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quinta-feira, 21 de julho de 2022

FÁBULA SOBRE A MUTAÇÃO DO REINO DO CAPITAL EM REINO DA LIBERDADE – 2

(continuação deste post)
O
reino da Capitolânia ficou em polvorosa. As pessoas se perguntavam: como foi possível que aceitássemos tanta injustiça social sem que não nos apercebêssemos da razão dela existir??? 

Então, imbuídos de uma revolta consciente, decidiram que daquele momento em diante ninguém iria trabalhar mediante salário; e que todas as atividades de produção seriam partilhadas sob um planejamento social de consumo capaz de satisfazer de forma equânime a necessidade de cada um, independentemente da respectiva capacidade de produção. 

Não houve revolta armada, já que até os militares foram atingidos pelo perfume da consciência e baixaram as armas. Os trabalhadores simplesmente ficaram em casa por alguns dias até retomarem as suas atividades, agora sob autogerenciamento e sem o critério da produção de valor e dinheiro. 

O odiado governante, que se encontrava de viagem ao exterior, sabedor do efeito provocado pelo tal perfume, tratou de voltar com urgência e, usando uma máscara atrelada a um tubo de oxigênio para ficar imune aos efeitos desconhecidos daquele aroma, analisar o que estava ocorrendo em seu reino. 

Logo após, sentindo-se impotente e não aceitando os efeitos do perfume da consciência, exilara-se definitivamente noutro país governado por alguém de sua estirpe, sonhando reunir forças para uma tentativa retomar as rédeas do poder em seu reino e reverter todas as mudanças ocorridas.  
Cena do filme La Cecilia (assista-o aqui), sobre a 1ª
tentativa de organizar a sociedade em bases igualitárias
no Brasil: uma colônia rural anarquista no fim do séc. 19

Até mesmo a força militar do reino da Capitolânia, que também havia aspirado o perfume e agora estava em número reduzido, servia apenas para fiscalizar os pequenos delitos comunitários que ainda existiam, de natureza pessoais ou possessórios (não existiam mais crimes contra o patrimônio, de vez que a propriedade era regida pelo critério de utilidade e necessidade pessoal).

Daí em diante a sociedade daquela nação (cujo nome foi trocado para Libertânea) adotou um sistema de produção totalmente voltado para a satisfação das necessidades dos cidadãos. 

Ficou estruturada em células comunitárias deliberativas, com três grandes segmentos, como na antiga estrutura de divisão de  poderes elitistas, mas agora tornados segmentos organização popular de base: 
células administrativas  de controle da produção e abastecimento das unidades de produção (fazendas, industrias, centros administrativos de armazenamento e distribuição, controle de estoques, emissão de aplicativos de limites de consumo, etc.) dos distritos, ligadas a uma estrutura central de coleta de informações da grande região, que devolvia os dados para as decisões de base;
— células legislativas, compostas pelos membros da comunidade que passaram a legislar de acordo com os interesses e problemas surgidos nos vários campos do direito (civil, possessório não patrimonial –que deixara de existir, de vez que fora abolida a propriedade–, criminal, administrativo, etc.);
— células judiciárias, encarregadas da análise de processos e sentenças judiciais nos vários campos do direito, bem como em instancias de competências diferenciadas. 

Todos os serviços e produção funcionavam sem remuneração, mensuradas por critério da antiga forma-valor, mas que agora eram administradas pelo critério de necessidade comunitária a partir de um planejamento igualmente comunitário e deliberado a partir do aferimento da necessidade e capacidade de suprimento coletivo do consumo. 

Os novos critérios de produção e organização social surtiram efeitos tão satisfatórios e instigadores do espírito solidário que passaram a servir de exemplo para outras regiões que, mesmo não tendo sido atingidas pelo perfume da consciência, (o qual, infelizmente, não alcançava regiões mais distantes), passaram a se espelhar naquele exemplo altamente promissor de construção social.  

Entretanto, como os reinos vizinhos fossem ainda governados pela antiga lógica insana, militarista, elitista subtrativa dos recursos coletivamente produzidos, competitivamente destrutiva e ecologicamente predatória, de vez que o perfume da consciência não havia transposto as fronteiras da Libertânea, estabeleceu-se uma aliança entre aquelas nações intelectualmente subdesenvolvidas.

Tratava-se da tentativa de abafar o perigoso exemplo de emancipação popular vinda da Libertânea, na qual imperava a mais absoluta paz e prosperidade, mas que ameaçava a relação social retrógrada dos países vizinhos, todos conservadores.  
Uma experiência emancipacionista nos dias atuais:
o Sítio Brotando a Emancipação, em Fortaleza.

