terça-feira, 21 de julho de 2009

TEMPO DE INCOERÊNCIA

"A verdade é revolucionária", afirmou Rosa Luxemburgo.

Há um mês recebi esta mensagem do valoroso companheiro Luiz Aparecido ("ex-preso politico e até hoje militante do glorioso PCdoB", como faz questão de ressaltar):
"Acabei de assistir hoje, domingo, dia 21 de junho de 2009, no Canal Brasil da SKY e repetido por outros canais de assinatura, o documentario, 'Tempo de Resistencia', onde inumeros revolucionarios dão seu depoimento sobre a resistencia dos combatentes brasileiros à Ditadura. Entre os depoimentos sinceros e emocionantes (...) há tambem o de Darci Rodrigues. Este ultimo me chocou ao repetir a cantilena mentirosa e falsa, de que o campo de treinamento da guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira no inicio dos anos 70, no interior de São Paulo, foi entregue pelo quem ele chama de traidor, Celso Lungaretti.

"É mais que a hora, de exigir dos produtores e diretores do documentario que façam, em nome da verdade histórica, o esclarecimento que historiadores como Jacob Gorender e a própria vida ja fizeram: Celso Lungaretti não foi o delator que entregou o local do treinamento para a repressão. Como esta informação se tornou publica e abrange, atraves do documentario exibido no 'Canal Brasil' e outros veiculos, fórum de seriedade histórica, é necessário mais uma vez isentar o Lungaretti desta perfidia e se for o caso, até entrevistarem o Celso e outros companheiros da época, para apontar o verdadeiro delator daquele fato.

"As torturas barbaras e humilhantes que nós revolucionarios fomos submetidos nos porões da ditadura, devem ser denunciadas sempre, assim como a verdade dos fatos que elas originaram. Se alguns e não foram poucos, fraquejaram e abriram companheiros e ações, os fatos devem ser esclarecidos. Mas uma mentira não pode destruir a reputação, a honra, a vida e a coragem de quem teve a audacia e o desprendimento humano de enfrentar, armados ou não, o aparato selvagem da ditadura.

"Dou meu depoimento publico da honestidade e coragem histórica de Celso Lungaretti...".
Passei exato um mês esperando que os responsáveis pela acusação, a partir dos e-mails que lhes enviei, dessem uma solução digna ao episódio. Como nada fizeram, só me resta tornar público o que houve, deixando aos leitores as conclusões.

Preso em instalações militares e impossibilitado de me defender, fui em 1970 acusado pela Vanguarda Popular Revolucionária de haver delatado a área na região de Registro (SP) em que Carlos Lamarca e outros militantes treinavam guerrilha. A repressão deslocou milhares de soldados para lá, mas alguns companheiros escaparam como civis, outros embrenhando-se nas matas. A fuga destes últimos, comandada por Lamarca, foi, indiscutivelmente, uma das maiores proezas militares da História brasileira.

Quando fui libertado, nada havia mais a fazer. A falsidade passava por verdade e eu não tinha como conseguir provas para sustentar minha versão, nem tribunas para apresentá-la, em meio à censura e à intimidação reinantes.

Quando a engrenagem de terrorismo de estado começava a ser desmontada, fui entrevistado por veículos como a revista IstoÉ e o jornal Zero Hora (RS), relatando, então, as torturas sofridas durante os dois meses e meio que passei incomunicável nos cárceres da ditadura e que me causaram uma lesão permanente.

Mas, o foco dessas reportagens não era o episódio de Registro e, como eu ainda não conseguira nenhuma prova de minha inocência, não insisti para que delas constasse minha refutação.

Em 1984, no entanto, Marcelo Paiva fez-me tal acusação nas páginas da Folha de S. Paulo e eu não poderia deixar de exigir direito de resposta. Travamos polêmica e eu expus pormenorizadamente o que eu realmente fizera e os fatos de que tinha conhecimento.

Ainda sem provas, era minha versão bem sincera do que se passara:
  • participei da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilhas à altura do km. 254 da BR-116;
  • a área foi considerada inadequada e abandonada em dezembro/1969;
  • voltei para o trabalho urbano exatamente por desconhecer a localização da área seguinte, na qual o trabalho prosseguiu (caso contrário, por motivos de segurança, não poderia ter saído de lá);
  • ao contrário do que o Lamarca me fez crer, a área 2 não se localizava a centenas de quilômetros de distância, mas apenas a 16;
  • em abril/1970, ao ser preso e muito torturado, revelei a localização da área 1, por avaliar que seria informação inútil para a repressão, mas serviria para eu me recompor e ganhar tempo, enquanto preserva informações realmente importantes;
  • talvez, como Marcelo Paiva sustentou, a partir dessa área 1 tivessem descoberto alguma ligação com a área 2, mas a responsabilidade, aí, seria de erro cometido pela própria VPR na instalação dos campos.
Em 2004, a prova que tanto me fazia falta finalmente caiu nas minhas mãos, quando Ivan Seixas, em seu site Resgate Histórico, publicou um relatório secreto de operações do II Exército, cuja existência eu desconhecia.

Dele constava, explicitamente, a informação de que duas equipes do DOI-Codi foram deslocadas para Registro a fim de apurar minha informação sobre a área 1 e voltaram relatando que não havia mais atividades no local; enquanto isso, novas informações, decorrentes de prisões posteriores, forneceram à repressão a localização exata da área 2.

Estava tudo lá, preto no branco. Meu próprio temor de haver contribuído indiretamente para a descoberta da área 2 era infundado. A coisa se passara de outra maneira, felizmente para mim.

Enviei os textos de minha polêmica com Marcelo Paiva e a cópia desse relatório para alguns historiadores. Jacob Gorender, com sua dignidade exemplar, assumiu a responsabilidade de esclarecer o episódio, a partir desse material e de outros documentos sigilosos que informou possuir.

Duas semanas depois, enviou carta à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo, comunicando:
"Na primeira edição do meu livro 'Combate nas Trevas' (...) escrevi (...) que Celso Lungaretti forneceu ao Exército a primeira informação sobre um campo de treinamento de guerrilheiros da VPR em Jacupiranga, no vale do Ribeira. (...) Não obstante, no mês corrente, Celso Lungaretti contatou-me, por via telefônica, para chamar a minha atenção para o fato de que dera a aludida informação sob tortura e sabendo que o campo de treinamento onde estivera se encontrava desativado havia dois meses. O relatório do comandante do 2º Exército na época, general José Canavarro Pereira, co-assinado pelo general Ernani Ayrosa da Silva, sobre a Operação Registro (localidade do vale do Ribeira), confirma que, efetivamente, aquele campo de treinamento fora desativado. Sucede, no entanto, que, quase simultaneamente, chegaram ao 2º Exército informações procedentes do 1º Exército, com sede no Rio de Janeiro, de que um novo campo de treinamento de guerrilheiros, adjacente ao anterior, se encontrava em atividade. (...) A respeito dessa segunda área, nenhuma responsabilidade cabe a Celso Lungaretti, que ignorava a sua existência. Sua vinculação com o episódio restringiu-se, por conseguinte, à informação sobre a área que sabia desativada, fornecida, segundo afirma, sob tortura irresistível."
A publicação desta carta do Gorender na Folha de S. Paulo (ver aqui) abriu caminho para o lançamento do meu livro Náufrago da Utopia
(ver aqui). Eu considerei acertadas minhas contas com a História e passei priorizar as lutas presentes, ao invés de ficar remoendo o passado.

Aí foi lançado o documentário Tempo de Resistência, com a insólita acusação do ex-companheiro Darcy Rodrigues. Em meados da década atual, ninguém sequer cogitava traição da minha parte. Torturado com relatórios médicos e lesão para apresentar não pode ser confundido com os cabos Anselmos da vida.

Mandei mensagem ao autor do livro que serviu de base para o filme, Leopoldo Paulino ( leopoldo@leopoldopaulino.com.br ), esclarecendo não só que a acusação era infundada, como que Darcy Rodrigues tinha um motivo pessoal, não político, para fazê-la, sendo que a desavença entre nós dois era conhecida e constava até de livro de um jornalista sobre o período.

Leopoldo Paulino nada respondeu. E, como o documentário teve pouca repercussão nos cinemas, acabei deixando pra lá.

Sua exibição na TV a cabo, entretanto, está atingindo público mais amplo. Então, voltei a protestar, pedindo-lhe que fizesse algum tipo de retificação ou esclarecimento.

Também contatei o cineasta André Ristum ( andreristum@yahoo.com ), diretor do filme, que respondeu:
"Para a realização deste documentário eu e minha empresa fomos contratados pelo Leopoldo Paulino, para executar a obra baseada em seu livro.

"Assim, conforme contrato assinado entre nós, o responsável pelo conteúdo, seja do ponto de vista das informações passadas seja do ponto de vista legal, é o próprio Leopoldo Paulino.

"Eu, até pela minha pouca idade, não poderia jamais me responsabilizar por informações a respeito de uma época que não vivi e pouco conheço.

"Peço então que se comunique diretamente com o Leopoldo, ou com o Darcy...".
Mas, em entrevista posterior à que concedeu para o filme (ver aqui), o próprio Darcy deixou de sustentar a antiga acusação:
"[Darcy] Discorre também sobre o erro de haver levado para o campo pessoas, que não estavam totalmente convencidas dessa necessidade e de outras, que não tinham conhecimento completo da organização. Cita um caso: 'Celso Lungaretti foi para a primeira área, não se deu bem, voltou para a cidade e nem conheceu a segunda' [grifo meu]."
Em respeito à trajetória de luta do Darcy, optei por considerar suficiente este seu reconhecimento da minha inocência. Melhor passarmos uma borracha em acontecimentos tão distantes quanto deprimentes.

Quanto a Paulino, falhou como revolucionário, pois foi duas vezes alertado de que cometia uma injustiça contra outro revolucionário e em ambas se omitiu: nem corrigiu seu erro, nem sustentou sua posição. Apenas calou.

E falhou como escritor que pretende historiar a resistência, já que não teve a mínima preocupação prévia de ouvir quem sofria grave acusação, nem se dispôs a apresentar o outro lado quando isto lhe foi depois formalmente solicitado.

Segundo um jurista que me-é solidário, caberiam três providências legais neste caso, que poderiam até ser tomadas simultaneamente:
  1. "a formalização de um pedido de direito de resposta ao Canal Brasil, que foi o veículo pelo qual esta afronta à sua imagem foi desferida";
  2. "o pedido judicial para que este documentário seja editado, sob pena de sua execução em território nacional ser proibida, com cominação de multa caso a ordem venha a ser descumprida";
  3. "o pedido de reparação por danos morais, contra os produtores do documentário e o próprio difamador, já que tal veiculação já está lhe causando problemas e constrangimentos".
Mas, depois de haver lutado tanto por uma noção mais elevada de Justiça, estaria faltando com meus princípios se recorresse a uma instância do Estado que execro, contra outro ex-militante da resistência.

