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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O MITO JAIR BOLSONARO E O MICO DANIEL SILVEIRA: CARA DE UM, FOCINHO DO OUTRO

Parafraseando o poeta Marcus Accioly, em se tratando desses dois eu sou sincero: 1+1=0
ricardo kotscho
O TENENTE DAS BOMBAS E O SOLDADO
 MILICIANO: COMO ELES PUDERAM SER ELEITOS? 
A que ponto chegamos", lamenta Merval Pereira em sua coluna no Globo, desconsolado com os rumos do país. 

Para entender como chegamos até aqui, caro colega, bastaria pegar o currículo, ou melhor, o prontuário de dois personagens que se cruzaram nas eleições de 2018, e analisar a nossa responsabilidade como jornalistas nesta história, que começa na Lava Jato, passa pelo Alto Comando do Exército e desemboca nas ameaças ao Supremo Tribunal Federal. 

Ambos abandonaram as fardas para se tornar políticos, depois de serem processados e presos por suas corporações
Foram candidatos pelo PSL, um partido nanico de aluguel, que lhes ofereceu a legenda, assim como a muitos outros policiais e militares eleitos na onda conservadora da chegada pelo voto da extrema-direita ao poder. 

Por isso, urge criar antes das próximas eleições uma cláusula de barreira para exigir dos candidatos a apresentação do atestado de antecedentes e de um exame de sanidade mental. 

Falo, é claro, do presidente Jair Bolsonaro e do deputado federal Daniel Silveira, dois personagens emblemáticos destes tempos de insânia, idiotia, cólera e demência, que colocam em risco a nossa democracia. 

A falta dessas exigências básicas para o exercício de um mandato popular ajuda a explicar como chegamos até aqui, em meio a mais uma crise institucional que paralisa o país, já assolado pela pandemia e a falta de vacinas. 

Como eles puderam ser eleitos? 

O tenente Bolsonaro foi processado no Superior Tribunal Militar por vários delitos graves, ao planejar atentados a bomba a quartéis e à estação de abastecimento de água do Rio de Janeiro, para reivindicar aumento de salários da tropa.  

Punido com alguns dias de prisão, acabou sendo absolvido no STM e reformado como capitão, aos 33 anos, para se candidatar a vereador e iniciar sua carreira política.

O soldado da PM Daniel Silveira, que usava a sua página no Facebook para atacar líderes religiosos e a imprensa, tem um robusto prontuário em que constam 26 dias de prisão, 54 de detenção e 14 repreensões por atos de desobediência e falta ao trabalho. 

Em 2018, seguiu a mesma trajetória de Bolsonaro e se elegeu deputado federal, com 31 mil votos, depois de rasgar uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, fuzilada por milicianos, também ex-PMs. 

A Polícia Militar do Rio, na qual a família Bolsonaro recrutou assessores para seus gabinetes, é a maior fornecedora de mão-de-obra para as milícias cariocas. 

Daniel Silveira pode até não ter carteirinha de miliciano, mas revela no seu comportamento o mesmo vocabulário grosseiro e métodos violentos e cafajestes dos ex-colegas de farda, que trocaram a segurança pública pelo crime organizado (e foram protestar contra a sua prisão diante da carceragem da Polícia Federal, no Rio, onde está detido). 

Esse é o caldo de cultura onde vicejou o bolsonarismo-raiz, bem retratado nos filmes Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, com roteiro de Bráulio Mantovani, que termina com um sobrevoo de Brasília, para mostrar numa cena premonitória onde eles poderiam chegar. 

Até desfechar num vídeo inenarrável o violento ataque verbal ao STF, onde é investigado por participação em atos antidemocráticos, Daniel Silveira fazia parte da tropa de choque do presidente Bolsonaro no Congresso, era um dos seus homens de confiança.   
O deputado bolsonarista quando não está preso...
Como dizia o costureiro e ex-deputado Clodovil, boi preto conhece boi preto.

Até o momento em que escrevo, o presidente Bolsonaro ainda não havia saído em defesa do correligionário, depois de o pleno do STF chancelar a prisão de Silveira por 11 a 0, algo muito raro na Corte.

Assim como seu líder, o ex-PM, legítimo cidadão de bem, resolveu testar os limites das instituições. Perdeu. 

A pergunta não deveria ser o que ele fará agora, mas como um meliante com esse perfil pode chegar à Câmara dos Deputados? 

