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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

PRIMEIRO MANDAMENTO DE UM VERDADEIRO ESQUERDISTA: JAMAIS RASGAR SEDA PARA ESTADOS POLICIAIS!

Um dos panfletos mais influentes produzidos pela humanidade em todos os tempos, o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels em 1848, começa destacando esta verdade que vem sendo comprovada ao longo dos séculos:

"A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada. 
Tal guerra termina sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito".
A luta de classes conduziria, segundo Marx e Engels, ao momento em que a classe explorada (o proletariado), ao pôr fim à dominação que lhe impunha a classe exploradora (a burguesa), já não teria sob si uma nova classe explorada em gestação, pronta para substitui-la. 

Dito de outra forma, os proletários seriam os últimos explorados e, ao se libertarem, libertariam a humanidade inteira. 

A própria sociedade dividida em classes deixaria de existir, dando lugar a uma sociedade sem exploradores nem explorados, na qual todos os cidadãos colaborariam solidariamente para o bem comum e passariam a dividir de maneira mais equânime os frutos do trabalho das gentes. 
Até quando  durará a idolatria ao deus dinheiro?

Cada ser humano ofereceria a contribuição de que fosse capaz de dar para a coletividade e receberia da coletividade aquilo de que necessitasse para uma existência plena e gratificante. 

Ou seja, adeus guerra ininterrupta! Não mais as disputas canibalescas por privilégios diferenciados, mas sim o aproveitamento ótimo do potencial ora existente de produção em grande quantidade de tudo que os homens carecem para uma sobrevivência digna!


De quebra, a produção coletiva supriria integralmente tudo de que os seres humanos carecem para sua bem-aventurança, com, ademais, a vantagem de uma redução cada vez maior do número de horas trabalhadas para que cada cidadão cumprisse sua parte no esforço coletivo.

Livres do tacão da necessidade, todos teríamos tempo livre para sonharmos e tentarmos viabilizar nossos sonhos. O ponto de chegada da construção de uma nova sociedade, essencialmente humana, assim foi expresso no jargão marxista: de cada um, de acordo com sua possibilidade, a cada um, de acordo com sua necessidade.

Algo assim, entretanto, só funcionaria se envolvesse todos os humanos. Havendo diferenças significativas entre os benefícios disponibilizados .para cada contingente, voltariam as disputas, as guerras, as fronteiras, os exércitos, etc. Os mais fortes tornariam a levar vantagem sobre os mais fracos e a humanidade não sairia de sua pré-História.
Até Goebbels teria vergonha disto

Tal pesadelo começou a tornar-se realidade exatamente quando foi bem-sucedida a primeira de todas as revoluções socialistas, em 1917. 

A então URSS teve de assegurar a própria sobrevivência física, caso contrário seus sonhos morreriam juntamente com ela, esmagados por inimigos decididos a tomar-lhe pela força o que possuísse de valor.

E, ao defender suas conquistas como mera nação, não como coletividade humana, foi obrigada a transferir para médio ou longo prazo a tentativa de construção da sociedade ideal, contentando-se com forjar apenas a sociedade mais avançada ao seu alcance naquele momento histórico.

Assim voltaram, um a um, todos os horrores dos quais ela havia se livrado. 

E, por ser um país com desenvolvimento econômico tardio se comparado com as grandes nações europeias e os EUA, teve de efetuar enorme esforço para, antes de mais nada, alcançar o estágio de crescimento de seus adversários capitalistas. 

Mais: já prevendo um enfrentamento nos campos de batalha com a poderosa Alemanha nazista, os soviéticos tiveram não só de desenvolver sua economia a todo vapor, queimando etapas, como também de obter os resultados desejáveis o quanto antes, para aguentar o tranco quando chegasse a guerra anunciada.

Após tudo que os trabalhadores russos haviam suportado desde a desastrosa participação na 1ª guerra mundial, passando pela primeira revolução socialista da História, pelo enfrentamento da devastação e da miséria legadas pelo czarismo e pela resistência a uma formidável aliança contra si de muitos inimigos externos e internos, só mesmo um Estado policial conseguiria arrancar deles os descomunais esforços necessários para reduzir seu atraso material com relação à Alemanha. 

