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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O PRINCIPAL ERRO DO TOFFOLI FOI ASSUMIR UM CARGO DO QUAL NUNCA ESTEVE À ALTURA. O RESTO É EFEITO.

O
ministro do STF Dias Toffoli está todo encalacrado no caso das fraudes do Banco Master. Merece.

Quando eu lutava contra a extradição do escritor Cesare Battisti, vagou uma cadeira no Supremo e ele, apesar de não preencher nem de longe os requisitos para o cargo, acabou sendo o indicado pelo Lula.

Sua escolha foi defendida principalmente pelo Zé Dirceu, de quem havia sido advogado. E aqueles caciques petistas (não eram todos) que faziam questão da libertação do Battisti contavam com o voto dele neste sentido.

De repente o ministro do STF Gilmar Mendes, que era um ídolo para toda a imprensa reacionária, fez declarações contundentes contra o Toffoli, argumentando que não possuía méritos acadêmicos suficientes para integrar o STF.

Houve até jornalão que publicou editorial nessa linha. Mas aí o Mendes fez uma longa reunião com o Toffoli e saiu se desdizendo. Afirmou que ele era perfeitamente apto para o cargo.

Nós, do comitê de solidariedade ao Battisti, percebemos depressa que havia algo de podre no reino da Dinamarca.
Isto logo se confirmou: o Toffoli se considerou impedido para julgar o Cesare, embora haja depois atuado em vários casos nos quais existiam razões bem maiores para ele ficar de fora.

Pior ainda ele se mostrou pessoalmente. 

Na véspera de um dos julgamentos do Battisti o Carlos Lungarzo (em nome da Anistia Internacional), o então senador Eduardo Suplicy e eu (um dos dois maiores defensores da memória da luta armada nas redes sociais, ao lado do Ivan Seixas), fomos levar um memorial em defesa do Cesare.

Conseguimos entregá-lo a quase todos os ministros durante a pausa para o cafezinho. E fomos recebidos com respeito, inclusive pelos que tinham tinha posição contrária, como o Lewandowski.

O Toffoli foi exceção. Parecia um homem proeminente sendo incomodado por pedintes. Só faltou jogar imediatamente o memorial no lixo.  

No entanto, o prestígio de nós três fora conquistado com muita luta durante décadas, enquanto o Toffoli nada tinha feito de relevante antes de ser beneficiado por uma indicação política. 

Tomara que caia, pra arejar o lodaçal!

De resto, bolsonaristas e outros direitistas estão movendo céus e terras para envolver o ministro Alexandre de Moraes no escândalo. 

A contribuição dele para livrar o país de sua maior aberração política em todos os tempos jamais pode sucumbir a uma insignificância  como o contrato firmado pela esposa com o Banco Master e a acusações não provadas. 

Se isso virasse o novo normal, as dependências dos Poderes ficariam vazias.

E mesmo que dolo houvesse, quem tranca o Bolsonaro tem cem séculos de perdão... (por Celso Lungaretti) 
"Lá vai ela toda prosa, vestida de verde e rosa/ Parece até a 
Mangueira em dia de carnaval/ Vai de mini, minissaia, blusa
tomara que caia/ Tomara mesmo que caia, pra alegrar o visual"

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 2)

O Jamil (Ladislau Dowbor) era um militante brasileiro de ascendência polonesa que, após absorver novidades importantes em teoria revolucionária durante seus estudos acadêmicos em Israel e na Europa, voltara ao Brasil para participar da luta armada, ingressando na VPR.

Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica de suas teses. Exatamente por causa de sua relativa complexidade, não despertaram o interesse da grande maioria dos quadros da organização.

O que me pareceu um verdadeiro ovo de Colombo foi sua conclusão. Se não, vejamos. 

A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964,  acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democrático-burguesa na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo. 

Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante tal fase.

O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas empenhados em aprofundar os motivos da derrota infame diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).

O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.
Dowbor hoje leciona economia e administração na PUC

Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante mais de quatro décadas, após vencer a disputa com os anarquistas e incorporar parte deles aos seus quadros. 

Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.

