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domingo, 10 de março de 2024

CRISE CAPITALISTA COMEÇA A ENGOLIR O MEDÍOCRE GOVERNO LULA 3


 
Dito isso, todo governo basicamente tem duas alternativas: ser sortudo ou ser azarado. Com sorte, ele pega um momento de crescimento, onde os negócios estão indo bem e a acumulação capitalista está dentro de padrões toleráveis. Se tiver azar, ele pega o momento de fim de ciclo, de crise na acumulação. Lula teve sorte em 2003-2010, não parece ter agora. 

Na realidade, desde 2008 o capitalismo mundial patina, incapaz de engatar um ciclo produtivo sustentável. A razão é exatamente a elencada acima, a superprodução, ou, dito de outra forma, o capitalismo bateu no teto, igual já tinha batido em 1929. Isso significa que na atual configuração mundial é impossível os seres humanos absorverem adequadamente a quantidade de mercadorias produzida, não por falta de dinheiro pra consumir, mas porque o nível produtivo é tão titânico a ponto de ser humanamente impossível dar conta de tudo, apesar de estarmos em um contexto  de hiper consumo supérfluo, com a produção abissal de lixo e rejeitos.

O resultado político disso é a ingovernabilidade social, com erupções de levantes, guerras e, mais prosaicamente, o desgaste de governantes. A impopularidade dos governos, sejam eles de esquerda ou direita, tem sido a tônica destes anos, com a crise engolindo a todos. Basta olhar para Biden, Boric, Fernandez, Macron, etc, para se ter ideia deste processo, todos assumiram com grandes esperanças para logo derraparem na insatisfação popular. Novamente, como disse Marx no 18 de Brumário, a primeira vítima de toda crise capitalista é o mandatário do país, não importa quem ele seja, pois é nele que o povo comum canalizará sua raiva e insatisfação. E quem costuma faturar é a oposição, seja também quem ela for. 

 Em épocas de crise aguda, como a que estamos começando a viver, as alternativas radicais ganham mais guarida no seio da população. O campo dos moderados vai diminuindo até se tornar minoria completa, ao contrário de épocas de estabilidade, quando é majoritário. A aderência às ideias radicais surge da própria condição crítica vivida pelos indivíduos no dia a dia. A emotividade passa a falar mais alto, com o medo, a raiva, o ódio e a esperança tomando o lugar do raciocínio pragmático. São tempos de intolerância e agressividade. Por isso, quem apostar no mais do mesmo invariavelmente fracassará e apenas quem encarnar a mudança será capaz de arregimentar as multidões. 

A extrema-direita sabe disso e é esse o motivo de ela falar e agir de forma radical. No entanto, sua radicalidade é falsa, pois visa apenas reforçar, por outros meios, o domínio da propriedade privada e do mercado, mas consegue apelar ao vulgo por oferecer alternativas à situação vivida.

Ao não propor alternativa nenhuma, o lulopetismo entra no lodaçal modorrento da continuidade do pesadelo. Pior, pois enfraquece a esquerda e deixa a direita como única vocalizadora de um projeto de transformação social. Enquanto se arvora no discurso tecnocrata, na empulhação e na politicagem, o governo Lula é comido pouco a pouco pela crise capitalista, diante da qual é impotente. A única alternativa seria romper as amarras do bom mocismo e enveredar também pelo caminho da radicalidade, com todas as consequências daí advindas. No entanto, basta olhar a cara tediosa de Haddad para perceber o quanto audácia não é palavra constante do dicionário lulista. 

Resta então ir cozinhando a gororoba indigesta e empurrando com a barriga o fim, que se prenuncia trágico. Caso não tenha outro golpe de sorte, o destino de Lula 3 será o de ser tragado pela debacle da sociedade capitalista.

O Titanic de Lula começa a afundar 

Transcrevi acima a parte final de um artigo escrito há exatamente um ano - Lula 3 será cozido pelo fogo alto da crise capitalista. Diante da recente notícia da queda de popularidade do presidente, considerei válido revisitar minha análise, não para propagandear meu acerto, mas para ressaltar o quanto a situação está seguindo o script prenunciado pela atual crise crônica do capitalismo. 

A mídia burguesa faz seu trabalho de manipular a opinião pública e atribuir a queda de Lula às suas falas sobre Israel, à sua política externa, à pouca austeridade fiscal, etc., tudo menos ir à raiz do problema que é o atual impasse capitalista responsável pelo alto custo de vida, pela crise alimentar e de habitação, pela deterioração das condições de vida nas grandes cidades, pela violência desenfreada e pelo acirramento do individualismo e do clima do "cada um por si". 

Esses fatores não são exclusivos ao Brasil, mas comuns a todo os países. Assim, por exemplo, na Europa milhões de pessoas hoje precisam escolher se pagam os aluguéis ou compram comida. Nos EUA, há tantos moradores de rua que muitas cidades decretaram situação de emergência, com algumas, mais reacionárias, impondo proibições e remoções forçadas dessas pessoas. Na América Latina basta lembrarmos da situação calamitosa da Argentina. Para onde quer que olhemos o capitalismo patina e leva junto os chefes de Estado e de Governo, sejam eles quais forem. 

Lula vai sofrendo o mesmo destino de outros líderes mundiais que tomaram posse com altas expectativas e logo afundaram: Biden, Boric, López Obrador, Fernandez, António Costa, para citar alguns nomes. Mas outros, menos democráticos, também sentem o efeito da impopularidade causada pela crise, tais são os casos de Netanyahu, Putin, Xi Jinping, Maduro, líderes longevos, mas que patinam. Não à toa, a guerra ou é aventada por eles ou já foi assumida como solução para a impopularidade. 

A guerra por sinal é a grande solução tramada pelos capitalistas, sendo que hoje a indústria bélica já é a principal força econômica em nível mundial. Emmanuel Macron, que sofre com uma rejeição altíssima e insanável, não se vexou de falar abertamente no envio de tropas francesas para a Ucrânia, o que significaria simplesmente no início da Terceira Guerra Mundial. Nas cabeças burguesas mundo afora o holocausto nuclear é cada dia mais visto como a solução ideal para salvar o capitalismo de sua bancarrota. 