Paulatinamente, contudo, prevaleceu entre os povos dirigidos pelos governantes ainda teleguiados pela lógica da forma-valor, um sentimento de adesão ao modelo que servira de exemplo construtivo e solidário, adotado na Libertânea. Assim, as tentativas de agressão contra ela floparam solenemente. 

É que tal exemplo se alastrou mundo afora, derrubando, sem volta e progressivamente, o estágio inferior de relação social escravista até então vigente. 

Os novos problemas que surgiram em face das novas relações sociais adotadas, provocaram novos desafios, mas vamos ter de aguardar os encaminhamentos para um novo relato a partir das experiências vividas, informando, desde já, que eles não foram poucos. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O PROJETO DE UMA RENDA BÁSICA PARA TODOS FINALMENTE VAI DECOLAR?

rui martins
DA UTOPIA PARA A REALIDADE: UMA PROPOSTA QUE PODERÁ VINGAR NO MUNDO PÓS-PANDEMIA
Faz três anos, enviei ao editor os originais de um livro provavelmente ainda muito prematuro, na época, para o Brasil. Tanto que até hoje continua inédito.

Porém, a crise social e econômica provocada pelo coronavírus, agravando ainda mais a pobreza e ameaçando tornar irreversível a situação de miséria para milhões de famílias em todo o mundo, trouxe à atualidade uma antiga ideia: a de todos os países garantirem a todos seus cidadãos uma renda básica mínima para poderem viver dignamente. 

Honra a quem de direito: foi Thomas More, o primeiro a imaginar essa solução, ainda no século 16, no seu livro Utopia.

O tema vem sendo abordado pelas organizações internacionais como um principal recurso capaz de evitar uma depressão econômica internacional. Ainda é recente um texto do professor Guy Standing, da Universidade de Londres, publicado pelo Fórum Econômico de Davos, mostrando não ser uma solução de inspiração exclusiva de esquerda.

A fragilidade do atual sistema econômico mundial decorre da sua transformação num capitalismo de renda, argumenta Standing, do qual se beneficiam exageradamente os que vivem de rendas de propriedades ou de investimentos financeiros. 

A mundialização desenfreada criou, assim, oito gigantes modernos: a desigualdade, a insegurança, a dívida, o estresse, a precariedade, a automatização, a extinção e o populismo neo-fascista. Essa situação chegou ao seu clímax com a crise decorrente do coronavírus.

Após o auê, o PT praticamente ignorou a proposta de Suplicy
A Espanha decidiu, desde maio, criar algo semelhante para 22% da população em situação de precariedade. O Brasil também criou uma ajuda temporária, chamada emergencial. Entretanto, tais iniciativas não correspondem à essência da renda básica, por serem mínimas e transitórias.

É o caso também do programa Bolsa Família, uma ajuda irrisória distribuída a 20% das famílias brasileiras, e que poderá ser aumentada, não se sabe quanto, com o anunciado programa Renda Brasil, pelo ministro Paulo Guedes. 

O novo programa incluiria os trabalhadores autônomos, informais e desempregados. Em contrapartida, outros benefícios já concedidos aos trabalhadores de renda mínima seriam suprimidos.

O Partido dos Trabalhadores perdeu sua grande chance de fazer história, em termos de política econômica, ao praticamente ignorar o projeto de renda básica universal, proposto pelo ex-senador Eduardo Suplicy, criado há mais de 30 anos e constante em três de seus livros.

Transformada em projeto, tal proposta, apresentada ao Senado em 1994, chegou a ser aprovada em 2004 pelo Congresso, mas não foi aplicada concretamente pelo governo petista. 

Hoje, o governo Bolsonaro pretende utilizar essa mesma ideia básica, com as deturpações que lhe são costumeiras, dando-lhe um formato paternalista a fim de garantir sua reeleição.

Seguem alguns trechos originais do meu livro A revolução do salário sem trabalho, ainda sem a atualização necessária face ao coronavírus, à espera de publicação.
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O Capitão Bozo se apropriando do tesouro do PT: o bolsa-família
UM SALÁRIO-MÍNIMO PARA TODOS  O projeto de se criar uma renda fixa para todos não é mais um sonho utópico. O desenvolvimento da automatização aplicável não só nas indústrias de produção como nas atividades humanas cotidianas, com a utilização crescente de robôs, cada vez mais perfeitos graças ao avanço da inteligência artificial acoplada com a nova linguagem numerotizada dos computadores, vai provocar o fim de numerosas carreiras profissionais.

Em termos práticos, isso significará um aumento incontrolável do desemprego, gerando desestabilização social e política nos países desenvolvidos.

