais seus seguidores e/ou cúmplices – uns, fanáticos negacionistas que, na escala da civilização, continuam até hoje empacados na Idade Média, quiçá na Idade da Pedra; outros, canalhas negocistas dispostos a matar até a mãe por um dólar.

Que importa? A força dessa ralé repulsiva advinha de nossas apatia e prostração. Bastou voltarmos às ruas para delas expulsarmos aqueles a quem elas jamais pertenceram. 

Afinal, como desde Castro Alves ficou estabelecido e lavrado em cartório, a praça é do povo, como o céu é do condor. O ambiente natural dos ratos é outro: os esgotos.

E que imensa alegria foi caminhar de novo ao lado de tantos brasileiros idealistas e esperançosos, a maioria jovens como jovem era eu ao participar de minha primeira passeata, aos 17 anos, no finalzinho de março de 1968! 

Há 53 anos era Abaixo a ditadura!, agora é Fora, genocida! Mas, continua sendo sempre o mesmo inimigo. 

E os melhores brasileiros da minha geração –no caso, aqueles que sobrevivem até hoje ao desencanto de jamais ver o país decolar e, pelo contrário, amiúde vê-lo recuar igualmente continuam os mesmos.

Lá no comecinho da trajetória, antes mesmo de traçar meu caminho pelo mundo, encantei-me com uma estrofe de Gilberto Gil sobre os que travavam o bom combate: "Prefiro ter toda a vida/ a vida como inimiga/ a ter na morte da vida/ minha sorte decidida". Adotei-o e nunca mudei. Outros tantos também nunca mudaram, felizmente! 

Há, claro, quem conclamava nosso povo a perder o medo de ser feliz, mas hoje considera que uma eleição vale mil grandes manifestações populares tais quais a de sábado último; antes pensava, como agora penso, exatamente o contrário. 

Vale lembrar o sensível poeta Cid Franco, que teve estes versos musicados por seu filho Walter: "Mais infeliz deve ser/ o homem que, de alma orgulhosa,/ não quer ou não sabe ver/ a cena maravilhosa".

Caem como uma luva para o personagem em questão, desde que troquemos orgulhosa por gananciosa (não no sentido mais frequente, e sim no de colocar suas ambições pessoais acima de quaisquer outras considerações possíveis e imagináveis).

Quanto ao pior presidente da nossa história e maior exterminador de brasileiros em todos os tempos, pelo menos consegue manter a coerência  num único ponto.

É que, enquanto um dos ditadores do regime militar por ele idolatrado preferia o fedor dos cavalos ao cheiro de povo, o prevaricador troca a companhia de gente como a gente pela dos motoqueiros, bem definidos por Mário Sérgio Conti como os véio na fase anal, moto-pervertidos de escapamento aberto

De resto, não ilude mais ninguém a exibição desses punhados de truculentos como truque para desviar a atenção geral da redução vertiginosa do número de apoiadores locais dessa direita selvagem, cuja onda está em refluxo no mundo inteiro.

Os que preenchemos avenidas é que somos a voz do povo neste instante, e o seremos até  o circo de horrores do palhaço sinistro, decaindo a olhos vistos, baixar definitivamente a lona.

Porque, como Vandré cantou e disse,
gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente! 

É a lição que nos ficará quando for virada esta página vergonhosa de nossa História. Não vai demorar muito. (por Celso Lungaretti)
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