Uma regra de ouro para jornalistas é jamais abraçarem de imediato uma das possibilidades de interpretação de alguma ocorrência que comporta outras. Há chance não desprezível de passarem vexame adiante.
À primeira vista, o bestial assassinato de três médicos num quiosque da Barra da Tijuca (RJ) parece ser uma retaliação contra o Psol como um todo, contra a deputada federal Sâmia Bonfim em particular, ou contra ambos.
Mas, há uma diferença marcante com relação à execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Franco: ela não se tornou alvo por ser de esquerda, por militar no Psol, por preconceito racial ou sexual, mas sim porque concretamente combatia as milícias do RJ e denunciava as suas práticas criminosas.
Caso não se comprove que a deputada Sâmia Bonfim ou seu companheiro Glauber Braga estava colocando em risco os negócios dos milícianos de estimação da família Bolsonaro ou a impunidade desse bando ignaro, a coisa pode ser ainda mais ameaçadora.
Pois, se o motivo da matança tiver sido apenas o fato de uma das vítimas, o ortopedista Diego Ralf de Souza Bomfim, ser irmão de Sâmia, então este poderá ser o começo de uma escalada terrorista contra a esquerda em geral, atingindo, inclusive, parentes, amigos e conhecidos.
Pior, impossível! Quase um século depois, estaríamos prestes a ver repetidas por aqui as chacinas dos gangsters de Chicago, que não poupavam nem mulheres e crianças em suas retaliações e intimidações. Seria o eclodir do ovo de serpente que o palhaço psicopata chocou durante quatro anos.
Mas, muita calma nesta hora!
Antes de reagirmos ao cenário mais terrível, temos de considerar a possibilidade de que a tríplice execução haja tido outro motivo, desde mero engano na escolha dos alvos até uma queima de arquivo, sabe-se lá por qual motivo.
O certo é que, parafraseando o saudoso Jards Macalé, a espuma de sangue brilha cada vez mais na manhã deste Brasil de louco. (por Celso Lungaretti)
Após ensaiar movimentos de saída da reclusão em que mergulhou desde a derrota para Lula, Jair Bolsonaro afundou novamente na tristeza com a proximidade de sua saída dos palácios da Alvorada e do Planalto, dizem aliados mais próximos que estiveram com ele nos últimos dias.
O presidente vinha indicando que poderia encerrar a reclusão por meio de aparições breves e discursos aos seus seguidores, mas esse movimento foi interrompido. Isto porque, segundo eles, a movimentação de deixar esses espaços fez com que caísse a ficha de que está se afastando de fato da presidência.
Eles afirmam que Bolsonaro tem planejado ficar longe da política nos três primeiros meses do ano.
Além de deprimido e inconformado com a derrota, que ele atribui à interferência do STF, ele tem reclamado de cansaço acumulado da campanha eleitoral. (por Guilherme Seto)
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TOQUE DO EDITOR – Tadinho! Causou a morte horrível de centenas de milhares de seres humanos e não consegue segurar as lágrimas quando se lembra desses momentos felizes...
Enfim, como depressão é coisa séria, está certíssimo em afastar-se das atividades milicianas, parasitárias e demenciais (pois política, para ele, não passa disso) por uns tempos.
Só que três meses é pouco. Por que não três décadas?
Ou, melhor ainda, por 40 anos, a pena de reclusão máxima admitida pelas leis brasileiras.
Seria um final da linha gratificante para quem sempre teve como objetivo primordial na vida não precisar trabalhar e poder sobreviver à custa do erário.
Talvez até ele parasse com esse chororô de maricas, avacalhação suprema para quem a cada instante dava murros no peito e berrava que era imbrochável! (CL)
"Quem é homem vai comigo/ Quem é mulher fica e chora/
'Tou aqui quase contente/ Mas agora vou-me embora"
Bolsonaristas são uma quadrilha de batedores de carteira, milicianos e praticantes de rachadinha.
O PT é outro nível. Com o DNA do sindicalismo –bandido com metafísica social–, o PT é uma gangue sofisticada.
Rouba com garfo e faca e com discursos intelectuais –quando Haddad passa, ciclistas revolucionários e estudantes de humanas soltam suspiros profundos.