Vale acrescentar a grande fome na Ucrânia entre 1932 e 1933, cujas vítimas fatais teriam sido 3,4 milhões (!) de camponeses. O regime soviético destinava muitos recursos à implantação de sua infra-estrutura de nação moderna e faltavam-lhe produtos industrializados para compensar a população rural pela cessão de suas colheitas.
Crianças ucranianas x grande fome

A solução encontrada por Stalin foi tomar na marra essas colheitas, por meio de um dos piores terrorismos de estado já vistos pela humanidade.

Outro motivo dos massacres foi dissuadir os ucranianos de continuarem mantendo suas pequenas plantações, que Stalin queria ver substituídas por fazendas coletivos

O certo é que o estado policial se fez, e seu nome era stalinismo.

Confirmava-se integralmente a profecia de Marx: só os países  mais avançados em termos econômicos estavam prontos para a construção do socialismo. Os outros teriam, antes disto, de reduzirem pouco a pouco sua inferioridade em estágio de desenvolvimento.

Foi uma das grandes tragédia do século 20: a descaracterização das nações que tentaram construir o socialismo apesar da precariedade e do atraso. 

Quanto muito chegaram até o capitalismo, sendo, ainda, seus dramas explorados ad nauseam pela indústria cultural para predispor o resto da humanidade contra a esquerda, como se o  socialismo num só país fosse a nova realidade sonhada por Marx e Engels e não o seu contrário.  

Todas essas experiências históricas acabaram degenerando em nomenklaturas, sociedades nas quais subsistia (às vezes até ampliada) a desigualdade econômica, e tendo como segmento mais influente não uma classe, mas sim uma casta. 

No caso da antiga União Soviética tal papel cabia aos membros destacados do Partido Comunista, enquanto na Venezuela quem até recentemente mandava eram altos comandantes militares. O povo apanhava e obedecia.
Lênin criou o bolchevismo; Trotsky o levou à vitória. 

A profecia sobre o substituísmo, de autoria do jovem Trotsky, cumpriu-se: primeiramente, o Partido Comunista substituiu o proletariado; depois, o Comitê Central substituiu o Partido Comunista; finalmente, um tirano substituiu o Comitê Central.

O tirano primeiro foi Stalin, e seus simulacros não passam de filhotes: mantêm os compatriotas na penúria ou obrigados a vazarem para construir uma vida melhor no exílio, enquanto eles próprios se locupletam com poder e luxo dignos de nababos.

A
liás, foi Trotsky quem, pesaroso, reconheceu  que, se o stalinismo havia engendrado uma casta dominante, a qual só se diferenciava da antiga classe dominante pelo fato de que a situação favorecida não se baseava na posse de bens e riquezas, mas sim no posto funcional dos membros da nova elite (não sendo, portanto, transmissível por herança), far-se-ia necessária uma nova revolução para resgatar as promessas originais do socialismo: uma revolução dos novos explorados contra a nomenklatura opressora.

Isto implicava que a tarefa à qual Trotsky dedicara toda sua vida adulta não fora cumprida e a faina deveria ser praticamente recomeçada do zero. Mas, ele era suficientemente honesto para admitir uma verdade tão dolorosa. 

Já os pseudo-herdeiros do marxismo não têm nem a mesma honestidade intelectual, muito menos o mesmo espírito igualitário. Preferem vender uma caricatura de revolução para o mundo como se fosse a verdadeira revolução. 
O poder não só envelhece, como também envilece. 
De um lado estão os que fazem um capitalismo ligeiramente atenuado em seus malefícios e destrutividade passar por algo próximo dos ideais esquerdistas (ele tem a ver, isto sim, com o reformismo de Edouard Bernstein, que a Rosa Luxemburgo reduziu a pó de traque no seu clássico Reforma ou Revolução).

Do outro, cruéis nomenklaturas que criam confusão utilizando falaciosamente uma retórica esquerdista para parecer aparentada com o socialismo marxista, o qual, contudo, era eminentemente libertário e se propunha a conduzir a humanidade para um estágio superior de civilização, não para as trevas do passado. 