Se a cláusula de barreira para candidatos já estivesse em vigor, e as instituições realmente funcionassem, Daniel Silveira seria apenas mais um miliciano aloprado, e Jair Bolsonaro jamais chegaria à Presidência da República.  
O deputado bolsonarista quando vai responder a seus processos
Agora, não adianta ficar indignado com as confissões do general Villas Bôas sobre a participação do Alto Comando do Exército na operação golpista para impedir Lula de ser candidato em 2018.

Os eleitores poderiam não saber quem era o mito, mas os jornalistas e o comandante do Exército tinham obrigação de conhecer seu currículo. 

Pois foram eles, junto com a Lava Jato de Sergio Moro, os responsáveis por abrir o caminho para a eleição do tenente terrorista que, na garupa dele, levou os militares de volta ao poder. 

Só falta saber agora quem será capaz de mandá-los de volta aos quartéis. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

domingo, 21 de junho de 2020

O ADVOGADO KAKAY DIZ QUE GENERALATO DEVE ROMPER COM O BOZO POIS "JAMAIS ADMITIRÁ SER TUTELADO PELA MILÍCIA"

ricardo kotscho
O COMETA CHEGOU: O QUE ASSUSTA OS BOLSONAROS
E OS MILITARES SÃO AS MILÍCIAS
Ao contrário do que aconteceu nas muitas outras crises envolvendo Bolsonaro & Filhos, desta vez a prisão de Fabrício Queiroz não mobilizou a junta militar dos generais Heleno, Braga e Ramos, que ocupam o Palácio do Planalto para proteger o presidente. 

Desde a prisão, na 5ª feira, os militares não deram um pio em defesa de Bolsonaro. 

O que assusta os Bolsonaros neste caso não é o esquema de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual no Rio e, Queiroz, o operador financeiro do gabinete, recolhia parte dos salários dos funcionários para pagar os boletos do chefe, como mostram as investigações. 

Isso é o de menos nessa história. O que o Ministério Público e a Polícia Civil do Rio descobriram é a extensa rede de relações do gabinete do filho do presidente com as milícias cariocas, como consta do pedido de prisão de Queiroz. 

Para um dos mais respeitados criminalistas do país, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, "caso a investigação escancare a relação entre a família Bolsonaro, Queiroz e as milícias, as Forças Armadas abandonarão o governo". 

Em entrevista à TV 247, o criminalista disse que esta é a reflexão mais importante que devemos fazer no momento: 
"Tenho a firme convicção de que o Exército brasileiro, que cumpre um papel constitucional (...) não vai aceitar a milícia coordenando o Brasil. 
O generalato brasileiro jamais admitirá ser tutelado por um grupo de milícia. Penso que quando começar a destampar essa panela vai aparecer muita coisa"
Para quem viu os filmes Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, com roteiro de Bráulio Mantovani, não chega a ser uma novidade o poder político que as milícias conquistaram no Rio, após o fim do longo reinado dos bicheiros e, depois, dos traficantes, no crime organizado. Nos anos 1990, os milicianos assumiram o comando e passaram a dar as ordens, mandando prender e soltar. 

Profético, o Tropa 2 projeta em suas cenas finais um avião sobrevoando Brasília para mostrar até onde o poder das milícias poderia chegar. 

O controle das milícias sobre vastos territórios do Rio de Janeiro, onde a lei que impera está na ponta do fuzil automático, foi revelado primeiro numa CPI comandada na Assembleia Legislativa fluminense pelo então deputado estadual Marcelo Freixo, que inspirou o filme. 

Parece ficção, mas é tudo real. 
As organizações criminosas recrutam boa parte da sua mão de obra em egressos da Polícia Militar, de onde saíram Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais, chefe do Escritório do Crime de Rio das Pedras, que foi morto numa ação da polícia na Bahia, no começo do ano. 

Capitão Adriano, como era chamado, tinha a mãe e a ex-mulher trabalhando no gabinete de Flávio Bolsonaro, levadas pelas mãos de Queiroz. 

Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco, que está preso, também foi da Polícia Militar e era vizinho de condomínio dos Bolsonaros, o agora famoso Vivendas da Barra, de onde ele saiu para cometer o crime, que até hoje não tem mandante. 

É um emaranhado de relações perigosas. Paulo Emilio Catta Preta, que era advogado de Adriano da Nóbrega, foi agora indicado por Frederick Wassef, o anjo da família Bolsonaro, para fazer a defesa de Fabrício Queiroz. Está tudo em casa. 

