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domingo, 15 de outubro de 2017

RECORDAR É VIVER: HÁ 10 ANOS O DÓRIA TENTOU BISAR A "MARCHA DA FAMÍLIA" DE 1964... E A PRAÇA DA SÉ FICOU ÀS MOSCAS!

Dória com o prefeito de Milão: incontinência verbal.
Ao ler no noticiário da Agência Ansa que o prefeito de São Paulo, João Dória Jr., foi deitar falação sobre Cesare Battisti em Milão, tomando o partido da Itália no tocante à extradição do escritor, meu primeiro pensamento foi o de que nossos mandatários atuais não têm a mais remota noção de que tais questões devem ser discutidas em casa. É feio ajudar estrangeiros a pressionarem o governo brasileiro, qualquer que seja o presidente da República.

E mais feio ainda fazer insinuações sobre um presidente anterior, por coincidência seu adversário político, sugerindo que Lula teria cometido algum deslize ao rechaçar o pedido italiano: "Agora temos um governo democrático no Brasil", afirmou Dória. Espero que, na primeira coletiva que der por aqui, algum repórter consciencioso lhe peça para discorrer sobre a existência ou não de um governo democrático em 2010.

Meu segundo pensamento foi o de que nada de melhor se poderia mesmo esperar de um sub-Trump desses, cuja primeira iniciativa politica mais ambiciosa, há pouco mais de 10 anos, foi articular uma pretensiosa reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (episódio de acumulação de forças para o golpe de 1964), viajando gloriosamente na maionese...

Para reavivar as lembranças, eis alguns trechos do artigo que escrevi na ocasião:

"Tenham sido 2 mil ou 5 mil os cidadãos presentes ao ato público do Cansei na Praça da Sé, o certo é que, para uma metrópole como São Paulo, isto equivale a uma gota d’água no oceano.

Na verdade, as próprias lideranças do movimento não esperavam grande coisa depois que a OAB Nacional pulou fora, deixando a decisão de apoiá-lo ou ignorá-lo às seccionais. 

E o que se viu não deu nem para salvar as aparências. Outros enterros já tiveram participação mais expressiva.

O fracasso se deveu a muitas causas.

João Doria Jr. tentou transpor para a política as fórmulas publicitárias que costumam dar certo nas campanhas eleitorais. Então, face à comoção provocada pela tragédia de Congonhas [queda de um voo da TAM que não conseguiu aterrissar no aeroporto paulistano, matando 199 pessoas] , supôs mecanicamente que se tratasse da gota d’água para a classe média passar dos resmungos virtuais ao protesto aberto. A virulência dos posts na Internet deixava exatamente esta impressão.

E foi com visão de publicitário que ele estruturou seu projeto desde o título, mais próximo dos slogans propagandísticos do que das palavras-de-ordem políticas (e que acabou se revelando extremamente inadequado, pois propiciava piadas aos adversários, que cansaram de zombar do cansaço das elites) até o foco demasiadamente difuso: querendo atingir o máximo de consumidores...

Para piorar, a ideia foi prontamente apoiada pela extrema-direita golpista que faz proselitismo na Internet e pelas correntes que até hoje não se conformam com o fato de Lula haver escapado do impeachment. Com Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho, o Partido Vergonha na Cara e o Fora Lula! apoiando o Cansei, ficou fácil para os governistas apontarem-no como uma nova Marcha da Família, com Deus, Pela Liberdade.

Afinal, além de ter todas essas ligações perigosas, o Cansei se voltava contra muitas iniquidades e não propunha solução para nenhuma delas.  Fazia sentido supor-se que sua verdadeira meta fosse, como em 1964, um golpe de Estado contra a subversão e a corrupção.

De quebra, o apoio da Fiesp, da Febraban e da Associação Comercial de São Paulo reforçou a suspeita de que se tratasse de uma conspiração dos endinheirados contra o presidente metalúrgico. E a OAB, respeitada por sua atuação exemplar durante os anos de chumbo, não acompanhou o presidente da seccional paulista [Luiz Flávio D'Urso] em sua aventura de amigo urso da democracia..."

sábado, 16 de janeiro de 2016

APOLLO NATALI: "XIXI NA DEMOCRACIA".

Por Apollo Natali
A democracia é um regime de governo terceirizado: os destinos dos povos não são traçados por eles mesmos e sim pelas mãos de terceiros, chamados de representantes do povo no governo. 

Democracia: regime em que o povo se governa a si mesmo. Não sendo possível os povos se governarem a si mesmos reunidos em assembleias em pequenas praças públicas, como era possível fazer nas diminutas cidades gregas, resta aos habitantes dos populosos países democráticos se governarem mediante a democracia representativa. Nesse caso, o povo nomeia representantes para governá-lo. Tal canseira vem de séculos.

Eis o nó górdio dessa carta branca conferida aos eleitos: costumeiramente transformam o poder da representatividade remunerada a eles conferidos pelo voto popular num balcão de negócios em benefício próprio e em mão militar para ações ditatoriais contra o povo. De posse do poder da representatividade, não cumprem as promessas de campanha e, deste modo, atestam sua inconfiabilidade. Junte-se a semente da corrupção a brotar generosamente nas almas de um punhado deles.

Mais: julgam-se detentores do poder de vida e morte sobre os cidadãos. Isto posto, agem como carrascos do povo. Parabéns à humanidade por seu sensível faro político em criar um novo regime de governo, batizado sem erro de absolutismo democrático.

É nos textos dos botecos da vida que a sabedoria popular discute com precisão o exercício da profissão de decidir em nome do povo. São convincentes as discussões de botequim sobre comportamentos descompromissados com o povo por parte dos representantes eleitos para cargos executivos, câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional. O povo? Ora, o povo!
     
Uma escritora americana arremessou na mesa do editor um livro seu, recusado sob alegação de que fugia das linhas editoriais da empresa. Imaginando surpreender, não assinou a obra, adotando um pseudônimo. A editora já havia ganhado um dinheirão com a publicação de livros de sucesso dela. Num um artigo, a moça classificou o desprezo por seu livro como um xixi de má pontaria espirrado na literatura.

Mal comparando, mas comparando, eu me dou ao luxo de considerar como um interminável banho de xixi na democracia a eterna omissão dos representantes do povo, que jamais governam como-o-povo-quer-se-governar. De novo, comigo: o povo? Ora, o povo!

