passa palavra
O QUE NOS RESTA?
Os acontecimentos do dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília
são por demais graves. Qualquer tentativa de subestimar a situação só revela a
debilidade do que resta de extrema-esquerda. É preciso ser claro: o que ocorreu foi uma bem-sucedida ação do eixo radical do fascismo brasileiro, apoiados pela evidente leniência das forças de segurança que protegiam o local.
Uma das primeiras manifestações pedindo intervenção militar de que se tem notícia na última década ocorreu em março de 2014, reunindo algumas dezenas de pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro. O único político que compareceu a elas foi o então deputado Jair Messias Bolsonaro.
Logo após o segundo turno das eleições presidenciais daquele mesmo ano, em que Dilma Roussef venceria Aécio Neves, uma outra manifestação é convocada pedindo o afastamento da petista e acaba dividida entre os que queriam o impeachment e os que pretendiam uma intervenção militar. Ao longo de todo o ano de 2015 as manifestações contra o governo se repetem, reunindo cada vez mais gente, mas com a mesma divisão entre os que queriam o impeachment, que eram maioria, e os que pediam intervenção militar, que, embora minoritários, iam se tornando mais numerosos a cada manifestação.
Revelou-se também uma divisão de estratégias nessa época: enquanto os grupos mais “institucionais” marcavam manifestações espaçadas e apostavam nelas como instrumento de pressão para ganhar apoio político e institucional para o impeachment, os grupos mais radicais apostavam em fazer mais manifestações.
“Invadimos para mostrar que aqui é a casa do povo. Os nossos representantes têm de temer. A lógica é muito simples, quando o povo teme o Governo é tirania. Quando o Governo teme o povo é que se tem liberdade. No Brasil, chegamos no ponto que não dá mais. Não é invadir escola. Isso é coisa de covarde, de bunda mole. Tem de invadir as Assembleias, o Congresso”
O discurso explicitava uma apropriação das táticas de esquerda, de ocupação, e propunha uma radicalização estética das mesmas, envolta já no mito fascista de coragem para substituição das velhas elites.
As ações dos últimos dias parecem ser a atuação de uma ala anti-institucional do bolsonarismo, pouco preocupada com disputas eleitorais, que deverá se manter ativa no próximo período, buscando cada vez mais a adesão das forças militares e policiais. Adesão esta facilitada pela ampla proximidade construída ao longo dos quatro anos de governo Bolsonaro em clubes de tiro.
Pouco antes da posse de Lula pareciam ter entrado em descenso, porém a desmobilização pode ter sido revertida a partir dos atos do dia 8, como indica a breve retomada do acampamento em Belo Horizonte em simultâneo aos acontecimentos de Brasília. Mesmo o desmonte e a prisão em massa do acampamento de Brasília não têm ainda um desfecho previsível: provocarão uma desmobilização ou agitarão as bases em solidariedade?
Embora o discurso de que isso abriria um precedente para a repressão aos esquerdistas não nos pareça exato, pois as táticas e estratégias de repressão sempre foram amplamente usadas e abusadas contra a esquerda e os trabalhadores, a aposta em utilizar a expertise adquirida pelo vice-presidente em reprimir manifestações quando era governador não nos parece uma saída à esquerda. As apostas petistas de fortalecimento do exército feitas ao longo dos 12 anos de mandato não mostram uma boa perspectiva de futuro, e ao mesmo tempo os discursos sobre ser necessário desbolsonarizar essas instituições têm encontrado pouco eco nas práticas adotadas.
Em parte, parece vir da intuição de que esses atos servirão apenas para mostrar números, aglutinar as bases de alguns movimentos sociais, mas estão longe de demonstrar uma estrutura organizativa de combate ao fascismo. A capacidade organizativa dos sindicatos e do que resta dos movimentos sociais parece refletir uma desmobilização de suas bases. A tendência é que o grosso das manifestações seja composto por uma esquerda difusa e pouco organizada por locais de trabalho, moradia ou estudo.



















