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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

LULA REVELA O SEU PROGRAMA: REPETIR TUDO QUE JÁ DEU ERRADO, FAZENDO FIGA PARA O DESFECHO AGORA SER DIFERENTE

Eunício votou a favor do impeachment da Dilma, mas Lula já
esqueceu (por conveniência política, ele perdoou até o Collor)

Após haver-se mantido distante dos atos Fora Bolsonaro e nada tendo feito em prol do impeachment do presidente genocida, Lula ressurge no noticiário em confabulações com a alta cúpula do velho caciquismo emedebista, como o ex-presidente do Senado Eunício de Oliveira.

Inclusive, Lula resolveu convocar os petistas às ruas – nos fins de semana – para conversarem com a população. Deve ser por coincidência que tal propósito está vindo à baila exatamente quando estamos a um ano das eleições gerais de  2022. 

Assim, após ter sido fundamental na manutenção de Bolsonaro no poder, Lula começa a costurar seu próximo governo, indiferente à mortandade e à miséria geral dos brasileiros. 

Fingindo ignorância, faz comparações esdrúxulas entre seu governo e o governo bozista, como se houvesse condições de simplesmente transladar os condicionantes da primeira década do século para a atual. Ou seja, promove uma mistificação acrítica, vendendo o que não pode entregar. 

De acordo com fontes da mídia, ele já estaria inclusive conjeturando nomes para presidirem o Senado e a Câmara Federal, sendo Renan Calheiros e o próprio Eunício, por enquanto, seus preferidos para tais postos.
Dirigentes petistas têm visão negativa da gestão de Dilma, mas, de público, taxaram
o impeachment de golpe, evitando com isto fazerem autocrítica dos erros cometidos
 
Em resumo, Lula vai demonstrando implicitamente seu
programa político: repetir o que fez vinte anos atrás. Percorrer mais uma vez o caminho que nos levou ao desastre chamado Jair Bolsonaro. 

Sem terem absorvido as lições da história nem analisado com lente crítica os acontecimentos pós-2013, muito menos refletido a fundo sobre as causas e condições do Impeachment de Dilma, Lula e o PT caminham para um replay bizarro dos erros anteriores. 

Eivado de misticismos, afastado da racionalidade e atrelado à mais crua politicagem, podemos estar assistindo a gestação, por parte do lulopetismo, de outra crise catastrófica para o país. (por David Emanuel Coelho) 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

RELATIVIZAR ERROS E O DESVIRTUAMENTO DO PT EM NADA AJUDA NESTE INSTANTE

Uma das melhores cabeças pensantes com que o petismo ainda conta, o jornalista, professor e cientista político André Singer foi porta-voz da Presidência da República no primeiro governo do Lula e agora está lançando o livro O lulismo em crise: um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016). 

Entrevistado pela Folha de S. Paulo, deu algumas respostas interessantes, que vale a pena reproduzirmos e discutirmos. (Celso Lungaretti)
"Em suas grandes linhas, a política econômica de Dilma beneficiava a todos. Qualquer investidor se beneficia de juros mais baixos, e isso sempre foi uma reivindicação básica de todo o setor produtivo. Assim como a desvalorização do câmbio, em 2012, e a redução do custo da energia depois. Essas políticas atendiam a reivindicações do conjunto da indústria. Por isso é surpreendente que ela tenha sido depois a ponta de lança do impeachment.

É um paradoxo. Minha hipótese é que isso tem a ver com as mesmas características identificadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na burguesia industrial em 1964, ainda que as conjunturas sejam diferentes e muita coisa tenha mudado. 

Essa burguesia depende do Estado para se alavancar e alcançar os países desenvolvidos, mas ao mesmo tempo ela teme que o fortalecimento do Estado leve as camadas populares a uma situação de tal hegemonia que prejudique a dominação burguesa. Então, nessa hora ela se desloca para deter esse processo."(André Singer)

(TROCANDO EM MIÚDOS, Dilma quebrou a cara, entre outros motivos, por ter exumado o nacional-desenvolvimentismo que a esquerda deveria ter apagado definitivamente do seu cardápio de opções econômicas a partir do golpe de 1964. 

