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terça-feira, 25 de setembro de 2012

O PRODUTO DESEJADO PELOS ELEITORES DE SAMPA: UM NOVO CONSERVADOR

O jornalista Paulo Francis estava certíssimo ao qualificar a sociedade de consumo de  inferno pamonha, ou  bocó. Acertou na mosca.

Até a segunda metade do século passado, as criticadas elites procuravam, pelo menos, tornar o cidadão comum melhor do que era. Podia-se, claro, discordar do tipo de melhora que tinham em mente, mas não do conceito de que nossa jornada na Terra deva ser evolutiva. Não nascemos prontos, construímo-nos ao longo da vida.

A sociedade de consumo modificou para pior, bem pior, tal equação.

Os homens deixaram de ser tratados como cidadãos. Passaram a ser encarados, isto sim, como  consumidores. Não são mais  gente, são  mercado.

Então, não se questionam mais seus desejos. Se alguém estiver querendo comprar, haverá alguém disposto a vender. Literalmente  tudo, seja às escâncaras ou por baixo do pano.

Em termos psicológicos, isto significa, simplesmente, que as pessoas são mantidas numa eterna infância. Não superam mais o narcisismo inicial. Não encontram mais a justa medida entre o que querem e o que podem. Não aprendem que sua felicidade depende da felicidade dos outros, que sua satisfação e seu prazer serão muito mais completos se compartilhados.

Ao mesmo tempo, os objetos de consumo pelos quais tanto anseiam nunca são plenamente satisfatórios. E as vítimas da engrenagem infernal do sistema passam a vida inteira correndo atrás do que jamais obtêm, adquirindo o que não precisam e trabalhando sofregamente sem que haja justificativa real para tanto estresse e tanto enfarte.

Este é o motivo maior do declínio da esquerda nas últimas décadas. O que oferecíamos era uma perspectiva de sociedade melhor, na qual as pessoas se tornariam melhores: era o ideal do homem novo. 

Os consumistas passam a vida apaixonados pelo próprio umbigo e querendo ter o mundo como espelho, pois anseiam pateticamente por verem-se nele refletidos. Não o pretendem melhorar, o que gostariam é de melhorar a própria posição numa sociedade desumana e injusta. Vai daí que hoje são bem poucos os que se dispõem a dedicar a vida aos grandes ideais.

Há meio século a Escola de Frankfurt previu que chegaríamos exatamente a este  inferno pamonha, no qual os indivíduos perderiam o controle sobre suas próprias vidas, sem nem mesmo atinarem com os motivos de sua infelicidade, mesmerizadas pela influência atordoante da indústria cultural.

O que fazer? --indagaria Lênin.

Herbert Marcuse apostava que tal manipulação cientificamente implementada seria capaz de evitar que a maioria formasse uma consciência crítica, mas não que acontecessem, em determinadas circuntâncias, explosões espontâneas de revolta. Não dá para represar-se tudo. E as contradições insolúveis do capitalismo estão aí para fornecerem os estopins de tais explosões espontâneas; caso da crise econômica global.

Como nós, da esquerda, devemos nos comportar nos  intervalos  entre tais explosões espontâneas, nas marés vazantes, quando as massas não estiverem dispostas a nos acompanharem em voos mais altos?

É uma questão crucial.

Podemos manter a coerência com nossos ideais e, mesmo não influindo decisivamente nos acontecimentos políticos, continuarmos contestando as injustiças sociais, as formas mais sofisticadas de exploração do homem pelo homem que hoje predominam, a desumanização que o capitalismo promove e barbárie à qual nos conduz. Assim, estaremos nos qualificando para liderar contingentes mais amplos quando estes acordarem do coma induzido pelo sistema.

Há os que preferem combater o monstro com as armas do monstro, acreditando que não se tornarão monstruosos. No entanto, acabam é igualando-se ao que combatem. Não mudam o mundo; são mudados pelo mundo.

CANDIDATURAS IDEOLÓGICAS x CANDIDATURAS DE CONSUMO

Se o que os eleitores
queriam era um monstro...
É chocante, p. ex., vermos as eleições se tornarem uma disputa de quem melhor se encaixa no perfil de candidato identificado exatamente pelos métodos que as empresas utilizam para avaliar a viabilidade de  produtos: pesquisas qualitativas e as inferências dela extraídas pelos analistas.

Na eleição paulistana, o  produto  assim determinado como o de maior aceitação potencial no mercado seria um candidato ao mesmo tempo  novo  e  conservador.