No Brasil, Lula terá sorte se terminar seu mandato e não sofrer um impeachment - ou golpe, na terminologia farsesca do lulopetismo -, o qual tem tudo para se aventar como um duplo impeachment: dele e de seu vice sem sal. Para a esquerda, muito mais importante que se preocupar com as inúteis eleições municipais é se preparar para as decisivas lutas futuras, pois apenas um programa revolucionário poderá fazer frente ao avanço da extrema-direita. (por David Coelho) 

terça-feira, 18 de abril de 2023

ESTRATÉGIA DIPLOMÁTICA DE LULA É BEM PENSADA, MAS ARRISCADA


 L
ula faz um jogo complexo e perigoso nas relações estrangeiras, mas age de forma estratégica. Para além da ladainha da mídia brasileira, a qual apenas segue as diretrizes do Departamento de Estado dos EUA, ou seja, faz propaganda estadunidense em questões geopolíticas, a lógica do presidente não é exatamente de tratar do conflito atualmente em curso na Ucrânia, mas da disputa muito maior travada entre dois grandes blocos mundiais em formação. 

De fato, Lula leu corretamente a situação global e visualizou o que a guerra em curso no leste da Europa realmente é, um choque indireto entre EUA e Rússia, em que o governo estadunidense, através da OTAN, usa o povo e o território ucranianos para testar e minar o poderio bélico russo. Quem ainda tiver um pingo de dúvida sobre isso, basta ler os recentes documentos secretos do Pentágono que vieram a público nos últimos dias, pois nele é claríssimo o comando total do exército estadunidense sobre Kiev, a ponto de mesmo as ligações telefónicas de Zelensky com seus generais serem monitoradas em tempo real pelo alto comando militar em Washington. 

Nenhum movimento das tropas ucranianas acontece sem um aval do Pentágono. São especialistas estadunidenses os responsáveis por treinar e coordenar as ações militares ucranianas e se não fossem os armamentos vindos dos EUA, certamente o regime de Zelensky não teria resistido por tanto tempo à ofensiva de Putin. 

Uma no cravo...

Ao mesmo tempo, há um conflito econômico se aprofundando entre EUA e China. Algo antes visto como mera excentricidade de Trump, provou-se ter uma lógica profunda em uma disputa por hegemonia mundial. Obviamente, o país asiático está longe de possuir a mesma capacidade e pujança que a nação norte-americana, mas o mero fato de hoje já concorrer em alguns setores chaves da economia do século XXI, como a área tecnológica, é motivo suficiente para desencadear um choque de grandes repercussões. 

Diante deste cenário, Lula age de modo semelhante a Getúlio Vargas: tenta se balançar entre os dois lados para pegar o máximo possível de ambos. Vargas também fazia algo semelhante nos dramáticos períodos anteriores à Segunda Guerra Mundial, ora pendendo para os EUA, ora para a Alemanha. Conseguia, assim, retirar o máximo de benefícios dos dois lados em disputa, elemento crucial para o avanço econômico do Brasil naquele período.

O atual presidente faz o mesmo cálculo. Dando uma no cravo, outra na ferradura, tenta conseguir vantagens dos dois lados, cortejando uma hora Biden, outra Xi Jinping, mais uma outra Putin. Parceiro historicamente preferencial, os EUA certamente devem ter tirado a mesma lição hoje que a tirada por Roosevelt há quase noventa anos, é preciso agradar o Brasil com dólares.

Porém, a situação hoje é pior que a do período pós-crash, pois à época existia o New Deal que garantiu aos EUA um respiro capaz de apaziguar as tensões internas e capitalizar o governo a ponto de distribuir dinheiro para outros países, algo inexistente no contexto atual. 

... outra na ferradura. 

Lula, portanto, pode estar apostando alto, entrando em um jogo complexo e de cálculo arriscadíssimo. Pode dar certo, mas também pode dar muito errado. No entanto, não há muito de diferente a ser feito, pois a condição colonial do capitalismo brasileiro, sua improdutividade crônica e a virada neoextrativista não deixa espaço para uma ação autóctone, passando apenas a inversão de valores do estrangeiro ser o caminho. 

Mas, ao seguir as pegadas de Getúlio, Lula tem de ter consciência que a estratégia tem um limite. Quando a Guerra finalmente explodiu e Pearl Harbor foi bombardeada pelos japoneses, o Brasil precisou tomar uma decisão e decididamente optar por um dos lados da disputa. Pode não estar longe o dia que o atual presidente brasileiro terá de enfrentar decisão semelhante. (por David Emanuel Coelho) 


sábado, 15 de abril de 2023

CONSEGUIRÁ O PARTIDO "COMUNISTA" CHINÊS DOMAR O CAPITAL?

 


Sempre fico a me perguntar se Mao Tse Tung, que tinha Josef Stalin como exemplo de pragmatismo pretensamente comunista a ser seguido, diria ao constatar que sua revolução armada contra os nacionalistas de Chiang Kai-Shek, ao invés de superar as categorias capitalistas, iria aprofundá-las no capitalismo mais selvagem do planeta Terra e com isto solapar o próprio capitalismo sob o qual o país dos Mandarins e de Deng Xiaoping se desenvolveu desde 1976. 

A nova rota da seda chinesa, ou belt and road iniciative, na tradução em inglês, é uma tentativa do capitalismo chinês de sobreviver tentando alcançar uma hegemonia capitalista mundial para fazer face ao esperado e presente emperramento do crescimento do seu Produto Interno Bruto, causado pelo inevitável limite interno da expansão da forma valor, e com isto poder tornar solvável a sua proibitiva dívida pública e privada que ascende a quase 300% deste indicador econômico sobre o qual incidem juros de 2,75% a 3,00% ao ano em dólar dos Estados Unidos. 

