Mostrando postagens com marcador Garry Kasparov. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Garry Kasparov. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de dezembro de 2020

ATUALIZAÇÃO DA FÓRMULA DO "KARATE KID", A MINISSÉRIE "O GAMBITO DA RAINHA" BEM QUE PODERIA CHAMAR-SE "CHESS GIRL"

L
igado no xadrez desde a minha meninice, eu já assistira a, no mínimo, uma dezena de filmes sobre a trajetória de enxadristas reais ou fictícios quando foi lançada a minissérie O gambito da rainha, criada por Scott Frank e Allan Scott, com sete episódios totalizando 6h33.

Então, apesar de iniciar sempre as minhas partidas com o dito gambito da dama, nem esta coincidência me animou a encarar a série. Só reavaliei por causa do surpreendente sucesso na TV por assinatura (me deixou curioso) e da recomendação da minha filha mais velha, que gostou muito.

Trata-se de um melodrama sobre uma menina que perde a mãe e  acaba no fundo do poço: um orfanato mantido por uma instituição religiosa. Lá um improvável zelador lhe ensina xadrez às escondidas da direção e lá também ela se vicia num calmante que lhe dá barato. E passa o resto da série dividida entre a tentação das bebidas e das drogas e a redenção como enxadrista. 

No fundo, embora o público mais sofisticado que a está curtindo não se dê conta, a receita do Karate Kid foi atualizada e temos agora uma Chess Girl. São dois produtos da indústria de entretenimento que mostram trajetórias atípicas mas fascinantes, até porque os personagens principais cativam e atraem a torcida dos espectadores:
— 
a dupla Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Sr. Miyagi (Pat Morita) no primeiro, juntando um filho sem pai com um pai que perdeu a família num bombardeio da 2ª Guerra Mundial; e, 
— no segundo, Beth Harmon (Anya Taylor-Joy, que lembra a Natassja Kinski quando jovem e tem um olhar mais expressivo ainda), a Cinderela conduzida pela carruagem do xadrez para o baile da corte, mas cujos traumas a fazem amiúde embarcar na abóbora da volta para a autodestruição.

Uma boa sacada foi ambientar a história no final dos '60, período em que a
guerra fria fez até o xadrez virar um peão (o duplo sentido cai como uma luva) da guerra de propaganda entre EUA e URSS.

Assim, depois de o furacão Bobby Fischer (tão genial quanto dividido entre a severa disciplina enxadrística e objetivos mais prosaicos, como grana e holofotes) conquistar e manter por três anos a hegemonia do xadrez mundial, os estadunidenses pegaram gosto pela coisa e resolveram encontrar outro alguém que humilhasse os soviéticos num dos esportes favoritos dos ditos cujos.  

Primeiramente elegeram como seu queridinho Viktor Korchnoi, um grande mestre internacional que em 1976 escolheu a liberdade, emigrando da União Soviética para morar na Suíça, mas dando a nítida impressão de que o fazia apenas por considerar que a federação de xadrez da URSS o desfavorecia na corrida atrás do título mundial. Não adiantou: disputou duas vezes a coroa com Anatoly Karpov, em 1978 e 1981, fracassando em ambas as tentativas.

Mais sorte tiveram os propagandistas dos EUA na escolha seguinte, um jovem enxadrista de estilo ousado e agressivo, muito melhor do que Korchnoi e um verdadeiro dissidente do burocratizado e fossilizado regime soviético: Garry Kasparov. Este protagonizou EM 1985 a maior disputa de título mundial de todos os tempos, contra Anatoly Karpov (foto abaixo).

O cauteloso Karpov começou se defendendo bem e aproveitando os erros de Kasparov, que se lançava com volúpia ao ataque. Colocou 5x1 no marcador. Precisava só da sexta vitória para vencer o match.
Aí Kasparov resolveu responder na mesma moeda: retrancou o seu jogo e não correu mais risco nenhum. Deu-se, então, uma sequência infernal de empates, uns vinte, se bem me lembro.

O franzino Karpov tinha menos resistência física e mental: na 47ª partida começou a desmoronar. Perdeu essa e a seguinte. Como as regras não admitiam interrupção por decisão médica, só lhe restava entregar os pontos ou ir para o tabuleiro sofrer mais três derrotas. Estava inapelavelmente vencido.

Foi quando o presidente da federação, um filipino, anulou o match por desumanidade. Decisão criticadíssima. E, quando nova disputa se travou a partir do zero, alguns meses depois, Kasparov, claro, massacrou Karpov. Depois de cumprir, assim, seu rito de passagem, ele se manteria durante os 15 anos seguintes como o maior de todos (de sua e das outras épocas).

Um detalhe significativo da série é quando Beth Harmon vê grandes mestres soviéticos analisando com Borgov (Marcin Dorocinski) a posição em que a partida havia sido interrompida. E o Benny (Thomas Brodie-Sangster) também já a advertira que, contra estrangeiros, a elite do xadrez da URSS atuava unida, todos por um.

Foi o que destruiu o melhor enxadrista que o Brasil já produziu, o Mequinho: p. ex. nas quartas-de-final do torneio dos candidatos ao direito de desafiar o campeão mundial, em 1974, ele tinha de analisar as partidas interrompidas madrugadas adentro, com a ajuda de poucos e fracos enxadristas brasileiros, enquanto Korchnoi ia passear com a família e deixava a tarefa com seu fabuloso time, só tomando conhecimento das conclusões na manhã do dia seguinte. 

