domingo, 30 de setembro de 2012

ARTE MORTA À MOSTRA NOS MASOULÉUS DA AV. PAULISTA

Apesar da superioridade artística de Caravaggio ...
No sábado ensolarado, fui ao chamado  vão do Masp  para gravar uma última imagem para a eleição 2012: candidatos do PSOL balançando os braços ao som do jingle de campanha.

Fizeram umas 30 tomadas para depois escolherem a melhor, com a câmara percorrendo, de extremo a extremo, a fileira de companheiros.

Não sei se na que aproveitarem estarei sendo focalizado no instante final, quando emendei no gesto de "vem pra cá!" a saudação do Poder Negro e do dr. Sócrates.

Foi inspiração de momento. Deu vontade de fazer, fiz, para deixar bem claro qual o tipo de chamamento que estou fazendo. É para a luta que eu chamo as pessoas, sempre...

Embora fosse de manhã, dividimos espaço com centenas de interessados na exposição  Caravaggio e seus seguidores, pelo último dia em cartaz.

Não sou nenhum obtuso insensível às artes plásticas; admiro muitas obras e já divulguei pintores e galerias. Mas, nunca ficaria tanto tempo numa fila para ver o original de uma tela que está ao alcance de uns cliques no computador.

Talvez porque não me sinta à vontade em museus e pinacotecas. Há veneração respeitosa no ar, como nas igrejas. Jamais pertenci a esse time.

Num daqueles ridículos questionários para fins eleitorais, taquei  umbandista  como minha religião. Verdadeiramente não tenho nenhuma, nem certeza aboluta da existência ou inexistência de Deus.

Mas, como os cultos afrobrasileiros sofrem frequentes ataques dos hitlerzinhos zumbis  e sempre curti os pontos de umbanda como música, resolvi não ficar em cima do muro. Mesmo porque, se eu decidisse adotar alguma religião, seria alegre, cheia de ritmos e de cores, jamais uma das soturnas. Sou chegado à vida, não à morte.

Enquanto esperava que a tropa se reunisse, resolvi distribuir meus folhetos para os que esperavam que a bilheteria abrisse.

...os Delacroix são melhor inspiração para nós.
Encontrei um nariz empinado atrás do outro, como se estivesse tentando entregar-lhes um verme.

E mentiam: "Não voto aqui". Ninguém votava em São Paulo. Mas, como eu não vira nenhum ônibus de excursão despejando estetas, desconfiei.

Tirei a prova dos nove: a alguns que recusavam, expliquei que não era nenhum tarefeiro de partido, mas sim o próprio candidato, defensor dos direitos humanos há 45 anos. Aí pegavam.

Irritado, deixei escapar da mão um folheto que veio rasgado; tive preguiça de o apanhar. Veio um chato atrás e ironicamente me devolveu com um "o senhor deixou cair".

Ah, bom! O perfil ficou completo.

São pessoas que descreem da política e da própria possibilidade de mudarmos as relações de poder no mundo; não movem uma palha para tornarmos realidade as utopias; querem apenas fazer parte da torre de marfim de uma sociedade desigual e desumana; ter seus êxtases em público para serem admirados pelos iguais; e aliviar a consciência com besteirinhas como a separação de vidros e plásticos nas lixeiras, como se dependesse dessas miudezas a salvação do planeta.

Meu maior sonho é ver outra primavera como a de 1968, quando a arte estava nas ruas e nós a tomávamos nas mãos, empunhando-a como bandeira.

Com uma pontinha de esperança de que ainda terei a chance de entrar no Masp e fazer o que Godard fez naquele Festival de Cannes que coincidiu com a  primavera de Paris: "derrubar as prateleiras/ as estátuas, as estantes,/ as vidraças, louças, livros, sim!"

Até lá, procurarei minha turma nos saraus da periferia, que é onde a arte está viva e fervilhante. Não nos mausoléus da avenida Paulista.


sábado, 29 de setembro de 2012

A GÊNESE DO PARTIDO DA IGREJA UNIVERSAL

O trabalho de conclusão de curso da minha esposa foi sobre a Igreja Universal.

As informações que ela coletou e algumas que nâo pôde utilizar por motivos vários --principalmente para evitar retaliações contra suas fontes, pois se trata de gente perigosa-- me chocaram. Ofereci-o até, como livro, a duas editoras católicas, que não quiseram comprar a briga.

Também me incomoda que as evidências gritantes de crimes, contidas nas denúncias de promotores e numa série de reportagens irrefutáveis que O Estado de S. Paulo publicou em meados da década retrasada, não tenham desembocado em condenações e em medidas efetivas para proteger as vítimas --as que são privadas até do último centavo e as que perdem a saúde ou a vida por acreditarem em orientação médica de quem não é médico.

Pude, ainda, constatar que Edir Macedo é muito eficiente naquilo a que se propôs, o que o torna personagem das mais temíveis ao estender seus tentáculos para a política.

Então, fiquei estarrecido e indignado ao ler a notícia abaixo da Folha de S. Paulo, confirmando que, independentemente do  efeito Russomanno, o PT continuará favorecendo o crescimento do  partido da Igreja Universal, cuja criação foi estimulada pelo Lula.


É o que nunca me passou pela garganta no caso do ex-presidente: ele raciocina unicamente em função de conveniências políticas imediatas e menores. Quer que o PT vença eleições, pouco ligando para o fato de que um partideco reacionário por ele estimulado poderá um dia se tornar um partidão de características nazistóides e com influência extremamente nefasta na política brasileira.

Muitos colocam Lula nas alturas porque conduziu o PT à Presidência da República e colocou algumas migalhas a mais na mesa dos pobres.

Omitem, no entanto, que seu pragmatismo tosco levou à desideologização e descaracterização do PT, privando o Brasil de um partido revolucionário que poderia torná-lo um país igualitário, ao invés de um dos mais desiguais do planeta; e um país que oferecesse qualidade de vida ao seu povo, ao invés do que ostenta Índice de Desenvolvimento Humano tão ínfimo.

Governando numa conjuntura internacional extremamente favorável ao Brasil, Lula fez bem menos do que poderia, pois cumpriu religiosamente o pacto firmado com o grande capital em 2002, no sentido de manter as linhas mestras da política econômica neoliberal de FHC.

Está na hora de tomarmos dos capitalistas para distribuirmos ao povo, ao invés de apenas distribuirmos ao povo a merreca de que os capitalistas admitam abrir mão.

Delfim Netto, outro que Lula jamais deveria aceitar como companheiro de jornada, dizia, no tempo da ditadura, que era preciso esperarmos pacientemente o bolo crescer, para que depois pudesse ser dividido. 

Já cresceu, mas continuamos vendo a divisão por um binóculo. Enquanto permanecermos de braços cruzados, esperando a boa vontade dos que usurpam os frutos do trabalho alheio, não passaremos de pobres coitados.

Revolucionário existe para tornar o povo o sujeito da História. A diferença é enorme com os que querem mantê-lo na eterna dependência de homens providenciais, votando no partido que lhe oferece um tiquinho a mais do que as outras forças políticas, ao invés de exigir tudo a que tem direito.

Eis o esclarecedor texto do repórter Bernardo Mello Franco:


O PT pretende poupar a Igreja Universal de ataques caso Fernando Haddad passe ao segundo turno contra o líder Celso Russomanno (PRB), cujo partido é controlado pela denominação.

Os petistas temem uma retaliação da TV Record ao governo Dilma Rousseff e devem usar o ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), para negociar um pacto de não agressão na disputa.

