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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

DOIS COMPANHEIROS QUE EU ESTIMAVA MUITO, EXECUTADOS NA CASA DA MORTE

Nunca procurara conhecer em detalhes como morreram companheiros queridos, nem mesmo quando esses relatos ficaram fáceis de levantar na internet. Sabia que isso me deprimiria demais.

Contudo, ao escrever o Náufrago da Utopia, tal informação se tornou obrigatória.

Sabia que desaparecera prisioneira da repressão a Heleny Ferreira Guariba (de quem muito gostei mas me contive porque em cada instante que passava com ela a colocava em perigo, a Lucy ainda desconhecida do DOI-Codi  e eu com a face estampada nos cartazes de procurados espalhados por todo lugar). Mas ignorava que ele expirara na famigerada Casa da Morte de Petrópolis. 

À dor da perda, que nunca deixei de sentir, acrescentou-se a raiva impotente ao saber que ela foi levada a um centro clandestino de torturas, sem esperança de sobreviver, para passar pelos piores tormentos e, no final, ser abatida com um animal.

Quando estava sendo torturado no limite das minhas forças, consolava-me a certeza de que aquilo teria um fim. Bastaria aguentar mais um dia, e outro, e outro… até que os companheiros tomassem providências defensivas lá fora e não sobrassem mais  motivos operacionais  para aquela bestialidade.

Sem luz nenhuma no fim do túnel, apenas a certeza da morte, como terão sido os últimos dias da Lucy?

Foi o que me atormentou ao longo de toda uma noite insone, no pior momento possível, pois estava em má situação financeira e era obrigado a passar umas 14 horas por dia escrevendo o livro que, contra a entrega dos originais, iria me livrar de outro pesadelo, o despejo.
Também supunha que José Raimundo da Costa, a melhor amizade que formei na VPR, houvesse mesmo morrido ao resistir à prisão, como os jornais noticiaram.

Já no momento dos acontecimentos, eu sabia muito bem que boa parte das mortes noticiadas dessa forma não passava de execuções a sangue-frio.

Ao ser levado para depor numa auditoria do Exército, certa vez, o oficial que comandava a escolta comentou o sucessivo anúncio de mortes de companheiros do Movimento Revolucionário Tiradentes. Segundo os jornais, depois da morte em combate, sempre era encontrada uma pista que levava ao elo seguinte da cadeia. Risível.

Para não deixar dúvidas, aquele oficial disse: "Você tem sorte de estar preso. Lá fora, hoje, não escaparia com vida"

Mesmo assim, no caso do Moisés, eu acreditei — quis crer — na versão oficial.

Quem sobrevivia na clandestinidade desde 1964 e se safara de tantas armadilhas, certamente resistiria até a última bala — pensei.

Não levei em conta, no entanto, sua amizade com o cabo Anselmo, a quem sempre defendera das acusações lançadas por outros agrupamentos de esquerda.

A confiança no velho companheiro dos movimentos da marujada, com certeza, causou sua prisão com vida. Quem foi capaz de armar uma cilada mortal para a mulher que engravidara, não hesitaria em impedir que um velho amigo tivesse um final menos atroz.

Moisés era um homem forte, que convivia há muito tempo com a ideia de morrer pelas mãos dos inimigos. Mas, o que ele deve ter passado  antes, também na Casa da Morte, é que me horroriza até hoje.

Pois, com o Moisés, o ressentimento era, inclusive, pessoal.

Pouco antes do golpe de 1964, sua prisão foi ordenada e o oficial encarregado de cumprir a missão fez a besteira de não levar escolta.

Os marinheiros do navio em que o Moisés servia simplesmente lhe perguntaram: "O que fazemos com esse palhaço?".

Ao que ele respondeu: "Jogamos no mar, é claro!".

Dito e feito. Só que o  palhaço  ensopado, submetido à pior das humilhações, conquistaria depois posição importante no Cenimar, o serviço de informações da Marinha. Da qual se serviu para mover uma caçada ao Moisés no País inteiro, obcecado com a ideia da desforra.

Só em pensar que esse reencontro haja finalmente ocorrido, tenho arrepios. (por Celso Lungaretti)

domingo, 4 de março de 2018

O DEDO PETRIFICADO DE JOESLEY BATISTA APONTA ATÉ PARA SUA ANTIGA ADVOGADA!

Que tipo de homem é este, capaz até...
Fico me lembrando da repulsiva aclamação a Joesley Batista em maio de 2017, quando o presidente Michel Temer parecia estar prestes a cair por conta da performance do chefão da JBS como delator premiado. Muita gente andou até postando nas redes sociais que batizaria seus pimpolhos com o nome de Joesley!