Erram terrivelmente os  companheiros que abandonaram o marxismo e o anarquismo para assumirem grotescas visões geopolíticas, daí estarem agora defendendo até mostrengos medievais como o regime iraniano. Eles só nos envergonham e desencaminham a luta dos explorados. (por Celso Lungaretti)

sábado, 2 de novembro de 2024

HÁ 'ESQUERDISTAS' QUE LOUVAM ESTADOS POLICIAIS COMO O IRÃ SUP0NDO QUE SEJAM SOCIALISTAS E NÃO NOMENKLATURAS

Um dos panfletos mais influentes produzidos pela humanidade em todos os tempos, o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels em 1848, começa destacando uma verdade milenar que, paradoxalmente, ele próprio faria sucumbir adiante:
"A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada, uma guerra que terminou sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito
"
.
A história da luta de classes conduziria, segundo Marx e Engels, ao momento em que a classe explorada (o proletariado), ao pôr fim à dominação que lhe impunha a classe exploradora (a burguesa), já não teria sob si uma nova classe explorada em gestação, pronta para substitui-la. 

Dito de outra forma, os proletários seriam os últimos explorados e, ao se libertarem, libertariam a humanidade inteira. 

A própria sociedade dividida em classes deixaria de existir, dando lugar a uma sociedade sem exploradores nem explorados, na qual todos os cidadãos colaborariam solidariamente para o bem comum e passariam a dividir de maneira mais equânime os frutos do trabalho das gentes: cada ser humano ofereceria a contribuição que fosse capaz de dar para a coletividade e receberia da coletividade aquilo de que necessitasse para uma existência plena e gratificante. 

Ou seja, adeus guerra ininterrupta! Não mais as disputas canibalescas por privilégios diferenciados, mas sim o aproveitamento ótimo do potencial ora existente de produção em grande quantidade de tudo que os homens carecem para a sobrevivência digna.


De quebra, a produção coletiva supriria integralmente tudo de que os seres humanos necessitam para sua bem-aventurança, com, ademais, a vantagem de uma redução cada vez maior do número de horas trabalhadas para que cada cidadão cumprisse sua parte no esforço coletivo.

Livres do tacão da necessidade, todos teríamos tempo livre para sonharmos e tentarmos viabilizar nossos sonhos. O ponto de chegada da construção de uma nova sociedade, realmente humana, assim foi expresso no jargão marxista: de cada um, de acordo com sua possibilidade, a cada um, de acordo com sua necessidade.

Algo assim, entretanto, só funcionaria se envolvesse todos os humanos. Havendo diferenças significativas entre os benefícios disponibilizados .para cada contingente, voltariam as disputas, as guerras, as fronteiras, os exércitos, etc. Os mais fortes tornariam a levar vantagem sobre os mais fracos e a humanidade não sairia de sua pré-História.

Tal pesadelo começou a tornar-se realidade exatamente quando foi bem-sucedida a primeira de todas as revoluções socialistas, em 1917. A Rússia teve de assegurar a sobrevivência física, caso contrário seus sonhos morreriam juntamente com ela, esmagados por inimigos decididos a tomar-lhe pela força o que possuíssem a mais do que eles outros.

E
, ao defender suas conquistas como mera nação, não como coletividade humana, foi obrigada transferir para médio ou longo prazo a tentativa de construção da sociedade ideal, contentando-se com forjar apenas a sociedade mais avançada que lhe era possível naquele momento histórico.

Assim voltaram, um a um, todos os horrores dos quais ela havia se livrado. 

E, por ser um país com desenvolvimento econômico tardio se comparado com as grandes nações europeias e os EUA, teve de efetuar enorme esforço para, antes de mais nada, alcançar o estágio de crescimento de seus adversários capitalistas. 

Mais: já prevendo um enfrentamento nos campos de batalha com a poderosa Alemanha nazista, os soviéticos tiveram não só de desenvolver sua economia a todo vapor, queimando etapas, como também de obter os resultados desejáveis o quanto antes, para aguentar o tranco quando chegasse a guerra anunciada.