Para pagar os juros de sua dívida colossal, calculada em 51,8 trilhões de dólares, que corresponde a cerca de US$ 1,5 trilhões, ou R$ 7,5 trilhões, ou seja, valor correspondente a pouco mais do PIB anual do Brasil, há que haver lucros empresariais capazes de aguentar a remuneração ao capital internacional globalizado.  

Mao Tsé-Tung

A economia chinesa - como de resto a economia no resto do mundo - que parece portentosa em termos econômico, na verdade é um grande Titanic indo ao encontro do iceberg capaz de furar o seu casco e fazê-la naufragar irremediavelmente. 

A China procura expandir os seus negócios capitalistas nas regiões a partir da Rússia, na Ásia Maior e Menor e na América latina - como agora com o Uruguai, Argentina e Brasil - como forma de criar laços capitalistas tão volumosos que possam causar uma relação de recíproca dependência capitalista mundial ao sistema financeiro internacional capaz de inverter a cara exigência de remuneração cobrada por este mesmo capital bancário globalizado à própria China - enquanto o Japão rola sua dívida com juros negativos, à China são cobrados juros extorsivos. 

Paradoxalmente, porque o capitalismo não sobreviverá ao avanço tecnológico aplicado à produção de mercadorias, a China vem desenvolvendo avanços técnicos nas áreas da comunicação eletrônica e robótica que ao mesmo tempo em que lhe oferece grandes oportunidades de negócios, cria a substituição acelerada e substancial do trabalho abstrato, único produtor de valor e base de sustentação da economia capitalista. 

Como dizia Karl Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, e os chineses, na sua tentativa desesperada de sobrevivência dentro da lógica capitalista, ao invés de tentar superá-la, estão cada vez mais dentro do Titanic, e continuam a tocar a música antes do naufrágio, tal como fizeram os músicos naquela tragédia marítima do início de século 20.  

A velha China agrícola deu lugar a um país industrializado e urbano, com os ganhos e prejuízos inerentes ao processo de desenvolvimento do capital e de sua lógica autotélica. De um modo geral, a milenar miséria chinesa da época dos Mandarins deu lugar a uma nova configuração de classes sociais próprias ao capitalismo no qual se formam ilhas de riqueza rodeadas de pobreza.  

A renda per capita chinesa é hoje equivalente à renda per capital brasileira, situada em torno de US$ 12,500,00, com alguns milhares de bilionários empresariais em contrate com a vida de operários que trabalham num regime de produção de valor próprio à rígida disciplina e obediência cultural chinesa à hierarquia administrativa, com baixos salários que propiciam a competitividade dos seus produtos na guerra concorrencial da economia de mercado internacional.  

Para entrar no mercado mundial, a China desenvolveu o aprendizado do saber tecnológico destrinchando as estruturas de hardwares e softwares para somente depois, pelo uso reiterado da imitação, chegar a uma produção tecnológica mais esmerada a partir de sua própria criatividade. Ou seja, praticou a chamada engenharia reversa, se apropriando da produção tecnológica de países mais adiantados, como os EUA e as nações da Europa. 

O envio de chineses para universidades do exterior - Deng Xiaoping é fruto do início desse processo de apreensão do saber fora da China, já que estudou em Moscou em 1926, antes da revolução chinesa a qual se integrou - foi e ainda é parte deste processo cognitivo industrial que tem proporcionado o desenvolvimento em diversos campos do saber, como nas seguintes áreas: 

- da tecnologia da informação cibernética e de satélites - adaptadas à terceira revolução industrial microeletrônica, inclusive com a criação do LIFI, um novo tipo de comunicação superior ao WIFI; 

- da biotecnologia, com a indústria farmacêutica - a vacina contra a civid19 é bom exemplo desta última faceta industrial chinesa; 

- da produção de energias limpas - eólica e fotovoltaica - e mecânica - os carros elétricos chineses. 

Deng Xiaoping
Este processo de engenharia reversa já ficou para trás, dando lugar ao avanço da criatividade industrial chinesa no campo da telecomunicação, que em muitos casos supera aquela conhecida no mundo capitalista ocidental.  

A China investiu em pesquisa tecnológica cerca de US$ 344 bilhões e, para se ter uma ideia do que isto representa, basta considerarmos que a União Europeia e seus 28 países investiu cifra inferior à chinesa, segundo dados de 2014 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos).

Mas a China, em que pese os seus esforços ecológicos, ainda é um dos maiores emissores de CO2 na atmosfera, fato que se reflete na poluição atmosférica em várias das suas cidades industriais. Seu padrão salarial baixo em termos per capitas não permite à população média a aquisição da casa própria face aos juros altos, o que tem causado graves problemas no setor imobiliário, como ocorreu com a quebra da gigante Evergrande, segunda maior empresa imobiliária do país, e dos imensos conjuntos habitacionais desocupados e construídos com dívida imobiliária, e que estão à espera de compradores habilitados ao pagamento da aquisição que não aparecem.  

A China se expande economicamente com suas exportações não apenas nos setores antes referidos, mas também na construção de infraestrutura como estradas, usinas elétricas e grandes obras da construção civil, como se pode inferior dos seus investimentos em obras na África, seja a partir de empresas chinesas diretamente ou por empresas locais financiadas pelos chineses.  

Este é um espaço de exploração capitalista que vinha sendo modestamente perseguido pelos governos Lula e Dilma e que foram sobrestados pelos escândalos da Lava-jato envolvendo empresas e agentes públicos daqui e de lá.  

A guerra monetária capitalista está em curso, pois quem detém hegemonia de moeda fiduciária na economia capitalista dita as regras do jogo. Como sabermos, desde a cúpula internacional de Bretton Woods, em New Hampshire, realizada em 1944, com a segunda guerra mundial já definida em favor dos aliados e com os Estados Unidos com sua infraestrutura industrial incólume, o dólar estadunidense foi considerado como moeda internacional.  