O efeito cumulativo do esforço excessivo efetuado nessa e em tantas outras ocasiões certamente teve influência decisiva para ele para contrair uma miastenia grave em 1978.

Senti na pele como a obsessão do xadrez age. Eu e um grande amigo, aliás, vivemos o mesmo processo, com resultados ligeiramente diversos.

Ele, engenheiro de alto gabarito, trabalhando numa grande empresa pública que tinha enxadristas aos montes, conseguiu chegar à final do torneio interno. Capturou a dama do adversário, relaxou, deixou-se surpreender e perdeu uma partida praticamente ganha. 

Passou algumas semanas remoendo o que ocorrera, como errara, o que deveria ter feito, etc. Finalmente, concluindo que assim acabaria enlouquecendo, desistiu por completo do xadrez.

Eu também disputei com colegas de trabalho. Nem era tão significativa a competição, mas fiquei extremamente irritado por, com as brancas, ter sucumbido a um adversário de jogo calculista e covarde, que forçou trocas de todas as peças principais e secundárias, até sobrarem no tabuleiro os reis e um peão dele que eu não podia impedi-lo de coroar e transformar em dama. 

Eu passei uns 10 dias obcecado não com o que ocorrera, mas com a ansiedade da revanche. Não queria apenas derrotá-lo, mas o fazer de forma devastadora, mostrando como também se pode ganhar assumindo riscos e jogando com coragem.

Sei lá como eu ficaria se fracassasse. Mas, atuando de forma kamikaze como nunca, acabei obtendo uma vitória rápida que me lavou a alma. Provavelmente devo tê-lo surpreendido por cair matando antes mesmo de desenvolver as peças, como se estivesse eu a jogar com as brancas. 

Mas, passado o transe, decidi que nunca mais deixaria o xadrez me levar tão longe. E, desde então, nas raras ocasiões em que voltei a jogar, foi sempre encarando-o como esporte e não como disputa de vida ou morte.
Por último: o melhor dos muitos filmes sobre xadrez que vi foi
Lances Inocentes (d. Steven Zillian, 1993), sobre um personagem verídico, jovem prodígio do tabuleiro que começa derrotando todos os garotos de sua faixa de idade, mas de repente é surpreendido pela aparição de um menino melhor ainda. 

A pedra no caminho o abala muito, mas ele acaba dando a volta por cima ao mesclar as lições do mestre (Ben Kingsley) contratado pelo pai (Joe Mantegna) com os ensinamentos de um enxadrista de parques (Laurence Fishburne, foto acima) que se sustenta apostando em partidas-relâmpago e as vencendo. Ou seja, seu diferencial passa a ser o de dominar, além de teoria, também os macetes e improvisações do xadrez das ruas.     

E o melhor de tudo: depois de obter sua vingança e recuperar a hegemonia, ele não se restringe mais ao xadrez, passando a praticar vários outros esportes e saindo-se bem, no nível de atleta universitário, em todos. Foi um desfecho inesperado, mas muito mais saudável do que a compulsão pelas vitórias. (por Celso Lungaretti)
Em O sétimo selo, obra-prima de Ingmar Bergman, o cavaleiro 
disputa uma partida de xadrez contra a própria Morte e,
se conseguir derrotá-la, terá sua vida poupada.

domingo, 30 de agosto de 2020

O MELHOR FUTEBOLISTA DA NOSSA ÉPOCA MERECE UM CANTO DO CISNE FULGURANTE

TOSTÃO
O RELACIONAMENTO ENTRE BARCELONA
E MESSI PARECE TER CHEGADO AO FIM
Parafraseando uma das mais belas crônicas, poemas, do poeta e escritor Paulo Mendes Campos, o amor acaba, por dezenas de motivos. Parece certo que terminou o profundo e longo relacionamento afetivo entre Messi e Barcelona.

A gota d’água foi a derrota de 8 a 2 para o Bayern, pelas quartas de final da Liga dos Campeões. Messi se sentiu humilhado e já tinha avisado, após a perda do título espanhol para o Real Madrid, que a equipe, se não melhorasse, passaria por muitas vergonhas. Ele não sabia que seria tão grande.

O amor acabou muito antes, por causa das condutas da diretoria, como as de criticar os jogadores por algumas derrotas, pelas negociatas relatadas na imprensa e por não se empenhar na contratação de Neymar, a pedido de Messi, que queria fazê-lo seu herdeiro.

O fascínio terminou quando Messi viu também que a bola que saía de seus pés não voltava como ele queria e que tinha de fazer muito mais esforço para marcar seus gols. Viu que o Barcelona estava desajustado, ultrapassado. Constatou ainda o óbvio, que o tempo passa e que ele não é eterno.

O Barcelona implodiu. Não quer ficar mais com vários de seus principais jogadores, como Suárez, Rakitic, Busquets, Piqué e Jordi Alba, muitos deles da geração de Messi, formados em La Masia, centro de formação de jogadores do clube.

Iniesta, Messi e Xavi faziam do Barça o melhor time da História
O clube catalão se iludiu que a grande geração de Messi, que teve também Xavi, Iniesta e Fàbregas, poderia ser replicada em laboratório e que haveria uma fórmula mágica de produção de craques. 