É no tribunal das consciências que tais atitudes devem ser julgadas. Então, preferi apenas expor os fatos, para que cada leitor tire suas conclusões e, se quiser, tome alguma atitude.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CASO BATTISTI: VERGONHA INTERNACIONAL.

Brilhante como sempre, Rui Martins se posiciona contra a insólita decisão do Supremo Tribunal Federal de manter indefinidamente preso o escritor italiano Cesare Battisti, mesmo depois dele ter conquistado o status de refugiado no Brasil.

Se o STF pretende, com uma única decisão, revogar a Lei do Refúgio e a jurisprudência que ele próprio estabeleceu em episódios anteriores, deveria ao menos conceder liberdade provisória a Battisti ou marcar logo seu julgamento, prometido por Gilmar Mendes desde fevereiro.

O que não pode é manter detido, por omissão, inépcia e/ou má fé, quem deveria estar solto desde janeiro. Isto nada mais é do que abuso de autoridade -- cuja gravidade aumenta por estar sendo cometido pela mais alta corte do País.

Daí a importância do artigo de Rui Martins, que publico e subscrevo na íntegra. (Celso)

CASO BATTISTI: VERGONHA INTERNACIONAL.

Rui Martins (*)

Vai fazer oito meses que o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu o asilo político ao italiano Cesare Battisti, preso no Rio e depois transferido para Brasília. A decisão do ministro da Justiça não foi cumprida porque o presidente do Supremo Tribunal Federal considerou de sua competência libertar ou não Battisti e praticamente invalidou a decisão do ministro Genro, submetendo-a uma decisão posterior do STF, deixando claro sua intenção de extraditar Battisti.

Nesse meio tempo, o governo Berlusconi envolveu-se em diversos escândalos, instaurou uma política anti-imigrantes de extrema-direita, propos a criação de milícias de cidadãos para ajudarem na repressão aos imigrantes semelhantes às milícias fascistas, e Roma passou a ter um prefeito neo-fascista. É esse governo, cujo mandatário é mesmo acusado de se envolver com menores, que fez pressão sobre o Brasil para obter a extradição de Battisti, utilizando mentiras e distorcendo fatos.

Ora, enquanto o STF contesta a decisão de um ministro, no limite de uma crise institucional, um homem continua preso. Entretanto, essa privação de liberdade de um homem por decisão do presidente do STF, quando seu alvará de soltura deveria ter sido concedido no dia seguinte à decisão do ministro Genro, já ultrapassou as medidas do tolerável por um Estado de direito.

A prisão de Cesare Battisti ao arrepio dos direitos humanos é hoje uma vergonha internacional. É toda estrutura de nossa justiça que é posta em cheque e vivemos, neste momento, uma situação digna de uma ditadura, de um país sem respeito às suas próprias leis, e que ignora as garantias individuais baseadas em preceitos internacionais.

Que país é este onde a decisão de um ministro é ridicularizada pelo supremo juíz, que decide, por sua própria vontade, como se não existissem leis brasileiras ou internacionais, manter um homem preso para agradar um governo estrangeiro ? É preciso que a OAB, que as associações de direitos humanos, que a Secretaria dos Direitos Humanos denunciem o STF por abuso de poder, por manter no cárcere um homem que já recebeu do Ministério de Justiça o estatuto de refugiado político.

O Brasil está desrespeitando direitos básicos de um refugiado político concedido pela ONU através do Alto Comissariado pelos Refugiados e, ao mesmo tempo, mostrando ao mundo um desequilíbrio na sua estrutura institucional.

É necessária uma rápida correção e se as associações brasileiras de direitos humanos enviarem uma representação ao Alto Comissariado da ONU, em Genebra, denunciando a manutenção de um refugiado político na prisão, sem outra justificativa senão o desejo do presidente do STF de extraditá-lo, esperando o melhor momento para isso, esse escândalo assumirá as proporções necessárias para que o STF autorize sua liberdade. (Fonte: http://www.diretodaredacao.com/)

* ex-correspondente do Estadão e da CBN, Rui Martins é autor de "O Dinheiro Sujo da Corrupção". Está baseado em Berna, colaborando com jornais europeus e com o site Direto da Redação.

domingo, 19 de julho de 2009

PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA

Tal qual a gripe suína, a praga das telenovelas também nos chegou do México, com "O Direito de Nascer" (1964)

Neste sábado, passei por uma experiência nova na minha vida: fiz um curso para poder batizar minha filhinha.

Foi pitoresco. Primeiramente, por terem dado uma roupagem nova ao que eu pensava que seria apenas uma tediosa aula de catolicismo. Houve debate, uso de power-point, etc.

Achei meio decepcionante que o padre não desse o ar de sua graça, deixando a incumbência para os voluntários da pastoral respectiva. Meio assim como se fôssemos segunda divisão, só merecendo atenções especiais no próprio dia do batismo.

Mas, a senhora que conduziu os trabalhos levava jeito para a coisa. O treinamento de professora ajudou.

Fiquei pasmo ao perceber que, depois de pedir aos participantes, umas 30 pessoas, que falassem um pouco sobre si mesmos, ela começou a chamar cada um para o diálogo... pelo nome!

Em situações análogas, eu seguramente não consigo associar o nome à imagem de 10 pessoas. Sou sempre obrigado a disfarçar, pois sei que cada um acredita ter importância suficiente para merecer um desempenho melhor da minha memória.

Mas, são facetas que nos acompanham desde o início. No primário, já levava mais tempo que os demais para memorizar o nome dos colegas. Talvez como contrapartida por ter memória excelente em outros departamentos.

DA PIEGUICE MEXICANA À LAVAGEM CEREBRAL DA GLOBO - Debateu-se o que está errado no mundo de hoje e o que fazer para melhorá-lo, com cada um tendo oportunidade de proferir frases muito originais sobre Deus, amor, paz, família, etc.

Parece que tudo mudará da água para o vinho se nos comportarmos melhor nas esferas social e familiar.

Foram citadas situações de telenovelas para ilustrar algumas ponderações. Eu, apaixonado pelo cinema desde as matinês do pulgueiro do meu bairro, nunca as suportei.

Quando estreou a chatíssima O Direito de Nascer, importada do México pela então TV Tupi no sintomático ano de 1964, vi metade do primeiro capítulo e concluí: é melodrama arrastado. Desde então, e já lá se vão quatro décadas e meia, nunca precisei alterar minha opinião quanto ao ritmo arrastado e à mediocridade intrínseca (só deixou, em parte, de ser melodrama).

É claro que, visitando pessoas, tive de suportar o que assistiam, então nunca perdi totalmente o contato com as novelas. E também nunca deixei de ser acometido por bocejos, que, por educação, disfarço o melhor que posso.

Pude perceber que, quando o filão passou a ser dominado pela rede Globo, as novelas redefiniram o seu papel: saíram dos clichês melosos/folhetinescos apropriados para pessoas simplórias (escola mexicana) e viraram um reforço da auto-estima para quem vive existências insípidas.

Ou seja, mostram personagens comuns fazendo coisas comuns e vivendo situações comuns, como se isso fosse importante.

Deixaram de destacar o inusitado, o aventureiresco, o genial, aquilo que são e fazem os indivíduos superiores.

Passaram a ser um mero espelho dos telespectadores. Para que estes fiquem iludidos, achando que sua existência banal e insípida não é tão banal e insípida assim. Que a poça de água parada em que o capitalismo os condena a viver é, pelo contrário, um mar grandioso.

TRABALHO ALIENADO, O DOMÍNIO DE SATÃ? - Voltando ao catecismo modernizado de ontem, chamou-me também a atenção que ninguém, absolutamente ninguém, falou sobre aperfeiçoar-se e melhorar como ser humano em sua esfera profissional.

Será que não têm consciência de que a sociedade em que vivem os obriga a utilizarem suas piores aptidões na luta pela sobrevivência?

Ou, o que é mais provável, já não conservam a mínima ilusão quanto a isto, admitindo que, na caça à grana, vale tudo e tudo se justifica?

É uma das acusações mais terríveis que Marx lançava ao capitalismo: de ter aniquilado a possibilidade do trabalhador realizar-se com seu trabalho.

O artesão medieval enxergava-se naquilo que produzia. Seu talento e sua sensibilidade estavam incorporados aos frutos do seu labor. Cada um deles tinha uma maneira própria, diferente, de fazer as mesmas coisas (móveis, objetos).

Essa mentalidade sobreviveu durante as primeiras etapas do capitalismo, pelo menos fora do ambiente das grandes fábricas -- nas quais a produção em série já tornava o proletário totalmente alienado do produto final, em que nada via de realmente seu. O grande cineasta René Clair, depois plagiado por Charlie Chaplin (Tempos Modernos, 1936), fez uma crítica devastadora das linhas de montagem, em A Nós, A liberdade (1931).

Lembro-me do meu avô, pequeno fabricante de móveis, depois de um dia estafante, recusando uma mesinha de jogo já embalada e pronta para zarpar. Quando terminava o expediente dos funcionários, o dele continuava, saindo com sua kombi para fazer as entregas.

Mesmo assim, não aceitou que a mercadoria seguisse com um risquinho que provavelmente passaria despercebido ao cliente. Disse, aludindo ao fato de que a empresa levava o sobrenome da família: "Esta mesa tem meu nome. E meu nome não circula riscado por aí".

Ahora, no más. São raríssimos os profissionais que têm orgulho e verdadeiro zelo em relação ao que fazem. A imensa maioria só quer ganhar logo a grana para poder ir fazer aquilo de que realmente gosta. O trabalho, mais do que nunca, virou castigo bíblico, a canga que se suporta para sobreviver.

Ou, simplificando o que disse o filósofo Norman O. Brown: nos desempenhos profissionais, pertencemos inteiramente ao diabo (para ele, sinônimo do capitalismo).

O que ainda temos de Deus dentro de nós, só pode aflorar, esporadicamente, nas esferas social, familiar e amorosa.

sábado, 18 de julho de 2009

CASO BATTISTI: STF DESRESPEITA A LEI, A LÓGICA E O SENSO COMUM

Ilustração que o próprio Kafka criou para "O Processo": tormentos de Joseph K. são infligidos a Battisti na vida real.

Uma valorosa companheira do comitê de solidariedade me repassa mensagem de Cesare Battisti. Afora assuntos práticos, há um trecho em que ele deixa transparecer toda sua ansiedade e indignação:
"Ao fim do recesso do STF, fará oito meses que eu continuo detido após [ter sido concedido] o refúgio. O abuso do STF está passando de todos os limites, e isso não é só responsabilidade do STF, mas também de todas as instituições brasileiras, que contrariam o que está estabelecido nas leis e nos tratados internacionais, mantendo preso um refugiado político!"
Sei muito bem o que ele está sentindo. À privação da liberdade, uma violência extrema contra qualquer ser humano, acrescenta-se o desespero que acomete os injustiçados.