Ao saber de alguém que se fez passar por amigo para desgraçar outro cidadão, sempre me vem à mente a imagem do cabo Anselmo, responsável pela morte de dois companheiros da luta armada a quem eu prezava muito. 

Quando me recordo da confiança que o  Moisés (José Raimundo da Costa, o último comandante da VPR) tinha no seu antigo parceiro de movimentos da marujada e da forma ignóbil como foi por ele atraído para a morte, vem-me um profundo desprezo por gente dessa laia (o cabo Anselmo é também culpado do sequestro e execução, na Casa da Morte de Petrópolis, da minha estimada companheira Heleny Guariba, a Lucy). 

Jamais conseguirei aceitar que uma pessoa com quem convivemos, com quem tomamos umas cervejinhas, com quem falamos de assuntos sérios ou jogamos conversa fora, com quem compartilhamos sonhos e trocamos manifestações de amizade e afeto, esteja o tempo todo apenas esperando o momento certo para nos cravar uma faca nas costas!
...de jogar uma culpa sua nas costas de uma mulher?!

Então, para mim, seja qual for o regime que a utilize e o fim objetivado, a espionagem é uma atividade vil e quem a pratica, um ser desprezível. 

O verdadeiro Joesley foi revelado por uma gravação que liberou inadvertidamente (o feitiço virou contra o feiticeiro): nela, se vangloriava com o irmão Wesley, ambos embriagados, do golpe de mestre aplicado na Justiça.

A consequência imediata foi que sua delação premiada, a mais condescendente e vantajosa para qualquer réu da Lava-Jato de quantas foram firmadas até hoje pela Procuradoria Geral da República, virou pó.

Agora que sua alcaguetagem não serve mais para derrubar presidentes, Joesley mira bem mais baixo: quer ver presa sua ex-advogada, na esperança de que isto sirva para reduzir sua própria pena. 

Assim, tenta jogar nas costas dela a culpa pela contratação de um procurador da equipe do Rodrigo Janot para ajudá-lo a preparar o flagrante armado contra Temer y otras cositas más
Se estão certos de que conseguirão não vomitar, leiam esta notinha da edição dominical da Folha de S. Paulo e constatem:  
"No depoimento de mais de dez horas que prestou à PF, na 3ª feira (27), Joesley Batista terceirizou a responsabilidade pela contratação de Marcelo Miller à sua ex-advogada, Fernanda Tórtima. 
Ele repetiu diversas vezes que foi a defensora quem levou o ex-procurador à JBS e chegou a afirmar que se alguém deve dar explicações sobre a controversa participação de Miller nos acordos é ela"

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

MILITARES GARANTEM: DOI-CODI's ERAM COLÔNIAS DE FÉRIAS PARA JOVENS IDEALISTAS.

...e também segundo as FFAA.
O jornal eletrônico Congresso em Foco publica um longo e meticuloso artigo do jornalista Luiz Cláudio Cunha (vide aqui), pulverizando o infame relatório de 455 páginas com que as Forças Armadas, respondendo à Comissão Nacional da Verdade, sustentaram não terem sido responsáveis por torturas, assassinatos, estupros, ocultação de cadáveres e outras abominações durante os anos de chumbo.

Puxa vida, e eu que pensei estar quase surdo de um ouvido! Acreditei piamente na palavra dos três otorrinos que me operaram e de outros mais que consultei nas últimas quatro décadas, nas dezenas de audiometrias que fiz, na minha lembrança (ilusória?) de haver levado um tapão na lateral do rosto, aplicado pelo descomunal cabo Marco Antônio Povorelli, da PE da Vila Militar (RJ), com seus 140 quilos de banha e maldade. 

E era tudo falso! Meu tímpano nunca foi rompido, não existiam torturas, os fardados, na verdade, mantinham colônias de férias para jovens idealistas como eu. 

O chato é que tais fantasias persistem mesmo depois de os guardiães da Pátria mostrarem a luz à CNV e a todos nós. Por mais que me esforce, continuo não entendendo quase nada do que ouço pelo lado direito. Nem encontro meus estimados amigos Eremias Delizoicov, Gerson Theodoro de Oliveira, Heleny Guariba, Roberto Macarini e José Raimundo da Costa, que, como as atrocidades não ocorreram, devem estar belos e fagueiros por aí. 
Revista sobre... discos-voadores?  

Se não estiverem nem belos, nem fagueiros, nem vivos, e se eu tiver mesmo perdido quase que metade da audição, então o tal relatório não passa de 455 páginas de mentiras sórdidas e toscas, como sustenta o Luiz Cláudio Cunha.