Da geração seguinte ainda não surgiu nenhum fora de série, embora haja algumas promessas. A maioria já foi testada, não apresentou qualidades para jogar no Barcelona e foi cedida para times médios da Europa.

A estrutura física e técnica na formação de atletas é importantíssima, essencial, mas não é garantia que sempre surgirão craques. Algumas vezes, os fenômenos nascem do nada, sem explicação. Muitas grandes equipes da história foram formadas assim, por acaso.

Por causa da pouca qualidade da geração seguinte à de Messi, o clube gastou fortunas para contratação de jogadores, sem sucesso, como Coutinho, Arthur, Dembélé, Griezmann e outros. Todos são muito bons, mas criaram uma expectativa acima da realidade. O time atual possui várias deficiências coletivas e individuais.

O amor acaba, mas pode renascer noutro clube, país, com novos companheiros. Há sempre alguém à espera, com muito carinho. A carreira magistral de Messi ainda não terminou. Precisamos vê-lo por mais tempo. Será um vazio sem ele. 

Ou Messi está cansado de tanta pressão, de tanta responsabilidade, de ser, em todos os jogos, o genial atleta que é?
Messi pode estar com vontade de voltar a Rosário (onde jogou na infância) e encerrar a carreira no Newell’s Old Boys; ou de sentar-se na praça e sonhar com outros prazeres, antes que a sociedade do espetáculo, sedenta por novos ídolos, se canse dele. (Tostão, tri mundial em 1970 e nosso melhor comentarista  esportivo atual)
.
TOQUE DO EDITOR — Nos esportes torço, acima de tudo, pela arte. Então, antecipadamente lamento o vazio que a aposentadoria do (indiscutivelmente) melhor futebolista do século 21 e (provavelmente)  maior de todos os tempos deixará. 

Os idiotas da objetividade (como Nelson Rodrigues qualificava os incapazes de captar a beleza em estado puro que a vida às vezes nos proporciona, limitados ao perde/ganha que lhes dá uma ilusão de serem vitoriosos e não os  eternos perdedores que são na injusta sociedade atual) exibirão números, eu prefiro o êxtase. A cada um, o seu.

Era apaixonado pelo futebol da socrática democracia corinthiana, ia em todas as suas  partidas no Morumbi ou Pacaembu; enquanto reinou, Muhammad Ali me ver boxe como nunca  antes nem depois; após Federer pendurar a raquete, provavelmente passarei anos sem interessar-me pelo tênis; até no xadrez me viciei quando o destemido Kasparov desafiava os burocráticos e cautelosos Karpovs que tinham, todos, a cara da revolução traída.  
Está chegando a hora de me deixar órfão futebolístico por uns tempos o cracaço Messi, maior símbolo da revolução catalã da década passada, quando voltei a me deliciar com um futebol brilhante, alegre e ofensivo que pensava ter deixado para trás.

Torço para que, seja ao lado de Guardiola e De Bruyne, ou de Neymar e Mbappé, ele tenha um fim de carreira à altura de sua genialidade e de toda beleza que nos entregou. 

Gostaria que houvesse sido na heroica e rebelde Catalunha, pela qual tanto apreço tenho. Mas, um atleta com a idade dele não tem mais tempo útil pela frente que lhe permita esperar o Barcelona renascer das cinzas. 

Paciência. Mesmo que seja num time da pérfida Albion, mas ao lado do melhor técnico da nossa época, que tenha um canto de carreira capaz de calar até o mais obtuso e empedernido idiota da objetividade! (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

GRANDE CAMPEÃO ENSAIA UM MAGNÍFICO CANTO DO CISNE

Se alguns leitores deste blogue ficam escandalizados quando eu escrevo sobre o futebol, por eles tido como o  ópio do povo,  o que dirão ao encontrarem aqui algumas mal traçadas linhas sobre o  elitista  tênis?

Mas, nunca nego ou escondo minhas devoções e predileções. Jamais submeterei meus temas a triagens ideológicas,  submetendo-me a modismos e patrulhamentos.

Os pernósticos cricris que passam a vida procurando pêlo em ovo podem produzir verdadeiros tratados sobre a existência de implicações racistas na obra de Monteiro Lobato, que eu continuarei rindo na cara deles. 

Sou fiel ao primeiro autor a me estimular o espírito crítico, que fez uma obra grandiosa e,  last but not least, confrontou corajosamente os poderosos do seu tempo; não aos aprendizes de inquisidores que pensam ser de esquerda ao tentarem nos impor index.

Hoje é um dia em que não encontrei nada que me inspirasse em termos de  assuntos sérios. Gostaria de acreditar que ainda é possível fazer algo contra o golpe paraguaio, como os companheiros que articulam reuniões públicas, protestos e corrente virtuais, mas sei que o  impeachment-relâmpago  é fato consumado, só nos restando tomar precauções contra as viradas de mesa vindouras. Depois de Honduras não o fizemos e fomos surpreendidos pela segunda vez. Quantas mais?!

Enfim, apeteceu-me enfocar o tênis, apenas e tão somente porque Roger Federer tem no torneio de Wimbledon uma chance única, imperdível, de fechar sua trajetória com um canto do cisne magnífico.
* * *
Afora o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no automobilismo e no tênis.

Refletindo um pouco sobre essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole inacessível aos comuns mortais.

No boxe, todos lembram a técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos. Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam) durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera em pé.