E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democrático-burguesa. Os que a pregavam lutariam por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada de passagem e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.

Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, no seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iram se forjando ao sabor da luta.

Tal proposta permitia desatar o nó que produzira situações ridículas como a da ocasião em que uma passeata estudantil contra a ditadura terminou com um discurso de Zé Dirceu num dos cantos do Largo São Francisco (SP) e um de Catarina Meloni no outro lado, cada um pretendendo representar a verdadeira União Estadual dos Estudantes (a entidade saíra rachada de um congresso recente).

E, no caso da VAR-Palmares, Jamil acenava com a possibilidade de os quadros de origem VPR se ocuparem das tarefas militares do processo (o lançamento da guerrilha rural e a propaganda armada nas cidades), pois é para isto que tinham expertise. 
Torturado quando convalescia
de ferimentos, o Elias morreu

Enquanto isto, os néo-massistas continuariam procurando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa ensejasse vulnerabilidades enormes para a primeira. Tanto que desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante. 

Seria ocioso relatar de novo, detalhadamente, como transcorreu este novo processo de luta interna nas fileiras da VPR (com o acréscimo dos quadros do Colina, durante aqueles poucos meses em que ambas as organizações estiveram unidas na VAR-Palmares). Já o fiz no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), então vou resumir:
-- a queda e morte sob tortura do quarto integrante do Comando Estadual de SP, João Domingos da Silva, o Elias, responsável pelas ações armadas, deixou nós outros três à volta com uma enorme crise de segurança, pois o bravo guerreiro não compartilhara com ninguém a localização de depósitos de armas, aparelhos de reserva, dinheiro para emergências, etc. Companheiros se amontoavam nos aparelhos ainda tidos como seguros:
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, apresentados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna revolucionária e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses do Jamil como plataforma revolucionária.

No fundo, aquela nossa iniciativa apenas direcionou um terço da VAR-Palmares para a única posição possível para a esquerda armada continuar lutando a partir das derrotas terríveis que sofreria a partir de 1970, enquanto os dois terços restantes, sem seus melhores combatentes, rapidamente seriam tragados pelas circunstâncias extremadas que a luta assumiu. 

Logo a união de várias forças da esquerda se tornou não uma opção escolhida, mas um imperativo para a concretização das ações armadas mais ambiciosas que nenhuma delas conseguia mais realizar sozinha.

De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete e foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, pois nada do legado que pretendo a duras penas ter deixado para a esquerda brasileira faria sentido sem levar-se em conta a origem da estigmatização que eu sofreria, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário. (por Celso Lungaretti)    

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sexta-feira, 5 de julho de 2024

O FILME PARA VER NO BLOG DE HOJE É UMA HOMENAGEM AOS PRESIDENTES QUE O BRASIL ELEGEU NO SÉCULO 21

Morro de vergonha a cada nova comprovação de que o povo brasileiro ou se submete a intermináveis ditaduras ou elege caricatos presidentes da República que o colocam em ridículo mundial.

E que, se no século passado houve exceção, no atual as escolhas têm sido as piores possíveis.

Primeiramente Lula, cuja visão de mundo começou a ser moldada no ambiente do coronelismo nordestino dos seus primeiros sete anos de vida e depois foi reciclada pelo sindicalismo de resultados estadunidense.

Nem em Garanhuns nem no ABC pôde adquirir conhecimentos que lhe permitissem perceber que o capitalismo mundial está há muito condenado por inviabilidade econômica e, por mais que consiga alongar sua agonia, inevitavelmente vai desembocar numa depressão que fará a da década de 1930 parecer brincadeira de criança.

Quis o destino que ele se tornasse dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, adaptando-se às circunstâncias como um camaleão para delas tirar melhor proveito pessoal, mas sem jamais haver tido capacidade para voos mais altos.

Assim, p. ex., singelamente já admitiu que, atendendo às viúvas que vinham requerer seus benefícios, passava a conversa nas que o atraíam e acabava lhes concedendo outros préstimos
Daí a filha fora do casamento que o prejudicou tanto na semana decisiva da eleição presidencial de 1989, não só pela revelação do seu adultério como por ele haver tentado convencer a amante a abortar em benefício de sua carreira política.