Assim sendo, é compreensível esperar chuva de xixi na democracia depois das eleições de 2016 na cidade de São Paulo. Mais uma vez pode não fazer parte da linha da editora --no caso os representantes do povo no governo-- a obrigação de fazer o papel do povo no governo.      

Por seu gigantismo e poderio econômico a capital paulista é o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América Latina, bem como a cidade mais populosa de todo o hemisfério sul e a sexta do planeta, com quase 20 milhões de habitantes. Gera, sozinha, mais de 12% de todo o PIB brasileiro.

Os famintos de poder que correm atrás da autorização do povo paulistano para governar essa mega-cidade em seu nome já somam meia dúzia. Dois têm cacife certo para finalistas: Celso Russomano e João Dória Jr.

A credencial de finalista de Russomano é garantida por sua fama em programas de defesa dos consumidores na TV, embora ele não defenda de uma só vez todos os 200 milhões de consumidores brasileiros sempre lesados. Um de cada vez, com aquele seu devido estardalhaço-demagógico-pessoal exibido na telinha. Uma esmola.

João Dória Júnior, jovem mega-empresário de sucesso mundial, tem sua credencial igualmente garantida por sua fama granjeada na TV em programas de jornalismo de celebridades da área empresarial. Credencial de finalista robustamente garantida, principalmente por ter apoio inquebrantável do governador de São Paulo.

O retrato falado dos dois famintos de poder garante à meteorologia política anunciar a continuidade de tempestades de xixi na democracia em São Paulo:
  • Celso Russomano - Suas vulnerabilidades são várias. Entre elas, a antiga aliança com Paulo Maluf, tendo sido o candidato do Partido Progressista ao governo de São Paulo em 2010. Respondeu a diversas acusações, como as de exercício ilegal de advocacia, agressão a funcionária do Incor, danos às dependências do hospital, simulação de residência para mudar seu domicílio eleitoral, destinação ilegal de verba pública e até envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. As propostas que apresentou ao longo de sua carreira política estão a léguas de distância da responsabilidade de exercer-o-governo-que-o-povo-quer. Casos da troca da denominação de estupro para a de assalto sexual nos boletins de ocorrência da polícia e da sugestão, de feitio nazista, de ingestão forçada de hormônios por parte dos condenados ou acusados de crimes sexuais. Num dos projetos, propôs cadeia para os que fizerem críticas sem provas aos políticos. Alô, alô, ditadura, aquele abraço do Russomano!.
  • João Dória Jr. –  As propostas de governo de João Dória Jr. conhecidas até agora se resumem a uma só, a de atrair investimentos para São Paulo. Governar-do-jeito-que-o-povo-quer-se-governar vai muito mais além desta solitária promessa. Um jornal eletrônico publicou uma foto com Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves, Geraldo Alckmin e João Dória Jr., os três de pé, juntos, rindo. A irônica legenda identificando o Dória na foto era "o João Dória Jr. é o da extrema direita" (*).
Direita? Nas assembleias políticas é a parte que pertence ao grupo dos conservadores. Conservadores? Aqueles que em política são favoráveis à conservação da situação vigente, opondo-se a reformas que poderiam beneficiar os menos favorecidos material e intelectualmente. A direita é uma arena sem espaço para poesias reivindicatórias do povinho. A direita não quer saber daqueles que têm as pernas fracas e não conseguem ficar de pé sem ajuda.

João Dória Jr., assim como seus companheiros do pódio da foto, tem formulado raivosas defesas em favor do impeachment da presidenta Dilma, ela supostamente de esquerda, ele aguerridamente da direita. É o chamado jogo político. Para o povo, jogo de azar.
De maneira geral, como devem ser definidos os candidatos?
Democracia? Ora, a democracia!, zombam os tiranos de todos os matizes. Reforma política? Ora, a reforma política!, escarnecem indefinidamente os eleitos.

A que distância estão os finalistas João Dória Jr. e Celso Russomano da responsabilidade de governar-como-o-povo quer-se-governar?  Sai de baixo. Mais pipi na democracia vem por aí. Uma ova que qualquer um deles vai ser fiel aos seus deveres para com o povo!

* NOTA DO EDITOR: João Dória Jr. foi em 2007 o principal articulador do Cansei!, patética tentativa de reeditar a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade de 1964. O movimento evaporou após reunir apenas algumas centenas de gatos pingados na Praça da Sé.

terça-feira, 18 de março de 2014

ATRAÇÃO PARA SÁBADO: O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE EM MARCHA!


Não compartilho as apreensões do filósofo Vladimir Safatle, que, num interessante artigo sobre o negacionismo (vide aqui), alerta para "a repetição à qual as sociedades estão submetidas quando são incapazes de elaborar seu passado". Ele está certíssimo em vituperar as falácias na linha da ditabranda, mas exagera os riscos atuais.

Para mim, o anunciada bis da Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade será apenas a reprise da tragédia como farsa. 

Aquele desfilar de bobalhões engravatados e peruas pernósticas, tangidos pela carolice e pelo alarmismo que o esquema golpista fomentou, não teve real importância na derrubada do governo legítimo de João Goulart. Foi apenas um argumento propagandístico que os conspiradores produziram para utilizar depois contra os que denunciariam a quartelada como quartelada. Armaram um teatrinho de fantoches para fingir que os civis apitaram alguma coisa no desfecho de uma conspiração que fermentava há muito na caserna.
As cansadinhas de 1964...

A primeira tentativa mais ambiciosa, quando da renúncia de Jânio Quadros, fracassara porque o poder econômico ainda não se dispunha a uma virada de mesa e os Estados Unidos, sob John Kennedy, idem.

A segunda tentativa redundou porque burguesia e latifundiários finalmente deram sinal verde para o golpe e, mais importante, porque os EUA tinham a anta Lyndon Johnson como presidente.

O sofisticado Kennedy fora capaz de antever quão desastrosa seria a invasão de Cuba por mercenários arregimentados pelos ricaços de Miami e pela CIA, negando-lhe o apoio aéreo que não deixaria dúvidas quanto à participação estadunidense na aventura. 