Além disso, o ex-presidente Lula costurou a aproximação entre o PT e a igreja do bispo Edir Macedo e incentivou a criação da sigla aliada.

O vínculo do partido de Russomanno com a igreja do bispo Edir Macedo tem sido usado por José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB) como principal arma contra o líder das pesquisas.

Haddad, no entanto, tem evitado a polêmica. Limita-se a criticar, de forma genérica, o uso de máquinas religiosas em campanhas rivais.

"Nossa linha será desconstruir Russomanno pela ausência de propostas, sem entrar nessa coisa de igreja", diz o deputado estadual Simão Pedro, que integra a coordenação da campanha petista.

Bispo licenciado da Universal e ex-executivo da Record, o presidente do PRB, Marcos Pereira, diz estar "certo" de que o PT não usará a igreja contra seu candidato.

"Eles já optaram por não fazer isso", afirma. "Se o PT tentar dizer que as nossas propostas são falhas, é aceitável. O que não pode é levar essa questão da religião."

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DÍZIMO COM QUEM ANDAS...

Está na Folha de S. Paulo:
"O candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, recebeu ontem uma oração do apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo.

Também ouviu o ministro da Pesca, Marcelo Crivella, dizer que os evangélicos não dependem do governo e defender o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal.

Senador licenciado pelo PRB, Crivella é sobrinho de Macedo e um dos bispos da Universal no alto escalão da sigla de Russomanno".
Os personagens citados nesta notícia dão uma boa idéia do que Russomanno realmente representa.  Dize-me com quem andas...

Estevam Hernandes foi acusado, em dezembro de 2006, de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro pela Justiça brasileira, que bloqueou seus bens e os da  bispa  Sônia Hernandes.

Antes de ser preso no Brasil, o casal fugiu para os EUA e foi detido pelo FBI na alfândega da Flórida, por estar contrabandeando US$ 56 mil. Até uma Bíblia estava sendo usada para ocultar a grana.

Os dois tiveram de usar aquelas tornozeleiras de monitoração eletrônica ao deixarem a prisão sob fiança.

Confessaram-se culpados e a pena foi de 10 meses de prisão. A Justiça dos EUA também determinou o fechamento de todos os templos da Igreja Renascer, com exceção da sede, rebatizada como Reborn in Christ.

Apesar do empenho de vários promotores, a Justiça brasileira ainda não tomou decisão semelhante --nem mesmo quando o teto de um templo malconservado desabou em 2009 na zona sul paulistana, matando nove coitado, e surgiram fortes suspeitas de que a fiscalização teria sido subornada.

Edir Macedo foi preso em 1992 sob acusações de charlatanismo, curandeirismo e envolvimento com tráfico de drogas. Nem mesmo as reportagens consistentes, fundamentadas e acachapantes de O Estado de S. Paulo conseguiram fazer com que o caso avançasse na Justiça, nem que a ficha caísse para os fiéis.

Idem quando o Jornal Nacional levou ao ar, em 1995, um vídeo mostrando como Macedo ensinava seus pastores a depenarem os crédulos e como ele festejava a receita auferida. Fez lembrar o Tio Patinhas nadando na piscina de dinheiro...

Voltou ao noticiário policial em 2009: o Ministério Público de São Paulo o acusou de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Safou-se no ano seguinte, não por ter provado inocência, mas porque a investigação foi considerada ilegal.

Quanto a Marcelo Crivella, seu grande momento às avessas foi quando convenceu o Governo Federal a colocar tropas do Exército no Morro da Providência (RJ) para favorecer seu projeto eleitoreiro Cimento Social, em 2008. Os militares entregaram três jovens para serem executado por uma facção criminosa, a repercussão foi horrorosa e Crivella, até então um dos candidatos favoritos para a Prefeitura, não chegou nem no 2º turno.

Com madrinhas como estas ao lado do berço, os perspicazes logo concluirão que estamos assistindo é uma reprise do filme trash de 1974, Nasce um monstro...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A ZIGUEZAGUEANTE TRAJETÓRIA DE QUEM É MOVIDO PELA AMBIÇÃO

O bom jornalista Gilberto Dimenstein tocou num ponto interessante em seu artigo Russomanno está debochando?. Mas, nossas conclusões diferem um pouco.

Comecemos pelo Dimenstein:
"Geralmente (quase sempre, aliás) planos de governo e promessas de campanha quase se confundem em sua inutilidade. São apenas peças para atrair votos. Muitas das 'propostas' são elaboradas não por técnicos, mas por marqueteiros.

Uma vez eleito, o candidato é limitado pela realidade dos números --e os eleitores logo esquecem, afinal, resignam-se, 'todos os políticos são iguais'. Celso Russomanno, porém, parece estar conseguindo debochar ainda mais o que já é debochado.

Cobrado nos debates por não ter um programa, requentou (isso para ser generoso) um programa que entregou, por obrigação, ao tribunal eleitoral. Nenhuma --e nenhuma aqui não é força de expressão-- meta detalhada em números.
Algumas possibilidades, todas complicadas para quem se diz defensor dos direitos do consumidor:
  1. Ele não imaginava que iria tão longe na disputa eleitoral e que seria cobrado nos debates;
  2. Não acha plano de governo importante;
  3. Não acha que o eleitor ache plano de governo importante. E, portanto, tanta faz como tanto fez;
  4. Não dispõe de gente qualificada para, no mínimo, inventar um plano de governo.
Deveríamos inventar um Código de Defesa do Eleitor".
Russomanno deve mesmo ser combatido como o pior dos candidatos à Prefeitura paulitana, nem tanto pelo que é --não passa de um oportunistazinho que, por si só, nunca voaria alto--, mas por servir como  cavalo de Tróia  para Edir Macedo, este sim um vilão considerável, daqueles que constroem impérios do mal. Versão brasileira do  satânico Dr. Moon.

Todos os alarmes já deveriam ter soado quando se verificou a união de algumas empresas religiosas que, via de regra, competem encarniçadamente pelos otários a serem depenados. 

Se os vendilhões do templo somarem permanentemente as forças, como já fazem suas bancadas no Congresso, muita coisa ruim poderá acontecer. Afinal, têm um exército de zumbis para colocar nas ruas, o que hoje falta a quase todos os partidos, inclusive os de esquerda.

Hitler também era insignificante quando começou a discursar em cervejarias, daí ter sido tão subestimado. Deu no que deu.

Intolerância: o príncipio...
E alguns de seus truques estão sendo bisados, como a demonização de qualquer grupo como espantalho contra o qual unir o rebanho. Naquele tempo eram os judeus, agora são os devotos do cultos afrobrasileiros, os gays, os defensores do direito das mulheres ao aborto, etc. Nada se cria, tudo se copia.

Mesmo assim, sou obrigado, por minhas convicções, a fazer uma meia-defesa do Russomanno: plano de governo não tem mesmo importância nenhuma!

Trata-se de uma das muitas imposturas que a indústria cultural martela na cabeça dos eleitores, no sentido de reduzir as eleições a um mero cotejo de bonequinhos de ventríloquos a recitarem o blablablá dos marqueteiros, propostas mirabolantes e miudezas paroquiais.

O governador Geraldo Alckmin, evidentemente, não colocou na sua proposta de governo que detonaria os coitadezas da cracolândia e do Pinheirinho, nem que concederia à PM  licença para matar  (salvo no período eleitoral, quando, para salvar as aparências, age como acaba de agir: substituiu sofregamente um comandante da Rota que ele mesmo empossara e de cujos antecedentes --envolvimento no Massacre do Carandiru-- tinha a obrigação de estar ciente, não podendo alegar surpresa quando ocorre um mais do que previsível aumento da taxa de  homicídios oficializados).

