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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

REFORÇO DO PUNITIVISMO NÃO É O MELHOR CAMINHO PARA LIDAR COM A EXTREMA DIREITA

       

passa palavra 

O QUE NOS RESTA?

Os acontecimentos do dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília são por demais graves. Qualquer tentativa de subestimar a situação só revela a debilidade do que resta de extrema-esquerda. 

É preciso ser claro: o que ocorreu foi uma bem-sucedida ação do eixo radical do fascismo brasileiro, apoiados pela evidente leniência das forças de segurança que protegiam o local.

 Entre os capitalistas, a situação parece ter sido bem percebida, não à toa houve declarações da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), dos grandes meios de comunicação e da mais ampla gama de dirigentes políticos de todo o mundo. Não há de parte destes gestores uma ilusão com o número de manifestantes menor do que os “cinco milhões” almejados nas convocações. A coesão na classe política parece ter se forjado para condenar com clareza essas ações, exigindo das forças repressivas que se atue contra os fascistas.

 A intervenção no Distrito Federal, passando para o Ministério da Justiça o comando da Segurança Pública, e o afastamento do governador por 90 dias — por ordem judicial — indicam que as respostas às mobilizações golpistas serão mais enérgicas que as até então tomadas. O fortalecimento do aparato repressivo tem, no momento, um amplo apoio social. O apoio da esquerda à escalada repressiva parece advir da própria incapacidade de atuar por si para impedir a disseminação do fascismo na sociedade.

 Mas há de se perguntar em que medida se pode confiar no exército e na polícia para evitar o avanço da fascização.

Uma das primeiras manifestações pedindo intervenção militar de que se tem notícia na última década ocorreu em março de 2014, reunindo algumas dezenas de pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro. O único político que compareceu a elas foi o então deputado Jair Messias Bolsonaro. 

Logo após o segundo turno das eleições presidenciais daquele mesmo ano, em que Dilma Roussef venceria Aécio Neves, uma outra manifestação é convocada pedindo o afastamento da petista e acaba dividida entre os que queriam o impeachment e os que pretendiam uma intervenção militar. Ao longo de todo o ano de 2015 as manifestações contra o governo se repetem, reunindo cada vez mais gente, mas com a mesma divisão entre os que queriam o impeachment, que eram maioria, e os que pediam intervenção militar, que, embora minoritários, iam se tornando mais numerosos a cada manifestação.

 Revelou-se também uma divisão de estratégias nessa época: enquanto os grupos mais “institucionais” marcavam manifestações espaçadas e apostavam nelas como instrumento de pressão para ganhar apoio político e institucional para o impeachment, os grupos mais radicais apostavam em fazer mais manifestações.

 Já à época começaram os primeiros acampamentos. O local escolhido era em frente à FIESP, com a presença de vários militantes pró-intervenção e com o patrocínio da Federação das Indústrias, que fornecia o café da manhã, o almoço e o jantar dos acampados. Um pequeno grupo que estava acampado em Brasília chegou inclusive a levar um boneco inflável para homenagear um general do Exército que havia sido demitido após criticar o governo em uma palestra para oficiais da reserva e convocá-los para o despertar de uma luta patriótica — tratava-se do general Hamilton Mourão.

 

Em novembro de 2016 — já durante o governo de Michel Temer — um grupo de cerca de 50 manifestantes invadiu o plenário do Congresso Nacional pedindo intervenção militar e exaltando o então juiz da Operação Lava Jato, Sérgio Moro. Um observador atento notará que as imagens aí produzidas são em muito similares às da recente invasão aos prédios da Praça dos Três Poderes. Entre os manifestantes havia comerciantes falidos, seguranças, militares da reserva, policiais e donas de casa que recebiam pensão militar. Um deles declarou: 

“Invadimos para mostrar que aqui é a casa do povo. Os nossos representantes têm de temer. A lógica é muito simples, quando o povo teme o Governo é tirania. Quando o Governo teme o povo é que se tem liberdade. No Brasil, chegamos no ponto que não dá mais. Não é invadir escola. Isso é coisa de covarde, de bunda mole. Tem de invadir as Assembleias, o Congresso”

 O discurso explicitava uma apropriação das táticas de esquerda, de ocupação, e propunha uma radicalização estética das mesmas, envolta já no mito fascista de coragem para substituição das velhas elites.