Depois de tudo que os trabalhadores russos haviam suportado desde a desastrosa participação na 1ª guerra mundial, passando pela primeira revolução socialista da História, pelo enfrentamento da devastação e da miséria legadas pelo czarismo e pela resistência a uma formidável aliança contra si de muitos inimigos externos e internos, só mesmo um Estado policial conseguiria arrancar deles os novos e descomunais esforços exigidos pela corrida para reduzir (eliminar era impossível) seu atraso material com relação à Alemanha. 

E o estado policial se fez. Com o nome de stalinismo.

Confirmava-se integralmente a profecia de Marx: só os países  mais avançados em termos econômicos estavam prontos para a construção do socialismo. 

Os outros teriam, antes disto, de irem reduzindo pouco a pouco sua inferioridade em estágio de desenvolvimento.

Foi uma das grandes tragédia do século 20: a descaracterização das nações que tentaram construir o socialismo a partir da precariedade e do atraso. 
Quanto muito chegaram até o capitalismo, sendo, ainda, seus dramas explorados ad nauseam pela indústria cultural para predispor o resto da humanidade contra a esquerda, como se o  socialismo num só país fosse a realidade sonhada por Marx e Engels e não, exatamente, o seu oposto.  

Todas essas experiências históricas acabaram degenerando em nomenklaturas: sociedades nas quais persiste (às vezes até ampliada) a desigualdade econômica, e tendo como segmento privilegiado não mais uma classe, mas sim uma casta. No caso da União Soviética tal papel coube aos membros destacados do Partido Comunista, enquanto na Venezuela quem manda são altos militares. O povo apanha e obedece.

A profecia sobre o substituísmo, de autoria do jovem Trotsky, cumpriu-se: primeiramente, o Partido Comunista substitui o proletariado; depois, o Comitê Central substitui o Partido Comunista; finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O tirano primeiro foi Stalin, e os Maduros da vida não passam de seus filhotes: mantêm os compatriotas na penúria ou obrigados a vazarem para construir uma vida melhor no exílio, enquanto eles próprios se locupletam com poder e luxo dignos de nababos.

A
liás, foi Trotsky quem, pesaroso, reconheceu  que, se o stalinismo havia engendrado uma casta dominante, a qual só se diferenciava da antiga classe dominante pelo fato de que a situação favorecida não se baseava na posse de bens e riquezas, mas sim no posto funcional dos membros da nova elite (não sendo, portanto, transmissível por herança), seria necessária uma nova revolução para resgatar as promessas originais do socialismo: uma revolução dos novos explorados contra a nomenklatura opressora.

Isto implicava que a tarefa à qual Trotsky dedicara toda sua vida adulta não fora cumprida e a faina deveria ser praticamente recomeçada do zero. Mas, ele era suficientemente honesto para admitir uma verdade tão dolorosa. Já os Maduros da vida não têm nem a mesma honestidade intelectual, muito menos o mesmo espírito igualitário. Preferem vender uma caricatura de revolução para o mundo como se fosse a própria revolução. Então, no atual tiroteio entre Brasil e Venezuela não há heróis, só vilães. 

De um lado os que fazem um capitalismo ligeiramente atenuado em seus malefícios e destrutividade passar por algo próximo dos ideais esquerdistas (ele tem a ver, isto sim, com o reformismo de Edouard Bernstein, que a Rosa Luxemburgo reduziu a pó de traque no seu clássico Reforma ou Revolução).

Do outro, cruéis nomenklaturas que cria confusão utilizando falaciosamente retórica esquerdista para parecer aparentada com o socialismo marxista, que, contudo, era eminentemente libertário. Os papas do marxismo jamais endossaram estados policiais como o Leviatã de Putin e o estrupício do Maduro. (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 2 de maio de 2018

SOU O QUE ME TORNEI EM 1968

Por Celso Lungaretti
Eu tinha 17 anos no mês de maio de 1968 e nem de longe imaginava estar vindo ao meu encontro aquilo que buscava desde o fim do curso ginasial: um rumo diferente para minha vida.

