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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A ESQUERDA QUE NÃO SE UNIU NEM PARA BARRAR O BOZO EM 2018 AGORA ESTÁ INTEIRA AO LADO DE BOULOS

A união da esquerda em torno de um objetivo maior me despertou...
Na tarde desta 6ª feira (20) foi lançada a Frente Democrática por São Paulo, com outros cinco partidos formalizando o apoio a Guilherme Boulos no 2º turno da eleição para prefeito paulistano: PCdoB, PDT, PSB, PT e Rede. Assim, a chapa do PSOL (partido de Boulos), PCB e UP agora representa nada menos do que oito forças políticas de esquerda e centro-esquerda.

É um fato político de primeira grandeza, já que nem mesmo na eleição presidencial de 2018 Ciro Gomes, Lula e Marina Silva se posicionaram na mesma trincheira. 

Candidatos derrotados no 1º turno, Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PCdoB) já haviam se colocado ao lado de Boulos. Márcio França (PSB) só não o fez ainda porque espera o aval do diretório municipal do partido.

Do outro lado estarão o candidato Bruno Covas (PSDB) e os derrotados Celso Russomanno (Republicanos) e Joice Hasselmann (PSL), além do MDB e do DEM. Ou seja, será o primeiro grande confronto entre a esquerda e a direita institucionais depois que a política voltou à configuração rotineira nas últimas décadas, passada a demencial onda ultradireitista.
...lembranças de outro desses momentos mágicos: as diretas-já.

Na 6ª feira passada (13), véspera do 1º turno, eu já pressenti que a eleição paulistana teria significado nacional, daí ter decidido contrariar minha tradição de anular o voto, por considerar que os pleitos da democracia burguesa apenas indicam quem cumprirá as determinações do poder econômico, na órbita do qual giram, subservientes ou impotentes para contrariá-lo, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário (mesmo para presidente da República só tenho ido votar quando existe o perigo de vitória de um candidato totalmente inaceitável, como o Bozo).  

Justifiquei assim a exceção que estava abrindo e recomendando (vide aqui o post em questão):
"...exatamente por não dar importância ao que o vitorioso vá fazer enquanto prefeito, votarei levando em conta uma consequência política da eleição: no meu entender, a prioridade suprema do Brasil neste momento é a remoção do Bozo e uma vitória de Guilherme Boulos e Luiza Erundina na principal cidade do país será uma peça importante na montagem desse quebra-cabeças"
.O rumo dos acontecimentos está indo além das minhas expectativas. Parece que o sucesso de Joe Biden mexeu com os brios dos esquerdistas brasileiros, que finalmente se deram conta do imperativo de afastar o genocida o quanto antes e da necessidade de união para darmos fim ao pesadelo do retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ELEIÇÃO PAULISTANA É PIOR DO QUE APOCALIPSE ZUMBI

Não tenho ilusões quanto ao que devamos esperar dos políticos profissionais: nada. Isto porque os escolhidos nas urnas não passarão de farsantes, fingindo que mandam enquanto estiverem dançando os minuetos que o poder econômico lhes impõe. 

A grande maioria, sem sequer elegância. Deveriam encenar o teatro da política, mas suas performances grotescas estão mais no nível dos mafuás de periferia.

Em 1976, quando foi lançada no Brasil a obra-prima do diretor italiano Ettore Scola, Feios, sujos e malvados, o título foi a própria piada pronta: muita gente logo passou a assim qualificar os candidatos a prefeito e vereadores que desfilavam na propaganda eleitoral gratuita. Brincalhões faziam listas de quem eram os feios, quais os sujos e quais os malvados. É óbvio que a terceira categoria predominava.

Eu desisti de analisar a sério as propostas dos candidatos, pois estaria, na verdade, avaliando o trabalho dos marqueteiros que bolaram o blablablá por eles repetido exaustivamente. E sempre considerei lapidar a frase do genial Zé Celso, "os publicitários são filhos de Goebbels". Taí uma afirmação que eu morro de inveja por não ter-me ocorrido antes...
Capacete de ciclista ou penico do Menino Maluquinho?

Mas, há certas falsetas morais que me irritam profundamente. Elas, sim, me levam a detestar especialmente alguns candidatos, vendo-os como piores ainda do que a vala comum geral.

Caso, p. ex., do candidato à releição para a prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Sua primeira gestão foi, em termos administrativos, menos do que mediana, mas isto não me importou; suponho que qualquer outro ficaria num limbo semelhante.

Ter usado factoides (ciclovias implantadas onde não cabiam, redução do limite de velocidade sem embasamento técnico, etc.) para garantir espaço no noticiário é velho como andar pra frente. 

De intelectuais, mesmo os chinfrins, espera-se que hajam lido qualquer coisa. O Haddad deve ter devorado alguma biografia do Jânio Quadros, o homem da vassoura, aquele que condecorou Che Guevara só para que os bobos falassem mal de si; o da proibição dos monoquínis e da rinha de galos; o dos arcos resgatados que não eram nada do outro mundo mas, bem propagandeados, viraram grandes relíquias arquitetônicas...

Há algo, porém, que deve parecer insignificante para quem tem cabeça feita pela grande imprensa e seus farisaicos critérios, mas para mim é fundamental: caráter.
Jânio era o rei dos factóides

Nunca perdoarei o Haddad por ter recebido a ajuda voluntária da Neca Setubal na campanha municipal de 2012 e depois haver lavado as mãos enquanto seu partido (o PT) massacrava a dita cuja por prestar o mesmíssimo auxílio à Marina Silva na campanha presidencial de 2014. 

Ele, mais do que ninguém, sabia que a fulana não passava de uma herdeira que nunca apitou nada no Grupo Itaú e está sempre procurando causas nobres para preencher sua vida mansa e, provavelmente, um tanto tediosa. 