Isto explica o empenho do Lula em impor o Fernando Haddad, que nem de longe tem a  cara do PT, mas se encaixa na imagem do  novo.

O PMDB também apostou numa figura de galã de telenovela, Gabriel Chalita.

O PSDB pensou que desse para maquilar o (hoje) conservador José Serra, fazendo-o parecer bem mais novo do que é. Botou-o para pedalar, para subir em skates, para bater pênaltis, etc., mas a mágica besta não funcionou: ele quase caiu do skate,  isolou  o sapato e mergulhou o ridículo, tornando-se o alívio cômico da campanha na internet.

Como já tinha a preferência  de cabresto  dos evangélicos zumbificados e dos videotas acostumados a vê-lo posar de paladino dos consumidores, o  novo conservador  para o qual o eleitorado está pendendo é Celso Russomanno.

Pior: com parcela substancial de votos tradicionalmente petistas.

Então, é hora de o PT fazer uma profunda reflexão sobre se compensou abandonar as candidaturas ideológicas e aderir às  candidaturas de consumo.

...encontraram:  esta imagem
atesta o acerto da escolha.
Antigamente, quem votava no PT era por acreditar nos ideais e posturas do PT. O partido era o fator decisivo.

Agora, o candidato petista é propagandeado da mesmíssima forma e faz as mesmíssimas promessas mirabolantes dos centristas, direitistas e dos meros fisiológicos. Não tem mais sequer os cabos eleitorais voluntários, precisa contratar tarefeiros.

Então, quando a figura não convence, como o insosso Haddad, o atual eleitorado petista migra insensivelmente para um antípoda ideológico como o Russomanno.

E, se um dia houver crise grave, nestes tristes trópicos em que o golpismo nunca se torna prática definitivamente sepultada, jamais lutará pelo governante que escolheu.

O grande Plínio de Arruda Sampaio certa vez colocou o dedo na ferida: valeu a pena o PT ter chegado à Presidência com o compromisso de manter intocada a política econômica neoliberal, ou seja, limitado a gerenciar os negócios capitalistas como um FHC o faria?

Da mesma forma, não seria melhor, vencendo ou perdendo a eleição, educar o eleitorado, tentando convencê-lo de que precisa, isto sim, de um  contestador, pouco importando se novo ou velho?  Pois, prostrando-nos desta forma aos humores momentâneos das massas, o que faremos quando a maré for fascista? Escolheremos um candidato que seja clone do Mussolini?!

Há dois milênios, Jesus Cristo já dizia que não: "O que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus, 26:16).

sábado, 8 de setembro de 2012

LÁ VEM O RUSSOMANNO COM SEU EXÉRCITO DE ZUMBIS. DEUS NOS ACUDA!

Está na Folha de S. Paulo:
"Pastores da Assembleia de Deus - Ministério de Santo Amaro transformaram um culto de aniversário de seu presidente, pastor Marcos Galdino, ontem à noite, em um ato da campanha de Celso Russomanno à Prefeitura.

Os pregadores pediram que cada fiel consiga cem votos para o candidato do PRB, que teve seu número de urna divulgado no púlpito.

'Eu quero pedir um presente pra vocês. Levem o nome do Celso Russomanno para mais cem pessoas. Vocês têm família, parentes, pessoas onde vocês trabalham. Temos uma meta a ser alcançada', disse o pastor Galdino.

Ele afirmou que a sede da igreja, em Santo Amaro (zona sul), recebeu 2.000 pessoas ao longo do dia. 'Se todos alcançarem [a meta], com certeza conseguiremos mais de 500 mil votos pra abençoar sua vida', continuou.
O pastor também instou os fiéis a gritar 'glória a Deus' se quisessem 'melhor saúde, transporte e educação para nossa cidade' e que os que acreditassem na vitória de Russomanno levantassem a mão. 'Vocês creem que ele será o próximo prefeito de São Paulo?', pregou.
Boa parte da plateia levantou a mão, aos gritos de 'aleluia'. O pastor disse que falava como 'profeta de Deus'.
Após uma oração para que Russomanno seja 'bem sucedido em prol dos desígnios dessa cidade', Galdino orientou cada fiel a cumprimentar a pessoa ao seu lado no templo falando 'dez, dez abraços', em referência ao número do PRB na urna eletrônica.
Ele também criticou o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o candidato do PSDB, José Serra, que teriam sido apoiados pela igreja no passado".
É o que venho alertando há algum tempo: os  pa$tore$ eletrônico$, que propagam e tornam cada vez mais rentável o culto ao bezerro de ouro, podem se tornar uma força política de primeira grandeza caso se apossem do governo e passem a gerir o orçamento da principal cidade brasileira.

