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domingo, 28 de novembro de 2021

O OLAVO DE CARVALHO ENTENDE QUE, PARA ESCAPAR DA POLÍCIA FEDERAL, A FILOSOFIA NÃO É TÃO EFICAZ...

Piores são os fracos que, na hora H, não
se mostram à altura de suas bravatas...
 
F
édon(*): Como estais, mestre?
Olavo: Muito doente, como sabeis, meu bom Fédon.
Fédon: É verdade que estais a pensar em tomar uma decisão drástica para evitar depor no inquérito que procura apurar a existência de uma milícia digital que tem como objetivo desacreditar a democracia e as instituições?
Olavo: É bem certo, Fédon. Fui intimado pela Polícia Federal, mas não tenciono comparecer.
Fédon: Tenho receio do que podereis fazer, mestre. Ireis beber cicuta, para libertar a alma do corpo?
Olavo: Não. Que ideia. Vira essa boca para lá, Fédon. Vou libertar o corpo do Brasil e a alma vai junto.
Fédon: Admirável. Como se dará essa extraordinária evasão, mestre? Por meio da filosofia?
Olavo: Não. Por meio de um carro que me levará ao Paraguai sem passar pela imigração e depois pegando um avião para Miami. A filosofia, neste caso, não seria tão eficaz.
Fédon: Ainda assim, denoto nessa atitude a influência do pensamento de filósofos como Descartes, Derrida e Sartre.
Olavo: Por que esses?
Fédon: Porque ireis sair à francesa.
Olavo: Ah. É verdade. Bem visto, Fédon.
Fédon: Não estais demasiado doente para fazer uma viagem de carro até ao Paraguai?
Olavo: Não. Estou demasiado doente para depor no inquérito. Para fazer viagens de carro de 18 horas estou bom. Não entendeis nada de saúde, Fédon.
Fédon: Tendes uma doença muito estranha, mestre. São as piores. Estou preocupado.
Olavo: Não há razão para preocupações, Fédon. Quando eu estiver na minha casa, nos Estados Unidos, poderemos continuar as nossas conversas por videoconferência.
Fédon: Ainda bem, mestre. Gostaria de aprofundar a sua teoria sobre a imortalidade da alma, que considero muito interessante. Afirmais que as nossas almas já existiam, antes de incarnarem em forma humana, e já eram dotadas de entendimento. É esse, se bem percebi, o conceito de reminiscência. Mas, após a morte do corpo, para onde vai a alma?
O
lavo
: Confesso que não sei, Fédon. Eu digo muitas coisas. Na verdade, no que toca a este tema do corpo e da alma, não posso fazer mais do que especular. O meu corpo funciona cada vez pior —e, como sabeis, já vendi a minha alma há muitos anos. (por Ricardo Araújo Pereira, humorista, autor do livro "Boca do Inferno")
* Nos Diálogos de Platão, Fédon de Elis é o aluno de Sócrates que relata para um discípulo de Pitágoras o que o mestre ensinou no seu derradeiro diálogo, antes da consumação do suicídio. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

NEM CONSERVADOR O GOVERNO DO BOZO É. NÃO PASSA DE UM FLAGELO ARCAICO...

josias de souza
A PENÚLTIMA DE BOLSONARO: UM NEGRO RACISTA
Sob Jair Bolsonaro, há um adorador da ditadura na Presidência, um antiambientalista no Ministério do Meio Ambiente, um antidiplomata no Itamaraty, um deseducado na pasta da Educação e um inimigo dos artistas na Secretaria de Cultura. 

Quando se imaginava que o governo já havia atingido o ápice do contrassenso, sobreveio o escárnio: um negro racista no comando de uma entidade criada para zelar pelos interesses da comunidade afrodescendente.

Chama-se Sérgio Camargo. Jornalista, foi acomodado na presidência da Fundação Palmares, que tem entre os seus objetivos o de promover e apoiar a integração cultural, social, econômica e política dos afrodescendentes. Os pensamentos vadios do personagem estão disponíveis na vitrine das redes sociais. 

Sérgio Camargo avalia que "não há salvação para o movimento negro. Precisa ser extinto! Fortalecê-lo é fortalecer a esquerda". Espanto! 

Para ele, "a escravidão foi terrível, mas benéfica para os descendentes". Pasmo!  