No xadrez também a pressão moral que um campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas combinações enquanto o relógio o acossa.

É simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1 contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem cometer falha nenhuma.

Forçou empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar tal total).

O socorro suspeito do presidente filipino da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.

No automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1 por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca de pneus, nas vezes em que isto bastava).

E Federer? Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em todos os fundamentos, ele já foi capaz de reerguer-se uma vez depois que derrubado do pedestal por Rafael Nadal e ameaça repetir o feito agora.

Acostumado ao predomínio absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante alguns meses, no segundo semestre de 2008.

Mas, nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de retomar sua coroa.

Para sua surpresa, acabou sendo bem mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a inspiração de Federer.

O preço acabou sendo alto: depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no joelho.

E Federer, que sempre mantivera o sacrifício exigido de seus músculos no limite do razoável, voltou ao topo por uns tempos.

Os jovens contra-atacaram: não só Nadal o desalojou de novo, como Novak Djokovic veio numa arrancada fulminante e superou a ambos. Federer chegou até mesmo a ceder a terceira posição no ranking, esporadicamente, a Andy Murray.

Não ganha um torneio de grand slam (os quatro principais do tênis: Wimbledon, Rolland Garros, Aberto da Austrália, US Open) desde o início de 2010.

Rico, respeitado e aclamado, feliz no casamento, de bem com a vida, pai coruja de duas gêmeas, tudo levava a crer que se curvaria à evidência dos fatos, pendurando a raquete como o maior de todos os tempos.

Mas, perseverou. E não como coadjuvante, o papel que Schumacher vem desempenhando estoicamente desde sua volta às pistas. Reciclou seu jogo, aperfeiçoou alguns golpes, melhorou as estratégias.

Foi buscar novas armas, já que as antigas tinham sido alcançadas pelos rivais. Seu saque, p. ex., agora é muito mais poderoso, abrindo caminho para vitórias rápidas contra os adversários mais fracos --dada a importância, no caso de um veterano, de guardar energias para enfrentar os mais fortes.

Então, desde o semestre passado, ele vem pouco a pouco se reaproximando do topo, armando o bote. E, agora, pode conseguir este feito que parecia impossível para um tenista  com mais de 30  (vai completar 31 anos em agosto), dependendo de sua colocação e da de Djokovic no torneio de Wimbledon, em curso; se for campeão, p. ex., ele voltará ao topo do ranking, além de igualar o recorde de mais semanas de permanência como o nº 1.

* * *

Como todo ser humano, admiro quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas, nas batalhas da vida.

E tenho, confesso, uma satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de relevante no presente que vivemos.

Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.

Mas, em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do quarto, no panteão dos deuses do esporte.

domingo, 15 de janeiro de 2012

DEUSES DO ESPORTE

Hoje é um domingo daqueles que inspiraram os versos de Gilberto Gil, "O jornal de manhã chega cedo/ Mas não traz o que eu quero saber/ As notícias que leio conheço/ Já sabia antes mesmo de ler" (Domingou).

Jornalões e revistonas valorizam assuntos menores durante meses mortos como janeiro, porque, para eles, o importante é preencher espaços.

Não é o meu caso. Então, à falta de algo realmente palpitante, prefiro reeditar um bom texto do passado. 

Como este que escrevi há quase um ano e tem agora a serventia adicional de servir como tributo a Muhammad Ali, um dos maiores ícones da minha geração, que completará 70 anos depois de amanhã.

DEUSES DO ESPORTE

Com uma vitória magnífica no Aberto da Austrália, Roger Federer confirmou sua condição de maior tenista de todos os tempos.

E daí, perguntarão os leitores deste blogue, acostumados a nele encontrarem, principalmente, abordagens políticas?

No meu caso, a paixão por alguns esportes antecedeu qualquer juízo político ou ideológico, então não tenho justificativas óbvias para dar.

Por exemplo, sou corinthiano, torcedor do time do povo. Mas, a opção futebolística veio quando, aos quatro anos de idade, moleques da rua me perguntaram para qual time torcia e eu não sabia o que responder, por que isso nunca me interessara.

Mas, é uma idade em que não queremos ficar em desvantagem aos olhos alheios. Então, disse "Corinthians", porque era o time do meu pai. E Corinthians ficou.

Mais tarde, percebi ter feito a escolha certa. Provavelmente por ter sido o primeiro grande paulista a admitir negros no seu elenco, os miseráveis e excluídos adotaram o Corinthians como seu representante mítico.

Assim, tem como símbolo mais frequente o mosqueteiro, um herói das classes baixas lutando contra os poderosos da corte para fazer prevalecer a verdadeira justiça.

Mas, a idade foi mudando meu olhar para o mundo. Até 1977, eu era como qualquer torcedor fanático, querendo que, a qualquer preço, o Corinthians fosse campeão, pois não conquistava esse título desde 1954.

O fim do jejum me libertou para apreciar o futebol mais como beleza. Principalmente porque o Corinthians passou a dar exibições primorosas da arte futebolística, com a dupla Sócrates/Palhinha em 1979 e com o inesquecível time da democracia corinthiana em 1982 e 1983.

Foi também a época da extraordinária Seleção Brasileira do Mundial de 1982, com os foras-de-série Falcão, Zico e Sócrates na zona de raciocínio, produzindo seus lampejos fulgurantes.