Escolhido pelos mandachuvas do PT como mera figura de proa para ganhar eleições no figurino populista, beneficiou-se no primeiro mandato de um contexto extremamente favorável às commodities brasileiras e da tutela que tais cabeças pensantes exerciam sobre ele, impedindo-o de cometer lambanças.

O escândalo do mensalão, no entanto, permitiu-lhe livrar-se da vigilância dos Genoínos e Dirceus, passando a fazer o que lhe dava na telha. O segundo mandato foi bem menos auspicioso do que o primeiro e a escolha da gerentona trapalhona para sucedê-lo, desastrosa ao extremo. 

Muito mais uma brizolista do que petista, ela tentou ressuscitar a política econômica do trabalhismo de Vargas como se fosse possível fazer o calendário da História recuar meio século. Com isto, Dilma Rousseff colocou o Brasil no rumo de uma terrível recessão, que tragou seu mandato, mandou Lula para o cativeiro e elegeu o palhaço psicopata.

Apesar do peso que a acusação de corrupção teve naquela desgraça do Lula, ele é muito mais movido por delírios de poder dentro da democracia burguesa (o que faz dele apenas um serviçal de luxo do poder econômico) do que pela imoralidade gananciosa. 

Apenas reproduziu o comportamento da esmagadora maioria dos políticos profissionais, certamente considerando normal que a Odebrecht reformasse seu sítio, lhe provesse tríplex, implantasse instituto e financiasse o partido por baixo do pano. 

Pelo mesmo critério, uns 95% dos políticos profissionais brasileiros acabariam em cana. O grande pecado do Lula foi outro: igualar a esquerda à qual o povo ingenuamente crê que ele pertença à ralé nefanda dos centrões fisiológicos.

Quanto a Jair Bolsonaro, o motivo de eu estar falando dele aqui é óbvio: seu indiciamento pela Polícia Federal por indiscutíveis e indefensáveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa (no caso das joias recebidas de governos estrangeiros). 

Fruto putrefato do ambiente miliciano fluminense, nunca passou de mero ladrão de galinhas com evidentes sintomas de desequilíbrio mental, capaz de planejar explosão de banheiros de quartéis, sabotagem do fornecimento de água à população... e depois contar tudo à imprensa! 

Também não podemos esquecer que ele obrigava seus auxiliares administrativos a lhe pagarem comissão, nem o uso fraudulento do dinheiro público para custear a faxineira de sua casa de praia... 

No caso desta excrescência  é desnecessário alongar-me. Foi o presidente responsável pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos, o que pior governou e o que mais humilhou o Brasil aos olhos do mundo. 

Se Lula não precisasse dele para ter chances eleitorais como mal menor, há muito o bufão macabro deveria estar vendo o sol nascer quadrado. 

Ele continuar em liberdade até hoje é simplesmente uma aberração! (por Celso Lungaretti)
E por que dois perdidos? Porque eleitos foram ambos, a
outra não passou de um poste fincado no poder pelo Lula 

sábado, 25 de junho de 2022

BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (o acerto de contas com homens de poder) – 2

 (continuação deste post)
EVO MORALES: UM TRAIDOR E COVARDE QUE SE VENDEU SEM ESCRÚPULO
 – Um mérito de Ferraz foi o de ter obtido de Battisti suas afirmações mais contundentes até agora sobre os homens de poder sul-americanos envolvidos no seu drama, talvez porque ele saiba que, doravante, nada de bom poderá esperar deles. 