O mundo mudou, a esquerda e a direita até aqui não conseguiram lançar bases duradouras para uma sociedade com menos desigualdades e surge a iminência do aumento do desemprego, incontrolável com o desenvolvimento das novas tecnologias, automatização, robotização e inteligência artificial, que, na verdade, são transformações e modernizações positivas para todos nós.

Assim como a internet revolucionou as comunicações e os contatos sociais, chegou a hora de se repensar a solução para os problemas que se arrastam pelos séculos, utilizando os instrumentos e experiências sociais e econômicas hoje existentes.

Mesmo tendo o próprio Cristo declarado a perenidade da miséria com sua frase os pobres, sempre os tereis convosco, nossa maturidade social, neste começo do 3º milênio, pode permitir o lançamento das bases para se colocar um fim definitivo na fome e na miséria em termos locais, regionais, nacionais e mesmo em todo o planeta.
Uma comunidade hippie estadunidense dos anos 60

Não se trata de uma ação política, plano religioso assistencial ou de filantropia, mas de um projeto econômico e social, vindo de tempos remotos, materializado, pela primeira vez, no livro visionário de Thomas More, publicado há tempos, no século 16, Utopia.

Esse livro conta a existência de uma ilha ideal, onde as riquezas eram partilhadas por todos, antecipando os sonhos e o surgimento de tantas comunidades, geralmente religiosas, muitas vivendo em autarcia, bastando a si próprias, e sem contato maior com o mundo exterior.

Na década de 1960, o inconformismo com os padrões legados de geração a geração levou os jovens, principalmente nos EUA, à ruptura e à criação de comunidades hippies, nas quais viviam partilhando tudo quanto possuíam, de uma maneira intuitiva, improvisada e um tanto precária, em torno de seus ideais, que eram basicamente de ruptura e de busca de realização individual, desvinculadas de projetos de reformas políticas.

Poucas comunidades sobreviveram ao avanço da idade de seus participantes, que acabaram por se integrar no sistema de classes e concorrência econômica e social do qual haviam saído.

Foi, entretanto, a Revolução de 1917, na Rússia, que deu origem à principal tentativa e experiência de sociedade igualitária e sem classes sociais, com oportunidades iguais para todos e sem os bolsões de miséria, existentes nas periferias e favelas de todos os outros países.

A experiência durou 70 anos e, embora pretendesse acabar com a desigualdade social, reforçou o aparelho do Estado, reduziu as liberdades, criou uma burocracia e se desviou para o totalitarismo com suas repressões e o culto da personalidade.
Verne chegou lá 104 anos antes

Não sendo, portanto, uma opção religiosa, nem dos jovens em ruptura social e nem um projeto político interessado em colocar na prática o marxismo, qual a novidade que, nos dias de hoje, sem recorrer à força ou necessidade de uma revolução, poderia acabar com os segmentos de miséria, aceitos como fatalidades normais nas sociedades humanas?

Trata-se de uma utopia capaz de se tornar realidade, como as histórias de ficção-científica de Jules Verne, H. G. Wells ou Asimov anteciparam importantes invenções e descobertas tecnológicas que hoje fazer parte do nosso cotidiano.

Alguma coisa palpável, concreta, como o dinheiro: criar-se uma renda, um pagamento, um tipo de pensão ou bolsa, como um salário mas sem a obrigação do trabalho, que seria paga a toda a população mas destinada a beneficiar as pessoas de baixa renda.

Por que se pagar essa renda para todas as pessoas? Para se evitar a humilhação aos mais pobres de se inscreverem como necessitados, ato aos quais muitos se negam, preferindo arcar com as restrições da miséria. Esse pagamento seria logo devolvido pelos não-necessitados, junto com o imposto de renda.

Esst solução prática na luta contra a miséria, aparentemente dispendiosa demais para o Estado, mas na verdade nem tanto, é conhecida, com pequenas variantes, pelos nomes de renda garantida, renda básica para todos ou renda mínima incondicional e universal.

Economistas de direita e de esquerda, com algumas modificações, consideram ser essa renda a maneira de se transformar as atuais relações sociais, suplantando-se as perspectivas sombrias do desemprego.

Na contracorrente, os países com crescentes problemas estruturais de desemprego crônico ainda tentam recorrer aos seguros-desemprego e ajudas assistenciais sempre insuficientes e degradantes, enquanto outros simplesmente abandonam essa parcela da população.