 O movimento pró-intervenção militar é anterior ao bolsonarismo. O bolsonarismo, o lava-jatismo e todas as manifestações de direita de 2013 para cá serviram como incubadoras que permitiram a esse movimento crescer e se desenvolver a ponto de sair da sua condição marginal até se tornar o maior movimento social brasileiro na atualidade. Não nos parece surpreendente que apesar da manutenção de certo culto ao líder, esse movimento ganhe autonomia perante Bolsonaro e sua família, o que explica os fechamentos de vias promovidos no dia 9 de janeiro, mesmo após a condenação explícita feita por Jair.

 As ações dos últimos dias parecem ser a atuação de uma ala anti-institucional do bolsonarismo, pouco preocupada com disputas eleitorais, que deverá se manter ativa no próximo período, buscando cada vez mais a adesão das forças militares e policiais. Adesão esta facilitada pela ampla proximidade construída ao longo dos quatro anos de governo Bolsonaro em clubes de tiro.

 Não é desprezível o caráter messiânico e religioso dos atos. Acompanhando as lives dos acampamentos, era possível notar as orações e os sermões de outros acampados enquanto Lula tomava posse. As imagens das desmobilizações viralizaram com manifestantes chorando copiosamente em histeria coletiva. São pessoas dispostas a arriscar suas vidas pela causa.

 Ainda que os movimentos do dia 8 não tenham conseguido a tomada em definitivo do Estado, nos parece precipitado dizer que tenham sido derrotados. Os acampamentos serviram ao longo dos últimos sessenta dias como locais de grande potencial de formação interna para o movimento, aumentando sua identidade própria, possibilitando que os acampados constituam novos laços de amizade e solidariedade entre si. 


Pouco antes da posse de Lula pareciam ter entrado em descenso, porém a desmobilização pode ter sido revertida a partir dos atos do dia 8, como indica a breve retomada do acampamento em Belo Horizonte em simultâneo aos acontecimentos de Brasília. Mesmo o desmonte e a prisão em massa do acampamento de Brasília não têm ainda um desfecho previsível: provocarão uma desmobilização ou agitarão as bases em solidariedade?

 A esquerda se mostra um tanto atônita.

 Um acompanhamento do posicionamento da esquerda nas diferentes redes sociais indica uma demanda punitivista pela repressão institucional. Não se trata aqui de pensar que não se deva combater o fascismo com uso da força, mas será que o emprego e fortalecimento dos aparatos repressivos é uma boa estratégia? Em quem estamos depositando a confiança para um processo de desradicalização dos meios policiais e militares? 

Embora o discurso de que isso abriria um precedente para a repressão aos esquerdistas não nos pareça exato, pois as táticas e estratégias de repressão sempre foram amplamente usadas e abusadas contra a esquerda e os trabalhadores, a aposta em utilizar a expertise adquirida pelo vice-presidente em reprimir manifestações quando era governador não nos parece uma saída à esquerda. As apostas petistas de fortalecimento do exército feitas ao longo dos 12 anos de mandato não mostram uma boa perspectiva de futuro, e ao mesmo tempo os discursos sobre ser necessário desbolsonarizar essas instituições têm encontrado pouco eco nas práticas adotadas.

 Enquanto isso, a intervenção decretada na segurança pública do Distrito Federal tem outra consequência menos analisada, a impossibilidade de alterar a Constituição. O prazo de 23 dias pode ser eficaz para desmobilizar a ação em uma unidade federativa específica, mas aponta um possível caminho aos golpistas: repetirem as ações em outros pontos da federação, gerando novas intervenções e à consequente paralisia do governo, levando a um desgaste tanto institucional, quanto popular.

 A convocação de manifestações feitas pelo conjunto de movimentos sociais, para além de ser feita após os atos fascistas ganharem força jamais vista, não encontram na opinião pública o mesmo apoio que as demandas por repressão. 

Em parte, parece vir da intuição de que esses atos servirão apenas para mostrar números, aglutinar as bases de alguns movimentos sociais, mas estão longe de demonstrar uma estrutura organizativa de combate ao fascismo. A capacidade organizativa dos sindicatos e do que resta dos movimentos sociais parece refletir uma desmobilização de suas bases. A tendência é que o grosso das manifestações seja composto por uma esquerda difusa e pouco organizada por locais de trabalho, moradia ou estudo.