Mas, Haddad não teve a dignidade de a defender da rede fascistoide de assassinato de reputações que o PT invariavelmente aciona quando o jogo limpo não é suficiente para seus interesses prevalecerem. Lamentável.

VOTARAM NA SRª SUPLICY E ELEGERAM A SRª FAVRE...

A Marta Suplicy é outra que não me passa pela garganta, primeiramente por haver tido como seu maior trunfo (e era fajuto!) na eleição para a prefeitura paulistana no ano 2000 o prestígio do marido, o bom e um tanto folclórico Eduardo Matarazzo. Até então ela havia sido somente deputada federal e ainda não tinha cacife para um voo maior, tanto que, na eleição para o governo do Estado, dois anos antes, não chegara nem ao 2º turno.

No pleito municipal chegou, e justamente contra Paulo Maluf, que então era tido como o corrupto-mor da política brasileira. Daí, evidentemente, a merecida aura de honestidade do Suplicy lhe haver sido benéfica ao extremo. 
O casamento com Favre ficou para depois da eleição...

Boa parte dos seus eleitores deve ter-se sentido ludibriada quando, mal se fechavam as urnas, ela comunicou que já não era mais a mulher do Suplicy desde alguns meses antes, mas sim do Luis Favre. 

Ter sonegado tal informação enquanto lhe foi conveniente representou um feio estelionato eleitoral (é verdade que depois a Dilma Rousseff a superaria em muito neste quesito...) e, no mínimo, de uma demonstração explícita de amoralidade.

É também inesquecível, no mau sentido, o episódio em que ela, quando prefeita, destratou uma pequena comerciante cuja loja fora inundada pelo córrego Aricanduva, uma enchente que acontecia ano após ano no mesmíssimo lugar. A fulana, desesperada, tinha todo direito de cobrar-lhe as providências que não haviam sido tomadas. E a Marta a tratou a pontapés, algo indesculpável em quem, teoricamente, pertencia a um partido dedicado a defender os humildes contra os abusos dos poderosos.

[Mesmo paradoxo que se verificou no caso do Antonio Palocci x Francenildo Costa: um ministro de Estado servir-se tão grosseiramente do seu cargo para violentar os direitos de um humilde caseiro. Era tudo que não se esperaria de um petista que começara sua trajetória na esquerda.]

Então, para mim, seria melhor que se elegesse prefeito(a) de São Paulo qualquer outro que não o Haddad e a Marta? Não, apenas os considero os últimos na minha escala de valores moral.
Será que desta vez ele ganha?

Mas, sendo o que é a Igreja Universal do Reino de Deus (uma instituição que vem driblando há décadas, sabe-se lá como, as acusações de estelionato, lavagem de dinheiro, curandeirismo e lavagem cerebral), a eleição do Celso Russomanno, somada à provável vitória de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, mais me parece um augúrio de catástrofe. Os filmecos de apocalipse zumbi nem chegam perto...

E do João Dória Jr. cansei desde que ele foi um dos principais articuladores do Cansei!, aquela ridícula tentativa de reviver em 2007 a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade, cujo rotundo fracasso só serviu para confirmar que a História só se repete em farsa. 

[Falsificadores da História, por sinal, andaram comparando tal marcha de 1964 com o Fora Dilma, mas as linhas mestras se diferenciaram muito. A derradeira tentativa de reeditar a histeria anticomunista retrô foi mesmo o Cansei!].

São estes quatro os candidatos com chances reais de conquistarem a prefeitura de São Paulo. Dá para tomar uma kaiser antes?

Melhor ainda será se o leitor seguir este bom conselho, que, ao contrário do Chico Buarque, eu lhe dou de graça: vote nulo ao invés de votar nos nulos!

domingo, 25 de setembro de 2016

BANDEIRAS REFORMISTAS x BANDEIRAS REVOLUCIONÁRIAS

"Não há entrada já aberta para a ciência e 
só aqueles que não temem a fadiga de 
galgar suas escarpas abruptas é que 
têm a chance de chegar aos seus
cimos luminosos" (Karl Marx)
A única possibilidade de contraposição à crise político-econômica que se abate sobre o Brasil e o mundo é a negação das categorias capitalistas fundantes, quais sejam:
– a forma-valor (dinheiro e mercadorias), trabalho abstrato e mercado, que em seu conjunto constituem o sistema produtor de mercadorias e o sistema financeiro; 
– o Estado e política. 
Qualquer outra postura é inócua em longo prazo no confronto com as posturas conservadoras dos que querem manter os seus privilégios excludentes, auxiliados pelos seus eternos servos voluntários (os quais se contentam em apanhar as migalhas caídas das mesas dos primeiros, e que ainda são muitos, conforme se constata nas pesquisas de intenção de voto das eleições municipais).

Os conservadores, que defendem a lógica capitalista de modo mais declarado, são os nossos adversários históricos, e estão sempre a tentar renovar as cores de suas bandeiras cada vez mais desbotadas. Cumprem seus papeis segregacionistas de sempre, embora a crise econômica venha deles retirando a máscara de benfeitores sociais; suas posturas inumanas já não passam despercebidas. 

Mas isto não implica inibição das atitudes dos conservadores, eternos viúvos de um passado que lhes foi factível e que agora chega ao esgotamento. Pelo contrário, encastelam-se em suas posições defensivas, dispostos a tudo para preservarem os privilégios que detêm; bradam alto, erguem suas bandeiras nacionalistas; e se fecham nos seus círculos de poder econômico excludente. 

A nós cabe combatê-los firmemente, ainda mais agora, quando os seus postulados se evidenciam como inconsistentes pela crise dos próprios fundamentos daquilo que defendem – o capital.   