Sustenta que "os negros do Brasil vivem melhor que os negros da África". Estupefação!

Uma das metas do novo presidente da Fundação Palmares é abolir o Dia da Consciência Negra, que "celebra a escravização de mentes negras pela esquerda." 

Procurado, absteve-se de esmiuçar sua antiplataforma numa entrevista. Mas a Secretaria da Cultura, que abriga em seu organograma a Fundação Palmares, parece dar-lhe carta branca. 

Em nota, a secretaria esclareceu que Sérgio Camargo defende que o negro não precisa ser vítima. Tampouco precisa ser de esquerda. Trabalha para alcançar a libertação da mentalidade que escraviza ideologicamente os negros. Uma de suas prioridades é desaparelhar a Fundação Palmares. 

O Hino à República, aquele que pede à liberdade que "abra as asas sobre nós", diz a certa altura: "Nós nem cremos que escravos outrora / Tenha havido em tão nobre país…" Alguns versos adiante, proclama: "Somos todos iguais". O hino foi escrito pelo poeta pernambucano Medeiros e Albuquerque em 1890. 
Desabafo do músico Oswaldo de Camargo Filho
Dois anos antes, ainda havia escravos no Brasil. Decorridos 129 anos, eles continuam existindo. Sergio Camargo, p. ex., está acorrentado à mesma mentalidade que faz do governo Bolsonaro não um fenômeno conservador, mas um flagelo arcaico. 

Instado a comentar a nomeação de Sérgio Camargo, o presidente da República economizou palavras: "Não conheço pessoalmente". 

É uma pena que Jair Bolsonaro não conheça Sérgio Camargo. Vivo, o grego Sócrates, de passagem por estas anacrônicas ágoras tropicais, repetiria para o capitão um de seus célebres ensinamentos: "Conhece-te a ti mesmo". Um encontro de Bolsonaro com o presidente da Fundação Palmares será como uma espiada no espelho. 

Se prezasse seu ofício de jornalista, Sérgio Camargo talvez percebesse que o melhor engajamento político é o de retratar a estupidez humana, usando a habilidade verbal para produzir um testemunho contra. Mas ele parece ter optado por denunciar a estupidez praticando-a.  (por Josias de Souza)
"...suncê num tem sido muito bão./ Tem sido mau fio, mau marido,/ inda
puxa saco di patrão./ Fez candonga di cumpanheiro seu,/ ele botou feitiço
em suncê,/ agora só o ôme à meia noite/ é que seu caso pode resolvê..."

domingo, 31 de março de 2019

O EXEMPLO DE SÓCRATES AINDA INSPIRA O CORINTHIANS: GANHAR OU PERDER, MAS SEMPRE COM DEMOCRACIA!

encontro com a ditadura – 19
Enquanto os nostálgicos da ditadura militar celebravam o período mais vergonhoso da História brasileira, o Corinthians aproveitava a semifinal do Paulistão/2019 para reverenciar a memória de um dos seus maiores craques e líder da chamada democracia corinthiana, que revolucionou o relacionamento entre jogadores e dirigentes, sepultando o autoritarismo tradicionalmente praticado pelos cartolas do nosso futebol. Trata-se, evidentemente, de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
O doutor Sócrates foi também grande defensor da redemocratização do país em 1984, quando participou ativamente da campanha das diretas-já, chegando a prometer que recusaria uma proposta milionária da Itália caso a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada pelo Congresso.
Com autorização da diretoria do clube, sua estátua ficará exposta na Arena Corinthians, juntamente com uma faixa daquela época que acaba de ser reencontrada: ganhar ou perder, mas sempre com democracia! 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

"Em que momento o Peru tinha se f...?", pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzirem os acontecimentos no sentido do eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

HÁ ELEIÇÕES QUE SE PODE PERDER, MAS ESTA NÃO É UMA DELAS!!!

celso rocha de barros
PT, VOLTE A SER DIGNO DA HORA
O PT está prestes a ganhar algo raríssimo na política: uma segunda chance. 

O fracasso de Michel Temer e as revelações da Lava Jato sobre os partidos de direita deram sobrevida ao Partido dos Trabalhadores e colocaram Fernando Haddad no 2º turno, na eleição mais importante de nossa história. Há eleições que se pode perder, mas esta não é uma delas! 