Era como ter Cruyff desdobrado em três, regendo uma orquestra que produzia sonoridades sublimes (mas, às vezes, desafinava por causa da indefinição quanto a quem realmente eram os solistas...).

Foi a derrota mais sofrida de quantas amarguei no futebol. Eu trocaria dez conquistas insossas como a de 1994 pela vitória do futebol-arte em 1982.

E os esportes individuais?

Afora o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no automobilismo e no tênis.

Refletindo um pouco sobre essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole inacessível aos comuns mortais.

No boxe, todos lembram a técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos. Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam) durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera em pé.

No xadrez também a pressão moral que um campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas combinações enquanto o relógio o acossa.

É simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1 contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem cometer falha nenhuma.

Forçou empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar tal total).

O socorro suspeito do presidente filipino da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.

No automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1 por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca de pneus, nas vezes em que isto bastava).

E Federer? Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em todos os fundamentos, ele foi capaz de reerguer-se depois que derrubado do pedestal por Rafael Nadal. Acostumado ao predomínio absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante alguns meses, no segundo semestre de 2008.

Mas, nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de retomar sua coroa.

Para sua surpresa, acabou sendo bem mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a inspiração de Federer.

O preço acabou sendo alto: depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no joelho que comprometeu sua temporada passada e o atormenta até hoje.

E Federer, que sempre manteve o sacrifício exigido de seus músculos no limite do razoável, agora reina soberano e pulveriza todos os recordes, tal qual Schumacher.

Como todo ser humano, admiro quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas, nas batalhas da vida.

E tenho, confesso, uma satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de relevante no presente que vivemos.

Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.

Mas, em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do quarto, no panteão dos deuses do esporte.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

ONTEM EU VI UM SUPER-HOMEM DE VERDADE

Esqueçam Nietzsche e seus delírios de superação dos homens por "alguma coisa superior a si mesmos". São fantasias nefastas, que desembocam diretamente no elitismo, além de ramificarem com aberrações totalitárias como o nazismo.

Esqueçam as igualmente nefastas fantasias dos quadrinhos, que colocaram os humanos sob a tutela de um protetor extraterrestre, como se fossem eternas crianças, incapazes de zelar por si próprios. Sabemos que tipo de tutela ofereciam os propagadores destas fantasias.

Os super-homens verdadeiramente existentes são apenas homens que, além de dotados de enorme talento, fazem-se maiores em função dos desafios que enfrentam.

O esporte é pródigo em colocar os indivíduos diante de tais desafios. E é aí que tenho encontrado super-homens.

Como Muhammad Ali, não só um dos maiores pugilistas de todos os tempos, mas também um homem com uma visão tão grandiosa de si mesmo que era capaz de submeter-se a sofrimentos e pressões terríveis para se colocar à altura do modelo que erigira.

Assim, teve a mandíbula quebrada no 2º assalto de uma luta nem sequer decisiva e, ao invés de ir logo para o hospital receber tratamento e sedativos, preferiu suportar a dor insana até o final, com sério risco de agravar a contusão.

Qualquer ser humano normal consideraria injustificável tamanho sacrifício apenas para perder por pontos ao invés de abandono. Mas não Ali.

MUHAMMAD ALI, CAMPEÃO TAMBÉM FORA DO RINGUE - Depois, houve a luta do século contra George Foreman, que ele não poderia vencer mas venceu, aliando estoicismo, coragem e estratégia impressionantes.

Após nocautear o adversário, Ali teve até um ligeiro desmaio, tal o castigo que suportara. Nunca a história de Davi e Golias foi tão fielmente reproduzida em nossos tempos.

E era capaz igualmente de agüentar pressões morais como a que a sociedade estadunidense, a mídia e o submundo do boxe lhe moveram, para que se resignasse a posar de soldadinho de chumbo na Guerra do Vietnã.

Em nenhum momento se pretendeu colocá-lo em combate. Queriam-no como propagandista do pseudo-patriotismo, a protagonizar ações de relações-públicas que levariam outros a morrerem por uma causa injusta, enquanto ele permaneceria bem longe do abatedouro.

Sua recusa implicou a perda do cinturão mundial; a interrupção da carreira no auge, quando era imbatível; e prejuízo financeiro de milhões de dólares. Não cedeu, ficando anos fora dos ringues.

Para termos um parâmetro de comparação, lembremos de quando o grande goleiro Rogério Ceni foi afastado da equipe por causa de um bate-boca público com o presidente do São Paulo. Tinha carradas de razão, contra o arrogante cartola.

Já era um ídolo, mas foi abandonado pela imprensa esportiva, sempre mancomunada com os poderosos; pela infiel torcida organizada, sempre teleguiada pelos poderosos; e pelos torcedores comuns, sempre ressentidos contra os que quebram a hierarquia à qual eles próprios se submetem como cordeirinhos em seu cotidiano.

Ceni resistiu no limite do possível, foi mais digno do que a grande maioria dos esportistas brasileiros nessas situações. Mas, depois de algumas semanas de ostracismo, sucumbiu, admitindo um erro que não cometera.

Já Ali, perdendo muito mais, manteve-se firme até que o deixassem voltar incondicionalmente.

O MENINO KASPAROV SE FEZ HOMEM NO TABULEIRO - Outro super-homem da vida real é Garry Kasparov que, quando jovem gênio do xadrez, venceu um duelo épico contra o campeão Anatoly Karpov, em 1984.