 Até 1971 as moedas eram lastreadas em ouro, mas naquele ano passaram a se lastrear apenas no dólar estadunidense. Entretanto, como as moedas hoje são fiduciárias, a emissão desvinculada do valor que deveria representar é a causa de termos hoje uma grande e proibitiva soma de circulação de moeda sem valor mundo afora, que não causam inflação aos seus emissores, mas provocam uma anomalia de reservas cambiais sem substância de valor que mais cedo ou mais tarde provocará um colapso internacional financeiro na hora da verdade. 

Xi Jinping 

A dívida mundial crescente dos governos já atinge cerca de US$ 300 trilhões, conforme dados do IIF – Institute of International Finance -, e representa cerca de 225% do PIB mundial, tornando-se impagável se considerarmos os níveis de capacidade de geração de lucros dos países devedores.   

Tal fenômeno representa um impasse econômico sem precedentes e acarretará, num futuro próximo, um colapso monetário quando, tanto as reservas cambiais acumuladas pelos países, como as suas dívidas, representarem tão somente para os credores rentista um título de crédito de um devedor falido e insolvente.  

Esta bomba vai estourar no colo dos rentistas e do sistema financeiro internacional, que já demonstra fragilidade com a quebra de alguns bancos, vez ou outra,  os quais ainda estão sendo passíveis de socorro, mas que quando a avalanche ocorrer, isso não será mais possível.  

A China tem reservas monetárias em dólar estadunidense num montante de cerca de US$ 3 trilhões, para uma dívida de cerca de US$ 50 trilhões, o que significa que precisa gerar lucros para conservar a credibilidade de seu crescimento econômico e sua capacidade de solver o serviço da dívida que, como vimos, é equivalente a cerca de 50% de todas as suas reservas cambiais.  

Entretanto, tanto as reservas cambiais chinesas como sua dívida, nada significarão para a economia global no momento do colapso final claramente previsível, mas escamoteado pelo otimismo infundado dos analistas econômicos atrelados à ordem capitalista de onde tiram seu sustento.    

Assim, a investida chinesa de criar uma vida monetária paralela ao dólar estadunidense, a partir do yuan, ou  renminbi (RBM), nome oficial da moeda chinesa, é algo vital para sua sustentabilidade e independência financeira, bem como para o seu crescimento a partir de relações com países que adotem negociações sob tal critério financeiro.  

Registre-se que o crescimento do PIB chinês anda enfraquecido por conta de vários fatores conjunturais a pandemia foi um deles -, mas tem como principal fator a incapacidade de consumo que é delimitada pelo poder de compra da população mundial e pela própria necessidade de consumo desta: ninguém usa dois sapatos por vez.  

A necessidade de crescimento da produção de valor obedece a um critério ad infinitum, mas a capacidade de consumo é definida pelos fatores acima expostos, e isto se constitui como uma equação irresolúvel para o mundo capitalista e seu dilema existencial lógico.   

Não é por menos que a China tenta atrelar as suas relações financeiras ao China Interbank Payment System, alternativa chinesa ao ocidental Swift, que conecta milhares de instituições financeiras mundo afora, para assim livrar-se, pelo menos num primeiro momento, dos grilhões monetários do ocidente capitalista com o qual disputa hegemonia usando as mesmas armas.  

Comparado aos citados líderes, Lula é um anão, 
mas o Brasil possui sua importância.

O governo brasileiro acaba de assinar acordo para fazer parte deste sistema chinês e adotar a moeda chinesa como forma de pagamento de suas exportações e importações, o que deverá incomodar os Estados Unidos, apesar de que isto não representa muito financeiramente, se considerarmos que o dólar estadunidense corresponde a 88% das transações cambiais do mundo e o Brasil é peixe pequeno neste campo da riqueza abstrata, ainda que seja importante geopoliticamente.    

Lula, tal como a China, tenta desesperadamente encontrar alternativas para o crescimento econômico sem o qual sua popularidade desabará, possivelmente implicando no médio prazo um fortalecimento da elitista direita brasileira que demonstrou força no último pleito eleitoral.  

Mas o capitalismo é uma guerra concorrencial de mercado e nele não há parceiros generosos, mas sempre alguém que quer levar vantagens, se aproximando mais da famosa Lei do Gerson, da antiga propaganda, e num mundo em depressão a melhor alternativa seria uma nova relação social, sem a hipocrisia das relações internacionais capitalistas, mas com a solidez de relações sociais contributivas transnacionais e ecologicamente sustentáveis. 

Os líderes mundiais buscam no incremento da forma valor a solução dos seus problemas tal qual um viciado busca na droga o alívio do mal que o aflige.  Assim, querer uma virada de chave brasileira seria querer demais de um Lula, que tal qual Xi Jinping, acredita na possibilidade da prosperidade linear capitalista.  

O pior cego é o que não quer ver. (por Dalton Rosado) 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

UMA ONDA GENOCIDA NOS AMEAÇA – 1

O
capitalismo está entrando na sua fase mais perigosa: a da beligerância genocida.

Ela advém da intransigência mundial de não aceitação da necessidade de superação de um modelo de relação social falido, que já não é capaz de fazer a mediação social de forma  minimamente sustentável. 

Um desses mecanismos de compensação era o fato de que, a cada desemprego causado pelo advento das máquinas na produção de mercadorias, havia a criação em maior número de novos nichos de trabalho abstrato em volume superior. Ainda que explorados, os trabalhadores se mantinham precariamente vivos na sua maioria (aí excluída a chamada aristocracia operária).  

Antes a desigualdade social existente era aviltante, mas tolerada por conta de mecanismos sociais de compensação que mascaravam uma injustiça social que muitos preferiam fingir não ver, ou até mesmo justificavam como mal necessário.

Hoje, com o aumento da fome mundial e o crescimento do desemprego estrutural, da inflação, da crise de moradia e da emigração forçada, por paradoxal que pareça, os governos autocráticos estão ganhando força, como se a contenção da barbárie em curso exigisse mais ação militar, pretensamente disciplinadora. 

