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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

UM CADÁVER DOMINA A SOCIEDADE – O CADÁVER DO TRABALHO (parte 1)

dalton rosado
CAPITAL E TRABALHOESPÉCIES DO GÊNERO VALOR
"Um cadáver domina a sociedade – o cadáver do trabalho.
 Todos os poderes ao redor do globo uniram-se para a defesa
deste domínio: o papa e o Banco Mundial, Tony Blair e 
Jörg Haider, sindicatos empresários, ecologistas alemães
e socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: 
 trabalho, trabalho, trabalho"(abertura do Manifesto
Contra o Trabalho, do Grupo Krisis)
O valor econômico é uma abstração numérica criada pela mente humana para a quantificação e qualificação de objetos e serviços servíveis ao consumo social, destinados à troca entre seus produtores e detentores e, assim, transformados em mercadorias.

Dito assim, parece algo natural e ontológico nas relações humanas, e até facilitador de tais relações. Mas, não é isto; ou não é apenas isto.  

É que o valor embute algo antinatural: a necessidade implícita de apropriação numericamente abstrata, autotélica e cumulativa, do esforço coletivo de produção de bens de consumo e serviços, os quais são transformados em mercadorias, em detrimento do interesse coletivo.

Sob o critério do valor, a produção social tem de ser, implicita e inevitavelmente, negativa em termos sociais.

O valor foi, originalmente, o vírus estimulador da escravização direta; transformou-se ao longo dos tempos e com os aperfeiçoamentos imanentes à sua própria forma, no instrumento da escravização indireta moderna.
"escravização indireta moderna"

Não foi o valor que instituiu a troca quantificada, o escambo (que é diferente da doação de excedentes de produção), mas foi a troca quantificada que instituiu o valor; isto ocorreu no exato momento em que se deixou de praticar a partilha comunitária dos bens produzidos coletivamente e se passou a admitir a propriedade privada dos ditos cujos. 

O critério de mensuração numérica do valor dos bens produzidos e destinados à troca (assim nasceu o mercado, altar de tais transações) foi o grau de esforço humano de produção, ou seja, o tempo médio dedicado à produção de cada produto destinado à troca. 

Assim, cada objeto passou a ser mensurado em valor na troca pelo quantitativo de tempo de esforço humano de sua produção. 

Tais bens se transformaram assim em mercadorias, com dupla personalidade: o valor de uso e o valor de troca. Estava então decretado o individualismo em contraposto ao coletivismo; a transformação das virtudes individuais em poder individual; e o sentimento da mesquinhez em lugar da solidariedade.
Episódio emblemático/traumático: a desocupação do Pinheirinho
Da mesma forma, o tempo e a maior capacidade de esforço humano na produção também passou a ser mensurado em valor, e denominado como mercadoria força de trabalho, que é ao mesmo tempo concreta (pois produz objetos palpáveis e consumíveis) e abstrata (pois produz um quantitativo numérico de valor).

Mercadoria é, pois, do ponto de vista econômico (valor), um quantitativo acumulado de outra mercadoria, a força de trabalho. Todas as mercadorias, sob o valor, representam um quantitativo acumulado das mercadorias forças de trabalho nelas coagulada.

A esse esforço humano de produção, ou mercadoria força de trabalho, passou-se a denominar trabalho abstrato, por sua dupla personalidade, concreta e abstrata. 

O valor, como dissemos, é uma abstração numérica que quantifica e se incorpora às mercadorias em razão da necessidade de mensuração destas nas trocas quantificadas. 

Assim, o valor, enquanto abstração, precisa da produção contínua e aumentada de mercadorias destinadas à troca no mercado para existir. 
A canção Cio da Terra é uma emocionante celebração do valor de uso

Cessada ou reduzida a produção de mercadorias, cessa ou diminui a existência do valor, causa motora da atual debacle da mediação social mercantil. Como a produção mecanizada, hoje em dia, dispensa em maior parte a mercadoria força de trabalho e reduz o valor das mercadorias, é o próprio valor, enquanto forma de relação social, que entra em crise. 

É a redução drástica da capacidade de produção de valor pela obsolescência do trabalho abstrato a razão da implosão do capitalismo, modo segregacionista de relação social, e isto ocorre por seus próprios fundamentos, agora tornados acanhados e obsoletos. 

O capital, por sua vez, é valor acumulado, ou seja, constitui-se num grande quantitativo de tempo de trabalho abstrato coagulado nas mercadorias sensíveis e na mercadoria dinheiro, signo e expressão numérica do valor, roubado em parte de quem o produziu com seu esforço (força de trabalho dos trabalhadores) e apropriado pelo seu detentor privado ou estatal. 

Por Dalton Rosado
O capital é um amontoado de roubos de força de trabalho (valor) praticados contra cada trabalhador individualmente. E, como tem uma dinâmica própria autotélica de necessária reprodução cumulativa, jamais pode ser distribuído na sua integralidade, tal como um dragão do mal que, quanto mais cresce mais precisa comer (leia-se roubar) para sobreviver. 
(continua neste post)

domingo, 6 de novembro de 2016

FHC VAI PARA O TRONO OU NÃO VAI?

Graziano costuma atrair holofotes
Xico Graziano, que assessorava Fernando Henrique Cardoso quando este era presidente da República, praticamente lançou a campanha para o 3º mandato, em artigo que escreveu para a Folha de S. Paulo, cujo título já diz tudo: Volta, FHC.

Eis o trecho culminante:
"Qual liderança poderá recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento? Como fazer a reforma política tão desejada? Quem conseguirá estabelecer conexão com a sociedade organizada nas redes? É o que todos querem saber.
Creio que somente o ex-presidente FHC se legitima, pela vasta experiência, sensatez e sabedoria, para nos conduzir nessa difícil travessia",
Graziano fez o serviço completo: apontou o idoso sociólogo como o melhor nome tanto na eleição indireta de um presidente-tampão até 2018 (caso o Tribunal Superior Eleitoral condene os dois integrantes da chapa vencedora em 2014), quanto na disputa nas urnas que haverá se Temer cumprir o mandato até o fim. Com os pés ou com as mãos, o Corinthians é campeão...