É a chance de o PT encerrar a crise que ajudou a começar com a política econômica do primeiro mandato de Dilma Rousseff. O passo inicial, portanto, é abraçar a responsabilidade econômica que faltou a Dilma em 2012. 

O segundo passo é até mais importante: precisa abandonar qualquer ressentimento, qualquer desejo de vingança causado pela crise política que seus adversários provocaram com o impeachment de Dilma Rousseff.

Enfim, é hora de esquecer o programa do 1º turno e abraçar o programa da frente democrática que deve se formar no segundo. Esse programa deve reconhecer a necessidade de ajuste fiscal, corrigindo os defeitos do ajuste de Temer, e deixar de lado toda palhaçadinha de nova Constituição, controle da mídia e demais babaquices que intelectual petista burro enfiou no programa de governo porque estava com raiva do impeachment
Algumas dessas propostas podem até ser dignas de discussão, mas só depois de o PT reconquistar a confiança geral da população quanto à sua condição de partido responsável, na economia e na política. 

Essa é a segunda chance do Partido dos Trabalhadores, mas também é a última. Se o PT perder para Bolsonaro, há uma perspectiva real de que os pobres brasileiros não consigam mais se fazer ouvir no sistema político por uma geração. O PT não tem o direito de impor aos pobres essa tragédia sendo incompetente ou radical.

Agora é a hora do partido voltar a ser a alternativa da esquerda democrática como foi nos anos Lula. A campanha no 2º turno deve ser a mais inclusiva possível para todo mundo, da esquerda, do centro ou da direita, que defenda a democracia contra Bolsonaro.

Haddad é perfeitamente capaz de levantar as bandeiras que o PT precisa defender, mas o partido precisa deixá-lo vencer. É preciso terminar de ganhar os votos que eram de Lula entre os pobres, o que o PT sabe fazer.

Mas também é preciso ganhar terreno no centro, que não está interessado em discurso imbecil contra Lava Jato ou a favor do vagabundo Nicolás Maduro

É preciso deixar que os centristas democratas votem no PT. O partido que existiu até agora, aliás, acabou neste domingo (7). 

Serviu para manter o eleitorado lulista unido e colocar Haddad no 2º turno. Agora Haddad, junto a Jaques Wagner e os governadores do partido —que já vêm fazendo ajuste fiscal faz tempo— devem recriá-lo. 

Um partido de esquerda moderado sempre será favorito nas eleições brasileiras —o PT pode vencer a quinta presidencial seguida daqui a três semanas. É a última chance que o Partido dos Trabalhadores —de longe, o maior vitorioso de nossa história democrática, e, portanto, o maior interessado na preservação de nossa democracia —terá de desempenhar esse papel.

A sobrevivência da conversa democrática brasileira, a sobrevivência tanto da centro-esquerda quanto da centro-direita, nossa participação na comunidade das nações livres, depende da derrota de Jair Bolsonaro. 

Partido dos Trabalhadores, torne-se digno da hora. (por Celso Rocha de Barros)
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Toque do editor: ao abrir o computador para começar a propor as alterações necessárias na campanha de Fernando Haddad para o 2º turno, encontrei boa parte do que pretendia dizer já expresso no artigo do Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela universidade inglesa de Oxford.

E muito bem dito, por sinal. No que diz respeito ao quadro atual, nossa concordância é praticamente total: barrar a arrancada fascista justifica qualquer sacrifício neste momento!

Evidentemente, haverá muito a ser feito depois, já que o capitalismo continuará impulsionando a desigualdade econômica e social, a barbárie, a destruição do nosso habitat natural e a infelicidade permanente dos seres humanos: 
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— os que têm muito, por levarem existências vazias, sem comunhão com os demais seres humanos, nas quais só obtêm o que seu dinheiro pode comprar; e
                                             .
— os que têm pouco, por estarem sempre a um passo da miséria, obrigados a jornadas de trabalho massacrantes que há muito deixaram de ser necessárias e compelidos à competição canibalesca com seus iguais.
                                                      .
Mas, estamos em estado de emergência. Lembremo-nos de que, ao sucumbir às invasões bárbaras, Roma condenou a humanidade a um retrocesso atroz e a um milênio de trevas. Não temos o direito de omitir-nos face à escalada da desumanidade! (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

CORINTHIANS CAMPEÃO, COMO SE UM TÚNEL DO TEMPO NOS TIVESSE LEVADO DE VOLTA À ÉPOCA DOS TIMES HEROICOS!