Para muitos, ao invés de curarmos e discutirmos a causa do mal, o melhor é aceitá-lo sem questionamentos anatômicos, como se a culpa de sua inviabilidade estivesse ligada não à sua própria essência contraditória e segregacionista, mas apenas à  má condução institucional que lhe é dada. 

É a síntese mais bem acabada de razão da força sobrepujando a força da razão.
O QUADRO CAPITALISTA MUNDIAL
 – Há, hoje, claramente, uma disputa de blocos capitalistas pela hegemonia econômica da massa falida capitalista. Mais parece um bando de lobos brigando pela carne pouca de um animal abatido.

O capital fundou o nacionalismo e o desenvolvimento capitalista formou blocos imperialistas de Estados nacionalistas que, enquanto se digladiam entre si, juntam-se estrategicamente contra outros blocos. É a lógica competitiva e fratricida do capital em estágio de exacerbação. 

Mas, como tudo no capitalismo é contraditório, os blocos imperialistas em disputa dependem da economia globalizada para continuarem a ter força, que se traduz em poderio econômico, armamentista e de contingente miliar elevado. 

Do ponto de vista meramente militar, podemos dizer que não se ganha a guerra apenas pelo ar; há que se dominar politicamente e pela força militar os Estados nacionais e, como disse um conhecido analista político, o leão pode até matar o porco espinho, mas não é fácil comê-lo.

A invasão russa da Ucrânia tem demonstrado quão difícil é a guerra de posições (domínio territorial político e administrativo da vida social) e como pode ser elevado o preço a pagar pela resistência à guerra de movimento (bombardeios e avanços territoriais pela força bélica) – tanto isto é verdade que o fim do conflito deve demorar, desde já se antevendo que terá um alto custo para ambas as partes envolvidas. 
Os russos invadiram o Afeganistão em 1979 e acabaram
se retirando em 1989, fustigados por tenazes guerrilhas

A Ucrânia não é a Tchetchênia (cuja capital, Grozny, tem apenas 272 mil habitantes); não é a Síria; não é a Georgia; não é apenas a Criméia; não é apenas a região de Donbass, que abrange as importantes cidades de Luhansky e Donetsk. 

Não. A Ucrânia é um país desenvolvido, ainda que relativamente pobre, cuja capital Kiev conta com quase 3 milhões de habitantes, dos 40 milhões que se espalham por todo o seu território. 

A guerra ali está mais próxima da travada no Afeganistão (com outro método e, evidentemente, outra configuração geográfica), e é marcada por um sentimento de unidade e preservação do povo ucraniano, diante de uma agressão injusta e injustificada.          

É do ponto de vista econômico que a configuração geopolítica mundial se complica. 

No estágio atual o capital precisa expandir-se além fronteiras, tendo, neste sentido, de vender para outro bloco as mercadorias produzidas num bloco; ou seja, o capital não pode sobreviver na relação de produção e consumo apenas num bloco. Vivemos a era da globalização irreversível da lógica do capital (que empacou).

Na verdade o capitalismo one world já atingiu o seu limite de expansão e faz água. Se o capital descobrisse outro planeta habitado no qual fosse capaz de impor o seu modo de relação social, explorando os seus habitantes para concretizar sua necessária expansão (ou seja, empobrecendo-os para o enriquecimento dos que produzem mercadorias cá na Terra), o capitalismo teria uma sobrevida. 

Mas, já não há possibilidade de expansão salvadora. Vem daí os blocos beligerantes estarem enfrentando sérios problemas em suas estratégias de preponderância sobre a massa falida capitalista, o que prenuncia o colapso. Todos vão perder a guerra. 
Sem limites? Faltou combinarem com os ucranianos...

A Rússia celebrou com a China um pacto de alinhamento sem limites. As duas nações estão tentando absorver a influência sobre a Índia e a Indonésia, que juntas formariam um bolsão de 3,3 bilhões de habitantes:
— China, 1,44 bilhão;
— Índia, 1,4 bilhão;
— Indonésia, 279 milhões;
— Rússia, 145 milhões.

Ou seja, 43,5% da população de todo o Planeta, e com influência majoritária em toda a Ásia.  

Mas a China precisa vender suas mercadorias para o mundo todo e manter a sua expansão do PIB para fazer face aos juros da sua colossal dívida pública e privada, sob pena de paralisar a sua produção industrial e gerar uma grave onda de desemprego (e os empregos por lá são de uma escravização capaz de fazer inveja aos antigos senhores de escravos negros no Brasil!). 

Daí poderá resultar até mesmo uma guerra civil capaz de derrubar o governo ditatorial do Partido dito Comunista (por ser relativamente pequeno se considerarmos a população chinesa, o exército chinês, com 2 milhões de soldados, não seria capaz de conter uma revolta de grandes proporções). 
   
Assim o alinhamento sem limites com a Rússia esbarrou no limite de seu interesse comercial com o Ocidente; ainda por cima, veio a pandemia da covid, obrigando a paralisia da produção e venda de mercadorias em centros industriais importantes como Xangai e Pequim. 

A China pisou então no freio, desacelerando o ensaio de apoio à invasão Plutinocrata à Ucrânia. (por Dalton Rosado — continua neste post)

domingo, 6 de março de 2022

O URSO RUSSO FRAGILIZA A SUA POSIÇÃO E FORTALECE A DO PANDA CHINÊS

josias de souza
CHINA VIROU O MELHOR SEDATIVO PARA CONTER PUTIN
A
guerra que a Rússia deflagrou na Ucrânia entra no seu 11º dia sem perspectiva de resolução. A superioridade militar russa vai se impondo num ritmo mais lento do que o Kremlin poderia supor. 

A resistência ucraniana gruda no semblante de Putin a aparência de um vitorioso derrotado. E empurra a China gradativamente da posição de coadjuvante para a de protagonista. 