Lembrem-se: Hitler só foi tão longe porque suas futuras vítimas o subestimaram. Começando pelos socialistas que, desatinadamente, atacaram a democracia alemã pela esquerda enquanto os nazistas o faziam pela direita.   

Contando com um exército de zumbis que atuarão como cabos e tarefeiros eleitorais gratuítos, até onde os exploradores da fé poderão chegar? O céu é o limite. 

Mas, para a democracia brasileira, o quadro que se delineia é o de um inferno. Deus nos acuda!

Não tenho dúvidas: o principal inimigo a ser enfrentado pelos cidadãos conscientes, na eleição paulistana, é Celso Russomanno.

José Serra já não oferece risco nenhum.  O monopólio tucano no estado e na cidade de São Paulo saturou--e a pregação monocórdia do velho vira-casaca, mais ainda. É um cadáver político pronto para ser definitivamente sepultado no dia 7 de outubro.

Mesmo que Fernando Haddad seja, desta vez, carregado para o poder por seus tutores presidenciais, pela máquina petista e pela melhor propaganda enganosa que o dinheiro pode comprar, é ave de voo curto. Com seu carisma zero nem a governador chegará.

O papel de Gabriel Chalita na eleição se resume a puxar votos para vereadores. A vocação do PMDB não é mais a de governar, mas sim a de ser muito bem recompensado para servir aos que governam, trocando o apoio de sua bancada pelas melhores Pastas. São os  profiissionais da governabilidade...

Já o projeto concebido para Russomanno pelos mentores de sua candidatura é muito mais ambicioso. Tanto que consegue unir todos os comerciantes que atuam em tal nicho do mercado, superando as querelas habituais entre os que disputam a mesma freguesia. 

Afora o padrinho principal (aquele que ficou imortalizado no vídeo da  apoteóse do butim), Russomanno está sendo apoiado também por aqueles que escondem dólares na bíblia para burlar alfândegas e cujos templos malconservados desabam na cabeça dos fiéis.

E, como se pode ver acima, também pela Assembléia de Deus. E sei lá quantos outros   mais do mesmo.

Repito: Deus nos acuda!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

DEBATE PAULISTANO: O BOM, OS MAUS E OS FEIOS.

Debates eleitorais me provocam a mesma reação que, em tempos idos, um grande escritor teve ao ver um filme de Hollywood.

Desavisadamente, ele aceitou uma encomenda de roteiro. Mas, não frequentava cinemas nem tinha a menor idéia da besteirinha que dele esperavam. 

Os produtores, gentilmente, convidaram-no para assistir, na cabine, a uma fita mais ou menos na linha daquela que pretendiam fazer. Depois de uns 10 minutos ele foi embora, perplexo e enojado. Abandonou, claro, o projeto. Jamais desceria tanto.

No debate de candidatos a prefeito promovido na 2ª feira (3) pela Folha de S. Paulo e Rede Manchete, fiquei com pena do companheiro Carlos Giannazi, obrigado a tentar abrir caminho em meio a tantas imposturas e tantos farsantes.

A maior de todas imposturas, claro, é o fingimento de que o prefeito seja uma espécie de gerentão que toma conhecimento e supervisiona pessoalmente cada ação administrativa, com liberdade para decidir o que bem entender. Eu vou fazer, eu vou acontecer, no meu governo isto, no meu governo aquilo... que comédia de mau gosto!

Trata-se de uma ilusão forjada para  adequar a política ao consumismo que, como mola-mestra do capitalismo terminal e putrefato dos dia de hoje, é o canto de sereia que nos arrasta para as profundezas da depressão econômica e das catástrofes ambientais.

Os candidatos não passam de produtos e como tais são vendidos, quase sempre por meio de propaganda enganosa. Uns garantem que não são cavalo de tróia dos mercadores da fé, outros que ficaram alheios à corrupção com a qual estão, isto sim, amalgamados. Quem consome cervejas associando-as a mulheres gostosas e não vê diferença entre os repulsivos bancos e as doces crianças, talvez engula também os protestos de inocência desses patéticos canastrões.