Caio Prado Jr., no livro que escreveu em 1966, A revolução brasileira, já desconstruíra o que ele chamava de capitalismo burocrático, com o PCB e seus aliados querendo a todo custo acreditarem que existiria uma burguesia nacional progressista e anti-imperialista. 
Tratava-se e até hoje se trata, isto sim, de uma fração da burguesia que se apoia na apropriação privada dos recursos públicos e se faz passar por aliada dos movimentos populares, no afã de cooptá-los para seus objetivos. 

Em 1968 a esquerda consciente e consequente já não tinha as mais remotas ilusões a respeito dessa corja empresarial que implora a proteção do Estado mas, na hora da onça beber água, se alinha sempre com a reação.

Dilma quis reeditar o que deu errado em meados do século passado e colheu o mesmíssimo resultado, sendo derrubada como João Goulart o fora (só que sem sequer necessidade de o inimigo colocar tanques e tropas nas ruas, de tão decepcionante que estava sendo seu governo). Nas duas ocasiões tal burguesia industrial, como a chama Singer, engrossava as fileiras opostas.)
* * *
"Parte da esquerda entende que foi naquele momento [nos protestos de 2013] que o lulismo começou a se despedaçar. Outros acham que ele representou a emergência de novas forças sociais, de caráter progressista. Acho que as duas coisas aconteceram, ao mesmo tempo.

Esse movimento também criou oportunidade para setores de classe média que até então não tinham conseguido se mobilizar contra o lulismo e de repente surgiram com força extraordinária. As manifestações desses grupos foram decisivas para o impeachment mais tarde, em 2016." 
(TROCANDO EM MIÚDOS, Singer reconhece que havia um componente progressista nos protestos iniciados pelo Movimento Passe Livre, mas omite que o governo do PT cruzou os braços enquanto governadores autoritários desencadeavam uma bestial repressão sobre os manifestantes e os profissionais de imprensa que estavam nas ruas a serviço. 

A partir daí, claro, tal componente progressista, fortemente intimidado, foi se dispersando e perdendo influência, enquanto a direita a ganhava. O que mais se poderia esperar, depois de a Dilma se solidarizar a um oficial da Polícia Militar paulista levemente ferido no meio da pancadaria e não mostrar idêntico pesar por dezenas de estudantes e jornalistas barbarizados pela PM?)

* * *
"Na campanha de 2014, ela [Dilma] mostrou que havia uma ameaça de ajuste econômico ortodoxo que colocaria a perder os avanços e era necessário impedir isso. Foi assim que se reelegeu, embora com uma vantagem pequena.

Uma vez reeleita, ela se encontrou diante de uma situação econômica bastante difícil. Dilma teria que encontrar uma saída que mantivesse a mobilização construída na campanha, mas optou pelo pior caminho ao adotar a política econômica oposta sem dar satisfação para o eleitorado."

(TROCANDO EM MIÚDOS, foi um dos piores estelionatos eleitorais da História brasileira. Quem votou em Dilma para evitar a imposição da ortodoxia neoliberal e a viu empossar como mandachuva da economia o neoliberal com carteirinha assinada Joaquim Levy, deve ter-se sentido um perfeito otário.  Daí a indiferença generalizada com que foi recebido seu impeachment.) 
* * *
"Esta [a falta de uma autocrítica sobre seu envolvimento com a corrupção] é uma crítica que faço a todo o sistema partidário e especificamente aos três principais partidos, PT, PSDB e MDB. Nenhum deles respondeu a contento ao que foi levantado pela Operação Lava Jato. 

Ela tem um lado faccioso, mas é também republicana, e revelou ações que precisam ser esclarecidas. É muito importante para a sociedade brasileira que esses partidos sobrevivam, mas eles precisam dar uma resposta positiva, explicar o que aconteceu e o que deve ser feito para que essas coisas não voltem a ocorrer.
O valoroso Paulo Paim falou com as paredes (acesse sua entrevista aqui)...
O PT e o PSDB fizeram alguns movimentos no sentido de reconhecer que houve problemas. Mas nenhum deles deu explicações suficientes."