Na última década, China e Rússia estreitaram suas convergências. Desenvolveram uma relação de interdependência econômica e energética. E cultivaram o interesse recíproco de estabelecer um contraponto à hegemonia do ocidente. 

No mês passado, Xi Jinping e Vladimir Putin selaram o que foi batizado de parceria ilimitada. Mas a reação da diplomacia chinesa à invasão da Ucrânia sinaliza que a parceria de Pequim com Moscou tem um limite: o pragmatismo econômico.

A China evitou votar contra a Rússia no Conselho de Segurança e na assembleia Geral da ONU. Tampouco votou a favor. Preferiu se abster. 

Para compreender a ambiguidade, é preciso atrasar o relógio até a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976.  
No dia seguinte, a ditadura chinesa começou a restabelecer maciçamente os mecanismos de competição, do lucro e da propriedade privada. Abraçou o capitalismo, enfim, embora sob controle do Estado.

Hoje, a China tem negócios no mundo inteiro. É a segunda maior economia do planeta. Equipa-se para ultrapassar os Estados Unidos. 

Xi Jinping não parece predisposto a trocar décadas de planejamento estratégico por uma aliança irrestrita com Vladimir Putin. Os chineses tendem a extrair todos os benefícios da relação com os russos, sem negligenciar os seus interesses no mundo. 

A proximidade entre a ditadura e a autocracia faz com que os chineses tenham uma ascendência sobre a Rússia, credenciando-se para o papel de mediadores. Esse protagonismo pode ser exibido sob holofotes ou longe dos refletores. Mas ele tende a ser exercido. Por duas razões: 
1. As sanções econômicas sem precedentes impostas pelo ocidente afundaram a Rússia num fosso recessivo, com reflexos negativos nas outras economias. 
2. Em meio a uma corrida com os Estados Unidos, a China não tem o mais remoto interesse no prolongamento da instabilidade. A bagunça que se estabeleceu na economia mundial provoca prejuízos que os chineses não parecem dispostos a amargar. 

Putin declarou que as sanções econômicas equivalem a uma declaração de guerra. Demora a perceber que o principal alvo atingido no confronto que produziu foi o seu próprio pé. Contratou um pós-guerra sombrio. 

Na Ucrânia, Putin terá de lidar com o ódio de milícias civis armadas com antecedência pelos Estados Unidos e pela União Europeia. 

Na Rússia, Putin terá de tourear a irritação doméstica. A repressão policial e a censura aos meios de comunicação talvez sejam insuficientes para deter a insatisfação com o sofrimento decorrente da asfixia econômica. 

Tomado pela retórica, Putin ainda está distante da sobriedade. A China é, no momento, o melhor sedativo à disposição na praça para conter seus arroubos. (por Josias de Souza)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

E SE A CHINA APROVEITAR O EMBALO PARA DAR CALOTE NA SUA DÍVIDA PÚBLICA?

dalton rosado
O MÓVEL DA GUERRA
A humanidade convive com a bestialidade das guerras há milênios, desde que se matava com lanças até o desenvolvimento das armas capazes de causar uma hecatombe global.  

Antes se invadia com cavalos e espadas, agora se ataca por terra, mar e ar, com veículos velozes e armamentos altamente letais. 

Mas não mudou seu conteúdo, ou seja, o móvel da guerra: a busca da hegemonia de poder político e econômico.   

Hoje as armas atômicas, de tão apocalípticas que são, constituem-se numa reserva de uso estratégico, último recurso para satisfazer a sanha belicosa de um tirano vaidoso qualquer urgido ao poder político como consequência da tensão assassina da fratricida disputa por hegemonia econômica, também conhecida como capitalismo.

Sim, o móvel da guerra é a busca da hegemonia econômica. 

Não há nenhum santo nesta história. O país que invadiu o Iraque, soltando bombas a uma distância de 10.000 pés e matando crianças que dormiam em Bagdá, sob o pretexto de lá existirem armas químicas, é o mesmo que hoje condena a absurda invasão da Ucrânia pela Rússia,  cujas justificativas são igualmente tão ridículas quanto cruéis.

O poder político-militar corresponde apenas à explicitação visualmente mortífera de algo que lhe é subjacente: a velha subjugação dos perdedores pelos vencedores, que assim passam a deter a riqueza material ou abstrata em seu benefício.   

A guerra é desumana porque é desumano o móvel de sua ocorrência. 

O Império Romano, com suas legiões de soldados, conquistou territórios e escravizou  vencidos a ponto de atingir a marca de 1 milhão de habitantes, sendo 80% escravos. 

Na civilização romana, tanto as obras notáveis de grandes artistas plásticos, como o (incipiente) conhecimento científico, estiveram sempre a serviço do mesmo móvel vigente na segunda natureza humana, dita racional: a escravização do ser humano pelo próprio ser humano.

Neste momento em que se explicitam os limites internos de expansão capitalista, os países do G7 sentem faltar chão sob os seus pés em face da incapacidade de manter  indispensável aumento do volume de lucros e a reprodução do capital em seus territórios, já que o capital aplicado na produção de mercadorias migra para outras nações. 

Fragilizam-se pelos próprios fundamentos econômicos sob os quais erigiram o seu poderio, daí o imperativo de uma nova configuração de poder geopolítico mundial. Foi assim na primeira revolução industrial inglesa e na segunda revolução industrial fordista; assim está sendo na terceira revolução industrial cibernética. 

A China, detentora do segundo maior PIB do planeta (ainda que seja relativamente baixa a renda per capita do seu povo) e de um numeroso exército, alia-se à Rússia, cuja pretensão é recuperar a influência da antiga União Soviética, levada de roldão no final do século passado pela debacle do capitalismo de Estado nela vigente. 