Eu era menino quando o Corinthians vivia a maior seca de títulos da sua história, 23 anos de agonia.

Meu pai gostava de me falar sobre o último grande esquadrão, campeão paulista de 1951, 1952 e 1954, que tinha Gylmar, Cláudio, Luísinho, Baltazar. 

Dizia que nenhum torcedor corinthiano saía do estádio antes do apito final, pois era comum o gol de empate ou de desempate acontecer no apagar das luzes. Tratava-se de um time heroico, que fazia das tripas, coração para evitar um placar desfavorável.

E não é que hoje, seis décadas depois, o Corinthians voltou a ser um time heroico?! Sem poder contratar jogadores caros porque está pagando as dívidas de sua arena; com um técnico (Fábio Carille) no qual ninguém acreditava mas, em 16 meses de trabalho, já se coloca entre os mais vencedores pelo timão em todos os tempos (um campeonato brasileiro e dois paulistas); e com um elenco extremamente unido e esforçado, vai atingindo seus objetivos mais na base do heroísmo do que do brilhantismo.

Foi brilhante, sim, em 2017, nas partidas finais do Paulistão e no 1º turno do Brasileirão, mas por conta das inovações táticas do Carille e por ainda contar com um homem-gol que fazia a diferença (Jô).
Em 2018, nem isto. A forma de o Corinthians jogar, dando a posse de bola ao adversário e apostando no contra-ataques, foi assimilada e anulada pelos adversários. Perdeu três titulares importantes (Jô, Arana e Pablo) e só conseguiu um substituto à altura para o terceiro (Henrique). Jô faz enorme falta.

Mas, acaba de ser bi do Paulistão graças à disciplina tática e ao espírito vencedor. Nos mata-mata decisivos, contra Bragantino, São Paulo e Palmeiras, perdeu sempre a primeira partida e reverteu a situação na segunda.

Estava sendo desclassificado até os 47 minutos do 2º tempo pelo São Paulo quando deu um branco na defesa tricolor e Rodriguinho, com seu 1,77 m de altura, subiu sozinho para mandar às redes uma cobrança de escanteio. Depois, na decisão por pênaltis, o gigantesco goleiro Cássio defendeu dois e garantiu a vaga.

Neste domingo, quase a mesma coisa, só que o gol do Rodriguinho aconteceu na outra ponta da partida, 1m30 de jogo. Passou o resto do tempo se defendendo com perfeição, sem oferecer chances nítidas de gol para o Palmeiras. E, nos pênaltis, Cássio repetiu a dose, pegando dois (o primeiro com menos dificuldade, o segundo espetacularmente, como da outra vez).
Isto apesar de todas as desvantagens: enfrentava o clube brasileiro que atualmente mais investe em reforços, jogando na arena adversária, tendo torcida única contra si e já começando a final em desvantagem (o 0x1 do jogo anterior). Em matéria de superação, um feito inesquecível, típico de um time heroico.

Sempre prezei mais a inspiração do que a transpiração; gosto mesmo é do futebol-arte, com lances geniais, como o da Seleção Brasileira de 1958, 1970 e 1982 e o da democracia corinthiana do doutor Sócrates. 

Mas, têm lá seu encanto esses times heroicos que parecem ser a alegria que nos resta depois do êxodo dos nossos melhores talentos para a Europa. 

A perda de qualidade acaba determinando um aumento da dramaticidade. E podemos, pelo menos, vibrar com os Davis que obtêm conquistas improváveis, detonando o favoritismo dos Golias.

A dúvida é: até quando o torcedor se dará por satisfeito com a emoção, sem ligar para outros detalhes. Como, p. ex., o de que, nas seis partidas finais do Paulistão, disputadas apenas pelos grandes, tivemos cinco 1x0 e um único e mísero 2x1, levando as três decisões para os pênaltis. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

IMPERDÍVEL: UMA CRÔNICA ESPORTIVA LANCINANTE, SOBRE A VOLTA POR CIMA DA CHAPECOENSE E O QUE DEIXOU PRA TRÁS!

Toque do editor
Desde muito jovem acompanho o futebol, sem nenhum desdém elitista pela paixão que empolga as multidões no Brasil. 