Numa resposta enviada do exterior por escrito, FHC desconversou: "Jamais cogitei dessa hipótese nem ninguém me consultou sobre o tema".

Já por telefone, foi curto e grosso:  "Não. A Presidência abrevia a morte".

Brigou com as palavras, como notou o jornalista Jânio de Freitas: "O que a Presidência pode abreviar não é a morte, é a vida. À morte, poderia antecipá-la". 
Teremos um recordista do Guinness Book?

E ficou parecendo um homem público um tanto poltrão. Afinal, aos 85 anos, a vida que lhe resta é tão importante a ponto de, por receio de perdê-la, recusar-se a prestar um último serviço ao País? 

Enfim, pode ser apenas uma manobra de quem não quer ver Geraldo Alckmin bombando no noticiário como está desde que elegeu o poste João Doria. Colocar outro nome na parada serviria para baixar um pouco a bola do Sr. Pinheirinho, pouco importando se os planos de FHC forem outros.

Já no caso de ser mesmo um balão de ensaio, valeria a pena FHC ponderar sobre esta avaliação da jornalista Eliana Cantanhêde:
"Quem alardeia essas ideias pirotécnicas, ou piromaníacas, de derrubar Michel Temer para pôr Fernando Henrique no lugar já pensou em quem, como, onde e por quê? 
O colégio eleitoral seria o Congresso, onde, logo, logo, mais de uma centena de camaradas estarão na fila da Lava Jato. A reação automática seria que o PSDB tirou Dilma e pôs Temer para, aí, sim, dar um golpe. E a economia, a política, a imagem do País e a paciência da sociedade explodiriam de vez"

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

SÃO PAULO APAGA 462 VELINHAS. "PORÉM COM TODO DEFEITO, TE CARREGO NO MEU PEITO..."

Uma das minhas mais remotas lembranças é a de, com três anos e três meses de idade, assistir com meus pais às comemorações do IV centenário de São Paulo, no vale do Anhangabaú.

Era começo da noite e o melhor lugar que encontramos, em meio à enorme multidão, foi no viaduto do Chá.

O que mais me encantou: a chuva de aviõezinhos de papel laminado, que eram atirados do topo de edifícios e lampejavam à luz dos holofotes. Que criança não se deslumbraria?

Mas, o ufanismo paulista nunca me contagiou. Locomotiva do Brasil --e daí? Quando pequeno, não dava muita importância ao que estava além de minhas experiências e conhecimentos. Depois, entendi muito bem o que aquilo significava mas, cabeça feita por Monteiro Lobato, preferia os artistas e pensadores aos ganhadores de dinheiro. Sou assim até hoje.

Minha mãe, coitada, acreditava que ter-se industrializado antes fazia São Paulo melhor do que o resto do Brasil. Em suas tentativas canhestras de lançar-se como compositora, criou um mostrengo que, felizmente, nunca ninguém gravaria: "Este São Paulo é um colosso/ Tem cafezais e algodão/ Sua indústria assombra/ É a maior da nação/// Venha assistir a sua luta incessante/ para ver que tem o paulista/ fibra de herói e de bom bandeirante..."


Na Mooca dos anos 60, os jovens projetavam para si carreiras de engenheiros, médicos, advogados e que tais --pois os pais incutiam-lhes desde cedo o sentimento de dívida: tendo a oportunidade de estudar que a eles próprios não fora dada, deveriam chegar aonde gostariam de ter chegado. Para quê? Para terem bons empregos, casas, carros, quinquilharias. 

[Eu percebia claramente no meu pai --que começou a trabalhar aos 11 anos de idade no Crespi e passaria os 45 anos seguintes no mesmo prédio, embora com patrões diferentes-- o sonho inconfessado de me ver na pele do imponente ingegnere daquele gigantesco cotonifício. Mas, deu-me a liberdade de escolha e aquele papel eu não me sentia talhado para desempenhar.]

Até pensei em me tornar engenheiro químico, mas fascinado pelos cientistas loucos dos filmes de terror e não por ambições materiais. Aliás, nunca as teria.

Estudar no Ginásio Estadual (depois Colégio) MMDC não me fez entusiasta da Revolução Constitucionalista de 1932, embora a escola tentasse nos incutir os valores correspondentes. Veteranos vieram algumas vezes fazer palestra para nós, medalhas balançando nos peitos. Mas, caindo aos pedaços, pareciam mais caricatos do que heroicos. 


Uma jovem e desejável professora de música chegou a criar um hino que começava assim: "Nós somos os estudantes/ Que só chegaram depois/ Dos gloriosos instantes/ De julho de 32/// Herdamos seu heroísmo/ A sua tenacidade/ O seu gesto de civismo/ Defendendo a liberdade". Ela e minha mãe formariam uma boa dupla.

Ao me tornar revolucionário, engoli sem pestanejar a versão que os historiadores ligados ao PCB difundiram e prevalece até hoje na esquerda, de que a Revolução Constitucionalista não passara de um movimento orquestrado pela oligarquia industrial-cafeeira de São Paulo. 

Mas, depois da passagem pelos porões da ditadura militar, passei a ver com outros olhos os regimes que detêm poder de vida e morte sobre os governados, concluindo que nada, absolutamente nada, justifica que seres humanos sejam submetidos àqueles horrores que eu sofrera e presenciara.

E, lendo historiadores mais isentos (o stalinizado Partidão precisava provar que estava e sempre estivera certo, até ao apoiar ditaduras fascistoides como a de Vargas), percebi que a revolta contra o governo ilegítimo era generalizada entre a classe média paulista. 


Os quatro do MMDC, mais o que morreu logo depois (Orlando de Oliveira Alvarenga) e não foi celebrado como Marins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, eram simples estudantes, nem de longe pertencentes à aristocracia reacionária. Há de tudo numa luta dessas, mas eu diria que o anseio por liberdade pesou mais do que a defesa de privilégios. E é inconcebível a esquerda, sob quaisquer subterfúgios, alinhar-se com despotismos.