A pergunta que não quer calar é: como reagirá a comandante suprema das Forças Armadas, nossa presidenta Dilma Rousseff (que, vale lembrar, foi também uma resistente torturada e teve companheiros de organização assassinados nos porões)?

Que resposta dará ao relatório-escárnio, ao indisfarçado deboche e pouco caso dos fardados com relação à CNV que ela tanto quis criar?

Eles estão blefando. Ela tem as cartas vencedoras. Na hora de decidir se vai ou não utilizá-las, deveria inspirar-se (por incrível que pareça...) no ditador Ernesto Geisel.

Até por ser militar, ele sabia que o superior jamais deve contemporizar com insubordinação de subalterno. Destituiu o comandante do 2º Exército, destituiu o ministro do Exército e ninguém mais contestou sua autoridade. 

Por último, eis um trecho interessante do artigo corajosamente publicado pelo Congresso em Foco:
"Na manhã de 25 de abril, exatamente um mês após ter chocado o País ao revelar na CNV como se torturava, matava, retalhava e ocultava cadáveres de presos políticos na ditadura, [o antigo torturador Paulo] Malhães foi encontrado morto em seu sítio em Marapicu, no interior de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Sucumbiu por infarto, segundo a polícia, às fortes emoções da invasão de sua casa por três ladrões que buscavam as armas antigas que colecionava.
Apesar da forte convicção policial em simples latrocínio, o comportamento dos assaltantes mostrava coisas esquisitas. Ficaram mais de seis horas na casa, com o coronel morto e a mulher amarrada, revistando tudo, especialmente o escritório, deixando filmes e documentos de Malhães espalhados pelo chão.
Um deles falava com frequência ao celular, talvez recebendo instruções. Ao sair, levaram três pastas de documentos e o disco rígido de um dos dois computadores do coronel, itens estranhos para uma simples rapina.
'É um fato grave, porque entra em confronto com a tese de latrocínio', anotou o advogado Wadih Damous, então presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro".
O que está sugerido nas entrelinhas foi o que eu escrevi no momento dos acontecimentos (vide aqui) e reafirmei quando a polícia chegou à conclusão na qual Deus e o mundo apostavam (vide aqui). 

Só para constar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DE COMANDANTE DA VAR-PALMARES A COMANDANTE EM CHEFE

Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo, há muito demonstra ter ótimas fontes fardadas. Concordando ou não com as avaliações e opiniões, jamais deixo de ler seus textos para pinçar informações. 

É importante sabermos o que rola nos bastidores da caserna; afinal, trata-se  de um foco habitual de golpes de estado. É lá que eles são tramados e é de lá que eles começam a ser desfechados.

Nesta 6ª feira (7) em que se comemora exageradamente uma mera  troca da guarda, a substituição da dependência política de Portugal pela dependência econômica da Inglaterra (coitado do Tiradentes, este sim queria independência de verdade!), o artigo é dos mais emblemáticos.


Refere-se a uma torturada pelos militares que depois descobriu virtudes insuspeitadas no inimigo de outrora. Antes tarde do que nunca...
 
Só não entendo por que, dando-se tão bem com eles, não lhes pede o pequeno favor de revelarem onde estão os restos mortais dos companheiros (também...) de outrora. 

Como a Heleny Guariba (foto ao lado), nossa aliada no tempo em que ambos militávamos na VAR-Palmares. Ela foi vista pela Inês Etienne Romeu na Casa da Morte de Petrópolis e nunca mais foi vista por ninguém. 

Não lhe deram sequer a chance de um dia reavaliar seus conceitos. Morreu acreditando estar sendo martirizada por ogros bestiais.

Aliás, eu tenho o mesmo defeito:  não consegui até hoje esquecer que os militares me causaram uma lesão permanente e quase me mataram. Os caminhos estariam mais abertos para mim se eu tivesse uma conveniente amnésia.

Leiam com atenção, abaixo, a coluna da Cantanhêde. É muito instrutiva.

A COMANDANTE EM CHEFE

"Com a comandante em chefe cercada de fardas e quepes verdes, azuis e brancos, diante de acrobacias de caças da FAB, este Sete de Setembro é uma boa oportunidade para destacar o que poucos percebem: as relações entre a ex-torturada Dilma e as Forças Armadas vão muitíssimo bem, obrigada.

Conforme a repórter Natuza Nery e eu apuramos, as manifestações de apreço de Dilma pelas três Forças revelam-se subjetivamente, nas declarações em reuniões, e objetivamente, na aprovação de planos e programas.

Pode parecer estranho, mas Dilma tem pontos em comum com os militares: o nacionalismo e a disciplina. Militar não faz greve (como os policiais têm feito) e cumpre metas -de prazos e de preços. Coisas raras.

