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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO FINAL DA CPI: POR QUE PAROU? PAROU POR QUÊ?

amanda pupo
CPI ADIA LEITURA DE RELATÓRIO APÓS DIVERGÊNCIA
EM INDICIAR BOLSONARO POR HOMICÍDIO QUALIFICADO
Após o Estadão revelar a íntegra do relatório final da CPI da Covid (vide aqui), o presidente da comissão, senador Omar Aziz, decidiu adiar a leitura do parecer. 

Inicialmente, a reunião estava marcada para esta 3ª-feira, 19, com votação no dia seguinte. Agora, a nova data será na quarta-feira, 20, e a votação, na próxima terça-feira, 26.

Um dos pontos que levaram ao adiamento, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem, é a decisão do relator, senador Renan Calheiros, de indiciar Bolsonaro por homicídio qualificado, revelada pela reportagem do Estadão

Estadão apurou que o presidente teria reclamado com Aziz dessa intenção de Renan. Interlocutores de Bolsonaro afirmaram que homicídio é algo que todas as pessoas entendem o que é e, se isso for adiante, Bolsonaro ficará marcado como assassino, o que seria muito difícil de ser revertido na opinião pública. 

O senador Aziz, no entanto, negou enfaticamente ao Estadão a existência de qualquer conversa com Bolsonaro sobre o relatório. Aziz disse que essa informação "vem de uma fonte mentirosa" e reforçou que ele não conversa com o governo sobre assuntos de interesse do Planalto. 

O senador também esclareceu que a decisão pelo adiamento foi tomada em conjunto entre ele e o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues. Os dois avaliaram que o prazo para a votação do relatório, marcada inicialmente para apenas um dia após a leitura, poderia gerar questionamentos por parte de senadores e prejudicar o resultado final da comissão.

Conforme o Estadão publicou com exclusividade neste domingo, o relatório final da CPI conclui que o governo de Jair Bolsonaro agiu de forma dolosa, ou seja, intencional, na condução da pandemia e, por isso, é responsável pela morte de milhares de pessoas. 

“O governo federal criou uma situação de risco não permitido, reprovável por qualquer cálculo de custo-benefício, expôs vidas a perigo concreto e não tomou medidas eficazes para minimizar o resultado, podendo fazê-lo. Aos olhos do Direito, legitima-se a imputação do dolo”, diz trecho da peça, que tem 1.052 páginas e ainda pode ser alterada até a sua apresentação formal na CPI.

Numa mudança de entendimento, o texto passou a imputar a Bolsonaro e ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello o crime de homicídio qualificado. Até então, o relatório atribuía aos dois o crime de homicídio comissivo – praticado por omissão. O argumento da CPI é de que Bolsonaro sabia dos riscos que oferecia à população e os assumiu. 

Estadão apurou, contudo, que Renan pretende manter essa definição, a não ser que isto prejudique a aprovação de seu relatório. O senador disse que jornal que da sua parte “está tudo definido” no texto e que agora é avaliar o que seus companheiros pensam a respeito. 

Outro ponto de impasse no colegiado é o indiciamento do ministro da Defesa, Walter Braga Netto. Nesse caso, é o próprio relator que resiste à essa conclusão, por considerar que na CPI não houve apoio nem mesmo para ele prestar depoimento, quanto mais para o indiciamento. 

Braga Netto, então chefe da Casa Civil no início da pandemia, era o coordenador do grupo interministerial criado pelo Palácio do Planalto para cuidar da gestão da pandemia. 