Enquanto isto é axiomático, uma questão em aberto é a de quais sejam as bandeiras realmente capazes de emancipar a humanidade da sua escravidão milenar, pois, como disse Geraldo Vandré, “quem sabe faz a hora, não esperar acontecer”.

Como estamos no Brasil, vamos discorrer sobre o nosso posicionamento revolucionário em contraponto às propostas reformistas, posto que estas últimas terminam sempre por ser o estuário natural do nosso fracasso e da reafirmação das posturas conservadoras.  Vejamos algumas delas.

FORA TEMER OU FORA TUDO E FORA TODOS?

O processo eleitoral capitalista é uma farsa, na qual o povo é chamado para legitimar o que está posto numa encenação de escolha soberana, pois faz sua opção dentre aquilo que já foi previamente escolhido: uma ordem constitucional formatada a serviço do capitalismo, modo de mediação social segregacionista que agora atinge o seu ponto de exaustão.  

Vai daí que os partidos políticos (os quais, por assim se denominarem, já estão enquadrados na moldura do capital, ainda que se intitulem socialistas, sociais-democratas, trabalhistas, comunistas ou o diabo que os carregue) terminaram por entronizar um político sem peso eleitoral, conhecido articulador de conchavos parlamentares, antigo membro de governos de direita, na Presidência da República: Michel Temer, o Presidente Temerário

Aliás, foi uma reprise do ocorrido no Brasil em 1985, quando aquele que até poucos meses antes presidia o partido da ditadura militar (o PDS – Partido Democrático Social, sucessor da desgastada Arena – Aliança Renovadora Nacional), José Sarney, terminou por ser presidente da República pelo partido de oposição ao regime militar.  Por coincidência tal partido era o mesmo PMDB de Temer; e Sarney, outro vice que um acaso (a morte de Tancredo Neves) fez envergar a faixa presidencial.

A questão não é retirar Temer do poder e empossar outro títere do capital, mas combater o próprio poder, ainda que isto leve tempo e custe lutas renhidas. 

O que Lula e Dilma fizeram no sentido de superarmos o capitalismo? Absolutamente nada. Pelo contrário, com suas políticas assistencialistas e de conciliação com empresários (que agora lhes apontam os dedos sujos), causaram tal desalento nas consciências populares que salvadores da pátria como Russomanno e outros demagogos rasteiros têm reais chances eleitorais. 

É por estas e por outras que, ao invés de Fora Temer!, devemos bradar Fora todos! e Fora tudo!, além de Não ao voto!.

A LUTA CONTRA A RESTRIÇÃO DE
DIREITOS E SEUS REAIS SIGNIFICADOS 

Um panfleto elaborado pela Central Única dos Trabalhadores contém reivindicações contra a Proposta de Emenda à Constituição nº 241,  que limita os investimentos públicos por 20 anos; contra a Projeto de Lei Complementar nº 257, que limita os gastos nos serviços públicos ao ano fiscal imediatamente anterior; contra a proibição de aumento real do salário mínimo; contra a reforma da Previdência Social; e contra a reforma trabalhista. 

Neste artigo recente, defendi bandeiras populares e públicas contra a restrição de direitos pelo governo. Mas fi-lo no sentido de denunciar a falência do capitalismo e, consequentemente, do Estado, explicitada através dos atos administrativos dos gestores políticos. 

Qualquer um que esteja no governo será refém da lógica econômica em depressão. Dilma Rousseff e seus ministros da área econômica também defendiam tais medidas como parte integrante do ajuste fiscal, como agora ocorre com Michel Temer. Esta é a diferença entre a minha postura e a da CUT.
A não aceitação de medidas restritivas de direitos não deve se dar por meio de bandeiras que impliquem a reivindicação de maior presença do Estado e entronização no poder de alguém que pretensamente tenha compromisso com a emancipação humana. 

Quem se propõe a ocupar o poder político constitucional capitalista e, como consequência, governar sob a lógica do capital, é implicitamente obrigado a negar o interesse popular que o elegeu, sob pena de ser defenestrado do poder por mecanismos institucionais vários, pois ao governante não é dada soberania de vontade. Ele não governa, mas é governado. Tal qual um surfista, ele se equilibra na onda para chegar à praia, mas não modifica a natureza da onda.        

É pura ingenuidade; saudosismo do extinto estado do bem-estar social; ou mero reformismo político demagógico a defesa dos direitos civis e trabalhistas sem que se alerte o povo para a realidade econômica falimentar do Estado e a inconsequência da sua manutenção e das categorias capitalistas que sustentam as causas do infortúnio social capitalista. Tal propósito não é tarefa fácil, mas se trata de uma denúncia indispensável. 

As reivindicações como retomada do pleno emprego; aumento salarial; e outras bandeiras impossíveis de serem atendidas, e mesmo formuladas fora da crítica categorial capitalista, são uma enganação da consciência popular, pois apenas terminam clamando por mais capitalismo, ou seja, equivalem a pedir que a causa da enfermidade cure a enfermidade. (por Dalton Rosado)

sábado, 16 de janeiro de 2016

APOLLO NATALI: "XIXI NA DEMOCRACIA".

Por Apollo Natali
A democracia é um regime de governo terceirizado: os destinos dos povos não são traçados por eles mesmos e sim pelas mãos de terceiros, chamados de representantes do povo no governo. 

Democracia: regime em que o povo se governa a si mesmo. Não sendo possível os povos se governarem a si mesmos reunidos em assembleias em pequenas praças públicas, como era possível fazer nas diminutas cidades gregas, resta aos habitantes dos populosos países democráticos se governarem mediante a democracia representativa. Nesse caso, o povo nomeia representantes para governá-lo. Tal canseira vem de séculos.