Dilma vive chorando as pitangas por causa da crise mundial, mas garantiu financiamentos do BNDES para a indústria bélica e recursos para projetos em andamento, como o de submarinos da Marinha, e novos, como o Proteger, do Exército, para a segurança de prédios estratégicos.

Na negociação de salários com o serviço público, em agosto, só duas categorias tiveram aumentos diferenciados: professores universitários e militares. Para uns, o anúncio foi com estardalhaço. Para outros (30% em três anos), quase escondido.

Motivo: o tratamento de Dilma aos militares causa ciúmes, especialmente na Polícia Federal, que disputa com o Exército a coordenação da segurança na Copa e na Olimpíada.

Em recente reunião com ministros civis, a presidente elogiou o Exército e chamou o general Enzo Peri ao Planalto para expor a operação militar que, segundo ele, impediu ao menos 40 ataques cibernéticos graves durante a Rio+20. Os presentes captaram o recado.

Hoje, Dilma fará um discurso ufanista que tanto agrada os militares. Mas o que eles mais gostaram foi do que ela disse na instalação da Comissão da Verdade: 'Não nos move o revanchismo'. Eles esperam que não."

domingo, 24 de junho de 2012

ANTIGO TORTURADOR ABRE O BICO SOBRE A 'CASA DA MORTE'

Objetivo era coagir presos políticos a virarem
agentes infilitrados. Como alternativa, a morte.
O jornal carioca O Globo publica entrevista do tenente-coronel reformado Paulo Malhães, torturador que o Centro de Informações do Exército incumbiu em 1970 de implantar a Casa da Morte de Petrópolis e de ser um dos oficiais que nela tentariam converter presos políticos em agentes infiltrados.

Segundo ele, a libertação de Inês Etienne Romeu, sobrevivente da Casa, teria sido um erro dos agentes: iludidos por ela, acreditaram que iria colaborar com a repressão.

Dentre os presos políticos que por lá passaram, Inês era tida como a única que saiu com vida, enquanto os mortos totalizariam 22. Malhães afirma, entretanto, que houve quem tenha se colocado a serviço das Forças Armadas, passando inclusive a receber ajuda financeira: "Na lista de desaparecidos tem  RX  [infiltrados]". Mas, não identificou nenhum nem apresentou provas.

Reticente quanto ao destino dos que, apesar das torturas, não aceitaram a proposta de "virar", ele acabou admitindo implicitamente que eram executados:
"Se ele deu depoimento, mas a estrutura [da organização guerrilheira] não caiu, ele pode ter sofrido as consequências".
Isto fica mais claro ainda em outro trecho, no qual, inclusive, ressalta que a execução era decidida por escalões superiores:
"Se era o fim da linha? Podia ser, mas não era ali que determinava".
Além dos estimados companheiros que eu sabia terem sido assassinados na Casa da Morte (José Raimundo da Costa e Heleny Guariba), a reportagem d'O Globo levanta a hipótese de que meu companheiro de militância desde o movimento secundarista, Gerson Theodoro de Oliveira, não haja morrido em tiroteio de rua (versão divulgada na época), mas sido lá abatido, pois "a certidão de óbito informa o endereço do DOI-Codi/RJ como local de sua morte".

Eis as cinco retrancas da reportagem (clique p/ abrir):

Torturador conta rotina da Casa da Morte em Petrópolis

Conheça as vítimas da Casa da Morte

Malhães se aliou ao PCdoB na Baixada

Única sobrevivente da Casa da Morte relata tortura, estupro e humilhação

Prisão clandestina pertencia a estrangeiro

sábado, 24 de março de 2012

CHICO ANYSIO, SONHOS E PERDAS

Numa de suas composições simplesmente geniais, Tom Zé constatou:
"A Brigitte Bardot está ficando velha,
envelheceu antes dos nossos sonhos.
Coitada da Brigitte Bardot,
que era uma moça bonita,
mas ela mesma não podia ser um sonho
para nunca envelhecer"
O sentimento de perda é uma constante para quem envelhece: nossos sonhos, nossas referências, nossos cenários marcantes, nossos ídolos, tudo vira pó.

A morte entrou na minha vida mais cedo do que para a maioria. Reparei nisto quando a minha esposa comentou que seu tio recentemente falecido foi a primeira pessoa importante para ela a sair de cena. Aos 29 anos.

Eu, aos 20 anos, já ficara sem meu tio mais querido, o avô que erigi em modelo e cerca de 20 companheiros tombados na resistência à ditadura militar --como a alguns só conhecia pelo nome de guerra, nunca consegui fazer a conta exata.

