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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

O SEBASTIANISMO NUNCA DÁ CERTO. LÁ EM PORTUGAL ERA APOSTA NUM MORTO. CÁ NO BRASIL É APOSTA NUM PASSADO SEM VOLTA

dalton rosado
LULA RESOLVE?
Num cenário de vitória do presidenciável petista, se pergunta: Lula resolve? Não, não resolve. 

Atenua? Talvez atenue, porque pior do que o desastrado governo que aí está não pode ser. Mas tudo depende da intensificação da depressão econômica mundial em curso e da capacidade de barganha com o centrão, que é quem governa politicamente o Brasil e está sempre a serviço do grande capital, que é quem manda de fato.

O horizonte, sob os marcos do capital, é sombrio; portanto, a melhora com Lula seria relativa. Afinal (e pelo menos), ele não é negacionista. 

Haveria muita pressão interna dos movimentos sociais e sindicais (que ele sempre instrumentalizou, mas têm limites de uso); e existe muita gente no PT (ainda que iludida) com sensibilidade humanista e capaz de pressioná-lo. Afinal, coerentemente com sua condição de social-democrata, ele não é apenas um político conciliador submisso, mas também uma força auxiliar do capitalismo. 

Será este o momento de apenas evitarmos o mal maior em benefício de paliativos inconsistentes, sem sequer uma visão de médio prazo? Não podemos perder de vista que, na base dos sofrimentos atuais mundo afora, está a conjunção de crise sanitária com crise estrutural de um sistema caduco.

A renitente pandemia do coronavírus, que se recicla sob variantes e nos ataca como um exército invisível capaz de teimosamente voltar ao campo de batalha com contingentes inesperados, escancara que o capitalismo não consegue sobreviver sem os braços da produção social produtora de valor; sem as barrigas do consumo desenfreado; e sem as mentes teleguiadas pelo mercado.
Ao contrário do lusitano,  o D. Sebastião brasileiro até
pode voltar, mas não tem como trazer o passado com ele
 
 

Pari passu, a crise ecológica causada pelo aquecimento global não pode ser resolvida nos marcos do capitalismo predador, nem  sob o colaboracionismo capitalista social-democrata. Tende, portanto, a naufragar nas águas turvas do seu limite interno e externo da expansão capitalista que tudo necrosa. 

Vivemos hoje a depressão causada pela ineficácia de um governo desastroso e o presidente vindouro enfrentará, além dos nossos problemas internos ora agravados, a debacle cada vez mais acentuada do sistema capitalista mundial; então, precisaríamos de armas fora da lógica do capital para superar os problemas que se anunciam.

Com os tradicionais métodos de combate do mal com as armas do mal, corremos céleres para o desencanto e para a perda de esperanças, voltando os braços e mentes à insanidade que tomou conta dos brasileiros em 2018 (agora estão a nos fazer pagar o pato verde-amarelo que soltava grasnados de mau agouro na avenida Paulista, em frente à Fiesp, o bunker do capitalismo).

É definitivamente ineficaz o eterno pêndulo entre os governos:
— os governos de direita neoliberal (e suas cantilenas de eficiência administrativa, retomada do crescimento econômico e de combate à corrupção que eles mesmos praticam na base, oficialmente, pela extração de mais-valia do trabalho abstrato); e
— os da esquerda colaboracionista (que prega um capitalismo humanizado, como se o diabo pudesse ficar bonzinho). 

Tudo tem ocorrido ciclicamente, a cada decepção e apagão da memória eleitoral amnésica, já se ouve em muitos setores do capital a aceitação parcimoniosa e confiante de uma convivência com Lula. Não é demais nos lembrarmos da frase do presidente dos EUA que dizia você é o cara, com tapinhas nas costas do Lula e tapete vermelho (de todos eles) na Casa Branca. 
Do que ri o Obama? De o Lula achar-se mesmo "o cara"?

De minha parte, desconfio e continuarei sempre desconfiando de quem 
recebe os elogios do Tio Sam, porque com eles não tem almoço grátis, como dizia o Milton Friedman. 