Já Johnson, o caipira texano, mergulhou de cabeça numa grotesca intervenção nos assuntos internos de uma nação soberana, deixando que as digitais dos EUA ficassem nitidamente impressas no golpe brasileiro.

Não sei se é para rir ou para chorar, mas o total abandono da pauta revolucionária por parte do PT, se fez com que o Brasil neste século não avançasse um milímetro sequer na direção do fim do pesadelo capitalista, por outro lado nos imunizou contra qualquer possibilidade real de nova quartelada. 
...e os cansadinhos de 2007.

Banqueiros, grandes empresários e agronegócio têm seus interesses caninamente defendidos pelos governos petistas. Por que se arriscariam a um salto no escuro?

E, como o Brasil não teve sequer a dignidade de atender ao pedido de asilo de Edward Snowden, sua fidelidade é a última das preocupações de Barack Obama. Melhor vassalo, impossível.

É óbvio que ainda existe uma direita golpista, ladrando mas não mordendo, porque quem manda mesmo são os donos do canil. Fracassou rotundamente com o Cansei! e vai tentar outra vez no próximo sábado, 22.

Será o Incrível Exército de Brancaleone novamente em marcha, para aumentar a quota de fiascos, dando mais uma demonstração de anacronismo e irrelevância.

De resto, eu perdi a conta de quantos manifestos de pijamados pirracentos li desde a volta à democracia. 

Tendo como palco principal o Clube Militar, trata-se do psicodrama favorito dos que, como a Carolina da canção célebre de Chico Buarque, relutam em reconhecer que o tempo passou na janela e só eles não viram.

E, mais ainda, não se conformam com o fim do seu mundo ter ocorrido antes de eles próprios morrerem. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA CANDIDATURA CONTRA A FASCISTIZAÇÃO

"Agora vou terminar
Agora vou discorrer
Quem sabe tudo e diz logo
Fica sem nada a dizer"
(Gilberto Gil, Roda)

Restando apenas uma quinzena  de campanha eleitoral, chega a hora de dizer exatamente a que venho e por que nela estou. A sinceridade é sempre o melhor caminho.

Eterno otimista, durante o Caso Battisti eu superestimei o papel da internet como ferramenta para o bom combate. Pensei que continuaria obtendo a mesma repercussão nas lutas vindouras.

As decepções se sucederam: a ocupação militar da USP, que representa um retrocesso aos tempos nefandos da ditadura de 1964/85; a higiene social na Cracolândia, desumanidade a serviço da especulação imobiliária; e a barbárie no Pinheirinho, que em qualquer país civilizado acarretaria o impeachment do principal culpado, o governador do estado.

Parte da esquerda  não quis  reagir à altura, nos três episódios. Eu  muito tentei e me esforcei, mas não obtive resultados concretos. E estou com os três entalados na garganta até hoje.

Não só pelo que eles têm de incompatíveis com tudo em que acredito e com todos os valores que prego. Mas, também, por saber que são apenas a ponta de um iceberg. O perigo é muito maior do que a maioria supõe.

Desde o Cansei! venho alertando: São Paulo é o principal laboratório de testes e aprimoramento do totalitarismo que a extrema-direita gostaria de implantar no País.

As  viuvas da ditadura  e os   cuervos   por elas criados haviam participado, como efetivos secundários, da tentativa de impedimento do presidente Lula por conta do escândalo do  mensalão, como forma de evitar sua reeleição.

Quem conduziu o espetáculo, contudo, foram os tucanos, seus aliados e a imprensa que caninamente os serve. E se tratava apenas de  meio-golpe, objetivando não a instalação de uma ditadura, mas apenas a recondução ao poder, na eleição seguinte, dos derrotados em 2002.

Lula, contudo, segurou a onda.  E, logo no início do segundo mandato, a direita troglodita mostrou suas garras, tentando reeditar o figurino golpista de 1964 com uma versão 2007 da  Marcha da família, com Deus, pela liberdade. A partir daí, São Paulo assumiria a vanguarda... da incubação do ovo da serpente.

Do fiasco retumbante do Cansei! os golpistas extraíram a mesma lição de 1961 (quando a resistência do governador gaúcho Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armada frustrou o complô direitista para impedir a posse do vice-presidente João  Goulart): recuaram, reagruparam suas forças e estão se preparando bem melhor para a próxima tentativa.

Então, o que temos visto em São Paulo, nos últimos cinco anos, são sucessivos balões de ensaio para se testar a resistência da sociedade a um novo totalitarismo.

As sucessivas intimidações e vandalizações que os herdeiros de Erasmo Dias promoveram na USP saíram baratas.

O dantesco escorraçamento a pontapés dos dependentes químicos que vegetavam no centro velho, idem.

Mas, a brutal repressão da  Marcha da Maconha   pegou tão mal que os brutamontes fardados se viram obrigados a recuar, saindo moralmente derrotados.

O impacto ainda mais negativo do festival de arbitrariedades no Pinheirinho, culminando no sequestro de um idoso para que a imprensa não constatasse seu estado lastimável após o espancamento sofrido (a ponto de duas semanas depois ele falecer), deve ter feito soar um sinal de alarme no QG golpista. Estão sendo evitadas as ações que possam causar impacto equivalente.

O que não impede a Polícia Militar paulista de continuar atuando como força exterminadora, segundo o modelo sinistro do  mate primeiro e maquile depois!. Com o aval e defesa entusiástica do governador adepto do ideário do Opus Dei.

Os episódios de mortes de suspeitos por  alegada resistência à prisão  se multiplicam, com a cumplicidade da imprensa que não os denuncia como as chacinas que são. Em tiroteios reais há feridos e mortos, não apenas mortos. Quando todas as testemunhas morrem, é porque foram executadas. Simples assim.

O controle  (talvez seja melhor dizer  terror) policial nos bairros pobres chega a abater-se até sobre os inocentes saraus dos jovens, mais uma vez evocando os  anos de chumbo, quando as forças auxiliares da ditadura vandalizavam teatros e agrediam atores. 

E a existência de uma articulação mais ampla, direcionada para o estado policial, evidencia-se na insólita designação de oficiais da reserva da PM para gerirem 30 das 31 subprefeituras da capital paulista.