Italiano, Battisti não consegue compreender como podem mantê-lo preso contrariando uma decisão de quem tinha competência legal para decidir, uma Lei que foi acatada em todos os casos anteriores ao seu e a jurisprudência estabelecida nesses sucessivos episódios.

Brasileiro, eu sei que é assim mesmo que agem os Poderes do meu país. Mas, ainda não me acostumei ao arbítrio, nem me resignei à arrogância das burocracias insensíveis. Morrerei protestando e lutando contra elas.

Só há um termo aplicável à situação de Battisti: kafkiana.

Está preso há dois anos e meio sem condenação no Brasil.

Já conquistou a liberdade e o direito de aqui residir, mas, incompreensivelmente, inaceitavelmente, absurdamente, o STF insiste em invadir a esfera de competência de outro Poder, parecendo disposto a tudo para fazer prevalecer a vontade estrangeira sobre uma decisão soberana do governo brasileiro.

E tão ciente está da vulnerabilidade jurídica de sua posição que prefere ganhar tempo, nem soltando Battisti, nem o julgando.

Sabe muito bem que, uma vez tomada sua decisão, o caso seguirá adiante e a defesa vai poder adotar novas medidas, que garantam a Cesare o que ele, repito, já conquistou e não poderá ser-lhe indefinidamente escamoteado.

Enfim, Battisti cumpre pena de prisão no Brasil sem ter sido condenado, apenas e tão-somente porque a mais alta corte do País se arroga o direito de desrespeitar a Lei [do Refúgio], a lógica e o senso comum.

Foi perseguido político na Itália e está sofrendo perseguição política no Brasil.

É um Joseph K. se debatendo na teia de Gilmar Mendes.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

PARA LULA, BOM MESMO É O ESTADO DO BEM-ESTAR SOCIAL

Graças ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sabemos agora qual foi o maior benefício que a Revolução Bolchevique trouxe à humanidade: "quem mais ganhou com a revolução de 17 foi a Europa Ocidental porque, com o medo do comunismo, criou o Estado do bem-estar social".

Foi isto que S. Exa. afirmou nesta quinta-feira, discursando no 51º congresso da União Nacional dos Estudantes. Nem sequer o papel fundamental que a URSS desempenhou na derrota do nazismo parece ser relevante, na opinião de Lula.

Ele se coloca não ao lado dos que fizeram a revolução e tentaram materializar um estado dos trabalhadores, mas sim na trincheira dos países capitalistas que, para evitar a propagação dos ideais revolucionários, trataram de melhorar um pouco a vida dos seus cidadãos.

E, para que não deixar dúvidas quanto a seu desprezo pelos valores da esquerda, Lula disse também que "para uma pessoa pobre ter uma caixa de lápis é mais importante do que uma revolução".

Ele se mostrou coerente com posicionamentos anteriores, como o de que não era esquerdista, mas sim torneiro-mecânico; e o de que, quando um sexuagenário continua esquerdista, é porque tem um parafuso solto na cabeça.

Está numa fase de dizer inconveniências (por que ofender os pobres pizzaiolos, comparando-os aos senadores?) e renegar seu passado.

Já descobriu até que é amigo do Collor desde criancinha, tanto que ambos já superaram uma pequena desavença de 1989, quando o Fernandinho andou falando demais sobre as puladas de cerca do Luizinho. Todos os amigos têm uma briguinha de vez em quando...

Então, ficamos entendidos: os bons lulistas agora têm de defender com unhas e dentes o Estado do bem-estar social, seja na versão que o capitalismo selvagem (ôps, eu queria dizer globalizado...) varreu da Europa, seja na adaptação brasileira, com o Bolsa-Família garantindo caixas de lápis às pessoas pobres.

Ah, uma última recomendação: esqueçam Karl Marx. O teórico inspirador do lulismo não é o velho barbudo, nem tampouco o economista e sociólogo sueco Karl Gunnar Myrdal, tido como o pai do Estado do bem-estar social.

As posições que Lula tem rusticamente professado, tanto em economia quanto em política, aproximam-no mais de Edouard Bernstein, aquele que acreditava numa melhora constante da situação dos trabalhadores sob o capitalismo, tornando desnecessária uma ruptura revolucionária.

Quanto a nós, velhos ranzinzas, continuaremos seguindo Rosa Luxemburgo que, no seu clássico Reforma ou Revolução, pulverizou as falácias oportunistas de Bernstein.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"NÃO É PESSOAL, SÃO SÓ NEGÓCIOS"

Ignoro se esta frase foi proferida por algum gangster da vida real ou só pelos das telas. Mas, uma coisa é certa: cai como uma luva para os gangstêres da política oficial.

Faço questão de acrescentar o adjetivo oficial, na esperança de que volte a existir uma política revolucionária, antípoda de tudo isso que se vê em Brasília. Sou um eterno otimista.

O certo é que, quando Vargas mandava seus esbirros encarcerarem Prestes, despachando-lhe a companheira para a morte nos cárceres nazistas, eram só negócios.

E foi também seguindo a ética dos negócios (a qual, todos sabem, inexiste) que Prestes subiu depois aos palanques junto com Vargas.

Não foi por motivos pessoais que Collor informou ao distinto público que Lula produzira uma filha fora do casamento e tentara convencer a amante a abortar o rebento indesejado.

Nem Lula tem qualquer motivo pessoal para aparecer agora abraçado a Collor, só lhe interessando receber o favor político de que carece neste instante.

Há, é claro, exceções, como o grande Monteiro Lobato, que tentou um sem-número de vezes conquistar uma cadeira, pra lá de merecida, na Associação Brasileira de Letras.

Quando estava prestes a lograr seu intento, com os votos de que necessitava já garantidos, alguém lhe soprou que iria sentar-se ao lado de Getúlio Vargas, responsável último pelas sucessivas prisões que Lobato sofrera.

É isto mesmo, Getúlio Vargas. A exemplo de Sarney, outras figuras do poder já foram atrás de glórias literárias, fingindo não perceber que elas só lhes são concedidas por causa do poder, não em decorrência dos textos medíocres que parem a fórceps.

Avaliando o que significaria para um homem de caráter ficar em tal companhia, Lobato retirou de imediato sua candidatura. Outros tempos.

Há muito deixei de dar importância para a política oficial e seus símbolos. Quando fiz a opção revolucionária, nos idos de 1967, foi para valer. E aprendi bem o bê-a-bá do marxismo, meu ponto de partida.

Então, estou careca de saber que não são os Vargas, Sarneys, Lulas e Collors que movem a História, mas sim a constelação de forças que faz deles instrumentos.

Há uma função a ser preenchida e alguém a preenche. Se apenas tirarmos de cena tal pessoa, outra imediatamente lhe tomará o lugar. Se eliminarmos a função, aí sim produziremos uma verdadeira mudança.

Em 1945, Vargas foi induzido a abrir mão da ditadura e afastar-se por algum tempo da política. Não se passaram duas décadas sem que o Brasil resvalasse para outra ditadura, pior ainda.

Adhemar de Barros, Maluf, Collor, Calheiros, Palocci e tantos outros já foram degradados para aplacar a indignação popular, depois voltaram à tona como se nada houvesse acontecido. E a política oficial não ficou menos podre durante seu ostracismo.

Apontar o capitalismo como raiz de todos os males saiu de moda. Só que, como eu nunca liguei para modas, continuarei insistindo na necessidade de construirmos uma sociedade nova, ao invés de ficarmos catarticamente esbravejando contra a putrefação da velha.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A REAÇÃO DE UM GRANDE JORNALISTA À PEQUENEZ DO STF

Certa vez perguntaram a George Foreman se Muhammad Ali era mesmo o melhor boxeador de todos os tempos. O gigante respondeu que isto era difícil de avaliar, mas, sem dúvida, Ali era o melhor cidadão que já lutou boxe, numa alusão à coragem com que confrontou o sistema para não se prestar ao infame papel de propagandista da Guerra do Vietnã.

Da mesma forma, Apóllo Natali não será lembrado como o melhor jornalista de sua época, mas, sem dúvida, foi o melhor ser humano que eu conheci exercendo a profissão.

Fomos colegas na Agência Estado. Era um redator eficiente, que escrevia textos de boa qualidade com extrema rapidez.

Seu talento maior, entretanto, era e é o de cronista, pois narra, com sensibilidade e elegância, o que aprendeu numa trajetória de vida riquíssima.

Crônicas hoje são pouco valorizadas e o Apollo -- coitado! -- nunca teve o merecido reconhecimento. Nada ficava a dever a um Lourenço Diaféria, p. ex.

Maior que tudo, entretanto, era o seu valor como ser humano. Sempre foi um poço de bondade, ajudando a todos na redação, administrando com sabedoria as situações melindrosas entre a equipe, colocando seu jornalismo a serviço das pequenas boas causas, tão desprezadas.

Outra característica marcante era a de resistir à arrogância dos tiranetes que pululam nas empresas jornalísticas. Por conta disto, depois de exercer durante décadas a função de sub-editor, entregou o cargo, já que não pagavam adequadamente a carga adicional de trabalho implícita.

Cinquentão, não hesitou adiante em pedir demissão para levantar seus direitos trabalhistas e poder bancar um bom tempo sem trabalhar, enquanto assistia ao pai agonizante.

Cerca de um ano depois, cumprida sua missão, já não havia mais quem lhe desse emprego na grande imprensa.

Entre bicos jornalísticos e quebra-galhos em outras atividades, foi sobrevivendo, pobremente, mas sem queixas nem pedidos de ajuda às dezenas de amigos que ajudou. Achava indigno procurá-los, esperava que viessem a ele. Quase todos foram ingratos, como costuma acontecer.

E ainda encontrou disposição para realizar o sonho de uma vida inteira: fazer o curso de Jornalismo, pois atravessara toda sua carreira como formado na escola da vida (já estando na profissão, teve o direito de continuar exercendo-a quando o diploma passou a ser exigido dos ingressantes, no final dos anos 60).

Formou-se com louvor em 2007, nas Faculdades São Judas Tadeu (foto acima), já septuagenário, recebendo manifestações de apreço dos professores e de carinho dos jovens colegas a quem, como é do seu feitio, muito ajudou.

E, nesta semana, o Observatório da Imprensa publica sua emocionante reação à decisão do STF que tornou o diploma de jornalismo (ou de qualquer outro curso superior) desnecessário para o exercício da nossa profissão.

Vale a pena ler esta lição de quem tem conhecimentos e, principalmente, moral para opinar sobre este assunto:

CARTA ABERTA AOS ESTUDANTE DE JORNALISMO

"Estudantes de Jornalismo, o diploma continua obrigatório, sim, para os vossos corações!

"Tragam um curso de Jornalismo para as vossas vidas!

"Esforçai-vos por fazer bons cursos. Não falteis às aulas, anotai tudo em classe, fazei todos os trabalhos com amor, não canseis os professores com barulho, interrupções, desrespeito.