Tão ousado nos tabuleiros quanto na vida, Kasparov simpatizava com o sindicato Solidariedade na Polônia e lançava críticas veladas à nomenklatura da URSS (a nova classe engendrada pelo desvirtuamento stalinista da revolução de 1917), enquanto Karpov fazia o gênero de fiel vassalo do regime. Isto tornou o match entre ambos, também, uma exacerbada guerra política.

Perdendo por 5x1, à beira do abismo (a disputa acabaria quando um deles obtivesse a sexta vitória), Kasparov decidiu imitar o cauteloso adversário, trancando seu jogo, não correndo mais riscos e apostando no erro alheio.

Fácil de falar, dificílimo de fazer, ainda mais quando se trata de um jovem desafiante contra um campeão adulto, em meio a pressão extremada.

Mas, conseguiu. Houve uma sucessão interminável de empates (mais de 20 consecutivos, dos 40 que o match registrou), até que foi Karpov quem entrou em parafuso, sucumbindo ao estresse.

Perdeu duas seguidas e perderia quantas mais disputasse, se o presidente da Federação não suspendesse arbitrariamente o match, decretando-o empatado por “desumanidade das regras”.

Um enxadrista brasileiro definiu com muita propriedade a indiscutível vitória moral de Kasparov: “o menino se fez homem no tabuleiro”.

O ESTILISTA FEDERER APRENDEU A SER GUERREIRO - Neste domingo, o suíço Roger Federer ingressou na seleta galeria dos esportistas que transcendem o próprio esporte, personificando virtudes maiores de um ser humano.

Fenômeno do tênis, Federer é “ótimo” ou “muito bom” em cada um de seus fundamentos. Com isto, reinava soberano e sem antagonistas que verdadeiramente o ameaçassem, até que o espanhol Rafael Nadal alcançou o seu nível competitivo no ano passado.

Acostumado a vencer sem muito esforço, o estilístico Federer foi surpreendido pelo tênis-força de Nadal, que compensava sua inferioridade técnica com uma incrível determinação, disputando cada ponto como se sua vida dependesse disso.

Num primeiro momento Federer ficou desconcertado, perdendo a confiança essencial ao grande tenista.

Mas, de 2008 para 2009 conseguiu se reconstruir, acrescentando a tenacidade às virtudes que já possuía.

O sexto título de Wimbledon seria a coroação de sua volta por cima, colocando-o como o maior recordista dos quatro torneios mais importantes (o chamado Grande Slam) em todos os tempos e devolvendo-lhe a condição de nº 1 do ranking.

Mas, encontrou pela frente um adversário inspiradíssimo, que fez a melhor exibição de sua carreira e nada tinha a perder, já que entrava como azarão.

Federer conseguiu suportar a pressão do favoritismo e a ansiedade de quem disputava a partida mais importante de todas que já travara, a um passo da consagração absoluta.

E, depois de mais de quatro horas de maratona tenística, com o set decisivo terminando num inacreditável 16x14, provou que agora é campeão também de firmeza e autocontrole, as virtudes que lhe faltaram no ano passado.

Foi um momento grandioso como só o esporte nos tem conseguido proporcionar nestes melancólicos tempos presentes.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

RONALDO: DE FENÔMENO A LENDA VIVA

O esporte é pródigo em propiciar dramas humanos impressionantes, como o que está hoje no noticiário: a incrível ressurreição de Ronaldo Fenômeno.

Ele tem uma trajetória marcada por altos (estratosféricos) e baixos (abissais).

Vinha numa fulgurante carreira, incluindo uma Copa do Mundo conquistada como reserva (1994), quando teve convulsões à véspera da decisão do Mundial seguinte e acabou levando a culpa pela derrota brasileira diante da França.

A via crucis prosseguiu com uma sucessão de contusões graves, tornando totalmente insensata a aposta do técnico Felipão de apostar nele como titular para a Copa de 2002.

Magicamente, aquelas poucas semanas foram um breve hiato em suas desventuras: não só teve participação das mais destacadas, como fez os dois gols da partida final contra a Alemanha.

Em seguida, voltaram as contusões, acrescidas de confusões matrimoniais e pessoais, como o episódio da noitada com travestis. Obeso, desmotivado, parecia ter chegado ao fundo do poço.

Como Felipão, o Corinthians apostou em Ronaldo contra todas as evidências. E parecia ter queimado dinheiro quando o jogador teve outra noitada de loucuras, desta vez acompanhando a delegação que foi a Presidente Prudente disputar uma partida pelo Campeonato Paulista.

Depois do fuzuê num bordel, chegou até a tomar um táxi para desertar da cidade e do clube. Mas, mudou de idéia no caminho, mandou o motorista dar meia-volta e apresentou-se para o treino, umas seis horas atrasado...

A redenção começou na partida contra o Palmeiras, quando entrou em campo na metade do segundo tempo e surpreendeu a todos com três lances agudos: um chute de longe no travessão, um centro perfeito para a cabeçada de um companheiro (o goleiro evitou o gol) e o tento de empate no finzinho dos acréscimos.

No primeiro tempo, no banco de reservas, Ronaldo foi focalizado pela tevê logo após o arqueiro palmeirense ter falhado ao tentar interceptar um cruzamento. Ele comentou algo com quem estava ao lado, dando um sorriso.