E foi cedo também que comecei a curtir o trabalho dos comentaristas esportivos que lançavam/lançam um olhar diferenciado sobre o esporte, com abordagens mais ricas, características de cronistas. 

Casos do Nelson Rodrigues; do Antônio Maria; do João Saldanha; do Alberto Helena Jr. e do Roberto Avallone dos tempos do Jornal da Tarde (depois ambos caíram na mesmice); das memoráveis colunas do dr. Sócrates na Carta Capital; e das de outro craque do bisturi, da bola e do teclado, nosso bom Tostão. 

Até agora, nunca havia lido algum escrito mais marcante do André Rocha, blogueiro do UOL que fez constar na sua apresentação o seguinte: "Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto". 

Um bom ponto de partida, mas não era exatamente o que eu via nos seus textos, a abordagem do futebol como algo maior do que um simples jogo, um teatro da vida com episódios intensamente dramáticos.

Até esta 2ª feira (4), quando André Rocha me deixou arrepiado com a coluna abaixo, sobre a redenção esportiva da Chapecoense e a sombra da tragédia até hoje pairando sobre a Arena Condá.

Permito-me inclusive ir um pouco além de suas brilhantes ponderações: será que, com toda a boa vontade que havia no Brasil e em tantos países para com a Chapecoense, o clube não poderia ter reconhecido abertamente sua impossibilidade de pagar indenizações justas às famílias das vítimas do acidente, lançando um SOS mundial neste sentido?

Leiam e reflitam.

TODO FEITO DA CHAPECOENSE CARREGARÁ 70 ASTERISCOS

Por André Rocha
Melhor campanha do returno do Brasileiro e classificação para a fase preliminar da Libertadores. Em qualquer tempo, o feito seria histórico para um clube como a Chapecoense, sem o apelo popular e os recursos financeiros dos grandes clubes dos principais centros do país. 

Um ano depois de perder praticamente todo o elenco, comissão técnica e direção torna tudo ainda mais grandioso, épico, inesquecível. Cinematográfico – e é mais que provável que essa saga chegue aos cinemas e seja lembrada para sempre. 

Méritos da nova diretoria, de Gilson Kleina e comissão. Principalmente dos atletas, que se reuniram em janeiro e tiveram que construir uma história praticamente do zero, sem uma base para sustentar. Campeão estadual, campanha digna na Libertadores interrompida por uma questão extracampo, mas vencendo o vice-campeão Lanús na Argentina pelos mesmos 2 a 1 que deram o título continental ao Grêmio. Fez o Fez o que pôde na Recopa Sul-Americana, na Copa do Brasil e na Sul-Americana. 

A Chape acertou ao não aceitar ser tratada como café com leite, protegida do rebaixamento em 2017. Foi competitiva ao longo do ano e volta à Libertadores desta vez sem precisar da compaixão de ninguém, mesmo a mais que louvável do Atlético Nacional que cedeu o título da Sul-Americana. 
Foi bonita a festa, pá, fiquei contente...

As imagens da comemoração são tocantes, especialmente quando mostram os sobreviventes Jackson Follmann, Alan Ruschel e Neto celebrando o milagre da vida. De fato emocionam.

Mas, pelo menos para este que escreve, é difícil permitir que se escape uma lágrima pelos vitoriosos de hoje sem chorar antes pelos que se foram há pouco mais de um ano. Setenta vítimas de um assassinato em massa cometido por um piloto suicida, por pura ganância. Impossível não lamentar por seus destinos e de seus familiares. 

Sim, é uma questão delicada, de difícil análise. Pois sempre ficará a pergunta: qual a indenização justa para os que perderam seus entes queridos, a grande maioria deles como maior fonte do sustento da família? 

Só há dois olhares possíveis: do clube e seus responsáveis, que precisavam seguir em frente, fazer escolhas e estabelecer prioridades para continuar existindo num cenário complicado e inédito. Se a Chapecoense priorizasse o pagamento de indenizações justas – ou seja, o que cada vítima receberia em sua vida profissional com valores corrigidos e mais um adicional pelo acidente em si – teria que vender todo seu patrimônio, incluindo a Arena Condá, e fechar as portas. E mesmo assim não conseguiria arcar com os custos. 
...mas muitos destes continuam amargurados e esquecidos.
Já o dos familiares é de quem possui o direito de ser compensado por nunca mais poderem olhar nos olhos dos que amavam. Os sonhos desfeitos e as ausências não têm preço. Mas a vida precisa continuar e é muito injusto que o padrão de vida tenha que se adequar a uma realidade construída pela destruição que partiu de uma empresa aérea irresponsável e amadora e um clube que aceitou os serviços desta. Uma tragédia que podia ter sido evitada. Não foi acidente. 

