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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

CORREA ACERTA AO DAR UM PASSO ATRÁS. VAMOS VER SE DÁ DOIS À FRENTE

A fase dos  grandes timoneiros  passou, sem deixar saudades
Várias vezes já fui alvo de desqualificações e insultos por parte de companheiros que não aceitam a diversidade de opiniões no nosso campo.

Para eles, toda e qualquer discrepância da  única posição correta  não passa de uma heresia a ser combatida a ferro e fogo. Talvez sem sequer saberem quem foi Joseph Stalin, são defensores extemporâneos do monolitismo stalinista.

Emblemático foi o que aconteceu quando do golpe de estado hondurenho. Posicionei-me desde o primeiro momento e da forma mais contundente contra a derrubada do presidente legítimo, mas recusei-me a levantar a bola do poltrão Manuel Zelaya, que se deixara expulsar do país vestindo pijamas. 

Percebi logo que lhe faltavam  cojones, como dizem os  hermanos. Um Salvador Allende morreria antes de consentir que o humilhassem daquela maneira.

O mundo desabou sobre mim. No entanto, o desenrolar dos acontecimentos comprovaria o acerto da minha intuição.

Zelaya convocou uma épica carreata até a fronteira hondurenha, adentrou o país... e, frente a frente com os militares golpistas, refugou como menininho assustado, voltando atrás quando o certo seria deixar-se prender para forçar a OEA e os países que o apoiavam a agirem, ao invés de se limitarem às declarações platônicas. 

Enumerando as grandes oportunidades desperdiçadas?
Depois, reentrou sorrateiramente e enfurnou-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa... para nada. Passado o impacto do factóide que gerou, o confinamento mais esvaziou do que alavancou sua luta. Permaneceu por mais de quatro meses e, no final, inerte e esquecido, acabou nem sequer influindo na eleição que decidiu quem o sucederia.

Encerrado o prazo legal do seu mandato, seguiu para o exterior, melancolicamente. Depois, fez acordo com o novo governo e voltou em definitivo para Honduras, com o rabo entre as pernas.

"QUANDO UM DOS NOSSOS DÁ TIRO NO PÉ, 
NÃO PRECISA QUE O APLAUDAM"

O que acaba de acontecer não foi tão acachapante, mas mostrou de novo como é melhor adotarmos uma posição independente do que contribuírmos, como  Maria vai com as outras, com os desacertos do nosso lado.

O presidente equatoriano Rafael Correa exagerou na dose ao processar jornalistas mas, claro, muitos por aqui baliram amém, alinhando-se incondicionalmente com sua atitude.

Quando um dos nossos dá tiro no pé, não precisa que o aplaudam; ajuda mais quem o alertar sinceramente de que assim acabará manco.

Foi o que fiz (vide aqui), de forma respeitosa, pois estou acostumado a lidar com a má fé do PIG. Às vezes ficamos mesmo exasperados, mas não podemos nos deixar levar pela emoção, facilitando o trabalho do inimigo.

Eis uma notícia  quentinha  da agência France Presse:
Há momentos em que é obrigatório darmos um passo atrás
"O presidente do Equador, Rafael Correa, pediu à Justiça que anule a condenação a três anos de prisão e ao pagamento de 40 milhões de dólares imposta a três diretores e um ex-editor do jornal El Universo, a quem processou por injúrias, após a forte rejeição internacional gerada pela sentença.

'Apesar de saber que muitos não querem que sejam feitas concessões a quem não merece, assim como tomei a decisão de iniciar este julgamento, decidi ratificar algo que há tempos estava decidido em meu coração: perdoar os acusados, concedendo a eles a remissão das condenações que merecidamente receberam', disse Correa ao ler nesta segunda-feira uma carta aos equatorianos.

A condenação contra o diretor Carlos Pérez, os subdiretores César e Nicolás Pérez e o ex-chefe de opinião Emilio Palacio tinha sido rejeitada pelas relatorias para a liberdade de imprensa da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e da ONU, e organizações como Repórteres Sem Fronteiros, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a Human Rights Watch.

O perdão da pena é uma opção do querelante prevista no código penal para as ações privadas por injúria, como é o caso de Correa, que apresentou sua ação na qualidade de cidadão comum".
Andou bem Correa ao dar um passo atrás, para poder depois dar dois à frente.

Tomara que continue acertando: o que tem de fazer agora é estimular a criação de alternativas à imprensa burguesa, ao invés de confrontá-la diretamente, tornando-se alvo fácil para aqueles a quem convém apresentá-lo como ditador em potencial.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

OS SECTÁRIOS NÃO PASSARÃO

Uma campanha de satanização ocupa alguns espaços da esquerda virtual. Explicitamente, contra a Anistia Internacional e instituições que defendem os direitos humanos. Implicitamente, contra mim e contra Carlos Lungarzo, articulistas sintonizados tanto com os ideais revolucionários quanto com os DH.

Tudo começou quando, na véspera da posse de Porfirio Lobo, a Anistia Internacional se posicionou contra a intenção do novo presidente hondurenho, de passar uma borracha sobre os acontecimentos recentes.

A AI conclamou Lobo a não relevar os assassinatos, torturas, estupros e intimidações praticados pelo governo golpista de Micheletti, mas sim apurá-los e levar aos tribunais seus autores, para que a impunidade não servisse como estímulo para outros trogloditas atentarem contra resistentes no futuro.

Apoiei tal posição, claro, porque é simplesmente a única cabível para um um homem civilizado - e, ainda mais, para um revolucionário.

Os crimes da repressão não devem ser anistiados, mas sim punidos. É como sempre nos posicionamos em relação à anistia brasileira de 1979, que igualou as vítimas a seus carrascos.

No entanto, passaram a surgir contestações delirantes, na linha de que, ao apelar para Lobo, a AI estaria reconhecendo seu governo ilegítimo.

Ora, o que importa, afinal, esse pseudo-reconhecimento por parte da AI, quando foi o presidente ilegalmente deposto o primeiro a reforçar a autoridade de Lobo?!

Manuel Zelaya não só negociou com Lobo para obter um salvo-conduto que lhe permitisse deixar o país, como expressou sua disposição de contribuir para a "reconciliação nacional".

E não se posicionou, que eu saiba, contra a anistia de Lobo, que o beneficiará tanto quanto àqueles que derramaram o sangue dos hondurenhos.

Para quem vive no mundo real, já não existe a mais remota dúvida de que a crise hondurenha foi superada.

Teve um péssimo desfecho, claro, mas não adianta brigarmos com fatos consumados. A comunidade internacional acabará reconhecendo Lobo, como o próprio Brasil se prepara para o fazer. É tudo questão de tempo.

Por quê? Porque a resistência a um golpe de Estado em nome do presidente deposto só se mantém enquanto tal presidente permanece firme.

Ao abandonar o Brasil em 1964, João Goulart deixou de ser a bandeira dos que resistiam à quartelada. A luta contra o arbítrio ainda mobilizava muita gente. A restituição de Goulart, não. Ao priorizar a salvação da própria pele, ele se descredenciara para o exercício do poder.

Da mesma forma, a pá de cal na resistência hondurenha ao golpe de 2009 foi o acordo selado por Zelaya com Lobo. O resto é desconversa e/ou sonho de uma noite de verão.

A luta pela justiça social em Honduras passou para outra etapa; quem insistir em olhar para trás não responderá adequadamente aos novos desafios, nem enxergará as possibilidades que surgirão doravante.

A História é dinâmica... e implacável com quem não consegue acompanhar tal dinâmica.

Quanto à Anistia Internacional, ela só pode conclamar os governantes a respeitarem os valores civilizados. Não tem tropas para impor sua vontade a mandatários, nem para derrubar governos ilegais e/ou injustos.

Sua autoridade é moral - e, enquanto tal, indiscutível.

Só pessoas com poucas informações ou muita má fé são capazes de a questionar, com suas obtusas teorias conspiratórias que remontam à guerra fria (e, como ressaltou o Lungarzo, são edificadas no vácuo, já que não citam fontes confiáveis nem oferecem provas de nada).

De resto, não há explicação plausível para essa grita histérica e essa argumentação estapafúrdia que tantos lançaram repentina e simultaneamente contra a AI, a não ser a de uma orquestração política.

Seu objetivo será o de solapar a credibilidade das instituições defensoras dos DH, para diminuir o impacto de seus relatórios contra governos "amigos" que atropelam os valores civilizados?

Ou se trata de uma reação ao prestígio que o Lungarzo e eu conquistamos ao travarmos a luta, extremamente desigual, contra os linchadores de Cesare Battisti?

Poderá, ainda, ter sido inspirada pelo temor de que finalmente frutifique minha pregação de anos, no sentido de que os ideais revolucionários não servem como desculpa para violações dos DH e de que a revolução só voltará a ser internacional caso conquiste também a adesão dos cidadãos das nações mais desenvolvidas (que são muito ciosos de sua liberdade).

Provavelmente, de tudo um pouco.

O certo é que pregações rancorosas e negativas jamais ampliarão nossas fileiras.

Continuarei cumprindo a missão que assumi, de abrir mentes e sensibilizar corações para a possibilidade de se proporcionar a todos os habitantes do planeta uma existência digna, a partir de uma nova organização da sociedade, que contemple o atendimento das necessidades humanas e não a realização do lucro.

E meu lema continuará sendo o de que quem não está contra mim, poderá ser meu aliado.

É assim que agem os empenhados em mudar o mundo: somando apoios, ao invés de hostilizar e afugentar quem não reza exatamente pela mesma cartilha.

Há uma grande diferença entre revolucionários e fanáticos religiosos. Uns constroem o futuro, outros querem recriar o passado.

Não passarão.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

DISSECANDO A MIOPIA POLÍTICA

Escrevi esta resposta para uma companheira que postou comentário a meu último artigo, repetindo a versão bolivarianamente correta sobre a crise hondurenha. Serve para muitos outros e outras que mostram idêntico apego às ilusões de ontem, incapazes de assimilar as evoluções dos acontecimentos políticos.

Crianças vivem num mundo de fantasias, adultos são obrigados a defrontar-se com a realidade, que nem sempre é agradável.

O golpe em Honduras foi um retrocesso, mas a chance de revertê-lo passou, infelizmente.