Começando, claro, pelo Judas boliviano, Evo Morales, por ele merecidamente qualificado de "traidor e covarde". Eis como Ferraz reproduz a versão do Cesare:
"...Battisti disse que integrantes do PT e de organizações sociais (...) fizeram contato com o presidente boliviano em 2017, quando o governo de Michel Temer dava sinais de que iria reverter o refúgio no Brasil, e que Evo Morales teria garantido proteção. 
...afirmou ter sido recepcionado no país por um representante do Movimento ao Socialismo, partido de Evo Morales.  
... disse ter percebido que alguma coisa não ia bem quando houve um desencontro entre as autoridades locais: o pedido de refúgio tinha sido apresentado por ele algumas semanas depois de entrar na Bolívia, mas a resposta que recebeu foi de que o requerimento deveria ter sido feito logo no ingresso. 
O processo, como temia, não andou. Detido, ele foi entregue a policiais italianos e formalmente expulso do país. 
...O italiano credita a Evo Morales a sua ida para a Bolívia e também o responsabiliza pelo que chamou de 'sequestro', referindo-se à sua prisão.  

Apertar a mão de presidente que favorece o extermínio
 de indígenas dá uma boa noção do caráter de Morales


Como foi expulso da Bolívia, e não extraditado do Brasil, o processo de extradição julgado pelo STF em 2010 –determinando que, se voltasse para a Itália, ficasse no máximo 30 anos preso– perdeu o efeito.  
...'Ele poderia ao menos me fazer ser preso, eu iria responder na Justiça e a extradição seria negada por prescrição e delito político. Evo se vendeu sem escrúpulo. Um gesto desprezível de um homem indigno que revelou toda sua obscenidade meses depois, ao abandonar o próprio povo aos golpistas para fugir'".
LULA: CINISMO POLÍTICO, MENTIRAS DESPUDORADAS E ACENOS À DIREITA  –  Ferraz deixa a impressão de que a indignação do Cesare com o Lula se deveu à sofreguidão com que o ex-presidente o renegou e abandonou às feras depois de sua confissão à Justiça italiana. Esclarecerei adiante que o jornalista chegou a uma conclusão errada por desconhecer detalhes importantes.

Cesare assim desabafou, segundo reproduziu (e analisou) Ferraz:
"'Todos sabemos que Lula é capaz de tudo para colocar de novo a faixa de presidente. O animal político que nunca se contradiz. Aconteceu também comigo de admirar seu cinismo político (no sentido vulgar do termo) e o extraordinário jogo de cintura', disse.

...'Naquele abril de 2021, o ex-presidente voltava definitivamente à cena (...) após o STF anular sua condenação e torná-lo novamente elegível.'
Lula deveria fazer autocrítica dos
seus erros antes de julgar os outros
 
...disse que 'acreditava que Battisti era inocente e não era', referindo-se à admissão de culpa do italiano (em 2019) em quatro homicídios. 'Desde o momento que ele confessou, é óbvio que devo admitir que errei', afirmou Lula.
Battisti atribui a atitude de Lula, assim como o abandono de antigos aliados à esquerda após assumir os crimes, ao clima de 'campanha política' e à necessidade de fazer acenos à direita...  
'Aconselharam Lula a fazer isso se quisesse recuperar parte dos setores que votaram em Bolsonaro, ele não hesitou. Mesmo que para isso tivesse que mentir despudoradamente, dizendo que ele e Tarso Genro [ex-ministro da Justiça do governo Lula] não sabiam de nada', disse. 
'Fui recebido não porque fosse declarado inocente, mas exatamente para deixar ser exibido como troféu de guerrilheiro às forças de esquerda do Brasil. Para eles, não interessava um inocente perseguido, mas o combatente da liberdade. Lula e seu partido me apoiaram por isso. De toda forma, não se dá refúgio apenas aos inocentes.
...'Se Lula e o PT não tivessem comido tudo, se não tivessem feito acordo com todo o lixo do centrão, o povo brasileiro não teria desistido para correr atrás de Bolsonaro'".
Algo que poderia ter colocado Ferraz no caminho certo seria saber –como Battisti sabia e preferiu omitir, e como nós do Comitê de Solidariedade sabíamos e foi um dado importantíssimo para nortear a nossa atuação–  que o Lula JAMAIS quis tomar a decisão que tomou.

Durante a sua trajetória sindical Lula sempre foi, no máximo, um reformista que acreditava em obter pequenas melhoras para sua categoria dentro do capitalismo e nem de longe pretendia conduzir o proletariado ao poder por meio de uma revolução.
Causou pasmo e indignação a escolha do
carrasco do Pinheirinho para vice do Lula

Só mudou quando Leonel Brizola, voltando do exílio como herói, partiu para a formação do seu partido.