 Os tempos que se avizinham apresentam desafios maiores do que aqueles com que a extrema-esquerda tem demonstrado capacidade de lidar. (por Passa Palavra)

terça-feira, 11 de outubro de 2022

ESTAMOS ÀS VÉSPERAS DE UMA BATALHA QUE NÃO PODEMOS PERDER

E
is que, como nos anos de chumbo, a grande maioria dos cidadãos avessos ao arbítrio e ao terrorismo de Estado passa a incensar os podres poderes da democracia burguesa como tábuas de salvação, já que o bafo do bicho papão empesteia o ar  ao seu redor.

Isto depois de passarem décadas afirmando acertadamente que na institucionalidade burguesa o verdadeiro poder dominante é o econômico, em torno do qual os outros três gravitam, simulando um protagonismo que não têm. 

No recente 1º turno, os fisiológicos elegeram mais e piores parlamentares do que era previsto. Quais tartarugas touchês, os eternos torcedores do antifascismo, sempre à espera de que o alívio lhes caia do céu sem terem de correr os riscos das batalhas, entraram em pânico: "Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar!". 

E, claro, a indústria cultural contribuiu para a disseminação da paúra, pois tudo faz para espetacularizar as guerras de lama da democracia burguesa, já que elas alavancam o faturamento de vários de seus tentáculos.

O que realmente aconteceu no dia 2? Nada. 

O Congresso continuará a serviço da classe dominante, como sempre esteve. Reelegendo-se, Bolsonaro manterá unida sua base de pistoleiros de aluguel e vai dominar o parlamento com mais facilidade; contudo, já teria trocado o Palácio do Planalto pelo Complexo Penitenciário da Papuda há muito tempo se  não o houvesse domesticado lá atrás, ao preço de entregar a chave dos cofres públicos ao centrão. 
Se Bolsonaro perder, esse bando de ignóbeis mercenários se dispersará, indo cada um fechar acordo com quem mais lhe pagar pelo serviços sujos.  

O xis da questão continua, portanto, sendo que presidente sairá das urnas eletrônicas no dia 30: o cão danado do extremismo ou o lulu do reformismo.

Não estaríamos diante desta questão se o que passa por esquerda no Brasil tivesse colocado como prioridade máxima desalojar Bolsonaro, que é uma figura detestável ao extremo, uma miniatura  pândega do Hitler. 

Se nosso país fosse sério, o genocida jamais teria concluído o mandato após sacrificar centenas de milhares de vidas de brasileiros com sua sabotagem ao combate científico da pandemia.

Mas, em razão de sua força dominante sempre ter priorizado a conquista do poder e não o enfrentamento da ultradireita, a nossa esquerda (?) cerrou fileiras em torno da candidatura do segundo político mais malvisto do Brasil, transformando a eleição num arranca-rabo entre rejeitados. É por isto, e somente por isto, que o Bolsonaro não foi expelido, como deveria ter sido, já no 1º turno. 

Ainda assim, a corrupção política nunca pode ser igualada à insanidade desembestada. Lula é acusado de ter feito em maior escala o que governantes de centro e direita sempre fizeram, pois o preço da governabilidade vem sendo pago em verbas, cargos e maracutaias há muito tempo.

Bolsonaro, apesar das evidentes limitações pessoais (seu antepassado Plínio Salgado jamais teria deixado de dar o golpe de Estado em 2019, quando até poderia ter obtido êxito imediato, embora tendesse a desabar em curto ou médio prazos), encarna a mais abominável das opções capitalistas, nestes tempos de esgotamento do sistema de exploração do homem pelo homem.

O fato é que o capitalismo só sobrevive com crescimento contínuo, e este encontrou o seu limite quando a descomunal desigualdade econômica por ele gerada o tornou definitivamente disfuncional. 

Joe Biden e alguns líderes europeus gostariam de revitalizá-lo com grandes investimentos, começando pela mudança da matriz energética, com a substituição dos combustíveis fósseis pela energia limpa. Algo semelhante ao que fez Roosevelt antes da 2ª Guerra Mundial, ou ao Plano Marshall para reerguer a Europa depois da dita cuja.

Os extremistas de direita, estejam ou não conscientes disto, só têm um caminho real para atenuar um pouco o devastador desequilíbrio atual dos pratos da economia: o extermínio.