O presidente da CPI afirmou ao Estadão/Broadcast que o adiamento não está relacionado a eventuais discordâncias sobre pontos do relatório. “Não é discordância. É porque o que vazaram, vazaram pontualmente, e só as tipificações, a gente não tem o embasamento”, disse ele, que afirma não haver tido acesso ao relatório até o momento. “Nenhum senador viu o documento ainda”, afirmou...  (por Amanda Pupo, repórter d'O Estado de S. Paulo em Brasília) 
TOQUE DO EDITOR Depois de manchetear em sua edição dominical a conclusão do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros de que o principal responsável pela morte evitável de pelo menos 120 mil brasileiros (tudo indica que o número real seja algo entre o dobro e o quádruplo disto) cometeu homicídio qualificado, pois tinha mesmo a intenção de matar, o jornalão serviu-se de sua página digital para, às 15h51 do próprio domingo, informar,  que:
— o desgoverno federal passara imediatamente a pressionar a CPI, para que não o homicida não fosse apresentado como tal, embora Deus e o mundo saibam que ele o é mesmo, seguramente o pior em todos os tempos no Brasil; e
— a apresentação do relatório foi adiada para os membros da comissão decidirem que tipo de concessão vão fazer, aliás desnecessariamente, pois o poder de pressão dos que pressionam blefando (ou blefam pressionando) derreteu definitivamente no último Dia da Pátria, quando o até então presidente trocou a faixa presidencial pela coroa de rainha da Inglaterra, enquanto, em cerimônia reservada, a corja empoderada bradava: O rei Bozo está morto, longa vida ao Rei Centrão!.

Fica assim comprovado que a reportagem estava correta e que o jornalão tivera mesmo acesso ao relatório tal como ele se apresentava na véspera. Sabe-se lá como ficará depois da sessão de maquilagem a que será submetido.
"Na praça não cabe disputa/ Se toca quem sabe tocar"
E, como a notícia vespertina foi publicada com a assinatura de uma simples repórter, evidencia-se o constrangimento do Estadão, pois pode ter alertado o inimigo nº 1 de todos os brasileiros civilizados de que Renan ousara mesmo dar nome aos bois.

Esperei até hoje, pois se tratava, evidentemente, de um tema obrigatório para o editorial da edição seguinte... e nada! Como o ditador Figueiredo, o vetusto jornalão parece querer que esqueçamos o que ele mancheteou.

Fica a pergunta: quem, afinal, vazou o relatório? A primeira impressão é de que o autor da proeza foi alguém a quem interessava que a reação bolsonarista se iniciasse no próprio domingo, e não dias depois.

E, neste caso, o Estadão terá sido usado pelo vazador, agarrando o furo com tamanha ansiedade que esqueceu de indagar: a quem beneficia?

Erro que, como humilde repórter, jamais cometi quando lá trabalhava, por considerar uma humilhação suprema ser feito de correia de transmissão pelos personagens sórdidos que tentavam plantar notícias, verdadeiras ou falsas, por meu intermédio. (por Celso Lungaretti)
"Não guardo mágoa/ Não blasfemo, não pondero/
Não tolero lero-lero/ Devo nada pra ninguém"

sexta-feira, 16 de julho de 2021

A VITIMIZAÇÃO DESTA VEZ NÃO COLOU: O FOCO DO NOTICIÁRIO É A PREVARICAÇÃO DO GENOCIDA E NÃO O CHORORÔ DO CARLUXO.

eliane cantanhêde
É HORA DE A CÚPULA MILITAR CONCORDAR COM AZIZ: OS
BONS DAS FORÇAS ARMADAS DEVEM ESTAR ENVERGONHADOS
Durou menos de 24 horas a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de usar um fato verdadeiro, seu quadro de saúde e suas dores, para criar um efeito eleitoral a seu favor, via internet, fotos e vitimização. 

Ontem (5ª feira, 15) mesmo, o foco, as atenções e o noticiário já estavam de volta à CPI da Covid e às suas revelações sobre não mais a já grave inação do governo, mas sobre a sua ação duvidosa, ou escandalosa, na negociação de vacinas.

Aquela foto de Bolsonaro sem camisa, cheio de fios, num leito hospitalar, não foi divulgada com outra intenção senão política e ilustrou um texto em que ele dá um jeito de dizer que o esfaqueador era do PSOL, braço esquerdo do PT, e cometeu um crime não só contra ele, mas contra a democracia (Quem é mesmo que ameaça a democracia?!). 