Desde o início, quando o presidente legítimo Manuel Zelaya aceitou ser despachado num avião em pijamas, eu alertei que lhe faltava grandeza histórica e coragem pessoal para cumprir bem seu papel. Não deu outra.

Quando ele foi em carreata até a fronteira e adentrou o território hondurenho, jamais deveria ter recuado. Não é assim que os grandes líderes agem, refugando e retrocedendo com o rabo entre as pernas.

Se seguisse adiante, obrigaria o inimigo a prendê-lo e levá-lo a julgamento. Este seria, provavelmente, o fato político que obrigaria a ONU, a OEA e as potências regionais a saírem de sua letargia omissa.

Depois, quando sua presença na embaixada brasileira não provocou o levante popular com que ele sonhava, Zelaya teria de ousar qualquer coisa, não ficar hibernando lá até a posse do Porfirio Lobo.

Numa luta dessas, quem deixa a iniciativa ao inimigo, perde. Zelaya perdeu. Agora, só lhe resta juntar os cacos e preparar-se para as futuras batalhas.

Quem tem os pés no chão sabe que Lobo logo será aceito pelos organismos internacionais e pelas demais nações, o que dissipará de vez a crise política.

O próprio Zelaya, ao aceitar o salvo-conduto que Lobo lhe ofereceu e ao se dispor a "colaborar para a reconciliação nacional", colocou um ponto final na resistência contra o golpe.

Ele sim não deveria ter negociado com Lobo. Mas negociou, fechando o acordo que lhe propiciou o salvo-conduto. Então, por esse lado, nada mais há a se fazer.

Mas, houve mortos, feridos, torturados, intimidados, ameaçados e estupradas. E, estando Lobo empenhado em botar uma pedra em cima de tudo isso com a anistia geral, faz muito bem a Anistia Internacional ao manifestar posição contrária.

Pois, se tudo acabar em pizza, os próximos golpistas também matarão, ferirão, torturarão, intimidarão, ameaçarão e estuprarão, na certeza de que vão safar-se impunes.

Este é o xis da questão. Hoje, Zelaya está ajudando a consolidar o mandato de Lobo, enquanto quem tenta colocar uma pedra no sapato do novo presidente é a Anistia Internacional.

No fundo, a situação é bem parecida com a da nossa Lei de Anistia. Para os golpistas e para o beneficiário (Lobo) do serviço sujo que os golpistas executaram, convém passar uma borracha no passado.

Mas, em nome da justiça e em reconhecimento pelo sacrifício daqueles que lutaram contra o golpe, deve-se evitar tal desfecho. É o que a Anistia Internacional está tentando fazer.

Fico pasmo com a miopia política dos que não percebem o óbvio ululante: se vier a anistia nos moldes propostos pelo Lobo na cerimônia de posse, o golpe será 100% vitorioso.

O Carlos Lungarzo e eu, ao atuarmos politicamente como os adultos que somos, podemos até chocar as crianças que confundem seus desejos com a realidade.

Mas, estamos comprometidos apenas com nossas causas e nosso caráter. Não almejamos a popularidade fácil.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

REVOLUÇÃO x DIREITOS HUMANOS: CONVERGÊNCIA OU ANTAGONISMO?


Prezados amigos

A ingenuidade mostrada pelo Lungaretti no artigo abaixo chega a ser comovente...
Acreditar que os GOLPISTAS hondurenhos, civis e militares, sejam julgados pelos mesmos tribunais que afastou Zelaya da chefia do poder executivo sem qualquer acusação VERDADEIRA é ser muito, mas muito INGÊNUO.

Acreditar numa organização (Anistia Internacional) que defende a legalização das eleições FRAUDULENTAS de Honduras e que espera que o BENEFICIÁRIO dessa fraude julgue alguém, vai às raias do RIDÍCULO. Aliás, em comentário anterior mencionei qua a AI é patrocinada pelo que há de mais CANALHA no mundo ocidental: a NSA (National Security Agency, USA) e a AIPAC (lobby sionista nos EUA) além de outras organizações de interesses privados do mundo ocidental.

A simples postura de PEDIR algo a um governo(?) ilegítimo já mostra reconhecimento internacional de um GOLPE de estado e reconhecer como poder legítimo um OPORTUNISTA como Porfírio Lobo.

As assertivas acima tornam o artigo abaixo simplesmente RISÍVEL e, pior, digno de COMPAIXÃO por uma pessoa que sempre, ou quase sempre, se colocou ao lado dos desvalidos e despossuídos nesta nossa luta pela emancipação da Pátria Grande.

Abraços a todos e nosso pesar pelo Lungaretti ter caído na esparrela da AI.

Castor Filho

* * *

Castor,

espero que desta vez você conceda espaço para o contraditório, disponibilizando a seus leitores aquele "outro lado" que a grande imprensa aboliu.

Parece-me que um de nossos objetivos na internet é exatamente o de resgatar as boas práticas jornalísticas, ocupando o espaço que a mídia patronal deixou vago. Mas, não será com simplismo e sectarismo que vamos lograr tal objetivo.

A Anistia Internacional é exatamente o que eu disse que é, a principal ONG que atua mundialmente na defesa dos direitos humanos.

Quanto a patrocínios, vêm de quem se dispõe a oferecê-los; o importante é se eles implicam ou não contrapartidas incompatíveis com o escopo do patrocinado.

Decerto, há instituições para as quais ter seu nome associado à respeitadíssima AI significa um reforço tão significativo de imagem, que este é o único retorno que colhem do patrocínio.

Você alega que um lobby sionista nos EUA patrocina a AI. E daí? Eu não darei a mínima, enquanto a Anistia estiver produzindo relatórios e adotando posicionamentos tão críticos às práticas de Israel como o que recentemente noticiei (Anistia Internacional acusa: Israel monopoliza água potável em Gaza) e como estes outros:
Israel/consciências aprisionadas: jovens estão presos por se negarem a prestar o serviço militar

Israel/territórios palestinos ocupados: acesso imediato dos trabalhadores humanitários e observadores essenciais

Israel/territórios palestinos Ocupados: é preciso investigar imediatamente o bombardeio israelense a um prédio da ONU em Gaza

Israel/territórios palestinos ocupados: nova investigação traz esperanças às vítimas de crimes de guerra

Israel/territórios palestinos ocupados: é preciso proteger a população civil de Gaza e de Israel

É necessária uma voz européia mais firme para desbloquear a crise humanitária do Oriente Médio

Israel/territórios palestinos ocupados: Gaza – a investigação da ONU deve ser ampliada

Israel/territórios palestinos ocupados: fim dos ataques ilegais e atendimento das necessidades emergenciais de Gaza

O Conselho de Direitos Humanos da ONU deve ajudar a população civil encurralada no conflito de Gaza
Ou seja, relacionei dez diferentes textos emitidos pela AI, com críticas consistentes e incisivas às atrocidades/iniquidades israelenses.

Nada mais se pode esperar de uma organização humanitária, além de enviar seus observadores para o palco dos acontecimentos e depois pressionar os transgressores com seus relatos, argumentos e autoridade moral. E isto a Anistia faz, exemplarmente.

Você também dá a entender que a AI tenha o rabo preso com uma seguradora estadunidense. Como se explicam, então, os relatórios/posicionamentos abaixo? É só abrir e conferir:
EUA: mensagens contraditórias do presidente Barack Obama sobre as medidas antiterroristas em seus primeiros 100 dias de governo

EUA: a revisão das condições de Guantánamo não aborda importantes questões de direitos humanos

Israel/territórios palestinos ocupados: nova remessa de armas para Israel - o presidente Barack Obama deve deter estas exportações

EUA: os primeiros 100 dias do Presidente Obama em matéria de medidas contra o terror

EUA: os vídeos da CIA demonstram a necessidade de investigar a fundo a “guerra contra o terror”
Ou seja, em todos os episódios envolvendo Israel e EUA que estariam no foco de uma organização de defesa dos direitos humanos, a AI não se omitiu. Fez sempre o que se impunha.

Querer mais do que isto é que constitui ingenuidade. Temos de tirar de cada instituição a contribuição que ela pode dar à causa da liberdade e da justiça social. A da AI é valiosíssima, como nós mesmos pudemos constatar muito bem quando estávamos sendo massacrados pela ditadura militar.

De resto, devem ser consideradas as sábias ponderações do Carlos Lungarzo, militante da Anistia Internacional há três décadas:
"Durante a ditadura de Micheletti houve em Honduras numerosos ataques contra manifestantes pacíficos, estupros, aplicações de tortura, brutalidade policial e alguns homocídios, que não podem ser comparados com a violência defensiva (muito pouca, afinal) dos partidários de Zelaya, que só pensavam em se defender.
"O governo de Lobo, mesmo que seja desagradável para uma visão social humanitária da sociedade, é um fato real, e exigir-lhe que preste conta pelos crimes do governo que lhe facilitou o acesso ao poder é uma atitude de sensatez que visa a punição dos crimes de estado, a não repetição dos mesmos, e a reparação das vítimas. Certamente, muitas pessoas (entre as quais me incluo) preferiríamos pedir a Evo Morales ou Hugo Chaves que façam justiça em Honduras, mas isso é impossível.

"Então, acusar aos que exigem que Lobo não seja complaciente com os criminosos de estado, não significa estar reconhecendo sua legitimidade eleitoral, menos ainda desprezando a resistência: implica admitir que ele tem o poder oficial, e seu governo é o único que pode, neste momento, fazer essas apurações".
Por último, quero ressaltar que não caí em esparrela nenhuma nem vejo a causa dos desvalidos e dos depossuídos como incompatível com a defesa dos direitos humanos. Muito pelo contrário.

Já publiquei vários textos importantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU, da Human Rights Watch e da Anistia Internacional; e continuarei a fazê-lo, sempre que estiverem certos em seus posicionamentos (quase sempre estão!).

Quando meu blogue Náufrago da Utopia completou um ano, em agosto último, já disse tudo que tinha para dizer sobre esse tipo de críticas. Só me resta repetir:
"...enunciei que sua missão seria a defesa dos ideais revolucionários e dos direitos humanos, bem como o exercício do pensamento crítico; e que estas três bandeiras seriam defendidas simultaneamente e em pé de igualdade, jamais priorizando-se uma em detrimento da outra.