A população mundial conta hoje com cada vez mais miseráveis e cada vez menos privilegiados, repetindo o cenário da queda do Império Romano. Incapaz de superar a contradição que o paralisava (o passo seguinte para devolver dinamismo à economia deveria ser o fim da escravidão), Roma, ao derrotar os gladiadores de Spartacus, se condenou também à derrocada. 

O capitalismo, ora agonizante, se encaminha para o momento em que o acúmulo de quantidade gerará uma mudança qualitativa.  Novamente para pior. Novamente trazendo consigo um chocante retrocesso civilizatório (ou até mesmo o fim da humanidade).      
Estará o Brasil destinado a ser, como a Ucrânia, um palco de testes experimentais para a avaliação de até onde se pode ir na eliminação dos miseráveis sem levar à deflagração de uma guerra nuclear que extinguiria a espécie humana?

Será que esses testes não começaram faz tempo, principalmente na África, com o estímulo descarado para que chefes tribais travestidos de presidentes movessem guerras de esfarrapados?

Então, mesmo tendo infinitas ressalvas ao papel histórico do Lula, reitero que está em curso uma batalha que não podemos perder, pois as consequências serão nefastas ao extremo.

Ou fazemos o possível agora, ou teremos de fazer o impossível de 2023 em diante, resistindo ao fascismo em condições de extrema inferioridade de forças e tendo novamente de pagar com nossas vidas e nossa integridade física e psicológica o preço da omissão quando a escalada dos bárbaros ainda estava em curso. (por Celso Lungaretti)  

domingo, 9 de outubro de 2022

OS FASCISTAS AVANÇARAM NO 1º TURNO, MAS ELES TÊM PÉS DE BARRO – 1

dalton rosado
A AMEAÇA FASCISTA NO BRASIL
"Deus, pátria e família"
 (Plínio Salgado)
Tal como as bactérias que crescem num corpo com baixa imunidade, o pensamento fascista se nutre da desesperança nos cânones civilizatórios em face da barbárie causada pelo capitalismo em fim de feira.

Tenho escrito amiúde sobre as causas primárias dos nossos infortúnios atuais,  mas é preciso sempre lembrá-las aos leitores para que fixem nas suas consciências a certeza de que os motivos da debacle capitalista são  estruturais, e gerenciais e administrativos.

Não se trata de boa ou má governabilidade estatal, mas da ingovernabilidade intrínseca de um aparelho de Estado que sucumbe com o objeto a que serve: o capitalismo.

Todo poder vertical havido na história da humanidade foi a ela nocivo; portanto, precisamos horizontalizar as decisões socais e transformá-las num contrapoder. Este certamente vai constituir-se no maior ganho civilizatório dos tempos atuais.

Será uma volta civilizada, graças aos ganhos do saber que sejam incorporados aos sentidos de solidariedade das sociedades primitivas que tudo partilhavam.

Nunca é demais afirmar que a substituição substancial e majoritária do trabalho vivo (trabalho abstrato remunerado pela mercadoria dinheiro) pelo trabalho morto (das máquinas, sem remuneração às ditas cujas), como bem explicitou Karl Marx e vemos agora se confirmar, representa o fim do ciclo de nascimento, vida e morte de um modo de relação social histórico, não ontológico.

O socialmente histórico se queda diante da dialética do movimento social e coloca de modo perceptível a exaustão daquilo que se tornou socialmente obsoleto.
Tudo que é sólido desmancha no ar, disse Marx. Vivemos tal momento.

O fascismo tem base capitalista e nacionalista; a democracia burguesa tem base capitalista gerida pelos princípios iluministas da tripartição e descentralização do poder, que também é nacionalista, na medida que foi o capitalismo que formatou o conceito de nação como hoje conhecemos.

São dois cegos numa batendo na mesma porta, ainda que o primeiro seja militarmente beligerante e explicitamente genocida, e o segundo piedosamente opressor, tal como um antigo farmacêutico bem-intencionado que manipula remédios com insumos ineficazes.

No Brasil está em curso uma eleição sob esses dois parâmetros e que está explicitando um claro conteúdo antagônico de classes sociais.