Eis o nó górdio dessa carta branca conferida aos eleitos: costumeiramente transformam o poder da representatividade remunerada a eles conferidos pelo voto popular num balcão de negócios em benefício próprio e em mão militar para ações ditatoriais contra o povo. De posse do poder da representatividade, não cumprem as promessas de campanha e, deste modo, atestam sua inconfiabilidade. Junte-se a semente da corrupção a brotar generosamente nas almas de um punhado deles.

Mais: julgam-se detentores do poder de vida e morte sobre os cidadãos. Isto posto, agem como carrascos do povo. Parabéns à humanidade por seu sensível faro político em criar um novo regime de governo, batizado sem erro de absolutismo democrático.

É nos textos dos botecos da vida que a sabedoria popular discute com precisão o exercício da profissão de decidir em nome do povo. São convincentes as discussões de botequim sobre comportamentos descompromissados com o povo por parte dos representantes eleitos para cargos executivos, câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional. O povo? Ora, o povo!
     
Uma escritora americana arremessou na mesa do editor um livro seu, recusado sob alegação de que fugia das linhas editoriais da empresa. Imaginando surpreender, não assinou a obra, adotando um pseudônimo. A editora já havia ganhado um dinheirão com a publicação de livros de sucesso dela. Num um artigo, a moça classificou o desprezo por seu livro como um xixi de má pontaria espirrado na literatura.

Mal comparando, mas comparando, eu me dou ao luxo de considerar como um interminável banho de xixi na democracia a eterna omissão dos representantes do povo, que jamais governam como-o-povo-quer-se-governar. De novo, comigo: o povo? Ora, o povo!

Assim sendo, é compreensível esperar chuva de xixi na democracia depois das eleições de 2016 na cidade de São Paulo. Mais uma vez pode não fazer parte da linha da editora --no caso os representantes do povo no governo-- a obrigação de fazer o papel do povo no governo.      

Por seu gigantismo e poderio econômico a capital paulista é o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América Latina, bem como a cidade mais populosa de todo o hemisfério sul e a sexta do planeta, com quase 20 milhões de habitantes. Gera, sozinha, mais de 12% de todo o PIB brasileiro.

Os famintos de poder que correm atrás da autorização do povo paulistano para governar essa mega-cidade em seu nome já somam meia dúzia. Dois têm cacife certo para finalistas: Celso Russomano e João Dória Jr.

A credencial de finalista de Russomano é garantida por sua fama em programas de defesa dos consumidores na TV, embora ele não defenda de uma só vez todos os 200 milhões de consumidores brasileiros sempre lesados. Um de cada vez, com aquele seu devido estardalhaço-demagógico-pessoal exibido na telinha. Uma esmola.

João Dória Júnior, jovem mega-empresário de sucesso mundial, tem sua credencial igualmente garantida por sua fama granjeada na TV em programas de jornalismo de celebridades da área empresarial. Credencial de finalista robustamente garantida, principalmente por ter apoio inquebrantável do governador de São Paulo.

O retrato falado dos dois famintos de poder garante à meteorologia política anunciar a continuidade de tempestades de xixi na democracia em São Paulo:
  • Celso Russomano - Suas vulnerabilidades são várias. Entre elas, a antiga aliança com Paulo Maluf, tendo sido o candidato do Partido Progressista ao governo de São Paulo em 2010. Respondeu a diversas acusações, como as de exercício ilegal de advocacia, agressão a funcionária do Incor, danos às dependências do hospital, simulação de residência para mudar seu domicílio eleitoral, destinação ilegal de verba pública e até envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. As propostas que apresentou ao longo de sua carreira política estão a léguas de distância da responsabilidade de exercer-o-governo-que-o-povo-quer. Casos da troca da denominação de estupro para a de assalto sexual nos boletins de ocorrência da polícia e da sugestão, de feitio nazista, de ingestão forçada de hormônios por parte dos condenados ou acusados de crimes sexuais. Num dos projetos, propôs cadeia para os que fizerem críticas sem provas aos políticos. Alô, alô, ditadura, aquele abraço do Russomano!.
  • João Dória Jr. –  As propostas de governo de João Dória Jr. conhecidas até agora se resumem a uma só, a de atrair investimentos para São Paulo. Governar-do-jeito-que-o-povo-quer-se-governar vai muito mais além desta solitária promessa. Um jornal eletrônico publicou uma foto com Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e João Dória Jr., os três de pé, juntos, rindo. A irônica legenda identificando o Dória na foto era "o João Dória Jr. é o da extrema direita" (*).
Direita? Nas assembleias políticas é a parte que pertence ao grupo dos conservadores. Conservadores? Aqueles que em política são favoráveis à conservação da situação vigente, opondo-se a reformas que poderiam beneficiar os menos favorecidos material e intelectualmente. A direita é uma arena sem espaço para poesias reivindicatórias do povinho. A direita não quer saber daqueles que têm as pernas fracas e não conseguem ficar de pé sem ajuda.

João Dória Jr., assim como seus companheiros do pódio da foto, tem formulado raivosas defesas em favor do impeachment da presidenta Dilma, ela supostamente de esquerda, ele aguerridamente da direita. É o chamado jogo político. Para o povo, jogo de azar.
De maneira geral, como devem ser definidos os candidatos?
Democracia? Ora, a democracia!, zombam os tiranos de todos os matizes. Reforma política? Ora, a reforma política!, escarnecem indefinidamente os eleitos.

A que distância estão os finalistas João Dória Jr. e Celso Russomano da responsabilidade de governar-como-o-povo quer-se-governar?  Sai de baixo. Mais pipi na democracia vem por aí. Uma ova que qualquer um deles vai ser fiel aos seus deveres para com o povo!