"Trocando em miúdos, os direitos humanos não são sacrificáveis às conveniências revolucionárias. Luto por uma revolução que os contemple a todo momento, não por uma que os negue no presente, na esperança de restabelecê-los num futuro que acaba nunca chegando.

"Do stalinismo e da esquerda autoritária estou fora há muito tempo e continuarei apartado pelo resto dos meus dias."
CELSO LUNGARETTI

* * *

Prezado Lungaretti

Em primeiro lugar não existe isso de "outro lado" entre pessoas que lutam por um propósito comum. Outra coisa, não pretendo resgatar quisquer "boas práticas jornalísticas", pois isso NUNCA existiu, não existe e jamais existirá.

O Objetivo Maior da rede castorphoto é DESTRUIR o jornalismo, os jornais e assemelhados, incluindo os JORNALISTAS tal como os conhecemos hoje. Esta é a razão do porquê da rede castorphoto (assim mesmo com letra minúscula) ser uma rede de informação e NÃO uma rede de discussão como tantas outras. E que cresce diariamente...

Nosso trabalho é simples:
- Juntamos montes de endereços (e-mails)
- Dividimos por áreas de interesse
- Dividimos novamente entre 70 colaboradores diretos e 283 colaboradores indiretos (cada um desses colaboradores tem sua própria lista pessoal de distribuição, a qual varia de 150 a 220 e-mails por colaborador).

Temos uma estimativa criada através de informações e práticas de controle que hoje, tão logo transmitimos um e-mail por um dos nossos 25 endereços, incluindo aí minha lista pessoal da qual você faz parte, cerca de 40.000 pessoas terão disponibilizados em suas CPs este e-mail em aproximadamente 60 minutos, em média.
- Tomamos o MÁXIMO cuidado em transmitir apenas mensagens que INTERESSAM aos objetivos POLÍTICOS da rede castorphoto. Quer dizer: NÓS TEMOS LADO e não compartilhamos os ideais pseudo-democráticos aos quais você eventualmente idealizou e/ou pretende ver realizado.

Penso que agora você terá entendido os OBJETIVOS e COMPROMISSOS da rede castorphoto.

Outro assunto: Anistia Internacional

Esta é uma organização semelhante aos Repórteres Sem Fronteiras ou Médicos Sem Fronteiras e a quase totalidade das ONGs de DHs. Isto é, uma organização PAGA, DIRIGIDA E COORDENADA por INTERESSES CONTRÁRIOS àqueles propostos pela rede castorphoto.

A AI, sem dúvida a maior ONG de DHs do mundo, pode produzir quantos relatórios quiser, contratar quantos cientistas puder, alinhar em seus quadros quantos HOMENS DE BOA VONTADE (como você e o Lungarzo, p. ex.) conseguir, mas ela terá sempre um INTERESSE MAIOR e inconfessável: a manutenção do "status quo" no mundo, seja na POLÍTICA internacional (com suas investidas pontuais e segmentadas nas políticas nacionais), seja na ECONOMIA mundial, seja na aplicação do TERRORISMO DE ESTADO. Tudo conforme os interesses de seus PATROCINADORES.

Um parêntese: em 1964 logo após o golpe de 1o. de abril, mês de maio, apareceu no Mackenzie (SP) uma comitiva da AI chefiada por um hindu que falava inglês de Oxford, para DEFENDER e REFERENDAR o golpe de estado aqui na terrinha. E mais, percorreu praticamente TODAS as universidades da cidade (USP, PUC, Sedes Sapientie e outras) num trabalho que pode ser classificado de catequese. Tudo patrocinado pela EMBAIXADA DOS EUA.

Você enviou uma quantidade de RELATÓRIOS, provavelmente caríssimos e realizados por homens mulheres seríssimos, mas que NINGUÉM, exceto uma minoria menos que mínima e que pouquíssimo ou nenhum IMPACTO causará na HUMANIDADE.

A razão é simples: A AI perderia todo o seu patrocínio se comprasse, p. ex., várias PRIMEIRAS PÁGINAS e TEMPO EM JORNAIS TELEVISIVOS pelo mundo para DIVULGAR esses mesmo maravilhosos relatórios que você me enviou. Sabe o porquê? Porque massificar esses relatórios na MÍDIA NÃO INTERESSA AOS DONOS DO MUNDO. Interessa apenas aos INGÊNUOS que acreditam nos belíssimos relatórios os quais, como diria minha avó, serão lidos por "meia dúzia de três ou quatro".

Fico imaginando um desses relatórios nas primeiras páginas do NYTimes, do WPost, do USA Today, do The Times da FSP, do O Globo. Ou como chamada de "capa" do CNN News, CBS News, do JN da Globo etc. etc.

Quer dizer: eles gastam uma graninha para pagar os competentes e sérios fazedores de relatórios maravilhosos e ECONOMIZAM na DIVULGAÇÃO desses mesmos relatórios. Seria e É muita ingenuidade ACREDITAR nessas ONGs de DHs...

Pode ser, é até mais provável, que existam alguns "colaboradores" interessados tão somente na GRANA angariada por essas ONGs do que nos DHs propriamente ditos. Afinal, é apenas uma maneira de ganhar a vida...

P'ra terminar: Honduras é apenas um "prato" entre muitos para o apetite dessas ONGs de araque. Produzir o ÓBVIO é fácil. Nós, da rede castorphoto, distribuímos DIARIAMENTE para INÚMEROS países da AL, Brasil inclusive, os "sites" de Honduras com relatos do povo partícipe da luta contra a Golpe de lá. P'ra que AI ou outra ONG qualquer fazer um "relatório" sobre o que lá ocorre se temos o próprio testemunho do povo local? É o mesmo que acreditar que existe um governo Lobo em Honduras... Pedir algo a um governo que não existe é referendar sua existência. Cadê a seriedade disso?

Seria outro RELATÓRIO GOLDSTONE? Aquele que serviu para Israel, os EUA e toda a direitona "morrerem de rir" do sofrimento do povo palestino...

Caro Lungaretti, sabemos o quanto você penou durante a vigência do golpe militar em nosso país, mas isso não lhe dá "carta de alforria" para servir de "bucha de canhão" para a "maior ONG de DHs no Mundo" totalmente vinculada e obediente aos interesses dos EUA.

E nem mencionei o FATO da expulsão da AI da Venezuela por MENTIR vergonhosamente no "relatório" sobre DHs naquele país...

Abraço

Castor

* * *

Castor,

desde que os movimentos revolucionários surgiram, sempre houve vários lados. A diferença é que com os companheiros de outras tendências discutimos, enquanto aos inimigos combatemos.

P. ex., no nosso caso são evidentes as divergências estratégicas (entre um libertário e um autoritário) e táticas (entre quem pretende desenvolver um jornalismo realmente informativo/formativo/opinativo, na suposição de que a verdade seja sempre revolucionária, e quem pretende apenas fazer panfletarismo de esquerda).

Sua visão sobre direitos humanos é exatamente a dos que os sacrificam em nome de valores que acreditam ser maiores. Como Stalin.

E sua miopia em relação ao Relatório Goldstone e à Anistia Internacional é simplesmente estarrecedora. Com tais preconceitos, a esquerda jamais voltará a disputar o poder nas nações centrais -- aquelas que, por terem as forças produtivas mais desenvolvidas, acabam traçando o caminho que as demais seguirão, segundo Marx.

Ou seja, seus conceitos nos condenam a permanecermos como a vanguarda dos países atrasados. Os meus tentam tornar a esquerda de novo influente nas nações que determinam o futuro da humanidade.

Já o fomos. Poderemos sê-lo novamente. Mas, não com arbitrariedades e truculência, pois os cidadãos civilizados hoje são ciosos de sua liberdade. Não a trocam por caudilhos e homens providenciais.

E, se a sua rede não admite a discussão, viola um valor sagrado para a esquerda resultante da negação do stalinismo, à qual sempre pertenci.

Então, é hora de separarmos nossos trabalhos.

E, como a transparência é, para mim, um valor fundamental, publicarei em meus espaços os quatro textos desta polêmica que você sonegou do seu público. Eu não a sonegarei do meu.

CELSO LUNGARETTI

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ANISTIA INTERNACIONAL EXORTA LOBO A PUNIR BESTAS-FERAS DE MICHELETTI

Graves violações de direitos humanos foram cometidas pelo governo golpista de Roberto Micheletti, com os agentes de segurança hondurenhos fazendo "uso excessivo da força" ao reprimirem protestos contra a deposição do presidente constitucional Manuel Zelaya.
A conclusão é da Anistia Internacional, a mais respeitada ONG dedicada à defesa dos direitos humanos em todo o planeta, cujos representantes, depois de ouvirem "dezenas de testemunhas", saíram de Honduras convencidos de que ocorreram execuções ilegais, torturas, estupros e prisões arbitrárias no período subsequente ao 28 de junho em que Zelaya foi arbitrariamente expulso do país:
“Centenas de pessoas que se opunham ao golpe de Estado foram agredidas e detidas pelas forças de segurança durante os protestos nos meses seguintes. Mais de dez teriam sido mortas durante os conflitos, de acordo com relatos”.
No relatório que acaba de divulgar, a AI garante, ainda, que ativistas de direitos humanos, líderes oposicionistas e juízes sofreram ameaças e intimidações; e que meninas e mulheres foram abusadas sexualmente.

Kerrie Howard, vice-diretora da AI para as Américas, exige providências do presidente eleito de Honduras, Porfírio Lobo, que tomará posse nesta 4ª feira (27):
"O presidente Lobo deve garantir um novo começo para os Direitos Humanos em Honduras ao garantir que os abusos cometidos desde o golpe de Estado não sejam esquecidos nem fiquem impunes".
Lobo, entretanto, já anunciou que pretende fazer aprovar uma anistia ampla, beneficiando tanto Zelaya e seus partidários quanto os golpistas de Micheletti.

Algo assim como a Lei de Anistia brasileira, que igualou as atrocidades cometidas pela repressão política aos atos praticados por civis que resistiam ao despotismo.