O que deveria realmente ser considerado pelos eleitores é o programa do partido. Havendo um comprometimento com valores políticos e ideológicos bem definidos, o papel do eleito seria esforçar-se ao máximo para traduzir tais princípios na prática administrativa.

...e o fim.
Mas, claro, não interessa ao sistema fortalecer os partidos, pois os de esquerda teriam consistência muito maior. Então, a lavagem cerebral midiática é toda ela no sentido de  personalizar  a escolha.

O que vem ao encontro da cultura consumista: assim como se opta por uma marca de sabão, opta-se por um candidato. E ambos são embalados e promovidos da mesmíssima forma.

Então, melhor do que cobrar um plano de governo do Russomanno seria cobrar-lhe uma explicação pormenorizada sobre o que o atraiu no programa do PFL, no do PSDB, no do PPB/PP e no do PRB, já que são partidos com diretrizes e ideologias bem diferentes; por que saiu de um e ingressou no outro; se o atual é definitivo ou será trocado ao sabor das conveniências, etc.

Duvido que ele conseguisse encontrar alguma argumentação plausível para justificar sua ziguezagueante trajetória, típica de quem é movido pela ambição e por convicções.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

AGORA ENTENDO O LULA-LÁ: ELE ESTAVA CÁ E FOI PARA O LADO DE LÁ.....

Delfim Netto com o amigo de hoje
Houve um tempo em que Lula, o metalúrgico, era dr. Jeckyll para nós e mr. Hide para a direita. Chegou até a passar 31 dias preso no Deops, quando Paulo Maluf governava São Paulo.

No Brasil redemocratizado, o dirigente patronal Mário Amato garantiu que haveria uma fuga em massa de empresários para o exterior caso Lula chegasse ao poder. Derrotá-lo constituiu prioridade máxima para os grandes capitalistas nas três últimas eleições presidenciais do século passado.

Tudo mudou a partir de 2002, quando Lula, por intermédio do Zé Dirceu, pactuou com Mefistófeles... ou melhor, com Roberto Marinho e outros donos do Brasil.

Permitiram-lhe ganhar a eleição e ele permitiu que os banqueiros e demais expoentes da exploração do homem pelo homem dormissem tranquilos, com a certeza de que seus privilégios permaneceriam  imexíveis

Sucederam-se as fotos repulsivas de Lula aos beijos e abraços com figuras que ele e o PT antes acusavam de  inimigos do povo: Toninho Malvadeza, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Fernando Collor, José Sarney, Paulo Maluf.

As mais chocantes foram as aproximações com Collor, que trombeteara para milhões de brasileiros sua infidelidade, a paternidade de uma filha ilegítima e a tentativa de convencer a mãe a abortar; e com Maluf, o antigo carcereiro, aquele cujo principal mote de campanha era "vou botar a Rota na rua!".

E muitos no mercado financeiro sabiam que uma execrável eminência parda ditava a política econômica do Governo Lula, enquanto os Paloccis da vida posavam de ministros de Fazenda: o serviçal predileto dos generais ditadores e signatário do AI-5, Delfim Netto. Isto foi antes do Lula sair do armário, quando ele ainda tinha certo pudor em assumir publicamente suas relações promíscuas.

Ahora, no más! O  estranho casal  hoje se exibe com total desenvoltura, a ponto de o Delfim alinhar-se com os principais empenhados em blindar a imagem de Lula durante o julgamento do  mensalão  e o tiroteio eleitoral.

Delfim Netto com os amigos de outrora
Na sua coluna desta 4ª feira (26), ele não hesita em insinuar que a mídia, assumindo "o partido que melhor reflete sua visão de mundo", está afrouxando "os compromissos com a moralidade pública", ao publicar com destaque os "excessos verbais" e a "agressão selvagem" que tucanos & cia. fazem a Lula.

Delfim  --pasmem!-- qualifica de  abusiva  a conduta de alguns meios de comunicação, por estarem  procurando maliciosamente, "no calor da disputa eleitoral, tentar destruir, com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento". 

Ele não se expressava de forma tão rebuscada ao bajular o carniceiro Médici. Sua retórica melhorou com o tempo.

O caráter, não. Coturnos ou sapatos, ele lambe o que for necessário para manter sua influência no círculo do poder

Quanto ao Lula, eu não chegaria ao extremo de afirmar que ele virou um  monstro  para nós. Mas, não resta dúvida de que os piores direitistas agora o veem como  médico.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O PRODUTO DESEJADO PELOS ELEITORES DE SAMPA: UM NOVO CONSERVADOR

O jornalista Paulo Francis estava certíssimo ao qualificar a sociedade de consumo de  inferno pamonha, ou  bocó. Acertou na mosca.

Até a segunda metade do século passado, as criticadas elites procuravam, pelo menos, tornar o cidadão comum melhor do que era. Podia-se, claro, discordar do tipo de melhora que tinham em mente, mas não do conceito de que nossa jornada na Terra deva ser evolutiva. Não nascemos prontos, construímo-nos ao longo da vida.

A sociedade de consumo modificou para pior, bem pior, tal equação.

Os homens deixaram de ser tratados como cidadãos. Passaram a ser encarados, isto sim, como  consumidores. Não são mais  gente, são  mercado.

Então, não se questionam mais seus desejos. Se alguém estiver querendo comprar, haverá alguém disposto a vender. Literalmente  tudo, seja às escâncaras ou por baixo do pano.

Em termos psicológicos, isto significa, simplesmente, que as pessoas são mantidas numa eterna infância. Não superam mais o narcisismo inicial. Não encontram mais a justa medida entre o que querem e o que podem. Não aprendem que sua felicidade depende da felicidade dos outros, que sua satisfação e seu prazer serão muito mais completos se compartilhados.

Ao mesmo tempo, os objetos de consumo pelos quais tanto anseiam nunca são plenamente satisfatórios. E as vítimas da engrenagem infernal do sistema passam a vida inteira correndo atrás do que jamais obtêm, adquirindo o que não precisam e trabalhando sofregamente sem que haja justificativa real para tanto estresse e tanto enfarte.

Este é o motivo maior do declínio da esquerda nas últimas décadas. O que oferecíamos era uma perspectiva de sociedade melhor, na qual as pessoas se tornariam melhores: era o ideal do homem novo. 

Os consumistas passam a vida apaixonados pelo próprio umbigo e querendo ter o mundo como espelho, pois anseiam pateticamente por verem-se nele refletidos. Não o pretendem melhorar, o que gostariam é de melhorar a própria posição numa sociedade desumana e injusta. Vai daí que hoje são bem poucos os que se dispõem a dedicar a vida aos grandes ideais.

Há meio século a Escola de Frankfurt previu que chegaríamos exatamente a este  inferno pamonha, no qual os indivíduos perderiam o controle sobre suas próprias vidas, sem nem mesmo atinarem com os motivos de sua infelicidade, mesmerizadas pela influência atordoante da indústria cultural.

O que fazer? --indagaria Lênin.

Herbert Marcuse apostava que tal manipulação cientificamente implementada seria capaz de evitar que a maioria formasse uma consciência crítica, mas não que acontecessem, em determinadas circuntâncias, explosões espontâneas de revolta. Não dá para represar-se tudo. E as contradições insolúveis do capitalismo estão aí para fornecerem os estopins de tais explosões espontâneas; caso da crise econômica global.

Como nós, da esquerda, devemos nos comportar nos  intervalos  entre tais explosões espontâneas, nas marés vazantes, quando as massas não estiverem dispostas a nos acompanharem em voos mais altos?