Governantes, sob o capitalismo, são meros títeres do poder econômico, obrigados a obedecer caninamente àqueles que realmente mandam. Quanto maior a importância da decisão a ser tomada, menor é a sua autonomia. Cuidam do acessório e fazem o que deles se espera no fundamental.

Eleições se travam entre grupos de interesses, representados pelos partidos. O que conta, em última análise, são as agremiações e as barganhas que elas acertam ou intermediam, não as características pessoais dos que são pinçados para aparecer na vitrine. Talvez um dia se chegue à perfeição de escolhê-los nas agências de modelos.

AVALIAÇÃO DOS INTÉRPRETES

Haddad não tem o charme de Chris Sarandon
e o eleitorado vai cravar-lhe uma estaca
Uma das minhas tarefas, quando atuava em assessorias de comunicação, era treinar sapos empresários para que parecessem garbosos príncipes ao darem entrevistas. Tinha ganas de vomitar quando um desses tacanhos ganhadores de dinheiro aparentava brilhantismo repetindo uma frase que eu criara para ele (às vezes tendo de a explicar pacientemente, pois o energúmeno não captava seu sentido...).

Então, avaliando criticamente as  interpretações, considero que se desincumbiu bem do seu papel Celso Russomanno, lobo quase perfeito em sua pele de cordeiro graças à experiência adquirida na TV. Mas derrapou ao deixar transparecer homofobia quando disse que seu partido aceita ATÉ  homossexuais. [Aliás, o que mais se poderia esperar de um partideco que aceita ATÉ pastores eletrônicos dedicados ao estelionato, curandeirismo, lavagem cerebral e instigação do ódio?]

Fernando Haddad lembra fisicamente o vampirão do primeiro A hora do espanto (interpretado por Chris Sarandon), só que sem o charme. A agência de modelos teria dúzias de opções melhores para sugerir. Ao vivo e em cores, com sua total falta de jeito e de carisma, desconstrói a enganação que os marqueteiros laboriosamente criam.

Ouso antecipar que não vai ser ele o adversário do Russomanno no segundo turno, pois se apresentará canhestramente em todos os debates; nesse aí não há Duda Mendonça que dê jeito. Anotem e me cobrem depois.

José Serra é carta fora do baralho. O monopólio de poder tucano no estado e na cidade cansou, a retórica do Serra mais ainda e, para piorar, ele carrega uma mala sem alça chamada Gilberto Kassab. Doravante só conseguirá eleger-se deputado federal, como o Maluf.

José Serra não assusta mais ninguém: final
melancólico de quem já travou o bom combate
Cruelmente, o comentarista Fernando Rodrigues notou que Serra muito fez para simular jovialidade aos 70 anos, mas ficou é parecendo gagá ao trocar as bolas, confundindo o dirigente do PRB ao qual Russomanno se referira:
"...é o candidato com a idade mais avançada. Luta para parecer demonstrar vigor. De maneira subliminar, emitiu um sinal oposto".
Ex-presidente da UNE e ex-exilado político (quem te viu, quem te vê...) deveria mirar-se no exemplo dado por Plínio de Arruda Sampaio no último pleito presidencial. Não tentou em momento algum disfarçar sua condição de octogenário. Perdeu a eleição, mas ganhou respeito e admiração, além de sair com a dignidade intacta. Como não forçou a barra subindo em skates, deles não despencou.

Soninha Francine é outra que está brigando com a certidão de nascimento. Faz caras e bocas de uma moçoila de 18 anos, mas tem 45. Não deveria insistir no estereótipo MTV. As pessoas percebem.

Fez-me lembrar Heloísa Perissé, fingindo ter um terço de sua idade real (46), ao contracenar com os realmente jovens em O diário de Tati (o que um bom pai não suporta por suas princesas?!).

Levy Fideles é candidato de si mesmo e mais ninguém; deve gostar muito de sua imagem no espelho.

Paulinho da Força se esforça, mas a referência à pequena bancada do PSOL foi infame. Lênin provocou risos no primeiro semestre de 1917, ao afirmar que seu minúsculo Partido Bolchevique estava pronto para assumir as responsabilidades do poder na Rússia. No semestre seguinte ele provou que estava.

Este é o verdadeiro palco para os candidatos
de esquerda: aqui Giannazi prevalece
Gabriel Chalita é o simpático galã com que o Lula sonhava ao impor a candidatura de um eterno coadjuvante (Haddad). Poderá vir a ser a cara nova para a qual o eleitorado se voltará, até porque seus passaralhos de professores no passado não pegam tão mal quanto as  ligações perigosas  e projetos disparatados do Russomanno.