"Apaixonados por jornalismo, apenas olhai e passai pelos que dizem: para ser jornalista basta saber contar histórias. Perdoai-os! Não sabem o que falam! Seus olhos jamais contemplaram essa luz, nem seus ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em seus corações o fogo dessa paixão.

"Este eterno enamorado do jornalismo que vos fala está com 73 anos e depois de quase quatro décadas atuando na imprensa escrita, concluiu a Faculdade em 2007, sem faltar um dia sequer, durante os quatro anos. Sempre é tempo de transitar pelas matérias fascinantes do curso de Comunicação, usufruir de seus clarões, ver o mundo com nitidez. Vale qualquer sacrifício: nos quatro anos de curso, entre idas e vindas, de casa às salas de aula, subi e desci, de dois em dois, duas vezes o total de 190.880 degraus, no metrô e no prédio da faculdade, lá sem usar elevador. Levantei às 5 horas da manhã 720 vezes durante os 4 anos. Caminhei mais de 5 quilômetros por dia, ou 3.600 quilômetros ao todo, o mesmo que ir a pé ao Rio de Janeiro oito vezes.

Justiceira da humanidade

"Abraçai, pois, com felicidade, a profissão bendita, campo, sim, para as grandes batalhas de espírito e inteligência, e sem deixar de vos conscientizar das manipulações das consciências e das transações de domínio sobre as pessoas perpetradas pelos poderosos.

"Espelhai-vos no maior jornalista que o Brasil já teve, o baiano Cypriano Jozé Barata de Almeida, que combateu como nenhum outro pela liberdade do Brasil no final do período colonial, Primeiro Império e Regência. Fez mais pela liberdade de nossa gente do que os heróis oficiais com seus festejados bustos em praças públicas.

"Explico: Cypriano fez da imprensa, e vós também podereis fazer, a grande justiceira da humanidade, a deusa tutelar da espécie humana. Os poderosos que escrevem a História deram-lhe apenas a esmola de uma rua com o seu nome no bairro do museu do Ipiranga, em São Paulo, uma em Salvador, onde nasceu, outra em Natal, onde morreu. Não importa, foi o maior jornalista!

"Ao ostentardes o diploma, obrigatório para qualquer humano, as sábias velhinhas vos dirão, emocionadas, nos pontos de ônibus, metrô, filas de bancos, supermercados: vós fizestes Jornalismo, meu filho, minha filha querida, fizestes? Que lindo!"

terça-feira, 14 de julho de 2009

INACREDITÁVEL, INACEITÁVEL, INQUALIFICÁVEL!

"Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não"
("Opinião", Zé Keti)


Frequentemente recebo mensagens me cobrando posicionamento tão incisivo contra a ditadura e as torturas do presente quanto os que eu assumo em relação às dos anos de chumbo.

Quem viveu aquele período de arbítrio e atrocidades, sabe que a barra pesava muito, muitíssimo mais.

Mesmo assim, é chocante que, depois de tanta luta para trazermos o Brasil de volta para a civilização, o cidadão comum continue tão impotente para influir nos destinos do País, a imprensa tão blindada contra versões/interpretações alternativas e os direitos civis tão impunemente atingidos (ainda mais quando a vítima é a população carente!).

Assim, a imprensa hoje noticia que a Polícia Militar do Rio de Janeiro vai impedir pela força a realização de bailes funk nas favelas. Alega que não consegue coibir o tráfico de drogas sem pisotear o direito dos favelados ao lazer.

Como motivo imediato, apresenta um episódio que evidencia, isto sim, abuso de autoridade e incompetência criminosa de sua parte: desencadeou uma operação repressiva para prender traficantes em meio a um baile no Morro dos Macacos (lá na Vila Isabel do saudoso Noel) e acabou travando tiroteio com eles, no último sábado.

Saldo: três mortos e seis feridos. Quem não tinha culpa no cartório pegou as sobras, como sempre. Caso de uma moradora de 35 anos.

Se o preço para prender traficantes é colocar inocentes em risco, a PM jamais, JAMAIS!, deve fazer tal opção.

A intervenção policial em meio a uma multidão de civis só se justifica quando há violência sendo cometida. Meras detenções podem ser deixadas para depois, pois a vida dos inocentes é SEMPRE o valor supremo a ser respeitado.

Só autoridades extremamente tacanhas e despreparadas para atuar numa democracia podem supor que a proibição do lazer, além de juridicamente aberrante, traga algum benefício concreto.

"O que radicalizou o funk foi a proibição, nos anos 90, de os clubes terem festa. O baile foi para dentro da comunidade, e a favela passou a falar para a favela: as pessoas falam sobre o que vivem. O preconceito é com o funk, como antigamente o sambista era preso. A favela não pode se expressar", queixou-se, com inteira razão, o presidente de uma associação funkeira.

E uma ex-vereadora completou: "O que vão fazer 20 mil pessoas que não têm direito a lazer?".

Se depender da PM, ficarão escondidas em seus barracos, pisando em ovos para não despertar a ira dos fardados, exatamente como os judeus viviam nos guetos em que os nazistas os confinavam.

domingo, 12 de julho de 2009

INTOLERANTES E FANÁTICOS

"Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma,
Y antes de morirme quiero
Echar mis versos del alma.
(José Marti, "Guantanamera")


Fui formado numa geração em que revolucionários eram muito avessos a tudo que parecesse exibicionismo pessoal.

No meu livro conto, p. ex., como uma revista Realidade, com o então presidente da UNE Luiz Travassos na capa, virou alvo de críticas e zombarias em 1968.

Lembro-me de a terem recortado e acrescentado um balão com o que ele estaria pensando: "Dou ou não dou, eis a questão". Isso andou exposto nos murais das faculdades vermelhas.

Enfim, nunca pensei que a publicação, ontem, de minha árvore genealógica pudesse despertar tanto interesse aqui e até em outros espaços. Mas, como isto surpreendentemente aconteceu, vale a pena eu falar um pouco sobre o que está por trás dela.

SEQUESTRADORES SERIAIS - Já faz um tempinho que venho atuando na Web como um articulista de esquerda independente. Ou seja, analiso os acontecimentos sob uma ótica revolucionária, sim, mas sem o sectarismo e o fanatismo de certos companheiros engajados (no mau sentido).

Estes transpuseram a linha que separa a verdade da versão conveniente. Tornaram-se propagandistas, falseando (intencionalmente ou não) a verdade para encaixá-la em sua visão predeterminada.

Várias vezes já me choquei com a rigidez mental dessa gente. P. ex., quando Chávez andava insuflando uma guerra entre o Equador e a Colômbia, por conta do bombardeio de um acampamento de guerrilheiros das Farc no território equatoriano, opus-me radicalmente a essa previsível guerra dos esfarrapados.

E, como as Farc estavam no centro da questão, com suas práticas distorcidas sendo utilizadas para denegrirem-se os movimentos revolucionários em geral, eu e o Ivan Seixas (exatamente os mais frequentes defensores, nas batalhas de opinião, dos grupos armados de resistência à ditadura de 1964/85), recolocamos a posição da guerrilha do nosso tempo: vida só se troca por vida.

Ou seja, só considerávamos lícito sequestrar pessoas (no caso, diplomatas) para trocá-las pela vida de companheiros presos, torturados e ameaçados de morte nos cárceres da repressão. Jamais para trocá-las por grana.

Recursos obtinhamos de forma mais arriscada, expropriando bancos. Víamos sequestros como uma prática indigna, que só admitíamos em circunstâncias extremas. Valores bem diferentes, portanto, dos das Farc, que estavam mantendo centenas de cidadãos em cativeiro degradante.

Reagindo às críticas que então recebi, de primarismo atroz, coloquei como missão do meu blogue a defesa dos ideais revolucionários, dos direitos humanos e do pensamento crítico, em pé de igualdade, sem jamais priorizar uma dessas bandeiras em detrimento das outras.

CAÇA À BRUXA DA VEZ - Nas últimas semanas, os intolerantes que se julgam de esquerda voltaram a tentar intimidações para me tangerem para o que cada um considera ser o único caminho justo.

Antilulistas furibundos cobraram-me posicionamento contra Sarney, atribuindo a uma pretensa "aliança tática" minha com o PT o fato de eu não estar participando da caça à bruxa da vez. Fizeram questão de ignorar que, muito antes do novo escândalo, eu já defendia a posição de que não adianta nem é nossa missão tentarmos moralizar a democracia burguesa. Existimos para acabar com o capitalismo, não para eliminar suas chagas expostas. Além do que eu considero Sarney insignificante demais como alvo; não perco tempo com os office-boys do sistema.

Bolivarianos não engoliram que, embora eu tenha defendido desde o primeiro momento a devolução do poder a Manuel Zelaya, haja tirado a única conclusão possível sobre o comportamento do presidente hondurenho deposto na noite dos encapuzados: comportou-se como um banana. Não consigo imaginar um Salvador Allende ou um Getúlio Vargas se deixando deportar de pijamas. Há horas em que, para cidadãos que assumem grandes responsabilidades, o brio tem de contar mais do que o apego à vida.

AS COTAS DA DISCÓRDIA - Um dirigente de uma igrejinha sectária do movimento negro reprova-me o apoio às cotas universitárias, que, na minha visão, não devem ser extintas, mas sim mantidas e ampliadas, para beneficiar outros pobres.

Vejo-as como um mecanismo para reequilibrar a disputa pelas vagas, distorcidas pela máfia dos cursinhos, que adestram para o vestibular aqueles riquinhos que podem pagar suas astronômicas mensalidades.

E as cotas, onde estão sendo testadas, comprovaram exatamente isto: negros que não conquistariam vagas apenas por não poderem custear cursinhos caros, acabaram tendo desempenho universitário equivalente ou até melhor que o dos brancos.

Mas, os tais "negros socialistas", de tanto combaterem a posição dominante do movimento negro, acabaram atrelando-se à corrente dos reacionários brancos que são contra as cotas por preferirem o capitalismo selvagem em sua plenitude: competição exacerbada e prevalência dos mais fortes. Lamentável.

Finalmente, há os tacanhos que recriminam redes virtuais e sites de esquerda quando publicam os raros artigos meus que não são diretamente políticos, embora eu sempre produza enfoques políticos num sentido maior do termo.

Então, a escolha desses 26 personagens foi como uma profissão de fé, uma reafirmação de valores.

Há um motivo para Trotsky constar e Stalin, não.

Há um motivo para Proudhon e Thoreau aparecerem ao lado de Marx e Gramsci.

Há um motivo para eu dar tanto destaque à frase lapidar de Rosa luxemburgo, sobre a verdade, em si, ser revolucionária.

Alguns, decerto, compreenderão.

sábado, 11 de julho de 2009

DETALHANDO A GALERIA

"May You stay forever young", disse Bob Dylan numa de suas belíssimas poesias cantadas. É como tento viver.