Putin conta com seu poderio militar, mesmo que desproporcional ao econômico, para restabelecer o status quo ante sob uma nova roupagem ideológica.
Um bloco formado por China e Rússia pode vir a representar uma vastíssima extensão territorial e um contingente populacional numeroso, capaz de transformar os novíssimos países do Leste europeu em repúblicas-satélites, como na antiga URSS e com extensão de influência para todo o restante das Ásia. 

A invasão da Ucrânia, país mais próximo da União Europeia entre os povos eslavos, é apenas a ponta deste iceberg.

Diante da ora anunciada represália ocidental à economia da Rússia e da inevitável queda do PIB da China (que obviamente não pode se manter nos níveis anteriores graças ao limite mercadológico mundial), estabelecem-se dois grandes impasses:
— a questão da moratória ou simples calote da colossal dívida pública destes países em face dos credores internacionais (nos anos vindouros deverá ocorrer o tsunami da bancarrota internacional da dívida pública, com inevitáveis consequências para os padrões monetários hegemônicos, o dólar dos EUA e o euro da União Europeia);
— a trajetória dessa banda do planeta que se desgarra da lógica capitalista ocidental, rumo à formação de uma lógica capitalista eurasiana, também fadada ao fracasso. 

A grande questão a ser levantada é como ficarão as coisas após a anexação da indefesa Ucrânia (bisando o ocorrido com a Criméia). O novo bloco deverá ser autossuficiente em recursos naturais (energéticos, minerais e de produção de alimentos), mas dificilmente vai conseguir manter e melhorar o padrão de produção e consumo de suas populações sob uma nova ordem capitalista unilateral.

Como reagirão os povos do leste europeu, após terem experimentado a autonomia política, diante de uma nova subjugação? 

Como reagirá o povo ucraniano, cujas feridas ancestrais estão sendo reabertas? Foi genocida o tratamento dado à Ucrânia por Stalin na década de 1930, tanto que a invasão germânica na 2ª Guerra Mundial foi inicialmente aplaudida por grande parte do povo ucraniano... 

Por seu turno, como sobreviverá a economia ocidental à ruptura mercadológica com a Rússia e, mais grave ainda, caso o apoio continental da China ao novo bloco evolua para uma moratória ou simples calote da colossal dívida chinesa?

A verdade é que a ocupação da Ucrânia pela Rússia terá uma dimensão bem maior do que pode sugerir a neutralidade militar ocidental diante dessa perspectiva. Trata-se de um experimento cujas consequências não pararão por aí. 

Tudo decorre, entretanto, de um velho interesses geopolítico no qual se observa que a perda de força de um lado corresponde à tentativa de ocupação por aquele que se considera mais habilitado para exercer a sua hegemonia geopolítica no espaço aberto. 

Mas, não podemos terminar a nossa análise sem a citação de um episódio grotesco e marginal neste cenário: tivemos um bobo na corte. 

Trata-se do presidente que até ontem considerava a China como comunista e a vacina da Rússia como capaz de metamorfosear os brasileiros em jacarés ou gays, e cujos delírios chegaram ao ápice quando afoitamente atribuiu à sua visita a Putin o mérito por uma improvável paz entre russos e ucranianos. Como diziam os antigos, o afobado come cru... 

Bizarro pretendente ao
Prêmio Nobel da Paz, ele se fez, isto sim, merecedor do troféu Pinóquio de Ouro, pois a guerra estourou pouco mais de uma semana após a sua ridícula declaração.

A solidariedade prestada ao plutocrata russo por Boçalnaro, o ignaro, foi estrategicamente inoportuna e somente serviu para demonstrar a sua ignorância no que concerne aos interesses da diplomacia brasileira, bem como o seu alinhamento a um ditador que desde 1999 se conserva no poder diretamente ou por um lacaio. 

Enfim, como Hitler no período que antecedeu a eclosão da 2ª Guerra Mundial, Putin se desmente por atos praticados imediatamente após dar declarações que não convencem nem ao mais ingênuo dos mortais. Talvez seja esta a explicação do fascínio do Boçalnaro por Putin...   

Nos próximos anos vamos conhecer fatos e desdobramentos antes inimagináveis da agonia capitalista em curso. Quem viver, verá! (por Dalton Rosado)
Dalton não pensava no Putin ao compor esta canção. Foi coincidência. 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

SERÁ O FIM DEFINITIVO DA PAX AMERICANA?

A
 pax americana foi o estabelecimento da atual ordem internacional após o fim da 2ª Guerra Mundial. 

A criação da ONU e outros órgãos multilaterais veio junto com a ideia de que as superpotências – EUA e URSS à época – não deveriam enfrentar-se diretamente. 

Não que houvesse paz de fato, bem sabemos. Os conflitos não aconteciam diretamente no centro, mas indiretamente na periferia, como atestam as guerras do Vietnã e as intervenções estadunidenses na América Latina. 

Contudo, a regra era não haver ações militares no coração do sistema econômico e político mundial, ou seja, no hemisfério norte.

Mesmo após o fim da União Soviética, a lógica desta pactuação pós-guerra manteve-se em pé. As guerras aconteciam na periferia – Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia, etc –, nunca no centro. 

Tudo parece desmoronar agora. E aqui a responsabilidade é dos EUA, pois este país avançou agressivamente sobre as antigas nações soviéticas, aproximando-se perigosamente do território russo com sua Otan.  

Em resposta, a Rússia também iniciou processo de avanço sobre regiões historicamente dominadas pelos ianques, estabelecendo alianças com a Venezuela, a Nicarágua e países da África. Mas estes avanços nem de perto equivalem-se à audácia estadunidense de tentar transformar a Ucrânia em membro de sua aliança militar.

Ironicamente, foram os próprios EUA que avançaram para quebrar a ordem do pós-guerra. 

Os europeus tentaram ao máximo contemporizar, até por dependerem enormemente do gás russo, mas Biden manteve-se impassível e fez o máximo para dinamitar soluções diplomáticas com Moscou, optando pela via belicosa de sanções e do não-recuo na decisão de transformar a Ucrânia em mais uma parte de seu terreiro. 