Os embandeirados verde-amarelos, com seus carros luxuosos, representam a maioria visualmente perceptível dos veículos no trânsito e presente em restaurantes sofisticados e shoppings centers refrigerados, num vivo contraste com os moradores nas periferias dos bairros das cidades cindidas entre o luxo e o lixo.

Nos bairros pobres, principalmente do Nordeste ainda mais pobre, predomina um sentimento de classe entre os despossuídos identificado nas preferências subterrâneas por Lula, que é quem deles mais se aproxima, ainda que menos presentes entre os que frequentam as igrejas do pentecostalismo da prosperidade fake que apela para o paraíso celestial como recompensa conformista pelo sofrimento terrestre.
Nunca houve entre nós uma eleição com tais características, e isto se observa até de região para região, com os que detêm maior desenvolvimento econômico apresentando diferenciação de escolha (até mesmo no interior das regiões prósperas se observa tal divisão de classe).

O projeto fascista toma corpo despudoradamente mundo afora em face da falta de respostas da democracia burguesa para o combate ao sentido declínio social do poder de compra de mercadorias e da falência estatal no cumprimento das suas incumbências constitucionais de atendimento das demandas públicas básicas.

O Brasil segue esta trajetória de debacle econômico. agravada pelo fato de que aqui a desigualdade social é aviltante por termos uma elite política e econômica que tem a cabeça no colonialismo feudal (alguns confabulam às escâncaras sobre golpes de estado fascistóides).

Estamos vivendo uma ascensão fascista que já pode ser detectada independentemente do resultado das urnas do último domingo. No senado brasileiro os elitistas (com alguns fascistas despudoradamente assumidos tendo sido eleitos) já são maioria, de vez que obtiveram 44 cadeiras das 81 existentes.

O fascismo é cruel e insensível à vida humana. Para ele, só os eleitos pelos deuses, como se tivessem mentes e corpos aptos à purificação da humanidade, devem viver.

Como disse Jean-Paul Sartre em A Idade da Razão, "devemos combater o fascismo não pelo número de mortes que ele causa, mas pelo modo como ele mata". (por Dalton Rosado – continua neste post)

terça-feira, 4 de outubro de 2022

PERIGO: GANHOU A EXTREMA-DIREITA REACIONÁRIA EVANGÉLICA!

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epois da Teologia da Prosperidade,  a Teologia da Dominação

Nossa esquerda estava acostumada com as lutas contra o poder político da Igreja Católica, que exercia tal poder sobre o povo desde a colonização, com o controle da terra e implantação do escravagismo, não perdendo o controle nem com a Abolição,

E se desmobilizou na frente religiosa a partir da transformação operada dentro da Igreja: sua abertura para um socialismo cristianizado, para uma nova teologia libertária. 

Foi uma tendência que se cristalizou e marcou o movimento social no Brasil a partir dos anos 60, construída sobre as cinzas das ideias sociais libertárias marxistas comunistas reprimidas pelo varguismo, toleradas alguns anos depois da vitória contra o nazifascismo para serem de novo reprimidas.

Do fim da 2ª Guerra Mundial ao golpe de 1964, não houve muito espaço de liberdade para se fazerem grandes reformas sociais. Mas foram lançadas as bases para as principais leis sociais, algumas já vindas do varguismo, que salvaram o Brasil de revoluções regionais e de uma fragmentação.

As artes tiveram também um grande papel na não fragmentação do Brasil – a música, teatro, cinema, a literatura ajudaram a manter os brasileiros unidos na fase da industrialização.

Entretanto, enquanto o petismo procedia a transformações sociais indolores, revalorizando os trabalhadores, procedendo a reformas sociais sem atritos, alguma coisa se preparava na surdina.

Retornou com força o neocoronelismo  do controle das terras pela posse das riquezas naturais do Brasil, alimentado pelo projeto gigantesco do agronegócio de se apropriar das ricas terras nativas ainda não exploradas para a exploração agrícola intensiva de produtos básicos destinados à exportação, num recuo modernizado e atualizado à ideologia e economia da época colonial.

Mas isso não seria possível num Brasil que ganhava espaço no mundo internacional, na ONU, na diplomacia. Era preciso urgentemente encontrar um agente desagregador que infectasse o país e restabelecesse o mesmo clima dos tempos de domínio colonial.

Como? Que tipo de veneno poderia ser inoculado na pujante nação brasileira que já se destacava no cenário mundial? Uma droga capaz de ser consumida discretamente pelas camadas populares, torná-las dóceis, passíveis e controláveis.