Mas, alguns deles significavam muito para mim: o Eremias, meu colega e amigo desde o primário; o Gerson, presença constante nas minhas lutas de 1968, quando éramos ambos secundaristas; o  Moisés, o melhor amigo que fiz na VPR; o  Juvenal, o mais despojado de todos os revolucionários, tudo fazendo pela causa e nada querendo para si; e a  Lucy, que gostaria tanto de haver conhecido em outras circunstâncias (queríamo-nos, mas eu não ousei estreitar nosso relacionamento, sendo ela uma aliada ainda desconhecida da repressão e eu um militante muito procurado).

Elza Soares e o  coronel Limoeiro
E a as perdas foram se acumulando com o passar dos anos: parentes, amigos, conhecidos, ídolos.

Valots, com quem convivi numa comunidade alternativa e disputei uma namorada, teve morte chocante, antes dos 30. Não levou a sério seu câncer na próstata, escafedia-se do hospital, tentava curas alternativas. A ficha só lhe caiu quando a doença se tornara irreversível. Que desperdício!

Da mesma forma o Raulzito, outro que poderia ter-se salvado. Fomos amigos assíduos durante alguns meses, mas eu não o via há muito quando a notícia chegou. Mesmo assim, foi como receber um soco na cabeça. Tonteei.

Nunca falei com o dr. Sócrates, mas acompanhei tão atentamente sua trajetória --estava a alguns metros dele quando fez a célebre promessa de recusar a oferta da Fiorentina se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada-- que sua morte me abalou mais do que eu pensava (pois, afinal, era acontecimento esperado).

Agora foi o Chico Anysio, outro que não conheci pessoalmente e, como a Brigitte Bardot para o Tom Zé, marcava uma etapa distante --quando, lá pelos meus 9 ou 10 anos, a TV Record transmitia nas noites de domingo o Chico Anysio Show.

Foi, provavelmente, o primeiro programa televisivo semanal gravado em teipe (na TV Rio) e repetido em outros Estados. Quase tudo era ao vivo naquele tempo.

O teipe, possibilitado o uso de externas e a edição do material, trouxe muitas novidades enriquecedoras. E o resto ficou por conta da genialidade do Chico. Foi um deslumbramento para mim.

Tinha seus vinte e poucos minutos (meia hora com os comerciais) e era dividido em vários quadros, com ele participando de todos, a encarnar vários personagens: o coronelão nordestino João Pessoa do Limeiro: um empresário italiano radicado em São Paulo, o  comendador Vittorio; o garçom fanho Quem Quem; o Urubolino, torcedor do Flamengo; o  Dr. Alfacinha, que talvez fosse aquele funcionário público sempre a perguntar "quanto é que eu levo nisso?". E mais não recordo.

Eu gostava, sobretudo, dos quadros dos dois primeiros; e da crônica sofisticadíssima com que Chico Anysio, como ele mesmo e não como personagem, encerrava o show.

Foram o Chico Anysio Show, o programa experimental Mobile (do Fernando Faro) e o Cinema em Casa da TV Excelsior (que exibia principalmente filmes europeus  de arte, por lhe saírem mais baratos) meus primeiros contatos com a vida inteligente na TV. Tiveram um papel marcante na minha vida e nos rumos que tomei.

Quantas saudades deles! Quantas saudades das minhas ilusões de então (uma frase marcante do filme Exótica, do Atom Egoyan: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante? Será que é porque ela tem a vida inteira pela frente e nós já desperdiçamos a nossa?")!

Foram as melancólicas divagações que me ocorreram ao saber da morte do Chico. 

Como tudo está distante! E como a TV aberta regrediu ao longo deste meio século, a ponto de os programas humorísticos de hoje em dia serem pó de traque comparados àquele Chico Anysio Show da TV Rio!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

OS CINCO CUBANOS NÃO SÃO HERÓIS MAS, SEM DÚVIDA, INJUSTIÇADOS

Linchamentos judiciais devem ser sempre combatidos,
mas heroicizar agentes secretos é um exagero nocivo
O companheiro Jacob Blinder, principal divulgador das políticas bolivarianas em nosso país, pede-me que "aborde o tema dos Cinco Heróis cubanos, presos injustamente nos Estados Unidos", pois, segundo ele, eu possuiria "grande penetração junto à opinião pública".

A última afirmação é exagerada, claro. "Grande penetração", por enquanto, só tem quem dispõe das tribunas da grande imprensa, que estão cada vez mais fechadas para mim --tanto como profissional quanto como personagem histórico até hoje envolvido com os assuntos impactantes do noticiário.