Não que inexista conservadorismo e reacionarismo em São Paulo. Evidentemente, há. Percebe-se isto até no esquecimento a que são relegados episódios tão marcantes como a grande greve de 1917, varrida da memória paulista e paulistana. E são duros de engolir os cinco mandatos consecutivos do PSDB no governo estadual, marcados por episódios chocantes como o da barbárie no Pinheirinho. Mas, exageram os que maximizam a importância daqueles gatos pingados que, nas manifestações pró-impeachment na avenida Paulista, pedem a volta da ditadura; os nostálgicos do arbítrio são exceção irrisória, jamais regra.

A Mooca proletária dos meus verdes anos deixou de existir, hoje os novos ricos tomaram conta. A avenida Paes de Barros virou um boulevard de bancos e empresas com instalações faraônicas. Os marcos do meu passado viraram pó que o vento do tempo espalhou.


Ainda acontece alguma coisa no meu coração quando cruzo a Ipiranga com a São João, apesar da visível decadência do centro velho, do desfilar de zumbis do crack e marginais, de o cine Ipiranga não existir mais, de o Marabá ter virado colmeia de salinhas malcheirosas e o Metro, templo da fé mercantilizada.

E não gostaria, como no pesadelo bizarro de Arnaldo Baptista, de ver uma bomba H destruindo São Paulo.

Mas, o encanto há muito passou, até porque não existem mais aviõezinhos de papel jorrando do alto dos edifícios... 

Então, fico com o Tomzé e sua oportuna ressalva: "porém com todo defeito/ te carrego no meu peito".

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A PM DE SP BARBARIZOU DE NOVO. E A PEC 51/2013 (DA DESMILITARIZAÇÃO DO POLICIAMENTO) SE ARRASTA NO SENADO.

Frente a jovens que protestavam pacificamente contra o aumento da tarifa do transporte coletivo, a Polícia Militar de São Paulo mostrou mais uma vez sua incapacidade para atuar num ambiente democrático, agindo com uma truculência que fez lembrar a SS nazista.

Por incrível que pareça, até a Folha de S. Paulo protestou, no editorial desta 5ª feira, 14:
"As forças de segurança fizeram mais que reprimir a ação dos vândalos. Cercando as pessoas que se aglomeravam na avenida Paulista e, de modo indiscriminado, disparando bombas de gás lacrimogêneo antes mesmo de a passeata começar, impediram a própria realização do protesto –em flagrante afronta à Constituição, portanto. 
Já não era pouco, mas o exagero continuou quando a multidão se dispersou. Policiais caçaram como bandidos manifestantes que não se confundiam com os black blocs e desferiram golpes de cassetete mesmo contra quem não se predispunha para o confronto".
Coube ao jornalista Breno Tardelli, diretor de redação do jornal eletrônico Justificando, identificar no desempenho da PM a utilização de uma tática repressiva condenada tanto por organizações de Direitos Humanos quanto, em tese, pela própria corporação:
"Kettling (ou panela de Hamburgo) consiste em cercar e isolar as pessoas dentro de um cordão policial... 
Foi exatamente o que ocorreu na Paulista. Isolados por cordões policiais que não permitiam que ninguém entrasse ou saísse da manifestação, os manifestantes foram surpreendidos com incontáveis bombas de gás lacrimogênio".
Ou seja, a PM paulista mandou às urtigas o item 3.2.1. do seu Manual de Controle de Distúrbios Civis, que é taxativo este respeito:
"A multidão não deve ser pressionada contra obstáculos físicos ou outra tropa, pois ocorrerá um confinamento de consequências violentas e indesejáveis"
Segundo o professor do Mackenzie Humberto Barrionuevo Fabretti, especialista em Segurança Pública, a PM contrariou até o senso comum:
"Qualquer pessoa, instintivamente, sabe que não se deve encurralar multidões em hipótese alguma, muito menos quando há uma tensão natural entre policiais e manifestantes. 
Cabe ao Estado agir da forma mais racional possível para evitar o confronto e a violência. 
Cercar os manifestantes e atirar bombas em todas as direções mostra um total desconhecimento de táticas de contenção de manifestações. Seria a mesma coisa que tentar apagar uma fogueira com gasolina" 
Patinando sem sair do lugar

Da justificada grita atual nada resultará, infelizmente. Logo outras aberrações vão ocupar os espaços principais do noticiário e continuará tudo como dantes no quartel de Abrantes. É o que nos ensinaram vários episódios anteriores, como o da bestial desocupação do Pinheirinho.

Por quê? Porque falta vontade política para cortar-se o mal pela raiz.

A solução real para o problema seria a substituição das polícias militarizadas brasileiras por instituições civis, conforme recomendou enfaticamente, já lá se vão três anos e meio, o Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidas, levando em conta o altíssimo índice de letalidade dessas corporações e o fato de que parte expressiva de tais óbitos se devia a "execuções extrajudiciais".

Após analisar 11 mil casos de alegadas resistências seguidas de morte, a ONU constatou o que por aqui todos estávamos carecas de saber desde 1992, quando Caco Barcellos lançou seu primoroso livro-reportagem Rota 66 - A história da polícia que mata: frequentemente não houvera resistência nenhuma mas, tão somente, assassinatos a sangue frio de suspeitos já rendidos.

Para piorar, as autoridades brasileiras quase sempre acobertavam os homicídios desnecessários e covardes perpetrados pelos PMs.

Na reunião da ONU em que se discutiu o assunto, coube à Coreia do Sul dar nome aos bois, equiparando tais episódios aos crimes outrora cometidos pelos nefandos esquadrões da morte (aqueles bandos de policiais exterminadores que, durante a ditadura militar, trombeteavam triunfalmente seus feitos e agora atuam com alguma discrição, mas continuam existindo, sim, senhor!).

Marcelo Freixo: "lógica militarista e antidemocrática".
Para Marcelo Freixo, professor de História e deputado estadual pelo PSOL (RJ), "é fundamental que o Congresso Nacional aprove a proposta de emenda constitucional (PEC 51/2013) que prevê a desvinculação entre a polícia e as Forças Armadas; a efetivação da carreira única, com a integração entre delegados, agentes, polícia ostensiva, preventiva e investigativa; e a criação de um projeto único de polícia". Concordo em gênero, número e grau. Pena que a tramitação da PEC se arraste desde setembro de 2013, sem que sequer se vislumbre uma luz no fim do túnel.