Ao mesmo tempo, aumentam a idade para a aposentadoria, quando as empresas não contratam maiores de 50 anos e muito menos idosos de 60, criando novos bolsões sociais de desempregados, condenados a um fim de vida na miséria. (por Rui Martins)

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

OS CRÉDULOS O TOMAVAM POR UM BATMAN. DEPOIS DA VAZA-JATO, ELE É VISTO MAIS COMO UM CORINGA...

gregorio duvivier
TRÊS BIOGRAFIAS PARA SERGIO MORO
Querido Sergio Moro, vi que você gosta de ler biografias, mas ainda assim não consegue citar nenhuma. 

Entendo a dificuldade: imagino que esteja muito empenhado tentando salvar a sua. Tomo a liberdade de indicar três obras de não ficção —afinal, de ficção já bastam suas sentenças.

O Tiradentes, do Lucas Figueiredo, conta a vida de um herói nacional —aquilo que você imaginou que viria a ser, antes de virar figurante de chanchada. 

Com base em documentos oficiais, Figueiredo perfila esse preso político, único condenado de fato pela conspiração da qual ele era, coincidentemente, o mais desvalido dos integrantes. 

Seu advogado, dr. Oliveira Fagundes, fez todo o showzinho da defesa e compôs uma peça sólida, ignorada pelo juiz português —que, só se descobriu depois, tinha chegado ao Rio, meses antes, com a sentença já escrita.

Tudo, acredite se quiser, se baseava em delações. O primeiro delator, Joaquim Silvério dos Reis, um dos homens mais ricos e endividados da colônia, teve suas dívidas perdoadas —mais ou menos como você perdoou, duas vezes, o doleiro Alberto Youssef.

A corte também fez vista grossa pros conspiradores do Estado, que não eram poucos. Talvez lhe parecerá estranho, mas lembra que você perdoou até o Onyx. 

Mas, claro, é preciso ser justo: ele se arrependeu.

Vários foram os juízes que condenaram Tiradentes e, ainda assim, ninguém se lembra do nome de nenhum. Isso pode te servir de consolo. Mesmo orquestrando uma farsa que elegeu o homem que hoje te emprega, existem fortes chances de que a história te esquecerá.

Mas talvez esteja cansado de política brasileira. Medo, do Bob Woodward, não é exatamente uma biografia, mas a história das eleições em que um bufão chegou ao poder. 

À sua volta, todos pensam que poderão usá-lo, sem perceber que legitimaram um autocrata que os descartará na primeira oportunidade.

Deviam ter suspeitado: não há papel mais triste —nem mais ingrato— que o de ajudante de bufão.

Pra terminar, vale ler Cartas da Prisão, de Nelson Mandela. A coletânea de cartas publicada pela Editora Todavia conta a história de um líder político que passou 27 anos na prisão após uma condenação. 

Desculpa o spoiler: o sujeito sai da prisão ainda maior do que entrou, e termina presidente do país que o prendeu.

Ah, não está ali o nome do juiz que o condenou. Ufa. (por Gregorio Duvivier)
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Toque do editor   Tomarei a liberdade de acrescentar um filme à lista das obras que fariam de Moro um homem melhor, se o dito cujo nelas se inspirasse para tentar dar uma improvável volta por cima, após tanto haver feito para arruinar sua biografia.

Trata-se do  O homem que não vendeu sua alma, ganhador do Oscar de melhor filme em 1967, que destacou exatamente a grandeza de um personagem histórico que entregou a vida para não aviltar-se traindo suas convicções: Thomas More. 

O sobrenome é quase igual, mas o comportamento, diametralmente oposto. Além de uma vogal, há um mundo de diferenças entre ambos...

As características pessoais do Moro nunca foram as de um Tiradentes ou de um Mandela, mas um More, sim, ele poderia haver sido, caso tivesse caráter para tanto. 

Enfim, aos 47 anos, ele ainda pode tentar correr atrás do prejuízo. Quem sabe o destino lhe concede uma segunda chance... (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

RUI MARTINS: É RIDÍCULO PRETENDER QUE ESTEJAMOS DIANTE DE UM GOVERNO DE ESQUERDA AMEAÇADO PELA DIREITA.

Por Rui Martins, de Genebra
NÃO HÁ NENHUM GOLPE
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Me lembro bem do golpe militar de 1964 e dos temores por ele provocados.

O Brasil vivia diante da expectativa de serem adotadas as reformas de base anunciadas pelo governo Jango Goulart. O mês de março mostrava que o Brasil poderia colocar em prática aquelas reformas necessárias para o país acabar com seu contraste, como escrevia o jornal Le Monde, de uma grande parcela da população miserável e, no oposto, uma dourada casta de privilegiados, que não se preocupava com desenvolvimento mas apenas em fruir da desigualdade social.