E falou em sua pretensa proposta de prosperidade, terminando com o slogan de campanha. Bota campanha nisso!

A principal pauta política de ontem, porém, foi o depoimento de Cristiano Carvalho à CPI da Covid. 
Vem a ser aquele que se dizia representante da empresa estadunidense Davati, agora admite que apenas ajudava e não consegue nem mesmo explicar por que cargas d’água recebeu auxílio emergencial na pandemia. Pelo visto, R$ 600 por mês era pouco. Ele queria um auxílio de milhões – em dólares.

De que Carvalho é um picareta, seu parceiro Luiz Paulo Dominghetti também e o tal pastor Amilton Gomes não fica atrás, ninguém tem dúvida. A grande indagação é como o Ministério da Saúde abriu sua portaria, seus gabinetes, seus ouvidos e e-mails para esse tipo de gente. 

Inacreditável. Só não mais inacreditável do que o número de coronéis e tenentes-coronéis envolvidos, de alguma forma, na lambança.

Carvalho não só confirmou que sabia do pedido de propina feito por gente graúda da Saúde, como confirmou a sofreguidão do governo em negociar com a Davati e as reuniões no ministério com até oito autoridades – a maioria delas militares. 

Militares falam tanto em inteligência, em informação, mas na Saúde não consultavam nem o básico: o Google. Bastavam alguns cliques para abortar qualquer contato com Davati, reverendo, cabo PM, o tal Cristiano do auxílio emergencial. A não ser que a intenção fosse outra...

Ao todo, Cristiano citou pelo nome oito militares, mas acrescentou uma boa pitada de pimenta: a guerra na Saúde não era entre militares e centrão e, sim, entre os grupos de Roberto Dias (diretor de Logística) e do coronel da reserva Elcio Franco (número dois do ministério) com os militares do general da ativa Eduardo Pazuello se dividindo entre os dois. Pode uma coisa dessas?

No centro de tudo está Elcio Franco, conhecido pelos ex-colegas de caserna por ser íntegro e estudioso, mas estourado, um galinho de briga. Até por isso, não chegou ao generalato, apesar de ser o terceiro da sua turma na Infantaria. Não é pouco. 

Agora, ele precisa usar sua disciplina e seu temperamento estourado, não para atacar, mas para detalhar para a CPI e o povo brasileiro como funcionavam e como podem ser eliminados os pixulés citados por Pazuello ao sair da pasta.

Em qualquer hipótese, os militares da Saúde não ficam bem nessa foto das vacinas. Ou eram uns bobos, que não entendiam nada de SUS, pandemia, vírus, curva epidemiológica, vacinas e negociações internacionais, ou... Bem, a outra hipótese é ainda pior. 

E as duas confirmam: Bolsonaro jogou Pazuello na fria, Pazuello atraiu duas dezenas de militares e o que era uma fria ficou gelada.

É hora de o ministro da Defesa e os comandantes da Aeronáutica, da Marinha e do Exército jogarem fora a nota desaforada contra o senador Omar Aziz, presidente da CPI, para concordar plenamente com ele:
Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados

Se não estão, deveriam... (por Eliane Cantanhêde, n'O Estado de S. Paulo)

quarta-feira, 9 de junho de 2021

MESMO APÓS A COMPROVAÇÃO DO GENOCÍDIO E IDENTIFICAÇÃO DOS SEUS AUTORES, ELES CONTINUARÃO IMPUNES?

 rui martins
CPI, PMs, REELEIÇÃO OU GOLPE
A
Comissão Parlamentar de Inquérito avança e torna cada vez mais evidente o plano de Bolsonaro com seu gabinete secreto, composto de charlatães. 

Eles pretendiam expor a grande maioria da população brasileira ao contato direto com o coronavírus, tudo a fim de não paralisar a economia com o confinamento ou o fique em casa indicado pela Organização Mundial da Saúde.