A existência do território livre da internet impede o  macartismo que não ousa dizer seu nome  de nos reduzir à invisibilidade --é o caso também do próprio Jacob, do Laerte Braga, do Rui Martins, do Carlos Lungarzo e de tantos outros articulistas de esquerda com trabalhos marcantes. Mas, confinados no espaço virtual, nossa defesa das boas causas repercute bem menos --e é isto que almeja o sistema.

Quanto aos agentes da inteligência cubana presos nos Estados Unidos desde 1998, foram mesmo injustiçados, daí ser desejável que a presidente Dilma Rousseff interceda por eles junto a Barack Obama.

No recente Fórum Social Mundial, o senador Eduardo Suplicy se comprometeu a tratar do assunto com Dilma e a fazer um pronunciamento no Senado; com a penetração que eu tiver, grande ou pequena, coloco-me inteiramente ao lado do Suplicy quanto a que eles devam ser libertados o quanto antes, para retornarem a seu país sem restrições de nenhuma espécie.

Os EUA, que tanto faturam com o filão dos filmecos de tribunais, passam a vida estuprando a Justiça, como fizeram no Caso Sacco e Vanzetti: mesmo sabendo que os anarquistas italianos eram inocentes de um assalto com duas vítimas letais cometido por criminosos comuns, levaram até o fim a farsa judicial e até deram sumiço nas provas contra os verdadeiros culpados. [O governador do Massachussetts, 50 anos depois de sua execução, proclamou oficialmente a inocência de Sacco e Vanzetti.]

ACUSAÇÕES INVENTADAS 
PARA AGRAVAR O CASO
 
O que realmente havia contra os cinco era estarem espionando os exilados cubanos; infiltraram-se nos seus círculos para prevenir os atos de terrorismo que os gusanos  estabelecidos em Miami desfechavam contra Cuba. A resposta costumeira a tal delito é a mera expulsão.

Mas as autoridades estadunidenses, com sua habitual tendenciosidade, agravaram o caso inventando outras acusações, que foram ruindo como castelos de cartas ao longo do tempo.

O primeiro a ser solto, René Gonzales, encontra-se há quatro meses em regime de liberdade supervisionada; depois de haver passado 13 anos no cárcere, ainda ficará impedido de voltar ao seu país até outubro de 2014.

Espero que, desta vez, os EUA não façam sua  mea culpa  só cinco décadas depois que eles tiverem morrido. A palhaçada já foi longe demais; tem de acabar.

Só não concordo com o rótulo de  heróis  aplicado a espiões e agentes infiltrados. Mesmo inexistindo sangue em suas mãos, fazem lembrar demais a Operação Condor, o assassinato de Orlando Letelier e outras abominações dos  anos de chumbo.

Afora um calo que me é particularmente sensível: o cabo Anselmo. Quando me recordo da confiança que o  Moisés  (José Raimundo da Costa, o último comandante da VPR) tinha no seu antigo parceiro de  movimentos da marujada e da forma ignóbil como foi por ele atraído para a morte, vem-me um profundo desprezo por quem finge amizade para melhor atraiçoar os que o estimam (o cabo Anselmo foi responsável também pelo sequestro e execução, na Casa da Morte de Petrópolis, da minha estimada companheira Heleny Guariba, a Lucy).

Então, para mim, seja qual for o regime que a utilize e o fim objetivado, a espionagem é uma atividade vil. E disto não abro mão.

Ao contrário dos utilitaristas (para os quais os fins justificam os meios), os revolucionários acreditamos, isto sim, na interação dialética entre fins e meios. Há expedientes que não podemos utilizar, mesmo que o inimigo os empregue contra nós, sob pena de aviltarmos nossos ideais.

Para não deixar a impressão de que considero tralha cinematográfica a totalidade da produção de Hollywood, lembro um filme no qual o dilema foi bem colocado: Perseguidor implacável (1971), o primeiro da série  Harry, o sujo.

O inspetor interpretado por Clint Eastwood baleia um sequestrador e, para obrigá-lo a confessar o local no qual mantém encarcerada uma adolescente ameaçada de morrer por asfixia, pisa em seu ferimento.

O grande diretor Don Siegel vai distanciando a câmara daquela cena hedionda, até que ambos se tornem pontinhos na tela; foi sua maneira de expressar o repúdio das pessoas civilizadas à tortura. E, adiante, ficamos sabendo que de nada adiantara, pois a jovem já estava morta.

Há sempre uma justificativa ou uma atenuante qualquer para se ultrapassar a fronteira entre a civilização e a barbárie, o certo e o errado, o digno e o indigno.  