Estava num ônibus lotado, vindo da Maria Antônia, e ouvia nos transistores de alguns passageiros, os prenúncios da Revolução – era o 13 de março. Cinco dias depois, veio a marcha reacionária em favor de dois temas, geralmente opostos – Deus e a liberdade. Não passei nem por perto, embora vivesse próximo da Sé, no bairro da Liberdade, mas vi as fotos e, na república de universitários, onde vivia, sabíamos que o confronto seria inevitável.

Era um daquele raros momentos em que a História muda –daria o Brasil seu passo para a frente ou faria um salto para trás? No meu quarto de estudante, empilhavam-se os jornais Brasil Urgente e no meu bolso a inscrição para uma série de conferências sobre marxismo, por Jacob Gorender, na sede do IAB, o Instituto dos Arquitetos do Brasil, localizado na rua pela qual eu sempre passava no caminho para o Sesc, onde trabalhava: a General Jardim, em São Paulo.

Mais alguns dias e houve o desfecho inesperado mas previsível –os militares assumiam o poder, Jango se retirava para o sul, as tropas estavam nas ruas no Rio e em Brasília. Em algumas horas, tinha se acabado a liberdade e ficaram adiadas as reformas de base.

Fui para Santos, onde viviam meus pais, e junto com meus amigos Quinzinho e Eliseu falávamos até de madrugada. Eu preocupado com meu nome e endereço inscrito no curso do Gorender, mas provavelmente posto em lugar seguro com os nomes dos outros participatnes, antes da chegada dos agentes da repressão.

De volta de Santos, ficávamos de noite sintonizando, num rádio velho em cima de um guarda-roupa, a rádio Farroupilha liderando a Cadeia da Legalidade com o resistente Leonel Brizola. Havia muita emoção e ao mesmo tempo a frustração de não podermos fazer nada, ali na rua Taguá, esquina da São Joaquim.

Dois anos depois, já jornalista, secretariava, ao lado de Mario Martins, a mesa dos líderes representantes de esquerda, no Encontro com a Liberdade, no Teatro Paramount, no começo de janeiro. Esse desafio à lei da censura, baixada pelo ditador Castelo Branco, foi praticamente o último ato público de resistência à ditadura. 

Tínhamos imaginado-o, eu e Ivan de Barros Bella, na redação do Estadão, como forma de driblar o presidente pelego do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Adriano Campagnole. A ideia cresceu e se transformou em realidade com Narciso Kalili, Audálio Dantas, David de Moraes e nos levou à campanha pela chapa verde pela tomada da direção do Sindicato, fragorosamente derrotada.

QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA

Vamos ficar por aqui, senão a história é longa.

Mas esse exercício de memória é apenas para mostrar não haver hoje, no Brasil, o mesmo clima de tomada do poder por tropas militares, acabando com o exercício da liberdade, censurando jornais, fechando o parlamento, cassando governadores e políticos.

Tudo está funcionando: o Congresso nacional, a Justiça, a imprensa considerada culpada mesmo dando espaço aos porta-vozes do governo, as tropas não estão nas ruas, a vida continua sua rotina normal. Não se trata e não tem nada a ver com um golpe militar ou golpe de Estado. A palavra golpe é um mero slogan ou palavra de ordem.

Trava-se em Brasília uma acirrada luta pelo poder, ambos os lados utilizando os meios legais e constitucionais existentes. Os deputados foram eleitos pelo povo e uma boa parte dos ministros do STF foram indicados pelo governo.

Paralelamente, a Justiça –que funciona legalmente e livremente– prossegue as investigações e inquéritos relacionados com a Lava Jato, no qual se revelam comprometimentos de empreiteiros distribuindo propinas a políticos e partidos. Pode-se argumentar que todos os partidos e políticos são corruptos, mas desta vez, a dose foi excessiva e passou da conta, a ponto de desequilibrar a maior empresa brasileira.

Houve também incompetência na gestão das finanças e economia do País e, ao mesmo tempo, falta de tato e de diplomacia na governança, num país onde é extremamente difícil se obter o apoio do Legislativo e o sistema político favorece a distribuição de cargos e ministérios. 

Houve vacilação da presidente, eleita sem programa mas com um discurso de centro-esquerda, para logo depois propor um governo neoliberal. Embora ainda contando com o apoio de muitos companheiros históricos de esquerda, incapazes ou comprometidos a ponto de não poderem denunciar o abismo existente entre o discurso e a prática, e utilizando a mobilização de uma parcela do povo ainda não desiludida, ninguém pode afirmar, sem cair no ridículo, ser esse um governo de esquerda ameaçado pela direita.