Conta com a bênção de muitos membros da elite, retomará o poder e vai remontar suas redes de corrupção. Artistas ficarão emocionados e jornalistas conterão o gozo no canto dos lábios.
Bolsonaristas veem a si mesmos como machos alfa a andar de motocicleta por aí.
Se você é simpatizante do Lula, você vê a si mesmo como um ser evoluído, com altíssima consciência cósmica e amor à humanidade.
Se você não abraça nenhum dos polos da corrupção acima descritos, terá zero opção nas eleições para presidente neste ano.
Ou vota nulo e resguarda sua consciência, o que de nada adianta quanto à miséria política do país –mas, dirão os mais céticos, "um voto não faz nenhuma diferença mesmo".
Ou tapa o nariz e vota no que você considera menos fedido. O odor de ovo podre exala das duas opções. A miséria política brasileira tocou o fundo do poço.
Estamos no mato sem cachorro. Para apoiar Bolsonaro, você tem que ser uma espécie de estúpido raivoso e cego. Para apoiar Lula, você tem que ser um obcecado ideológico ou um mentiroso contumaz.
A 3ª via descortinou essa mesma miséria. Um desfile de vaidades indiferentes ao destino do país. Afoitos em adiantar alguma vantagem para suas carreiras e seus partidos –enfim, sua sobrevivência, mesmo na inviabilidade da vitória–, os candidatos da 3ª via nunca quiseram ser uma opção viável, mas apenas aparecer para projetos futuros.
Não têm nenhuma cerimônia em entregar o país a um dos dois lixos que concorrem à presidência. A sensação que se tem ao olhar para os ex-candidatos da 3ª via é a de assistir a um desfile de Napoleões loucos numa ópera bufa.
A elite econômica nunca se preocupou com o país. Somos uma vaca leiteira para aumentar suas riquezas. Farão, como sempre fizeram, acordos com os canalhas da vez.
O cidadão brasileiro continuará vivendo entre assaltos, craqueiros, inflação, fome, picaretas progressistas e reacionários que babam na gravata.
Os militares, infelizmente, demonstraram avidez pelo poder e pequenez histórica. Antes do governo Bolsonaro, haviam amealhado uma boa posição na opinião pública. Depois do governo Bolsonaro, ficaram com cara de homem inseguro em busca de provas públicas de sua condição de macho.
Com Bolsonaro, gozam muitos evangélicos, milicianos e ladrões de galinha, destruidores da Amazônia, dos índios, num arco de liberalismo estúpido que destrói um patrimônio essencial a serviço da gang do garimpo.
Com o PT, todos os inteligentinhos gozarão ao voltar finalmente ao poder e poderão roubar o Estado com discurso progressista.
A classe teatral poderá fazer o L com os dedinhos como se estivessem resistindo a ditaduras de alto risco em seus palquinhos. Se bolsonaristas cospem quando falam, simpatizantes do Lula choram, emocionados, com a própria sensibilidade fake.
Há que se reconhecer que, com o Lula, a imagem internacional do Brasil deverá melhorar um pouco. A política é um circo, seja em que nível for, do município à ONU.
Bolsonaro é um palhaço pró-ditadura, Lula, um político datado que traz no seu portfólio lutas contra a ditadura. Um saldo pobre para um país cansado no mato sem cachorro.
Dirão que não há saída fora da política –e não há mesmo, por isso estamos sem saída. Não há alternativas que não passem, de alguma forma, pelo fim da picada. O Brasil parece um paciente terminal, com uma classe política que nos asfixia.
O PT, que dominou o cenário político partidário pós-ditadura, é uma gangue. Deverá voltar ao poder nas eleições deste ano –salvo algum acidente de percurso– e voltará a roubar, ainda que com algum verniz.
E voltará a perseguir todo mundo que não rezar no seu altar, como fez em governos anteriores, apesar de posar de democrático. (por Luiz Felipe Pondé)
TOQUE DO EDITOR– Quanto à crítica ao que está aí, tem tudo a ver.
Mas, se o capitalismo se aproxima a passos largos do fim da linha e a democracia burguesa cada vez mais se evidencia como um tapume colorido atrás do qual se escondem os cordéis da ditadura do poder econômico, é certo que estamos entrando num período totalmente imprevisível da história da humanidade, que tanto abrirá janelas revolucionárias como poderá consumar o fim da nossa espécie.