E jamais me orgulharia como o Lula se recebesse agrado verbal de um presidente dos EUA, qualquer que fosse ele:
— aquele que apoiou Mohammad bin Salman, aquele sanguinário ditador da Arábia Saudita que mandou matar jornalista indefeso numa embaixada de seu país n Turquia;  
— aqueles que não pagam juros de sua dívida pública mas subvencionam bancos que (como ocorreu no caso da crise do sub-prime) cobram juros extorsivos da nossa;
— aqueles exportam moeda sem lastro e a trocam por nossa moeda menos insubsistente;
— aqueles que usam patentes tecnológicas para vender um pequeno comprimido por preço equivalente a vários sacos de soja;
— aquele que se dizia democrata e promoveu a militarização despótica da América latina;
— aquele que afirmava ser adepto do livre mercado mas criou barreiras alfandegárias para nossas matérias-primas; 
— trombeteava a necessidade de justiça social, mas defendia a remessa de lucros de empresas estadunidenses que aqui se instalam como forma de sobrevivência num mercado cujo balizamento da vitória mercadológica se define por baixos salários e subsídios fiscais governamentais;
— aquele que falava permanentemente em paz, mas fez a guerra da Coréia; 
— aquele que mandou  tropas para combater no Vietnã; 
— aquele que soltava bombas a 10 mil pés de altura, matando iraquianos inocentes sob a justificativa infundada de existência de armas químicas;
— aquele que execrava regime de Saddam Hussein mas antes era seu aliado, só deixando de sê-lo quando o ditador quis ser dono do petróleo existente em suas terras;
O golpista trapalhão com o matador de jornalistas
— aqueles que apoiaram o fundamentalismo religioso do saudita Osama bin Laden quando isso lhes era conveniente, criando um monstro que viria a se voltar contra o seu criador no devastador ataque ao World Trade Center;
— aquele que invadiu o longínquo Afeganistão por sentir-se palmatória do mundo;
— aquele que invadiu o Kuwait e iniciou a guerra do golfo pérsico de olho no seu estoque petrolífero;
— aquele que promoveu embargos econômicos ao Irã (ainda que se possa criticar o governo fundamentalista dos aiatolás) por não submeter-se aos caprichos estadunidenses; 
— aquele que alardeiam ajudas humanitárias mas promovem embargo econômico a uma pequena ilha caribenha após esta ter deposto um ditador que era apoiado pelo Tio Sam sem questionamentos;
— aqueles que perseguem os imigrantes latinos nas suas fronteiras prendendo-os, separando-os de suas crianças e as colocando em jaulas cercadas, além de deportar pobres indesejados (mas concedem green card a quem possa lá depositar US$ 1 milhão);
— aquele que mandou matar Che Guevara preso e indefeso, antes que o mundo clamasse por sua vida revolucionária, etc. 

É por estas e por outras que já estou pensando no day after pós-Boçalnaro, o ignaro, que é um presidente terminal, sem passado que o glorifique; com um presente que o define; e cujo futuro é apenas o de ser lembrado como o pior governante da história republicana.

Não devemos ter medo de uma reviravolta que negue as categorias capitalistas (trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, Estado, política, partidos, etc.), essas que nos causam tantos infortúnios e já se tornaram obsoletas.
O capitalismo agoniza, mas nós ainda nos podemos salvar
Temos mais é de aprender a lidar com o medo coletivo em andar para a frente e com o receio dos retrocessos que a história tem demonstrado ocorrer quando da transição causada pela saturação de um modelo de relação social que se torna obsoleto, até a sua consolidação (vide os avanços e retrocessos da revolução francesa, p. ex.).

Vivemos o ocaso e as dores do parto do sistema capitalista, que ora encerra seu ciclo de nascimento, vida e morte, colocando nos nossos braços e mentes a tarefa inadiável de superá-lo.  

A volta a um passado que foi ruim, mas menos bárbaro do que o presente, não deve ser a tônica dos nossos enfrentamentos. Temos de nos conscientizar a população da causa motora dos nossos problemas sociais, os quais somente podem ser resolvidos com a conjunção do uso tecnológico da ciência com um novo modo de produção social e uma nova ordem jurídico-constitucional. 

Este ano de 2022 é de grande importância para o restante do século 21: o Brasil não pode embarcar em ilusões salvadoras dentro do que está estabelecido enganosamente como imutável e ontológico à nossa existência. 

Precisamos incorporar o espírito do navegador lusitano que marchava corajoso por mares nunca dantes navegados, e com a esperança de encontrar um novo mundo (excluindo-se o sentido escravista colonizador de quem os financiava).

Navegar é preciso; viver não é preciso. (por Dalton Rosado)  
Esta é a composição do Dalton mais clicada no Youtube: 5 mil hits 

sábado, 20 de novembro de 2021

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA DE 2015 FOI MARCADO POR ESTE ARTIGO ANTOLÓGICO DO APOLLO NATALI CONTRA O RACISMO

E
m 31 de outubro de 2015, a atriz Taís Araújo passou a ser vítima de infame ação concertada no Facebook: uma foto dela que já estava no ar havia quase um mês de repente se tornou alvo de um sem-número de comentários preconceituosos provenientes de diferentes perfis. 

E deu esta altiva resposta:
"Eu não vou apagar nenhum desses comentários. Faço questão que todos sintam o mesmo que eu senti: a vergonha de ainda ter gente covarde e pequena neste país, além do sentimento de pena dessa gente tão pobre de espírito. Não vou me intimidar, tampouco abaixar a cabeça".
Três semanas depois, o episódio foi lembrado num artigo antológico do meu amigo de décadas e colaborador inesquecível deste blog, Apollo Natali, alusivo ao Dia da Consciência Negra. É com muito orgulho que o republico neste ano da desgraça de 2021. (CL)
.
"
Querida Taís de todo o Brasil, esse seu desabafo contra o racismo, que faz entristecer o coração brasileiro, é apenas mais um entre os milhares deles, semelhantes, sofridos, diários, esparramados pelo mundo, desde que mundo é mundo. 