Então, a regra de ouro foi expressa pelo velho juiz protagonizado por Spencer Tracy, noutro filme que se constituiu em louvável exceção: Tribunal em Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961). Indagado sobre quando começou o desvirtuamento da Justiça alemã  sob o nazismo, ele responde: "Foi no dia em que o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".

É imperativo voltarmos a ser os que não abrem o precedente dúbio, ao qual segue-se a banalização da dubiedade. Por maior que seja o preço a pagar, cabe a nós personificarmos a alternativa à geléia geral na qual conveniências amorais e imorais são colocadas à frente dos princípios. Ou não haverá para o cidadão comum nenhum símbolo visível de que outro mundo seja possível.

Concluindo: os agentes secretos cubanos foram injustiçados, então têm de ser libertados e devemos nos mobilizar em favor de sua libertação.

Mas, não representam exemplos que devamos louvar e nos quais possamos nos espelhar. Muito pelo contrário.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

ANOS DE CHUMBO: UM 'JUSTIÇAMENTO' EQUIVOCADO - 1

Como o assunto acaba de voltar à baila, reproduzo o artigo que lancei em 26/11/2008, quando Augusto Nunes, colunista da Veja, apresentou a visão direitista de um justiçamento equivocado da ALN

OS MORTOS CONVENIENTES... E OS OUTROS

Meu ex-colega de ECA/USP, Augusto Nunes, escreveu (ver aqui) sobre um militante da ALN executado por seus companheiros em 1971.

Foi um erro terrível? Foi, claro. Nenhum verdadeiro revolucionário pode admitir que, mesmo durante uma luta de resistência à tirania, decisão tão extrema seja tomada enquanto perdurar a mínima dúvida sobre a culpa do acusado.

Quanto a  justiçamentos  em regime democrático, são simplesmente inconcebíveis e inaceitáveis. Ponto final.

Chocou-me, principalmente, saber que Márcio Leite de Toledo (foto) não teve o direito de se defender no tribunal revolucionário convocado para julgar o seu caso. Continuou cumprindo normalmente suas tarefas de militante, alheio ao que estava ocorrendo. Depois, foi emboscado e morto.

É óbvio que poderiam tê-lo convocado para o julgamento, dando-lhe a oportunidade de pronunciar-se sobre as suspeitas (não certezas) que havia contra ele. É como minha organização, a VPR, certamente procederia.

Mas, não se pode omitir, como Nunes faz, a situação catastrófica que a ALN vivia nos estertores da luta armada, tendo seus quadros dizimados dia a dia, já que a ditadura partira para o extermínio sistemático dos quadros da resistência.

A VPR não quis acreditar que o cabo Anselmo fosse espião e pagou um preço altíssimo por isto.

A ALN executou quem não era espião, mas parecia ser (acreditava-se que ele tivesse entregado à repressão Joaquim Câmara Ferreira, causando sua morte).

Trata-se de ocorrências deploráveis, mas recorrentes, nas lutas travadas em circunstâncias dramáticas, contra inimigos muito mais poderosos, como foram os casos da resistência ao nazi-fascismo na Europa e ao totalitarismo de direita no Brasil.

Márcio Leite de Toledo indubitavelmente merece as lágrimas por ele derramadas.

Mas também as merecem os revolucionários que sofreram torturas atrozes e depois foram abatidos como cães, em aparelhos clandestinos da repressão como a Casa da Morte de Petrópolis (RJ). Foi onde  evaporaram  meus queridos companheiros José Raimundo da Costa e Heleny Ferreira Telles Guariba.

E é repulsivo perceber que as tribunas da grande imprensa estão escancaradas para artigos como esse, mas blindadas contra os que evocam os episódios igualmente dramáticos dos companheiros que foram martirizados pelo regime militar.

A mídia anda burguesa como nunca. Recebendo, às vezes, uma pequena ajuda de esquerdistas que não tiveram coragem de pegar em armas quando esta era a única opção que restava, sob o festival de horrores do AI-5.

Continuam despeitados até hoje, por não terem ousado ir até onde fomos. E tudo fazem para desmerecer nossa luta.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ANOS DE CHUMBO: A MEMÓRIA E A DOR

Forcei-me a comparecer à homenagem prestada a Joaquim Câmara Ferreira na Câmara Municipal de São Paulo: meu respeito pela história de lutas desse companheiro falou mais alto do que a sensação de desagrado que os eventos de ex-presos políticos me causam.

Principalmente, por reavivarem a lembrança de fatos que me deprimem.

Nunca procurara conhecer em detalhes como morreram companheiros queridos, nem mesmo quando esses relatos ficaram fáceis de levantar na internet.