Segundo o juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal, que pediu a prisão de Queiroz, já há provas suficientes para aceitar uma peça acusatória, o que tornaria Flávio Bolsonaro réu pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, da qual seria o líder. 

Bem que Queiroz tentou alertar os comparsas que as investigações estavam preparando uma pica do tamanho de um cometa, conforme áudio revelado pela Folha de S. Paulo

O cometa chegou. 
"O mandado de prisão fala em obstrução de Justiça. Significa que existe uma investigação de organização criminosa. O crime de obstrução de Justiça é muito grave. Então nós temos de pensar que talvez tenha chegado aí um caso muito mais grave, que é a milícia. 
Talvez aquela pergunta que a gente fazia onde está o Queiroz?, consiga responder a outra pergunta que ainda resta: quem mandou matar Marielle? Talvez nós tenhamos chegado ao começo de um fio de novelo" – constata o criminalista Almeida Castro. 
Até onde este novelo pode chegar? 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

terça-feira, 10 de março de 2020

LINCHAMENTO MORAL DE JOSÉ PADILHA EM NADA DIFERE DOS COMETIDOS PELA ESCÓRIA BOLSONARISTA

Trechos do desabafo de José Padilha 
"Conheci Marielle Franco no mesmo dia em que conheci Marcelo Freixo. Foi no Cine Odeon, num debate ancorado na projeção de Ônibus 174, meu primeiro filme. Participamos de outros debates. Tenho alguns deles filmados. Freixo e Marielle (...) me ajudaram na pesquisa e na pré-produção do Tropa de elite 2.

Freixo me deu acesso à CPI das milícias, que frequentei regularmente. (...) Senti a importância do gabinete de Freixo e aportei recursos na campanha do PSOL.

Saí do país alguns meses depois, porque fui vítima de uma tentativa de sequestro por parte de policiais milicianos. 

Mesmo morando fora, Antonia Pellegrino me procurou. Queria ajudar as pessoas mais próximas a Marielle e Anderson. Queria fazer uma série de TV. Queria levar o nome de Marielle aos quatro cantos da Terra. Julgava que, comigo no projeto, a série teria mais chances de obter distribuição internacional. E a família teria mais recursos. 

Aceitei na hora. Negociei por meses. Estava fechando um acordo internacional quando a Globoplay se interessou pelo projeto.

No Brasil, a Globo tem alcance infinitamente maior do que qualquer estúdio estrangeiro. Tem ótimo elenco de atores negros. Tem ótimos diretores negros. Tem ótimas escritoras negras. Tem ótima equipe técnica negra. (...) Além disso, uma série na Globo pressionaria as autoridades a encontrar e a punir quem matou Marielle.

"Marielle nunca me chamou de fascista"
Cheguei ao Brasil para assinar contrato. O meu trabalho seria ajudar na montagem do writers room, escrever um roteiro em parceira com a Antonia e dirigir o primeiro de, no mínimo, oito episódios. 

Além disso, queria ajudar Antonia, a Globoplay e o Instituto Marielle Franco a treinar novos talentos, usando a série como uma espécie de escola.

Não consegui nem começar.

O que aconteceu no dia seguinte ao da assinatura do contrato foi estarrecedor. Além de acusarem Antonia de racismo —apesar de a Antonia estar trabalhando com afinco para montar um equipe representativa da comunidade negra no Brasil e no exterior— e de me tacharem de fascista (Marielle nunca me chamou de fascista), atacaram a legitimidade da família de Marielle, atacaram a Mônica [Mônica Tereza Benício, a viúva de Marielle] e atacaram Marcelo Freixo.

Foi um linchamento moral sem direito a respostas ou tempo para explicações. Os linchadores reduziram tudo à cor da minha pele, como se eu fosse fazer o projeto sozinho, como se não fôssemos contar a história de Anderson, um homem branco, como se não fôssemos montar uma equipe repleta de realizadores negros. Linchamentos sumários são compatíveis com os valores de Marielle?"
Celso Lungaretti
Respondo eu: linchamentos morais são odiosos, repulsivos e inaceitáveis, pouco importando se o alvo dos indignos que esfaqueiam pelas costas, confortavelmente escondidos atrás de seus teclados, se chama Patrícia Campos Mello ou José Padilha.