Quem conhece a cultura dessa corporação, satelizada pelas Forças Armadas durante o período do arbítrio, sabe muito bem o que isto representa. Até recentemente, sua unidade mais truculenta, a Rota, mantinha no portal do Governo paulista um elogio explícito ao golpismo, só o deletando sob vara da ministra de Direitos Humanos.

O dispositivo golpista já está montado em São Paulo, devendo servir como modelo para outras cidades e estados. A oportunidade golpista, contudo, ainda não surgiu.

Pode demorar  anos --foram quase três, entre o fracasso de agosto/1961 e o sucesso em abril/1964-- ou nem sequer se apresentar. A desconstrução da imagem do PT a partir do julgamento do  mensalão  talvez torne desnecessária uma virada de mesa; os grupos cujos interesses estão sendo contrariados poderão, eventualmente, atingir seus objetivos pela via eleitoral.

Mas, não é confortável vivermos com uma lâmina de guilhotina pendente sobre a cabeça.

Então, o sentido maior da minha candidatura é este: tendo a internet sido insuficiente para esmagarmos o ovo de serpente que incumbaram em São Paulo, tanto que o ofídio não só nasceu como se fortalece cada dia mais, resolvi ir à luta em outras frentes. Pois assumo como minha grande missão atuar com eficiência e contundência contra esta ameaça que tenho visto crescer e já fazer bastante mal, além de prenunciar ocorrências muito mais graves. 

Mas, perguntarão os leitores, por que eu? Não sou o candidato de esquerda mais douto, nem o mais enraizado nos movimentos sociais, muito menos o mais popular --admito-o francamente.

No entanto, por um destino insólito, tive de lutar sozinho durante muito tempo e aprendi a travar batalhas de opinião nas circunstâncias mais adversas, seja para salvar em 1986 os  quatro de Salvador  que faziam greve de fome sem o apoio de quase ninguém, seja para obter em 2005 uma anistia à qual tinha pleno direito mas a União teimava em postergar, seja para restabelecer a verdade histórica a meu respeito.

Foi a experiência acumuladas nestas e outras batalhas que me ensinaram a encontrar o foco certo em termos jurídicos e a palavra certa para sensibilizar as pessoas imbuídas de espírito de justiça. 

Quem acompanhou o Caso Battisti deve lembrar-se que eu tinha visão clara do rumo que os acontecimentos tomariam e a utilizava para propor as linhas de ação mais adequadas para nosso comitê de solidariedade.

Acostumado a travar lutas desiguais, rechaçava o sectarismo,  tudo fazendo para agregar todos os bons cidadãos à nossa causa. A união foi essencial para nocautearmos um inimigo do 1º mundo e todos os seus quinta-colunas no Brasil (principalmente na imprensa, cuja tendenciosidade atingiu o paroxismo). Éramos poucos, éramos fracos, mas soubemos nos aglutinar e dar sempre os passos certos.

Não podemos nos associar aos inimigos de classe, mas são admissíveis e justificáveis as alianças táticas com forças pertencentes ao campo da esquerda ou que tenham uma tradição de esquerda, desde que o objetivo do momento seja comum.

Então, como participante de uma bancada de esquerda que tenderá a ser minoritária, acredito poder dar contribuição destacada para estimular a união das forças progressistas, denunciar/atrapalhar as maracutaias dos poderosos, desencavar razões legais para colocar suas políticas em xeque e fazer com que tais questões repercutam na sociedade, trazendo a opinião pública para nosso lado.

O que me manteve vivo, depois da derrota trágica nos anos de chumbo,  foi a esperança de ainda contribuir para que frutificassem os ideais da minha geração, em nome dos quais tantos companheiros imprescindíveis foram martirizados ou destruídos.

Preparei-me durante quatro décadas para o papel que me proponho a desempenhar na luta contra a fascistização; mas, travá-la em melhores condições e com mais visibilidade, dependerá da confiança e do apoio que receber dos companheiros. 

É o último apelo que lanço pois tudo que eu tinha para dizer, está dito.

E a sorte, lançada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SÃO PAULO É O GRANDE FOCO DIREITISTA DO PAÍS

Redatores do  Estadão  no tempo de Olavo Bilac (mão no queixo). As idéias continuam as mesmas
Segundo o Instituto Verificador de Circulação, O Estado de S. Paulo é o jornal mais vendido na capital paulista, na Grande São Paulo e no Estado como um todo, enquanto a Folha de S. Paulo só o supera no interior paulista, mas mantém a liderança nacional por circular mais nos outros estados.

Tais dados são perfeitamente coerentes com a realidade política paulista e paulistana. 

O  Estadão  é o veículo de uma direita ideológica que remonta à aristocracia cafeeira. Conservador por excelência, foi peça importante na conspiração para a derrubada do presidente constitucional João Goulart.

Isto conflitava um pouco com o papel que o jornal desempenhou na ditadura getulista, quando esteve até sob intervenção. Então, depois de, segundo alegou, ter ajudado  a  salvar o País da ameaça comunista, passou a pregar insistentemente a devolução do poder aos civis, uma vez que a  intervenção cirúrgica  já teria  saneado as instituições.

Dondocas do Cansei! em SP:
adesão mínima frustrou planos
Ou seja, as cassações de mandatos, a extinção arbitrária de partidos e entidades, os expurgos e mudanças impostas pela força, as prisões e torturas, tudo isso já teria limpado o terreno para a burguesia poder voltar a exibir sua face civilizada...

Ressalvas feitas, a resistência dos jornais do Grupo Estado à censura e ao terrorismo de estado merece respeito. Afora o trivial que todos destacam (as poesias de Camões que o  Estadão  colocava no espaço de trechos ou de notícias inteiras censuradas, bem como as receitas culinárias que tinham a mesma serventia no Jornal da Tarde), houve dois episódios em que seus diretores mostraram, inclusive, coragem pessoal:
  • quando mandaram os seguranças impedirem o DOI-Codi de invadir a redação para prender um jornalista, tendo o Mesquita de plantão dito a frase célebre de que "ele pode ser comunista lá fora, mas aqui dentro é meu funcionário" (depois, abrigou-o no próprio sítio);
  • quando, depois da morte de Vladimir Herzog, decidiram acompanhar os jornalistas da casa arrolados no mesmo inquérito sempre que chamados a depor no DOI-Codi, a fim de garantirem pessoalmente sua integridade física.
Mas, embora repudie os excessos no exercício do poder burguês, o Estadão é o jornal brasileiro mais afinado com a sua essência --ao contrário dos  comerciantes  da Folha de S. Paulo, cuja postura oscila oportunisticamente ao sabor dos ventos políticos, ora cedendo viaturas para o serviço sujo da repressão, ora ajudando os Golberys da vida a recambiarem o País para a civilização... 