Quanto ao Giannazi, tem trajetória irrepreensível, uma história edificante (quantos, hoje em dia, prefeririam ser expulsos do partido do que trair seus eleitores e suas convicções?) e representa aos que travamos o bom combate. 

Ele é o que o Serra um dia foi e os demais nunca foram nem serão: um personagem de envergadura histórica. 

Mas, ao que tudo indica, não conseguirá sobressair como é necessário  se continuar respeitando as regras de um jogo de cartas marcadas. 

Com suas promessas mirabolantes, imagens recauchutadas/maquiladas por marqueteiros, máquinas políticas poderosas e investimentos maciços em propaganda (uma frase imortal do Zé Celso Martinez Correa: "Os publicitários são filhos de Goebbels"), os candidatos do sistema conseguirão convencer o eleitorado de que serão melhores prefeitos, tendo como referencial o perfil desideologizado de prefeito que a indústria cultural martela dia e noite.

Eu tentaria me apresentar aos telespectadores como a alternativa: o prefeito dos humilhados, ofendidos, explorados e excluídos, em contraposição aos que não passam de candidatos... a humildes serviçais dos poderosos. 

Está na hora de ouvirmos a palavra revolução orgulhosamente proferida num desses debates de TV, como o objetivo final dos nossos esforços. Os ventos de mudança, aliás, sopram em nosso favor. 

Como disse um dos maiores heróis deste país que tão poucos produziu, cabe-nos ousar lutar, ousar vencer, assumindo o que temos de melhor e o que mais nos diferencia desses farsantes: somos revolucionários!

domingo, 26 de agosto de 2012

O QUE EU FAÇO NO MEIO DESTA ELEIÇÃO?

Apesar de existirem milhares de filmes que podemos baixar na internet, ainda não consegui colar no meu álbum algumas  figurinhas carimbadas. Pacientemente, torno a procurá-las de tempos em tempos, apostando em que algum internauta as acabará disponibilizando para download.

Caso de uma western humorístico que vi há quatro décadas, O que eu faço no meio desta revolução?, dirigido por um mestre do bangue-bangue à italiana (Sergio Corbucci) e protagonizado pelo extraordinário Vittorio Gassman. Como ninguém postou legendas, de nada me adianta o torrent do filme, pois não entendo de ouvido o idioma dos meus avós.

Lembro-me remotamente das agruras do ator que, em turnê pelo México, envolve-se casualmente com a revolução de Villa e Zapata, passa o tempo todo tentando safar-se do imbroglio, mas, no final, a acaba assumindo e, parece-me, tendo morte heróica.

É como às vezes me sinto em relação à campanha eleitoral.

A Folha de S. Paulo mancheteia neste domingo que 64% dos paulistanos querem ver mantida a obrigatoriedade do horário eleitoral em rádio e TV. O horror, o horror!

Nem o fato de que qualquer dia aparecerei durante segundos na propaganda do PSOL (o suficiente apenas para cruzar os braços e encarar os telespectadores...), me faz ter a mais remota simpatia pelo interminável desfile de candidatos patéticos, que sempre relacionei a outra fita italiana, esta uma obra-prima de Ettore Scola: Feios, sujos e malvados (1976, c/ Nino Manfredi).

Para quem vê na política o instrumento para transformar a sociedade, no sentido de despertá-la do pesadelo capitalista e propiciar o advento da "terra da amizade, onde o homem ajuda o homem" (belíssimos versos de um dos temas musicais de Arena conta Zumbi), nada pode ser mais depressivo do que tal demagogia grotesca e delirante, tal toma lá o voto sem quase nunca darem cá a ninharia que prometem, tal carnavalização como forma de chamar atenção, tais ambições pequenas de pessoas idem.

O que o Giannazi, um homem idealista, articulado e de trajetória política exemplar, tem em comum com esses farsantes medíocres, esses Russomannos, Haddads e Chalitas? Nada, absolutamente nada. 

É um Gulliver obrigado a disputar espaço com liliputianos... que, se não conseguirmos tirar leite de pedra, acabarão prevalecendo sobre ele por terem poderosas máquinas partidárias, muito mais recursos financeiros, exposição maior na mídia e no horário eleitoral, mensagens que vêm ao encontro das aspirações dos eleitores aferidas em pesquisas qualitativas, etc.

Tratar uma candidatura como produto tem tudo a ver com a sociedade de consumo; é a linguagem a que o grande público está habituado e condicionado. Quem se propõe a aclarar as consciências ao invés de embotá-las leva enorme desvantagem.