Freixo vai ao xis da questão:
"Em todos os Estados do país, a PM é concebida sob a mesma lógica militarista e antidemocrática. (...) Em vez de se preocupar em formar soldados para a guerra, para o enfrentamento e a manutenção da ordem de forma truculenta, o Estado precisa garantir que esses profissionais atuem de forma a fortalecer a democracia e os direitos civis. A realização dessa missão passa necessariamente por mudanças na essência do braço repressor do poder público".
Entulho autoritário

Tal mostrengo existe por obra e graça da ditadura de 1964/85, só sobrevivendo a ela em função da pusilanimidade dos governantes civis a quem cabia eliminar o entulho autoritário.

Na sua trajetória para concentrarem poder na segunda metade da década de 1960, os militares encontraram alguma resistência por parte dos governadores civis que ajudaram a dar o golpe mas depois viram, com óbvio desagrado, esfumarem-se suas ambições presidenciais. Precavidos, os fardados resolveram assegurar-se de que os paisanos não contariam com tropas a eles leais.

O governador Adhemar de Barros, p. ex., até o último momento acreditou que a Força Pública impediria a cassação do seu mandato (tiraram-no do caminho acusando-o de corrupto -o que ele sempre foi- mas, principalmente, porque não se conformava com o monopólio castrense do poder).

Então, nas Constituições impostas de 1967 e 1969, a ditadura fez constar da forma mais incisiva que "as polícias militares (...) e os corpos de bombeiros militares são considerados forças auxiliares, reserva do Exército".
Até 2011 a Rota alardeava sua participação no golpe de 64

Na prática, seus comandos foram se subordinando cada vez mais aos das Forças Armadas; e as lições de tortura aprendidas de instrutores estadunidenses e aprimoradas nos DOI-Codi's da vida foram ciosamente repassadas aos novos  pupilos. Daí a tortura ter continuado a grassar solta, longe dos holofotes, depois da redemocratização do País, só mudando o perfil das vítimas (passaram a ser os presos comuns).

Além disto, a ditadura estimulou a absorção da civilizada Guarda Civil de São Paulo pela truculenta Força Pública (que atuava como tropa de choque em conflitos), sob a denominação de Polícia Militar. Vale notar que o decreto-lei neste sentido, o de nº 217, é de 08/04/1970, bem no auge do terrorismo de estado no Brasil.

Não é à toa que, até 2011, a unidade mais violenta da PM paulista (a Rota) mantinha no seu site rasgados elogios ao papel que a corporação havia desempenhado na derrubada do presidente legítimo João Goulart, só os deletando sob vara da então ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ALCKMIN, O EXTERMINADOR: EM 2012 ELE BARBARIZOU O PINHEIRINHO. EM 2015 ESTÁ BARBARIZANDO A EDUCAÇÃO.

Desocupação do Pinheirinho: bestialidade sem limite.
Detestei cada minuto dos quase quatro anos em que trabalhei no serviço de imprensa de um governador, na década retrasada. Ficara desempregado num momento de crise no mercado jornalístico e o meu antigo diretor de redação, que também estava na olho da rua, investiu na conquista de um cargo público, fazendo campanha de graça para o candidato.

Ganhou a aposta e recebeu a contrapartida: passou a coordenar a redação que trombeteava os feitos e justificava os malfeitos de Sua Excelência. 

Alguns meses depois me fez uma oferta irrecusável, para ser seu redator de confiança na equipe que herdara. 

Aluguei minha competência profissional, mas não as minhas convicções. Não me filiei ao partido do governador nem procurei aproximar-me do seu esquema político, o que teria sido muito fácil nas circunstâncias. Encarava aquilo tão somente como ganha-pão.

O que não me impediu de simpatizar com uma política daquele governo: a colocação do ensino como prioridade primeira.

Logo no início, foram convidados cem luminares para fazerem um diagnóstico em profundidade da educação, formulando um programa para sanar as grandes deficiências existentes.

O resultado foi o projeto das escolas-padrão, que procurava fazer com que algumas escolas estaduais se tornassem ilhas de excelência, com equipamento adequado, autonomia para gerir seus gastos e incentivos aos professores.

As primeiras a serem transformadas serviriam como cartões de visita e teste na prática. Todas as outras, com o passar do tempo, as seguiriam.

Deu tudo errado.

Os professores não mostraram o mínimo interesse em participar da gestão dos recursos no que seriam, digamos, associações de pais e mestres com poderes ampliados e recursos para investir. Isto foi encarado por eles, apenas, como mais trabalho.

Também recusaram, indignados, a proposta de terem aumentos salariais desde que fizessem cursos de aprimoramento didático. Queriam receber aumentos salariais sem se obrigarem a nada.

E fizeram uma interminável greve que, no desempenho das minhas funções, acabei acompanhando passo a passo.
Reestruturação do ensino: iniquidade sem limite.

Nossa redação tinha uns 20 jornalistas, distribuídos entre a manhã/tarde e a tarde/noite. Quase todos simpatizávamos com os professores e os assalariados em geral.

Mesmo assim, era impossível não notarmos que a greve, a partir de certo ponto, foi prolongada unicamente para criar constrangimentos políticos ao governo.

Chegou o momento em que foi colocada a proposta definitiva e última do governador. Mesmo assim, os líderes do magistério mantiveram a paralisação por mais duas ou três semanas, o que não fazia nenhum sentido em termos reivindicatórios. Os motivos eram outros.

Depois recuaram, aceitando integralmente a proposta que haviam rechaçado de pronto.

O governador amaldiçoou o dia em que pensou em fazer do ensino a vitrine do seu governo. Adotou outras prioridades e para elas canalizou os recursos adicionais que iria utilizar em educação.

Os professores perderam o poder de barganha e, portanto, a chance de obter melhor remuneração. Não se deram conta de que, jogando o jogo com mais sutileza, teriam alcançado patamares salariais bem mais condizentes com sua nobre função.