É uma questão crucial.

Podemos manter a coerência com nossos ideais e, mesmo não influindo decisivamente nos acontecimentos políticos, continuarmos contestando as injustiças sociais, as formas mais sofisticadas de exploração do homem pelo homem que hoje predominam, a desumanização que o capitalismo promove e barbárie à qual nos conduz. Assim, estaremos nos qualificando para liderar contingentes mais amplos quando estes acordarem do coma induzido pelo sistema.

Há os que preferem combater o monstro com as armas do monstro, acreditando que não se tornarão monstruosos. No entanto, acabam é igualando-se ao que combatem. Não mudam o mundo; são mudados pelo mundo.

CANDIDATURAS IDEOLÓGICAS x CANDIDATURAS DE CONSUMO

Se o que os eleitores
queriam era um monstro...
É chocante, p. ex., vermos as eleições se tornarem uma disputa de quem melhor se encaixa no perfil de candidato identificado exatamente pelos métodos que as empresas utilizam para avaliar a viabilidade de  produtos: pesquisas qualitativas e as inferências dela extraídas pelos analistas.

Na eleição paulistana, o  produto  assim determinado como o de maior aceitação potencial no mercado seria um candidato ao mesmo tempo  novo  e  conservador.

Isto explica o empenho do Lula em impor o Fernando Haddad, que nem de longe tem a  cara do PT, mas se encaixa na imagem do  novo.

O PMDB também apostou numa figura de galã de telenovela, Gabriel Chalita.

O PSDB pensou que desse para maquilar o (hoje) conservador José Serra, fazendo-o parecer bem mais novo do que é. Botou-o para pedalar, para subir em skates, para bater pênaltis, etc., mas a mágica besta não funcionou: ele quase caiu do skate,  isolou  o sapato e mergulhou o ridículo, tornando-se o alívio cômico da campanha na internet.

Como já tinha a preferência  de cabresto  dos evangélicos zumbificados e dos videotas acostumados a vê-lo posar de paladino dos consumidores, o  novo conservador  para o qual o eleitorado está pendendo é Celso Russomanno.

Pior: com parcela substancial de votos tradicionalmente petistas.

Então, é hora de o PT fazer uma profunda reflexão sobre se compensou abandonar as candidaturas ideológicas e aderir às  candidaturas de consumo.

...encontraram:  esta imagem
atesta o acerto da escolha.
Antigamente, quem votava no PT era por acreditar nos ideais e posturas do PT. O partido era o fator decisivo.

Agora, o candidato petista é propagandeado da mesmíssima forma e faz as mesmíssimas promessas mirabolantes dos centristas, direitistas e dos meros fisiológicos. Não tem mais sequer os cabos eleitorais voluntários, precisa contratar tarefeiros.

Então, quando a figura não convence, como o insosso Haddad, o atual eleitorado petista migra insensivelmente para um antípoda ideológico como o Russomanno.

E, se um dia houver crise grave, nestes tristes trópicos em que o golpismo nunca se torna prática definitivamente sepultada, jamais lutará pelo governante que escolheu.

O grande Plínio de Arruda Sampaio certa vez colocou o dedo na ferida: valeu a pena o PT ter chegado à Presidência com o compromisso de manter intocada a política econômica neoliberal, ou seja, limitado a gerenciar os negócios capitalistas como um FHC o faria?

Da mesma forma, não seria melhor, vencendo ou perdendo a eleição, educar o eleitorado, tentando convencê-lo de que precisa, isto sim, de um  contestador, pouco importando se novo ou velho?  Pois, prostrando-nos desta forma aos humores momentâneos das massas, o que faremos quando a maré for fascista? Escolheremos um candidato que seja clone do Mussolini?!

Há dois milênios, Jesus Cristo já dizia que não: "O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus, 26:16).

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O QUE ESTARÁ EM JOGO NO 1º TURNO

Quando decidi disputar minha primeira eleição aos 62 anos --idade que já terei completado no 1º turno--, levei em conta fatores:
  • políticos, principalmente o imperativo de lutarmos contra o processo de fascistização em São Paulo, que tende a servir como modelo para todo o País;
  • pessoais, por tratar-se de uma oportunidade para furar o bloqueio macartista que a grande imprensa me impõe, como profissional e como personagem histórico; e
  • o caráter didático que minha campanha poderia ter, ao resgatar valores essenciais da esquerda da minha geração, hoje quase esquecidos.
Dei, p. ex., máximo destaque a algo que no passado era o óbvio ululante para revolucionários formados na tradição marxista ou anarquista: que nossa participação no Legislativo e Executivo, sob o capitalismo, tem caráter eminentemente tático, servindo para acumularmos forças e prepararmos a transição revolucionária, mas não se constituindo, jamais, num objetivo em si!

Só por ter chamado a atenção para esta postura fundamental, minha campanha terá valido a pena.

Igualmente importante está sendo a ênfase que dou à união da esquerda anticapitalista, pois hoje só conseguiremos exercer uma influência marcante no processo político se atuarmos como bloco. Seria exagero dizer que unidos venceremos, mas, com certeza, somando forças obteremos algumas vitórias, ponto de partida para sairmos da atual condição de coadjuvantes.

Desunidos, pelo contrário, perderemos todas as paradas. Rivalidades clubísticas pertencem ao universo das torcidas de futebol, não ao nosso. O que conta, para nós, é o objetivo maior de transformação da sociedade.

Neste sentido, proponho uma reflexão sobre as três candidaturas que encabeçam as pesquisas eleitorais.

Vencedor, José Serra manteria a parceria fascistizante com o governador Geraldo  Opus Dei  Alckmin. Seria mais do mesmo. Mais tropas de choque na USP, mais Pinheirinhos, mais pobres e doentes sendo escorraçados para favorecer os grandes empreendedores imobiliários (aqueles que financiam  generosamente  a campanha de quase todos os candidatos promissores do  sistema).

Celso Russomanno agregaria um componente ainda mais nefasto ao processo, além dos balões de ensaio totalitários que têm marcado os sucessivos governos dos tucanos e seus aliados: a emergência de um perigosíssimo populismo de direita. É um pesadelo pensarmos no que acontecerá se as más bandeiras estiverem sendo carregadas, na periferia e nos bairros pobres, pelo exército de zumbis cegamente submissos aos pastores eletrônicos.

Os vendilhões do templo, ao menos, limitavam-se a tocar seus negócios. A versão atual vai além, vandalizando templos umbandistas, perseguindo gays, querendo impor à sociedade uma tutela moral medievalista... e hostilizando a esquerda, como fez ao chantagear a presidente Dilma Rousseff. A bancada evangélica condicionou seu apoio ao projeto de criação da Comissão da Verdade à não participação de veteranos da resistência no colegiado. Jesus Cristo e sua vara estão fazendo muita falta...

Quanto a Fernando Haddad, que os companheiros da esquerda petista reflitam friamente: pode-se dele esperar uma firme oposição à escalada autoritária ou ficará no habital meio termo dos governos do PT no século 21? Ele é homem, p. ex., para desmontar o dispositivo de estado policial que Kassab sorrateiramente implantou, começando pela imediata exoneração dos 30 subprefeitos (num total de 31) que são oficiais da reserva da PM?

Então, repito minha exortação do 1º turno de 2010: quem vê no capitalismo o principal entrave à felicidade dos homens e a maior ameaça à sobrevivência da humanidade, tem de ser coerente, prestigiando os candidatos que assumem explicitamente posição contrária à desigualdade capitalista e favorável à transformação revolucionária: Carlos Giannazi (PSOL), Ana Luíza (PSTU) e Anaí Caproni (PCO).