Seria o plano da imunização coletiva, pela qual as pessoas, sem utilizarem máscaras nem álcool, iriam passando umas às outras o vírus. 

Em pouco tempo, todos os brasileiros teriam pegado a gripezinha. Só os mais fracos, os mais velhos e os mais pobres poderiam ter complicações e morrer. Mas, como se dizia, ninguém morre antes da hora!.

Além disso, era a solução mais barata e mais econômica. Enquanto os outros países estariam paralisando a economia e gastando os tubos para criarem ou comprarem vacinas, o Brasil promoveria a imunização coletiva com o comércio e indústrias funcionando. 

Só que, na prática, os hospitais ficaram cheios, não era gripezinha, os membros metidos a sabidos do gabinete secreto eram mais do que charlatães, eram idiotas mesmo e, por enquanto, não se sabe ainda quem estaria ganhando comissões com a venda da cloroquina.

Essas revelações da CPI e o meio milhão de mortos vão contaminar o presidente Bolsonaro e provocar o impeachment? Renan e Azis que perdoem minha incredulidade. E uma prisão do ministro contra o Meio-Ambiente, Ricardo Salles, contrabandista de madeira de lei, contaminaria o presidente e seus asseclas?
Pelo jeito não, porque nessa área política talvez funcione a tal da imunização coletiva!

Nesse caso, sem impeachment só restará a possibilidade de uma derrota de Bolsonaro nas eleições. As pesquisas de opinião estão mostrando uma queda da popularidade do presidente e uma vitória de Lula nas próximas eleições. 

Será que podemos acreditar como vitória certa e segura? O conhecido Frei Betto não tem bola de cristal e nem usa turbante, mas recentemente teve visões inquietantes (vide aqui).

A polarização da campanha eleitoral poderá nos levar de volta a 2018, ressuscitando tudo quanto se dizia sobre Lula e o PT. Até lá o desmatamento da Amazônia já começará a dar lucros aos ruralistas. Os pastos para os rebanhos bovinos e as plantações de soja se transformarão no eldorado prometido por Bolsonaro aos seus fiéis, que esquecerão rapidamente os mais de 700 mil e quase um milhão de mortos causados pelo genocida. 

Ainda não haverá tempo para se saber ter mudado o clima na região amazônica, com seca e estiagem, e os ruralistas com os evangélicos promoverão churrascos eleitorais em homenagem ao imorrível, ao som de gospels e gritos de Aleluia! e Glória a Deus!.

Mesmo sem Ricardo Salles, prosseguirá o corte das árvores seculares da Amazônia, com madeira de lei vendida a baixo preço, enriquecendo numerosos madeireiros, pois a atual falta de madeira fará muitos europeus esquecerem seus compromissos com a defesa das florestas. Pelo menos durante alguns anos, haverá necessidade de mão-de-obra para cortar milhões de árvores… se Bolsonaro for reeleito.

E o papel da esquerda e do centro-esquerda contra Bolsonaro? Numa previsão pessimista do clima eleitoral, é provável o uso de violência e ameaças pelos fanáticos bolsonaristas nas cidades pequenas contra quem não quiser votar em Bolsonaro. 

E aqui surge o projeto de reformulação das polícias militares, cujos comandos deixarão de ser escolhidos pelos governadores e poderão ser submetidos ao comando único do presidente da República.

Sabendo-se que a maioria das polícias militares estaduais já têm representação política e de tendência bolsonarista, no caso de uma próxima aprovação dessa lei, cujo relator na Câmara Federal é o paulista capitão Augusto, da chamada bancada da bala, elas não se submeterão aos governos estaduais. 

Se aprovada antes das eleições, essa reformulação das PMs poderá levar a um golpe. Se aprovada depois da reeleição de Bolsonaro, ela poderá ser desvirtuada e levada a agir como a Gestapo ou SS do governo alemão nazista, para silenciar a oposição.