O quadro é mesmo o que Pondé exibiu. No entanto, depende de nós aproveitarmos tais janelas revolucionárias para garantir que continuará existindo um planeta para nossos filhos, netos e bisnetos viverem. E não será com amargor e ceticismo que salvaremos algo do incêndio.
O Pondé tem, contudo, o mérito de afastar as ilusões simplórias, que não nos servem de nada. Graças a elas, nos encaminhamos para trocar o retrocesso à Idade Média pelo retrocesso ao pré-1968, numa grotesca alternância entre governos bonzinhos (mas coniventes com a dominação burguesa) e governos malvadões (que a impõem a ferro e fogo).
Ou voltamos a andar para a frente ou acabaremos enterrados nesse pântano em que nos debatemos desde 1985, abraçados aos cadáveres putrefatos do reformismo e do populismo.
Imagine o horror de um país em que o Ministério Público e o Judiciário fossem os únicos caminhos para se chegar à justiça. É o que o brasileiro experimenta no momento.
Em reportagem irrefutável, a Folha de S. Paulo demonstrou no ano eleitoral de 2018 que Bolsonaro mantinha na folha do seu gabinete na Câmara uma funcionária fantasma. Moradora de Angra dos Reis, ela não aparecia em Brasília. Então candidato, Bolsonaro desconversou.
Decorridos quatro anos, o Ministério Público protocolou na Justiça Federal de Brasília uma ação acusando Bolsonaro de improbidade administrativa. Nela, há um depoimento que a servidora fantasma prestou ainda em 2018, admitindo que jamais pisou em Brasília durante os 15 anos em que Bolsonaro a manteve na folha da Câmara.
Cabe perguntar: por que os procuradores esperaram que Bolsonaro reivindicasse a reeleição para processá-lo? A demora da Procuradoria é um escândalo dentro do outro.
Há no Supremo e no TSE meia dúzia de inquéritos contra Bolsonaro. Nunca dão em nada. As rachadinhas da família são enterradas vivas pelo Judiciário.
Numa época marcada por blindagens, anulações de sentenças e lavagem de fichas sujas, a sorte do eleitor é que a urna está a seis meses de distância.
Quem quiser poderá gritar na cabine de votação: "Livrai-me da Procuradoria e do Judiciário, que dos malfeitores me livro eu!". (por Josias de Souza)
Toque do editor– O Josias esgotou o assunto no que tange ao aspecto sério do episódio, mas há um, anedótico, que não posso deixar passar em branco: o Bozo fez com que essa humilde senhora, vendedora de Açaí numa lojinha de Angra dos Reis, se passasse por funcionária de seu gabinete, remunerada pelo Erário, unicamente para não ter de pagar-lhe do próprio bolso pelos serviços que ela lhe prestava, tomando conta de sua casa de praia e limpando-a de vez em quando.
Pior do que tudo é constatarmos que os poderosos, com suas perseguições judiciais, disparos de fake news e facadas fajutas, conseguiram tornar presidente do Brasil alguém a quem antigamente chamaríamos de um ladrão de galinhas, pois arrancava comissão de quem admitia no seu gabinete e armou toda essa encrenca apenas para não gastar... com faxineira!
Isto para não falarmos de suas ligações perigosas com as milícias do Rio de Janeiro. (CL)
Parafraseando o poeta Marcus Accioly, em se tratando desses dois eu sou sincero: 1+1=0
ricardo kotscho
O TENENTE DAS BOMBAS E O SOLDADO
MILICIANO: COMO ELES PUDERAM SER ELEITOS?
A que ponto chegamos", lamenta Merval Pereira em sua coluna no Globo, desconsolado com os rumos do país.
Para entender como chegamos até aqui, caro colega, bastaria pegar o currículo, ou melhor, o prontuário de dois personagens que se cruzaram nas eleições de 2018, e analisar a nossa responsabilidade como jornalistas nesta história, que começa na Lava Jato, passa pelo Alto Comando do Exército e desemboca nas ameaças ao Supremo Tribunal Federal.