O verdadeiro palco para a esquerda sempre foram  as escolas, as ruas, campos e construções, onde o contato com as massas é direto e dramático, não as telinhas que separam  os homens dos outros homens para que, cada um por si, sucumbam mais facilmente à manipulação e à desumanização. 

Mas, se participarmos do mafuá eleitoral gratuíto é ruim, pior ainda seria se nem esta ínfima brecha aproveitássemos para tentar sensibilizar os corações e despertar as mentes.

Em circunstâncias muito raras e especiais, os Davis conseguem vencer os Golias. Só que, se não formos com nossas fundas para o campo de batalha, nunca saberemos se estávamos ou não diante de uma dessas oportunidades únicas. 

Como disse o Vandré numa canção de homenagem ao Che, "Quem afrouxa na saída/ Ou se entrega na chegada/ Não perde nenhuma guerra/ Mas também não ganha nada".

quarta-feira, 21 de março de 2012

FEIOS, SUJOS E MALVADOS

O papelão do Serra é o sarcástico título do artigo (vide aqui) em que o jornalista Gilberto Dimenstein relembra como arrancou de José Serra, em 2004, a promessa de não renunciar à Prefeitura de São Paulo para disputar cargo mais elevado adiante. Como todos sabem, Serra acaba de minimizar o episódio, fazendo uma declaração das mais infelizes:
"Assinei um papelzinho, não era nada oficial".
Dimenstein rebate que, embora Serra agora chame o documento de papelzinho, tratou-se, isto sim, de "um papelão, por desrespeitar a palavra empenhada e o valor de uma promessa".

O jornalista pegou Serra no pulo durante uma daquelas sabatinas a que a Folha de S. Paulo submetia os candidatos a prefeito. É óbvio que, naquele momento da campanha, seria desastroso para Serra não rechaçar categoricamente a hipótese de renúncia no meio do mandato.

Mas, se sua assinatura lhe facilitou a conquista do objetivo imediato --vencer a eleição--, tornou-se um bumerangue que a toda hora o atinge, deixando em cacos a sua imagem.

O ato em si, de ter governado meros 15 meses ao invés dos 48 que os paulistanos lhe concederam, já repercutiu pessimamente. Numa pesquisa que o DataFolha realizou três semanas atrás, 76% dos paulistanos disseram lembrar-se do episódio; 66%, que ele agiu mal; 70%, que ele não deveria fazer isso novamente; e 66% afirmaram acreditar que ele repetirá a dose em 2014, desertando para disputar a Presidência da República.

Quanto a firmar um compromisso e não honrá-lo, isto vai contra os princípios de todas as pessoas dignas.

Lembro-me do meu saudoso avô, fabricante de móveis, que mandava desembalar a mercadoria já pronta para entrega se via um risquinho ínfimo: "É o meu nome que está nesta mesa. E o meu nome não pode circular riscado por aí", disse certa vez.

E, como minha avó o aporrinhasse com pesadelos malucos de que o mar invadiria Santos, certa vez ele desabafou na barbearia que, por certa quantia (bem abaixo do valor real), ele venderia o apartamento que lá possuía. Alguém ouviu e disse que fechava o negócio. Pesaroso, o velho preferiu perder dinheiro do que perder a dignidade.

Enfim, o neo-septuagenário Serra (aniversariou na última 2ª feira, mas parece não ter querido destacar o fato, como aquelas mulheres madurinhas que temem ver aumentadas as dificuldades para desencalhar...) viajou na maionese ao referir-se com tamanha leviandade ao que a maioria --felizmente!-- considera uma falha de caráter.

Mais um tiro na mosca de Dimenstein foi lembrar que outros políticos tiveram o mesmo comportamento de Serra, embora não chegassem ao cúmulo de desprezar a posição de prefeito da maior cidade brasileira:
"Gabriel Chalita foi eleito vereador e logo foi embora, antes de acabar seu mandato - exatamente como fizeram José Aníbal e Soninha".
A última é aquela apresentadora que tanto defendemos quando foi injustiçada pela TV Cultura e que tanto atacamos quando fez acusação igualmente injusta aos coitadezas do Pinheirinho.

Quando o filme Feios, Sujos e Malvados (d. Ettore Scola, 1976) estava em certa evidência, uma piada pronta era designar desta forma os políticos profissionais. Eles mereciam... e continuam merecendo.

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