Entre eles estão os marcantes, históricos, grandiosos desabafos contra a discriminação de um Nelson Mandela, um Martin Luther King, de um Joaquim Nabuco. 

Este último, com seu persistente desabafo jurídico abolicionista abalou a mais longa escravidão de negros do mundo, que desconsoladamente aconteceu neste nosso querido Brasil durante sufocantes 358 anos.

Os mais inconformados dizem que a escravidão no Brasil vigorou arrastados 388 anos, desde o seu descobrimento, em 22 de abril de 1500, até a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Não. A mais longa escravidão, a mais demorada  trevosa inclinação do ser humano, a de escravizar seu semelhante, foi a dos hebreus, no Egito: 700 anos.

Sem resposta à pergunta que não cala 
– por que racismo? –- resta-nos o conforto de festejar as iniciativas de parte da humanidade não-racista em marcar, com datas comemorativas, a ação, a luta, o esforço, a memória de personalidades brancas e negras, para erguer o estandarte da dignidade das pessoas negras e de outras colorações não-brancas.

A batalha de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul foi apoiada por organizações de mulheres brancas, ativistas, a combater o odioso racismo institucionalizado contra os negros por parte de uma minoria branca. Não é confortador? Disse Mandela: estamos lutando por uma sociedade em que as pessoas parem de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça, é uma questão de ideias.           

Sobra-nos no Brasil a aflição de constatar discriminação até por parte de negros e índios: Helda de Sá, uma mestiça cabocla amazonense, só depois de dobrar sistemática oposição de militantes do movimento negro e indígena, conseguiu cadastrar-se como a única delegada mestiça a participar da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em 2005, em Brasília. Discriminação por quê?
Um ano depois, ao comemorar-se o
Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, o governador Eduardo Braga, movido pela Nação Mestiça-Movimento Pardo-Mestiço, sancionou lei tornando o Dia do Mestiço, 21 de março, uma data oficial do Estado do Amazonas, em homenagem a todos aqueles que possuem mais de uma origem racial no Brasil, mulatos, caboclos, cafuzos, ainocos, entre outros, e seu papel na formação da identidade nacional.
  
Na sequência, em 24 de junho, comemora-se o Dia do Caboclo, que foi o primeiro mestiço brasileiro. E em 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ,descobriu, afinal,  que os brancos deixaram de ser maioria no País, se comparados ao total das outras classificações de cor e raça.

Agora, neste 20 de novembro, o Brasil comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, data da morte do escravo Zumbi dos Palmares, em 1695, para  lembrar a resistência do negro contra a escravidão, desde o primeiro tráfico de africanos para o Brasil,  iniciado menos de meio século depois de sua descoberta.  
Pouco mais de mil cidades brasileiras, entre os 5.570 municípios do país, celebram o Dia da Consciência Negra. Dependem da aprovação dos prefeitos. Há brancos que se empertigam contristados diante de altares e olvidam as lições de humanidade de suas religiões.

Entidades como o Movimento Negro, o maior do gênero no País, organizam palestres e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. A instituição procura evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.

Mesmo nos Estados Unidos, onde a realidade é o secular massacre de negros nas cidades sulistas e o atual, televisionado, desrespeito aos seus direitos, existe o Dia de Martin Luther King, feriado nacional, oficializado em 1983, comemorado na terceira 2ª feira de janeiro, data próxima ao aniversário do líder morto em 1968.

O quadro nos Estados Unidos ainda hoje é de protestos de negros por todo o país e repressão dos brancos contra eles, como nos velhos tempos de Luther King.  

Mas, não devemos perder a fé em nossos irmãos brancos, disse o próprio Luther King, no auge de sua luta. 

De algum modo, acrescentou, esperançoso, precisamos acreditar que os mais desnorteados dentre os brancos possam aprender a respeitar a dignidade e o valor de cada ser humano.

Obama se preocupava com o que acontecia na escola com suas filhas negras, com sua esposa, e sentia particularmente a humilhação comum sofrida pelo negro em seu pais. O senador, à saída de restaurantes, era tratado como um manobrista.

Desabafo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, do tempo em que era senador: 
— o índice de mortalidade infantil entre os americanos negros e pobres é semelhante ao da Malásia;
— entre os negros é comum o desemprego e processos criminais que um em cada três deles vai sofrer;
— brancos ganham em média 70% mais do que os negros;
—há discriminação sistemática e prolongada por parte de grandes corporações, sindicatos ou áreas do governo municipal;
— há bairros em que não se vendem imóveis a negros, etc.