Os estudantes foram sensivelmente prejudicados, pela não concretização das melhoras e também pela perda de dias letivos.

Eu mesmo, acreditando nas belas promessas das escolas-padrão, transferi minha filha para uma delas. No final de um ano praticamente perdido, tive de levá-la de volta para o colégio de freiras, com o rabo entre as pernas.

Fiquei decepcionadíssimo por constatar que raríssimos professores levavam em conta seu papel na formação dos cidadãos, seu acesso privilegiado aos corações e mentes dos jovens brasileiros e, por extensão, de suas famílias.

Queriam mesmo é números diferentes nos holerites. Que acabaram não conseguindo.

Senti-me muito velho ao compará-los com meus veneráveis mestres de outrora, que se viam sobretudo como formadores das novas gerações, difusores do saber e responsáveis pelo aperfeiçoamento das instituições.

Meus pais e avós diziam a mesmíssima coisa, que os professores haviam piorado desde seus tempos de escola. Ou todos estávamos com a sensação errada, ou nosso ensino vem há muito descendo a ladeira.

Quem parece ter entendido bem tal lição é o governador atual, Geraldo Alckmin, que escolheu o ensino como alvo prioritário do corte de despesas nestes tempos bicudos de recessão. Decerto prefere poupar programas que lhe rendem mais dividendos eleitorais. E que se dane o futuro do Estado e do País, condenados a terem, adiante, cidadãos e profissionais de poucas luzes! 

Mas, como todos sabemos, o horizonte dos políticos vai apenas até o último mandato que poderão exercer antes de descerem ao inferno; se depois vier o dilúvio, que lhes importa?

Assim, Alckmin está fechando 25 escolas estaduais na capital paulista --nove nas regiões centrais onde as famílias geralmente podem bancar ensino pago e 16 nos bairros mais pobres, em que talvez isso fulmine a chance de jovens promissores virem a ser alguém na vida.

Em todo o Estado, serão 94 escolas assassinadas e 754 que passarão a ter apenas uma etapa de ensino (ou Fundamental 1, ou Fundamental 2, ou médio).

O governador alega que há espaços ociosos na rede. Eu diria que há espaços vazios nos cofres estaduais e que para preenchê-los vale tudo, até dificultar o acesso dos carentes, que não têm carro próprio nem podem pagar kombis escolares, sendo obrigados a juntar-se às outras sardinhas que se espremem nas latas do dantesco transporte coletivo de São Paulo. 

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou há alguns meses um novo ranking mundial de qualidade da educação. Entre os 76 países avaliados, o Brasil ficou num melancólico 60º lugar.

Se depender dos Alckmins da vida, dias piores virão.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

SUPLICY E OS LILIPUTIANOS

Nos bons tempos, com Lula e o saudoso Plínio.
O companheiro Eduardo Suplicy foi hostilizado por intolerantes chiques numa livraria chique da avenida Paulista. Sou, claro, totalmente solidário a ele.

Quando perdeu a cadeira no Senado para o neo-ultradireitista José Serra, elogiei Suplicy por "haver exercido durante todo esse tempo o papel de principal defensor dos direitos humanos no Senado, participando de cruzadas importantíssimas como a travada contra a extradição de Cesare Battisti, em favor da apuração rigorosa dos crimes cometidos pela PM durante a bestial invasão do Pinheirinho, contra as perseguições fascistoides aos manifestantes de rua a partir de junho de 2013, etc.". 

Mas, fiz uma ressalva que, de certa forma, foi premonitória, antecipando a saia justa deste domingo:
"Tendo pisado feio na bola ao permanecer num partido cada vez mais distanciado das bandeiras que o haviam empolgado no passado e sendo, por natureza, um homem afável, não confrontou certas abominações com a contundência cabível. 
Seu grande momento nos últimos anos: a luta por Battisti.
Ainda assim, com sua fala mansa, teve a coragem de divergir da tacanha linha justa em episódios como o dos pugilistas cubanos (despachados pelo governo brasileiro da forma mais sumária e arbitrária) e da blogueira Yoani Sánchez (a quem as autoridades daquele país tentavam impedir de viajar para cá, onde tinha um prêmio a receber). 
Afora haver tido, em 2009, a vergonha na cara de exigir a renúncia por corrupção do então presidente do Senado José Sarney, a quem, deploravelmente, Lula acabaria atirando uma boia quando estava prestes a submergir".
Parece não ter sido suficiente. E os que o agrediram verbalmente, decerto ignoram que Suplicy também tem sérios motivos de indignação contra o atual núcleo dirigente, pelo qual foi ostensivamente abandonado na última campanha eleitoral. Dilma e seu grupo o atiraram às feras, porque, com sua inquestionável integridade, era o espelho que revelava o quanto eles haviam se tornado Calibãs.

Pena que as mágoas tenham levado Suplicy a municipalizar-se, deixando de desenvolver a atuação nacional  à qual um homem de sua envergadura política e moral não deveria furtar-se num momento tão crítico da vida brasileira.  

Se o fizesse, talvez não o confundissem com os liliputianos, como o fizeram ontem. Embora relutante em usar sua força, Suplicy ainda é um Gulliver, um dos últimos sobreviventes políticos e morais de uma geração inesquecível. Merece respeito! 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

SUPLICY: UM GULLIVER EM MEIO AOS LILIPUTIANOS POLÍTICOS E MORAIS.