Não, claro, à maneira infantilizada de Michael Jackson, que, de tanto buscar refúgio ilusório na Terra do Nunca, acabou indo cedo demais para lá. Mas, nunca deixando definhar o espírito de aventura, a abertura para o lúdico e o coração de estudante. Vivendo sem me limitar.

É surpreendente quantas coisas conseguimos fazer quando não ficamos nos indagando se são ou não apropriadas para nossa idade.

Então, quando a prima Nádia, que é minha fiel cicerone pelos labirintos da tecnologia virtual, propôs-me colocar fotos no cabeçalho do blogue, foi como se eu tivesse recebido um brinquedo novo.

Passei uma hora agradabilíssima ponderando critérios, avaliando nomes e caçando imagens. O resultado está aí.

Não são minhas únicas inspirações, claro, mas boa parte das principais.

Entre outras coisas, servindo para reforçar um conceito que norteia meu trabalho: o de que a política, para um revolucionário, tem significado bem maior do que as ninharias reunidas sob tal retranca nos veículos de comunicação. É proposta de vida, de amor, de comunhão e perfazimento.

Se o verdadeiro fim de nossa existência é a busca da felicidade, cabe à política otimizar as possibilidades de sermos felizes, harmoniosos e plenos - ainda mais agora que a barreira da necessidade foi superada e o reino da liberdade está ao alcance de nossas mãos.

Basta mudarmos as prioridades, reorganizando nossa existência com base em outros fundamentos: a cooperação, em lugar da competição; o bem comum, ao invés do lucro; a solidariedade, substituindo a ganância; as oportunidades iguais para todos e não o privilégio de poucos.

Então, é com desalento que recebo críticas às vezes feitas a meu trabalho, de estar abordando temas que não são políticos em espaços políticos. Como podem pessoas jovens ter uma visão tão restritiva?

Tudo que eu escrevo é político no sentido maior do termo, já que sempre embute o inconformismo com o que é e a esperança de tornarmos o que vai ser bem melhor e mais digno.

Neste sentido maior do termos, todas as 26 figuras que selecionei para a galeria são políticas, embora bibliotecários as dispersassem por estantes diferentes.

Falemos rapidamente sobre elas.

Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dividi-lo com os homens, foi acertadamente adotado pelos revolucionários como seu símbolo.

A luta quase sempre desigual que os justos travam contra os poderosos tem no gladiador Spartacus uma de suas figuras mais emblemáticas.

Thomas Morus foi um gigante: ensinou-nos a crer nas utopias e tentar concretizá-las, além de dar exemplo de dignidade e coragem diante do absolutismo.

Galileu Galilei, como tantos de nós, travou a nobre luta da razão contra a força, pagando o preço por estar certo contra as crenças e valores dominantes.

Zumbi dos Palmares encarna a luta e o orgulho de um povo sofrido e, mais do que isto, de um continente criminosamente saqueado e degradado pelos brancos "civilizados".

Só uma frase bastaria para garantir a imortalidade de Jean-Jacques Rousseau, notável inspirador da Revolução Francesa: "O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe".

A ira sagrada de Henry David Thoreau é um farol para a humanidade. Sua "Desobediência Civil" continua até hoje nos inspirando na resistência às burocracias arrogantes e aos estados tirânicos.

O libertador Simon Bolivar apontou um caminho altaneiro para a América Latina.

Anita Garibaldi, "heroína dos dois mundos", inscreveu seu nome na História como mulher idealista, dedicada e corajosa, ao lado do grande Giuseppe Garibaldi.

O maior dos teóricos revolucionários, Karl Marx foi um verdadeiro divisor de águas na história da Humanidade.

Também marcou profundamente nossa época o principal pensador anarquista, Pierre-Joseph Proudhon. Hoje, só cínicos e obtusos colocam em dúvida a verdade que ele enunciou: "a propriedade é o roubo".

Filósofa e militante, Rosa Luxemburgo era a principal liderança revolucionária alemã em 1919, quando paramilitares a executaram bestialmente, antecipando os horrores do nazismo. Deixou uma frase imortal: "a verdade é revolucionária".

O profeta Léon Trotsky liderou os bolcheviques na conquista do poder em 1917, comandou o Exército Vermelho nas batalhas que asseguraram a sobrevivência da revolução e deu a vida para tentar impedir seu desvirtuamento sob Stalin.

Cientista político e militante cuja saúde definhou nos cárceres fascistas, Antonio Gramsci deu contribuição poderosa para a compreensão dos mecanismos da sociedade contemporânea e das possibilidades de atuação revolucionária.

Sigmund Freud, outro divisor de águas, não só desbravou o território do inconsciente, como foi além da mera adequação dos indivíduos a uma sociedade insana, desenvolvendo esforço titânico para tentar curar as doenças da própria civilização.

O Mahatma Gandhi foi um dos líderes mais singulares e impressionantes da História da humanidade, conseguindo libertar 250 milhões de indianos do jugo colonial à custa do estoicismo e da autoridade moral, sem o recurso à violência.

O poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, artista superlativo, foi covardamente executado pelas bestas-feras do franquismo.

Principal teatrólogo de esquerda, autor de obra riquíssima, Bertold Brecht será lembrado também por uma das mais emblemáticas poesias do século passado, "Aos que virão depois de nós", sobre os revolucionários que fugiam do nazifascismo, "trocando mais de países que de sapatos, desesperados, quando só havia injustiça e não havia revolta".

Ernesto Che Guevara é fígura mítica do internacionalismo revolucionário no século passado.

Martin Luther King, grande defensor dos direitos civis nos EUA, conseguiu mover a História com seu sonho.

Depois de tantos presidentes se sujeitarem passivamente a ser depostos pelos gorilas latino-americanos, o chileno Salvador Allende deu exemplo de dignidade ímpar: recusou o avião oferecido pelos golpistas, preferindo morrer baleado em pleno Palácio do Governo, à frente dos colaboradores mais dedicados.

Principal influência dos estudantes revolucionários europeus nas jornadas de 1968, o filósofo Herbert Marcuse produziu análises acuradas sobre o papel da indústria cultural na perpetuação do capitalismo em países prósperos e os desafios colocados por essa manipulação cientificamente otimizada das consciências.

Símbolo da luta contra as duas ditaduras brasileiras do século passado, o dirigente revolucionário Carlos Marighella foi abatido pela repressão numa emboscada que fez lembrar os gangstêres estadunidenses.

Maior boxeador de todos os tempos, vencedor da luta do século contra George Foreman, o grande Muhammad Ali também foi campeão de cidadania, ao perder o título e comprometer a carreira em nome do seu repúdio à Guerra do Vietnã, recusando-se a dela participar como relações-públicas do intervencionismo militar.

Como um dos Beatles, John Lennon tem seu nome associado à grande revolução musical e de costumes da década de 1960. Depois, na carreira-solo, compôs uma das canções mais influentes e inspiradoras de todos os tempos, "Imagine".

Enfrentando o odioso regime segregacionista da África do Sul, Nelson Mandela passou boa parte da vida na prisão, mas sua perseverança acabou vitoriosa. Não só presidiu o país reconciliado, como se dedicou depois a inúmeras causas sociais e de direitos humanos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CRISE HONDURENHA: LULA PEDE MEDIDAS DURAS, MAS NÃO PROMETE AÇÃO

"É preciso sermos muito duros, muito estritos, não podemos admitir sob nenhum conceito que alguém se ache no direito de poder derrubar um governo legitimamente eleito pelo povo", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise hondurenha, em entrevista radiofônica que concedeu nesta terça feira em Paris.

Lembrando que a América Latina já sofreu demais com os golpes de Estado das décadas de 1960 e 1970, Lula declarou enfaticamente: "Não vamos permitir que isso ocorra de novo".

Admirável. Pena que não ocorresse a quem o entrevistava a pergunta óbvia: qual vai ser a atitude que ele próprio tomará para impedir essa reincidência golpista extemporânea?

Pois está cada vez mais claro que os EUA não querem arcar com o ônus de compelirem a Organização dos Estados Americanos a adotar medidas mais enérgicas.

Qual é a segunda grande liderança da OEA? O Brasil de Lula, claro, já que o México ainda não decidiu o que quer ser na vida: um país com voo próprio ou um satélite político dos EUA, em cuja órbita já oscila em termos econômicos.

Então, se a parada tiver de ser resolvida pela força, com o envio de tropas da OEA para garantir a devolução do poder ao presidente deposto Manuel Zelaya, a iniciativa de transformar as palavras em atos cabe a Lula. Aconselho as redes bolivarianas a lhe cobrarem isto.

A hipótese de um desfecho menos duro do que o pregado na retórica de Lula seria uma pressão estadunidense nos bastidores que funcionasse. Foi o motivo da reunião que Zelaya manteve com a secretária de Estado Hillary Clinton.

Pode resultar, se Barack Obama empenhar-se realmente neste sentido. Países pobres têm muito a perder antipatizando-se com o mandatário da principal economia do mundo.

O resultado visível da reunião foi a indicação do presidente costarriquenho Óscar Arias para atuar como mediador entre Zelaya e o seu substituto ilegítimo Roberto Micheletti.

Mas, o cacife do Arias é unicamente moral; depende dos EUA lhe fornecerem os trunfos de que necessitará para levar a bom termo sua missão.

Da boca para fora, o desempenho de Obama é convincente. Em visita oficial a Moscou, afirmou:
"Os Estados Unidos apoiam a restituição do presidente democraticamente eleito de Honduras, apesar de ele ter fortemente se oposto a políticas americanas.

"Nós o fazemos não porque concordemos com ele, mas porque respeitamos o princípio universal segundo o qual as pessoas devem escolher os seus próprios líderes, quer concordemos com eles ou não."
Os próximos acontecimentos nos informarão se as convicções de Lula e Obama são sinceras ou não passam de conversa pra boi dormir.

No caso de tudo isso falhar, uma cartada interessante para Zelaya seria voltar de surpresa a Honduras, a fim de que o prendessem e as duas organizações (OEA e ONU) fossem obrigadas a mostrar para que servem. Já que ele andou citando tanto Gandhi, esta seria uma linha de ação bem ao estilo do Mahatma.

O que não pode é esperar demais.

Como enxadrista que sou desde criança, tenho o hábito mental de sempre considerar as jogadas possíveis dos dois lados. O governo golpista hondurenho tem também uma carta poderosa para jogar: a antecipação das eleições.

Isto criaria um fato consumado capaz de desestimular reações da comunidade internacional, que já denota mais vontade de discursar que de agir.

O chanceler Celso Amorim diz esperar que a situação em Honduras se resolva "nos próximos dias ou semanas", argumentando:
"Honduras é muito dependente da ajuda dos Estados Unidos, do Banco Mundial e de petróleo. Esse novo governo não tem possibilidade de durar dois ou três meses."
Que Zelaya não o ouça. Pois suas chances de voltar ao poder também não devem durar dois ou três meses. O tempo corre contra ele, com a situação tendendo a acomodar-se a cada dia que passa. Os próximos movimentos serão decisivos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ONTEM EU VI UM SUPER-HOMEM DE VERDADE

Esqueçam Nietzsche e seus delírios de superação dos homens por "alguma coisa superior a si mesmos". São fantasias nefastas, que desembocam diretamente no elitismo, além de ramificarem com aberrações totalitárias como o nazismo.