* NOTA DO EDITOR: João Dória Jr. foi em 2007 o principal articulador do Cansei!, patética tentativa de reeditar a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade de 1964. O movimento evaporou após reunir apenas algumas centenas de gatos pingados na Praça da Sé.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ABSTENÇÃO, NULOS E BRANCOS DISPARAM EM SAMPA

Na eleição para prefeito de São Paulo havia duas certezas:
  • a chegada de José Serra no 2º turno;
  • sua derrota final.
Os sucessivos e cada vez mais insatisfatórios mandatos dos tucanos e seus aliados, no Estado e na cidade de São Paulo, saturaram o eleitorado. Com enorme rejeição, Serra jamais conseguiria remar contra esta maré. Seu eleitorado cativo só lhe permitiria levar a disputa para a prorrogação, tornando-se, a partir daí, presa fácil para o adversário.

Mais: os eleitores ansiavam pelo  novo.

Muito se falará sobre o talento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem para eleger postes, mas a sorte desempenhou papel importante.

O espaço da novidade foi imediatamente ocupado por Celso Russomanno, beneficiando-se do prestígio televisivo e do apoio da Igreja Universal.

Sua arrancada fulminante impediu que um  novo  mais consistente (e menos identificado com a velha podridão) se afirmasse.

Nas duas semanas que antecederam o 1º turno, a propaganda do PT desconstruiu Russomanno, explorando episódios do seu passado e plantando na cabeça do eleitor a idéia de que ele iria encarecer o transporte coletivo. Não era bem isto, mas só candidato tolo faz propostas complicadas, que podem ser voltadas contra si, tendo pouco tempo no horário eleitoral para as explicar.

O esvaziamento do balão Russomanno, em cima da hora, não deu aos eleitores oportunidade para se direcionarem a outro  novo. O caminho ficou aberto para  o triunfo de Fernando Haddad.

A esquerda consequente fez campanha pelo voto nulo no 2º turno e tem um resultado apreciável para exibir: 500.578 votos (7,26%).

Somados aos votos em branco (299.224, 4,34%) e à abstenção (1.722.880, 19,99%), são quase três eleitores em cada dez (29,2%) que não viram motivos para votar nem em Haddad (3.387.720, 39,3%), nem em Serra (2.708.768, 31,4%).

Lembrem-se: estamos num país em que  O VOTO NÃO É FACULTATIVO (!), TENDO-SE MANTIDO, MESMO DEPOIS DA REDEMOCRATIZAÇÃO, SEU AUTORITÁRIO CARÁTER COMPULSÓRIO (!!) ATÉ A AVANÇADA IDADE DE 70 ANOS (!!!). Então, tais números evidenciam um enorme desânimo e insatisfação com as opções predominantes.

E que predominam exatamente porque o jogo é de cartas marcadas: os maiores partidos usam e abusam do poder econômico, além de praticamente monopolizarem o horário gratuíto.

De quebra, dão um jeito de fazer com que sejam cancelados os debates televisivos QUANDO TEMEM UMA ALTERAÇÃO DO QUADRO ELEITORAL. Foi o que a TV Record fez nos dois turnos e a Globo no 1º turno.

Ou seja, o sistema aprendeu como evitar que uma nova Luíza Erundina conquiste um governo importante, o que é fundamental para o deslanche de um pequeno partido.

Se já tivesse tal expertise em 1988, o PT levaria muito mais tempo para crescer e talvez não estivesse hoje, paradoxalmente, em condições de barrar os herdeiros dos seus ideais de outrora, como acaba de fazer na cidade do Rio de Janeiro, onde sua opção política foi, simplesmente, IMORAL.

sábado, 29 de setembro de 2012

A GÊNESE DO PARTIDO DA IGREJA UNIVERSAL

O trabalho de conclusão de curso da minha esposa foi sobre a Igreja Universal.

As informações que ela coletou e algumas que nâo pôde utilizar por motivos vários --principalmente para evitar retaliações contra suas fontes, pois se trata de gente perigosa-- me chocaram. Ofereci-o até, como livro, a duas editoras católicas, que não quiseram comprar a briga.

Também me incomoda que as evidências gritantes de crimes, contidas nas denúncias de promotores e numa série de reportagens irrefutáveis que O Estado de S. Paulo publicou em meados da década retrasada, não tenham desembocado em condenações e em medidas efetivas para proteger as vítimas --as que são privadas até do último centavo e as que perdem a saúde ou a vida por acreditarem em orientação médica de quem não é médico.

Pude, ainda, constatar que Edir Macedo é muito eficiente naquilo a que se propôs, o que o torna personagem das mais temíveis ao estender seus tentáculos para a política.

Então, fiquei estarrecido e indignado ao ler a notícia abaixo da Folha de S. Paulo, confirmando que, independentemente do  efeito Russomanno, o PT continuará favorecendo o crescimento do  partido da Igreja Universal, cuja criação foi estimulada pelo Lula.


É o que nunca me passou pela garganta no caso do ex-presidente: ele raciocina unicamente em função de conveniências políticas imediatas e menores. Quer que o PT vença eleições, pouco ligando para o fato de que um partideco reacionário por ele estimulado poderá um dia se tornar um partidão de características nazistóides e com influência extremamente nefasta na política brasileira.

Muitos colocam Lula nas alturas porque conduziu o PT à Presidência da República e colocou algumas migalhas a mais na mesa dos pobres.

Omitem, no entanto, que seu pragmatismo tosco levou à desideologização e descaracterização do PT, privando o Brasil de um partido revolucionário que poderia torná-lo um país igualitário, ao invés de um dos mais desiguais do planeta; e um país que oferecesse qualidade de vida ao seu povo, ao invés do que ostenta Índice de Desenvolvimento Humano tão ínfimo.

Governando numa conjuntura internacional extremamente favorável ao Brasil, Lula fez bem menos do que poderia, pois cumpriu religiosamente o pacto firmado com o grande capital em 2002, no sentido de manter as linhas mestras da política econômica neoliberal de FHC.