E pouco importando, também, como se vejam os integrantes dessas maltas espumando de ódio: são todos fascistas, pois o discurso difere mas a alma é a mesma. 

Alma de fanfarrões que arrotam valentia quando estão juntos com a matilha mas não valem nada quando se trata de enfrentarem sozinhos o inimigo. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

POLICIAIS E BANDIDOS SÃO INIMIGOS NOS FILMES, MAS PARCEIROS NA VIDA REAL...

elio gaspari
QUANDO FOI QUE ISSO TUDO COMEÇOU?
Em 2007, o filme Tropa de elite mostrava uma cena na qual o capitão Nascimento, do Bope da PM do Rio, queria saber onde estava o traficante Baiano, então espancava um jovem e mandava que o torturassem asfixiando-o com um saco de plástico. Esse momento foi aplaudido em muitas salas do país.

Passaram-se 12 anos, Jair Bolsonaro está no Planalto e Wilson Witzel (Harvard Fake' 15) governa o Rio de Janeiro. Durante a campanha do ano passado o capitão-candidato foi a um quartel do Bope, discursou e repetiu o grito de guerra de Caveira!. Eleito governador, Witzel anunciou sua plataforma para bandidos que empunhassem fuzis: "A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo!".

As plateias de Tropa de Elite haviam mandado um sinal e ele materializou-se na eleição. Tudo começou ali. O cidadão que aplaudiu a cena da tortura acreditava que aquele deveria ser o jogo jogado, reservando-se o direito de achar que só se deve torturar quem se mete com traficante ou que só se deve acertar a cabecinha do sujeito que vai para a rua com um fuzil.
Passou-se um ano, não se sabe como o ex-PM Fabrício Queiroz fazia dinheiro, e a polícia do Rio acerta não só cabecinhas de bandidos, como também crianças.

O cidadão do aplauso é capaz de fingir que não sabia que esse seria uma das consequências da sua manifestação de felicidade. Por trás da cena do capitão Nascimento havia muito mais.

O repórter Rafael Soares mostrou um aspecto desse desfecho. No dia 13 de novembro de 2014 um PM que servia no Bope tentou convencer o traficante Lacosta a executar um major que atrapalhava os negócios do setor: "Manda ver onde mora e quando ele for sair da casa, forja um assalto e rasga ele".

Depois entrou em detalhes: “Glock com silenciador e carregador goiabada de 100 tiros, pow, vai brincar com ele. Esse cara tá com marra de brabo”.
Dois meses antes dessa conversa, a PM do Rio havia prendido 23 policiais acusados de extorsão. Entre eles estava o terceiro homem na hierarquia da corporação, sob cujas ordens ficavam os comandantes dos Bopes.

O dilema da segurança nas grandes cidades brasileiras nunca esteve num confronto simples, como a da retórica de Bolsonaro e Witzel, com o capitão Nascimento de um lado e o traficante Baiano do outro.

Nas camadas do meio estão policiais, milicianos e todas as combinações possíveis com a bandidagem. Aquilo que começou com o aplauso à cena de Tropa de Elite seguiu seu curso e transformou-se numa necropolítica.

Ela finge que combate o crime, mas contém o ingrediente que inibe esse propósito: o PM que queria rasgar o major, negociava com o traficante Lacosta, a quem chamou de meu rei, porque há quem precise de bandido vivo e solto. 

Lacosta vai bem, obrigado. A facção à qual ele se associou foi pioneira na criação de holdings com milícias.

Não há nada de novo nessa constatação. O ex-sargento da PM Ronnie Lessa, acusado de ter participado do assassinato da vereadora Marielle Franco, teve uma carreira complementar à sua atividade no Bope.

Foi guarda-costas de contraventor, teria ligações com o Escritório do Crime e na casa de um de seus amigos guardava 117 fuzis desmontados. 

Tinha amigos na milícia de Rio das Pedras e uma boa vida, a ponto de haver comprado uma boa casa no condomínio da Barra da Tijuca onde vivia o deputado Jair Bolsonaro. 
(por Elio Gaspari)

terça-feira, 11 de junho de 2019

PADILHA: "A DIREITA PRÓ-BOLSONARO E A ESQUERDA PRÓ-LULA SE TORNARAM IRMÃS SIAMESAS: NUNCA MUDAM DE OPINIÃO"

josé padilha
MANADAS DE WHATSAPP
Critiquei, recentemente, uma parte do pacote anticrime que o ministro Sergio Moro (Justiça) enviou ao Congresso. Mais precisamente, a que estimula o crescimento da violência policial no país. 