Esqueçam as igualmente nefastas fantasias dos quadrinhos, que colocaram os humanos sob a tutela de um protetor extraterrestre, como se fossem eternas crianças, incapazes de zelar por si próprios. Sabemos que tipo de tutela ofereciam os propagadores destas fantasias.

Os super-homens verdadeiramente existentes são apenas homens que, além de dotados de enorme talento, fazem-se maiores em função dos desafios que enfrentam.

O esporte é pródigo em colocar os indivíduos diante de tais desafios. E é aí que tenho encontrado super-homens.

Como Muhammad Ali, não só um dos maiores pugilistas de todos os tempos, mas também um homem com uma visão tão grandiosa de si mesmo que era capaz de submeter-se a sofrimentos e pressões terríveis para se colocar à altura do modelo que erigira.

Assim, teve a mandíbula quebrada no 2º assalto de uma luta nem sequer decisiva e, ao invés de ir logo para o hospital receber tratamento e sedativos, preferiu suportar a dor insana até o final, com sério risco de agravar a contusão.

Qualquer ser humano normal consideraria injustificável tamanho sacrifício apenas para perder por pontos ao invés de abandono. Mas não Ali.

MUHAMMAD ALI, CAMPEÃO TAMBÉM FORA DO RINGUE - Depois, houve a luta do século contra George Foreman, que ele não poderia vencer mas venceu, aliando estoicismo, coragem e estratégia impressionantes.

Após nocautear o adversário, Ali teve até um ligeiro desmaio, tal o castigo que suportara. Nunca a história de Davi e Golias foi tão fielmente reproduzida em nossos tempos.

E era capaz igualmente de agüentar pressões morais como a que a sociedade estadunidense, a mídia e o submundo do boxe lhe moveram, para que se resignasse a posar de soldadinho de chumbo na Guerra do Vietnã.

Em nenhum momento se pretendeu colocá-lo em combate. Queriam-no como propagandista do pseudo-patriotismo, a protagonizar ações de relações-públicas que levariam outros a morrerem por uma causa injusta, enquanto ele permaneceria bem longe do abatedouro.

Sua recusa implicou a perda do cinturão mundial; a interrupção da carreira no auge, quando era imbatível; e prejuízo financeiro de milhões de dólares. Não cedeu, ficando anos fora dos ringues.

Para termos um parâmetro de comparação, lembremos de quando o grande goleiro Rogério Ceni foi afastado da equipe por causa de um bate-boca público com o presidente do São Paulo. Tinha carradas de razão, contra o arrogante cartola.

Já era um ídolo, mas foi abandonado pela imprensa esportiva, sempre mancomunada com os poderosos; pela infiel torcida organizada, sempre teleguiada pelos poderosos; e pelos torcedores comuns, sempre ressentidos contra os que quebram a hierarquia à qual eles próprios se submetem como cordeirinhos em seu cotidiano.

Ceni resistiu no limite do possível, foi mais digno do que a grande maioria dos esportistas brasileiros nessas situações. Mas, depois de algumas semanas de ostracismo, sucumbiu, admitindo um erro que não cometera.

Já Ali, perdendo muito mais, manteve-se firme até que o deixassem voltar incondicionalmente.

O MENINO KASPAROV SE FEZ HOMEM NO TABULEIRO - Outro super-homem da vida real é Garry Kasparov que, quando jovem gênio do xadrez, venceu um duelo épico contra o campeão Anatoly Karpov, em 1984.

Tão ousado nos tabuleiros quanto na vida, Kasparov simpatizava com o sindicato Solidariedade na Polônia e lançava críticas veladas à nomenklatura da URSS (a nova classe engendrada pelo desvirtuamento stalinista da revolução de 1917), enquanto Karpov fazia o gênero de fiel vassalo do regime. Isto tornou o match entre ambos, também, uma exacerbada guerra política.

Perdendo por 5x1, à beira do abismo (a disputa acabaria quando um deles obtivesse a sexta vitória), Kasparov decidiu imitar o cauteloso adversário, trancando seu jogo, não correndo mais riscos e apostando no erro alheio.

Fácil de falar, dificílimo de fazer, ainda mais quando se trata de um jovem desafiante contra um campeão adulto, em meio a pressão extremada.

Mas, conseguiu. Houve uma sucessão interminável de empates (mais de 20 consecutivos, dos 40 que o match registrou), até que foi Karpov quem entrou em parafuso, sucumbindo ao estresse.

Perdeu duas seguidas e perderia quantas mais disputasse, se o presidente da Federação não suspendesse arbitrariamente o match, decretando-o empatado por “desumanidade das regras”.

Um enxadrista brasileiro definiu com muita propriedade a indiscutível vitória moral de Kasparov: “o menino se fez homem no tabuleiro”.

O ESTILISTA FEDERER APRENDEU A SER GUERREIRO - Neste domingo, o suíço Roger Federer ingressou na seleta galeria dos esportistas que transcendem o próprio esporte, personificando virtudes maiores de um ser humano.

Fenômeno do tênis, Federer é “ótimo” ou “muito bom” em cada um de seus fundamentos. Com isto, reinava soberano e sem antagonistas que verdadeiramente o ameaçassem, até que o espanhol Rafael Nadal alcançou o seu nível competitivo no ano passado.

Acostumado a vencer sem muito esforço, o estilístico Federer foi surpreendido pelo tênis-força de Nadal, que compensava sua inferioridade técnica com uma incrível determinação, disputando cada ponto como se sua vida dependesse disso.

Num primeiro momento Federer ficou desconcertado, perdendo a confiança essencial ao grande tenista.

Mas, de 2008 para 2009 conseguiu se reconstruir, acrescentando a tenacidade às virtudes que já possuía.

O sexto título de Wimbledon seria a coroação de sua volta por cima, colocando-o como o maior recordista dos quatro torneios mais importantes (o chamado Grande Slam) em todos os tempos e devolvendo-lhe a condição de nº 1 do ranking.

Mas, encontrou pela frente um adversário inspiradíssimo, que fez a melhor exibição de sua carreira e nada tinha a perder, já que entrava como azarão.

Federer conseguiu suportar a pressão do favoritismo e a ansiedade de quem disputava a partida mais importante de todas que já travara, a um passo da consagração absoluta.

E, depois de mais de quatro horas de maratona tenística, com o set decisivo terminando num inacreditável 16x14, provou que agora é campeão também de firmeza e autocontrole, as virtudes que lhe faltaram no ano passado.

Foi um momento grandioso como só o esporte nos tem conseguido proporcionar nestes melancólicos tempos presentes.

domingo, 5 de julho de 2009

FICHA FALSA DA DILMA: OMBUDSMAN CRITICA NEGACEIOS DA "FOLHA"

Carlos Eduardo Lins da Silva é um excelente jornalista, que sempre desempenhou com dignidade os papéis que assumiu: repórter, chefe de redação, professor de faculdade, sindicalista, líder comunitário.

Então, foi por suas qualidades que a Folha de S. Paulo o escolheu para substituir Mário Magalhães, quando o oitavo ombudsman do jornal saiu brigado com a direção, conforme deixou bem claro na sua coluna de despedida, em 06/04/2008:
"...o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.

"A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. (...) Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. (...) Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.

"A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito."
Mário Magalhães saiu atirando, o que lhe valeu a solidariedade de jornalistas e leitores. A Folha, tentando desfazer a má impressão, tratou de substituí-lo por um profissional íntegro e respeitado. Mas, houve quem concluísse, apressadamente, que teriam pinçado alguém mais dócil às imposições patronais.

Tais desavisados chegaram a especular que, por ser cinquentão, o substituto se comportaria com mais cautela, evitando agastar-se com o reizinho para não ser demitido quando findasse seu mandato de ombudsman.

É como são vistos os profissionais veteranos: supõe-se que, na ânsia de preservar um emprego que pode ser o último, disponham-se a quaisquer indignidades.

Mas, às vezes, acontece o contrário: para não mancharem sua longa e digna carreira, resistem bravamente às propostas indecentes que surgem no seu caminho.

Venho há muito tempo encontrando as portas da Folha parcial ou totalmente fechadas, cada vez que tento exercer meu legítimo direito de resposta e de apresentar o outro lado. Isto me pôs em contato com vários profissionais que exerceram o papel de ombudsman. De todos, Carlos Eduardo foi o que me deixou melhor impressão.

Houve quem defendesse, fingindo acreditar, os erros e abusos cometidos pelo jornal. Houve quem tentasse enrolar-me, prometendo providências que nunca eram tomadas.

Carlos Eduardo abriu o jogo: concordava com alguma das minhas queixas, iria comunicá-las à redação e defendê-las, mas não tinha como impor a publicação das versões retificadoras que lhe mandara. Sua autoridade não chegava a tanto.

Apesar dos maus precedentes, acreditei nele desde o primeiro momento. Senti que estava sendo sincero e não, como poderia ser o caso, tentando ficar bem com os dois lados.

O caso da ficha falsa de Dilma Rousseff confirmou plenamente minha avaliação. Carlos Eduardo teve comportamento exemplar, discordando publicamente das desculpas esfarrapadas da redação.

Ou seja, ficou comprovado que ele adota a posição correta, mas seu parecer não é levado em conta.

Na coluna deste domingo (05/07) ele novamente puxa a orelha dos editores, não lhes deixando nenhuma margem de manobra para continuarem esquivando-se ao que há muito se impõe: um pedido público de desculpas a Dilma Rousseff.

É com satisfação que reproduzo na íntegra a argumentação do ombudsman:
"Pela quarta vez, volto ao tema da reportagem de 5 de abril em que reprodução de suposta ficha criminal da ministra Dilma Rousseff dos tempos da ditadura foi publicada.

"Depois de a ministra ter contestado que a ficha fosse autêntica, o jornal reconheceu não ter comprovado sua veracidade. Considerei insuficientes as justificativas para os erros cometidos e sugeri uma comissão independente para apurá-los e propor alterações de procedimentos para evitar repetição.

"A Redação, no entanto, considerou a averiguação encerrada. Na semana retrasada, a ministra me enviou laudos por ela contratados que atestam a falsidade do documento.

"Ao noticiar a existência dos laudos no domingo, o jornal, em termos tortuosos, sugeriu que ainda há dúvida sobre a fidedignidade do documento porque o original cuja reprodução ele publicara não foi examinado.

"Se a Folha quer mesmo esclarecer o assunto, é simples: deve identificar a fonte que lhe enviou eletronicamente a ficha (assim, o público avaliará sua credibilidade) e instá-la a fornecer o documento original para exame de peritos isentos e pagos pelo jornal.