A hora da verdade chegou para mim na transição para o curso Científico, quando me dei conta de que meus objetivos não eram os mesmos dos jovens colegas do Colégio Estadual MMDC, na Mooca, zona leste de São Paulo.

Eles sonhavam com diploma universitário, bom emprego, família pequeno-burguesa padrão, respeitabilidade, segurança, respeito da comunidade.  Fariam a felicidade dos seus pais, que tanto almejavam para eles o que não puderam ter, pois era muito difícil a classe média baixa alçar esses voos antes dos anos JK.

Só que, como na música do Raul Seixas, eu achava que tudo aquilo não passava de ouro de tolo e, mais ainda, um saco. Não sabia onde estava a saída dos trilhos já traçados para minha vida, mas a desejava ardentemente. Era isto ou décadas de tédio pela frente.

Por inexperiência, nunca me ocorreu o quanto eu precisaria mudar para recriar-me como uma pessoa diferente, nem quão traumáticas seriam algumas etapas dessa transformação de jovem tímido em aventureiro ousado.
"Acontecimentos se sucediam numa velocidade vertiginosa"

Quando, em prisões militares do Rio de Janeiro e São Paulo, enfim tive tempo e serenidade para avaliar tudo pelo que passei de maio em diante naquele incandescente 1968, pareceu-me que em algum momento eu me desgarrei do solo e passei a ser carregado pela onda, passando a apenas reagir aos acontecimentos que se sucediam numa velocidade vertiginosa. 

Já não importavam as teorizações, linhas políticas e palavras-de-ordem: a dinâmica da luta fazia valer suas prerrogativas, empurrando-me sempre para a frente. 

E nada existia para mim no que deixara para trás. Por mais que o horizonte se fechasse, prenunciando a tempestade que desabaria sobre todos nós, eu considerava pior ainda a pasmaceira anterior. 

[Como nos versos que Pete Townshend comporia mais tarde e foi incapaz de honrar, eu preferia consumir-me em chamas do que definhar aos poucos. Pensando bem, não me cabe criticá-lo, porque eu também não morri...
Depois dos dias de sonho, a difícil volta à realidade
Daí ter sido tão difícil voltar à sociedade podre engendrada pelo capitalismo depois da grande derrota; precisei juntar os cacos durante um ano numa comunidade alternativa, antes de ser capaz de encarar de novo a luta inglória pela sobrevivência individual, como se não tivéssemos todos coisas melhores para fazermos da vida... juntos.]

Foi um rito de passagem e tanto! Quando, no final de 1968, eu e sete dos meus companheiros do movimento secundarista optamos por dar o passo mais arriscado de todos, ingressando na luta armada, eu já amadurecera minha nova identidade como ser humano e como revolucionário.

Minhas convicções básicas estavam formadas e não mudariam: passei o meio século subsequente defendendo a transformação em profundidade da sociedade brasileira, com o fim do capitalismo e a substituição da exploração do homem pelo homem por um regime de cooperação fraterna entre os seres humanos. 

Desde o primeiro momento rechacei as posturas de conciliação de classe e evolução automática para modelos sociais menos desumanos, sem a necessidade de uma ruptura  revolucionária.  Hoje, os escombros do Estado do bem-estar social e a exacerbação ad infinitum da desigualdade econômica me dão inteira razão. 
Tanques soviéticos marcharam sobre Praga, provando que o socialismo real não tinha face humana
As vivências e consequências de 1968 foram fundamentais para a minha sintonia fina. A primavera de Praga me fez perceber que jamais se cumpriria a profecia de Lênin, de que o Estado, numa república socialista, iria definhando pouco a pouco, até extinguir-se por obsolescência. Na realidade, tendeu a crescer e enraizar-se cada vez mais, pois os novos privilegiados sempre defenderam com unhas e dentes o status a duras penas conquistado.