Há, claro, diferenças entre ambos os golpes:
  • os militares brasileiros viraram a mesa sem terem o aval de nenhum Poder, enquanto em Honduras o Legislativo e o Judiciário respaldaram o afastamento de Zelaya;
  • mas, Manuel Zelaya foi privado do seu direito constitucional de defender o mandato que conquistou nas urnas, pois o expulsaram ilegalmente de Honduras, ao invés de julgarem-no pela tentativa promover um plebiscito talvez ilegal;
  • então, o governo de Micheletti acabou sendo tão ilegítimo quanto o dos generais ditadores do Brasil, e os atos de que a AI o acusa devem ser chamados pelo que foram, terrorismo de estado para preservar uma tirania;
  • e, como o afastamento de Zelaya não cumpriu os rituais democráticos, ele e seus partidários não são, até agora, culpados de delito nenhum, apenas acusados;
  • então, não tem o mínimo cabimento colocar no mesmo plano tais acusações e os assassinatos, torturas, estupros e intimidações perpetrados pelo governo ilegal de Micheletti.
Aqui também cabe um paralelo, com a tese ridícula e juridicamente indefensável difundida por Ives Gandra Martins e pelas viúvas da ditadura brasileira: a de que supostas intenções totalitárias das forças de esquerda justificariam a derrubada de um presidente legítimo e a imposição do totalitarismo no Brasil por parte dos golpistas de 1964.

Concluindo: está certíssima a AI quando exorta Lobo a levar aos tribunais as bestas-feras de Honduras.

E Zelaya jamais deve aceitar uma anistia que o coloque no mesmo plano dessas bestas-feras.

Se for este o preço para viver livremente e retomar a carreira política em seu país, a única opção digna para ele é mesmo o exílio.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O RESCALDO DO GOLPE HONDURENHO

O roteiro era de bangue-bangue, mas o filme virou uma comédia de erros...

Termina de forma melancólica o golpe hondurenho.

O presidente legítimo Manuel Zelaya foi afastado do poder de forma discutível e sofreu uma deportação forçada que se constituiu em indiscutível arbitrariedade.

O Congresso Nacional e a Suprema Corte alegaram que Zelaya insistiu em realizar um plebiscito ilegal.

No entanto, o procedimento adotado pelos comandantes militares, ao expulsá-lo do país, privou-o do direito de defender o mandato conquistado nas urnas.

O único desfecho realmente democrático seria sua volta a Honduras, como presidente provisoriamente impedido enquanto respondesse às acusações.

Se inocentado, terminaria normalmente seu período de governo (com uma prorrogação para compensar o período em que esteve privado do poder); se condenado, seria destituído como manda o figurino e não de acordo com a lei do mais forte.

Esta seria a saída correta para o imbroglio... mas, claro não é a sensatez que rege o mundo.

O certo é que a OEA e a ONU fracassaram miseravelmente em seu papel. Cabia-lhes, acima de tudo, impedir que o golpe de estado saísse vitorioso, abrindo um péssimo precedente neste século 21. Agora, em circunstâncias semelhantes, qualquer governo ilegítimo poderá reivindicar a mesma condescendência por parte das organizações internacionais.

O péssimo desfecho foi facilitado pela falta de grandeza histórica (e, por que não dizer, de coragem pessoal) de Zelaya.

Presidente de verdade não se deixa embarcar para o exterior em pijamas, passivamente. É inimaginável que um Getúlio Vargas ou um Salvador Allende aceitassem tal humilhação.

Depois, quando liderou uma carreata até o território hondurenho, jamais deveria ter refugado: estava em seu país e, seguindo adiante, obrigaria os inimigos a prendê-lo e julgá-lo, o que não lhes convinha.

O caso ganharia tal dramaticidade que a OEA, a ONU e os poderosos regionais não poderiam continuar apenas emitindo declarações platônicas. Teriam de fazer qualquer coisa.

É claro que Zelaya correria risco de cumprir uma condenação e até de sofrer um atentado. Mas, quem assume grandes responsabilidades deve se mostrar à altura delas, em quaisquer circunstâncias.

Ficou claro que ele esperava ser recebido pelo povo em triunfo, não lhe ocorrendo que soldados armados inibem civis desarmados. Quando o cenário idealizado ruiu por terra, faltava-lhe um plano B.

Mesmo assim, repetiu a mesmíssima aposta ao enfiar-se na embaixada brasileira. Sua presença na fronteira não foi suficiente para provocar um levante popular? Então, a presença na capital o seria...

Não houve o levante, nem os inimigos foram tão tolos a ponto de fornecer motivo para uma intervenção estrangeira. Incomodaram-no um pouco, mas o deixaram ficar mofando na embaixada.

De quebra, abriram negociações apenas para ganhar tempo, apostando em que a realização das novas eleições disporia o quadro político em seu favor.

No começo de outubro, eu advertia:
"Se estivesse no lugar de Zelaya, eu fincaria pé no direito de participar da campanha eleitoral livremente, nas ruas e nas praças (...). Pois é exatamente isto que os golpistas mais estão tentando evitar.

"A restituição do poder poderá até ficar para depois, caso não haja maneira nenhuma de impô-la aos golpistas.

"Mas, mantido à parte da disputa eleitoral, já fora do foco principal do noticiário (...), Zelaya virará carta fora do baralho."
Dito e feito: foi mesmo um grave erro ele priorizar a restituição, ao invés das eleições. Enquanto mirava o passado, ia-se desenhando um futuro diferente para Honduras.

E a permanência na embaixada brasileira, ao invés de impulsionar sua luta, acabou tendo efeito contrário: virou uma hibernação.

Tão logo se confirmou a vitória de Porfirio Lobo, passou a ser ele o verdadeiro presidente. Zelaya se tornou apenas uma aresta a aparar.

Espertamente, o Ministério Público acusou os comandantes militares pela expulsão de Zelaya e a Suprema Corte abriu processo. Deverá dar em nada, ou quase nada, mas serve para salvar as aparências.

Lobo será empossado na próxima 5ª feira (28) e fez muitos acenos amistosos para Zelaya, inclusive oferecendo-lhe uma vaga num conselho assessor que pretende criar, reunindo os antigos presidentes.

Foi mais um gesto para inglês ver, já que Lobo convidou também o rival Roberto Micheletti. Integrar um colegiado desses ao lado do ex-presidente golpista seria a humilhação suprema para Zelaya.

Este preferiu aceitar outra oferta de Lobo: um salvo-conduto para deixar Honduras, rumo à República Dominicana, onde será recebido como hóspede de honra (e não asilado).

"Este acordo me permite manter minha dignidade, e a posição que me foi confiada pelo povo", afirmou, manifestando sua disposição de contribuir com Lobo para a "reconciliação nacional".

Este exílio voluntário, entretanto, só fará sentido até a poeira baixar. O objetivo de médio prazo de Zelaya deve (ou deveria) ser o de se posicionar como um dos líderes da oposição a Lobo, na esperança de voltar ao poder como seu sucessor.

Já está mostrando bom senso, ao desistir de consertar situações pretéritas. Por aí não chegaria em lugar nenhum.

Fez os movimentos errados, adotando uma postura excessivamente cautelosa quando só o destemor o conduziria à vitória; e acabou inapelavelmente derrotado.

Agora, só lhe resta juntar os cacos e tratar de ter melhor desempenho na próxima partida.

Obs.: artigo atualizado em 22/01, quando Zelaya decidiu aceitar o salvo-conduto de Lobo.

sábado, 31 de outubro de 2009

SOLUÇÃO SALOMÔNICA PARA A CRISE HONDURENHA

Foi uma solução salomônica, a que os EUA concertaram em Honduras.

Caberá ao Congresso decidir se o poder vai ou não ser restituído ao presidente legítimo Manuel Zelaya. É o que Zelaya propunha.

A Suprema Corte, na qual o presidente golpista Roberto Micheletti depositava suas esperanças, será consultada e vai emitir um parecer, que poderá ou não ser seguido pelo Congresso.

O mais tardar na 5ª feira, será empossado um governo de unidade e de reconciliação nacional, com representantes das duas partes.

Esse governo, ou reempossará Zelaya, ou empossará quem vencer as eleições, dependendo da decisão dos congressistas.

Se o Congresso optar pela volta de Zelaya ao governo, o que lhe restará de poder real?

As eleições se realizarão, como programado, no próximo dia 29. Ou seja, daqui a quatro semanas.

Tão logo se anuncie o vencedor, será ele o presidente de fato, embora tenha de esperar até 27 de janeiro para sê-lo de direito.

Elegendo-se um candidato apoiado por Zelaya, este sairá fortalecido e vai continuar exercendo forte influência no destino de Honduras.

Caso contrário, o golpe terá logrado o seu objetivo: evitar a continuidade das políticas de Zelaya.

A este, restaria o provável papel de líder da oposição.

De resto, o acordo prevê a futura instalação de uma Comissão da Verdade, para apurar os fatos relativos à deposição de Zelaya. O previsível é que venha a dividir as culpas também salomonicamente.

Não foi, nem de longe, o desfecho ideal. À primeira vista, parece que Zelaya perde mais do que Micheletti (começando pelos quatro meses de governo que já lhe foram surrupiados, desde o golpe de 28 de junho).

Mas, a política é uma caixinha de surpresas. Se reassumir a presidência antes das eleições, Zelaya poderá se apresentar ao povo como o grande vencedor do braço-de-ferro com os golpistas e, surfando nessa maré de popularidade, fazer o seu sucessor.

Quanto aos golpistas, aprenderam uma lição que poderiam ter lido em Napoleão: baionetas não servem como assento. Tinham a força das armas, mas a rejeição mundial, em última análise, os obrigou a ceder.

Quanto a Lula, também saiu metade vencedor e metade perdedor -- como todos os outros.

Acolhendo Zelaya na embaixada, foi o país com atuação mais decisiva para frustrar os planos dos golpistas, de levarem a situação em banho-maria até as eleições.

Mas, não teve força política suficiente para ser ele a impor uma solução a Micheletti.

Fez um lance ousado, aparentemente superestimando o efeito que a presença física de Zelaya teria sobre a mobilização popular.

Quando esta se mostrou insuficiente para abalar os golpistas, recuou para uma posição de imobilismo, deixando o palco livre para os Estados Unidos brilharem.

Foram estes, infelizmente, os únicos vencedores totais. Os EUA deixaram o impasse prolongar-se quanto quiseram e deram um basta no momento em que decidiram.