(TROCANDO EM MIÚDOS, ele coloca no mesmo saco o PT, a centro-direita e o partido da fisiologia. Mas, PSDB e MDB não se arvoram em representantes dos explorados. O PT, teoricamente, sim, embora se proponha apenas a mitigar seu sofrimento por meio de políticas reformistas ao invés de dar-lhe fim com uma revolução.

A credibilidade é imensamente mais importante para a esquerda (com a qual o PT se identifica, pelo menos aos olhos dos cidadãos comuns) do que para os partidos do sistema. A autocrítica era, portanto, fundamental para o PT dar a volta por cima. Não a fez e se direciona a passos largos para a irrelevância. 

...assim como encontraram ouvidos moucos outros que tentaram abrir a discussão.

Então, a condescendência com o desvirtuamento do PT e a relativização dos erros terríveis que o partido cometeu no período Dilma, constatáveis na entrevista de Singer e que devem ter dado a tônica do seu livro, são nocivas neste instante. 

O PT desceu fundo demais em sua queda e já deixou ir embora o momento de iniciar a volta para a superfície; pelo contrário, insiste em continuar errando, ao colocar a eleição presidencial no centro de suas preocupações, ao invés de priorizar a organização das massas para enfrentarem o ascenso da direita nas praças, ruas e locais de trabalho. 

A esquerda brasileira tem de decidir se acompanha o PT em sua marcha para a irrelevância ou vai reconstruir-se com perspectivas bem diferentes, voltando a empunhar as bandeiras combativas de outrora, que estão fazendo imensa falta agora.)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

ESQUERDA QUE HÁ 2 ANOS FOGE DA AUTOCRÍTICA DÁ NISTO: ARTIGO DE JOSÉ PADILHA A REDUZIU A PÓ DE TRAQUE!

Por Celso Lungaretti
Este blogueiro mantém sua decisão de publicar textos inteligentes, que fujam à mesmice rasteira das redes sociais, mesmo quando o autor não for um cidadão acima de qualquer suspeita.  

Maus momentos qualquer ser humano tem, mas precisamos diferenciar os indivíduos que pregam e praticam a desumanidade em tempo integral (o Jair Bolsonaro, p. ex.) daqueles que apenas pensam diferente da maioria e, mesmo não estando errados nem sendo direitistas empedernidos, sofrem estigmatização e desqualificação injustas, porque jogar sujo é mais fácil do que contestar suas análises.

Tratar alguém como herege é retroceder à intolerância dos fanáticos religiosos da Idade Média. Não tem nada a ver com a missão da esquerda conforme Marx a definiu: conduzir a humanidade para um estágio superior de civilização

Assim, sem recuar um milímetro das críticas outrora feitas a José Padilha por ter relativizado o horror das torturas no fascistoide Tropa de Elite (2007), eu posto em seguida algumas considerações inteiramente válidas que ele teceu a respeito da sua última criação. Os grifos são meus e o artigo do Padilha completo pode ser acessado aqui.
Por José Padilha

"A série O Mecanismo é uma dramatização inspirada em um conjunto de acontecimentos reais, apresentada de forma a ilustrar uma tese. Eis a tese, em cinco enunciados:

a) No Brasil, a corrupção não ocorre esporadicamente; ela é o mecanismo estruturante da política e da administração pública, um mecanismo que opera nos municípios, nos estados e no governo federal; no Executivo e no Legislativo, e também nas cortes judiciais constituídas por indicações políticas. 

b) As campanhas de todos os grandes partidos do Brasil são financiadas por empresas que trabalham para o Estado. Uma vez eleitos, políticos desses partidos montam coalizões com base na distribuição de cargos que auferem controle sobre o orçamento público. Quanto mais poderoso for um político, maior o quinhão que lhe cabe.

c) O Estado, assim loteado, contrata as mesmas empresas que financiam as campanhas políticas dos grandes partidos, superfaturando orçamentos.

d) Parte da fatura se transforma em financiamento de campanha para o próximo ciclo eleitoral, e parte vira caixa dois e propina. 
e) O mecanismo não tem ideologia; ele opera nos governos de esquerda e de direita.