O ano mostrou a Chapecoense rodando a Europa. Em Barcelona conhecendo Messi, visitando o Papa Francisco em Roma, ganhando o carinho do planeta. Com exceção de Ruschel, Neto e Follmann, nenhum deles tinha relação direta com o ocorrido. Desfrutaram por consequência. Os mortos e seus parentes ficaram com a pior parte do bolo. É difícil digerir. 

Pelo contexto, há responsabilidade até pelos profissionais de imprensa que perderam suas vidas. Afinal, a logística da viagem para fazer a cobertura da final da Sul-Americana era complexa e o mais lógico a fazer era mesmo acompanhar a delegação.

Tudo muito difícil de aceitar, por mais que se entenda a posição de um clube com pouco mais de 40 anos de existência e que talvez nem estivesse pronto para tomar decisões tão importantes. 

Por mais que tenhamos consciência de que vivemos em um mundo repleto de dores e injustiças e a trajetória de cada um deve seguir apesar disso, não há como colocar um sorriso completo no rosto quando a Chapecoense vence e reescreve sua história. 

Porque todo feito do clube carregará sempre 70 asteriscos.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CORINTHIANO SIM. POR QUE NÃO?

Meu post antecipando o heptacampeonato surpreendeu um comentarista: ele não me supunha corinthiano. Isto me levou a pensar um pouco sobre os 63 anos em que o sou – sem jamais tê-lo ocultado, aliás. 

Acabei redigindo estas mal digitadas linhas, sobre os recuerdos de uma relação que ora foi de amor, ora de indiferença (nas fases em que praticou futebol horroroso, como quando Mário Sérgio era o técnico), mas nunca de desprezo pela paixão ingênua de um povo que tanto carece de gratificações. 

Meu pai perdeu o dele aos 10 anos. Era um italiano imponente, que só vi numa foto mofada, com traje de caçador. Viera ao Brasil para comandar uma tecelagem no Rio de Janeiro, de forma que Papai só veio conhecer o futebol paulista depois que minha avó, ao enviuvar, teve de mudar-se com a filharada para São Paulo, onde tinha parentes que a ajudariam.

Daí ter sido bem tênue sua ligação afetiva com a Itália. Nem sequer se tornou torcedor do time da colônia italiana, o Palmeiras. Talvez por trabalhar em fábrica desde os 11 anos, escolheu o que representava os operários, os baianos e toda a gente humilde: o mosqueteiro Corinthians, que, como os de Dumas, travava duelos desiguais com os poderosos e muitas vezes os vencia.

Quando eu acabava de completar quatro anos, a molecada da rua me perguntou para qual time torcia. Nunca pensara nisto, mas achei que ficaria diminuído se não apontasse algum. Disse Corinthians, talvez por influência do meu pai, talvez por causa do título recente, de campeão paulista de 1954. Meio por acaso, fiz a escolha mais apropriada para o homem que eu me tornaria: um defensor das causas do povo.
O jogo que pôs fim a 11 anos de humilhações

Minhas lembranças corinthianas seguintes são do ano de 1960. Em março, num sábado à noite em que os avós maternos estavam viajando, Papai me levou para assistir na TV deles, casa vazia, um Corinthians e Portuguesa de Desportos sem grande importância. O baiano Zague, que seria lembrado como artilheiro dos gols espíritas, marcaria um aos 15 segundos (!) de jogo e outro, mais prosaico, no 2º tempo. 2x1.