Obama mostrou que seus elogios são como confetes: alegram a festa, mas acabam varridos no dia seguinte.

Pois fez questão de mostrar que é ele o cara a quem cabe a palavra final nas Américas.

Poderia ter manobrado para os louros ficarem com Lula. Não o quis.

Espero que os sábios do Itamaraty façam a avaliação correta e a transmitam a Lula: nada devemos esperar de Obama além do que esperávamos de Bush.

Teremos o espaço e a influência que conquistarmos. Não nos serão repassados de mão beijada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

MISSÃO DA OEA ENTRA RUGINDO E SAI MIANDO DE HONDURAS

Chanceleres e diplomatas da Organização dos Estados Americanos, enviados especiais da imprensa mundial a Honduras e até eu caímos na manobra do governo golpista, que habilmente fez circular rumores de que estaria disposto a algumas concessões para viabilizar um acordo que pussesse fim à crise institucional no país.

Não foi o que aconteceu. A rigor nem houve negociações, só intransigência dos golpistas e suas recriminações ao que consideram um isolamento internacional injusto imposto a Honduras.

De quebra, ao serem admitidos pela OEA na mesa de negociações sobre o destino de Honduras, os golpistas obtiveram uma espécie (bastarda) de legitimação. Ou seja, mesmo desprezando-os, as nações vizinhas reconheceram que a solução da crise é impossível seu a sua anuência. Em termos de imagem, fortaleceram sua posição.

Algum dia saberemos se a intenção de Micheletti et caterva era apenas a de enrolarem, ademais ganhando tempo, ou trabalhavam com a hipótese de eventualmente aceitarem a restituição condicional do poder a Zelaya

A imprensa especula que esse plano B teria existido, mas, ao perceberem que não seria mais necessário, os golpistas o haveriam descartado. Vide, p. ex., o que disse a enviada especial da Folha de S. Paulo a Tegucigalpa:
"Desde o início da semana, o governo Micheletti vinha dando sinais de que poderia aceitar o retorno do presidente deposto, mas impunha como condições a Zelaya um gabinete pré-negociado e poder limitado.

"O discurso inflexível mostrado à OEA, porém, seria uma demonstração de força do grupo de conselheiros de Micheletti que defendiam a radicalização das relações. Dois assessores ouvidos pela Folha sustentam que era preciso 'demonstrar que Honduras não é uma república de bananas', que se curva à vontade internacional.

"A visita de congressistas americanos conservadores, que incentivaram o governo interino a resistir às pressões pela volta de Zelaya, reforçou a impressão de que o golpe começava a ser entendido - e que poderia ser aceito internacionalmente como um movimento para conter o crescimento da influência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

"Um terceiro fator a fortalecer Micheletti foi a bem-sucedida estratégia para enfraquecer a resistência. O fechamento de meios de comunicação pró-Zelaya ajudou a diluir o apoio popular ao presidente deposto."
As maiores vulnerabilidades de Zelaya são os fatos de que a resistência popular não conseguiu derrotar o governo golpista; e o de que a proximidade das eleições dá aos acomodados e oportunistas a justificativa perfeita para não adotarem medidas realmente eficazes (ou seja, enérgicas, já que as brandas não surtiram efeito).

Foi de um ridículo atroz a missão da OEA entrar rugindo em Honduras, com a promessa de resolver definitivamente a questão, e depois sair miando que a solução deverá advir de "um diálogo exclusivamente hondurenho". Admissão mais explícita de fracasso e irrelevância, impossível!

"E o pior é que o golpismo poderá ter feito seu reingresso furtivo na cena política latino-americana, por conta da inépcia de quem poderia/deveria mantê-lo onde merecidamente estava: na lata de lixo da História" - foi o que afirmei duas semanas atrás, no artigo O Brasil num mato sem cachorro. Infelizmente, o desenrolar dos acontecimentos está confirmando meu melancólico prognóstico.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PROPOSTA DOS GOLPISTAS EQUIVALE A SUICÍDIO POLÍTICO DE ZELAYA

Segundo os enviados especiais a Honduras, a proposta que o governo golpista de Honduras levará hoje à reunião com os chanceleres da Organização dos Estados Americanos é, basicamente, a seguinte:

1) Manuel Zelaya permaneceria na embaixada brasileira até dezembro;

2) as eleições seriam realizadas sob supervisão internacional;

3) três dias depois, já com seu sucessor definido, Zelaya sairia da embaixada para reassumir o poder;

4) haveria uma anistia para ambos os lados.

Se o acordo acabar indo nesta direção, só o mal maior será evitado: a perpetuação da ditadura, que, assim, terá durado apenas alguns meses.

O golpe conseguiria lograr um de seus principais objetivos, impedir que Zelaya exerça influência marcante no processo eleitoral.

Sob a alegação de que Zelaya pretendia distorcer as eleições com sua consulta popular, os golpistas distorceriam as eleições ao manter o presidente constitucional de castigo até que as urnas se fechassem.

Pois, se as leis hondurenhas vedam a reeleição, também não estabelecem o afastamento do presidente durante o processo eleitoral.

Numa avaliação realista, Zelaya não pode exigir muito porque a resistência popular foi insuficiente para impor o respeito ao seu mandato.

Tentou levantar o povo uma vez, com sua carreata até a fronteira hondurenha, mas teve de retroceder diante do dispositivo militar golpista.

Tentou levantar o povo uma segunda vez, ao colocar-se sob a proteção da embaixada brasileira, mas a esperada deposição dos golpistas não aconteceu.

Quanto à OEA, produzirá o que dela se pode esperar: uma decisão nem lá nem cá. Panos quentes.

Se estivesse no lugar de Zelaya, eu fincaria pé no direito de participar da campanha eleitoral livremente, nas ruas e nas praças (que, já dizia Castro Alves, são o reduto do povo, como o céu é do condor). Pois é exatamente isto que os golpistas mais estão tentando evitar.

A restituição do poder poderá até ficar para depois, caso não haja maneira nenhuma de impô-la aos golpistas.

Mas, mantido à parte da disputa eleitoral, já fora do foco principal do noticiário (por haver tido sua situação definida pelo acordo), Zelaya virará carta fora do baralho. O que lhe tentam impor é, praticamente, um suicídio político.

E, como os golpistas pretextam ter agido em defesa da democracia, uma exigência dessas calaria sua boca. O que há de mais democrático do que se deixar para as urnas o veredicto de Zelaya? Pela votação daquele por quem o presidente legítimo fizer campanha, será possível aferir-se, de uma vez por todas, se tem ou não o apoio da cidadania.

Complementarmente, Zelaya deveria negociar a restituição imediata de seu mandato constitucional, seguida de um pedido de licença.

Ou seja, ficar com a imagem de um presidente licenciado por decisão própria, não de um presidente punitivamente afastado até dezembro. Em política, tais detalhes, aparentemente retóricos, jamais devem ser negligenciados.

Aguardemos os próximos e emocionantes capítulos.

domingo, 27 de setembro de 2009

ALIADO "MUY AMIGO"

Independentemente da avaliação que cada um de nós faça do presidente venezuelano Hugo Chávez e do seu projeto bolivariano, cabe uma pergunta: por que cria tantos constrangimentos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

Primeiro, foi a admissão de que esteve intensamente envolvido no planejamento e execução da nova tentativa que o presidente deposto Manuel Zelaya está fazendo para recuperar o poder em Honduras.

É tudo de que Lula não precisava neste instante, pois se tratou de um trunfo dado de mão beijada para seus inimigos. O sempre conservador jornal O Estadão de S. Paulo logo aproveitou a bola levantada por Chávez para marcar um ponto, no editorial de sábado :
"Boquirroto, como sempre, o caudilho Hugo Chávez já contou como aconselhou e auxiliou o presidente deposto Manuel Zelaya a voltar a Honduras e a buscar abrigo na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Forneceu os meios para a viagem e participou pessoalmente de uma operação de despistamento, para levar o governo de facto de Honduras a crer que o presidente deposto estava indo para Nova York, quando seu destino era seu próprio país. O que ainda não está claro é se Hugo Chávez deu conhecimento de seu plano ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Itamaraty ou se decidiu colocar o Brasil numa situação delicada - numa verdadeira armadilha - sem avisar ninguém, dando por bem que pode manobrar à vontade o seu aliado brasileiro".
Tanto para a imagem de Lula quanto para a de Zelaya, teria sido muito melhor que a mão de Chávez não transparecesse. Ficou parecendo que ambos foram manobrados pelo presidente venezuelano.

Este, aliás, parece muito orgulhoso do imbroglio que armou. Não deveria.

Como comentei, a chance de Zelaya recuperar o poder, frustrando a intenção dos golpistas de manterem-no afastado até elegerem e empossarem um novo presidente, seria de que sua presença no solo pátrio fizesse o povo derrubar o governo golpista e/ou os organismos internacionais (ONU e OEA) passarem das palavras aos atos. Nenhuma dessas possibilidades vingou.

Então, como comentei no meu artigo de ontem, o Brasil ficou num mato sem cachorro.

De um lado, por mais que negue, será sempre visto como apoiador da tentativa de Zelaya. Se esta fracassar, o fracasso respingará em Lula.

De outro, o governo ilegítimo de Honduras captou o recado do Conselho de Segurança da ONU (de que continuará de braços cruzados se a representação diplomática brasileira não for invadida) e decidiu dar mais dez dias ao Brasil para definir o status de Zelaya na embaixada.

Ou seja, descartou uma invasão e fica trombeteando que sua paciência no episódio tem sido "infinita".

Tira, assim, o único argumento que tornaria mais palatável uma incursão militar brasileira para resolver as coisas como as grandes nações costumam fazer, impondo sua vontade às pequenas (para não irmos muito longe, foi o procedimento adotado por George Bush no Afeganistão e no Iraque).

Lula pode, mesmo assim, ordenar uma tal incursão? Pode. Pelo visto, a ONU e a OEA não iriam além das resoluções platônicas de protesto. Obama, idem.

Mas, claro, o ônus político seria altíssimo -- exatamente o de ser comparado a presidentes intervencionistas e arrogantes como Bush. Lula ousará ir tão longe? Duvido.

Então, salvo uma reviravolta nos acontecimentos, inexistirão reais motivos para Chávez orgulhar-se do seu feito.