Feitas as adaptações necessárias, os laboratórios sociais neocapitalistas estadunidenses produziram um novo veneno, o da Teologia da Dominação, baseada num releitura da Bíblia, uma mistura espúria e bem dosada de velho e novo Testamento, capaz de impedir os surtos de lutas por conquistas sociais na população pobre. 
Veneno sem cor e sem cheiro, ministrado semanal e discretamente em todas as escolas dominicais e lançado dos púlpitos das igrejas sobre os fiéis.

O Brasil não será mais o mesmo se não for encontrado um antídoto contra esse veneno do evangelismo neocapitalista da extrema-direita dos EUA,  inoculado pelo novos agentes do imperialismo em nosso país.

Será tarde demais? Talvez, mas é preciso reagir rapidamente, senão, além de nossa secessão e fim da nossa unidade política e territorial, será a pá de cal em toda nossa cultura, de todo nosso acervo cultural e da nossa filosofia brasileira de vida.

Parem um instante, reanalisem os fatores determinantes da eclosão dos novos paradigmas sociais lançados pela extrema-direita bolsonarista evangélica. Onde estão as fontes e as bases desse movimento extremamente reacionário e desmobilizador?

Nosso tempo é curto, se você concorda, em todo ou em parte, repasse e alerte seus amigos. O perigo disso que chamo de  Teologia da Dominação é crescente. Implantado discretamente como embrião durante a ditadura militar, esse perigo está atingindo hoje sua maturidade, aliado ao neoliberalismo e à extrema-direita internacional. 

Se não reagirmos, ele levará ao fim o Brasil que hoje conhecemos! (por Rui Martins)

quinta-feira, 14 de julho de 2022

BOZO, VOCÊ SABE O QUE É INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA? NÃO APRENDEU NA AMAN?

eugênio bucci
SENTIDO DESFIGURADO
"Você sabe o que é sentido figurado? Você sabe o que é?
Você estudou Português na faculdade ou não?" 
Assim ralhou o presidente da República, no Palácio do Planalto, ao ouvir uma pergunta de que não gostou. Entendamos o contexto.

O bate-boca se deu nesta 2ª feira (11), dois dias depois de o guarda municipal Marcelo Arruda ter sido morto a tiros, durante sua festa de aniversário, na cidade de Foz do Iguaçu (PR). Gravado pelas câmeras de segurança do local da comemoração, o crime ganhou as telas eletrônicas, desde os telejornais do horário nobre até os grupos de família no WhatsApp. 

O assassino invadiu o salão atirando, enquanto gritava: "Aqui é Bolsonaro!". A vítima, militante do Partido dos Trabalhadores, tinha escolhido o ex-presidente Lula como tema do seu aniversário.

Com tamanha carga partidária, a tragédia adquiriu um significado político eloquente – um bolsonarista mata a tiros um petista, às vésperas das eleições. 
Daí vem a pergunta: o que é que os pronunciamentos odientos do presidente têm que ver com esse homicídio? Pois era isso que os repórteres queriam ouvir do próprio. 

Durante a rápida entrevista, alguém lembrou uma fala de Bolsonaro em 2018, durante um comício no Acre. 

Na ocasião, o então candidato tomou emprestado um destes tripés usados por fotógrafos e cinegrafistas e o segurou como se fosse uma metralhadora, fazendo tremer os braços, como se distribuísse rajadas nos ares do Norte. Depois, pegando de volta o microfone, bradou, quase gargalhando: "Vâmu fuzilá a petralhada aqui do Acrê".

Quando ouviu menções à sua incitação ao fuzilamento de petistas, proferida há quatro anos, o hoje chefe do Executivo se agastou. Foi aí que usou como escudo as figuras de linguagem: "Você sabe o que é sentido figurado? Você sabe o que é? Você estudou Português na faculdade ou não?".

Não é comum o oferecimento de disciplinas de Português em faculdades que ensinam o jornalismo. Os profissionais desse campo tentam estudar o idioma durante a vida inteira, mas dificilmente encontrarão aulas de gramática ou de formas narrativas no seu currículo de graduação. O presidente da República não sabe disso, lógico, assim como não sabe o que significa sentido figurado. 