No último dia de julho, um domingo, acompanhei-o no seu bico de fim-de-semana: recolher apostas nas corridas de cavalo, também na casa do meu avô. Os apostadores eram vizinhos e amigos, passavam a tarde lá, bebendo, jogando cartas, assistindo aos páreos que passavam na TV Paulista, canal 5. No resto do tempo, futebol na TV Record, canal 7. 
Rivelino comandou uma virada inesquecível sobre o Palmeiras em 1971

Jogavam o poderoso Santos e o frágil Corinthians na Vila Belmiro. Pelé marcara para o Santos. Aí, aos 20' do 2º tempo, um escanteio foi cobrado na direção da meia-lua da área santista e o veterano Luizinho empatou, acertando belíssimo sem-pulo. Eu, que nunca vira um deles, fiquei maravilhado. 

Nenhum dos que estavam entretidos com as novidades do hipódromo e com o baralho percebeu. Contei e não acreditaram. Aí, quando anunciaram o placar na transmissão, alguém comentou: "É não é que o garoto estava certo?!". Fiquei inchado de orgulho.

O castigo veio na partida seguinte, que eu escutei pelo rádio: numa tarde de 4ª feira, no estádio corinthiano (a fazendinha), o Jabaquara ganhou de 3x2, selando a sorte do inesquecível goleiro Gylmar dos Santos Neves. 
Guerreiros de Osvaldo Brandão tiram o Corinthians da fila, enfim! 

O time praiano tinha um cobrador de faltas especialista, Hélio, que no 1º tempo fez 2x0 encobrindo a barreira corinthiana. Os donos da casa suaram sangue e empataram. Aí, aos 39' do 2º tempo, nova falta. Gylmar, para não ser atrapalhado pela barreira, mandou abrir. Só que o Hélio, ao invés de um chute colocado, desferiu um petardo indefensável. 

Como Gylmar tinha proposta do Santos, a torcida concluiu que ele jogara desinteressado e o hostilizou. Tal injustiça foi a pá de cal para ele tomar a decisão de mudar de ares.

O primeiro jogo do Corinthians a que eu assisti no estádio foi um dérbi no Pacaembu, pouco antes de completar 14 anos. Fui com um colega do ginásio, palmeirense, pegando um ônibus da Mooca até o centro velho, depois a linha especial para torcedores no vale do Anhangabaú. Chegamos tarde e só conseguimos um lugar na geral, atrás de um dos gols, sendo obrigados a ficar na ponta dos pés o tempo todo. Para piorar, desabava a maior chuvarada.
Flamengo goleado: foi o canto do cisne do time da democracia.

O Corinthians, com uma equipe bem inferior à do Palmeiras, marcou um gol de pênalti no comecinho da partida e sustentou o bombardeio adversário pelos 83 minutos restantes. A dificuldade para voltar foi maior ainda, tivemos de caminhar pela avenida Pacaembu até conseguirmos pegar um ônibus que não estivesse transbordando de passageiros. Mesmo assim, valeu a pena.

Foi também no ano maldito de 1964 que tive grande esperança de ver o Corinthians sair da fila que já durava uma década. Faltando quatro rodadas para o encerramento do Campeonato Paulista, estava em 1º lugar, dois pontos à frente do Santos (vitória naquele tempo só valia dois), mas com três clássicos pela frente.
A promessa solene de um jogador maior do que o futebol

Fui assistir ao primeiro e saí com a cabeça inchada: derrota por 4x2 diante da Portuguesa de Desportos. De positiva, só a recordação de que choveu e muitos torcedores sentaram sobre jornais para não molhar o traseiro. A chuva acabou e os que estavam em cima começaram a atirar as folhas molhadas, que grudavam nas costas dos que estavam em baixo. Estes devolviam para cima, como nas guerras de torta dos filmes de pastelão.

Torcedores dos dois clubes misturando-se nos mesmos espaços, rindo e brincando como crianças, sem altercações. Disto para as torcidas únicas nos clássicos de hoje, que terrível retrocesso! Parece que recuamos um milênio.
1990: 1x0 no São Paulo garantiu o 1º dos 7 títulos do Brasileirão.

No fim de semana seguinte, desconfiei que perderíamos do Palmeiras e tomei a sábia decisão de ficar em casa: aproveitando o desfalque do lateral-esquerdo Oreco, o ponta Gildo deitou e rolou, abrindo caminho para três gols do Servílio: 4x1.

Finalmente, o clássico decisivo com o Santos, num sábado à tarde no Pacaembu. Fui com um grande amigo corinthiano, chegamos cedinho e ele tinha grana para bancar ingressos de arquibancada. 