Caso termine sem vitória, o episódio só terá servido para desgastar Lula e queimar a última chance de Zelaya retornar ao poder, evitando o péssimo precedente de uma reincidência golpista na América Latina em pleno século XXI.

Coraçãozinho x ingerência - Chávez também falou o que não deveria em seu discurso na abertura da 2ª Cúpula América do Sul-África, que se realiza na Venezuela: "Dilma será a próxima presidente do Brasil".

Depois, justificou-se aos jornalistas:
"Sei que vão me acusar de ingerência, meu coraçãozinho é quem está falando. Minha candidata é a Dilma".
Ou seja, agora a direita não precisará mais utilizar fichas policiais falsas em suas campanhas de difamação de Dilma Rousseff. Vai acusá-la de candidata do Chávez, batendo na tecla nacionalista. Será um ótimo mote para a propaganda enganosa e pregações golpistas nos quartéis.

Como Lula gosta muito de lembrar as pérolas da sabedoria popular, deveria ensinar uma ao aliado muy amigo: "em boca fechada não entra mosca".

sábado, 26 de setembro de 2009

O BRASIL NUM MATO SEM CACHORRO

A rede da legalidade de Leonel Brizola foi fundamental para frustrar golpe semelhante ao hondurenho

Manuel Zelaya foi deposto por um golpe desfechado pelas Forças Armadas hondurenhas, com apoio da Corte Suprema e da maioria do Congresso.

A nenhum comentarista parece ter ocorrido que o paralelo histórico mais apropriado é a tentativa de usurpação do poder do vice-presidente João Goulart em agosto/1961.

Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os ministros militares e as forças reacionárias no Congresso Nacional pretenderam suprimir o direito do primeiro na linha sucessória, Goulart. Preferiam que o poder ficasse com o segundo substituto legal: o presidente da Câmara dos Deputados, Pascoal Ranieri Mazzilli.

A virada de mesa foi frustrada pela decidida reação do governador gaúcho Leonel Brizola, que entrincheirou-se no Palácio Piratini e passou a exortar o povo à resistência através da rádio (a chamada rede da legalidade); pela rejeição de sargentos e cabos das Forças Armadas ao golpe a que havia aderido a maioria dos oficiais; e pela tomada de posição ao lado da democracia do III Exército, baseado no RS, criando a ameaça de uma guerra civil.

Golpes brancos como esses dois são mais difíceis de combater do que os nitidamente totalitários, como a quartelada brasileira de 1964 e o pinochetazzo de 1973.

Quando um Castello Branco ou Pinochet assume o poder, há a certeza de que o país será submetido ao arbítrio por tempo indeterminado.

Quando quem assume é um Mazzili ou Micheletti, prometendo entregar a presidência a quem sair vitorioso num próximo pleito, há tendência à acomodação: por que mover céus e terras se a democracia foi apenas arranhada, mas não extinta?

Os golpistas brasileiros de 1961 sucumbiram à reação interna. É provável que, dependendo apenas da OEA e da ONU, ficasse tudo como estava, com Mazzili completando o mandato de Jânio Quadros.

Em Honduras a reação interna foi insuficiente para reconduzir Zelaya ao poder.

E os organismos internacionais emitiram as resoluções condenatórias de praxe, mas ficaram nisso. Seu repúdio ao golpe não implica a tomada de medidas realmente eficazes para frustrar o real objetivo das forças conservadoras: o afastamento do presidente legítimo durante o processo eleitoral.

Ao regressar clandestinamente a Honduras e colocar-se sob a proteção da embaixada brasileira, Zelaya apostou que sua presença na pátria desencadearia a sonhada reação popular, ou os organismos internacionais criariam vergonha na cara, ou ambos.

Negativo. Povo desarmado pouco pode fazer contra as Forças Armadas. E a recém-finda reunião do Conselho de Segurança da ONU deu um claro recado aos golpistas hondurenhos: se vocês não invadirem a embaixada brasileira, nada de mais grave lhes acontecerá.

Assim, o Brasil ficou num mato sem cachorro.

É o chamado óbvio ululante que conhecia as intenções de Zelaya e compartilhou sua aposta. Só ingênuos engolirão os protestos de inocência angelical.

Ao conceder-lhe abrigo por tempo indeterminado, sem obedecer as regras do asilo político nem impor limites à sua atuação dentro da embaixada, colocou-se numa situação vulnerável. Formalmente, o governo ilegítimo não deixa de ter alguma razão ao pedir que o Brasil explicite qual o status de Zelaya. As regras do jogo diplomático são essas.

A resposta de Lula foi um irritado "vocês são golpistas e não têm direito de me cobrar nada". Rugiu como leão.

Mas, se os golpistas não cometerem a asneira de invadir a embaixada, legitimando uma intervenção militar contra eles, o impasse permanecerá.

E o Brasil terá de decidir entre conformar-se com um desfecho pífio ou agir como os grandes países sempre agiram: impondo sua vontade aos países menores.

Ou seja, a escolha será entre sair como banana ou sair como imperialista. Dar um rugido mais forte ainda ou miar.

E o pior é que o golpismo poderá ter feito seu reingresso furtivo na cena política latino-americana, por conta da inépcia de quem poderia/deveria mantê-lo onde merecidamente estava: na lata de lixo da História.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O GAMBITO DE ZELAYA

Em final de mandato, o presidente Manuel Zelaya insistiu em realizar um plebiscito polêmico, visando à convocação de uma Assembléia Constituinte.

No entender dos adversários, a Constituinte daria respaldo legal para sua reeleição, vedada pelas leis vigentes.

Ele nega, dizendo que as novas regras valeriam para eleições posteriores, não para a próxima.

Deposto por golpistas militares, que tiveram apoios na Corte Suprema e no Congresso, Zelaya foi deportado para a Costa Rica no último dia 28 de junho.

Numa leitura imparcial deste episódio, fica evidente que lhe foi usurpado o direito de defesa. Poderia ser preso e submetido a julgamento, quando teria a oportunidade de lutar por seu mandato. Mas não, simplesmente, ser expulso do país.

Então, tendo sido desalojado da presidência de forma ilegal, impunha-se que o poder lhe fosse incondicionalmente restituído.

Foi o que decidiram a ONU e a OEA, sem a tomada de medidas realmente eficazes para fazerem valer suas resoluções.

Tentou voltar à presidência nos braços do povo em 24 de julho, mas a caravana que conduziu desde Manágua acabou dando meia volta após ingressar em território hondurenho e nele permanecer por uma hora. Não houve mobilização popular capaz de furar o bloqueio dos golpistas.

Convencido de que carece de apoio interno suficiente para reverter a situação, Zelaya passou a apostar suas fichas na pressão de outros países e dos organismos internacionais.

Com o retorno clandestino a Honduras e o pedido de abrigo na embaixada brasileira, está logrando um objetivo: forçar o país mais influente da América Latina (e, por tabela, a ONU e a OEA) a se mexer.

Há dois precedentes perigosos envolvidos.

De um lado, a derrubada de presidentes pela via golpista não pode ser consentida no século XXI. Essas práticas características de repúblicas das bananas têm de permanecer onde estão: na lata de lixo da História.

De outro, não se pode admitir que seja atingida a inviolabilidade das embaixadas. Seria desastroso se perseguidos políticos não contassem mais com esse refúgio extremo para evitarem prisões, torturas e execuções.

No entanto, embaixadas também não podem funcionar como sede de governos alternativos. Ao colocar-se sob a proteção do Brasil, junto com um batalhão de jornalistas, Zelaya criou um sério constrangimento para seus hospedeiros.

Se a moda pegar, mais dia, menos dia, uma embaixada acabará sendo invadida. Não neste caso, pois Honduras não ousará provocar uma intervenção militar brasileira. Mas, quando a correlação de forças entre os dois países for menos desigual.

O desfecho ideal seria a transferência de Zelaya para o Brasil, seguida da adoção de providências mais enérgicas pela ONU e OEA para obrigarem o governo ilegítimo de Honduras a cumprir suas resoluções.

Mas, a sensatez e o equilíbrio sempre andaram distantes desta crise.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ANISTIA INTERNACIONAL DENUNCIA AGRESSÕES E MORTES EM HONDURAS

A Anistia Internacional acaba de divulgar relatório com as conclusões de uma delegação que enviou a Honduras três semanas atrás (acessar aqui).

Os representantes da AI entrevistaram muitas das 75 pessoas detidas na Chefatura Metropolitana nº 3 de Tegucigalpa depois que a polícia, com apoio do Exército, dissolveu uma manifestação pacífica no dia 30 de julho.

A maioria dos detidos exibia lesões resultantes dos golpes que a Polícia lhes aplicou com porretes, bem como das pedras e outros objetos que foram atirados contra eles.

A ONG manifestou sua preocupação com a violência e intimidação de que são alvo os defensores dos direitos humanos, o cerceamento da liberdade de expressão (incluindo o fechamento de veículos de imprensa e o confisco de equipamentos) e as agressões físicas a jornalistas e operadores de câmaras.

Segundo o relatório, desde o golpe de estado que depôs o presidente Manuel Zelaya no dia 28 de junho "têm havido distúrbios generalizados no país, com frequentes enfrentamentos entre a polícia, o Exército e manifestantes civis".

A AI informa que "pelo menos duas pessoas foram mortas por disparos durante os protestos". Já para outras organizações de direitos humanos atuantes em Honduras, o número de vítimas é, no mínimo, de quatro.

Quanto às perspectivas de recondução de Zelaya ao poder, continuam esbarrando na pouca vontade que os membros da OEA mostram de intervir para fazerem cumprir sua resolução pomposa.

Como ervas daninhas que são, os golpes de estado têm de ser erradicados imediatamente, caso contrário fortalecem-se e vão consolidando a nova ordem.

Infelizmente, ficou confirmado o acerto de minha avaliação quando Zelaya armou uma caravana para a retomada do poder, chegou até a transpor a fronteira hondurenha, mas refugou e bateu em retirada.

Opinei que ele deveria ter seguido em frente. Aí, ou derrotaria os golpistas ou seria preso por eles, caso em que a OEA não poderia mais ficar de braços cruzados. Noblesse oblige, teria de tomar uma atitude mais firme.