Voto útil pode fazer sentido no 2º turno, para barrar uma candidatura nefasta como o foi a de José Serra e seu vice troglodita na última eleição presidencial, apoiada até pelas  viúvas da ditadura.

Mas, é importante priorizarmos, no 1º turno, o crescimento da esquerda autêntica em São Paulo, até para servir como estímulo à adoção de uma postura mais combativa por parte do próprio PT --o qual, vale lembrar, ficou devendo reações bem mais contundentes às  blitzkriegs  da dupla Alckmin/Kassab.

domingo, 23 de setembro de 2012

A LONGA JORNADA E OS MOMENTOS DE DECISÃO

"Sonho que se sonha só
é só um sonho que se sonha só.
Mas, sonho que se sonha junto 
é realidade"
(Raul Seixas, Prelúdio)

Lá por 1974 ou 1975 cheguei a uma encruzilhada decisiva e optei pelo caminho mais difícil, porque era o que minha consciência ditava.

Participara do movimento estudantil não apenas porque eu era jovem e a rebeldia estava no espírito da época; minha identificação foi bem mais profunda.

Desde as remotas leituras de Monteiro Lobato os objetivos das pessoas sob o capitalismo não me seduziam.

Ganhar dinheiro e me cercar do bom e do melhor em termos materiais não era o que eu buscava na vida. Queria algo maior, que ainda não conseguia discernir direito. Só sabia que não era aquele sucesso convencional pelo qual meus parentes, amigos e colegas tanto ansiavam.

E não porque já dispusesse dos objetos de desejo dos jovens da minha idade. Pelo contrário, em casa nunca houve fartura. Vivíamos com o dinheiro contadinho, não tínhamos luxo nenhum e fomos dos últimos a comprar TV.  Quem inicia a vida nessas circunstâncias, ou se torna obcecado por obter tudo que lhe faltou e ainda mais, ou habitua-se ao despojamento.

Lembrando a frase de um filme da época (Pierrot Le Fou, de Jean-Luc Godard), o marxismo "foi meu primeiro, meu único sonho". O projeto de construção de uma sociedade igualitária e livre me atingiu como um raio. Eu encontrara, finalmente, meu objetivo na vida!

Daí não haver hesitado em optar pela luta armada, quando o AI-5 pôs fim à temporada de manifestações pacíficas, deixando-nos apenas três opções: assumirmos o risco extremo, preservarmo-nos para melhores dias ou iludirmo-nos com ações irrelevantes (como a de deixar em sanitários públicos panfletos que os usuários tinham medo de ler).

Tratava-se de uma luta impossível de ser vencida, tamanha a desigualdade de efetivos e de recursos, além da desvantagem de não podermos utilizar os métodos que nos destruíam (a repressão ditatorial infringia insensivelmente as leis da guerra e os mais sagrados valores da civilização, mas para nós era inconcebível incidirmos na desumanidade contra a qual lutávamos).

A derrota foi das mais sofridas, até porque caí numa armadilha da História que durante muito tempo impediu-me de lutar como gostaria.

Mas, ao contrário de muitos que aceitaram arcar com culpas alheias e fazer o papel de bodes expiatórios porque a esquerda, na esteira de uma derrota terrível, optou por personalizar responsabilidades difusas, recusei a proposta de ser reabilitado como  penitente, pois isto implicaria abrir mão de lutar pelo reconhecimento da minha inocência quanto à principal acusação que me faziam. Decidi esperar o tempo que fosse necessário para tornar conhecida toda a verdade.

Nem de longe imaginava que seriam três décadas. Francamente, não sei o que teria decidido se soubesse o que me aguardava. Só sei que tal decisão acabou se evidenciando como a melhor, já que sobrevivi moralmente e acabei dando a volta por cima sem fazer concessões que me repugnavam.

A TRAVESSIA DO DESERTO

Mesmo assim, consegui uma grande vitória: foi minha a idéia e a iniciativa que transformaram em vitória a greve de fome dos quatro de Salvador, militantes desatinados aos quais a esquerda voltou as costas porque a prejudicavam eleitoralmente (já em 1986, aquilo que deveríamos encarar apenas como parte das nossas táticas pesava mais do que a solidariedade, um princípio fundamental...).

E, escrevendo um artigo em apoio ao Paulo de Tarso Venceslau, que o Jornal da Tarde publicou, orgulho-me de ter sido um dos poucos a reagir à descaracterização do PT, no mais dramático confronto entre os princípios e as conveniências até então travado em seu seio.

Naquele ano de 1998, o partido optou pela  laranja podre  (o empresário lobbista Roberto Teixeira) em detrimento do revolucionário íntegro. Admitiu incidir nas mesmas práticas imorais das agremiações que criticávamos. Em nome da vil politicalha, desautorizou o parecer do seu próprio Conselho de Ética, que recomendara a expulsão tanto do  PT Venceslau  (por vazar um assunto interno para a imprensa burguesa) quanto do Teixeira (por ser um indiscutível corruptor).

Curiosamente, o JT colocou abaixo do meu, na página de Opinião, um texto de apoio à decisão petista e de crítica às reportagens de Luiz Maklouf Carvalho. Seu autor: João Paulo Cunha. Se tivesse sido menos condescendente com as  ligações perigosas, não estaria na situação  em que se encontra hoje...

Eu interpretei o episódio como um ovo da serpente; e era. Desde então o PT não parou mais de atirar os princípios no lixo, a ponto de mancomunar-se com os banqueiros e o grande capital para que lhe fosse permitido assumir a Presidência do Brasil --melhor seria dizer a  gerência dos negócios capitalistas no País, já que se comprometeu a não alterar as linhas mestras da política econômica implantada por FHC.

Pouco mais pude fazer no período de ostracismo. Atuava no circuíto alternativo, espalhava livros e textos que tinham repercussão mínima, lançava alertas que ninguém escutava (como o de que a esquerda deveria combater a falsa terceirização --a contratação, como prestadores de serviços, de trabalhadores que nada tinham de autônomos, sendo, na verdade, funcionários-- como uma praga, pois feriria de morte o sindicalismo).

Em 2004/05, contudo, tive de enfrentar diversas crises simultâneas e, em circunstâncias dramáticas, lutar por minha anistia que a União protelava indefinidamente e se tornara minha última possibilidade de salvação.

Como se o destino quisesse me compensar pelo enorme azar que eu tivera em 1970, os acasos começaram a me favorecer: 
  • tomei conhecimento de um relatório secreto militar que me permitiu reposicionar acontecimentos antigos, comprovando que eu havia sido muito injustiçado;
  • a partir desta reviravolta, na qual pesou muito o apoio que recebi do historiador Jacob Gorender, meu processo de anistia desencalhou e chegou a bom desfecho; e
  • pude finalmente apresentar ao público o meu lado nas questões polêmicas dos anos de chumbo, com o lançamento do livro Náufrago da Utopia.
OÁSIS OU MIRAGEM?

Durante três décadas e meia, duas grandes metas me haviam mantido de pé: tornar conhecida a verdade a meu respeito, para, em seguida, contribuir de forma efetiva para a gestação de uma nova esquerda, capaz de recolocar a revolução anticapitalista na ordem do dia. 

A repercussão que meus artigos começaram a obter na web atingiu o auge no Caso Battisti, fazendo-me acreditar que estava próximo de realizar o último objetivo. Até deixei de priorizar o segundo livro, teórico, no qual pretendia discorrer sobre as propostas e posturas da nova esquerda; fui distribuindo minhas teses  pelos artigos diários.