A miscigenação está tornando os Estados Unidos mais negro e moreno. Contudo, em geral, os membros de todas as minorias continuam a ser medidos pelo grau de assimilação da cultura branca, o quão próximo seus padrões de discurso, suas roupas ou seu comportamento estão da cultura branca dominante; e quanto mais uma minoria se desvia desses padrões exteriores, mais sujeita fica aos preconceitos.

Meu próprio desabafo contra as sombrias manifestações de racismo que se perpetuam no planeta azul, e sem pretensões de qualquer exibicionismo humanitário, é oferecer à nossa magoada Thais Araújo, e a todos os demais magoados negros, e todos os brancos, e todos de todas as colorações, duas matérias minhas sobre opressão aos negros que estão flutuando no Google.

Uma, de título um pouco forte porque inevitável, Tio Sam, Tio Sam, que matas os teus negros, é uma paráfrase dos ditos de Jesus Cristo: Jerusalém, Jerusalém, que matas os teus profetas. 
por Apollo Natali

São desabafos e lamentações de Martin Luther King sobre a opressão dos brancos contra os negros de seu país.

Outra, de título 
Escravidão!, é a resenha-de-uma-resenha do total de 50 que compõem um livro de História que pretende explicar o Brasil (escrevo História com maiúscula e ponto e basta). 

A obra, coordenada pelo jornalista Lourenço Dantas Motta, chama-se Introdução ao Brasil – um banquete no Trópico, dois volumes, Editora Senac São Paulo."
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quinta-feira, 27 de maio de 2021

A VIDA NÃO É, NEM PODE SER REDUZIDA A UM RELES LEVANTAMENTO CONTÁBIL DOS HAVERES E DEVERES FINANCEIROS! – 2

(continuação deste post)
As crianças enjauladas da Era Trump...
O que faz com que pessoas (principalmente jovens) que atravessam a nado o ponto mais extremo da África com relação à costa europeia espanhola sejam presas e rejeitadas por clandestinidade migratória?

O que leva o governo dos Estados Unidos a tratar a pontapés os emigrantes, expulsando os que já estão lá e impedindo os que tentam ingressar – e isto não só sob o republicano Donald Trump, que separou crianças dos seus pais numa espécie de jaula, mas também sob o democrata Joe Biden, que acaba de deportar brasileiros exatamente como o fizera o democrata Barack Obama –, senão o fato de que seus critérios de cidadania são baseados em mesquinhos aspectos econômicos contributivos?

É que a cidadania democrática burguesa, em qualquer país dito civilizado e rico, somente funciona para quem tem dinheiro; e se for grana alta, o candidato poderá até receber o green card, ainda que tenha sido um criminoso em seu país de origem.  

O mundo que se pretende civilizado (mas demonstra não o ser) há muito deveria ter superado um tipo de relação social que se baseia em critérios de produção de valor monetário, simplesmente por que ele é desumano; e precisa fazê-lo antes que a vida se torne inviável no estágio do limite interno de reprodução de sua própria substancia funcional, o dinheiro. 

Quando disse isto a uma que considera acordar dia após dia para ganhar dinheiro algo tão natural como tomar água ou satisfazer as suas necessidades fisiológicas, ela contrapôs ser impossível as pessoas se conscientizarem por elas mesmas de que devem prescindir do vil metal, adotando um novo modo de vida; noutras palavras, insinuou que sou um mero sonhador.  
...eram iguaizinhas às da Era Obama.

Mas, sabendo que ela está desempregada, sem grana para pagar a faculdade (daí ter trancado a matrícula) e nem mesmo para custear outras despesas pessoais, expliquei que a cada vez mais acentuada falta de dinheiro, que ora a atinge, vai provocar empiricamente uma exigência de formas alternativas de relação social.

E fui além: isto ocorrerá tenhamos ou não consciência teórica da conveniência do combate à negatividade implícita nas relações sociais capitalistas.

Não foi o sentimento humanitário que aboliu a escravidão direta dos negros no Brasil, mas a necessidade capitalista de absorção dos negros no mercado produtor de valor via trabalho abstrato (ainda que a hipócrita consciência civilizatória o tivesse exigido); trabalho abstrato que, paradoxalmente, agora lhes é em grande parte negado. 

O processo dialético social é que impõe revolucionariamente as transformações sociais, a posteriori; e não a consciência teórica, a priori. 

Há fatos absolutamente imprevisíveis que contribuem para a explicitação da irracionalidade capitalista e se agregam subsidiariamente às crises. Um deles é o surgimento de uma pandemia que assola os continentes e a humanidade, cujos levantamentos extraoficiais já apontam para cerca de 10 milhões de óbitos, um número mais condizente com guerras mundiais. 
A desigualdade social é mais chocante numa pandemia

É evidente que um modo de produção social fora do mercado possibilitaria uma racionalização da produção e distribuição de objetos servíveis e indispensáveis ao consumo (excluindo as quinquilharias capitalistas desnecessárias), bem como a efetivação de serviços presenciais adaptados a uma realidade pandêmica, principalmente na era da tecnologia eletrônica de comunicação. 