"Só isso elucidará o caso, embora para leitores especializados em artes gráficas, nem seja necessário. Alguns me mandaram material convincente para comprovar a fraude.

"Um deles, André Borges Lopes, diz que 'trata-se de falsificação tão grosseira que qualquer técnico do departamento de arte do jornal poderia detectar os indícios de fraude em cinco minutos de análise'."
De quebra, a coluna dominical de Carlos Eduardo traz também uma análise primorosa sobre a adesão oportunista da Folha ao culto a ídolos, defendendo a posição de que o jornalismo impresso deveria ser, isto sim, um "contraponto de civilidade à obsessão da mídia eletrônica por celebridades". Recomendo com entusiasmo (os assinantes da Folha e do Uol podem acessar aqui).

Orgulho-me de tê-lo como colega de profissão; é um dos poucos a quem ainda faço tal elogio.

sábado, 4 de julho de 2009

DUAS VISÕES REVOLUCIONÁRIAS

Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária".



Caro Lungaretti

Volto a insistir, não podemos exigir dos outros, aquilo que não podem oferecer. Você está sendo muito rigoroso com esse cidadão que sofreu um golpe de Estado no estilo clássico e que está reagindo de forma corajosa e levando de roldão para a condenação do golpe militar acontecido em Honduras meio mundo (ou mundo inteiro para ser mais exato). Vi agora pela Telesur uma grande manifestação de apoio a Zelaya na chegada do Sr. Insulsa, representante da OEA. Vi milhares de pessoas gritando o nome de Zelaya e pedindo o seu retorno imediato para assumir a presidência do país - mesmo o país estando em Estado de Sítio e o povo sofrendo forte repressão policial. Também não podemos exigir muito desse sofrido povo para que seja muito combativo e enfrente o poderoso e armado exército usando apenas paus e pedras - pois Honduras esteve (e está ainda) sob controle da direita durante décadas (com forte influencia da CIA e Pentágono) e todos nesse país estão afetados ideologicamente.

Isso é pouco para você? Queres mais?

Por que então és tão exigente com Zelaya e condescendente com Lula? Pois esse pela sua história, pelas lutas que realizou no passado poderia ser sim mais combativo e menos conciliador.

Um pouco mais de pragmatismo nas análises não faz mal a ninguém

Um abraço

Jacob David Blinder

* * * * * * *

Jacob,

só avestruzes enterram a cabeça na areia. Não invento os fatos, comento-os. Mas, nunca deixo de ser fiel ao que vejo, sinto e avalio. Caso contrário, eu me tornaria um propagandista. O monolitismo da posição única saiu de moda junto com o stalinismo.

Dezenas de presidentes esquerdistas foram derrubados pelos golpes de direita na América Latina. A opção de morrer pelos ideais é exceção irrisória, fazendo-me prezar imensamente os Allendes e Vargas.

Quanto aos que não têm grandeza histórica para fazer o que é certo no momento crucial, quase sempre a conta acaba sendo paga pelo povo. E é isto que mais me revolta.

Volto a 1964: Brizola se dispôs a resistir, João Goulart preferiu desertar do País, aceitando a derrota. Sua fuga desmobilizou de vez o nosso lado e foi a pá de cal na democracia brasileira, condenando-nos a 21 anos de humilhações e atrocidades.

Ficou para o cidadão comum a imagem de que a esquerda não tinha coragem para sangrar por seus ideais. E tanto os que já militavam em 1964 quanto os que viemos depois da rendição sem luta, tivemos de provar o contrário ao povo, para reconquistar seu respeito.

É algo que não leio em livro nenhum, mas era sentido claramente por quase todos nós: a obrigação de provarmos que não éramos iguais aos burocratões covardes.

Imolamo-nos por causa disso. Até alguns de nossos líderes mais importantes expuseram-se demais por causa disso. Muitos continuaram lutando quando já não havia chance de vitória por causa disso.

Então, companheiro, não devemos desculpar tão facilmente a tibieza dos Zelayas.

O certo é que, se ele cumprisse a palavra de voltar na 5ª feira, fosse preso e em seguida libertado por força da pressão internacional, reconquistaria a presidência DE FATO, com moral em alta, para aprofundar o processo que ele mesmo desencadeou.

Deixando a iniciativa para um representante da OEA, corre o risco de ter de aceitar uma solução meia-boca, como a convocação imediata de novas eleições.

E, mesmo que lhe devolvam o poder, ficará a imagem de que foi uma imposição da OEA e da ONU. Voltará enfraquecido, para fingir que governa durante os 200 dias que faltam até a transmissão da faixa.

Se não formos nós a mostrarmos a realidade nua e crua, outros o farão. Então, repito, prefiro ser um jornalista com visão de esquerda do que um propagandista da "única posição aceitável". O stalinismo já era, felizmente.

Abs.

Celso

* * * * * * *

Lungaretti,

Todos nós somos propagandistas de uma causa, mesmo quando que dizemos que não somos. Você o é e creio que faz isso muito bem, quando defendes o governo Lula ou que criticas a violação dos direitos humanos do passado e no presente. Eu o sou quando defendo a revolução bolivariana da Venezuela e as mudanças estruturais que ocorrem na AL (que quando elas não estão na medida dos meus desejos)

Não podemos também comparar fatos históricos diferentes ocorridos em épocas passadas com fatos presentes e exigirmos igualdade de atitudes em seus personagens. Brizola foi sim arrojado em sua época e sem dúvida Zelaya o é na atual.

Zelaya um Chefe de Estado do presente agiu dentro da conjuntura do presente e o fez muito bem. Sua atitudes são impecáveis ao seu nível inclusive no uso que faz da mídia mesmo a burguesa. Ninguém duvida que haja desdobramentos quando esse Chefe de Estado e de Governo retornar ao seu país - seja através da clandestinidade ou da ação aberta. E com isso ajudar a incrementar resistência popular que já ocorre. E note que Zelaya é um homem de linha conservadora, pacata como ele próprio diz. E aí podemos tirar outra conclusão que indica o poder dos acontecimentos moldando o homem (ser humano) e o fazendo a cada momento radicalizar suas posições políticas.

Esse é a grande lição que podemos tirar nesse momento de ampla agitação política que ocorre na AL. Nenhum chefe de Estado é igual ao que era em relação ao inicio do seu mandato, desde que ele não seja alienado e tenha um mínimo de bom senso. Isso está ocorrendo com quase todos, que vai de Bachelet no Chile a Cristina Kirchner na Argentina. De Chávez a Evo Morales e indo até Lugo no Paraguai. Sem contar a grande surpresa na AL que é Correa no Equador e Zelaya em Honduras.

E você há de convir que Lula, mudou pouco, continua o mesmo articulador de sempre, muito conservador, limitado e pouco arrojado, pensando apenas na auto denominada governabilidade (a conservadora!!!) e defendendo publicamente figuras nojentas como Sarney e aceitando inclusive apoios espúrios como o de Collor. E isso é lamentável, pois esperava-se mais dele e até mesmo alguma coisa diferente de seus defensores abertos, na qual você é um bom representante.

Enfim criticar os outros é fácil – o difícil mesmo é a auto-avaliação e a autocrítica.

Um abraço

Jacob David Blinder

PS - Os golpistas não vão entregar o poder tão facilmente e tal fato terá desdobramentos que atingirá toda a AL. E já anteciparam afirmando que não querem mais participar da OEA.

* * * * * * *

Blinder,

fale por si. Propagandistas, por dever de ofício, apresentam versões distorcidas dos produtos que estão promovendo: exageram os pontos positivos e omitem, ou minimizam, os negativos.

É bem o que fazia o stalinismo: engrandecia os seus e demonizava os revolucionários discordantes. Falsificava a História, a ponto de maquilar as fotos de acontecimentos gloriosos, apagando a imagem de Trotsky e de outros bolcheviques incompatibilizados com o regime.

Estou nesta estrada desde 1967 e me orgulho de nunca ter escondido a verdade debaixo do tapete por achar que isso favorecia a causa. Num Brasil em que até a esquerda cultiva o hábito do "jeitinho", de aliviar para os amigos, de fazer favores imorais ou amorais para receber a contrapartida adiante, eu sempre procurei agir como era certo e não como era conveniente.

Meus caminhos foram mais difíceis por causa dessa opção? Sem dúvida. Mas, eu não saberia viver de outra maneira. De todas as frases imortais de nossos profetas, aquela com a qual mais me identifiquei foi a de Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária".

Então, por mais conveniente que seja omitir a falta de grandeza histórica de Zelaya e o preço que isto acabará custando ao povo hondurenho, eu optarei sempre por relatar os episódios aos meus leitores como eles realmente se passaram. Porque jamais abrirei mão do meu compromisso com a verdade.

Também não pretendo formar fanáticos, mas sim revolucionários conscientes. Então, os meus seguidores sabem muito bem que devemos lutar até o fim para que o poder seja restituído plenamente a Zelaya, seja ou não ele um poltrão.

Não defendemos pessoas, mas sim princípios, como o de que o golpismo é um ovo da serpente que deve ser sempre esmagado. O ator histórico Zelaya pode não ter correspondido ao que esperamos de um líder da causa do povo, mas seu direito de cumprir até o último dia do mandato continua sendo intocável. Somos revolucionários, não torcedores de futebol. Para quem não compreende a diferença, nem vale a pena explicar.

Por último, Blinder: de onde você tirou a estapafúdia idéia de que eu defendo o Lula? No meu blogue você achará mais de uma dezena de artigos em que coloco claramente: do ponto de vista de um revolucionário, o que mais conta na avaliação de qualquer governo é sua política econômica, que, no caso do governo lulista, desde o primeiro dia foi neoliberal.

Se eu considerasse importante a Presidência da República, certamente criticaria Lula todos os dias. Mas, não considero. Para mim, nada mais faz do que gerenciar os interesses capitalistas em território brasileiro.

Já cansei também de falar que aposto todas as minhas fichas na organização autônoma e não-coercitiva dos cidadãos, contra o capitalismo e CONTRA O ESTADO.

Sou totalmente cético em relação à velha estratégia de tomarmos governos pela via democrática, para depois tentarmos tomar o poder pela via golpista e só então agregarmos a maioria dos trabalhadores à revolução. Com isto, o povo começa como OBJETO da revolução, na esperança de que se consiga transformá-lo em SUJEITO adiante... e isto nunca acontece. Terá sempre dirigentes decidindo em seu nome, ao invés de escolher ele próprio seus caminhos.

Acredito que o povo deva ser o sujeito da revolução desde o primeiro momento. E que devamos organizá-lo fora do Estado, não infiltrando-nos no Estado. E tenho reiterado esta convicção num sem-número de artigos.

Daí a pouca importância que dedico a Lula e a tudo que ocorre em Brasília. Pois, como diz o título de um artigo que escrevi nesta semana, NÃO SERÁ EM BRASÍLIA QUE VAI CHEGAR NOSSO CARNAVAL.