Percebendo que, se não criassem uma agremiação concorrente, o gaúcho acabaria estendendo sua influência também para o movimento sindical, os sindicalistas do ABC foram obrigados a negociar com a esquerda católica e quadros remanescentes da luta armada uma composição de forças para viabilizar o PT nacionalmente. Sem isto, ficariam restritos quase que somente a São Paulo.

Objetivo atingido, a ala majoritária do PT passou a livrar-se dos indesejados companheiros de viagem, processo que acentuou-se quando a rejeição da emenda das diretas-já decepcionou profundamente os que tentavam acelerar o ritmo da redemocratização. Com José Sarney, filhote da ditadura, ascendendo ao poder, a burguesia conseguiu ditar tal rimo, evitando, p. ex., que a remoção dos entulhos autoritários tivesse a abrangência  necessária.  

Lula foi um dos dirigentes petistas que, aproveitando o refluxo revolucionário, pressionaram fortemente o partido para deflagrar aquela vergonhosa caça às bruxas por meio da qual o PT expeliu uma infinidade de tendências de esquerda. As que sobreviveram à década de 1980 foram espirrando nas seguintes.

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

Mesmo assim, a resistência à direitização continuou pipocando dentro do partido, além de avolumar-se em momentos impactantes como  a campanha presidencial de 1989 (a do Lula-lá) e o ForaCollor.
Foi das mais traumáticas a expulsão do PT, em
1992, da combativa Convergência Socialista
 
Em 2002, Lula decerto deveria estar acreditando que conseguira finalmente domesticar o PT, dada a facilidade com que fora engolida sua Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual prestou vassalagem à classe dominante, comprometendo-se a presidir o Brasil com obediência estrita aos ditames do poder econômico.  

Caso Battisti, contudo, o fez perceber que nem tudo estava dominado, pois dirigentes importantes como o Gilberto Carvalho e o Zé Dirceu se opuseram firmemente à capitulação diante das arrogantes exigências italianas. 

Tendo pela frente a perspectiva de passar quatro anos fora do poder, Lula não poderia, além de tudo, queimar seu filme com expoentes da velha guarda do partido. Então, saiu pela tangente: mandou recado ao presidente do STF, Gilmar Mendes, de que consentiria na extradição do Cesare caso o Supremo desse sozinho xeque-mate na questão; mas que, se a decisão final coubesse a ele, Lula, não extraditaria.

O resto é História: os esforços desesperados do Comitê de Solidariedade para que, na votação mais importante de todas,  o placar contrário por 5x4 se tornasse 5x4 em nosso favor; e a determinação do ministro Ayres Britto de não acompanhar mais o bloco até então dominante, pois fazia questão de manter-se coerente com sua convicção de que a última palavra em extradições cabe ao presidente da República, até porque a manifestara em várias outras ocasiões.

O julgamento ocorreu em novembro/2018, o acórdão só foi publicado em abril/2019, mas Lula preferiu esperar as eleições de outubro terminarem para dar sua decisão, temendo que Dilma sofresse prejuízos nas urnas.

Passou novembro, passou dezembro quase inteiro e, só no último dia de seu mandato, a decisão do Lula foi publicada no Diário Oficial da União
Libertado em 2011. Mas, os inquisidores não desistiram

Circulou nos bastidores a versão de que Lula estava a sair de fininho, deixando o abacaxi para a Dilma descascar (ela já antecipara que entregaria Battisti ao Berlusconi), mas um dirigente importante deu o alarme e um texto qualquer teria sido retirado do DOU para que o espaço fosse preenchido pelo que ficara faltando. 

Não tenho como provar, mas tal atitude do Lula seria na mesma linha de todas as outras.

BOLSONARO CANALHA, GABEIRA OBCECADO PELO PODER E BARROSO NOTA 10 – Sobre o ex-deputado Fernando Gabeira, Battisti lembra que foi seu primeiro contato quando desembarcou no Brasil em 2004, fugido da França. 