Evidentemente, Zelaya correria o risco de que o matassem. Mas, quem disse que defensores das causas populares estão isentos de perigos? Os que assumem grandes responsabilidades têm de estar preparado para grandes sacrifícios. Vargas e Allende que o digam.

O certo é que um eventual sucesso dos golpistas abrirá um péssimo precedente, ressuscitando uma prática que parecia ter sido varrida da América Latina com o fim da guerra fria.

Talvez os dirigentes das nações mais influentes, começando por Lula e pela Kirchner, ainda venham a arrepender-se amargamente da tibieza demonstrada neste episódio.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

CRISE HONDURENHA: LULA PEDE MEDIDAS DURAS, MAS NÃO PROMETE AÇÃO

"É preciso sermos muito duros, muito estritos, não podemos admitir sob nenhum conceito que alguém se ache no direito de poder derrubar um governo legitimamente eleito pelo povo", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a crise hondurenha, em entrevista radiofônica que concedeu nesta terça feira em Paris.

Lembrando que a América Latina já sofreu demais com os golpes de Estado das décadas de 1960 e 1970, Lula declarou enfaticamente: "Não vamos permitir que isso ocorra de novo".

Admirável. Pena que não ocorresse a quem o entrevistava a pergunta óbvia: qual vai ser a atitude que ele próprio tomará para impedir essa reincidência golpista extemporânea?

Pois está cada vez mais claro que os EUA não querem arcar com o ônus de compelirem a Organização dos Estados Americanos a adotar medidas mais enérgicas.

Qual é a segunda grande liderança da OEA? O Brasil de Lula, claro, já que o México ainda não decidiu o que quer ser na vida: um país com voo próprio ou um satélite político dos EUA, em cuja órbita já oscila em termos econômicos.

Então, se a parada tiver de ser resolvida pela força, com o envio de tropas da OEA para garantir a devolução do poder ao presidente deposto Manuel Zelaya, a iniciativa de transformar as palavras em atos cabe a Lula. Aconselho as redes bolivarianas a lhe cobrarem isto.

A hipótese de um desfecho menos duro do que o pregado na retórica de Lula seria uma pressão estadunidense nos bastidores que funcionasse. Foi o motivo da reunião que Zelaya manteve com a secretária de Estado Hillary Clinton.

Pode resultar, se Barack Obama empenhar-se realmente neste sentido. Países pobres têm muito a perder antipatizando-se com o mandatário da principal economia do mundo.

O resultado visível da reunião foi a indicação do presidente costarriquenho Óscar Arias para atuar como mediador entre Zelaya e o seu substituto ilegítimo Roberto Micheletti.

Mas, o cacife do Arias é unicamente moral; depende dos EUA lhe fornecerem os trunfos de que necessitará para levar a bom termo sua missão.

Da boca para fora, o desempenho de Obama é convincente. Em visita oficial a Moscou, afirmou:
"Os Estados Unidos apoiam a restituição do presidente democraticamente eleito de Honduras, apesar de ele ter fortemente se oposto a políticas americanas.

"Nós o fazemos não porque concordemos com ele, mas porque respeitamos o princípio universal segundo o qual as pessoas devem escolher os seus próprios líderes, quer concordemos com eles ou não."
Os próximos acontecimentos nos informarão se as convicções de Lula e Obama são sinceras ou não passam de conversa pra boi dormir.

No caso de tudo isso falhar, uma cartada interessante para Zelaya seria voltar de surpresa a Honduras, a fim de que o prendessem e as duas organizações (OEA e ONU) fossem obrigadas a mostrar para que servem. Já que ele andou citando tanto Gandhi, esta seria uma linha de ação bem ao estilo do Mahatma.

O que não pode é esperar demais.

Como enxadrista que sou desde criança, tenho o hábito mental de sempre considerar as jogadas possíveis dos dois lados. O governo golpista hondurenho tem também uma carta poderosa para jogar: a antecipação das eleições.

Isto criaria um fato consumado capaz de desestimular reações da comunidade internacional, que já denota mais vontade de discursar que de agir.

O chanceler Celso Amorim diz esperar que a situação em Honduras se resolva "nos próximos dias ou semanas", argumentando:
"Honduras é muito dependente da ajuda dos Estados Unidos, do Banco Mundial e de petróleo. Esse novo governo não tem possibilidade de durar dois ou três meses."
Que Zelaya não o ouça. Pois suas chances de voltar ao poder também não devem durar dois ou três meses. O tempo corre contra ele, com a situação tendendo a acomodar-se a cada dia que passa. Os próximos movimentos serão decisivos.

sábado, 4 de julho de 2009

DUAS VISÕES REVOLUCIONÁRIAS

Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária".



Caro Lungaretti

Volto a insistir, não podemos exigir dos outros, aquilo que não podem oferecer. Você está sendo muito rigoroso com esse cidadão que sofreu um golpe de Estado no estilo clássico e que está reagindo de forma corajosa e levando de roldão para a condenação do golpe militar acontecido em Honduras meio mundo (ou mundo inteiro para ser mais exato). Vi agora pela Telesur uma grande manifestação de apoio a Zelaya na chegada do Sr. Insulsa, representante da OEA. Vi milhares de pessoas gritando o nome de Zelaya e pedindo o seu retorno imediato para assumir a presidência do país - mesmo o país estando em Estado de Sítio e o povo sofrendo forte repressão policial. Também não podemos exigir muito desse sofrido povo para que seja muito combativo e enfrente o poderoso e armado exército usando apenas paus e pedras - pois Honduras esteve (e está ainda) sob controle da direita durante décadas (com forte influencia da CIA e Pentágono) e todos nesse país estão afetados ideologicamente.

Isso é pouco para você? Queres mais?

Por que então és tão exigente com Zelaya e condescendente com Lula? Pois esse pela sua história, pelas lutas que realizou no passado poderia ser sim mais combativo e menos conciliador.

Um pouco mais de pragmatismo nas análises não faz mal a ninguém

Um abraço

Jacob David Blinder

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Jacob,

só avestruzes enterram a cabeça na areia. Não invento os fatos, comento-os. Mas, nunca deixo de ser fiel ao que vejo, sinto e avalio. Caso contrário, eu me tornaria um propagandista. O monolitismo da posição única saiu de moda junto com o stalinismo.

Dezenas de presidentes esquerdistas foram derrubados pelos golpes de direita na América Latina. A opção de morrer pelos ideais é exceção irrisória, fazendo-me prezar imensamente os Allendes e Vargas.

Quanto aos que não têm grandeza histórica para fazer o que é certo no momento crucial, quase sempre a conta acaba sendo paga pelo povo. E é isto que mais me revolta.

Volto a 1964: Brizola se dispôs a resistir, João Goulart preferiu desertar do País, aceitando a derrota. Sua fuga desmobilizou de vez o nosso lado e foi a pá de cal na democracia brasileira, condenando-nos a 21 anos de humilhações e atrocidades.

Ficou para o cidadão comum a imagem de que a esquerda não tinha coragem para sangrar por seus ideais. E tanto os que já militavam em 1964 quanto os que viemos depois da rendição sem luta, tivemos de provar o contrário ao povo, para reconquistar seu respeito.

É algo que não leio em livro nenhum, mas era sentido claramente por quase todos nós: a obrigação de provarmos que não éramos iguais aos burocratões covardes.

Imolamo-nos por causa disso. Até alguns de nossos líderes mais importantes expuseram-se demais por causa disso. Muitos continuaram lutando quando já não havia chance de vitória por causa disso.

Então, companheiro, não devemos desculpar tão facilmente a tibieza dos Zelayas.

O certo é que, se ele cumprisse a palavra de voltar na 5ª feira, fosse preso e em seguida libertado por força da pressão internacional, reconquistaria a presidência DE FATO, com moral em alta, para aprofundar o processo que ele mesmo desencadeou.

Deixando a iniciativa para um representante da OEA, corre o risco de ter de aceitar uma solução meia-boca, como a convocação imediata de novas eleições.

E, mesmo que lhe devolvam o poder, ficará a imagem de que foi uma imposição da OEA e da ONU. Voltará enfraquecido, para fingir que governa durante os 200 dias que faltam até a transmissão da faixa.

Se não formos nós a mostrarmos a realidade nua e crua, outros o farão. Então, repito, prefiro ser um jornalista com visão de esquerda do que um propagandista da "única posição aceitável". O stalinismo já era, felizmente.

Abs.

Celso

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Lungaretti,

Todos nós somos propagandistas de uma causa, mesmo quando que dizemos que não somos. Você o é e creio que faz isso muito bem, quando defendes o governo Lula ou que criticas a violação dos direitos humanos do passado e no presente. Eu o sou quando defendo a revolução bolivariana da Venezuela e as mudanças estruturais que ocorrem na AL (que quando elas não estão na medida dos meus desejos)

Não podemos também comparar fatos históricos diferentes ocorridos em épocas passadas com fatos presentes e exigirmos igualdade de atitudes em seus personagens. Brizola foi sim arrojado em sua época e sem dúvida Zelaya o é na atual.

Zelaya um Chefe de Estado do presente agiu dentro da conjuntura do presente e o fez muito bem. Sua atitudes são impecáveis ao seu nível inclusive no uso que faz da mídia mesmo a burguesa. Ninguém duvida que haja desdobramentos quando esse Chefe de Estado e de Governo retornar ao seu país - seja através da clandestinidade ou da ação aberta. E com isso ajudar a incrementar resistência popular que já ocorre. E note que Zelaya é um homem de linha conservadora, pacata como ele próprio diz. E aí podemos tirar outra conclusão que indica o poder dos acontecimentos moldando o homem (ser humano) e o fazendo a cada momento radicalizar suas posições políticas.

Esse é a grande lição que podemos tirar nesse momento de ampla agitação política que ocorre na AL. Nenhum chefe de Estado é igual ao que era em relação ao inicio do seu mandato, desde que ele não seja alienado e tenha um mínimo de bom senso. Isso está ocorrendo com quase todos, que vai de Bachelet no Chile a Cristina Kirchner na Argentina. De Chávez a Evo Morales e indo até Lugo no Paraguai. Sem contar a grande surpresa na AL que é Correa no Equador e Zelaya em Honduras.