Abs.

CELSO

sexta-feira, 3 de julho de 2009

COMÉDIA DE ERROS EM HONDURAS

Para que servem, afinal, as organições das Nações Unidas e dos Estados Americanos?

Num episódio claríssimo, em que os países-membros concordam totalmente quanto ao único desfecho aceitável, ambas não conseguem enquadrar a pequena Honduras.

Tendo ou não o presidente deposto Manuel Zelaya cometido os 18 crimes de que os golpistas o acusam, o certo é que não foram seguidos os trâmites legais para sua exclusão do poder, nem lhe deram oportunidade para apresentar sua defesa.

Então, cabe à ONU e à OEA imporem, até com o envio de tropas, sua recondução ao poder.

Aí, se o Congresso e a Justiça tiverem contas a acertar com ele, que o façam pelos caminhos apropriados.

Especula-se sobre uma antecipação da eleição para presidente, já aceita pelo chefe do governo golpista Roberto Micheletti. Se a OEA e a ONU engolirem esta solução, é melhor fecharem as portas de uma vez por todas, poupando ao mundo o custo de duas burocracias inúteis.

É óbvio que, num pleito realizado, digamos, dentro de 30 dias, sem a participação de Zelaya na campanha e sob controle dos golpistas, acabará sendo eleito um candidato do agrado dos últimos.

Esta possibilidade só faria sentido se o acordo fosse diferente, com Zelaya reassumindo a presidência para governar com plenos poderes até que passasse a faixa ao substituto.

Não se sabe se ele aceitaria a antecipação da eleição e consequente encurtamento do seu mandato. Mas Micheletti se mantém intransigente quanto à imediata prisão de Zelaya, caso ele retorne a Honduras.

Da forma como está colocada, seria uma fórmula de golpe branco, garantindo o afastamento de um presidente indesejável e criando condições as mais favoráveis para os golpistas fazerem seu sucessor. Inaceitável.

Quanto a Zelaya, continua patético: prometeu retornar ao país nesta quinta-feira (2) e refugou.

Provavelmente incomodado com o péssimo juízo que as pessoas perspicazes fizeram da sua falta de reação quando os golpistas lhe impuseram o desterro em pijamas, resolveu atribuir-se uma virilidade ausente nos atos, ao relatar sua prisão:
"'Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles.

"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
Ou seja, largou o celular e desandou a fazer discursos fora de hora. Depois, acompanhou os encapuzados sem exigir, "em forma muito audaz", que lhe deixassem ao menos vestir as calças. Pobre coitado!

Também lhe faltou audácia para honrar a palavra, desembarcando na sua pátria para o que desse e viesse, ao lado dos representantes da ONU e da OEA, além de celebridades (parece que os presidentes inicialmente citados também refugaram...).

É óbvio que poderia ser preso. E é igualmente óbvio que seria um sapo grande demais para as duas organizações engolirem. Teriam de finalmente se mexer, tomando providências de verdade.

Para abortar um golpe de estado e conseguir a vitória final contra seus inimigos, Getúlio Vargas recorreu ao suicídio e à carta famosa. Tinha grandeza.

Ao próprio Hugo Chávez, inspirador dos propósitos continuístas de Zelaya, não faltaria coragem para fazer o que se impunha, arcando com os riscos inerentes.

Então, se Zelaya não serve para calçar as botas do Chávez, não deveria tentar seguir-lhe os passos. É simples assim.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

NÃO SERÁ EM BRASÍLIA QUE VAI CHEGAR NOSSO CARNAVAL

Quando o Carnaval Chegar é a canção mais emblemática do período que vai da derrota da luta armada até a redemocratização do Brasil.

Depois que a imensa superioridade de forças do inimigo condenou ao fracasso a heróica tentativa de saírmos da ditadura pela porta da frente, só nos restou mesmo a longa espera de que ela ruísse em decorrência de suas próprias contradições.

Houve, claro, momentos fulgurantes como o do repúdio ao bárbaro assassinato de Vladimir Herzog em 1975, mas todos sabíamos que uma missa não expeliria os militares do poder que exerciam como usurpadores e déspotas.

E existia a resistência cotidiana aos abusos e atrocidades, cujo símbolo mais marcante foram D. Paulo Evaristo Arns e sua abnegada equipe, o embrião do Tortura Nunca Mais.

Mas, não estava em nossas mãos darmos um fim à ditadura. Sentíamos-nos exatamente como Chico Buarque descreveu: "Quem me vê sempre parado, distante, garante que eu não sei sambar/ Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

Lá por meados da década de 1970, quando terminou o último dos quatro julgamentos a que fui submetido em auditorias militares, eu tive de fazer minha opção: permanecer ou não no Brasil?

Ao sair das prisões militares, ainda sob o impacto de tudo que sofrera nos porões, decidi embarcar tão-logo pudesse fazê-lo legalmente, já que não tinha como montar um esquema de fuga minimamente confiável.

Mas, aos poucos, foram-me voltando os sonhos, as elocubrações sobre o que faríamos quando, findo o pesadelo, pudéssemos finalmente reconstruir este país. "Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

Muito mais do que quando militava na VPR, tinha a noção exata do que precisava ser feito para o Brasil voltar a ser, pelo menos, uma nação civilizada. Nos bares, nosso refúgio, eu e os amigos discutíamos ponto por ponto as medidas a serem tomadas no glorioso day after.

Era nosso lenitivo para continuarmos engolindo os sapos de cada dia. "E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar".

Mas, a classe política frustrou nossas esperanças e destruiu nossos sonhos. Com a ditadura já agonizante, manobrou para que fosse rejeitada a Emenda Dante de Oliveira, que restituiria o poder a quem de direito, os cidadãos eleitores deste país.

E o maquiavélico Tancredo Neves pôde, triunfalmente, anunciar que chegara "a hora dos profissionais". O candidato da ditadura, Paulo Maluf, não seria detonado pelo povo nas urnas, mas sim por umas poucas centenas de parlamentares no Colégio Eleitoral que se constituía num símbolo gritante da exclusão do povo na tomada das grandes decisões nacionais.

Pior: Maluf seria derrotado graças aos votos de congressistas que, como ratos, abandonaram o navio da ditadura que já fazia água, para assegurarem a manutenção dos seus privilégios na Nova República.

A indústria cultural, com a Rede Globo à frente, conseguiu vender a ilusão de que tanto dava a diretas-já quanto a vitória no espúrio Colégio Eleitoral. A longa agonia pública de Tancredo Neves era a peça que faltava no quebra-cabeças. A pieguice obnubilou as consciências. Os maus venceram, como quase sempre.

E tocada, entre outros, pelos que haviam sido sustentáculos da ditadura, a redemocratização ficou pela metade, como convinha à burguesia, que antes exercia o poder por meio dos fardados, depois passou a exercê-lo por meio de civis safados.

Nem sequer foram punidos os assassinos seriais da ditadura. Nem sequer foram devolvidos os corpos de companheiros martirizados. "Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar". E não adiantou esperar o carnaval, pois ele não chegou.

Gato escaldado, nunca mais acreditei que a redenção dos males brasileiros pudesse provir das tempestades em copo d'água da política oficial. Sabia/sei que a chegada do carnaval não depende da desgraça momentânea do Collor, dos anões do orçamento, dos mensaleiros, do Severino, do Renan, do Daniel Dantas ou, agora, do Sarney.

Esses senhores nunca determinaram os acontecimentos, apenas cumprem/cumpriram determinadas funções dentro do sistema de exercício e sustentação do poder burguês. Então, enquanto as funções em si não forem extintas, suas agruras só servirão para jogar poeira colorida nos olhos do povo.

Trata-se apenas de um sacrifício ritual para servir como catarse aos "de fora". Cada vez que um desses espantalhos tomba, a indústria cultural cria a ilusão de que a justiça foi feita e as instituições funcionam. Mas, saem uns, entram imediatamente outros e a podridão continua a mesma.

Há quem me cobre engajamento na caça à bruxa da vez. Negativo. Prefiro gastar minhas energias preparando o carnaval, que só chegará quando os cidadãos assumirem a iniciativa de, eles próprios, colocá-lo nas ruas, sem se deixarem iludir pelo jogo-de-cena brasiliense.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

GOLPE DE ESTADO HONDURENHO DEVE SER ABORTADO PELA ONU

As tradições golpistas têm de ser enterradas de vez na América Latina, como um anacronismo incompatível com o século XXI.

A crise hondurenha marcha para um desfecho exemplar.

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução unânime repudiando o golpe de Estado e exigindo a recondução ao poder do presidente Manuel Zelaya, que pretende retornar ao seu país escoltado por representantes da ONU e da OEA, além de presidentes sul-americanos.

Com tais guarda-costas, supõe-se que desta vez ele consiga preservar a dignidade do cargo, depois do papelão de domingo. Não consigo imaginar um Getúlio Vargas ou um Salvador Allende deixando-se prender docilmente, em pijamas, pela soldadesca, e em pijamas ser despachado para outra nação.

Aliás, o fato de terem poupado sua vida diz muito. Os verdadeiros líderes, nessas circunstâncias, eles matam.

O certo é que Zelaya forçou a barra ao pretender realizar seu referendo depois que a Justiça o impugnou e o Congresso condenou. Desafiou o inimigo, vê-se agora, sem estar preparado para fazer prevalecer sua posição; subestimou-o tanto que foi dormir o sono dos ingênuos enquanto o poder trocava de mãos.

Os direitistas poderiam ter dado aparência de legalidade à sua deposição, mas também botaram os pés pelas mãos, precipitando os acontecimentos.

Preocuparam-se mais em evitar a realização do referendo, certamente temendo que o resultado lhes fosse amplamente desfavorável e servisse como um trunfo poderoso para Zelaya.

Configurou-se o golpe de Estado, que logo no dia seguinte (2ª, 29) eu já qualificava de "precedente perigosíssimo". Ontem (3ª, 30) Lula repetiu as mesmíssimas palavras e Obama, que se trata de "um terrível precedente". Mais uma vez o mundo se curva a este blogue...

Zelaya foi buscar o apoio da ONU e obteve. Depois, na coletiva de imprensa, comprometeu-se a não insistir na tese da reeleição, que as leis hondurenhas lhe vedam. Afirmou que ficará no governo até o fim do seu mandato, em 27 de janeiro de 2010, voltando então à vida civil "junto com amigos e com a família".

Tudo leva a crer que Zelaya será reempossado, para governar fragilizado os duzentos e poucos dias que lhe restam. Afinal, não terão sido os hondurenhos a lhe devolverem o cargo, mas sim a pressão internacional.

Este será, claro, o melhor desfecho possível, evidenciando que as viradas de mesa já não têm lugar na América Latina do século XXI: nem para manterem um presidente indefinidamente no poder, nem para expeli-lo indevidamente antes do final do seu mandato.
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