Se pelo menos um dos cineastas que cogitaram levar o Náufrago às telas tivesse conseguido viabilizar financeiramente o projeto, as coisas poderiam ser diferentes. Era o momento que eu esperava para lançar o  pacote teórico  com alguma chance de obter repercussão.

Finalmente, constatei em 2012 que não bastava continuar seguindo o mesmo rumo. Já chegara tão longe quanto possível na internet e não era suficiente (a sensação de impotência que a barbárie impune do Pinheirinho me deu foi terrível!). A grande imprensa está fechada e lacrada para mim. E, como no final de 1968, não admito desistir porque a dificuldade ficou maior.

A primeira tentativa de furar o bloqueio foi a minha anticandidatura à Comissão da Verdade, no sentido de acrescentar um componente combativo a um colegiado provavelmente amorfo. [E também porque não me passava pela goela o fato de a presidente Dilma Rousseff haver cedido à chantagem da bancada evangélica, que condicionou seu apoio ao projeto à não participação de veteranos da resistência, colocando-nos no mesmo plano dos algozes!]

Entre a parte da esquerda que diz sempre  amém!  a tudo que vem do Olimpo... quer dizer, do Planalto, e a outra parte que diz sempre  estou fora!, não sobrou ninguém para defender minha indicação. 

A aceitação do veto evangélico veio ao encontro da propaganda enganosa que as viúvas da ditadura espalham desde sempre: já que não têm como negar as atrocidades perpetradas pelo regime militar, saem pela tangente de que os dois lados teriam se igualado nos excessos. 

Ou seja, foi  simplesmente infame a esquerda não ter batido pé quanto à presença de pelo menos um ex-resistente na Comissão, que não precisaria ser eu (aliás, várias vezes sugeri o nome do companheiro Ivan Seixas como alternativa, pois o fundamental era o princípio, não a pessoa).

A segunda tentativa é a que estou fazendo agora, de me eleger vereador paulistano para tornar bem mais contundente a atuação da esquerda na Câmara.

Está na hora de voltarmos a ter atuação e mantermos postura EMINENTEMENTE IDEOLÓGICAS no Legislativo e no Executivo. Está na hora de proclamarmos, em alto e bom som, que somos REVOLUCIONÁRIOS e nos orgulhamos disto. E de, mesmo integrando bancadas minoritárias, descobrirmos formas de atrapalhar os poderosos e de escancarar suas maracutaias para o cidadão comum.

Não sei se será desta vez ou em uma das próximas que conseguirei fazer a transição do  sonho que se sonha só  para o sonho que se sonha junto.

Só sei não descansarei até conseguir, ou até morrer. O que chegar antes.

sábado, 22 de setembro de 2012

"F...-SE O MUNDO!" DEIXOU DE SER GRACEJO

Primeiro vieram os alertas de que as alterações climáticas convulsionariam o planeta, ameaçando a própria sobrevivência da espécie humana.

Depois, os que lucram com as práticas causadoras do aquecimento global e da dilapidação de recursos essenciais para continuarmos a existir, contra-atacaram com uma verdadeira blietzkrieg de propaganda enganosa. 

No capitalismo todos se vendem, até cientistas. Então, não foi difícil encontrar quem preferisse um bom saldo bancário do que boas perspectivas para  os pósteros. É a velha história do "eu não me chamo Raimundo". Mesmo quando "f...-se o mundo!" deixou de ser gracejo, tornando-se possibilidade concreta.

Veio Fukushima e poucos notaram que as inundações e terremotos causados pelos distúrbios do clima poderão ter efeito semelhante em qualquer usina nuclear do planeta. São bombas-relógio que armamos para nós mesmos.  Passamos tanto tempo temendo que o fim do mundo viesse com as superpotências iniciando uma guerra atômica e não nos demos conta de que a radiação poderá se abater sobre nós... por acaso.

Mas, os grandes poluidores e os grandes devastadores continuam auferindo grandes lucros. Já as chances de haver um século 22 deixaram de ser grandes e diminuem cada vez mais.

E ainda há quem acredite que uma campanha eleitoral deva centrar-se em miudezas paroquiais, quando deveríamos, isto sim, estar tentando deter a marcha da insanidade, na economia e no clima.

Eis um novo alerta, desta vez do colunista Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo. Faz lembrar um filme agourento do mestre Robert Altman, Quinteto (1979), sobre os estertores da humanidade sob uma nova Era Glacial. Leiam e reflitam:
"Seis dias atrás, o oceano Ártico alcançou um recorde notado por pouca gente. A calota de gelo que flutua sobre ele, na região do polo Norte, encolheu para a menor área já registrada: 3,4 milhões de km² (para comparar, o território do Brasil tem 8,5 milhões de km²).
 ...são fortes os indícios (...) de uma tendência para sobrar cada vez menos gelo.
Essa tendência foi prevista por sucessivos relatórios do vilipendiado Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, nos quais se apontava que o aquecimento global seria mais rápido e intenso no hemisfério Norte. Só que as projeções do IPCC indicavam um Ártico livre de gelo no verão ali por 2100, e agora parece cada vez mais provável que esse evento descomunal ocorra já nesta década.

Por trás da aparente aceleração estaria o 'feedback positivo' temido por climatologistas, ou seja, uma tendência que se realimenta de si própria -uma reação em cadeia.

Menos gelo significa uma área menor de superfície branca para refletir a luz do sol, radiação que passa a ser absorvida pela água escura. Mais quente, o oceano forma menos gelo, e assim por diante.

...um Ártico sem gelo tumultuaria o clima no hemisfério Norte. Paradoxalmente, prevê-se que seus invernos fiquem mais rigorosos.

Por isso, se lá por dezembro ou janeiro caírem nevascas gigantes na Europa ou nos EUA, fique esperto com os murmúrios de que o aquecimento global é pura farsa".

O CANDIDATO MAIS HILÁRIO DE SAMPA: TIRIRICA-COVER

 





DEPOIS DO VEXAME COM O SKATE, FOI A VEZ DO 'GRANDE FUTEBOLISTA': BATEU O PÊNALTI E ISOLOU O SAPATO. SERÁ LEMBRADO COMO O ALÍVIO CÔMICO DA ELEIÇÃO PAULISTANA...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA CANDIDATURA CONTRA A FASCISTIZAÇÃO

"Agora vou terminar
Agora vou discorrer
Quem sabe tudo e diz logo
Fica sem nada a dizer"
(Gilberto Gil, Roda)

Restando apenas uma quinzena  de campanha eleitoral, chega a hora de dizer exatamente a que venho e por que nela estou. A sinceridade é sempre o melhor caminho.

Eterno otimista, durante o Caso Battisti eu superestimei o papel da internet como ferramenta para o bom combate. Pensei que continuaria obtendo a mesma repercussão nas lutas vindouras.

As decepções se sucederam: a ocupação militar da USP, que representa um retrocesso aos tempos nefandos da ditadura de 1964/85; a higiene social na Cracolândia, desumanidade a serviço da especulação imobiliária; e a barbárie no Pinheirinho, que em qualquer país civilizado acarretaria o impeachment do principal culpado, o governador do estado.

Parte da esquerda  não quis  reagir à altura, nos três episódios. Eu  muito tentei e me esforcei, mas não obtive resultados concretos. E estou com os três entalados na garganta até hoje.

Não só pelo que eles têm de incompatíveis com tudo em que acredito e com todos os valores que prego. Mas, também, por saber que são apenas a ponta de um iceberg. O perigo é muito maior do que a maioria supõe.