Moro respondeu com um post sem qualquer referência aos dados que citei. Disse, numa alusão ao fato de que sou cineasta, que minha crítica era ficção, como se não existissem milícias no Brasil. 

O descaso de Moro com dados que contrariam suas crenças é um exemplo do que chamo de desonestidade intelectual

Outro exemplo é a atitude da maioria dos formadores de opinião brasileiros, à direita e à esquerda. 

Uma parte se recusa a admitir que caiu no conto do vigário de Lula, se recusa a aceitar que ele capitaneou a associação PT-PMDB com um cartel de empreiteiros que desviou bilhões de dólares dos cofres públicos. 

A outra finge não ver que Jair Bolsonaro, além de desqualificado, tem conexões com a esgotosfera da polícia do Rio de Janeiro. 

No que tange à honestidade intelectual, a direita pró-Bolsonaro e a esquerda pró-Lula se tornaram irmãs siamesas: nunca mudam de opinião.

Não admitem a falibilidade de seus intelectos porque não satisfazem a definição do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. Não são pensadores, são membros de comunidades de ideias, de grupos de WhatsApp nos quais identidade tribal é critério de verdade.

Considere, leitor, os seguintes enunciados: 1 - a violência policial é um problema no Brasil; 2 - não deve haver uma reforma da Previdência; 3 - todos os atos de Moro na Lava Jato foram nefastos; 4 - Dilma e Lula são honestos; 5 - não pode haver privatizações; 6 - prisão em segunda instância é cercear o direito de defesa; 7 - o mensalão não existiu; 8 - a liberdade sexual é um direito individual; 9 - a maconha deve ser legalizada; e 10 - o impeachment foi um golpe.

A esquerda petista acredita em todos os enunciados acima. Já a direita bolsonarista não acredita em nenhum. Note, entretanto, que não há conexão lógica entre esses enunciados. A aceitação de um não implica a de outros.
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"As mensagens vazadas de Moro mostram um juiz trabalhando com procuradores para condenar réus. 

À luz deste fato, concluo que a Lava Jato foi um embate entre políticos corruptos e uma equipe de justiceiros" (José Padilha)
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Nada impede, p. ex., que alguém admire o combate do deputado Marcelo Freixo  às milícias, considere importante o ataque à roubalheira de Lula e companhia, que seja a favor da reforma da Previdência, que ache que Moro errou feio ao se associar a Bolsonaro, que defenda a liberdade sexual e a legalização da maconha, que ache que Dilma roubou, a despeito de o impeachment ter sido golpe, e que seja a favor da prisão após condenação em segunda instância. 

Uma pessoa assim, porém, não cabe nem no petismo nem no bolsonarismo.

Evidentemente, o leitor já concluiu que essa pessoa sou eu. A questão é: como é que virei tão gauche na vida (1)? Respondo: se novos fatos contrariam as minhas crenças, mudo de crença em vez de negar os fatos. 

As mensagens vazadas de Moro, p. ex., mostram um juiz trabalhando com procuradores para condenar réus. À luz deste fato, concluo que a Lava Jato foi um embate entre políticos corruptos e uma equipe de justiceiros (2)... 

O nome que dou à metodologia que coloca fatos à frente de crenças é racionalidade. O nome que dou à negação da racionalidade é desonestidade intelectual

Note, todavia, que as manadas de WhatsApp não definem desonestidade intelectual como eu. Para elas, um sujeito é desonesto intelectualmente quando contraria as crenças da sua manada. 

Honestidade intelectual, para esta gente, é coesão social. Concorde com alguma das proposições acima em um grupo de WhatsApp de direita, ou discorde em um de esquerda, pra ver o que acontece…

Ao ler a minha crítica a Moro, parte da esquerda assumiu que eu estava aceitando todas as suas outras teses. Alguns até disseram que era tarde, como seu eu estivesse pleiteando vaga em sua manada. 

Cruz-credo, digo eu! Faço questão de não pertencer nem ao petismo nem ao bolsonarismo, as duas manadas dominantes no Brasil.
Sob o risco de soar como um guru —e já soando—, sugiro a ambas que observem calmamente o que se passa em seus grupos de WhatsApp. Se fizerem isso, perceberão que nunca mudam de ideia porque têm medo do julgamento de seus pares. 