Quando houve o golpe de 1964, os militares quiseram impedir a consumação de reformas substanciais na estrutura política, econômica e social brasileira. Hoje, existe por acaso uma situação desse tipo? Que grandes reformas o impeachment vai impedir ?

Vivemos uma situação de mero populismo sem a prometida reforma política, sem reformas econômicas, beneficiado inicialmente por uma boa fase no comércio exterior que permitiu a aplicação de uma política social assistencialista e eleitoreira, mas sem reformas estruturais. Tanto que o Brasil a ser entregue ao vice-presidente está estruturalmente na mesma situação de 2003.

E tudo, absolutamente tudo, depende de um só homem, criado pela esquerda para facilitar a transição política e econômica, mas que acabou por ter vida própria e passou a se conduzir pelo simples faro e instinto políticos, ao ser privado de seus criadores no episódio do mensalão. Um instinto e faro agora contestados e duvidosos pela escolha da atual presidente como sucessora.

A ideia da distribuição de dinheiro aos menos favorecidos para ativar a economia não é patente do PT e de Lula. Era uma utopia de Thomas More, favorável a uma sociedade onde todos tivessem um salário.

O marxismo imaginou uma outra relação entre o capital e o trabalho, na qual numa sociedade governada pelos próprios trabalhadores não haveria desigualdade social e nem desemprego com salário para todos. A prática não deu certo, mas ressurgiu a mesma ideia inicial, na Europa, com o mirabolante projeto de um rendimento básico para todos. Não na base de uma mísera bolsa família mas de um rendimento básico, igual a um salário mínimo.

Esse projeto utópico para uns, de vanguarda para outros, está em estudos na sociedade avançada finlandesa e será submetido a um plebiscito na Suíça. Isso se chama ousar na busca de uma sociedade mais justa que, com a chegada dos robôs, permitirá uma sensível redução dos horários de trabalho e não um desemprego em massa, como se prevê no capitalismo atual.

O PT enquanto esteve no poder pensou, criou, imaginou alguma coisa em termos de revolução social, diante do fracasso e do impasse no qual se encontra a esquerda clássica, cuja prova maior é o beco sem saída no qual está o governo francês? Não, não pensou, porque em lugar de fazer as reformas enquanto no poder, quis primeiro ficar no poder para depois fazer as reformas das quais, ao fim, acabou se esquecendo ou não tendo quadros capazes para isso.

Foi igualmente nula a contribuição do Brasil, nestes 13 anos, ao desenvolvimento sustentável, quando poderia ter procedido a uma enorme revolução no setor das energias alternativas, dispondo como dispõe o Brasil de amplo acesso, não utilizado, à energia solar. Por que se deixar nosso sol ser dominado, no futuro, pelas multinacionais de sempre?

Nada se fez em termos de proteção e defesa dos indígenas, já que a política desenvolvimentista só se preocupava com a monocultura da soja e o desmatamento da Amazônia.

Se de um lado foram abertas as portas das universidades para os afrodescendentes, a população negra pobre continuou sendo tratada pelas polícias de todos os Estados como suspeita de todos os crimes, sendo ainda a tortura aplicada nas delegacias, como constatou a relatora especial da ONU depois de visita ao Brasil.

Com relação aos emigrantes, setor que conheço bastante, houve uma primeira iniciativa no final do governo de Lula, capaz de criar lideranças capazes de desenvolver uma política própria mas, logo a seguir, foi praticamente liquidada por um decreto inspirado pelo diplomata Sérgio Danese e assinado pela presidente Dilma, que jamais levou a sério as propostas de seus núcleos petistas do exterior e, por isso mesmo, foi terceiro lugar nos votos dos brasileiros do exterior.

É doloroso para um brasileiro no Exterior ver toda a imprensa internacional descrever como começou e se desenvolveu a atual crise política, judiciária, econômica e ética brasileira.

Ler como os correspondentes da mídia internacional não se deixam enganar pelas mentiras, utilizadas na falta de fatos e argumentos. Não há nenhum golpe, não há nenhum complô da mídia nacional e internacional contra o governo brasileiro. O PT e a presidente Dilma estão colhendo o que plantaram nestes últimos anos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

10 ANOS POR GALES!

Hoje me lembrei de um dos meus filmes prediletos: O homem que não vendeu sua alma (d. Fred Zinneman, 1966).

É sobre a dignidade com que o grande pensador Thomas Morus (Paul Scofield) resiste às pressões do rei Henrique VIII (Robert Shaw), obcecado em arrancar-lhe um endosso à sua ruptura com a Igreja Católica e à decisão de tornar-se ele próprio o chefe espiritual dos ingleses. 