Ao mesmo tempo, a produção de vacinas sem o critério da comercialização e custos de produção que proíbe os países pobres de compra-las (já há um apartheid pandêmico, com os países ricos vacinando suas populações em percentagens bem mais expressivas do que os países pobres) certamente possibilitaria um controle sanitário profilático verdadeiramente humanitário. 

A depressão econômica anteriormente já em curso encontrou na pandemia continental um inimigo que o capitalismo não pôde colocar na cadeia como terrorista subversivo, ainda que certos farsantes o designem como comunavírus, numa alusão à China, que, inocente dessa imputação asnática, é, contudo, quem hoje pratica o capitalismo mais selvagem do planeta, poluindo a atmosfera (é, com os Estados Unidos, com quem disputa a hegemonia da exploração capitalista, o maior emissor da CO²) e escravizando o milenar povo chinês. 

Caminhamos, pois, para o momento de saturação definitiva do modelo capitalista cambaleante, seja por agressão ecológica, pandemia, desemprego estrutural, dívida pública impagável, colapso iminente de todo o sistema financeiro, concentração da riqueza, e tantos outros fenômenos próprios à incorretamente denominada modernidade social.

Será que vamos aprender e nos reinventar, evoluindo para um estágio superior de civilização, ou nos destruiremos num processo autofágico?
     (por Dalton Rosado)  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

BIDEN PRETENDE CONVOCAR UMA CÚPULA DA DEMOCRACIA, COMO PONTAPÉ INICIAL DA RECONSTRUÇÃO DA ORDEM INTERNACIONAL

É simplista a previsão dos articulistas e colunistas de esquerda, que apostam em mais do mesmo, minimizando a importância da volta dos democratas ao poder nos Estados Unidos. Depois das loucuras e tosqueiras ultradireitistas de Trump, eles estão, na prática, obrigados a personificarem a alternativa civilizada à barbárie que o eleitorado rejeitou.

E é o que vão fazer, segundo se depreende das palavras de um dos mais respeitados diplomatas do Itamaraty, Sérgio Amaral, entrevistado pelo colunista do UOL Jamil Chade.

Amaral [que aparece com Obama na foto abaixo] foi ministro de FHC e, ultimamente, embaixador do Brasil nos EUA entre 2016 e 2019.

Seguem as principais respostas que ele deu na entrevista, excluídas (por questão de espaço) as perguntas e alguns trechos que o blog considerou desinteressantes para seu público. 

Embora os projetos de Biden não sejam suficientes para reverter a agonia inexorável do capitalismo, certamente terão consequências importantes, pelo menos no timing dos acontecimentos. 

Daí minha recomendação a todos que leiam com muita atenção as análises do Amaral, que dão uma boa ideia de qual é o perfil intelectual e moral que um diplomata precisa ter para representar o Brasil numa embaixada-chave. Mas, talvez ele não frite hambúrgueres tão bem como o Eduardo Bolsonaro... (por Celso Lungaretti) 
Biden apresentando os escolhidos para integrarem sua equipe de política externa 
"[Vencendo a eleição e superando a tentativa golpista de Trump] Biden deu um passo importante para a volta da democracia, da volta da política e seu projeto internacional. 

[Esse projeto] é substancialmente diferente da política externa de Trump. Enquanto Trump aposta na decisão unilateral, nas formas de represália, Biden vai buscar a reconciliação e refazer as alianças políticas, além de reforçar o multilateralismo. Começando pela sua ideia de convocar uma Cúpula da Democracia, que é de certa forma o ponto de partida da reconstrução da ordem internacional.

A proposta de política externa é a revisão da diplomacia de Trump. Onde Trump refutava o meio ambiente, Biden colocará o assunto no eixo de sua aliança com a Europa. 

Essa cúpula, no fundo, é o encontro do Biden com países que trabalham com mesmos valores e que têm o mesmo compromisso com a democracia.

O desenho da nova ordem será menos sobre instituições. E mais sobre países que têm um ponto de partida igual: a afirmação da democracia. O compromisso ambiental, o compromisso com o multilateralismo e a busca de sedimentação de alianças. 

Eles não vão negociar novas instituições multilaterais. Mas vão negociar coisas diferentes, que dizem mais respeito à prática da economia, como regular as novas plataformas digitais, a inteligência artificial, como estabelecer uma postura comum no que se refere ao governo chinês. 

Não será necessariamente um cerco, com caráter impositivo e sanções, como Trump estava fazendo. Mas uma aliança de países para negociar novas regras do jogo, inclusive sobre as grandes empresas de tecnologia. 

O que me preocupa é que, nessas reuniões e soluções desses países, não temos as grandes empresas de tecnologia no Brasil. Serão acordos ou entendimentos sobre a China, e nós não faremos parte deles. 