Diante desse quadro nada animador, a melhor hipótese seria a das conclusões da CPI levarem a um pedido de impeachment? Sem dúvida, porém, ninguém pode garantir um afastamento sem agitação social como ocorreu no caso de Dilma. 

A derrota de Trump levou muitos de seus seguidores a invadir o Capitólio, na tentativa frustrada de iniciar um levante social. Ora, Trump foi o modelo para Bolsonaro, cujos fanáticos seguidores, poderão ir mais longe. Não se pode esquecer ter sido facilitada a aquisição de armas, talvez com esse objetivo. (por Rui Martins)

quinta-feira, 27 de maio de 2021

OS GOVERNANTES DEVEM PAGAR PELAS MORTES QUE PODERIAM TER SIDO EVITADAS

O
primeiro-ministro britânico foi um dos pioneiros do negacionismo na pandemia. 

Boris Johnson defendeu que o coronavírus se espalhasse e contaminasse a população até que a imunidade de rebanho fosse atingida. 

Depois, ele mudou o discurso e implantou medidas para conter a doença, mas vacilou na hora de tomar decisões mais duras.

Num depoimento considerado explosivo, um ex-braço direito de Johnson disse ao Parlamento que dezenas de milhares de pessoas morreram sem necessidade. Dominic Cummings afirmou que, no início da pandemia, o líder britânico pensava que a Covid-19 seria amena como a gripe suína e que não era preciso barrar a entrada do vírus no país.

Johnson aplicou restrições ao funcionamento do comércio e de escolas, mas seu ex-conselheiro conta que ele rejeitou um novo lockdown em setembro. Segundo Cummings, o primeiro-ministro temia o impacto econômico da medida e teria dito que seria melhor ver pilhas de corpos do que adotar outro aperto.
O comportamento do governo custou vidas. O Reino Unido tem 187 mortes por covid-19 a cada 100 mil habitantes. A alta de casos só foi contida com vacinas e medidas restritivas. 

Já o Brasil ultrapassou a marca de 220 mortes por 100 mil habitantes, com uma vacinação lenta, governadores hesitantes e um presidente que joga contra o isolamento.

A pandemia deixou claro que as decisões dos governantes podem fazer estragos gigantescos. A ação deliberada, a omissão por incompetência e a escolha de políticas tresloucadas provocaram dezenas de milhares de óbitos sem necessidade em vários países do mundo. O Brasil começou a fazer esse cálculo sinistro.

A cúpula da CPI da Covid já está convencida de que o governo poderia ter evitado mortes. Está provado que eles apostaram no tratamento precoce e na imunidade de rebanho. Por isso, não se interessaram em comprar vacina, disse o presidente da comissão, Omar Aziz, ao podcast Café da Manhã, concluindo: Não é incompetência, é proposital. (por Bruno Boghossian)

quarta-feira, 19 de maio de 2021

SE PAZUELLO CONTINUAR FANTOCHE DO BOZO, O 'UM MANDA E O OUTRO OBEDECE' VAI VIRAR 'UM MANDA E O OUTRO SE LASCA'

josias de souza
GOVERNO ENTRA EM PROCESSO DE AUTOFAGIA NA CPI
O
processo de decomposição do governo Bolsonaro na CPI da Covid evoluiu para o estágio da autofagia. Nele, os membros da seita do negacionismo comem as próprias entranhas. 

Mastigado pelo ex-chanceler Ernesto Araújo num depoimento de quase seis horas, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello vai ao banco da CPI nesta 4ª feira (19) sangrando. Não lhe restaram muitas opções. Ou morde Bolsonaro ou crava os dentes na própria carne. 