A supremacia do   Estadão  em São Paulo é consistente com o fato de ser um Estado sob governos tucanos desde 1995; e na cidade de São Paulo, com o de ela, desde a redemocratização, haver tido várias gestões direitistas e somente duas, digamos,  desalinhadas  (as de Luíza Erundina e Marta Suplicy).  

Também faz todo sentido que São Paulo esteja sendo o laboratório de testes das novas fórmulas golpistas, com a franca adoção de respostas policiais para os problemas sociais servindo para aferir a resistência que a fascistização provocará. 
    SP, 1964: marcha das famílias abastadas
    preparou o terreno para o golpe militar.

    Ainda bem que a operação desastrada na cracolândia e a barbárie no Pinheirinho despertaram uma opinião pública que parecia anestesiada quando da invasão da USP por brucutus e da fixação de uma tropa de ocupação em pleno campus universitário (suprema heresia!).

    Mas, a cena paulista deve continuar sendo observada com muita atenção pelos verdadeiros democratas. Pois, qualquer atentado às instituições, para quebrar a continuidade de administrações petistas (bem toleradas pelos EUA e pelo grande capital, já que mantiveram seus privilégios, mas não pelas  viúvas da ditadura  e por alguns setores setores extremados da burguesia), começará, necessariamente, por São Paulo.

    Vale lembrar: foi em São Paulo que o Cansei! tentou organizar uma nova (mas frustrada...) Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

    E é em São Paulo que a truculência policial volta a ser exercida exatamente como nos tempos da ditadura militar, por efetivos que até hoje cultivam descaradamente a nostalgia do arbítrio.

    Obs.: na história de São Paulo também há capítulos edificantes, como a luta contra o despotismo em 1932, o movimento estudantil de 1968, as diretas-já e o fora Collor!. Mas, parecem ter sido episódios fugazes, meras exceções, enquanto o conservadorismo e o reacionarismo dão a tônica.

    terça-feira, 8 de novembro de 2011

    NÃO PASSARÃO!

    Previsivelmente, a ditadura mal extirpada em 1985 insinua-se pelas frestas da democracia.

    A presença e a ação da Polícia Militar no campus da USP, como um túnel do tempo, nos remete diretamente aos  anos de chumbo, quando tais demonstrações de força, de uma truculência e de um ridículo atroz, eram amiúde utilizadas para intimidar estudantes, professores e cidadãos.

    Pareceu estarmos assisitndo de novo a prisões em massa de universitários como as do congresso da UNE em Ibiúna e ataques a campi como o deflagrado por Erasmo Dias contra a PUC.

    Foi o máximo de perda que poderia causar um episódio de absoluta insignificância. E, agora, a exigência de fiança para libertar quem jamais deveria ter sido preso é outra grotesca aberração -- para não dizer evidente provocação.

    Este caminho só leva ao acirramento dos ânimos, até se chegar ao que ninguém deveria querer: universitários mortos ou feridos por aqueles a quem compete defender a coletividade de bandidos, não tumultuar ambientes acadêmicos, com a conivência de um reitor sem legitimidade e sob as ordens de um governador que segue as piores cartilhas direitistas.

    NÃO vale a pena ver de novo
    Só que não vivemos mais debaixo das botas. E homens livres não se resignam a ser tratados a pontapés

    Haveremos de protestar, de lutar, de tudo fazermos para que o arbítrio não retorne, pelas mãos dos discípulos do Opus Dei e daquelas viúvas da ditadura que até ontem entoavam loas para a derrubada de um presidente legítimo.

    E lanço um alerta à presidente Dilma Rousseff: o primeiro ano de governos petistas tem sido marcado por balões de ensaio golpistas que, sob Lula, não prosperaram -- caso do movimento Cansei!, evidentemente inspirado na Marcha da Família, com Deus, pela liberdade, que se avacalhou ao só levar à Praça da Sé meia dúzia de gatos pingados.

    A versão 2011, contudo, causa maior preocupação, pois a articulação se dá num nível mais alto. Daí a necessidade de pronta e incisiva resposta, antes que o mal cresça.

    Não passarão!

    segunda-feira, 1 de agosto de 2011

    BAÚ DO CELSÃO: A AMORALIDADE COMO NORMA

    (artigo escrito em janeiro/2008, mas que permanece bem atual, pois os  
    exploradores da fé ainda têm total liberdade de ação e os melhores 
    advogados continuam servindo aos piores seres humanos)
    Quando eu estava começando a formar minhas convicções, aos 15 anos, assisti a uma peça de teatro amador sobre Galileu Galilei, que trazia, destacada nos cartazes e no programa, uma fala que me marcou para sempre: “Há um mínimo de dignidade que não se pode negociar. Nem mesmo em troca da liberdade. Nem mesmo em troca do sol”.

    Referia-se ao recuo tático do grande físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, que renegou sua convicção de que o Sol (e não a Terra) era o centro de nosso Universo, para obter a clemência da Inquisição. Doente e quase cego, o septuagenário Galileu fez esta concessão ao obscurantismo religioso para que sua pena de exílio fosse convertida no que hoje chamamos de prisão domiciliar.

    Os homens têm enfrentado, ao longo dos séculos, o dilema moral de escolherem entre o que é certo e o que é conveniente. Às vezes, em situações ainda mais dramáticas, como a que os relatos lendários sobre a Guerra de Tróia atribuem ao rei Agamenon, quando a partida de sua monumental frota estava sendo impedida pela calmaria e um profeta lhe revelou que a deusa Ártemis exigia a vida de sua filha Ifigênia como contrapartida de ventos favoráveis.

    Mas, dificilmente as opções negativas são feitas por motivos tão extremos. E, nas situações prosaicas do cotidiano, o ensinamento de Jesus Cristo continua apontando o único caminho verdadeiramente ético: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?” (Mateus, 16:26).