Se invoca a expressão, só o faz para escapulir de uma responsabilidade que tem. Ele não é culpado imediato pelos disparos de Foz do Iguaçu, mas é, sim, o maior estimulador da tensão que se alastra e que tende a desaguar em atos de agressão física.

Por certo, Bolsonaro não faz ideia do que seja o tal 
sentido figurado; sua prosódia de exacerbações, avessa a qualquer forma de elevação estética, apenas desfigura o sentido das representações simbólicas. 

Onde a linguagem triunfa sobre a carnificina, os seus urros trazem de volta a pedra bruta que tritura o espírito de cada palavra. As coisas que ele diz, e as diz muito mal, as coisas malditas que saem dos seus resmungos ou de suas infâmias produzem, sem rodeios nem mediações, a generalização da violência. A responsabilidade é direta, crua, não há como disfarçá-la ou maquiá-la.

Chega a ser estranho, desconcertante mesmo, que tanta gente fique por aí falando em polarização. A polarização já era; eclodiu antes de 2018 e depois virou outro bicho. Embora seus resíduos subsistam, o que está hoje na nossa cara não resulta mais de um debate polarizado, mas de uma fascistização unilateral e desembestada. É com isso que estamos lidando agora.
(Um parêntese aqui. Os cientistas políticos evitam usar o termo fascismo para descrever o quadro presente; as circunstâncias históricas da Itália dos anos 1920 não coincidem com o que se passa agora no nosso triste país – além do quê, Mussolini, em seu início, defendia os direitos trabalhistas, enquanto o bolsonarismo os mastiga feito hiena. 

Mas o que está aí carcomendo por dentro o Estado Democrático de Direito e degradando por fora dele toda a cultura política é, sim, um fascismo anacrônico, ele mesmo desfigurado, oco, um fascismo ajoelhado diante dos financistas e dos políticos de aluguel.)
O desastre fascista, como costumávamos saber, mora no
guarda da esquina. Era assim na Itália de cem anos atrás e é assim agora no Brasil. 

São estes anônimos, armados pelas políticas públicas do governo, os colecionadores de trabucos e de mortes, que se sentem cada vez mais convocados a tomar a iniciativa de abater os dissidentes. Hoje, como antes, o fascismo é o império dos matadores medíocres, insignificantes e obscuros que se veem autorizados a dar cabo da vida de gente luminosa.

Este é o golpe que está vindo aí, que já começou e que vai ainda nos custar mais sangue. O fascismo insepulto dos seres menores, não nos enganemos mais, foi produzido pelo discurso desfigurado que a nossa gente elegeu há quatro anos. 

É chocante constatar que tantos ainda se dobrem a essa moléstia política. Dói na espinha ver como tantos eleitores endinheirados prometem dobrar a aposta. Os reprimidos clamam por mais repressão. Os devotos obtusos, há cem anos, como agora, se aconchegam no nervo frio do mal. (por Eugênio Bucci, professor da ECA/USP e colunista d'O Estado de S. Paulo)

sábado, 30 de abril de 2022

O MUNDO EM DEPRESSÃO ECONÔMICA – 2

(continuação deste post)
Miséria e fome na África...
O
S BLOCOS DO CAPITALISMO ONE WORLD E O BRASIL
– O capitalismo atingiu todos os poros das sociedades mundiais; inexiste país que não tenha a sua relação social mediada pelo critério da forma-valor (ou seja, pelo trabalho abstrato produtor de valor e da extração de mais-valia, que proporciona a acumulação autotélica do capital nas mãos dos seus administradores, os quais obedecem rigorosamente as suas ordens ditatoriais).

Paradoxalmente, é justamente no seu ápice que o capitalismo chega ao seu limite interno de expansão e se dessubstancializa.

Apesar de formarem blocos monetários capitalistas (por vezes geograficamente separados, com suas influências periféricas, em todo o Planeta), eles assim se distribuem:
— bloco do dólar e do euro, que abrange as Américas e o Caribe, a União Europeia e o Reino Unido;
— bloco da Eurásia, formado pela parte europeia da Ásia menor e pela Ásia Maior, tendo à frente a Rússia, a China, a Índia e alguns ricos países árabes, totalizando 60% da população mundial e 1/3 das partes sólidas do Planeta, A aliança entre Rússia, China e Índia, com suas imensas extensões territoriais e populacionais, poderá deslocar a hegemonia do dólar, tornada moeda internacional desde o fim da 2ª Guerra Mundial; 
— bloco da África, com cerca de 14% da população mundial e dividido em diversos países cuja representatividade no PIB mundial é baixa, idem o índice de IDH, além de englobar ditaduras amiúde às voltas com conflitos político-governamentais (e muitas quarteladas);
— bloco da Oceania, sob a hegemonia da Austrália e seus altos índices de IDH.