Na prática, Araújo confessou sua inépcia. Sob seu comando, o Itamaraty comportou-se como se não houvesse pandemia. Culpou a pasta de Pazuello pela imprevidência de comprar a cota mínima de vacinas ofertadas pelo consórcio Covax Facility, da OMS. Jurou que partiu da Saúde também a ordem para a aquisição de cloroquina na Índia. Neste ponto, quando apertado, Araújo reconheceu a participação de Bolsonaro, que falou por telefone com o primeiro-ministro indiano.

Não houve plano único, uma política para o gerenciamento da crise sanitária, declarou o ex-chanceler, sem se dar conta de que mordia a língua de Bolsonaro. Como o Itamaraty não age de maneira autônoma, submeteu-se às demandas do ministério de Pazuello, comandado na base do um manda e o outro obedece

Na negociação sobre a vacina de Oxford-AstraZeneca, o Itamaraty apenas deu apoio secundário, logístico, operacional

No colapso hospitalar de Manaus, enquanto o time de Pazuello receitava cloroquina a quem precisava respirar, a diplomacia brasileira fingiu não ver a doação de cilindros de oxigênio feita pela Venezuela. 
Araújo não pediu nem agradeceu o socorro. Estava envenenado pela ideologia, acusou o presidente da CPI, Omar Aziz, eleito pelo Amazonas. 

Enquanto triturava Pazuello, submetendo-o a uma forma de canibalismo típica dos caetés, que comeram o bispo Sardinha, Araújo atingiu uma espécie de cume do cinismo. Declarou várias vezes que nunca fez declarações ofensivas à China, que fornece o insumo usado pelo Butantan e pela Fiocruz na fabricação de vacinas. 

Pior do que a presunção de Araújo de que ninguém se lembraria da sua insanidade retórica é a conclusão de que não havia razão para preocupação. Mesmo sabendo que todos conhecem seus ataques ao maior parceiro comercial do Brasil, o ex-chanceler acha que pode dizer o que bem entender no vácuo sanitário a que chegou o Brasil. Tudo, afinal, pode ser dito e feito quando ninguém se incomoda de ser chamado de mentiroso na frente das crianças. 

Eu imagino que o senhor tenha uma memória seletiva, para não dizer uma memória leviana, bateu a senadora Kátia Abreu. 
O senhor não se lembra de nada do que importa e do que ocorreu efetivamente; e se lembra de questões mínimas, supérfluas e até mesmo não verdadeiras, como o senhor vem fazendo aqui todo esse momento. 
A impressão que se tem é que existe um Ernesto que fala conosco, de que nós ouvimos a voz, e um outro Ernesto que eu não sei onde fica, nas redes, na internet, nos artigos, nos blogs, falando coisas totalmente diferentes.
 
Kátia prosseguiu: 
O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor no Ministério das Relações Exteriores foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira. Foi isso o que o senhor fez
Depois que Ernesto Araújo executou na CPI o segundo ato da ópera da autofagia —o primeiro havia sido encenado na semana passada, com o depoimento do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten—, os senadores da CPI aguardam o depoimento de Pazuello mais ou menos como quem espera pela entrada no palco de uma soprano opulenta escalada para cantar no penúltimo ato. 

É como se os inquiridores aguardassem um sinal claro de que a confusão final poderia estar próxima. Um fato que resumisse tudo o que a plateia deseja expressar quando diz: Não é possível! 

Muitos imaginam que o melhor sinal seria a imagem de Pazuello comendo o fígado de Bolsonaro: Ele mandou, eu apenas obedeci

O mais provável, entretanto é que o ex-ministro, em estágio hemorrágico, saia da CPI acorrentado a um novo lema:
Um manda e o outro se lasca

quarta-feira, 28 de abril de 2021

O GENOCIDA É GENOCIDA É GENOCIDA

A CPI DO ÓBVIO
O histórico das Comissões Parlamentares de Inquérito mostra que o sucesso das investigações costuma depender do surgimento de alguma testemunha bombástica. 

No caso da recém-instalada CPI da Pandemia isso não será necessário: os fatos essenciais são abundantes e estão claros para todos, restando à comissão o duro trabalho de organizá-los, para que o País entenda quais foram os terríveis erros que resultaram em tantas mortes evitáveis e quem deve responder por isso.