O companheiro Eduardo Suplicy fez um balanço dos seus três mandatos sucessivos como senador por São Paulo (totalizando 24 anos), que pode ser acessado aqui

Infelizmente, magnificou as miudezas da política oficial, que servem como trunfos na caça aos votos mas não cheiram nem fedem numa perspectiva histórica, enquanto condensou o que havia de realmente significativo na sua trajetória num sucinto e insuficiente parágrafo. Este:
"Em todo o meu mandato, procurei sempre estar presente nos mais diferentes lugares para atender a chamados quando direitos humanos foram feridos. Foram milhares de cartas de cidadãos com relatos dos mais diversos problemas, que enviei às autoridades para que pudessem resolvê-los".
Numa avaliação criteriosa,  os verdadeiros diferenciais de sua atuação como senador foram dois:
  • ter sido folclórico no bom sentido (com suas cantorias desafinadas e seus happenings hilários), num meio em que quase todos se fingem de sérios e se levam a sério, mas não passam de canastrões sinistros;
  • haver exercido durante todo esse tempo o papel de principal defensor dos direitos humanos no Senado, participando de cruzadas importantíssimas como a travada contra a extradição de Cesare Battisti, em favor da apuração rigorosa dos crimes cometidos pela PM durante a bestial invasão do Pinheirinho, contra as perseguições fascistoides aos manifestantes de rua a partir de junho de 2013, etc. 
Tendo pisado feio na bola ao permanecer num partido cada vez mais distanciado das bandeiras que o haviam empolgado no passado e sendo, por natureza, um homem afável, não confrontou certas abominações com a contundência cabível. 

Ainda assim, com sua fala mansa, teve a coragem de divergir da tacanha linha justa em episódios como o dos pugilistas cubanos (despachados pelo governo brasileiro da forma mais sumária e arbitrária) e da blogueira Yoani Sánchez (a quem as autoridades daquele país tentavam impedir de viajar para cá, onde tinha um prêmio a receber).

Afora haver tido, em 2009, a vergonha na cara de exigir a renúncia por corrupção do então presidente do Senado José Sarney, a quem, deploravelmente, Lula acabaria atirando uma boia quando estava prestes a submergir.

No meio de tantos liliputianos políticos e morais, Suplicy foi um Gulliver. Fará falta.

No entanto, deveria dar mais valor a si próprio. Por que festejar, logo no primeiro parágrafo de sua mensagem de despedida, o fato de que a presidenta Dilma Rousseff se dispôs a recebê-lo nos próximos dias? A audiência que Dilma lhe ficou devendo é bem outra, uma para convidá-lo a ser uma exceção à mediocridade do seu ministério. 

Isto para não lembrar a gritante omissão dos principais dirigentes do PT, Dilma inclusive, quando ele tentava mais uma reeleição.

Trocando em miúdos, a estrofe mais apropriada para o Suplicy cantar, sobre suas relações com os grãos petistas, seria esta do Chico Buarque: "Eu bato o portão sem fazer alarde/ Eu levo a carteira de identidade/ Uma saideira, muita saudade/ E a leve impressão de que já vou tarde".

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

OS INOCENTES ÚTEIS E OS TOTALITÁRIOS INÚTEIS

O advogado Jonas Tadeu Nunes afirma que seu cliente Caio Silva de Souza e outros jovens recebiam pelo menos R$ 150 cada para provocarem distúrbios durante as manifestações de protesto. E que os contratantes lhes forneciam, inclusive, as fantasias de black blocs.

Pode ser verdade. Afinal, é fácil e barato de se fazer. E há sempre forças políticas interessadas em fomentar o caos, os famosos pescadores em águas turvas [1].

O certo é que, no fundamental, constata-se nas ruas um imenso desencanto com as consequências do capitalismo (embora a maioria ainda não esteja consciente de que seja ele a causa)  e com os governos que para elas concorrem, inclusive os do PT.

O secundário são as peripécias das refregas que causam vítimas de ambos os lados.

Umas são pranteadas e praticamente canonizadas pela grande imprensa e pelos defensores virtuais dos interesses petistas, como o cinegrafista Santiago Ilídio de Andrade. Os responsáveis devem ser punidos, claro, mas nem de longe se justifica tão histérica satanização de jovens que não se davam conta do dano que poderiam causar. 

Num país em que tantos matam premeditadamente e com extrema crueldade, é patético que os maiores vilãos acabem sendo uns tolos que mataram sem consciência e por inconsequência (se comprovado que terceiros guiavam suas mãos, estes merecem castigo muito mais rigoroso, pois os mandantes são sempre maiores culpados do que os executantes).

Outras vítimas são vergonhosamente escamoteadas pela mídia. O caso mais emblemático e chocante não se deu exatamente no curso dos protestos, mas tem de ser lembrado sempre: Ivo Teles da Silva, 69 anos, foi bestialmente espancado pela PM de Geraldo Alckmin durante o episódio conhecido como a barbárie no Pinheirinho, por ela sequestrado e mantido longe dos parentes que o procuravam desesperadamente. Tudo isto para esconder seu estado deplorável; para que a opinião pública não tomasse conhecimento da barbarização de um idoso. Só foi localizado 10 dias depois, teve alta mas acabou morrendo. 

Luminares do Direito brasileiro, dentre eles Celso Antonio Bandeira de Mello, Dalmo de Abreu Dallari e Fabio Konder Comparato, entenderam que havia sido cometido um crime e como tal o denunciaram (juntamente com as muitas outras ilegalidades perpetradas no Pinheirinho) à Comissão de Direitos Humanos da OEA. A indústria cultural ignorou olimpicamente.

O fato é que as lágrimas de crocodilo só jorram profusamente quando um cinegrafista de TV é morto por reais ou supostos black blocs, ou quando um coronel é espancado. A indignação (seletiva) foi bem menor no caso das várias dezenas de profissionais da imprensa feridos durante as manifestações pela PM paulista, alguns dos quais sofreram lesões graves e definitivas. 

Ou quando um soldado apertou o gatilho desnecessariamente e colocou em coma um bobinho que portava um estilingue... perdão, um canivete (é quase a mesma coisa). Tivesse Fabrício Proteus Chaves morrido, o volume das lamentações seria o mesmo? Nem a pau, Juvenal!

Mas, repito, o principal continuam sendo os motivos -justíssimos- que levam os jovens às ruas. Como a Copa das maracutaias, cuja realização a Fifa admitiria com apenas oito sedes, mas o governo brasileiro preferiu fazer com 12, a fim de contemplar todo tipo de interesse sórdido. O PT prometia abolir as práticas tradicionais da politicalha, mas a elas aderiu alegremente. 

Terem escolhido o Mundial de futebol como o principal alvo dos protestos depois das queixas iniciais contra o aumento das tarifas dos ônibus atesta que os indignados brasileiros têm, sim, tirocínio político. Daí estarem sendo tão execrados pelos que temem a voz das ruas -alguns dos quais, melancolicamente, são os mesmos que há algumas décadas arriscaram a vida para que elas fossem ouvidas. As voltas que o mundo dá. 