Ambos abandonaram as fardas para se tornar políticos, depois de serem processados e presos por suas corporações
Foram candidatos pelo PSL, um partido nanico de aluguel, que lhes ofereceu a legenda, assim como a muitos outros policiais e militares eleitos na onda conservadora da chegada pelo voto da extrema-direita ao poder.
Por isso, urge criar antes das próximas eleições uma cláusula de barreira para exigir dos candidatos a apresentação do atestado de antecedentes e de um exame de sanidade mental.
Falo, é claro, do presidente Jair Bolsonaro e do deputado federal Daniel Silveira, dois personagens emblemáticos destes tempos de insânia, idiotia, cólera e demência, que colocam em risco a nossa democracia.
A falta dessas exigências básicas para o exercício de um mandato popular ajuda a explicar como chegamos até aqui, em meio a mais uma crise institucional que paralisa o país, já assolado pela pandemia e a falta de vacinas.
Como eles puderam ser eleitos?
O tenente Bolsonaro foi processado no Superior Tribunal Militar por vários delitos graves, ao planejar atentados a bomba a quartéis e à estação de abastecimento de água do Rio de Janeiro, para reivindicar aumento de salários da tropa.
Punido com alguns dias de prisão, acabou sendo absolvido no STM e reformado como capitão, aos 33 anos, para se candidatar a vereador e iniciar sua carreira política.
O soldado da PM Daniel Silveira, que usava a sua página no Facebook para atacar líderes religiosos e a imprensa, tem um robusto prontuário em que constam 26 dias de prisão, 54 de detenção e 14 repreensões por atos de desobediência e falta ao trabalho.
Em 2018, seguiu a mesma trajetória de Bolsonaro e se elegeu deputado federal, com 31 mil votos, depois de rasgar uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, fuzilada por milicianos, também ex-PMs.
A Polícia Militar do Rio, na qual a família Bolsonaro recrutou assessores para seus gabinetes, é a maior fornecedora de mão-de-obra para as milícias cariocas.
Daniel Silveira pode até não ter carteirinha de miliciano, mas revela no seu comportamento o mesmo vocabulário grosseiro e métodos violentos e cafajestes dos ex-colegas de farda, que trocaram a segurança pública pelo crime organizado (e foram protestar contra a sua prisão diante da carceragem da Polícia Federal, no Rio, onde está detido).
Esse é o caldo de cultura onde vicejou o bolsonarismo-raiz, bem retratado nos filmes Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, com roteiro de Bráulio Mantovani, que termina com um sobrevoo de Brasília, para mostrar numa cena premonitória onde eles poderiam chegar.
Até desfechar num vídeo inenarrável o violento ataque verbal ao STF, onde é investigado por participação em atos antidemocráticos, Daniel Silveira fazia parte da tropa de choque do presidente Bolsonaro no Congresso, era um dos seus homens de confiança.
O deputado bolsonarista quando não está preso...
Como dizia o costureiro e ex-deputado Clodovil, boi preto conhece boi preto.
Até o momento em que escrevo, o presidente Bolsonaro ainda não havia saído em defesa do correligionário, depois de o pleno do STF chancelar a prisão de Silveira por 11 a 0, algo muito raro na Corte.
Assim como seu líder, o ex-PM, legítimo cidadão de bem, resolveu testar os limites das instituições. Perdeu.
A pergunta não deveria ser o que ele fará agora, mas como um meliante com esse perfil pode chegar à Câmara dos Deputados?
Se a cláusula de barreira para candidatos já estivesse em vigor, e as instituições realmente funcionassem, Daniel Silveira seria apenas mais um miliciano aloprado, e Jair Bolsonaro jamais chegaria à Presidência da República.
O deputado bolsonarista quando vai responder a seus processos
Agora, não adianta ficar indignado com as confissões do general Villas Bôas sobre a participação do Alto Comando do Exército na operação golpista para impedir Lula de ser candidato em 2018.
Os eleitores poderiam não saber quem era o mito, mas os jornalistas e o comandante do Exército tinham obrigação de conhecer seu currículo.
Pois foram eles, junto com a Lava Jato de Sergio Moro, os responsáveis por abrir o caminho para a eleição do tenente terrorista que, na garupa dele, levou os militares de volta ao poder.
Só falta saber agora quem será capaz de mandá-los de volta aos quartéis.