...Sabendo que o mecanismo existe, podemos afirmar que:

a) Se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas, como a lei foi sancionada com PT e PMDB no poder, os políticos denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer.

b) A mídia de direita usou essa contingência histórica para atacar a esquerda, como se a direita não fosse corrupta.

c) O PT usou essa contingência para acusar a Lava Jato de partidarismo, como se não fosse inevitável que petistas fossem pegos primeiro, dado que estavam no poder.

Criou-se (...) um ambiente irracional e polarizado, em que o dogmatismo ideológico da esquerda radical e o cinismo pragmático da direita fisiológica passaram a trabalhar juntos para negar o inegável, o fato de que todas as lideranças políticas dos grandes partidos brasileiros são corruptas.

Hoje, vemos os formadores de opinião de esquerda e os membros da direita fisiológica de mãos dadas, pressionando o STF para cancelar a prisão após condenação em segunda instância.

Afinal, para a esquerda isso garantiria a impunidade de Lula; para a direita, a de Aécio, de Temer, de Jucá... O mecanismo, é claro, agradece.

Confesso que esperava mais dos formadores de opinião da esquerda. Pensei que em algum momento da história fossem acordar do estupor ideológico e ajudar pessoas de bem na luta contra o mecanismo que opera no mundo real, em vez de se associar a ele para lutar contra o mecanismo exposto na Netflix"

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

UM INGREDIENTE DA GELEIA GERAL BRASILEIRA: PARTIDOS INFIÉIS A SEUS NOMES E TRAIDORES DE SEUS PROGRAMAS

O EFEITO LIQUIDIFICADOR E OS
PARTIDOS POLÍTICOS NO BRASIL

Em qualquer país do mundo no qual a política dê acesso ao poder estatal, os partidos políticos supostamente representam as correntes de pensamento e posturas político-administrativas que norteiam as ações administrativas (ainda que se admitam candidatos avulsos, sem partidos, em alguns países).

Um vez alçados aos altos postos do Executivo, as diferenças ideológicas são confrontadas com a ditadura da ordem econômica e desaparecem, uma vez que todos as nações têm, hoje, as suas mediações sociais feitas a partir da forma-valor (dinheiro e mercadorias). De Nova York a Palmas do Tocantim, as pessoas acordam igualmente para trabalhar, ganhar dinheiro e, com isto, garantir o sustento material. 

Todos estão submetidos ao fetichismo da mercadoria, de cuja complexidade e negatividade poucos cidadãos se apercebem, daí a positivação de um modo de produção irracional, destrutivo e autodestrutivo, comum a todas as ideologias que emanam das trevas de uma lógica mercantil negativa.

Entretanto, apesar de os governantes não governarem (uma vez que são governados por uma lógica de produção de valor que lhes dá ordens e pauta os seus comportamentos administrativos no sentido da preservação e desenvolvimento dessa mesma lógica), certamente há diferenciações de ações administrativas de cunho ideológico entre este e aquele na eleições de prioridades administrativas, bem como diferenciações no que diz respeito à orientação de comportamentos sociais e conceitos sobre vários assuntos.

Barack Obama discrepa de Donald Trump em questões de interesse internacional (como a negação do acordo sobre o clima de Paris), nacional (o tratamento aos imigrantes) e até quanto à repressão ou convívio com os opositores (que sempre existem, felizmente). 

Tais distinções no exercício do poder político-estatal, ainda que tenham graves repercussões na vida social, são apenas cosméticas, uma vez que a questão de fundo permanece inalterada: o modo de produção social. 

É devido ao modo de produção social capitalista (sistema de produção de mercadorias, de valor a partir do trabalho abstrato) que ocorre o processo de homogeneização dos comportamentos político-administrativos, aí também incluídos os estados ditos marxistas-leninistas. Uma vez no poder nada é mais keynesiano do que um liberal nos momentos de crise do sistema produtor de mercadorias, e nada mais liberal do que um keynesiano nos momentos de ascensão capitalista.