A preliminar foi fantástica, decisão do campeonato de aspirantes, com o Corinthians enfiando 6x3 no Palmeiras. O melhor jogador logo em seguida ascenderia à equipe principal, era um tal de Roberto Rivelino... 
No Mundial de 2000, um jogo inesquecível contra o Real Madrid.

Até aí, tudo ia bem demais. Depois, o caldo entornou. Mesmo lutando como leões, os titulares perderam do Santos por 7x4, com Pelé (fez quatro gols) e Coutinho (três) em tarde infernal. Só aguentamos ficar até o 5x2. Saímos chutando latas de lixo.

Outros interesses foram então me absorvendo. Em março de 1968, p. ex., como eu estava todo voltado para o movimento estudantil, foi só pela TV que eu vi o Corinthians quebrar um tabu de 11 anos e 22 partidas pelo Campeonato Paulista, derrotando o Santos por 2x0, numa partida disputada com portões abertos no estádio do Pacaembu (em razão de não terem sido reembolsados os pagantes do jogo na Vila Belmiro, interrompido no 1º tempo por causa do desabamento de uma arquibancada).
Goleada histórica sobre o Santos em 2005 foi o troco pelo tabu

Vieram a luta armada, a prisão, o tempo que passei numa comunidade alternativa recuperando-me dos traumas e descarregando as frustrações. Só voltei a me interessar pelo futebol em 1977, quando um Corinthians mais guerreiro do que brilhante afinal voltou a ser campeão paulista, depois de uma agonia de 23 anos. Valeu pelo desafogo.

A contratação do Sócrates me chamou de volta para os estádios. Eu já passara da fase de obcecado por vitórias a qualquer preço, queria é ver meu time dando show de bola. A técnica refinada e a inteligência do doutor na leitura das jogadas se evidenciavam muito mais com a visão do todo do que com os focos limitados das tevês antigas. 
Volta à divisão de elite em 2008 iniciou o atual circulo virtuoso

Foram gloriosas as duplas por ele formadas com o Palhinha e depois com o Casagrande. E que cracaço era o Zenon! Um jogador sutil e cerebral como o Jadson, mas muito superior nas cobranças de faltas, cheias de veneno.

Foi quando assisti no Morumbi um partida de sonhos, pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1984. Depois de perder do grande time do Flamengo por 2x0 no Maracanã e apesar da descrença generalizada de que pudesse tirar tal desvantagem, o Corinthians, que tinha a vantagem do emparte, cumpriu a tarefa já no 1º tempo, depois fechou a fatura em 4x1. Eu não sabia, mas estava vendo um canto do cisne.
Dois anos após seu centenário, o Corinthians conquistou a América...

Com a democracia corinthiana, uma alternativa ao mandonismo da repulsiva cartolagem  (e afinada com a luta política pela redemocratização do País!), duas das minhas grandes paixões se encontraram. Vibrei quando, numa manifestação pelas diretas-já no Vale do Anhangabaú, situado a uns 20 metros do palco, vi e ouvi Sócrates prometer que, se a Emenda Dante de Oliveira fosse aprovada pelo Congresso Nacional, ele recusaria a oferta milionária da Fiorentina e ficaria aqui para ajudar-nos a reconstruir o Brasil. 

Os canalhas que fizeram o País sair da ditadura pela porta dos fundos, contribuíram também para decretar o fim de um dos períodos mais belos da história corinthiana.
...e o mundo (num dia em que o Cássio pegou até pensamento!).

Vieram os reinados de Neto e de Marcelinho Carioca, a supremacia que o Corinthians assumiu no Campeonato Brasileiro das duas últimas décadas, as maiores conquistas em sua trajetória secular (a Libertadores e o Mundial de 2012)... 

Mas, o Corinthians passou a se caracterizar principalmente pela força coletiva, processo que acaba de chegar ao auge na conquista de 2017: nunca houve uma disparidade tão acentuada entre a excelência da maioria dos resultados alcançados e o que se poderia esperar de um elenco pouco mais do que mediano. O conjunto ultrapassa em muito a soma das partes.

Tanto que, mais do que o artilheiro renascido das cinzas Jô, a maioria da imprensa encara acertadamente o técnico Fábio Carile como o principal responsável pelo título.
A apoteose da esnobada quarta força do futebol paulista
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