Do ponto de vista estritamente institucional, a CPI terá cumprido seu papel se dela resultarem medidas legislativas destinadas a impedir que esses erros se repitam e, também, se encaminhar às autoridades competentes os elementos necessários para a responsabilização civil e criminal dos infratores.

Mas a CPI é também um foro político, em que a oposição exerce seu direito constitucional de fiscalizar o governo. Por isso, é inevitável que, ao longo dos trabalhos da comissão, os depoimentos e provas trazidos ao escrutínio público sirvam para constranger o presidente Jair Bolsonaro – cuja patente irresponsabilidade inspirou, quando não determinou, o comportamento omisso e inconsequente das autoridades sanitárias federais no combate à pandemia.

Ciente dos estragos que a CPI causará a seu projeto de reeleição, Bolsonaro tratou de mobilizar boa parte de seus ministros para organizar sua defesa. Se o presidente tivesse usado no combate à pandemia a mesma energia que está gastando para se safar da CPI, o País não teria quase 400 mil mortos e um sistema de saúde em frangalhos.
Mas a incompetência, produto da mediocridade que é a segunda pele do governo Bolsonaro, mais uma vez se impôs. A título de se antecipar aos questionamentos da CPI, os ministros produziram uma lista de acusações mais completa e detalhada do que a formulada por integrantes da comissão.

Além disso, no afã de tentar impedir que o senador Renan Calheiros, desafeto de Bolsonaro, fosse nomeado relator da CPI, bolsonaristas recorreram à Justiça e obtiveram uma liminar absurda que interferia em decisão exclusiva do Congresso. Enquanto a liminar vigorou, os governistas a usaram para tumultuar a CPI.

Mas a desarticulação da base governista, já célebre, mais uma vez cobrou a conta. O senador independente Omar Aziz, apoiado pela oposição, elegeu-se presidente da CPI inclusive com o voto de um governista, o senador Ciro Nogueira. Ato contínuo, o senador Aziz escolheu Renan Calheiros como relator.

Profundo conhecedor dos desvãos do Congresso e expert em chicanas para esquivar-se da Justiça, Renan é o nome ideal para a relatoria. Sua notória competência servirá para inibir manobras governistas destinadas a tirar o foco da CPI, isto é, a administração delinquente do Ministério da Saúde sob as ordens de Bolsonaro.

O fato é que a perspectiva de uma CPI dominada pela oposição e com relatoria de Renan Calheiros preocupa muito o governo. E isso fica claro diante do nervosismo de Bolsonaro, que voltou a fazer ameaças citando as Forças Armadas e a ofender governadores.

Essas declarações reafirmam o autoritarismo de Bolsonaro, mas, sobretudo, expõem a tática manjada de desviar a atenção do que realmente importa: a desídia e a inépcia do governo diante do vírus.

Por que tanto medo?, perguntou o senador Renan Calheiros nas redes sociais ante a inquietação bolsonarista. 

A pergunta, claro, é retórica. Quando os muitos ministros da Saúde de Bolsonaro forem questionados na CPI, o País afinal saberá como foram tomadas as decisões cruciais que resultaram no atraso da vacinação, na falta de campanha nacional para a adoção de medidas preventivas, na sabotagem do distanciamento social e no desabastecimento de equipamentos e drogas para o atendimento de doentes.

A rigor, nem seria necessária uma CPI. Quando Bolsonaro escarnece da inteligência alheia, dizendo que o intendente Eduardo Pazuello fez o dever de casa ao não comprar vacinas em 2020, ou quando o próprio ex-ministro da Saúde faz chacota dos brasileiros ao aparecer sem máscara e todo pimpão, num shopping de Manaus, a responsabilidade pela tragédia nacional fica óbvia. (editorial de 28/04/2021 d'O Estado de S. Paulo)
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