Os partidos políticos correspondem a uma necessidade de legitimação do acesso ao poder verticalizado expresso na acumulação crescente e inevitável da riqueza abstrata, aquela adquirida pela extração da mais-valia (privada ou estatal); e coincidem na aceitação da necessidade de um Estado para fazer o controle monetário e desempenhar as demais funções de manutenção da coerção tácita do sistema produtor de mercadorias e do mercado. 

Dentro deste desiderato, os partidos políticos costumam ser assenhoreados pelos tipos mais mesquinhos de controladores burocráticos serviçais do poder econômico, ou por bandidos cujo único objetivo é o enriquecimento ilícito facultado pelo exercício do poder político do Estado. 

BIPARTIDARISMO COPIADO DOS EUA

No Brasil a questão da formação político partidária, jungida sob a égide da ditadura de 1964/85 e, posteriormente, a partir da chamada abertura (meramente conciliatória), promoveu distorções de conteúdo programático que se refletem, hoje, na completa falta de identidade ideológica entre os nomes dos partidos; os seus programas; aquilo que ditos nomes deveriam representar; e o que efetivamente são.

Tudo começa com a criação da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido criado pela ditadura militar que abrigou os assumidos conservadores fisiologistas puxa-sacos dos fardados. 

De renovadores os arenosos nada tinham, uma vez que sempre pertenceram à histórica e poderosa elite política brasileira, que instituiu a república com o apoio da caserna (o Brasil é o único país do mundo que derrubou a monarquia pela direita, a ponto de D. Pedro II ter sido mais liberal do que os militares republicanos brasileiros a serviço da elite política).

Como disfarce político da ditadura resolveu-se produzir uma cópia tosca do bipartidarismo estadunidense. Assim nasceu o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), para dar uma aparência de disputa e coexistência política democrática civil, embora qualquer veleidade de ele atuar como uma verdadeira oposição terminasse em fechamento do Congresso e cassação de mandatos.

A partir daí o MDB passou a cumprir a sua função de força auxiliar do poder vigente (ainda que tenha posteriormente abrigado facções ideológicas as mais distintas), função que preenche até hoje, num mimetismo político oportunista que o faz sempre adaptável ao interesse do capital, qualquer que seja o governante. 

A abertura política ao pluripartidarismo obedeceu ao critério do controle da grande conciliação que anistiou torturadores e assassinos, terminando por impor ao povo brasileiro, como novo presidente da República, um estranho no ninho da redemocratização. 

Ninguém menos do que quem presidira até pouco tempo antes o partido da ditadura (o Partido Democrático Social, PDS, que substituiu a Arena) e, abandonando o barco que afundava, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, sucessor do MDB: o coronel dos sertões nordestinos em trajes civis e acadêmico imortal interminável José Sarney, peça importante da futura sustentação política do PT e sua famigerada política de conciliação de classe.

FEIOS, SUJOS E MALVADOS

Isto posto, veio o pluripartidarismo negociado na grande conciliação por cima, com as seguintes agremiações:

— o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), legitimado pelo general Golbery do Couto e Silva, que terminou por colocá-lo nas mãos de Ivete Vargas, uma politiqueira conservadora que em nada honraria o trabalhismo getulista e janguista. Assim, o PTB de hoje é conservador e usa as bandeiras do antigo trabalhismo como se fosse sua, num evidente trabalhismo made in Paraguay (que me perdoem os verdadeiros e honestos paraguaios).
Brizola perdeu a sigla PTB para a politiqueira Ivete Vargas

Está nas mãos de Roberto Jefferson, antigo chefe da tropa de choque de Fernando Collor de Mello, com quem o PT foi posteriormente se conluiar para receber (bem feito!) uma punhalada nas costas: a denúncia do mensalão, com ele praticado. 

Eis que, agora, o PTB volta ao poder, com a filha de Jefferson se tornando ministra do Trabalho. Pode? No Brasil pode;

— o Partido dos Trabalhadores (PT), que usa a estrela do socialismo e nasceu sob a égide do movimento operário, enchendo de esperanças ingênuas muitos combatentes da luta contra a exploração capitalista (eu, entre eles). 