Será que nós seremos atores relevantes desse novo processo, e será que nós seremos convidados a sentar à mesa de negociações principais, como aquelas que poderão ser negociadas nessa cúpula? Nesse isolamento, mais do que vítimas, somos atores desse isolamento. 

Nós preferimos nos colocar na posição de isolamento. Nós somos um dos últimos países a se afastar de Trump, e, hoje, ele está no mais completo isolamento. Nós escolhemos estar ao seu lado. 

Uma [das consequências dessa postura equivocada] é de curto prazo. A grande aliança EUA-Europa se faz por convergência na agenda ambiental. Ela pode reunir movimentos políticos com grande determinação na agenda ambiental.

Precisamos entender que a questão ambiental não é uma decisão de países. Mas uma determinação de sociedades. Escolhemos ficar do lado errado. 

O mundo passa por um momento de transição, pela globalização, pela ressaca da globalização, crise econômica, Trump e pandemia. Isso tudo ai mudar o cenário internacional. Só a emergência da China já provoca deslocamentos tectônicos no cenário internacional. 

Diante dessas mudanças, não existem condições de a política externa brasileira não se ajustar a esse novo momento. O mundo mudou. A política externa vai ter de mudar também."

quarta-feira, 22 de julho de 2020

NEM SEQUER NAS MENTIRAS E SABOTAGENS O PALHAÇO BOZO É ORIGINAL: ESTÁ SEMPRE IMITANDO O PATO DONALD

paul krugman
AQUILO QUE VOCÊ NÃO SABE NÃO PREJUDICA TRUMP
Agora estamos no estágio da pandemia da Covid-19 em que Donald Trump e seus aliados tentam suprimir informações sobre a difusão do coronavírus –porque é exatamente isso que eles estão fazendo. 

Mas como vem acontecendo desde o começo, eles ficaram muito para trás da curva. Do ponto de vista político (o único que lhes interessa), seus esforços de desinformação vieram tarde demais, e sem força suficiente.

Aqui estamos: dentro de alguns dias, milhões de estadunidenses sofrerão uma queda drástica em suas rendas, quando os benefícios expandidos aos desempregados expirarem. Isso requereria ação urgente; no entanto, evitar uma calamidade econômica estava fadado a ser difícil de qualquer forma, porque os republicanos em geral relutam em fornecer a assistência de que necessitam os trabalhadores a quem a pandemia deixou sem emprego.

E agora parece existir mais um obstáculo a qualquer ação: uma disputa interna no Partido Republicano sobre verbas para exames e para o rastreamento de indivíduos infectados. 

Até mesmo os republicanos do Senado apoiam uma ampliação no número de exames de coronavírus, que é desesperadamente necessária diante de nossa situação atual. A disparada no número de casos resultou numa defasagem nos exames, e os resultados deles estão demorando tanto tempo para sair que se tornam inúteis para todos os fins práticos.

Mas os funcionários do governo Trump se opõem à concessão de novas verbas para exames. E nem mesmo tentam oferecer desculpas, porque Trump em pessoa explicou a estratégia em seu comício de Tulsa, um mês atrás: se o número de exames for expandido, ele disse, vamos encontrar mais casos, e por isso eu instruí meu pessoal a desacelerar os exames, por favor.
Noutras palavras, o que você não sabe não prejudica Trump.

Ninguém deveria se surpreender por a equipe de Trump estar tentando suprimir más notícias sobre a pandemia. Isso era completamente previsível, levando em conta a Lei de Projeção de Obama: todas as teorias de conspiração da direita sobre o presidente Barack Obama representavam uma indicação do que os republicanos desejavam fazer assim que tivessem o poder.

Você se lembra, p. ex., dos rumores absurdos sobre uma iminente tomada de controle militar sobre o governo do Texas, tratados com seriedade por republicanos importantes? Agora temos agentes não identificados do Departamento de Segurança Interna circulando pelas ruas de Portland, Oregon, em veículos anônimos e detendo pessoas nas ruas. 

Lembra-se das insinuações de que o governo estava secretamente construindo campos de concentração? Milhares de imigrantes agora estão encarcerados em centros de detenção, em muitos casos sob condições horríveis.

E a guerra em curso contra os exames para detectar a Covid-19 foi prefigurada pelas constantes acusações de que o governo Obama estava suprimindo más notícias sobre a economia. O pessoal que queria a verdade sobre a inflação insistia em que o governo federal estava ocultando a inflação descontrolada que a direita previu mas jamais aconteceu. 

Os direitistas que queriam a verdade sobre o emprego –entre os quais, notavelmente, um certo Donald Trump– declaravam que os números oficiais do emprego que demonstravam melhora constante na economia eram uma falsificação, e que o desemprego era na verdade muito mais alto do que o governo vinha reportando. Portanto, era inevitável que os devotos de Trump viessem a fazer o que falsamente acusaram Obama de fazer,

Daí estarem agora ocultando os números desfavoráveis sobre a pandemia. Os esforços para restringir o número de exames são apenas parte da história.