Quando a partida estava para terminar, houve um escanteio e ele se colocou na segunda trave, exatamente onde a bola chegaria caso fosse cruzada pelo alto e o goleiro falhasse. A possibilidade desenhada na sua mente virou realidade, como se os deuses dos estádios estivessem de plantão para atender seus desejos.

Depois, na semifinal contra o São Paulo, novamente a magia se fez presente: entrou em campo determinado a calar a boca do diretor de futebol adversário que se referira desdenhosamente a ele como ex-jogador.

E conseguiu: um passe longo e perfeito de Ronaldo desmontou a defesa tricolor e deu origem ao primeiro gol. Logo em seguida, com um pique impressionante para um atleta acima do peso, já entrado nos anos e que sofreu contusões muito sérias, ele deixou o zagueiro para trás e fez um tento inacreditável.

Agora, na decisão contra o Santos, atingiu o ápice em seu novo estilo minimalista: participa pouquíssimo do jogo, mas aparece sempre de forma letal.

Primeiramente pegou um espirrão do meio de campo e, com uma matada de bola perfeita, colocou a bola na medida para fazer um disparo certeiro.

Depois, a apoteose: percebendo desde o primeiro tempo que o goleiro adversário adiantava-se muito, teve, finalmente a oportunidade para aproveitar o vacilo, ao receber a bola num contra-ataque, dar um drible desmoralizante no marcador e desferir uma folha seca digna do velho Didi.

Ao renascer novamente das cinzas, ele está escrevendo uma página lendária na história do futebol.

MUHAMMAD ALI E GARRY KASPAROV - Sempre fui fascinado por esses dramas humanos do esporte. Duas situações, em especial, me atraem muito: os grandes veteranos em busca de um canto do cisne à altura e o rito de passagem (momento de afirmação) dos jovens talentos.

Na primeira categoria, claro, a principal proeza foi a vitória de Muhammad Ali sobre George Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos.

Depois de passar anos fora dos ringues em razão da injusta pena que recebeu da máfia do pugilismo por se recusar a vestir a farda dos EUA na Guerra do Vietnã, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, sairia morto do ringue. Mas, com uma força de vontade incomum e um discernimento mais raro ainda entre boxeadores, encontrou a tática capaz de fazer Davi vencer Golias: deixar-se golpear nas cordas por intermináveis assaltos, confiando na sua guarda e esperando o cansaço minar Foreman.

No oitavo round o gigante vacilou e Ali, com uma energia da qual ninguém o julgava ainda capaz, desferiu uma sequência fulminante de golpes em alta velocidade, fazendo Foreman desabar lentamente, como uma torre. Um momento épico.

Poucos notaram, entretanto, que o castigo contínuo a que Ali fora submetido lhe causou até um rápido desmaio durante a comemoração do triunfo. Talvez ele tenha sido o mais próximo que já vimos de um super-homem: um pugilista estilístico, que lutava de forma inteligente e artística mas, ao mesmo tempo, tinha extrema resistência à dor.

Certa vez sua mandíbula foi fraturada no 2º assalto por Ken Norton e, mesmo assim, ele resistiu até o final da luta, para perder apenas por pontos. Foi um assombro no mundo do boxe. Ali não só exibia um ego gigantesco, mas se mostrava sempre à altura do personagem que criara para si próprio...

Na categoria de rito de passagem, o mais exemplar foi o de Garry Kasparov. Ousado no xadrez e na vida, ele era visto como uma ovelha negra pelos trombas do regime soviético, pois não se prostrava à burocracia dominante.

Então, ao desafiar o conformista Anatoly Karpov pelo posto de nº 1 do xadrez mundial, os fatores esportivos e políticos se confundiram na disputa. Era um franco-atirador enfrentando o poderoso stablishment enxadrístico da URSS.

Burocrático no xadrez como na política, Karpov começou se defendendo bem e aproveitando os erros de Kasparov, que se lançava com volúpia ao ataque. Colocou 5 x 1 no marcador. Precisava só da sexta vitória para vencer o match.

Aí Kasparov resolveu responder na mesma moeda: retrancou o seu jogo e não correu mais risco nenhum. Deu-se, então, uma sequência infernal de empates, uns vinte, se bem me lembro.

O franzino Karpov tinha menos resistência física e mental: na 47ª partida começou a desmoronar. Perdeu essa e a seguinte. Como as regras não admitiam interrupção por decisão médica, só lhe restava entregar os pontos ou ir para o tabuleiro sofrer mais três derrotas. Estava inapelavelmente vencido.

Foi quando o presidente da federação, um filipino, anulou o match por "desumanidade". Decisão criticadíssima. E, quando nova disputa se travou a partir do zero, alguns meses depois, Kasparov, claro, massacrou Karpov.

Um enxadrista brasileiro (talvez Helder Câmara), comentando diariamente o match no Jornal da Tarde, avaliou: ao superar seu maior desafio, caminhando no fio da navalha, o menino Kasparov se tornara um homem. Perfeito.

Nos últimos anos, torci muito para que Andre Agassi e Zinedine Zidaine tivessem cantos do cisne fulgurantes; subi nas paredes quando uma maldita quebra do motor impediu Michael Schumacher de encerrar a carreira como campeão; e fiquei imensamente frustrado por Oscar Schmidt ter abandonado as quadras sem o reconhecimento oficial de que foi o maior cestinha de todos os tempos.