Se ainda tinha dúvidas sobre se a Revolução Húngara de 1956 confrontara a tirania de uma odiosa nomenklatura (conforme depreendera d'O fantasma de Stálin, do Sartre) ou fora instigada pelos vilões capitalistas, a invasão de Praga pelos tanques soviéticos as dissipou por completo. Passei a procurar livros que dissecavam como a revolução russa de 1917 se perdera pelo caminho, até dar lugar àquele Estado-Leviatã. Obras do Trotsky e do Isaac Deutscher, principalmente.
Defesa dos direitos humanos: prioritária! 

A bestialidade das torturas e a condição de extrema vulnerabilidade em que nos encontrávamos nos porões, à mercê de um Estado que tinha poder de vida e morte sobre nós, também pesou (muito!) na minha sintonia fina: decidi que nada, absolutamente nada, justificava submeterem-se seres humanos a tais tormentos e degradações. 

Saí das prisões militares rompido em definitivo com tudo que era enfeixado no conceito de ditadura do proletariado e com as práticas autoritárias e totalitárias de todos e quaisquer governos, fosse qual fosse sua orientação ideológica proclamada ou real. Passei a colocar em pé de igualdade a defesa dos ideais revolucionários e dos direitos humanos, por mais difícil que seja, em alguns casos, conciliarmos ambas.

Talvez o maior legado de 1968 tenha sido, para mim, a constatação de que podemos viver muito bem com poucos bens materiais, nem estabilidade, nem segurança, nem certezas para o futuro, nem mesmo família. 

Reunindo pessoas que compartilhavam os mesmos valores e ideais, nossas comunidades tribais foram uma espécie de trailer do que seria uma existência cooperativa e não-competitiva, em que todos se preocupassem com todos e dessem o melhor de si para as coisas saírem bem, esforçando-se por ser melhores do que jamais haviam sido até então. 
Sítio Brotando a Emancipação, belo projeto dos nossos dias

Não chegávamos a usar tal rótulo meio pomposo, mas, no fundo, tentávamos mesmo nos tornar homens novos... e deu para perceber que noutras circunstâncias, sem estarmos criando um oásis em meio ao deserto de uma ditadura feroz, poderia ter dado certo. Assim como a Colônia Cecília do final do século retrasado também poderia ter dado certo, sem as pressões que vinham de fora e a foram minando cada vez mais.

Sou um dos poucos esquerdistas que ainda se recordam da comparação marxista com o movimento das ondas: a de que a maré revolucionária atinge um ápice e depois se sucede um período de refluxo, que pode durar anos e até décadas, mas não infinitamente. E, no momento da retomada, esta se dará a partir do ponto mais alto atingido da vez anterior.

Para mim, tal ponto foi 1968 e a maré vazante já dura meio século, mas salta aos olhos: 
— que o pesadelo capitalista marcha para o fim, e  
— que a esquerda capaz de reatar os fios da História será a inspirada na contestação global de 1968, não a que voltou a dominar a cena no período de retrocesso subsequente, trazendo de volta influências retrógradas e nefastas como as do populismo, do nacional-desenvolvimentismo, do stalinismo, do caudilhismo e do reformismo à Bernstein.  
Quem viver, verá.

sábado, 30 de agosto de 2014

UM ESPECTRO RONDA O BRASIL: O ESPECTRO DO MARINISMO.

A rapidez com que a candidatura presidencial de Marina Silva deslanchou, além de deixar aparvalhados petistas e tucanos, impôs aos analistas o desafio de decifrarem a nova esfinge da política brasileira, que está devorando todas as suas certezas de antes do fatídico 13 de agosto.

Despretensiosamente, alinhavei trechos dos últimos artigos de colunistas que, no meu entender, abordaram aspectos interessantes da questão. Os meus comentários vêm em vermelho.

Valem pelo que valem: ajudam-nos a refletir sobre um fenômeno novo. Neste sentido, não dei bola para o fato de que dois deles costumeiramente são satanizados em certas tribunas da esquerda. Como se dizia antigamente, até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes ao dia...