Pior: alguns que tanto sofreram sob o AI-5 e outros, mais jovens, que pretendem ser herdeiros dos ideais da resistência, estão entre os que hoje surfam na onda de episódios infelizes como o da morte do cinegrafista [2], aproveitando para pregar a igualação dos atos de protesto a terrorismo (com penas mais pesadas do que as infligidas a homicidas!!!), sua transformação em crime inafiançável, a colocação das Forças Armadas nas ruas para reprimir manifestantes e outras aberrações totalitárias. 

Sem se darem conta, pois tudo que fazem atende à prioridade obsessiva de perpetuação do PT no poder, estão clamando por um novo AI-5.

Não passarão!

1 Quando este artigo já estava no ar, um acusado que tenta escapar de uma cana braba deu um suspeitíssimo depoimento à polícia, sem a presença do seu advogado (portanto, legalmente inválido), sugerindo que o PSOL, PSTU e FIP seriam os financiadores das ações para exacerbar os ânimos. Digo sugerindo porque ele não apresentou dado concreto nenhum (quem, quando, onde, quanto). Eu acho plausível que integrantes de tais partidos tenham feito doações aos black blocs, e não vejo mal nenhum nisto numa democracia. Mas, permito-me duvidar de que fossem eles que apontavam alvos, forneciam indumentarias e pagavam honorários fixos pela jornada de trabalho. Tal modus operandi é escrachadamente direitista. De resto, as surpreendentes declarações de Caio Silva de Souza certamente vão assegurar-lhe uma boa vontade que as autoridades não teriam com ele se apontasse o dedo para o outro extremo do espectro ideológico.

2 Além, é claro, dos reacionários empedernidos que sempre surfam em tais episódios, mas, pelo menos, estão sendo coerentes com suas (medíocres) convicções. Caso do Reinaldo Azevedo, que andou até macaqueando o Emile Zola, ao disparar as mais demagógicas acusações contra a Dilma, o Franklin Martins, o Gilberto Carvalho e o José Eduardo Cardozo. Vai levar um pito do Ternuma por não ter dado um jeito de incluir o Lula no pacote. Como o RA fez a besteira de mexer também com o Jânio de Freitas, que lhe é infinitamente superior como jornalista, não perderei tempo reduzindo-o à sua insignificância. Deixo o necessário corretivo por conta do Jânio, o qual certamente lhe aplicará umas boas palmadas para que deixe de ser petulante...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

VEJA A DUPLA ALCKMIN-HADDAD E OPINE: "AMORAIS DO SAMBA" É UM BOM NOME?

O que vem após as mãozinhas dadas? O noivado?
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, segue aplicadamente os passos do seu padrinho. 

Quando foram juntos beijar a mão do Paulo Maluf na campanha eleitoral paulistana, captou o recado: ao sabor das conveniências políticas, deveria ele também abanar alegremente o rabo para os personagens mais execrados pelo PT de outrora. 

Gente como Fernando Collor, José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Maluf e o finado ACM se tornaram amigos do Lula desde criancinhas. As chances de Haddad ser adiante ungido para dar continuidade ao reinado petista passam por bisar nos mínimos detalhes a postura (amoralidade inclusa!) dos monarcas anteriores.

Vai daí que no último mês de junho, quando ele e o governador Geraldo Opus Dei Alckmin estiveram na França fazendo lobby para que a Expo 2020 escolha a capital paulista como sede, Haddad não viu mal nenhum em ir muito além daquilo a que era obrigado pelo dever de burgomestre: confraternizou com o carrasco do Pinheirinho num momento de folga!!!
Depois de perdida a virgindade, liberou geral...

Num dia (10 de junho), eles estavam cantando juntos o "Trem das onze", do grande Adoniran Barbosa, que deve ter-se revirado na cova. 

Emblematicamente, nem 24 horas depois as manifestações contra a parceria Alckmin-Haddad no aumento das tarifas do transporte coletivo chegaram ao ápice, tornando-se um fato político de primeira grandeza.

Enquanto isto, os pais da criança estavam na Europa distante, cantando para os franceses uma canção alusiva... ao transporte coletivo. Parece piada de mau gosto.

Na volta, como diria o velho boêmio, a imagem dos dois tinha ficado igual a "tábua de tiro ao álvaro/ não tem mais onde furar"...

Uma reportagem sarcástica sobre a dupla desafinada e desatinada, incluindo o registro da cantoria, foi exibida pela TV Cultura no último domingo (24), no primeiro bloco do programa TV Folha. Vejam-na na janelinha abaixo.

Sartre dizia que fazer política é enfiar a mão no sangue e na merda. Isto não desestimula Haddad. Ele desde já está fazendo tudo que julga ser necessário para não perder esse trem que não passa agora às onze horas, mas só em 2018.  

O jeito é nunca esquecermos de segurar um lenço perfumado no nariz quando ele estiver por perto.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

JUSTIÇA FULMINA A NOVA FALÁCIA DO GOVERNO ALCKMIN

O Governo Alckmin, que já deveria ter sido encerrado pela via do impeachment por haver cometido crimes gravíssimos na desocupação do Pinheirinho (vide aqui), tentou agora enquadrar participantes de uma manifestação de protesto na Lei de Segurança Nacional, um entulho autoritário retirado da lixeira da História pelo delegado titular do 3º distrito policial,  Antônio Luis Tuckumantel --cuja nostalgia pelos instrumentos jurídicos dos regimes de exceção foi, aberrantemente, compartilhada pelo Ministério Público!

As viúvas da ditadura não nascem, brotam. Como as ervas daninhas. 

Segundo Gustavo Romano, mestre em direito pela Universidade Harvard, as  otoridade  parecem considerar brandas demais as leis realmente aplicáveis e fazem verdadeiros contorcionismos  para enquadrarem nossos  indignados  em outras que possibilitem condenações mais pesadas. Daí a forçação de barra carioca (considerá-los membros de organizações criminosas) e a paulista (fingir que protestos corriqueiros constituiriam formidável ameaça à segurança nacional). 