Agora, estou torcendo para Federer e Ronaldinho Gaúcho darem a volta por cima; para o menino Messi sair-se bem no seu rito de passagem, tornando-se um novo Maradona (falta a prova de fogo de uma Copa do Mundo); e para Ronaldo continuar escrevendo seu épico, ao qual acrescentou ontem um novo capítulo (gol de placa).

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

SOBRE RITOS DE PASSAGEM E CANTOS DO CISNE

Roger Federer deu um grande passo em sua perseguição a Pete Sampras, de quem tenta arrebatar o cetro de principal colecionador de títulos dos quatro principais torneios do tênis mundial (o chamado  Grand Slam).

São só quatro por ano e Federer, em aparente declínio, não ganhara nenhum em 2008. Mas, aproveitou bem sua última chance de não passar a temporada em branco: o Aberto dos EUA.
Tem, agora, um grande incentivo para confrontar o  furacão Nadal em 2009: a perspectiva de, ganhando mais dois torneios, tornar-se o indiscutível maior tenista de todos os tempos.

Federer foi (definitivamente?) desalojado da posição de nº 1 das quadras por Nadal, mas ainda tem chance de fechar com chave de ouro sua carreira, superando os 14 Grand Slam de Sampras. Só que terá de fazê-lo logo, em 2009 ou 2010, pois a idade vai ser, cada vez mais, sua inimiga.

Sempre fui fascinado pelos dramas humanos no esporte. Duas situações, em especial, me atraem muito: os grandes veteranos em busca de um canto do cisne à altura e o rito de passagem (momento de afirmação) dos jovens talentos.

Na primeira categoria, claro, a principal proeza foi a vitória de Muhammad Ali sobre George Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos.

Depois de passar anos fora dos ringues em razão da injusta pena que recebeu da máfia do pugilismo por se recusar a vestir a farda dos EUA na Guerra do Vietnã, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, sairia morto do ringue. Mas, com uma força de vontade incomum e um discernimento mais raro ainda entre boxeadores, encontrou a tática capaz de fazer Davi vencer Golias: deixar-se golpear nas cordas por intermináveis assaltos, confiando na sua guarda e esperando o cansaço minar Foreman.

No oitavo round o gigante vacilou e Ali, com uma energia da qual ninguém o julgava capaz, desferiu uma sequência fulminante de golpes em alta velocidade, fazendo Foreman desabar lentamente, como uma torre. Um momento épico.

Poucos notaram, entretanto, que o castigo contínuo a que Ali fora submetido lhe causou até um rápido desmaio durante a comemoração do triunfo. Talvez ele tenha sido o mais próximo que já vimos de um super-homem: um pugilista estilístico, que lutava de forma inteligente e artística mas, ao mesmo tempo, tinha extrema resistência à dor.

Certa vez sua mandíbula foi fraturada no 2º assalto por Ken Norton e, mesmo assim, ele resistiu até o final da luta, para perder apenas por pontos. Foi um assombro no mundo do boxe. Ali não só exibia um ego gigantesco, mas se mostrava sempre à altura do personagem que criara para si próprio...

Na categoria de rito de passagem, o mais exemplar foi o de Garry Kasparov. Ousado no xadrez e na vida, ele era visto como uma ovelha negra pelos trombas do regime soviético, pois não se prostrava à burocracia dominante.

Então, ao desafiar o conformista Anatoly Karpov pelo posto de nº 1 do xadrez mundial, os fatores esportivos e políticos se confundiram na disputa. Era um franco-atirador enfrentando o poderoso stablishment enxadrístico da URSS.

Burocrático no xadrez como na política, Karpov começou se defendendo bem e aproveitando os erros de Kasparov, que se lançava com volúpia ao ataque. Colocou 5 x 1 no marcador. Precisava só da sexta vitória para vencer o match.

Aí Kasparov resolveu responder na mesma moeda: retrancou o seu jogo e não correu mais risco nenhum. Deu-se, então, uma sequência infernal de empates, uns vinte, se bem me lembro.

O franzino Karpov tinha menos resistência física e mental: na 47ª partida começou a desmoronar. Perdeu essa e a seguinte. Como as regras não admitiam interrupção por decisão médica, só lhe restava entregar os pontos ou ir para o tabuleiro sofrer mais três derrotas. Estava inapelavelmente vencido.

Foi quando o presidente da federação, um filipino, anulou o match por "desumanidade". Decisão criticadíssima. E, quando nova disputa se travou a partir do zero, alguns meses depois, Kasparov, claro, massacrou Karpov.

Um enxadrista brasileiro (talvez Helder Câmara), comentando diariamente o match no Jornal da Tarde, avaliou: ao superar seu maior desafio, caminhando no fio da navalha, o menino Kasparov se tornara um homem. Perfeito.

Nos últimos anos, torci muito para que Andre Agassi e Zinedine Zidaine tivessem cantos do cisne fulgurantes; subi nas paredes quando uma maldita quebra do motor impediu Michael Schumacher de encerrar a carreira como campeão; e fiquei imensamente frustrado por Oscar Schmidt ter abandonado as quadras sem o reconhecimento oficial de que foi o maior cestinha de todos os tempos.

Agora, estou torcendo para Federer e Ronaldinho Gaúcho darem a volta por cima. E para o menino Messi sair-se bem no seu rito de passagem, tornando-se um novo Maradona.
Related Posts with Thumbnails