DESENVOLVIMENTISMO x SUSTENTABILIDADE

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chãos e lavava banheiros das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, se tornou a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre "desenvolvimentismo" e "sustentabilidade" e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas. (Eliane Cantanhêde, em sua coluna de 29/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

É algo geralmente omitido pelos detratores de Marina, obcecados em desconstruí-la a qualquer preço e com quaisquer métodos: a acriana tem muito mais cara de PT do que a mineira. E ela leva vantagem também em termos de trajetória política, pois se lançou com bandeiras ecológicas (importantíssimas quando a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada pela ganância capitalista) e se mantém fiel a elas até hoje

Dilma, pelo contrário, lutava pela justiça social no tempo da guerrilha e depois se tornou (argh!) desenvolvimentista. Chegou ao cúmulo de apresentar como seu sonho dourado a transformação do Brasil num país de classe média (argh de novo!). Para quem se mantém essencialmente nos marcos do marxismo e do anarquismo, como eu, sua degringola ideológica é chocante: de Che Guevara para Juscelino Kubitschek!

Enquanto for Dilma a candidata do PT, não tenho dúvida nenhuma em afirmar que quem melhor representa a esquerda no embate é Marina. Se os petistas tomarem a única providência que parece oferecer-lhes possibilidade de salvação, tornando Lula candidato, aí a coisa mudará de figura. 

DOIS PARADIGMAS SERÃO QUEBRADOS?

O dado mais relevante da pesquisa Datafolha realizada nos dias 28 e 29 de agosto é a consolidação, neste momento, de Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB) como as primeiras colocadas na disputa presidencial. Elas estão empatadas com 34% de intenções de voto cada uma.

Nunca nas eleições diretas para presidente da República pós-ditadura militar, nesta fase da campanha, os dois protagonistas isolados foram de partidos cujas origens estão na esquerda do espectro político.

A eleição é em 5 de outubro. Restam pouco mais de 30 dias para uma reversão do quadro. Se isso não ocorrer, pela primeira vez o Brasil não terá um legítimo representante do centro ou da direita entre os dois finalistas na disputa presidencial. (Fernando Rodrigues, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra) 

Não excluo a possibilidade de que a decisão ainda venha a ser entre esquerda e direita, como previ no dia do acidente com o jatinho de Eduardo Campos. O meu prognóstico se baseou exatamente no fato de que tem sido esta a tônica desde a redemocratização.

Caso o PT insista em perder com Dilma, sua candidatura ainda pode descer ladeira abaixo com velocidade suficiente para Aécio Neves a ultrapassar na reta de chegada.

Mas, a aposta mais sensata, neste momento, é mesmo na quebra deste paradigma, e também de outro: nunca o 2º turno foi disputado por duas mulheres.

GERENTONAS x ESTADISTAS

No Brasil, os eleitores procuram administradores, gerentes, quando se trata de disputas municipais e estaduais. Nas eleições presidenciais, contudo, buscam a personificação de uma utopia possível. FHC e Lula chegaram ao Planalto nas asas de grandes ambições. Hoje, é Marina quem aparece como a representação de uma ruptura profunda.

A utopia associada a FHC pode ser sintetizada pelas ideias de estabilização e modernização. Desde o segundo mandato tucano, porém, o PSDB abandonou a trilha das reformas e, sob o fogo da crítica petista, borrou o horizonte utópico com as cores cinzentas da "capacidade gerencial"... 

A utopia associada a Lula pode ser sintetizada pelas ideias de igualdade e justiça social. Inflado pelos ventos de popa da economia mundial, o potencial utópico do lulopetismo durou um mandato mais que o dos tucanos, mas encerrou-se no quadriênio de Dilma Rousseff. As suas reformas sociais praticamente esgotaram-se nas políticas de crédito e transferência de renda que ajudaram a estimular o boom de consumo popular. 

Hoje, num sentido fundamental, o PT converteu-se na nova Arena: o partido cuja força emana do controle da máquina pública. O mapa das intenções de voto na candidata-presidente evidencia a regressão política do partido que traçou seu caminho para o poder entre os eleitores de alta e média escolaridade dos grandes centros urbanos. 

Marina aparece como representação da terceira utopia, tão nitidamente expressa nas Jornadas de Junho de 2013...  (Demétrio Magnoli, em sua coluna de 30/08 na Folha de S. Paulo - clique aqui para ler a íntegra)

Eu já havia escrito algo bem próximo: que o PT está repetindo a trajetória do PMDB e do PSDB, partidos que começaram à esquerda e foram se descaracterizando cada vez mais, o primeiro se tornando uma agremiação meramente fisiológica e o segundo, o mais conspícuo representante da direita brasileira.