Morus era católico fervoroso e preferiu perder tudo (poder, riqueza e a própria vida) do que coonestar as pretensões papais do monarca.

Levado a julgamento, o autor da Utopia, com extrema habilidade, evitou tanto trair suas convicções como fornecer aos acusadores quaisquer justificativas legais para sua condenação.

Até que um crapulazinho ambicioso (John Hurt) dá o falso testemunho que o condena, recebendo como recompensa o cargo de coletor de impostos no território de Gales.

Morus, com infinito desprezo, diz-lhe que nem por riquezas incomensuráveis compensaria ele ter perdido a alma; muito menos "por Gales" (território recém-anexado e tido como insignificante).

Embora me entristeça a condenação do antigo companheiro de jornadas estudantis e tenha considerado sua pena exageradíssima, parece-me que ele se vulnerabilizou  irrefletidamente, colocando o pescoço no laço que a veja e outras escórias sempre mantiveram armado para ele.

Melhor seria se, como Morus, tivesse permanecido fiel aos valores originais. No seu caso, perseverando nas tentativas de mudar o mundo, ao invés de aderir à  realpolitik (começando pelo  crime, muito pior do que qualquer mensalão, de ele ter pessoalmente negociado os termos da capitulação de Lula aos grandes capitalistas em 2002, assumindo o compromisso de que as linhas mestras da política econômica de FHC permaneceriam intocadas sob a Presidência petista).

O governo manietado daí decorrente,  exatamente por não ser revolucionário, nem de longe justificava o preço que ele agora pagará, esses  10 anos por Gales!

Bem diferente do caso de Tiradentes: ninguém tem dúvidas sobre se valeu a pena ele morrer pela independência.

sábado, 11 de julho de 2009

DETALHANDO A GALERIA

"May You stay forever young", disse Bob Dylan numa de suas belíssimas poesias cantadas. É como tento viver.

Não, claro, à maneira infantilizada de Michael Jackson, que, de tanto buscar refúgio ilusório na Terra do Nunca, acabou indo cedo demais para lá. Mas, nunca deixando definhar o espírito de aventura, a abertura para o lúdico e o coração de estudante. Vivendo sem me limitar.

É surpreendente quantas coisas conseguimos fazer quando não ficamos nos indagando se são ou não apropriadas para nossa idade.

Então, quando a prima Nádia, que é minha fiel cicerone pelos labirintos da tecnologia virtual, propôs-me colocar fotos no cabeçalho do blogue, foi como se eu tivesse recebido um brinquedo novo.

Passei uma hora agradabilíssima ponderando critérios, avaliando nomes e caçando imagens. O resultado está aí.

Não são minhas únicas inspirações, claro, mas boa parte das principais.

Entre outras coisas, servindo para reforçar um conceito que norteia meu trabalho: o de que a política, para um revolucionário, tem significado bem maior do que as ninharias reunidas sob tal retranca nos veículos de comunicação. É proposta de vida, de amor, de comunhão e perfazimento.

Se o verdadeiro fim de nossa existência é a busca da felicidade, cabe à política otimizar as possibilidades de sermos felizes, harmoniosos e plenos - ainda mais agora que a barreira da necessidade foi superada e o reino da liberdade está ao alcance de nossas mãos.

Basta mudarmos as prioridades, reorganizando nossa existência com base em outros fundamentos: a cooperação, em lugar da competição; o bem comum, ao invés do lucro; a solidariedade, substituindo a ganância; as oportunidades iguais para todos e não o privilégio de poucos.

Então, é com desalento que recebo críticas às vezes feitas a meu trabalho, de estar abordando temas que não são políticos em espaços políticos. Como podem pessoas jovens ter uma visão tão restritiva?

Tudo que eu escrevo é político no sentido maior do termo, já que sempre embute o inconformismo com o que é e a esperança de tornarmos o que vai ser bem melhor e mais digno.

Neste sentido maior do termos, todas as 26 figuras que selecionei para a galeria são políticas, embora bibliotecários as dispersassem por estantes diferentes.

Falemos rapidamente sobre elas.

Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dividi-lo com os homens, foi acertadamente adotado pelos revolucionários como seu símbolo.

A luta quase sempre desigual que os justos travam contra os poderosos tem no gladiador Spartacus uma de suas figuras mais emblemáticas.

Thomas Morus foi um gigante: ensinou-nos a crer nas utopias e tentar concretizá-las, além de dar exemplo de dignidade e coragem diante do absolutismo.