Desde o Cansei! venho alertando: São Paulo é o principal laboratório de testes e aprimoramento do totalitarismo que a extrema-direita gostaria de implantar no País.

As  viuvas da ditadura  e os   cuervos   por elas criados haviam participado, como efetivos secundários, da tentativa de impedimento do presidente Lula por conta do escândalo do  mensalão, como forma de evitar sua reeleição.

Quem conduziu o espetáculo, contudo, foram os tucanos, seus aliados e a imprensa que caninamente os serve. E se tratava apenas de  meio-golpe, objetivando não a instalação de uma ditadura, mas apenas a recondução ao poder, na eleição seguinte, dos derrotados em 2002.

Lula, contudo, segurou a onda.  E, logo no início do segundo mandato, a direita troglodita mostrou suas garras, tentando reeditar o figurino golpista de 1964 com uma versão 2007 da  Marcha da família, com Deus, pela liberdade. A partir daí, São Paulo assumiria a vanguarda... da incubação do ovo da serpente.

Do fiasco retumbante do Cansei! os golpistas extraíram a mesma lição de 1961 (quando a resistência do governador gaúcho Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armada frustrou o complô direitista para impedir a posse do vice-presidente João  Goulart): recuaram, reagruparam suas forças e estão se preparando bem melhor para a próxima tentativa.

Então, o que temos visto em São Paulo, nos últimos cinco anos, são sucessivos balões de ensaio para se testar a resistência da sociedade a um novo totalitarismo.

As sucessivas intimidações e vandalizações que os herdeiros de Erasmo Dias promoveram na USP saíram baratas.

O dantesco escorraçamento a pontapés dos dependentes químicos que vegetavam no centro velho, idem.

Mas, a brutal repressão da  Marcha da Maconha   pegou tão mal que os brutamontes fardados se viram obrigados a recuar, saindo moralmente derrotados.

O impacto ainda mais negativo do festival de arbitrariedades no Pinheirinho, culminando no sequestro de um idoso para que a imprensa não constatasse seu estado lastimável após o espancamento sofrido (a ponto de duas semanas depois ele falecer), deve ter feito soar um sinal de alarme no QG golpista. Estão sendo evitadas as ações que possam causar impacto equivalente.

O que não impede a Polícia Militar paulista de continuar atuando como força exterminadora, segundo o modelo sinistro do  mate primeiro e maquile depois!. Com o aval e defesa entusiástica do governador adepto do ideário do Opus Dei.

Os episódios de mortes de suspeitos por  alegada resistência à prisão  se multiplicam, com a cumplicidade da imprensa que não os denuncia como as chacinas que são. Em tiroteios reais há feridos e mortos, não apenas mortos. Quando todas as testemunhas morrem, é porque foram executadas. Simples assim.

O controle  (talvez seja melhor dizer  terror) policial nos bairros pobres chega a abater-se até sobre os inocentes saraus dos jovens, mais uma vez evocando os  anos de chumbo, quando as forças auxiliares da ditadura vandalizavam teatros e agrediam atores. 

E a existência de uma articulação mais ampla, direcionada para o estado policial, evidencia-se na insólita designação de oficiais da reserva da PM para gerirem 30 das 31 subprefeituras da capital paulista.

Quem conhece a cultura dessa corporação, satelizada pelas Forças Armadas durante o período do arbítrio, sabe muito bem o que isto representa. Até recentemente, sua unidade mais truculenta, a Rota, mantinha no portal do Governo paulista um elogio explícito ao golpismo, só o deletando sob vara da ministra de Direitos Humanos.

O dispositivo golpista já está montado em São Paulo, devendo servir como modelo para outras cidades e estados. A oportunidade golpista, contudo, ainda não surgiu.

Pode demorar  anos --foram quase três, entre o fracasso de agosto/1961 e o sucesso em abril/1964-- ou nem sequer se apresentar. A desconstrução da imagem do PT a partir do julgamento do  mensalão  talvez torne desnecessária uma virada de mesa; os grupos cujos interesses estão sendo contrariados poderão, eventualmente, atingir seus objetivos pela via eleitoral.

Mas, não é confortável vivermos com uma lâmina de guilhotina pendente sobre a cabeça.

Então, o sentido maior da minha candidatura é este: tendo a internet sido insuficiente para esmagarmos o ovo de serpente que incumbaram em São Paulo, tanto que o ofídio não só nasceu como se fortalece cada dia mais, resolvi ir à luta em outras frentes. Pois assumo como minha grande missão atuar com eficiência e contundência contra esta ameaça que tenho visto crescer e já fazer bastante mal, além de prenunciar ocorrências muito mais graves. 

Mas, perguntarão os leitores, por que eu? Não sou o candidato de esquerda mais douto, nem o mais enraizado nos movimentos sociais, muito menos o mais popular --admito-o francamente.

No entanto, por um destino insólito, tive de lutar sozinho durante muito tempo e aprendi a travar batalhas de opinião nas circunstâncias mais adversas, seja para salvar em 1986 os  quatro de Salvador  que faziam greve de fome sem o apoio de quase ninguém, seja para obter em 2005 uma anistia à qual tinha pleno direito mas a União teimava em postergar, seja para restabelecer a verdade histórica a meu respeito.

Foi a experiência acumuladas nestas e outras batalhas que me ensinaram a encontrar o foco certo em termos jurídicos e a palavra certa para sensibilizar as pessoas imbuídas de espírito de justiça. 

Quem acompanhou o Caso Battisti deve lembrar-se que eu tinha visão clara do rumo que os acontecimentos tomariam e a utilizava para propor as linhas de ação mais adequadas para nosso comitê de solidariedade.

Acostumado a travar lutas desiguais, rechaçava o sectarismo,  tudo fazendo para agregar todos os bons cidadãos à nossa causa. A união foi essencial para nocautearmos um inimigo do 1º mundo e todos os seus quinta-colunas no Brasil (principalmente na imprensa, cuja tendenciosidade atingiu o paroxismo). Éramos poucos, éramos fracos, mas soubemos nos aglutinar e dar sempre os passos certos.

Não podemos nos associar aos inimigos de classe, mas são admissíveis e justificáveis as alianças táticas com forças pertencentes ao campo da esquerda ou que tenham uma tradição de esquerda, desde que o objetivo do momento seja comum.

Então, como participante de uma bancada de esquerda que tenderá a ser minoritária, acredito poder dar contribuição destacada para estimular a união das forças progressistas, denunciar/atrapalhar as maracutaias dos poderosos, desencavar razões legais para colocar suas políticas em xeque e fazer com que tais questões repercutam na sociedade, trazendo a opinião pública para nosso lado.

O que me manteve vivo, depois da derrota trágica nos anos de chumbo,  foi a esperança de ainda contribuir para que frutificassem os ideais da minha geração, em nome dos quais tantos companheiros imprescindíveis foram martirizados ou destruídos.

Preparei-me durante quatro décadas para o papel que me proponho a desempenhar na luta contra a fascistização; mas, travá-la em melhores condições e com mais visibilidade, dependerá da confiança e do apoio que receber dos companheiros. 

É o último apelo que lanço pois tudo que eu tinha para dizer, está dito.

E a sorte, lançada.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

'ENEM' COMO CANDIDATO O HADDAD DEIXA DE SER TRAPALHÃO...

O problema do Haddad é ainda não
ter encontrado os parceiros ideais
O PT, quem diria, esqueceu a própria trajetória de partido que cresceu de eleição em eleição embora sua visibilidade na mídia fosse muito menor que a das agremiações de centro e direita.