O PT ainda não chegou lá, claro, mas é para onde se encaminha, com o cada vez mais acentuado abandono das bandeiras revolucionárias, trocadas por um reformismo tão tímido que nem Eduard Bernstein aplaudiria. 

E, por já não ter quase nada a oferecer ao eleitorado dos grandes centros urbanos, seu celeiro de votos serão, cada vez mais, os pequenos e médios municípios, e principalmente os das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isto, sua influência tende a continuar diminuindo no Sudeste (responsável por 55,4% do PIB) e Sul (16,2%). Mas, suponho, não a ponto de se tornar um partido dos grotões, como o PDS (sucessor da Arena) nos seus estertores...

Outro ponto em que concordo inteiramente com Magnoli: as jornadas de junho de 2013 foram um divisor de águas, com os manifestantes de rua retomando o protagonismo político depois de uma década de pasmaceira, durante a qual os movimentos sociais  não só superestimaram a importância do poder político (cada vez mais avassalado ao poder econômico), como a própria disposição do PT em tentar concretizar as transformações profundas de que o Brasil desesperadamente carece.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

PARA LULA, BOM MESMO É O ESTADO DO BEM-ESTAR SOCIAL

Graças ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sabemos agora qual foi o maior benefício que a Revolução Bolchevique trouxe à humanidade: "quem mais ganhou com a revolução de 17 foi a Europa Ocidental porque, com o medo do comunismo, criou o Estado do bem-estar social".

Foi isto que S. Exa. afirmou nesta quinta-feira, discursando no 51º congresso da União Nacional dos Estudantes. Nem sequer o papel fundamental que a URSS desempenhou na derrota do nazismo parece ser relevante, na opinião de Lula.

Ele se coloca não ao lado dos que fizeram a revolução e tentaram materializar um estado dos trabalhadores, mas sim na trincheira dos países capitalistas que, para evitar a propagação dos ideais revolucionários, trataram de melhorar um pouco a vida dos seus cidadãos.

E, para que não deixar dúvidas quanto a seu desprezo pelos valores da esquerda, Lula disse também que "para uma pessoa pobre ter uma caixa de lápis é mais importante do que uma revolução".

Ele se mostrou coerente com posicionamentos anteriores, como o de que não era esquerdista, mas sim torneiro-mecânico; e o de que, quando um sexuagenário continua esquerdista, é porque tem um parafuso solto na cabeça.

Está numa fase de dizer inconveniências (por que ofender os pobres pizzaiolos, comparando-os aos senadores?) e renegar seu passado.

Já descobriu até que é amigo do Collor desde criancinha, tanto que ambos já superaram uma pequena desavença de 1989, quando o Fernandinho andou falando demais sobre as puladas de cerca do Luizinho. Todos os amigos têm uma briguinha de vez em quando...

Então, ficamos entendidos: os bons lulistas agora têm de defender com unhas e dentes o Estado do bem-estar social, seja na versão que o capitalismo selvagem (ôps, eu queria dizer globalizado...) varreu da Europa, seja na adaptação brasileira, com o Bolsa-Família garantindo caixas de lápis às pessoas pobres.

Ah, uma última recomendação: esqueçam Karl Marx. O teórico inspirador do lulismo não é o velho barbudo, nem tampouco o economista e sociólogo sueco Karl Gunnar Myrdal, tido como o pai do Estado do bem-estar social.

As posições que Lula tem rusticamente professado, tanto em economia quanto em política, aproximam-no mais de Edouard Bernstein, aquele que acreditava numa melhora constante da situação dos trabalhadores sob o capitalismo, tornando desnecessária uma ruptura revolucionária.

Quanto a nós, velhos ranzinzas, continuaremos seguindo Rosa Luxemburgo que, no seu clássico Reforma ou Revolução, pulverizou as falácias oportunistas de Bernstein.
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