A partir da assunção ao poder estatal burguês, o PT, contudo, se metamorfoseou no mais legítimo representante da social democracia conciliadora com o alto empresariado, envergonhando todos os que não aceitam compactuar com o poder econômico, a vilania e a roubalheira generalizada, na mais conspícua tradição utilitarista ("os fins justificam os meios");  

— o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), neoliberal. Abriga nas suas hostes tudo que há de mais conservador, que vai desde a Opus Dei, passando pelo grande empresariado nacional e desembocando em intelectuais e ex-militantes socialistas arrependidos;

— o Democratas (DEM), ex-Partido da Frente Liberal (PFL), no qual encontramos o que há de mais conservador na elite política brasileira. Seus membros, se fossem políticos estadunidenses, representariam a ala mais conservadora e reacionária do Partido Republicano;

— o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que se diz centenário mas não passa de uma costela dissidente do antigo e quase secular Partido Comunista Brasileiro (PCB, o velho partidão). Ferrenho defensor do desenvolvimento econômico, ou seja, do capitalismo, está sempre pronto para apoiar partidos de esquerda que tenham o mesmo propósito, ou seja, dar sobrevida às categorias capitalistas trabalho, trabalhador, mercadoria, mercado, estado, política, etc., o que faria o Marx esotérico tremer na cova;

— o Partido Verde (PV),  que supostamente teria como foco a defesa ambiental, mas nunca questiona o modo de produção capitalista (que é predatório da natureza por excelência) e tem nos seus quadros políticos proeminentes eleitoralmente mas sem nenhuma tradição na defesa da ecologia, que ali estão por mera conveniência e oportunismo eleitoral. 

Os militantes realmente focados na questão ambiental sempre terminam por se desiludir com as práticas partidárias do PV, que estão longe de se coadunarem com o que programaticamente o PV se propõe a defender, e vão embora frustrados;

— O Partido Democrático Trabalhista (PDT), criado por Leonel Brizola depois de perder injustamente a sigla PTB para Ivete Vargas. Os laços que porventura ainda o ligavam ao trabalhismo brasileiro pré-1964 se romperam de vez quando Brizola morreu, em 2004. Hoje possui, nos seus quadros políticos, mais empresários do que trabalhadores; e tem prefeitos, governadores e parlamentares sem a mais remota identidade histórica com o trabalhismo.

Seria interminável a lista de partidos desprovidos de qualquer identidade programática e ideológica com seus nomes e estatutos, e que mais se parecem com bandos prontos para assaltar o erário público em tenebrosas transações, nunca recusando as ofertas para ajudarem a aprovar proposições legislativas anti-povo (ou seja, não passam de legendas de aluguel).

Os novos partidos de esquerda (Partido Socialismo e Liberdade, o Psol, e a Rede Sustentabilidade, ou simplesmente Rede) repetem a velha cantilena oposicionista sem compreender a gravidade da debacle capitalista e do seu Estado constitucional no momento de desequilíbrio entre a produção de novos nichos de trabalho (a menor) e a dispensa de grandes contingentes de trabalhadores (a maior), que causa o desemprego estrutural irresolúvel sob sua lógica, arrastando para a miséria grandes contingentes populacionais em meio ao fausto da riqueza abstrata cada vez concentrada. 

Sem o quererem, ou mesmo perceberem, os sempre minoritários partidos de esquerda apenas legitimam o status quo vigente.

Na política as diferenças ideológicas sucumbem na simbiose do efeito liquidificador da homogeneidade patrocinada pelo fetichismo da mercadoria. 

Até quando vamos iludir a nós mesmos? (por Dalton Rosado)

domingo, 24 de outubro de 2010

AFINAL, POR QUE NÃO EXTIRPARMOS O DEM?

Quem acompanha meu trabalho, sabe muito bem que não faço parte da claque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Eu o critico ou elogio caso a caso, submetendo o que ele diz e faz ao crivo dos valores da minha geração revolucionária (a de 1968), que continuo tendo como bússola.