De modo sintomático, a ação russa na Ucrânia começou exatamente no momento em que transcorria uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para tentar solucionar a crise. Putin deu uma afrontosa banana para o órgão multilateral, levando a guerra  para o coração da Europa pela primeira vez desde 1945. 

Não foi novidade. Na guerra do Iraque, Bush já havia ignorado a ONU em sua invasão. Mas é a primeira vez que uma outra potência mundial repete o ato e isto acende um grande sinal de alerta, pois coloca em cena a possibilidade de um conflito direto entre as grandes forças militares do planeta. 
Putin não iguala o mestre, mas blitzkriegs sabe lançar
A erosão dos órgãos multilaterais e as crescentes escaramuças entre Rússia, China e EUA podem prenunciar a entrada do mundo num período histórico delicado e trágico. Será o fim definitivo da
pax americana? (por David Emanuel Coelho)
Toque do editor – Pax americana é uma expressão errônea comparando a pax romana do tempo dos césares à hegemonia mundial dos EUA a partir do final da guerra de 1939/45. 

O blog a manteve por haver-se tornado usual neste contexto, mas reafirma seu entendimento de que as pessoas nascidas nos Estados Unidos não podem ser chamadas de americanas, já que nosso continente possui outros 35 países; nem de norte-americanas, pois isto criaria confusão com mexicanos e canadenses, que também são da América do Norte. O certo, mesmo, é denominá-las estadunidenses. (CL)  
Bob Dylan, aos 22 anos, interpretando uma canção que compôs
sob o impacto emocional da crise dos misseis cubanos  

domingo, 16 de maio de 2021

APÓS TER OBEDECIDO CANINAMENTE AO GENOCIDA MALUCO, PAZUELLO PODE AGORA MANDÁ-LO PARA A LIXEIRA DA HISTÓRIA

eliane cantanhêde
QUEM OBEDECE NÃO PRECISA SE INCRINAR,
MAS TEM DE CONTAR TUDO SOBRE QUEM MANDA
Q
uando o general da ativa Eduardo Pazuello sentar como testemunha na CPI da Covid, nesta 4ª feira (19), quem estará no foco não será ele, mas quem mandava nele no Ministério da Saúde. 

Um manda, o outro obedece. Logo, Pazuello é insignificante, o que importa são as ordens, ações e maquinações do presidente Jair Bolsonaro para manter e piorar a pandemia.

Foi isto que a decisão do ministro Ricardo Lewandowski preservou. Com linguagem simples, mas sofisticada engenharia jurídica, que ele não construiu sozinho, o ministro do STF deu um habeas corpus que diz o seguinte: Pazuello pode ficar mudo quando a questão for sobre ele, mas continua obrigado a falar quando for sobre Bolsonaro.

É o suficiente para a CPI, porque ninguém quer saber de Pazuello e todo mundo quer saber de Bolsonaro. O ex-ministro, homem errado na hora errada, tem o direito de não se incriminar e não produzir provas contra si mesmo, mas tem de responder e contar como, quando e onde aquele que manda agiu contra isolamento, máscaras e vacinas, e a favor da cloroquina.

Lewandowski deve ter acalentado a ideia de simplesmente negar o habeas corpus da Advocacia-Geral da União e determinar que Pazuello falasse tudo, sobre todos, sob risco de prisão. Ele, porém, não seria tão voluntarista após as inúmeras vezes em que o Supremo concedeu o direito ao silêncio a depoentes de CPIs, tanto investigados quanto testemunhas. A solução foi o meio termo, mas até a previsão de prisão é dúbia.

O Planalto comemorou a vitória da AGU e o senadores Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros cumpriram sua parte, lamentando o despacho do STF e repetindo docilmente que decisão da Justiça se cumpre, goste-se ou não. Tudo teatro. Na vida real, a cúpula da CPI festejou e o governo reclamou.
Cada dia com sua agonia. Pazuello dá sinais de pânico e alegou contato com dois infectados pela covid para desertar, ops!, adiar o depoimento. E não é à toa que o presidente aciona AGU, o ministro Onyx Lorenzoni, mundos e fundos. É para tentar se salvar de Pazuello.

E o Exército? Já foi duro engolir Bolsonaro usando um general intendente da ativa para fazer papel de bobo na Saúde, enquanto o gabinete das trevas decidia no Planalto e o presidente espancava a realidade, a ciência e o bom senso. Mais duro ainda foi assistir às patetadas de Pazuello e às humilhações que o presidente lhe impunha – quanto a vacinas, p. ex. Imaginem a exposição na CPI!

Justificativa do Ministério da Economia ao Congresso por não ter previsões orçamentárias para o combate à covid em 2021, optando por créditos suplementares: ninguém sabia que viria a segunda onda. Por que não? 

Porque Bolsonaro trocou médicos e epidemiologistas da Saúde por militares que nem conheciam SUS e curva epidemiológica e, portanto, eram incapazes de alertar o Planalto, o governo e o País para os cenários possíveis. Paulo Guedes e seus economistas foram imprevidentes, mas a obrigação de detectar uma nova onda não era deles, era da Saúde. E Bolsonaro nunca quis um real Ministério da Saúde.

A população captou isso. No
Datafolha, a atuação do ministério na pandemia despencou de 76% com Luiz Henrique Mandetta para 28% com Pazuello. E, hoje, 51% reprovam e apenas 21% aprovam ação do presidente na pandemia, o que ajuda a entender por que a sua popularidade derrete.

O depoimento de Pazuello não vai reverter isso, pelo contrário, e Bolsonaro faz duas jogadas de risco: tenta usar os contratos mega-atrasados com a Pfizer para apagar tudo o que fez contra as vacinas e ataca grosseiramente a China para sabotar os insumos da vacina chinesa do Doria. 

Ao retaliar o líder errado, a China prejudica a população brasileira. Alguém aí pode dar um toque no Xi Jinping? (por Eliane Cantanhêde)
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