Está na hora de tomarmos dos capitalistas para distribuirmos ao povo, ao invés de apenas distribuirmos ao povo a merreca de que os capitalistas admitam abrir mão.

Delfim Netto, outro que Lula jamais deveria aceitar como companheiro de jornada, dizia, no tempo da ditadura, que era preciso esperarmos pacientemente o bolo crescer, para que depois pudesse ser dividido. 

Já cresceu, mas continuamos vendo a divisão por um binóculo. Enquanto permanecermos de braços cruzados, esperando a boa vontade dos que usurpam os frutos do trabalho alheio, não passaremos de pobres coitados.

Revolucionário existe para tornar o povo o sujeito da História. A diferença é enorme com os que querem mantê-lo na eterna dependência de homens providenciais, votando no partido que lhe oferece um tiquinho a mais do que as outras forças políticas, ao invés de exigir tudo a que tem direito.

Eis o esclarecedor texto do repórter Bernardo Mello Franco:


O PT pretende poupar a Igreja Universal de ataques caso Fernando Haddad passe ao segundo turno contra o líder Celso Russomanno (PRB), cujo partido é controlado pela denominação.

Os petistas temem uma retaliação da TV Record ao governo Dilma Rousseff e devem usar o ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), para negociar um pacto de não agressão na disputa.

Além disso, o ex-presidente Lula costurou a aproximação entre o PT e a igreja do bispo Edir Macedo e incentivou a criação da sigla aliada.

O vínculo do partido de Russomanno com a igreja do bispo Edir Macedo tem sido usado por José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB) como principal arma contra o líder das pesquisas.

Haddad, no entanto, tem evitado a polêmica. Limita-se a criticar, de forma genérica, o uso de máquinas religiosas em campanhas rivais.

"Nossa linha será desconstruir Russomanno pela ausência de propostas, sem entrar nessa coisa de igreja", diz o deputado estadual Simão Pedro, que integra a coordenação da campanha petista.

Bispo licenciado da Universal e ex-executivo da Record, o presidente do PRB, Marcos Pereira, diz estar "certo" de que o PT não usará a igreja contra seu candidato.

"Eles já optaram por não fazer isso", afirma. "Se o PT tentar dizer que as nossas propostas são falhas, é aceitável. O que não pode é levar essa questão da religião."

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DÍZIMO COM QUEM ANDAS...

Está na Folha de S. Paulo:
"O candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, recebeu ontem uma oração do apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo.

Também ouviu o ministro da Pesca, Marcelo Crivella, dizer que os evangélicos não dependem do governo e defender o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal.

Senador licenciado pelo PRB, Crivella é sobrinho de Macedo e um dos bispos da Universal no alto escalão da sigla de Russomanno".
Os personagens citados nesta notícia dão uma boa idéia do que Russomanno realmente representa.  Dize-me com quem andas...

Estevam Hernandes foi acusado, em dezembro de 2006, de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro pela Justiça brasileira, que bloqueou seus bens e os da  bispa  Sônia Hernandes.

Antes de ser preso no Brasil, o casal fugiu para os EUA e foi detido pelo FBI na alfândega da Flórida, por estar contrabandeando US$ 56 mil. Até uma Bíblia estava sendo usada para ocultar a grana.

Os dois tiveram de usar aquelas tornozeleiras de monitoração eletrônica ao deixarem a prisão sob fiança.

Confessaram-se culpados e a pena foi de 10 meses de prisão. A Justiça dos EUA também determinou o fechamento de todos os templos da Igreja Renascer, com exceção da sede, rebatizada como Reborn in Christ.

Apesar do empenho de vários promotores, a Justiça brasileira ainda não tomou decisão semelhante --nem mesmo quando o teto de um templo malconservado desabou em 2009 na zona sul paulistana, matando nove coitado, e surgiram fortes suspeitas de que a fiscalização teria sido subornada.

Edir Macedo foi preso em 1992 sob acusações de charlatanismo, curandeirismo e envolvimento com tráfico de drogas. Nem mesmo as reportagens consistentes, fundamentadas e acachapantes de O Estado de S. Paulo conseguiram fazer com que o caso avançasse na Justiça, nem que a ficha caísse para os fiéis.

Idem quando o Jornal Nacional levou ao ar, em 1995, um vídeo mostrando como Macedo ensinava seus pastores a depenarem os crédulos e como ele festejava a receita auferida. Fez lembrar o Tio Patinhas nadando na piscina de dinheiro...

Voltou ao noticiário policial em 2009: o Ministério Público de São Paulo o acusou de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Safou-se no ano seguinte, não por ter provado inocência, mas porque a investigação foi considerada ilegal.

Quanto a Marcelo Crivella, seu grande momento às avessas foi quando convenceu o Governo Federal a colocar tropas do Exército no Morro da Providência (RJ) para favorecer seu projeto eleitoreiro Cimento Social, em 2008. Os militares entregaram três jovens para serem executado por uma facção criminosa, a repercussão foi horrorosa e Crivella, até então um dos candidatos favoritos para a Prefeitura, não chegou nem no 2º turno.

Com madrinhas como estas ao lado do berço, os perspicazes logo concluirão que estamos assistindo é uma reprise do filme trash de 1974, Nasce um monstro...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A ZIGUEZAGUEANTE TRAJETÓRIA DE QUEM É MOVIDO PELA AMBIÇÃO

O bom jornalista Gilberto Dimenstein tocou num ponto interessante em seu artigo Russomanno está debochando?. Mas, nossas conclusões diferem um pouco.