Então, quando ele afirmou, p. ex., que a polícia tem de subir o morro para bater em quem merece apanhar e proteger quem merece ser defendido, eu virei um caminhão de melancias em cima de V. Exa.

Polícia, para quem veio das correntes ideológicas das quais nós dois viemos, não tem como função bater em ninguém, ponto final. O título do meu post disse tudo: Por que não te calas, Lula?.

Mas, estarei também sempre pronto a denunciar a má fé com que a mídia golpista carrega nas tintas em tudo que se refira ao Lula.

P. ex, a frase "precisamos extirpar o DEM da política brasileira", tão vituperada quanto distorcida, é pertinente, válida e nem um pouco antidemocrática. Subscrevo-a e aplaudo.

Em nenhum momento ele falou em exterminar fisicamente os adversários, como alegam os exegetas de nenhuma sutileza e indisfarçável tendenciosidade. A afirmação é claríssima: trata-se de livrar a política brasileira de uma de suas piores ervas daninhas.

De onde essa gente derivou, afinal, a conclusão de que isto se faria por métodos truculentos e não, simplesmente, pelo voto?

Foi, aliás, bem o que ocorreu em 3 de outubro. Os  demônios  estão sendo exorcizados, alvíssaras!

PARTIDO DO "SIM, AMÉM, COMO QUEIRA, SENHOR!"

A facção militar que usurpou o poder em 1964, quis porque quis impor-nos um quadro político semelhante ao dos EUA, com apenas dois grandes partidos.

Então, extinguiu todas as agremiações até então existentes e deixou que se erguessem sobre os escombros apenas um partido do  sim, amém, como queira, senhor!  e outro do não concordo mas só me resta aceitar, senhor!.

A Arena foi cúmplice do arbítrio, dos descalabros e das atrocidades, pois a tudo concedeu seu aval apriorístico e automático, na farsa que se encenava para dar aos néscios a impressão de que as instituições ainda vigiam no Brasil.

O MDB, quase sempre manietado e reduzido à impotência, pelo menos resmungava sua desaprovação. E, cada vez que tentava fazer algo além disto, era colocado de volta no seu lugar: os déspotas fechavam o Congresso e promoviam expurgos ("cassações") na bancada emedebista.

E, claro, eram os da Arena que se beneficiavam das negociatas e das boquinhas do poder. Os porcos eram convenientemente cevados, em troca dos seus serviços sujos.

Quando a ditadura caía de podre, os mais finórios  arenosos  (o nome do partido já era outro, PDS, mas pouco importa...) conspiraram com Tancredo Neves para se conservarem no poder mesmo com o País voltando à civilização.

Como?

Primeiramente, votando em massa contra a Emenda Dante de Oliveira, que restituiria ao povo brasileiro o direito de eleger seu presidente da República pela via direta. Numa eleição de verdade, o franco favorito era o Brizola.

Depois, desertando do partido oficial e concedendo a Tancredo os votos de que ele necessitava para derrotar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral.

Como prêmio pelos seus préstimos, o novo partido por eles constituído, PFL, passou a ser o sócio do PMDB no comando da chamada  Nova República.

Até a sorte os favoreceu: um dos piores dentre eles, José Sarney, viu o poder cair-lhe no colo com a morte de Tancredo.

Também pouco importa que Sarney tivesse preferido pular para o galho do PMDB ao invés de filiar-se ao PFL. Por passado, personalidade e caráter, ele sempre pertenceu ao segundo. Rótulo, no seu caso, era o de menos.

Vai daí que, com presença tão marcante de ex-arenosos nos postos-chave, a Nova República foi extremamente tímida em eliminar o entulho autoritário e nada fez para punir os torturadores  Como esperar que os cúmplices do arbítrio assumissem para valer a alardeada missão de  passar o Brasil a limpo? 

Desde então, o PFL, depois DEM, foi se definindo como o que há de mais próximo de uma direita ideológica na política brasileira, principalmente porque o Partido Liberal -- que, em termos teóricos, teria mais afinidade com tal papel -- não vingou.

O componente fisiológico também existe e é forte no DEM, claro.

