dalton rosado
CAPITAL E TRABALHO, ESPÉCIES DO GÊNERO VALOR
"Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho.
Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa
deste domínio: o papa e o Banco Mundial, Tony Blair e
Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães
e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema:
trabalho, trabalho, trabalho"(abertura do Manifesto
Contra o Trabalho, do Grupo Krisis)
O valor econômico é uma abstração numérica criada pela mente humana para a quantificação e qualificação de objetos e serviços servíveis ao consumo social, destinados à troca entre seus produtores e detentores e, assim, transformados em mercadorias.
Dito assim, parece algo natural e ontológico nas relações humanas, e até facilitador de tais relações. Mas, não é isto; ou não é apenas isto.
É que o valor embute algo antinatural: a necessidade implícita de apropriação numericamente abstrata, autotélica e cumulativa, do esforço coletivo de produção de bens de consumo e serviços, os quais são transformados em mercadorias, em detrimento do interesse coletivo.
Sob o critério do valor, a produção social tem de ser, implicita e inevitavelmente, negativa em termos sociais.
O valor foi, originalmente, o vírus estimulador da escravização direta; transformou-se ao longo dos tempos e com os aperfeiçoamentos imanentes à sua própria forma, no instrumento da escravização indireta moderna.
| "escravização indireta moderna" |
Não foi o valor que instituiu a troca quantificada, o escambo (que é diferente da doação de excedentes de produção), mas foi a troca quantificada que instituiu o valor; isto ocorreu no exato momento em que se deixou de praticar a partilha comunitária dos bens produzidos coletivamente e se passou a admitir a propriedade privada dos ditos cujos.
O critério de mensuração numérica do valor dos bens produzidos e destinados à troca (assim nasceu o mercado, altar de tais transações) foi o grau de esforço humano de produção, ou seja, o tempo médio dedicado à produção de cada produto destinado à troca.
Assim, cada objeto passou a ser mensurado em valor na troca pelo quantitativo de tempo de esforço humano de sua produção.
Tais bens se transformaram assim em mercadorias, com dupla personalidade: o valor de uso e o valor de troca. Estava então decretado o individualismo em contraposto ao coletivismo; a transformação das virtudes individuais em poder individual; e o sentimento da mesquinhez em lugar da solidariedade.
| Episódio emblemático/traumático: a desocupação do Pinheirinho |
Da mesma forma, o tempo e a maior capacidade de esforço humano na produção também passou a ser mensurado em valor, e denominado como mercadoria força de trabalho, que é ao mesmo tempo concreta (pois produz objetos palpáveis e consumíveis) e abstrata (pois produz um quantitativo numérico de valor).
Mercadoria é, pois, do ponto de vista econômico (valor), um quantitativo acumulado de outra mercadoria, a força de trabalho. Todas as mercadorias, sob o valor, representam um quantitativo acumulado das mercadorias forças de trabalho nelas coagulada.
A esse esforço humano de produção, ou mercadoria força de trabalho, passou-se a denominar trabalho abstrato, por sua dupla personalidade, concreta e abstrata.
O valor, como dissemos, é uma abstração numérica que quantifica e se incorpora às mercadorias em razão da necessidade de mensuração destas nas trocas quantificadas.
Assim, o valor, enquanto abstração, precisa da produção contínua e aumentada de mercadorias destinadas à troca no mercado para existir.
A canção Cio da Terra é uma emocionante celebração do valor de uso
Cessada ou reduzida a produção de mercadorias, cessa ou diminui a existência do valor, causa motora da atual debacle da mediação social mercantil. Como a produção mecanizada, hoje em dia, dispensa em maior parte a mercadoria força de trabalho e reduz o valor das mercadorias, é o próprio valor, enquanto forma de relação social, que entra em crise.
É a redução drástica da capacidade de produção de valor pela obsolescência do trabalho abstrato a razão da implosão do capitalismo, modo segregacionista de relação social, e isto ocorre por seus próprios fundamentos, agora tornados acanhados e obsoletos.
O capital, por sua vez, é valor acumulado, ou seja, constitui-se num grande quantitativo de tempo de trabalho abstrato coagulado nas mercadorias sensíveis e na mercadoria dinheiro, signo e expressão numérica do valor, roubado em parte de quem o produziu com seu esforço (força de trabalho dos trabalhadores) e apropriado pelo seu detentor privado ou estatal.
| Por Dalton Rosado |
O capital é um amontoado de roubos de força de trabalho (valor) praticados contra cada trabalhador individualmente. E, como tem uma dinâmica própria autotélica de necessária reprodução cumulativa, jamais pode ser distribuído na sua integralidade, tal como um dragão do mal que, quanto mais cresce mais precisa comer (leia-se roubar) para sobreviver.
(continua neste post)