    Neste melancólico século 21, pouquíssimos hesitam em trocar a alma por dinheiro, status e poder. O capitalismo, erigindo a competitividade e a ganância em valores supremos da vida social, transforma os homens em fiéis devotos do bezerro de ouro.

    A amoralidade virou norma. 

    E existem até os que a justificam com argumentação sofisticada, como os advogados: ao representarem os piores canalhas, eles alegam que assim procedem em nome da democracia, de forma a assegurar o direito a defesa que até os nitidamente culpados têm.

    Por coincidência, os piores canalhas tendem a ser os clientes que melhor remuneram os serviços advocatícios. E nunca é lembrado que todo advogado tem o direito de recusar uma causa que repugne à sua consciência, posto que outro advogado a acabará defendendo; em último caso, o juiz designará um defensor de ofício, que atuará por obrigação e não por mercenarismo.

    Essas divagações me ocorreram ao ler o patético Manifesto em defesa da liberdade de Religião e do Estado de Direito, no qual o advogado Luiz Flávio Borges D’Urso invoca os mais nobres princípios para tentar colocar a opinião pública contra o Ministério Público de São Paulo, em benefício de Estevam Hernandes Filho e Sonia Haddad Moraes, autoproclamados  apóstolo  e  bispa  da Igreja Renascer.

    O que se pode dizer de uma religiosa capaz de esconder dinheiro na sua Bíblia para burlar a alfândega? Nada além do que o Cristo já disse: “A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de ladrões” (Mateus, 21:13).

    A liberdade de religião não justifica a omissão do Estado diante da prática continuada e comprovada do estelionato, do curandeirismo e da lavagem cerebral, como tem ocorrido até agora. A Igreja Universal do Reino de Deus já foi flagrada cometendo um rosário de crimes, sem receber a punição merecida. Continuou arrancando até o último centavo dos indivíduos sofredores e desesperados que caem em suas garras.

    D’Urso esbraveja para tentar fazer com que a Renascer também escape ilesa, reforçando o ceticismo da população quanto à possibilidade de se colocar na prisão os criminosos de colarinho branco: aqueles que são ricos, detentores de bancadas legislativas e donos de emissoras de TV.

    Presidente da seccional paulista da OAB, D’Urso foi o principal articulador do suspeito e fracassado movimento Cansei. Mas, parece não compartilhar do nosso cansaço com a impunidade dos exploradores da fé popular e dos poderosos em geral – que, esta sim, é uma gravíssima ameaça ao Estado de Direito, pois faz a população descrer das soluções civilizadas e ansiar pelas  tropas de elite  do autoritarismo.

    segunda-feira, 27 de junho de 2011

    BAÚ DO CELSÃO: O "CANSEI" - 2

    O RESCALDO DO "CANSEI"

    Tenham sido 2 mil ou 5 mil os cidadãos presentes ao ato público do Cansei na Praça da Sé, o certo é que, para uma metrópole como São Paulo, isto equivale a uma gota d’água no oceano.

    Na verdade, as próprias lideranças do movimento não esperavam grande coisa depois que a OAB Nacional pulou fora, deixando a decisão de apoiá-lo ou ignorá-lo às seccionais. 

    E o que se viu não deu nem para salvar as aparências. Outros enterros já tiveram participação mais expressiva.

    O fracasso se deveu a muitas causas.

    João Doria Jr. tentou transpor para a política as fórmulas publicitárias que costumam dar certo nas campanhas eleitorais. Então, face à comoção provocada pela tragédia de Congonhas, supôs mecanicamente que se tratasse da gota d’água para a classe média passar dos resmungos virtuais ao protesto aberto. A virulência dos posts na Internet deixava exatamente essa impressão.

    E foi com visão de publicitário que ele estruturou seu projeto, desde o título mais próximo dos slogans propagandísticos do que das palavras-de-ordem políticas (e que acabou se revelando extremamente inadequado, pois propiciava piadas dos adversários) até o foco demasiadamente difuso: querendo atingir o máximo de  consumidores, Doria pretendeu enfeixar num único movimento todas as insatisfações por mazelas de responsabilidade do Executivo, Legislativo e Judiciário, em âmbito federal, estadual e municipal.

    Para piorar, a idéia foi prontamente apoiada pela extrema-direita golpista que faz proselitismo na Internet e pelas correntes que até hoje não se conformam com o fato de Lula haver escapado do impeachment. Com Brilhante Ustra, Olavo de Carvalho, o Partido Vergonha na Cara e o Fora Lula! apoiando o Cansei, ficou fácil para os governistas apontarem-no como uma nova Marcha da Família, com Deus, Pela Liberdade.

    Afinal, além de ter essas  ligações perigosas, o Cansei se voltava contra muitas iniqüidades e não propunha solução para nenhuma delas.

    O que resolveria tantos problemas de uma só vez? Fazia sentido supor-se que sua verdadeira meta fosse, como em 1964, um golpe de estado  contra a subversão e a corrupção.

    De quebra, o apoio da Fiesp, da Febraban e da Associação Comercial de São Paulo reforçou a suspeita de que se tratasse de uma conspiração dos endinheirados contra o presidente metalúrgico. E a OAB, respeitada por sua atuação exemplar durante os  anos de chumbo, não acompanhou o presidente da seccional paulista em sua aventura de  amigo urso  da democracia...

    Os erros crassos cometidos pelos que se propuseram a representá-la não devem, entretanto, fazer crer que a classe média esteja indiferente em relação a um governo que prioriza os muito ricos e os muito pobres, pouquíssimo oferecendo a quem está no meio, exagerando na carga tributária e descurando de serviços essenciais.

    Bem farão os lulistas se encararem o Cansei como um alerta e iniciarem algumas correções de rumo. Nem todos os movimentos de classe média serão tão trapalhões.

    João Goulart também sentia-se perfeitamente seguro depois da estrondosa vitória obtida no plebiscito que lhe restituiu poderes presidenciais plenos. Um ano e meio depois, era derrubado. 

    (artigo divulgado em 24/08/2007)

    BAÚ DO CELSÃO: O "CANSEI" - 1

    EU CANSEI, TU CANSASTE... QUEM NÃO SE CANSOU?