Por um punhado de segundos a mais no horário eleitoral de São Paulo, o seu símbolo primordial, o ex-presidente Lula, pagou o mico de posar para repulsivas e criticadíssimas fotos na Mansão Maluf.

O candidato Fernando Haddad, por sua vez, além do constrangimento de ser zoado como a  Dona Flor  de dois improváveis  maridos, ainda viu bater asas a vice ideal, Luíza Erundina, que seguiu os ventos da dignidade.

Agora, na tentativa de tirar do ar uma rotineira propaganda adversária, nova catástrofe em termos de comunicação!

A peça tucana vincula Haddad a José Dirceu, Delúbio Soares e Paulo Maluf. "Sabe o que acontece quando você vota no PT? Você vota, ele volta", diz o narrador, a cada foto de  vilão  exibida.

Na política, a falta de perspicácia
produz invariavelmente este resultado
O advogado petista, como um rinoceronte na loja de cristais, produziu um estrago muito maior do que o ganho almejado, ao queixar-se ao TRE nos seguintes termos:
"A publicidade é manifestamente degradante porque promove uma indevida associação entre Fernando Haddad e pessoas envolvidas em processos criminais e ações de improbidade administrativa.

Sempre que [Haddad] teve poder de nomeação [quando era ministro], nunca nomeou Delúbio, Maluf ou Dirceu.

Se tais pessoas jamais foram nomeadas por Fernando Haddad, o que sobra então a intenção dessa propaganda? Sobra a intenção de degradar através da associação da imagem do candidato às pessoas que surgem na tela".
Em termos práticos, o resultado foi ele receber um calaboca do juiz:
"...não se há que falar em degradação e ridicularização quando se estabelece a ligação entre o candidato e outros filiados a seu partido ou a partido coligado, ligação esta de conhecimento público e notório.
Expor-se ao ridículo é crime
sem perdão na era da internet
Da mesma forma que um candidato pode ser beneficiado pelo apoio de correligionários bem avaliados pela população, pode ele ser prejudicado pela associação feita a políticos não tão bem avaliados".
Em termos políticos, a sua patética ingenuidade rendeu uma manchete intriguenta da Folha de S. Paulo, que trombeteou: Haddad diz que associá-lo a Zé Dirceu é degradante.

Isto porque o advogado do PSDB, ao ser comunicado da ação, deve ter corrido a alertar os dirigentes sobre a vacilada; e estes devem ter corrido a oferecer o  furo  à Folha.

Como o  padrinho  Lula terá recebido a informação de que seu  afilhado  jamais nomearia Zé Dirceu e Delúbio (que ele nomeou) e Maluf (cujo apoio ele buscou)? Conhecendo bem o pupilo, deve ter pensado com seus botões que, quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue...

Para os petistas que ignoram como essas coisas se passam, Haddad parecerá um traíra que abandona os companheiros em desgraça.

Para os mais perspicazes, um bobalhão que não controla direito sua campanha, dando trunfos de mão beijada ao inimigo.

O que não passaria de uma reprise das trapalhadas por ele cometidas ao organizar o Enem...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

veja QUE IMUNDÍCIE!!!

A matéria de capa da veja desta semana é indefensável em termos jornalísticos. 

Dá a impressão de que se baseia em declarações feitas pelo condenado Marcos Valério, mas não há nenhuma entrevista. O que existe é tão somente um amontoado de rumores cuja veracidade ninguém tem como apurar, nem ela tem como comprovar.  

Só compra este peixe podre quem tem fé cega numa revista que há muito não a faz por merecer.

Para além da condenação dos atuais réus do mensalão, favas contadas antes mesmo do julgamento começar, a veja esforça-se ao máximo e ultrapassa todos os limites éticos no afã de colocar mais alguém no banco dos acusados: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Incita descaradamente as autoridades a fazerem uma "proposta irrecusável" a Valério, garantindo-lhe a liberdade se colocar o laço no pescoço do Lula.

Já passou da hora de os jornalistas nos mobilizarmos em defesa da nossa profissão, repudiando incisivamente essas tentativas imundas de direcionar os acontecimentos, ao invés de apenas registrá-los, interpretá-los e opinar sobre eles.

domingo, 16 de setembro de 2012

METIDA TENHO A MÃO NA CONSCIÊNCIA

"Metida tenho a mão na consciência
e só falo a verdade pura
que me foi ditada pela viva experiência"
(Camões, sonetos)

Não me considero intelectual, pelo menos no sentido que se costuma dar ao termo, mais para platônico do que para militante (esta sim minha estirpe!). Embora geralmente domine os assuntos de interesse dos doutos e cultos, não lhes dou muita importância. Uma frase de Marx que sempre adotei como minha: os filósofos interpretaram o mundo de diversas maneiras, chegou a hora de o transformar.

Mas, mesmo não pertencendo nem querendo pertencer à torre de marfim tupiniquim, considerei ultrajante a entrega do Ministério da Cultura a uma senhora que, afora a carreira política lastreada no sobrenome (a ponto de só depois de lacradas as urnas da eleição para prefeita ter dado ciência ao distinto público de que o mesmo já há algum tempo se tornara apenas griffe --o que, na minha humilde opinião, constituiu estelionato eleitoral), é conhecida mesmo por ter dado consultoria sexológica em TV.

E o pior é que tão estapafúrdia designação não passou de um agrado para que ela afinal parasse de fazer birrinha e aceitasse tentar desencalhar a campanha de Fernando Haddad, o poste que Lula e Dilma tudo fazem para eleger prefeito da principal cidade do País. 

Vá avacalhar a cultura assim na ponte que partiu! Com tal (ausência de) critério, quem será o próximo, o Tiririca?!

Enfim, como estranho nesse ninho que eu opto por ser, eu tinha decidido limitar-me a uma ou outra alfinetada. Mas, a coluna dominical do Carlos Heitor Cony --cujos méritos intelectuais, vale registrar, ultrapassam infinitamente os do arquipretensioso Paulo Coelho-- me fez reavaliar a minha postura.

Cony está indignado. E como ele tem carradas de razão, eu me sentiria opostunista e covarde se deixasse de dizer o que realmente penso.

Está dito. E abaixo reproduzo o desabafo do Cony, que é meu também:
"...é com certo pesar que vejo a sua [do PT] lenta, mas progressiva deterioração política e moral -que, de alguma forma, afetará o seu patrimônio eleitoral.

Não há dúvida de que o partido ficou seriamente comprometido com o mensalão. Independentemente da decisão final do Supremo, suas entranhas ficaram escancaradas, revelando que em nada se difere dos demais partidos.

Como se não bastassem os recursos ilícitos que empregava para se manter e ajudar seus aliados, dona Dilma deu agora mais uma demonstração de que o PT se utiliza do poder para obter vantagens que, embora lícitas do ponto de vista administrativo, resvalam no mais escrachado fisiologismo.
Para atingir um alvo relativamente secundário, como a Prefeitura de São Paulo, a presidente demitiu Ana de Hollanda do Ministério da Cultura, nomeando uma petista de alto e valioso coturno, como Marta Suplicy, ajudando o candidato petista -que, mesmo com a colaboração integral e entusiástica de Lula, continua até agora patinando nas pesquisas eleitorais.

A mudança naquele ministério não tem outro significado senão o mais baixo estágio da política. Nem vem ao caso discutir a eficiência da ministra demitida nem as qualidades da nova titular.

Na reta final da campanha, dona Dilma apelou para a caneta presidencial e modificou o ministério que ela livremente escolheu, dando ao partido uma boca de fogo melhor comprometida com a realidade política e administrativa da capital paulista. Uma jogada que nada teve de brilhante ou necessária".
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