A ESSÊNCIA DO OBJETO TELEOLÓGICO SINDICAL
"Toda instituição tem sua estrutura natural
e inevitavelmente determinada pelo
conteúdo de sua ação" (Lênin)
Cada vez me convenço mais de que o trabalhismo sindical está contido dentro da imanência capitalista, não lhe podendo, portanto, fazer oposição de conteúdo constitutivo; afinal, nada mais é do que uma das faces da mesma moeda, literalmente.
Pensando bem, não podia ser diferente. Os sindicatos se constituem como instituições jurídicas (ou não) verticalizadas de poder classista (laboral ou patronal) em estreita dependência, para a sua existência e manutenção, do número de associados trabalhadores ou patronais.
Assim, pugnam pela força aglutinadora e crescente de cada categoria e, no caso dos sindicatos profissionais, têm no trabalho abstrato, fonte primária da criação do valor (substrato básico do capital), a sua razão de ser. Os sindicatos laborais querem a existência cada vez maior de trabalhadores, pois é daí que retiram a sustentação.
Obviamente, os sindicatos de trabalhadores, ao invés de negarem o trabalho abstrato enquanto categoria capitalista, afirmam-no como um dado ontológico da vida social (o que é equivocado). Estabelecem uma confusão semântica, e também sociológica, entre a interação metabólica do ser humano com a natureza no sentido da obtenção do seu sustento e as categorias capitalistas trabalho e trabalhador, como se as duas coisas, interação com a natureza e trabalho (obviamente diferentes entre si) fossem sinônimos.
Por mais revolucionários que possam parecer os movimentos paredistas, eles se dão pelos trabalhadores enquanto tal, e aí se estabelece uma escravização do pensar ao paradigma trabalho.
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| 1917: a 1ª greve geral brasileira começou no Cotonifício Crespi |
O Marx exotérico do Manifesto Comunista de 1848, que conclamava os trabalhadores do mundo inteiro à união enquanto categoria que considerava revolucionária, não é o mesmo Marx dos Grundrisse, estudo preparatório para a redação d'O Capital.
Nos Grundrisse, Marx afirma que se, com o desenvolvimento da tecnologia aplicada à produção de mercadorias (e agora, mais ainda, com a chamada inteligência artificial dos logaritmos), o trabalho abstrato produtor de valor se tornaria supérfluo e, consequentemente, faria voar pelos ares toda a lógica do capital.
Trata-se de conceitos antagônicos, mas naturais em quem busca e amadurece o pensar a partir do estudos teóricos e empíricos científicos indispensáveis à compreensão da essência daquilo que constitui o modo de mediação social capitalista, e descobre os equívocos e contradições dos seus próprios fundamentos numa questão tão complexa, diante da qual nenhum economista burguês se atreveu (ou se atreve) ou se interessou (ou se interessa) em querer desvendar.
Afirmei no meu artigo anterior sobre a greve/locaute do caminhoneiros, que o movimento tinha um cunho eminentemente capitalista.
É que se tratava de um movimento sindical patronal/laboral com características próprias, peculiares, que reivindica melhoras para um setor que tem expressivo poder de fogo reivindicatório.
Tais reivindicações, contudo, se restringem à obtenção de sustentabilidade econômica corporativa diante de um quadro nacional de depressão econômica que faz água por todos os lados e que inviabiliza a indústria do transporte de cargas de mercadorias.
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| "Tais greves clamam por mais capitalismo" |
Isso não significa que não haja méritos na luta dos caminhoneiros autônomos por melhores condições de vida, muitos deles sofrendo fortes pressões dos bancos (com ameaça de busca e apreensão) para pagarem as prestações dos financiamentos que lhes permitiu adquirir os veículos, e sem fretes, ou com fretes sem remuneração à altura de suas necessidades.
Mas tudo confirma que o objeto teleológico das greves sindicais, mesmo quando que têm um objeto político determinado, geralmente se circunscrevem ao universo limitado da ânsia por dinheiro. Tais greves clamam por mais capitalismo.
Talvez o único exemplo histórico de greve que transcendeu esta estreiteza de visão tenha sido o maio de 1968 francês. Mesmo num período de ascensão capitalista, segmentos mais intelectualizados, revolucionários, quando confrontados pelo sistema e pelos dirigentes sindicais sobre o que estavam reivindicando, responderam de forma enfática e desconcertante: Queremos a vida!
As lutas sindicais nos países industrialmente desenvolvidos, produtores de mercadorias com alto grau de tecnologia e saber científico nelas incorporado (p. ex., um remédio inovador, capaz de curar pacientes graves, pode ter um preço muito acima do seu valor de produção, o que altera substancialmente toda a lógica de produção de mercadorias nela baseada), no período de ascensão do capital, pode atender reivindicações sindicais importantes e o Estado melhorar as condições gerais de vida da população.
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| Trabalhadores no 68 francês: "Queremos a vida!" |
Mas isto sempre ocorre de modo inversamente, e negativamente, e em maior proporção nos países periféricos, uma vez que o capital jamais pode promover a riqueza linear.
No capitalismo, a cada ilha de prosperidade corresponde um mar de pobreza. Assim, ao não levar em conta a questão da hipossuficiência macroeconômica dos trabalhadores mundiais, o sindicalismo termina por se circunscrever ao nacionalismo xenófobo e exclusivista de quem somente consegue enxergar a vida dentro dos seus próprio muros.
A emancipação humana somente pode ocorrer se for transnacional, sem as categorias capitalistas, e transformando o planeta Terra numa casa comum a todos os seres humanos, seus habitantes.
Cada ser humano deve ser o artífice da sustentação do outro ser humano, e não seu adversário numa competição fratricida pela vida, como nos tem moldado o capitalismo nos cinco últimos séculos.
UM COMENTÁRIO INFELIZ – Uma jornalista da GloboNews, aludindo à infiltração de radicais no movimento dos caminhoneiros (sem especificar de que orientação política), afirmou que a paralisação ainda não tinha acabado por conta desses radicais. Segundo ela, radical é radical e só quer atrapalhar...
Se ela queria dizer que os tais infiltrados (muitos dos quais desavisadamente pedem intervenção militar, que os fardados não desejam e sabem muito nem por que não desejam) são ativistas desnorteados ou ingênuos, não deveria fazer tal confusão semântica, chamando-os de radicais.
Primeiramente, é necessário que se esclareça o conceito em questão. Dá-se a tal palavra uma conotação propositadamente negativa, desqualificadora, com o objetivo de amedrontar a todos aqueles que ousem afrontar o sistema, ora em rota acelerada de colapso com o iceberg. [O mesmo, aliás, ocorre com o termo anarquismo, que é uma doutrina revolucionária),
Como disse Marx, ser radical é ir à raiz das coisas; e a raiz é o homem, para quem deve convergir todas as ações sociais.
Nunca foi tão necessário compreendermos aquilo que está na raiz do caos social que atinge o Brasil e todos os países da América Latina, por se situarem na periferia do capitalismo.
A crise do capital, mais que um fenômeno continental, é um fenômeno mundial. E o atendimento das reivindicações dos caminhoneiros não trará a solução dos problemas, que já são estruturais. (por Dalton Rosado)