    De um lado, o  Cansei   da seção paulista da OAB. Do outro, o   Cansamos   da CUT. E os cidadãos brasileiros, que carregam o cansaço de décadas e séculos perdidos, onde ficam? Assistindo à  briga de cachorro grande, sem se comprometerem. Desta vez, até que com razão.

    As vaias ao presidente Lula na abertura do Pan e a tragédia de Congonhas foram superdimensionadas pela direita golpista que viceja na Internet e pela direita engravatada da grande imprensa.

    Os panfletos virtuais circularam como nunca e atingiram o grau máximo de radicalização verbal, enquanto os posts nas comunidades de discussão política fervilhavam de indignação.

    E na mídia escrita (principalmente) o viés do noticiário e editoriais começou a evocar a informação distorcida e os  chega!,  basta!  e  fora!  que antecederam o golpe militar de 1964.

    No entanto, seria um erro igualar o eternamente conspirador Grupo Guararapes com, p. ex., O Estado de S. Paulo - embora um editorial infeliz do jornalão tenha causado calafrios em quem ainda se lembra do papel por ele desempenhado na última virada de mesa institucional.

    A direita radical que jamais engoliu a redemocratização do País e os neo-integralistas por ela formados apostam mesmo todas as fichas numa nova quartelada. As pregações golpistas daí advindas há muito ultrapassaram os limites da legalidade e deveriam ser coibidas, com a imputação penal de quem espalha por toda a Web exortações sediciosas do tipo "militares no poder já!".

    A grande imprensa, no entanto, mais reverbera a insatisfação da classe média e a amplifica. Ou seja, afaga o seu público-alvo e dá uma força para os principais partidos de oposição, o PSDB e o DEM. O Lula estava certo ao dizer que são apenas os primeiros movimentos da campanha eleitoral de 2010, mas logo depois voltou aos lugares-comuns sobre os endinheirados que não suportam ver um torneiro-mecânico no poder...

    Espertamente, os petistas estão procurando reaproximar-se dos cidadãos idealistas que lutaram a seu lado contra a ditadura e foram se distanciando à medida que o partido abandonava suas bandeiras históricas. Utilizam o mal maior – a ameaça de recaída autoritária – como espantalho para tangê-los de volta ao redil.

    Então, o posicionamento mais lúcido acaba sendo o de quantos estão apontando a  guerra dos cansados como uma mera disputa de poder entre dois segmentos da elite que, no essencial, convergem: ambos mantêm a mesma fidelidade canina ao capitalismo globalizado, tanto que a política econômica de FHC vige até hoje. 

    A diferença se dá apenas nos detalhes, como o de que um é mais inclemente e o outro prefere colher os dividendos eleitorais do assistencialismo.

    Quem não faz parte da elite nem é dela caudatário, tem todos os motivos para defender a democracia se e quando ela estiver realmente ameaçada, mas nenhum para servir de peão no tabuleiro político em que se defrontam os responsáveis pelo cansaço nacional.

    (artigo divulgado em 02/08/2007) 

    quarta-feira, 22 de setembro de 2010

    REINALDO AZEVEDO LANÇA A VERSÃO RECICLADA DO "CANSEI!"

    Humildemente, admito meu erro: não será no ano que vem que a direitalha vai começar a preparar uma virada de mesa, em razão da nova e acachapante derrota eleitoral.

    Foi assim que eles agiram quando o presidente Lula conquistou seu segundo mandato.

    Um semestre depois, tentaram reeditar a Marcha da Família, Com Deus, Pela Liberdade.

    Só que o tal do Cansei! (foto) foi simplesmente ridículo, reunindo míseras 4 mil testemunhas no espaço imenso da Praça da Sé.

    Mecanicamente, acreditei que a história se repetiria. E afirmei, no artigo As ameaças existem e ignorá-las poderá ser trágico (o qual,  timing  à parte, continua sendo uma boa  crônica da quartelada anunciada, a ser levada em conta pelos que têm a obrigação de adotar contramedidas):
    "Podemos dar como favas contadas que haverá cidadãos querendo derrubar o governo no início de 2011".
    Eu não espeava que, duas semanas antes do pleito, a direita golpista já tivesse desistido da cartada eleitoral e passado à etapa seguinte.

    Então, um de seus mais notórios porta-vozes, Reinaldo Azevedo, está lançando a nova versão do Cansei!, provavelmente porque o João Dória ainda não se recuperou do último fiasco. Deve continuar cansadinho.

    Na exortação carnavalesca que RA inseriu nesta 4ª feira em seu blogue da Veja (A democracia e o estado de direito pedem passagem...), ele deixou bem evidenciada, em caixa alta, a genealogia do novo movimento, que utiliza um manifesto de notáveis como abre-alas:

    "NÃO ESTAMOS CANSADOS (sic)! AO CONTRÁRIO! ESTAMOS CHEIOS DE ENERGIA PARA DEFENDER A DEMOCRACIA, O ESTADO DE DIREITO E A LIBERDADE DE IMPRENSA".

    Ou seja, a Marcha da Família foi um dos estopins de uma tragédia; o Cansei! de 2007, uma tentativa farsesca de a bisar; e o Cansei! de 2010 não passaria da farsa que reedita a farsa... como desfile carnavalesco?

    Pateticamente, RA acusa "o PT e sindicalistas" de "flerte com a barbárie ditatorial", como se, afora a alegada (e, bem vistas as coisas, inofensiva) "truculência retórica", partisse deles a maior ameaça à democracia e ao estado de direito.

    Não, a esquerda brasileira pode ser dada às bravatas da boca pra fora, mas as mordidas provêm sempre da direita, com seu know-how golpista aprimorado ao longo dos tempos: 1954, 1961, 1964...

    Infelizmente, alguns homens dignos se deixaram iludir por esse alarmismo insuflado dia e noite pela mídia tendenciosa. Não serei eu a desmerecer suas magníficas trajetórias.

    Apenas lamento que hoje estejam servindo de inocentes úteis para as vis tramóias dos inúteis.

    quinta-feira, 9 de setembro de 2010

    AS AMEAÇAS EXISTEM E IGNORÁ-LAS PODERÁ SER TRÁGICO

    Vamos falar sério.

    A eleição de Dilma Rousseff está mais do que definida.

    O escândalo da invasão de dados siligosos de pessoas próximas a José Serra não tem apelo eleitoral suficiente para alterar o resultado do pleito.