O governo Trump recentemente ordenou que os hospitais suspendessem a transmissão de dados ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), ordenando que eles os reportassem a uma empresa terceirizada, em lugar disso. 

Como resultado, os números sobre internações hospitalares, um indicador crucial sobre a pandemia, desapareceram do site do CDC, antes que uma onda de protestos levasse ao seu retorno.

E alguns estados controlados pelos republicanos, especialmente a Geórgia, vêm adulterando há meses os dados sobre o coronavírus, apresentando-os de maneiras enganosas que minimizam o problema.

O mistério é por que o ataque aos exames demorou tanto tempo a surgir. Uma dica aos profissionais: se você quer esconder más notícias epidemiológicas, precisa começar a fazê-lo antes que todo mundo perceba que a pandemia está em expansão e escapou ao controle.

Uma fascinante autópsia do The New York Times sobre o fracasso da resposta de Trump ao coronavírus nos ajuda a compreender o que aconteceu. E quero dizer literalmente autópsia: os estadunidenses estão morrendo de coronavírus em ritmo oito vezes superior ao do Canadá e 10 vezes superior ao da Europa.

O relato do jornal deixa claro que a equipe de Trump jamais considerou seriamente qualquer tentativa de lidar com a realidade da pandemia. Também deixa claro, além disto, que as autoridades se convenceram em abril de que escapariam impunes dessa abdicação de responsabilidade, e que o coronavírus desapareceria.
E quando elas perceberam que o vírus não estava colaborando com seu joguinho político, era tarde demais para ocultar a verdade.

A esta altura, não está claro nem mesmo a que propósito político obstruir os exames deveria servir. A tentativa de engendrar um boom econômico antes da eleição já fracassou, porque os estados que reabriram suas economias estão revertendo o curso. 

Trump já desperdiçou toda a credibilidade que o governo poderia ter com relação ao coronavírus; mesmo que o número de casos reportados subitamente comece a parecer muito melhor, quem além dos partidários mais leais do governo acreditaria nisso?

Assim, o que está acontecendo parece menos uma estratégia política do que um esforço para consolar o ego frágil do patrão. Trump continua a insistir, falsamente, em que o único motivo para que estejamos vendo tantos casos da doença é que o número de exames é excessivo, e por isso seus assessores estão tentando se enquadrar ao restringir os exames.

E se isso paralisar a resposta estadunidense à pandemia, tornando impossível uma estratégia de teste, rastreamento e isolamento dos focos de contágio, bem, enfrentar de verdade o vírus nunca foi parte do plano. (por Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia e colunista do New York Times)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

ECONOMICÍDIO VAI ACELERAR DECADÊNCIA BRITÂNICA. MAS NÃO ZOMBEMOS, POIS NÓS TAMBÉM SUCUMBIMOS À IRRACIONALIDADE

dalton rosado
ESTADOS NACIONAIS, CAPITALISMO E
AS SUAS RELAÇÕES COM O BREXIT
"A União Europeia não modera a influência britânica – ela a amplifica. Uma Europa forte não é uma ameaça à
liderança global britânica – ela a eleva"
(Barack Obama)
Os estados acionais modernos são fruto da consolidação histórica do capitalismo.

As suas falências e constituição em blocos são, portanto,  frutos da sua contradição implícita e de sua decadência; e se constituem em embrião e prenúncio da necessidade de uma nova ordem transnacional, sob novos critérios de produção e consumo.

Assim, o Brexit vai na contramão da história. 

A ruptura com o feudalismo para implantação do capitalismo e seus mecanismos jurídico-constitucionais de controle é a razão pela qual houve confronto com a forma governamental de então em razão do conteúdo das relações sociais em mutação, cujo início data do século 16.

As dissenções atuais obedecem ao mesmo critério de base: as dores do parto de uma necessária superação de uma relação social, motivada pela falência de uma ordem econômica que se tornou obsoleta.  

O absolutismo feudal monárquico-eclesiástico ocidental, baseado no modo de produção escravista direto (servos europeus, negros africanos, etc.) perdia força política diante das relações burguesas (escravização indireta pelo trabalho abstrato) em ascensão, que clamavam por uma nova ordem jurídico-constitucional adequada às relações mercantis em curso.
Exterminadores do futuro: Boris Johnson, o Bozo de lá...

O processo de superação da velha ordem e a entronização dos estados nacionais burgueses (a república dita iluminista), nos últimos 500 anos, enfrentou obstáculos erguidos por reis e imperadores, pelos senhores feudais e pela igreja católica, até sua consolidação definitiva como democracia burguesa – tutelada pela vigilante força militar, sempre pronta para intervir quando necessário.

É sempre assim: o modo de produção social é o que determina o caráter político-jurídico da ordem estabelecida. 