Perceberão que são reféns uns dos outros e que vivem uma dinâmica social que se opõe à razão. Concluirão, como Wittgenstein, que “o inferno não são os outros, o inferno são vocês mesmos”.                                                        .            
1  Alusão à famosa estrofe inicial do Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade: "Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida".
2  — Padilha se refere aos particulares que se arrogam o direito de fazer justiça com as próprias mãos, como os que, contratados pelas comunidades para protegê-las, espancam e até executam a bandidagem.

terça-feira, 16 de abril de 2019

O CINEASTA JOSÉ PADILHA SE ARREPENDE DO APOIO A SÉRGIO MORO E VÊ SEU PACOTE ANTICRIME COMO "UM PACOTE PRÓ-MILICIA"

Este foi assassinado pela máfia
josé padilha
O ministro AntiFalcone
Sergio Moro sabe que:
1. as milícias são organizações criminosas controladas por policiais civis e militares corruptos e violentos;
2. esses policiais utilizam o aparato do Estado, como armas, helicópteros e caveirões, para expulsar o tráfico e dominar as favelas;
3. as milícias cobram por proteção e dominam atividades econômicas importantes nas áreas que controlam: distribuição de sinais de TV e de gás de cozinha e transporte alternativo;
4as milícias decidem quem faz propaganda eleitoral nas suas áreas e financiam campanhas políticas;
5. milicianos e políticos ligados a milicianos foram eleitos no Brasil para cargos legislativos e executivos em níveis municipal, estadual e federal.

Mesmo sabendo de tudo isso, o ministro Sergio Moro declarou que as milícias representam a mesma coisa que as facções criminosas dentro das prisões, sugerindo que esses grupos operam como o varejo do tráfico de drogas.

Ora, o leitor sabe que sempre apoiei a operação Lava Jato e que chamei Sergio Moro de samurai ronin, numa alusão à independência política que, acreditava eu, balizava a sua conduta. Pois bem, quero reconhecer o erro que cometi. 

Digo isso porque não há outra explicação: Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro não foi o senador mais votado em 74 das 76 seções eleitorais de Rio das Pedras por acaso...

O pacote anticrime que Sergio Moro enviou ao Congresso —embora razoável no que tange ao combate à corrupção corporativa e política— é absurdo no que se refere à luta contra as milícias. De fato, é um pacote pró-milícia, posto que facilita a violência policial.
Este não será assassinado pelas milícias

Se Sergio Moro tivesse estudado os autos de resistência no Brasil teria descoberto que:
1. apenas no Rio de Janeiro, a cada seis horas, policiais em serviço matam alguém;
2. a versão apresentada por esses policiais costuma ser a única fonte de informações nos inquéritos instaurados em delegacias para apurar os homicídios;
3. como policial tem fé pública, a sua versão embasa a excludente de ilicitude, evitando a prisão em flagrante;
4a Polícia Civil, além de raramente escutar testemunhas ou realizar perícias no local dos assassinatos, tem mania de desfazer as cenas do crime para prestar socorro às vítimas, apesar de a maioria delas morrer instantaneamente em decorrência de disparos no tórax;
5. desde 1969, quando o regime militar editou a ordem de serviço 803, que impede a prisão de policiais em caso de auto de resistência, apenas 2% dos casos são denunciados à Justiça e poucos chegam ao Tribunal do Júri.

Aprovado o pacote anticrime de Sergio Moro, esse número vai tender a zero. Isto porque o pacote prevê que, para justificar legitima defesa, bastará que o policial diga que estava sob medo, surpresa ou violenta emoção —ou, ainda, que realizava ação para prevenir injusta e iminente agressão.

O hábito que os policiais milicianos têm de plantar armas e drogas nos corpos de suas vítimas para justificar execuções é tão usual que deu origem a um jargão: todo bom miliciano carrega consigo um kit bandido. Aprovado o pacote de Moro, nem de kit bandido os milicianos precisarão mais.
"pacote de Moro vai estimular o crescimento das milícias"
Sergio Moro nunca sofreu atentados e nunca lidou com a máfia. Mas o juiz Giovanni Falcone, em quem o ministro diz se inspirar, foi morto aos 53 anos de idade na explosão de uma bomba colocada pela máfia numa estrada. Sua mulher e três seguranças morreram com ele.