    Nem mesmo para evitar que a eleição seja decidida no 1º turno.

    Mas, dá combustível para tentativas golpistas. Dos mais inflamáveis.

    O jogo não vai ser virado. A mesa, talvez.

    Foi com que sonharam os articuladores do  Cansei!.  Quando o que seria sua  Marcha da Família com Deus Pela Liberdade só mobilizou 4 mil gatos pingados, decidiram recuar, à espera de oportunidade melhor.

    Resignaram-se ao cumprimento integral do segundo mandato do presidente Lula.

    Aceitarão, da mesma forma, o mandato da sucessora que Lula produziu, mais a perspectiva de que ele próprio conquiste outro (eu quase ia escrevendo  um quarto...) em 2014?

    Têm oito anos de pão e água pela frente e um mote e tanto para tentarem reeditar 1964.

    Daquela vez, o pretexto era a conspiração comunista internacional, o  ouro de Moscou, etc. Funcionou.

    Em 2007, ergueram o espantalho do Fôro de São Paulo, Chávez, etc. Não funcionou.

    Agora, o bicho-papão será o estado policial, tentacular, conforme proposto pela Veja em recente matéria de capa (foto acima) cujo texto e ilustração têm mais a ver com   sci-fi  do que com jornalismo...

    Sejamos francos: existe organização popular suficiente para que a resistência a uma eventual quartelada seja mais eficaz do que em 1964?

    Não. A ênfase do lulo-petismo tem sido a de ganhar eleições, não a de estruturar, fora e independentemente do Estado, o poder popular. Então, a tomada do governo pelas forças reacionárias o privaria da fonte principal de sua força e capacidade de reação.

    Podemos confiar em que as Forças Armadas desta vez não cedam à tentação golpista?

    O quadro é pior do que em 1964, quando a maioria dos militares queria respeitar a Constituição, um núcleo de conspiradores esforçava-se para assumir a liderança da caserna e havia remanescentes dos cabos e sargentos que heroicamente impediram a primeira tentativa de usurpação do poder, em 1961.

    Agora, a maioria continua preferindo atuar profissionalmente, o núcleo de oficiais conspiradores existe (contando com expressivo contingente de nostálgicos da ditadura) e nada restou de espírito resistente nos escalões inferiores.

    Então, o fiel da balança é o poder econômico.

    A anemia do  Cansei!  se deveu à falta de apoio do grande capital, dos banqueiros, da agroindústria, da Rede Globo. Os senhores do Brasil consideravam que seus interesses estavam sendo bem servidos e não viam motivos para aventuras.

    Nada indica que tenham mudado de opinião, haja vista a profusão de recursos com que abastecem a campanha de Dilma.

    Mas, nada é definitivo na política e os cenários se modificam com muita rapidez.

    Podemos dar como favas contadas que haverá cidadãos querendo derrubar o governo no início de 2011.

    Não se produziu até agora o fato político capaz de alterar os humores dos verdadeiramente poderosos. 

    Mas, tudo é possível. Há sempre um Gregório Fortunato para fazer uma monumental lambança, ou um Cabo Anselmo para incitar radicalização desmedida.

    Então, seria sensato, talvez até providencial, se os dirigentes petistas tomassem duas providências:
    • apagarem o incêndio na Receita Federal, demitindo superiores que não zelaram como deveriam pelos dados sob sua guarda e apurando rigorosamente as responsabilidades desses aloprados que, com suas ações criminosas e estúpidas, acabaram servindo como inocentes úteis para a arregimentação das forças inimigas;
    • passarem a se preocupar um pouco menos com a eleição, que marcha a contento, e um pouco mais com a sustentação do resultado que sairá das urnas.
    Outubro não é preocupante. A incógnita são os meses seguintes.

    quarta-feira, 25 de março de 2009

    ALERTA AOS COMPANHEIROS DE ESQUERDA, AOS DEMOCRATAS E AOS CIDADÃOS COM ESPÍRITO DE JUSTIÇA

    Brasileiros,

    há um projeto ambicioso por trás dos sucessivos confrontos que Gilmar Mendes vem provocando com a esquerda, ao atacar o Governo Lula, o MST, os movimentos populares, os militantes da resistência à ditadura de 1964/85, os revolucionários de outros países que buscam refúgio no Brasil, etc.

    A própria sofreguidão com que ele cria um novo fato político a cada dois ou três dias denuncia sua pressa. Se ele mirasse 2014, não iria com tanta sede ao pote. Tudo indica que jogará sua cartada em 2010, pela via eleitoral; ou a qualquer momento, pela via golpista.

    Enganam-se os que pensam que ele oscila na órbita da aliança PSDB/DEM. Isto foi no passado. Agora ele é CONCORRENTE da centro-direita. Está mais para o "Cansei" e para os golpistas abrigados nos sites da extrema-direita (dos quais, aliás, já copia a retórica).

    Desde que liquidamos a ditadura, só tínhamos esquerda, centro-esquerda, centro e centro-direita como forças consideráveis em nosso espectro político. A rearticulação da direita propriamente dita é muito preocupante, até porque ocorre num momento de grande instabilidade econômica e política (a atual recessão ainda deverá agravar-se, antes de começar a ceder).

    Considero fundamental determos Gilmar Mendes. E o primeiro passo será impor-lhe uma fragorosa derrota na sua própria praia, o STF.

    Até agora, a esquerda não conferiu ao Caso Battisti a importância que ele tem: trata-se do mais nítido e radicalizado confronto direita x esquerda desde a redemocratização, com alcance internacional.

    Se Gilmar Mendes vencer, seu prestígio alcançará os píncaros. Firmará sua liderança sobre a direita e vai passar a ter poder de fogo para causar-nos danos ainda maiores.Temos de esmagar o ovo da serpente enquanto é tempo!

    Então, urge que os companheiros do MST, da CUT, dos partidos de esquerda e dos movimentos populares assumam seu lugar na trincheira. Do outro lado estão as forças mais retrógradas e reacionárias da Itália e do Brasil.

    E, bem pesadas as coisas, nossa alternativa é vencer ou vencer.Qualquer outro resultado será catastrófico para a esquerda e para os progressistas em geral.

    Vamos à luta, companheiros!

    CELSO LUNGARETTI
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