Vivemos agora, no início do século 21, um processo de mutação das relações sociais: o trabalho abstrato, base de sustentação do capitalismo já que é fonte de produção do valor (categoria capitalista que, tal qual o sangue em nossos corpos, irriga todo o organismo social, estatal e mercantil), decresce e ameaça colapsar em razão das próprias contradições das relações mercantis.

Ao criar novos nichos de trabalho abstrato, o capital está cada vez mais reduzindo a proporção do dito cujo nas mercadorias produzidas (com a consequente redução do valor global do trabalho abstrato); ou seja, vai matando a galinha dos ovos de ouro.

A criação de blocos econômicos estatais tem sido uma tendência do capitalismo como forma de sobrevivência e criação hegemônica de domínio econômico sobre regiões mundo afora que detêm níveis de produtividade menores de mercadorias e de acesso às sofisticadas tecnologias de produção patrocinadas pela microeletrônica e pesquisas científicas; e, ao mesmo tempo, para servir como estímulo interno ao consumo e consequente produção de mercadorias.
...e Bolsonaro, o Boris Johnson daqui.

Também os traumas da primeira e segunda guerras mundiais contribuíram no velho mundo para a criação desses blocos (caso da União Europeia) como fonte de inibição de tentativas de dominações nacionalistas de um tirano qualquer, sequioso por impor poder hegemônico capitalista de um país sobre os demais mediante agressões bélicas. 

Mas, como tudo no capitalismo é contraditório e irresolúvel no longo prazo por força dos seus pressupostos idiossincrásicos e irracionais, eis que as fissuras dentro desses blocos não tardaram a aparecer.

As divergências se prendem a fatores econômicos, pois são estes que regem o comportamento político estatal, e não o contrário. 

Diante da crescente perda de poder aquisitivo mundial, não poupando nem mesmo os ricos de outrora, observa-se uma onda de insatisfação social, sem que a população saiba exatamente a origem dos seus infortúnios.

De tal insatisfação popular resulta n movimento pendular eleitoral entre partidos de direita, de ultradireita, de centro, de centro-esquerda, e de esquerda, que mais não passam de posições econômicas político-geo-referenciadas que lhes servem de norte (e isto dentro de um mesmo movimento pendular, no qual todos se mexem e nenhum sai do mesmo lugar). 

Enquanto os blocos econômicos se esfacelam diante da insatisfação popular, com oportunistas demagogos sempre surfando nessa onda como pretensos salvadores da pátria, a saída para os povos da periferia do capitalismo não têm sido os aeroportos (de vez que lhes faltam dinheiro e passaportes regularizados para uma imigração segura). 
O cenário para o qual o neoliberalismo nos conduz

Restam-lhes os barcos precários para cruzar os mares (caso dos africanos) ou a travessia pelos subterrâneos das fronteiras terrestres vigiadas (centro-americanos e sul-americanos), para citar os exemplos mais emblemáticos.

Os estados nacionais da periferia do capitalismo estão em permanente ebulição política e com tendência de controle pela força militar aliada a poderes civis (ou ela mesma colocando a faixa presidencial sobre uma farda qualquer).

Por seu turno os Estados capitalistas dominantes sofrem como a migração das suas empresas em busca de mão-de-obra barata. 

A Venezuela não é diferente da Bolívia; o Egito não é diferente da Líbia; a Coreia do Norte não é diferente da Arábia Saudita; o Zimbabue não é diferente da Angola; o Irã não é diferente do Iraque; a Inglaterra não é diferente da França; os Estados Unidos não são diferentes da China; o Vietnã do Norte não é diferente de Cuba, e por aí vai. 

Seja sob o tacão militar ou sob o tacão do voto (caso do Chile), a base que orienta o poder político é a mesma: a relação social baseada na produção de mercadorias.

Como dizia Che Guevara “a mercadoria é o núcleo econômico do sistema capitalista e, enquanto ela existir, seus efeitos se farão sentir na organização da produção e, consequentemente, na consciência”. 
     
O Reino Unido, que já não usava a mesma moeda da União Europeia, consuma agora uma ruptura maior. Ela não passa, contudo, de um bravata inconsequente, decidida por uma população nacional insatisfeita com seu declínio econômico e saudosa dos tempos nos quais se dizia que no império britânico o sol nunca se põe... 

Permanecer na UE, do ponto de vista econômico, traria mais vantagens para o Reino Unido do que a sua saída. Os conservadores, que mesmerizaram os britânicos com seus cantos de sereia, logo, logo os verão cobrarem as vantagens prometidas.

Mas, claro, vão ser contraditados pela cruel realidade capitalista em processo de depressão globalizada. 

Qualquer semelhança nacionalista-liberal britânica (guardadas as proporções de poder econômico) com as diretrizes e conceitos do governo brasileiro atual não é mera coincidência, mas opção ideológica irracionalmente consciente. (por Dalton Rosado)
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