O crime foi uma reação da máfia à operação Maxiprocesso, que prendeu mais de 320 mafiosos na década de 1980. Ela deu origem à operação Mãos Limpas, que mostrou que a máfia elegia e controlava políticos importantes na Itália.
Ora, no contexto brasileiro, é obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política. Sergio Moro foi de samurai ronin a antiFalcone. Seu pacote anticorrupção é, também, um pacote pró-máfia. (por José Padilha)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

ESQUERDA QUE HÁ 2 ANOS FOGE DA AUTOCRÍTICA DÁ NISTO: ARTIGO DE JOSÉ PADILHA A REDUZIU A PÓ DE TRAQUE!

Por Celso Lungaretti
Este blogueiro mantém sua decisão de publicar textos inteligentes, que fujam à mesmice rasteira das redes sociais, mesmo quando o autor não for um cidadão acima de qualquer suspeita.  

Maus momentos qualquer ser humano tem, mas precisamos diferenciar os indivíduos que pregam e praticam a desumanidade em tempo integral (o Jair Bolsonaro, p. ex.) daqueles que apenas pensam diferente da maioria e, mesmo não estando errados nem sendo direitistas empedernidos, sofrem estigmatização e desqualificação injustas, porque jogar sujo é mais fácil do que contestar suas análises.

Tratar alguém como herege é retroceder à intolerância dos fanáticos religiosos da Idade Média. Não tem nada a ver com a missão da esquerda conforme Marx a definiu: conduzir a humanidade para um estágio superior de civilização

Assim, sem recuar um milímetro das críticas outrora feitas a José Padilha por ter relativizado o horror das torturas no fascistoide Tropa de Elite (2007), eu posto em seguida algumas considerações inteiramente válidas que ele teceu a respeito da sua última criação. Os grifos são meus e o artigo do Padilha completo pode ser acessado aqui.
Por José Padilha

"A série O Mecanismo é uma dramatização inspirada em um conjunto de acontecimentos reais, apresentada de forma a ilustrar uma tese. Eis a tese, em cinco enunciados:

a) No Brasil, a corrupção não ocorre esporadicamente; ela é o mecanismo estruturante da política e da administração pública, um mecanismo que opera nos municípios, nos estados e no governo federal; no Executivo e no Legislativo, e também nas cortes judiciais constituídas por indicações políticas

b) As campanhas de todos os grandes partidos do Brasil são financiadas por empresas que trabalham para o Estado. Uma vez eleitos, políticos desses partidos montam coalizões com base na distribuição de cargos que auferem controle sobre o orçamento público. Quanto mais poderoso for um político, maior o quinhão que lhe cabe.

c) O Estado, assim loteado, contrata as mesmas empresas que financiam as campanhas políticas dos grandes partidos, superfaturando orçamentos.

d) Parte da fatura se transforma em financiamento de campanha para o próximo ciclo eleitoral, e parte vira caixa dois e propina. 
e) O mecanismo não tem ideologia; ele opera nos governos de esquerda e de direita.

...Sabendo que o mecanismo existe, podemos afirmar que:

a) Se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas, como a lei foi sancionada com PT e PMDB no poder, os políticos denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer.

b) A mídia de direita usou essa contingência histórica para atacar a esquerda, como se a direita não fosse corrupta.

c) O PT usou essa contingência para acusar a Lava Jato de partidarismo, como se não fosse inevitável que petistas fossem pegos primeiro, dado que estavam no poder.

Criou-se (...) um ambiente irracional e polarizado, em que o dogmatismo ideológico da esquerda radical e o cinismo pragmático da direita fisiológica passaram a trabalhar juntos para negar o inegável, o fato de que todas as lideranças políticas dos grandes partidos brasileiros são corruptas.

Hoje, vemos os formadores de opinião de esquerda e os membros da direita fisiológica de mãos dadas, pressionando o STF para cancelar a prisão após condenação em segunda instância.

Afinal, para a esquerda isso garantiria a impunidade de Lula; para a direita, a de Aécio, de Temer, de Jucá... O mecanismo, é claro, agradece.

Confesso que esperava mais dos formadores de opinião da esquerda. Pensei que em algum momento da história fossem acordar do estupor ideológico e ajudar pessoas de bem na luta contra o mecanismo que opera no mundo real, em vez de se associar a ele para lutar contra o mecanismo exposto na Netflix"
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