E você há de convir que Lula, mudou pouco, continua o mesmo articulador de sempre, muito conservador, limitado e pouco arrojado, pensando apenas na auto denominada governabilidade (a conservadora!!!) e defendendo publicamente figuras nojentas como Sarney e aceitando inclusive apoios espúrios como o de Collor. E isso é lamentável, pois esperava-se mais dele e até mesmo alguma coisa diferente de seus defensores abertos, na qual você é um bom representante.

Enfim criticar os outros é fácil – o difícil mesmo é a auto-avaliação e a autocrítica.

Um abraço

Jacob David Blinder

PS - Os golpistas não vão entregar o poder tão facilmente e tal fato terá desdobramentos que atingirá toda a AL. E já anteciparam afirmando que não querem mais participar da OEA.

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Blinder,

fale por si. Propagandistas, por dever de ofício, apresentam versões distorcidas dos produtos que estão promovendo: exageram os pontos positivos e omitem, ou minimizam, os negativos.

É bem o que fazia o stalinismo: engrandecia os seus e demonizava os revolucionários discordantes. Falsificava a História, a ponto de maquilar as fotos de acontecimentos gloriosos, apagando a imagem de Trotsky e de outros bolcheviques incompatibilizados com o regime.

Estou nesta estrada desde 1967 e me orgulho de nunca ter escondido a verdade debaixo do tapete por achar que isso favorecia a causa. Num Brasil em que até a esquerda cultiva o hábito do "jeitinho", de aliviar para os amigos, de fazer favores imorais ou amorais para receber a contrapartida adiante, eu sempre procurei agir como era certo e não como era conveniente.

Meus caminhos foram mais difíceis por causa dessa opção? Sem dúvida. Mas, eu não saberia viver de outra maneira. De todas as frases imortais de nossos profetas, aquela com a qual mais me identifiquei foi a de Rosa Luxemburgo: "A verdade é revolucionária".

Então, por mais conveniente que seja omitir a falta de grandeza histórica de Zelaya e o preço que isto acabará custando ao povo hondurenho, eu optarei sempre por relatar os episódios aos meus leitores como eles realmente se passaram. Porque jamais abrirei mão do meu compromisso com a verdade.

Também não pretendo formar fanáticos, mas sim revolucionários conscientes. Então, os meus seguidores sabem muito bem que devemos lutar até o fim para que o poder seja restituído plenamente a Zelaya, seja ou não ele um poltrão.

Não defendemos pessoas, mas sim princípios, como o de que o golpismo é um ovo da serpente que deve ser sempre esmagado. O ator histórico Zelaya pode não ter correspondido ao que esperamos de um líder da causa do povo, mas seu direito de cumprir até o último dia do mandato continua sendo intocável. Somos revolucionários, não torcedores de futebol. Para quem não compreende a diferença, nem vale a pena explicar.

Por último, Blinder: de onde você tirou a estapafúdia idéia de que eu defendo o Lula? No meu blogue você achará mais de uma dezena de artigos em que coloco claramente: do ponto de vista de um revolucionário, o que mais conta na avaliação de qualquer governo é sua política econômica, que, no caso do governo lulista, desde o primeiro dia foi neoliberal.

Se eu considerasse importante a Presidência da República, certamente criticaria Lula todos os dias. Mas, não considero. Para mim, nada mais faz do que gerenciar os interesses capitalistas em território brasileiro.

Já cansei também de falar que aposto todas as minhas fichas na organização autônoma e não-coercitiva dos cidadãos, contra o capitalismo e CONTRA O ESTADO.

Sou totalmente cético em relação à velha estratégia de tomarmos governos pela via democrática, para depois tentarmos tomar o poder pela via golpista e só então agregarmos a maioria dos trabalhadores à revolução. Com isto, o povo começa como OBJETO da revolução, na esperança de que se consiga transformá-lo em SUJEITO adiante... e isto nunca acontece. Terá sempre dirigentes decidindo em seu nome, ao invés de escolher ele próprio seus caminhos.

Acredito que o povo deva ser o sujeito da revolução desde o primeiro momento. E que devamos organizá-lo fora do Estado, não infiltrando-nos no Estado. E tenho reiterado esta convicção num sem-número de artigos.

Daí a pouca importância que dedico a Lula e a tudo que ocorre em Brasília. Pois, como diz o título de um artigo que escrevi nesta semana, NÃO SERÁ EM BRASÍLIA QUE VAI CHEGAR NOSSO CARNAVAL.

Abs.

CELSO

sexta-feira, 3 de julho de 2009

COMÉDIA DE ERROS EM HONDURAS

Para que servem, afinal, as organições das Nações Unidas e dos Estados Americanos?

Num episódio claríssimo, em que os países-membros concordam totalmente quanto ao único desfecho aceitável, ambas não conseguem enquadrar a pequena Honduras.

Tendo ou não o presidente deposto Manuel Zelaya cometido os 18 crimes de que os golpistas o acusam, o certo é que não foram seguidos os trâmites legais para sua exclusão do poder, nem lhe deram oportunidade para apresentar sua defesa.

Então, cabe à ONU e à OEA imporem, até com o envio de tropas, sua recondução ao poder.

Aí, se o Congresso e a Justiça tiverem contas a acertar com ele, que o façam pelos caminhos apropriados.

Especula-se sobre uma antecipação da eleição para presidente, já aceita pelo chefe do governo golpista Roberto Micheletti. Se a OEA e a ONU engolirem esta solução, é melhor fecharem as portas de uma vez por todas, poupando ao mundo o custo de duas burocracias inúteis.

É óbvio que, num pleito realizado, digamos, dentro de 30 dias, sem a participação de Zelaya na campanha e sob controle dos golpistas, acabará sendo eleito um candidato do agrado dos últimos.

Esta possibilidade só faria sentido se o acordo fosse diferente, com Zelaya reassumindo a presidência para governar com plenos poderes até que passasse a faixa ao substituto.

Não se sabe se ele aceitaria a antecipação da eleição e consequente encurtamento do seu mandato. Mas Micheletti se mantém intransigente quanto à imediata prisão de Zelaya, caso ele retorne a Honduras.

Da forma como está colocada, seria uma fórmula de golpe branco, garantindo o afastamento de um presidente indesejável e criando condições as mais favoráveis para os golpistas fazerem seu sucessor. Inaceitável.

Quanto a Zelaya, continua patético: prometeu retornar ao país nesta quinta-feira (2) e refugou.

Provavelmente incomodado com o péssimo juízo que as pessoas perspicazes fizeram da sua falta de reação quando os golpistas lhe impuseram o desterro em pijamas, resolveu atribuir-se uma virilidade ausente nos atos, ao relatar sua prisão:
"'Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles.

"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
Ou seja, largou o celular e desandou a fazer discursos fora de hora. Depois, acompanhou os encapuzados sem exigir, "em forma muito audaz", que lhe deixassem ao menos vestir as calças. Pobre coitado!

Também lhe faltou audácia para honrar a palavra, desembarcando na sua pátria para o que desse e viesse, ao lado dos representantes da ONU e da OEA, além de celebridades (parece que os presidentes inicialmente citados também refugaram...).

É óbvio que poderia ser preso. E é igualmente óbvio que seria um sapo grande demais para as duas organizações engolirem. Teriam de finalmente se mexer, tomando providências de verdade.

Para abortar um golpe de estado e conseguir a vitória final contra seus inimigos, Getúlio Vargas recorreu ao suicídio e à carta famosa. Tinha grandeza.

Ao próprio Hugo Chávez, inspirador dos propósitos continuístas de Zelaya, não faltaria coragem para fazer o que se impunha, arcando com os riscos inerentes.

Então, se Zelaya não serve para calçar as botas do Chávez, não deveria tentar seguir-lhe os passos. É simples assim.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

GOLPE DE ESTADO HONDURENHO DEVE SER ABORTADO PELA ONU

As tradições golpistas têm de ser enterradas de vez na América Latina, como um anacronismo incompatível com o século XXI.

A crise hondurenha marcha para um desfecho exemplar.

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução unânime repudiando o golpe de Estado e exigindo a recondução ao poder do presidente Manuel Zelaya, que pretende retornar ao seu país escoltado por representantes da ONU e da OEA, além de presidentes sul-americanos.

Com tais guarda-costas, supõe-se que desta vez ele consiga preservar a dignidade do cargo, depois do papelão de domingo. Não consigo imaginar um Getúlio Vargas ou um Salvador Allende deixando-se prender docilmente, em pijamas, pela soldadesca, e em pijamas ser despachado para outra nação.

Aliás, o fato de terem poupado sua vida diz muito. Os verdadeiros líderes, nessas circunstâncias, eles matam.

O certo é que Zelaya forçou a barra ao pretender realizar seu referendo depois que a Justiça o impugnou e o Congresso condenou. Desafiou o inimigo, vê-se agora, sem estar preparado para fazer prevalecer sua posição; subestimou-o tanto que foi dormir o sono dos ingênuos enquanto o poder trocava de mãos.

Os direitistas poderiam ter dado aparência de legalidade à sua deposição, mas também botaram os pés pelas mãos, precipitando os acontecimentos.

Preocuparam-se mais em evitar a realização do referendo, certamente temendo que o resultado lhes fosse amplamente desfavorável e servisse como um trunfo poderoso para Zelaya.

Configurou-se o golpe de Estado, que logo no dia seguinte (2ª, 29) eu já qualificava de "precedente perigosíssimo". Ontem (3ª, 30) Lula repetiu as mesmíssimas palavras e Obama, que se trata de "um terrível precedente". Mais uma vez o mundo se curva a este blogue...

Zelaya foi buscar o apoio da ONU e obteve. Depois, na coletiva de imprensa, comprometeu-se a não insistir na tese da reeleição, que as leis hondurenhas lhe vedam. Afirmou que ficará no governo até o fim do seu mandato, em 27 de janeiro de 2010, voltando então à vida civil "junto com amigos e com a família".

Tudo leva a crer que Zelaya será reempossado, para governar fragilizado os duzentos e poucos dias que lhe restam. Afinal, não terão sido os hondurenhos a lhe devolverem o cargo, mas sim a pressão internacional.

Este será, claro, o melhor desfecho possível, evidenciando que as viradas de mesa já não têm lugar na América Latina do século XXI: nem para manterem um presidente indefinidamente no poder, nem para expeli-lo indevidamente antes do final do seu mandato.
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