Eis trechos do depoimento que deu por escrito ao Ferraz:
"Eu lamentava por ele não ter me aconselhado bem. Enquanto eu queria me entregar às autoridades para pedir refúgio, ele dizia que não era o caso e assim eu fiquei semiclandestino de 2004 a 2007 [Depois Battisti concluiu que teria sido melhor entregar-se antes que o prendessem].  
Acredito que no passado Gabeira foi um bom político e um amigo, mas ele também foi devorado pelo jogo do poder. 
Quando o Gabeira foi candidato no Rio por uma coalizão de direita, aconselharam ele a me renegar (a mesma história de Lula)".
"aconselharam ele a me renegar"
Finalmente, diz Ferraz que o Cesare continua interessado nos acontecimentos brasileiros: 
"...expressou temor com a possibilidade de atos de violência nas eleições por parte de milícias bolsonaristas, em especial ao ler sobre a proliferação de armas no Brasil e sobre o crescente apoio dos militares aos projetos antidemocráticos de Bolsonaro. 
'Me dói ler e ouvir o que acontece nesse grande país. Por raiva, alguém pode dizer: ‘vocês votaram no fascista, agora aguentem’. Mas sabemos que isso é uma idiotice. No desespero, o povo torna-se manipulável e cego. Temo que para colocar fora do jogo esse canalha ocorrerá uma desgraça'".
Finalmente, os mais rasgados elogios de Battisti foram para seu ex-advogado Luís Roberto Barroso:
"Ele tem uma dignidade e ética raras. Nunca deu um passo para trás, nem mesmo sob ameaça do Senado no momento de sua nomeação para o STF. É democrático e um progressista por convicção. Ele ficou profundamente decepcionado com as falsas promessas do PT e de Lula, promessas que viraram jogos de poder".
Não tive convivência suficiente com o Barroso para formar uma opinião sobre ele como pessoa. Representou muito bem seu papel como advogado, mas, assistindo àquelas sessões de cabo a rabo e tomando conhecimento de um pouco do que rolava nos bastidores, minha conclusão foi a de que nenhum dos participantes daquele espetáculo convencia outro com sua oratória na sessão. 

Aquilo não passa de um espaço cênico e o que realmente importa era tratado alhures. 

Muito mais peso têm as articulações de bastidores, o que eles combinam entre si antes de entrarem no palco.
 (por Celso Lungaretti

segunda-feira, 13 de junho de 2022

COM BOLSONARO EM QUEDA LIVRE, VOTO ÚTIL NO 1º TURNO SE TORNA INÚTIL

Como nos faroestes estadunidenses de antanho, o maior vilão morre no fim.

Jair Bolsonaro, que, face à sua total incapacidade para governar, esquivou-se deste dever e está em campanha para a reeleição desde que recebeu a faixa presidencial, vem em queda livre nas pesquisas eleitorais e roda a baiana dia sim, outro também, por saber que depois da derrota poderá ter de responder pelo seu rosário de crimes como deputado e como presidente. 

Então, tenta recuperar prestígio popular com esmolas tardias que não cabem no orçamento federal, flerta com o congelamento de preços que gerou a hiperinflação do Sarney, implora aos empresários de supermercados que deixem de ser capitalistas até outubro e abstenham-se de novos aumentos, surpreende Joe Biden com um estapafúrdio pedido de ajuda para deter Lula.

Só conseguiu desmoralizar ainda mais o Brasil no exterior, supondo-se que isto ainda seja possível. Seu apelo desesperado àquele contra quem fez campanha estridente e descabida em 2020 não levou em conta que, com todos os defeitos, Biden não é como Lyndon Johnson, um caipirão que comia na mão da CIA e em 1964 engoliu a lorota de que o Brasil estava a um passo do comunismo. 

Afora o ridículo de não ter obtido resposta de Biden, que preferiu trocar de assunto, Bolsonaro acrescentou à sua extensa lista mais um crime de responsabilidade passível de impeachment ("proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo") e mais um motivo para os altos comandantes militares o repudiarem. Pois, na mentalidade da caserna, o que ele fez configura traição à pátria.