Comecemos pelo Dimenstein:
"Geralmente (quase sempre, aliás) planos de governo e promessas de campanha quase se confundem em sua inutilidade. São apenas peças para atrair votos. Muitas das 'propostas' são elaboradas não por técnicos, mas por marqueteiros.

Uma vez eleito, o candidato é limitado pela realidade dos números --e os eleitores logo esquecem, afinal, resignam-se, 'todos os políticos são iguais'. Celso Russomanno, porém, parece estar conseguindo debochar ainda mais o que já é debochado.

Cobrado nos debates por não ter um programa, requentou (isso para ser generoso) um programa que entregou, por obrigação, ao tribunal eleitoral. Nenhuma --e nenhuma aqui não é força de expressão-- meta detalhada em números.
Algumas possibilidades, todas complicadas para quem se diz defensor dos direitos do consumidor:
  1. Ele não imaginava que iria tão longe na disputa eleitoral e que seria cobrado nos debates;
  2. Não acha plano de governo importante;
  3. Não acha que o eleitor ache plano de governo importante. E, portanto, tanta faz como tanto fez;
  4. Não dispõe de gente qualificada para, no mínimo, inventar um plano de governo.
Deveríamos inventar um Código de Defesa do Eleitor".
Russomanno deve mesmo ser combatido como o pior dos candidatos à Prefeitura paulitana, nem tanto pelo que é --não passa de um oportunistazinho que, por si só, nunca voaria alto--, mas por servir como  cavalo de Tróia  para Edir Macedo, este sim um vilão considerável, daqueles que constroem impérios do mal. Versão brasileira do  satânico Dr. Moon.

Todos os alarmes já deveriam ter soado quando se verificou a união de algumas empresas religiosas que, via de regra, competem encarniçadamente pelos otários a serem depenados. 

Se os vendilhões do templo somarem permanentemente as forças, como já fazem suas bancadas no Congresso, muita coisa ruim poderá acontecer. Afinal, têm um exército de zumbis para colocar nas ruas, o que hoje falta a quase todos os partidos, inclusive os de esquerda.

Hitler também era insignificante quando começou a discursar em cervejarias, daí ter sido tão subestimado. Deu no que deu.

Intolerância: o príncipio...
E alguns de seus truques estão sendo bisados, como a demonização de qualquer grupo como espantalho contra o qual unir o rebanho. Naquele tempo eram os judeus, agora são os devotos do cultos afrobrasileiros, os gays, os defensores do direito das mulheres ao aborto, etc. Nada se cria, tudo se copia.

Mesmo assim, sou obrigado, por minhas convicções, a fazer uma meia-defesa do Russomanno: plano de governo não tem mesmo importância nenhuma!

Trata-se de uma das muitas imposturas que a indústria cultural martela na cabeça dos eleitores, no sentido de reduzir as eleições a um mero cotejo de bonequinhos de ventríloquos a recitarem o blablablá dos marqueteiros, propostas mirabolantes e miudezas paroquiais.

O governador Geraldo Alckmin, evidentemente, não colocou na sua proposta de governo que detonaria os coitadezas da cracolândia e do Pinheirinho, nem que concederia à PM  licença para matar  (salvo no período eleitoral, quando, para salvar as aparências, age como acaba de agir: substituiu sofregamente um comandante da Rota que ele mesmo empossara e de cujos antecedentes --envolvimento no Massacre do Carandiru-- tinha a obrigação de estar ciente, não podendo alegar surpresa quando ocorre um mais do que previsível aumento da taxa de  homicídios oficializados).

O que deveria realmente ser considerado pelos eleitores é o programa do partido. Havendo um comprometimento com valores políticos e ideológicos bem definidos, o papel do eleito seria esforçar-se ao máximo para traduzir tais princípios na prática administrativa.

...e o fim.
Mas, claro, não interessa ao sistema fortalecer os partidos, pois os de esquerda teriam consistência muito maior. Então, a lavagem cerebral midiática é toda ela no sentido de  personalizar  a escolha.

O que vem ao encontro da cultura consumista: assim como se opta por uma marca de sabão, opta-se por um candidato. E ambos são embalados e promovidos da mesmíssima forma.

Então, melhor do que cobrar um plano de governo do Russomanno seria cobrar-lhe uma explicação pormenorizada sobre o que o atraiu no programa do PFL, no do PSDB, no do PPB/PP e no do PRB, já que são partidos com diretrizes e ideologias bem diferentes; por que saiu de um e ingressou no outro; se o atual é definitivo ou será trocado ao sabor das conveniências, etc.

Duvido que ele conseguisse encontrar alguma argumentação plausível para justificar sua ziguezagueante trajetória, típica de quem é movido pela ambição e por convicções.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O PRODUTO DESEJADO PELOS ELEITORES DE SAMPA: UM NOVO CONSERVADOR

O jornalista Paulo Francis estava certíssimo ao qualificar a sociedade de consumo de  inferno pamonha, ou  bocó. Acertou na mosca.

Até a segunda metade do século passado, as criticadas elites procuravam, pelo menos, tornar o cidadão comum melhor do que era. Podia-se, claro, discordar do tipo de melhora que tinham em mente, mas não do conceito de que nossa jornada na Terra deva ser evolutiva. Não nascemos prontos, construímo-nos ao longo da vida.

A sociedade de consumo modificou para pior, bem pior, tal equação.

Os homens deixaram de ser tratados como cidadãos. Passaram a ser encarados, isto sim, como  consumidores. Não são mais  gente, são  mercado.

Então, não se questionam mais seus desejos. Se alguém estiver querendo comprar, haverá alguém disposto a vender. Literalmente  tudo, seja às escâncaras ou por baixo do pano.

Em termos psicológicos, isto significa, simplesmente, que as pessoas são mantidas numa eterna infância. Não superam mais o narcisismo inicial. Não encontram mais a justa medida entre o que querem e o que podem. Não aprendem que sua felicidade depende da felicidade dos outros, que sua satisfação e seu prazer serão muito mais completos se compartilhados.