Galileu Galilei, como tantos de nós, travou a nobre luta da razão contra a força, pagando o preço por estar certo contra as crenças e valores dominantes.

Zumbi dos Palmares encarna a luta e o orgulho de um povo sofrido e, mais do que isto, de um continente criminosamente saqueado e degradado pelos brancos "civilizados".

Só uma frase bastaria para garantir a imortalidade de Jean-Jacques Rousseau, notável inspirador da Revolução Francesa: "O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe".

A ira sagrada de Henry David Thoreau é um farol para a humanidade. Sua "Desobediência Civil" continua até hoje nos inspirando na resistência às burocracias arrogantes e aos estados tirânicos.

O libertador Simon Bolivar apontou um caminho altaneiro para a América Latina.

Anita Garibaldi, "heroína dos dois mundos", inscreveu seu nome na História como mulher idealista, dedicada e corajosa, ao lado do grande Giuseppe Garibaldi.

O maior dos teóricos revolucionários, Karl Marx foi um verdadeiro divisor de águas na história da Humanidade.

Também marcou profundamente nossa época o principal pensador anarquista, Pierre-Joseph Proudhon. Hoje, só cínicos e obtusos colocam em dúvida a verdade que ele enunciou: "a propriedade é o roubo".

Filósofa e militante, Rosa Luxemburgo era a principal liderança revolucionária alemã em 1919, quando paramilitares a executaram bestialmente, antecipando os horrores do nazismo. Deixou uma frase imortal: "a verdade é revolucionária".

O profeta Léon Trotsky liderou os bolcheviques na conquista do poder em 1917, comandou o Exército Vermelho nas batalhas que asseguraram a sobrevivência da revolução e deu a vida para tentar impedir seu desvirtuamento sob Stalin.

Cientista político e militante cuja saúde definhou nos cárceres fascistas, Antonio Gramsci deu contribuição poderosa para a compreensão dos mecanismos da sociedade contemporânea e das possibilidades de atuação revolucionária.

Sigmund Freud, outro divisor de águas, não só desbravou o território do inconsciente, como foi além da mera adequação dos indivíduos a uma sociedade insana, desenvolvendo esforço titânico para tentar curar as doenças da própria civilização.

O Mahatma Gandhi foi um dos líderes mais singulares e impressionantes da História da humanidade, conseguindo libertar 250 milhões de indianos do jugo colonial à custa do estoicismo e da autoridade moral, sem o recurso à violência.

O poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, artista superlativo, foi covardamente executado pelas bestas-feras do franquismo.

Principal teatrólogo de esquerda, autor de obra riquíssima, Bertold Brecht será lembrado também por uma das mais emblemáticas poesias do século passado, "Aos que virão depois de nós", sobre os revolucionários que fugiam do nazifascismo, "trocando mais de países que de sapatos, desesperados, quando só havia injustiça e não havia revolta".

Ernesto Che Guevara é fígura mítica do internacionalismo revolucionário no século passado.

Martin Luther King, grande defensor dos direitos civis nos EUA, conseguiu mover a História com seu sonho.

Depois de tantos presidentes se sujeitarem passivamente a ser depostos pelos gorilas latino-americanos, o chileno Salvador Allende deu exemplo de dignidade ímpar: recusou o avião oferecido pelos golpistas, preferindo morrer baleado em pleno Palácio do Governo, à frente dos colaboradores mais dedicados.

Principal influência dos estudantes revolucionários europeus nas jornadas de 1968, o filósofo Herbert Marcuse produziu análises acuradas sobre o papel da indústria cultural na perpetuação do capitalismo em países prósperos e os desafios colocados por essa manipulação cientificamente otimizada das consciências.

Símbolo da luta contra as duas ditaduras brasileiras do século passado, o dirigente revolucionário Carlos Marighella foi abatido pela repressão numa emboscada que fez lembrar os gangstêres estadunidenses.

Maior boxeador de todos os tempos, vencedor da luta do século contra George Foreman, o grande Muhammad Ali também foi campeão de cidadania, ao perder o título e comprometer a carreira em nome do seu repúdio à Guerra do Vietnã, recusando-se a dela participar como relações-públicas do intervencionismo militar.

Como um dos Beatles, John Lennon tem seu nome associado à grande revolução musical e de costumes da década de 1960. Depois, na carreira-solo, compôs uma das canções mais influentes e inspiradoras de todos os tempos, "Imagine".

Enfrentando o odioso regime segregacionista da África do Sul, Nelson Mandela passou boa parte da vida na prisão, mas sua perseverança acabou vitoriosa. Não só presidiu o país reconciliado, como se dedicou depois a inúmeras causas sociais e de direitos humanos.
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