Mas, o principal de sua identidade é dado, de um lado, pelos adeptos da  modernidade  capitalista, os supostamente civilizados; e do outro, pelos ansiosos por um novo totalitarismo, as  viúvas da ditadura  e seus filhotes neofascistas, enfim, os que não conhecem sequer o significado do substantivo  civilização...

Ignoro como os primeiros conseguem suportar tão bem o mau hálito dos segundos. Usarão máscaras contra gases?

Também não sei qual a correlação interna de forças -- se podemos considerar concludente o fato de que tenham escolhido para vice de José Serra um de seus brucutus mais emblemáticos, tão tosco nos seus valores quanto em matéria de conhecimentos gerais (ou, mais precisamente, falta de).

Mas, do que não tenho nenhuma dúvida é o seguinte: tal erva daninha não deixaria nenhuma saudade e merece mesmo ser extirpada e atirada o quanto antes na lixeira da História.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SARNEY QUER O BRASIL COMO POLICIAL DO CONTINENTE

José Sarney é patético.

Coronelão da política à moda antiga, deu sustentação parlamentar à ditadura de 1964/85 enquanto lhe foi conveniente.

Como bom arenoso (*), disse amém a todas as arbitrariedades e atrocidades.
Quando o regime militar já fazia água, pulou fora: compôs-se com os oposicionistas consentidos, pegou carona na candidatura presidencial de Tancredo Neves pela via indireta, foi eleito vice-presidente do Brasil sem um mísero voto dos eleitores e tirou a sorte grande com a morte do titular.

O que fez com a Presidência que herdou sem merecer?


Apoiou a convocação da Constituinte, mas omitiu-se totalmente dos esforços para se gerar uma boa Carta Magna. Sua única prioridade, o tempo todo, foi evitar que reduzissem a duração do seu mandato presidencial. O resto que se danasse.


Deu aval aos mais esdrúxulos experimentos econômicos, cujo resultado concreto foi o recorde brasileiro de inflação: estava chegando a 100% ao mês, no final do seu catastrófico governo.


E desperdiçou a oportunidade de, nas águas da redemocratização, dotar o Brasil de uma verdadeira anistia política, em substituição àquela que os militares nos enfiaram goela adentro para lhes servir como habeas corpus preventivo.


Gerou o fenômeno Collor, reação óbvia do eleitorado ao total descrédito que o Governo Sarney acarretou para a classe política. Assim, a disputa acabou se travando entre dois
outsiders, já que aqueles que vinham mandando nos destinos do País ficaram com a reputação em frangalhos.

A do próprio Sarney, então, tornou-se tão negativa que ele até teve de mudar fraudulentamente seu domicílio eleitoral para conseguir uma cadeira senatorial.


Continuou a mediocridade de sempre, na política e nas letras, até o surgimento de provas irrefutáveis das graves irregularidades que cometeu ou consentiu como presidente do Senado.

Só deixou de ser expelido porque Lula, com enorme desgaste pessoal, atirou-lhe uma bóia. Esta será sempre lembrada como uma das piores decisões do ex-metalúrgico que, de perseguido pela ditadura, passou a protetor de um serviçal do regime militar.

Agora Sarney, utilizando seu espaço na Folha de S. Paulo (foram feitos um para o outro), confessa que tentou convencer o então presidente estadunidense Ronald Reagan a meter o nariz nos assuntos bolivianos, da mesma forma como atualmente prega que o Brasil meta o nariz nos assuntos paraguaios:

"O chamado Exército do Povo Paraguaio não pode se transformar numa Farc ou num Sendero. Com determinação e força, o Brasil deve ajudar o presidente Lugo a manter a ordem no seu país e não permitir jamais que nossas fronteiras sejam violadas, para evitar essa conjugação infame de guerrilha com narcotráfico".

Ou seja, os leopardos nunca perdem as pintas: quase meio século depois, Sarney continua com a mesmíssima mentalidade de quando lambia as botas dos fascistas.

* integrante da Arena, o partido que fingia ser situação no regime militar, enquanto o MDB fingia ser oposição. Na verdade, o real e único poder estava na caserna.
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