Ao mesmo tempo, os objetos de consumo pelos quais tanto anseiam nunca são plenamente satisfatórios. E as vítimas da engrenagem infernal do sistema passam a vida inteira correndo atrás do que jamais obtêm, adquirindo o que não precisam e trabalhando sofregamente sem que haja justificativa real para tanto estresse e tanto enfarte.

Este é o motivo maior do declínio da esquerda nas últimas décadas. O que oferecíamos era uma perspectiva de sociedade melhor, na qual as pessoas se tornariam melhores: era o ideal do homem novo. 

Os consumistas passam a vida apaixonados pelo próprio umbigo e querendo ter o mundo como espelho, pois anseiam pateticamente por verem-se nele refletidos. Não o pretendem melhorar, o que gostariam é de melhorar a própria posição numa sociedade desumana e injusta. Vai daí que hoje são bem poucos os que se dispõem a dedicar a vida aos grandes ideais.

Há meio século a Escola de Frankfurt previu que chegaríamos exatamente a este  inferno pamonha, no qual os indivíduos perderiam o controle sobre suas próprias vidas, sem nem mesmo atinarem com os motivos de sua infelicidade, mesmerizadas pela influência atordoante da indústria cultural.

O que fazer? --indagaria Lênin.

Herbert Marcuse apostava que tal manipulação cientificamente implementada seria capaz de evitar que a maioria formasse uma consciência crítica, mas não que acontecessem, em determinadas circuntâncias, explosões espontâneas de revolta. Não dá para represar-se tudo. E as contradições insolúveis do capitalismo estão aí para fornecerem os estopins de tais explosões espontâneas; caso da crise econômica global.

Como nós, da esquerda, devemos nos comportar nos  intervalos  entre tais explosões espontâneas, nas marés vazantes, quando as massas não estiverem dispostas a nos acompanharem em voos mais altos?

É uma questão crucial.

Podemos manter a coerência com nossos ideais e, mesmo não influindo decisivamente nos acontecimentos políticos, continuarmos contestando as injustiças sociais, as formas mais sofisticadas de exploração do homem pelo homem que hoje predominam, a desumanização que o capitalismo promove e barbárie à qual nos conduz. Assim, estaremos nos qualificando para liderar contingentes mais amplos quando estes acordarem do coma induzido pelo sistema.

Há os que preferem combater o monstro com as armas do monstro, acreditando que não se tornarão monstruosos. No entanto, acabam é igualando-se ao que combatem. Não mudam o mundo; são mudados pelo mundo.

CANDIDATURAS IDEOLÓGICAS x CANDIDATURAS DE CONSUMO

Se o que os eleitores
queriam era um monstro...
É chocante, p. ex., vermos as eleições se tornarem uma disputa de quem melhor se encaixa no perfil de candidato identificado exatamente pelos métodos que as empresas utilizam para avaliar a viabilidade de  produtos: pesquisas qualitativas e as inferências dela extraídas pelos analistas.

Na eleição paulistana, o  produto  assim determinado como o de maior aceitação potencial no mercado seria um candidato ao mesmo tempo  novo  e  conservador.

Isto explica o empenho do Lula em impor o Fernando Haddad, que nem de longe tem a  cara do PT, mas se encaixa na imagem do  novo.

O PMDB também apostou numa figura de galã de telenovela, Gabriel Chalita.

O PSDB pensou que desse para maquilar o (hoje) conservador José Serra, fazendo-o parecer bem mais novo do que é. Botou-o para pedalar, para subir em skates, para bater pênaltis, etc., mas a mágica besta não funcionou: ele quase caiu do skate,  isolou  o sapato e mergulhou o ridículo, tornando-se o alívio cômico da campanha na internet.

Como já tinha a preferência  de cabresto  dos evangélicos zumbificados e dos videotas acostumados a vê-lo posar de paladino dos consumidores, o  novo conservador  para o qual o eleitorado está pendendo é Celso Russomanno.

Pior: com parcela substancial de votos tradicionalmente petistas.

Então, é hora de o PT fazer uma profunda reflexão sobre se compensou abandonar as candidaturas ideológicas e aderir às  candidaturas de consumo.

...encontraram:  esta imagem
atesta o acerto da escolha.
Antigamente, quem votava no PT era por acreditar nos ideais e posturas do PT. O partido era o fator decisivo.

Agora, o candidato petista é propagandeado da mesmíssima forma e faz as mesmíssimas promessas mirabolantes dos centristas, direitistas e dos meros fisiológicos. Não tem mais sequer os cabos eleitorais voluntários, precisa contratar tarefeiros.

Então, quando a figura não convence, como o insosso Haddad, o atual eleitorado petista migra insensivelmente para um antípoda ideológico como o Russomanno.

E, se um dia houver crise grave, nestes tristes trópicos em que o golpismo nunca se torna prática definitivamente sepultada, jamais lutará pelo governante que escolheu.

O grande Plínio de Arruda Sampaio certa vez colocou o dedo na ferida: valeu a pena o PT ter chegado à Presidência com o compromisso de manter intocada a política econômica neoliberal, ou seja, limitado a gerenciar os negócios capitalistas como um FHC o faria?

Da mesma forma, não seria melhor, vencendo ou perdendo a eleição, educar o eleitorado, tentando convencê-lo de que precisa, isto sim, de um  contestador, pouco importando se novo ou velho?  Pois, prostrando-nos desta forma aos humores momentâneos das massas, o que faremos quando a maré for fascista? Escolheremos um candidato que seja clone do Mussolini?!

Há dois milênios, Jesus Cristo já dizia que não: "O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus, 26:16).
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