Este finge não ter nada a ver com o que sua polícia faz...
Sobre a última falácia, ele argumenta:
"Os manifestantes estão tentando mudar o regime vigente (artigo 16) ou impedir o exercício dos poderes da União ou dos Estados (artigo 18)? Vale lembrar que uma referência frequente às manifestações é a ausência de uma agenda clara. Se não está claro qual o objetivo, como dizer que atenta contra a segurança nacional?
Mas ainda que decidamos que a LSN é aplicável, há o problema de se devemos usá-la para ajustar nosso relógio democrático. A atual LSN surgiu em 1983, na última ditadura, e é uma variação de outras leis do governo Vargas e reinventadas nos anos 1960 e 70. Todas tiveram o objetivo de suprimir movimentos que ameaçassem o ditador de plantão.
E é essa sua linhagem histórica que nos obriga a ponderar se o uso de uma lei criada para proteger ditaduras é a melhor solução na preservação da democracia".
...enquanto este gosta de ser o pai de rotundos fracassos.
O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que não, ao determinar nesta 4ª feira (9) a libertação do casal Luana Bernardo Lopes e Humberto Caporalli. 

Reinaldo Azevedo, o blogueiro da Veja que pateticamente se ufana de haver tido a ideia de jerico de pedir a aplicação da LSN ("Porque eu defendo, sim, o enquadramento dos terroristas nessa lei. Na verdade, fui o primeiro a tocar no assunto, ainda no dia 14 de junho"), espumou de raiva --vide aqui.

O governador Geraldo Alckmin, ao constatar a repulsa com que seu balão de ensaio foi recebido pela cidadania, fingiu que não era com ele:
"Eu não sou professor de direito, nem advogado. Mas acho que não [seja necessária aplicação da LSN]. O que acontece é baderneiro cometendo crime".
Será que a duplicidade foi uma das orientações que ele recebeu do Opus Dei?

sábado, 22 de junho de 2013

ESTARRECEDOR: DILMA OMITIU TOTALMENTE A BRUTALIDADE POLICIAL!

A mensagem da presidenta Dilma Rousseff ao povo brasileiro (leia a íntegra clicando aqui) só me deixou uma dúvida: terá o Jarbas Passarinho sido o ghost writer?

Pois a diferenciação entre  manifestantes pacíficos  e minoria autoritária, quem fazia era a ditadura militar. Dilma deveria pagar-lhe direitos autorais.

De quem tem sua história de vida e integra um partido criado por perseguidos políticos, esperava-se um mínimo de equilíbrio e coerência: criticar não apenas os excessos cometido por manifestantes ou provocadores infiltrados entre eles, mas também, e principalmente (porque partida de quem deveria manter a ordem e não estuprá-la), a bestialidade policial que revoltou o Brasil e estarreceu o mundo.

E que dizer do comportamento imoral das polícias que facilitaram saques e depredações, retardando ao máximo o atendimento das ocorrências, porque sua verdadeira prioridade era retaliarem autoridades que os haviam censurado e/ou manipularem a opinião pública?! Isto caracteriza omissão no cumprimento do dever. Tanto quanto a brutalidade desnecessária, teria de ser rigorosamente apurada e punida.

E até quando vai ser ignorada a gravíssima denúncia do jornalista/historiador Elio Gaspari, de que duas dezenas de integrantes da tropa de choque foram os iniciadores deliberados do festival de agressões covardes do último dia 14 em São Paulo? 

Gaspari foi muito claro sobre o que testemunhou: o ato transcorria na mais perfeita paz até que uns 20 brutamontes fardados, sem motivo nem aviso, começaram a atirar rojões e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

Ora, se policiais atuaram como agentes do caos, acendendo o estopim que faria explodir a violência descontrolada, isto também é muito pior do que a ação de qualquer depredador. 

Nada disto foi lembrado pela presidenta, que nem sequer qualificou de bárbara uma polícia que praticou as mais flagrantes barbaridades. Quando a mesma PM vandalizou o Pinheirinho, Dilma, pelo menos, designou corretamente aquilo que havia ocorrido: fora, disse ela, um ato de barbárie. Desta vez, nem isto.

Quanto à defesa dos partidos, soaria bem mais sincera se não fosse o PT que os tivesse desmoralizado (e a si próprio) ao comprar o seu apoio com  uma farta distribuição de ministérios  y otras cositas más. Não seria melhor tentar fazer as suas posições prevalecerem pelos próprios méritos?

Já que optaram pela facilidade dos  acordos podres, os petistas não têm  motivos para se queixarem da péssima imagem das agremiações políticas. Depois de ver o Maluf, o Sarney, o Calheiros,  o Collor, o ACM e outros da mesma laia aos beijos e abraços com o Lula, o que mais o povo poderia concluir sobre os partidos e os políticos?

Precisamos de partidos, sim. Mas não desses que estão aí, vendendo-se no atacado e varejo e até leiloando seu voto nas questões importantes.

Nenhuma reforma política resolverá isto. O que é preciso, o Fernando Collor prometeu quando o entrevistei para a Agência Estado, logo no início da campanha presidencial de 1989: afirmou que, se medidas imprescindíveis estivessem sendo  embaçadas  pelo Congresso, ele iria pessoalmente explicá-las ao povo, exortando-o a pressionar os parlamentares.

Era a receita certa na boca do homem errado. Eleito, não fez nada disto. 

E também se mostraram  presidentes  errados  o Itamar Franco, o FHC, o Lula e a Dilma. Nenhum deles teve a coragem de romper com as práticas fisiológicas, jogando o povo contra os congressistas, se necessário.

Estamos à espera de um presidente que, como os pequenos comerciantes dos filmes de Hollywood, ouse responder aos gangstêres que vêm cobrar-lhes por  proteção... contra eles mesmos: eu não pago! 

O resto é conversa pra boi dormir. Se a Dilma  quiser algum dia coibir pra valer a ação dos corruptos, não precisará ir muito longe: vai encontrar boa parte deles abrigada na base aliada.
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