...trabalho escravo e infantil na Ásia...
Quando se analisam os blocos populacionais em suas diferentes configurações sociais podemos concluir que somos pobres e, principalmente, que ao atingirmos o ápice do capitalismo, estamos empobrecendo ainda mais. 

Fato é que os grandes bolsões populacionais do mundo ainda sofrem com a penúria, em que pesem os avanços tecnológicos que têm propiciado significativa melhora na vida dos seres humanos, pois têm contra si as contradições da lógica capitalista e da segregação social que propicia.

Como se explicar o surgimento dos discursos de ódio à luz do dia e sem nenhum pejo ou reprimenda? 

Da apologia de símbolos nazifascistas ostensivos? Do crescimento do crime organizado? 

Do aumento da violência urbana? Do recrudescimento do racismo? Da xenofobia? 

Da misoginia? Da homofobia? Da intolerância religiosa? 

Da negação dos valores solidários da humanidade, substituídos pela priorização do enriquecimento a qualquer preço e por quaisquer meios, tornando os seres humanos inimigos encarniçados de outros seres humanos? 

O capitalismo faz água e, ao invés de facilitar a sua inevitável superação, tenta sobreviver incitando-nos ao abandono das mais nobres virtudes humanas e à aceitação da barbárie.

...destruição e genocídio no Leste europeu...
Daí uma candidata conservadora como Marine Le Pen, com teorias retrógradas, racistas e segregacionistas ter obtido cerca de 40% dos votos num país que historicamente tem servido de vanguarda dos movimentos libertários.

O nosso país não está distante disto. O Brasil de Bolsonaro, o ignaro, tem números decepcionantes, mas assim mesmo o genocida detém uma chocante faixa de uns 25% do eleitorado a seu favor. 

Segundo o Banco Mundial, a previsão de PIB para o Brasil em 2022 é de 0,77%, o segundo menor para a América Latina, à frente apenas do haitiano (0,4%).  Mas, o inventário da destruição ultradireitista nem de longe se resume a isto, pois: 
— temos inflação de dois dígitos no acumulado dos últimos meses;
— nossas taxas de criminalidade são elevadas;
— conservamos altas taxas de desemprego;
— somos campeões de mortes causadas pela covid 19 por habitantes, estamos ainda com média de 100 mortes diárias e caminhando para a incrível marca de 700 mil mortes oficializadas (os grandes centros científicos do exterior garantem que o número real ultrapassa 1 milhão de óbitos);
— temos evidências gritantes de corrupção nos Ministérios da Educação e Saúde (e acabamos de ver um ministro evangélico recentemente demitido ser flagrado em pleno aeroporto com uma arma de fogo que, talvez por intervenção divina, disparou, expondo o tipo de cristão que ele é);
— temos um parlamento que produz um orçamento secreto, destinado a bancar emendas parlamentares que beneficiam acima de tudo os parlamentares que as propõem, enchendo-lhes os bolsos;
...fascistização no Brasil.
— temos um governo com um número desmedido de militares em cargos de confiança, quase sempre designados para funções que não dominam (o caso do general Pazuello é apenas o mais caricato de todos, mas está muito longe de ser exceção); 
— em nosso Estado laico o presidente escolhe ministros para a mais alta corte jurisdicional do país pelo critério de serem terrivelmente evangélicos, tendo a desfaçatez de o admitir de viva voz (!);
— temos um indulto presidencial que concede o benefício da graça a um arruaceiro de quinta categoria, cujos antecedentes e práticas atuais são péssimo exemplo para os jovens brasileiros; 
- temos um alinhamento explícito ou vergonhosamente escondido a um belicista como Vladimir, o Plutinocrata russo que estarrece o mundo com sua beligerância genocida. 

Ufa, será que merecemos isto??? (por Dalton Rosado)
O horror da guerra da Ucrânia nos versos do Dalton
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