É quase certo que não chegará ao 2º turno, seja em razão de uma vitória antecipada do Lula, seja porque a rapidez do derretimento da candidatura dele, Bolsonaro, poderá abrir brecha para qualquer azarão

Vale lembrar que em 2017, não suportando mais a intensa polarização, o eleitorado francês fez de Emmanuel Macron o novo presidente, embora ele houvesse lançado sua candidatura quatro meses antes do pleito e sem o respaldo de um grande partido, tendo concorrido pelo movimento centrista Em marcha!. Mesmo assim, ganhou da ultradireitista Le Pen no 1º turno (23% a 22%) e arrasou-a no 2º (66% a 34%).
E O OUTRO GIGOLÔ DA POLARIZAÇÃO, COMO É QUE FICA?
 –  Vai ser uma justiça poética se Lula não eleger-se à custa da polarização, depois de ele e o PT terem veladamente boicotado a luta pelo impeachment do genocida e explicitamente esvaziado as manifestações #ForaBolsonaro

Se ainda assim acabarem derrotados, quem acompanha criticamente os acontecimentos políticos lhes atirará na cara que foi não só imoral como também inútil acumpliciarem com a morte de centenas de milhares de brasileiros que sobreviveriam à covid se o ocupante do Palácio do Planalto não fosse um alucinado ultradireitista, inepto para o cargo e com evidentes problemas mentais.

O esboço de plataforma eleitoral do Lula, recentemente divulgado, mostra bem o porquê de tanto empenho em bater em bêbado, capitalizando a rejeição-monstro do Bolsonaro. É uma montoeira de bandeiras do passado que há muito caducaram, um mais do mesmo que não leva em conta o acentuada aceleração da crise do capitalismo nem oferece nenhuma fórmula viável para o Brasil sair do buraco econômico que tirou a escada do Bolsonaro e o deixou pendurado na brocha.

Uma vitória do Lula, também serviçal do capitalismo, apenas significará a substituição do capataz boçal e truculento que agarra a comida com as mãos por um populista messiânico que não surta à toa, negocia as maneiras mais elegantes de maquilar a exploração do homem pelo homem e usa os talheres certos.

E, embora resolva o problema imediato de despachar certamente para o limbo (eventualmente para o hospício ou para a prisão) quem há três anos e meio desgraça o Brasil, uma eleição do Lula embute uma enorme possibilidade de continuidade e até agravamento da penúria atual, ensejando uma volta da extrema-direita ao poder dentro de alguns anos, em nova reprise desse filme que já não aguentamos mais assistir.

Daí eu considerar que a prioridade máxima da esquerda neste instante é reconstruir-se após a hibernação reformista, voltando a ser alternativa ao capitalismo e não sua força auxiliar.

Como primeiro passo, cabe-nos denunciar incisivamente o
arrastão do voto útil por meio do qual o PT tenta evitar o 2º turno, surfando no alarmismo desinformado ao fingir ainda acreditar numa possibilidade de golpe bolsonarista, hipótese sem a mínima consistência hoje em dia.

Tal golpe, se Bolsonaro tivesse força política e coragem pessoal para encabeçá-lo (seu vexatório recuo na micareta golpista do 7 de setembro está bem vivo no memória de todos nós), teria de ser dado antes do 1º turno, pois seria tolice desfechá-lo depois de consumada a derrota. Trump já inviabilizou esse formato. Então, por que abrirmos mão de nossas convicções em nome de uma emergência que verdadeiramente inexiste?

E, com o espectro golpista ora reduzido a fogo fátuo, quem luta pela superação do capitalismo tem um objetivo estratégico bem diferente do daqueles que atuam para eternizar, supostamente atenuada, a dominação capitalista. Ora, as alianças entre verdadeiros esquerdistas devem sempre basear-se em valores permanentes, não em vantagens e conveniências transitórias.

Mesmo quando se faz realmente imperativo somarmos forças com agrupamentos dos quais divergimos fortemente, isto só cabe no 2º turno. O 1º é o momento do voto consciente, devendo servir para marcarmos posição e divulgarmos nossas bandeiras.

Para encerrar, lembro a avaliação insuspeita do Zé Dirceu, que esgotou esta questão com uma única frase em 1998, rechaçando as pressões para que o PT recomendasse o voto útil já no 1º turno da eleição para governador de São Paulo:
"Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar [Mário] Covas para derrotar [Paulo] Maluf".
Falou e disse. (por Celso Lungaretti)  

sábado, 28 de maio de 2022

O PT JÁ FEZ DISCURSOS IRADOS CONTRA O VOTO ÚTIL NO 1º TURNO

"Nada mais sem sentido do que a tese de que os partidos de esquerda devem apoiar [Mário] Covas para derrotar [Paulo] Maluf"
.
 (Zé Dirceu em 1998, repelindo o voto útil no 1º turno
da eleição para o governo de São Paulo; hoje, contudo,
PT promove um verdadeiro arrastão para forçar
voto útil contra Jair Bolsonaro já no 1º turno)

quarta-feira, 25 de maio de 2022

SAIO DO PSOL. ALIVIADO, MAS TRISTE.

Em junho/2012 escrevi que estava dando o primeiro
passo de uma longa caminhada. Fui otimista demais
P
or uma questão de coerência com toda a minha trajetória revolucionária, acabo de me desfiliar do Partido Socialismo e Liberdade.

A convite de um assessor de Carlos Giannazi, então candidato a prefeito de São Paulo, nele ingressei  em 2012 para disputar a vereança. 

Meu objetivo era utilizar o mandato para criar uma central de denúncias das maracutaias e descalabros não só da administração municipal, como também da estadual e federal.

Não vou recordar agora as decepções que me levaram a abandonar, tão logo as urnas se fecharam, a militância ativa. Mas, como continuava respeitando os princípios do Psol, optei por não me desfiliar, apenas me afastar.

Agora, contudo, não deu mais pra segurar. Lamento pelos bons companheiros que conheci lá, porém nada mais me ligava a um agrupamento político que pretendia ser uma alternativa ao Partido dos Trabalhadores e, melancolicamente, regrediu a força auxiliar do PT, cuja direitização não cessou de aumentar ao longo dos últimos dez anos. 

Fiz minha opção revolucionária no início de 1968, após passar parte das férias escolares aprendendo marxismo ao lado de outros interessados. No semestre anterior havia começado a atuar politicamente na minha escola, o Colégio Estadual MMDC, na Mooca (zona leste paulistana).
Mesmo ressabiado, tentei. O que mais 
podia fazer, remando contra a corrente?
Ao final, convidado a ingressar no agrupamento revolucionário a que pertencia o Zé Dirceu, a chamada Dissidência Universitária, aceitei. Mas, não tendo chegado a um acordo sobre associação com Carlos Marighella, ela não se considerava um partido, daí ter relutado em absorver organicamente nossas bases. Passamos o ano inteiro atuando no movimento secundarista com o apoio da Dissidência, mas sem nela estarmos integrados.

O certo é que já comecei (e dele nunca saí) no campo da esquerda socialista, que não via necessidade de uma etapa democrático-burguesa e mirava a superação imediata do capitalismo, tendo como sujeitos revolucionários os assalariados da cidade e do campo. 

Já os adversários pregavam uma revolução popular, com papel destacado do campesinato que, segundo eles, estaria disposto a lutar pela propriedade privada da terra por ele cultivada, mas não pelo cultivo conjunto dessa terra em bases solidárias.

E o primeiro programa teórico que redigi na vida foi a plataforma da Frente Estudantil Secundarista para o congresso da União Paulista dos Estudantes Secundaristas, em que, baseado no texto famoso da Rosa Luxemburgo, caracterizei nosso lado como revolucionário e o outro lado como reformista. 

Meio século depois, mantenho a firme convicção de que nosso papel é darmos um fim à exploração do homem pelo homem, ao invés de apenas a suavizarmos com a distribuição aos explorados de algumas migalhas do banquete capitalista. Então, não teria como continuar nesse Psol de 2022. 

O importante é que nossos princípios sobrevivam! (por Celso Lungaretti)
    
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