Então, ao escrever o Náufrago da Utopia, tal informação se tornou obrigatória.

Sabia que a Heleny Guariba tinha desaparecido nas garras da repressão, mas não que isto se dera na famigerada Casa da Morte de Petrópolis (RJ). 

À dor da perda, que nunca deixei de sentir, acrescentou-se a raiva impotente ao saber que ela foi levada a um centro clandestino de torturas, sem esperança de sobreviver, para passar pelos piores tormentos e, no final, ser abatida com um animal.

Quando estava sendo torturado no limite das minhas forças, consolava-me a certeza de que aquilo teria um fim. Bastaria aguentar mais um dia, e outro, e outro... até que os companheiros tomassem providências defensivas lá fora e não sobrassem mais  motivos operacionais  para aquela bestialidade.

Sem luz nenhuma no fim do túnel, apenas a certeza da morte, como terão sido os últimos dias da  Lucy?

Foi o que não deixou de me atormentar ao longo de toda uma noite insone, no pior momento possível, pois estava em má situação financeira e era obrigado a passar umas 14 horas por dia escrevendo o livro que, contra a entrega dos originais, iria me livrar de outro pesadelo, o despejo.

Também supunha que José Raimundo da Costa, a melhor amizade que formei na VPR, houvesse mesmo morrido ao resistir à prisão, como os jornais noticiaram.

Já no momento dos acontecimentos, eu sabia muito bem que boa parte das mortes noticiadas dessa forma não passava de execuções a sangue-frio.

Ao ser levado para depor numa auditoria do Exército, certa vez, o oficial que comandava a escolta comentou o sucessivo anúncio de mortes de companheiros do Movimento Revolucionário Tiradentes. Segundo os jornais, depois da morte em combate, sempre era encontrada uma pista que levava ao elo seguinte da cadeia. Risível.

Para não deixar dúvidas, aquele oficial disse:
"Você tem sorte de estar preso. Lá fora, hoje não escaparia com vida..."
Mesmo assim, no caso do Moisés, eu acreditei -- quis crer -- na versão oficial.

Quem sobrevivia na clandestinidade desde 1964 e se safara de tantas armadilhas, certamente resistiria até a última bala -- pensei.

Não levei em conta, no entanto, sua amizade com o cabo Anselmo, a quem sempre defendera das acusações lançadas por outros agrupamentos de esquerda.

A confiança no velho companheiro dos movimentos da marujada, com certeza, causou sua prisão com vida. Quem foi capaz de armar uma cilada mortal para a mulher que engravidara, não hesitaria em impedir que um velho amigo tivesse um final menos atroz.

Era um homem forte, que convivia há muito tempo com a idéia de morrer pelas mãos dos inimigos. Mas, o que ele deve ter passado  antes, também na Casa da Morte, é que me horroriza.

Pois, com o Moisés, o ressentimento era, inclusive, pessoal.

Pouco antes do golpe de 1964, sua prisão foi ordenada e o oficial encarregado de cumprir a missão fez a besteira de não levar escolta.

Os marinheiros do navio em que o Moisés servia simplesmente lhe perguntaram: "O que fazemos com esse palhaço?".

Ao que ele respondeu: "Jogamos no mar, é claro!".

Dito e feito. Só que o  palhaço  ensopado, submetido à pior das humilhações, conquistaria depois posição importante no Cenimar, o serviço de informações da Marinha. Da qual se serviu para mover uma caçada ao Moisés no País inteiro, obcecado com a idéia da desforra.

Só em pensar que esse reencontro haja finalmente ocorrido, tenho arrepios.

Enfim, é isto que me volta à mente em eventos como o desta 5ª feira.

Prefiro lutar para que o sacrifício de tantos seres humanos exemplares não tenha sido em vão.

É travando as batalhas do presente, e não recordando os  anos de chumbo, que eu me sinto no meu elemento.

Até porque libertarmos o povo brasileiro daquela brutal e tacanha ditadura era só a primeira etapa do nosso programa.

Viriam, em seguida, os esforços para libertarmos o povo brasileiro também do capitalismo perverso e putrefato, edificando uma sociedade igualitária e livre.

E isto ainda está por ser feito.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"BARBARIDADE! O SUPREMO APROVOU A IMPUNIDADE!"

"EREMIAS
Era mau aluno,
treinava judô.
Sorriso maroto,
morreu em pedaços,
35 balaços"
("Formatura", CL)


Participei nesta 3ª feira (18) do ato público convocado pelo Tortura Nunca Mais e outras entidades, contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de considerar os torturadores da ditadura militar abrangidos pela anistia de 1979.

Alguns companheiros manifestaram esperança de que uma decisão da Organização dos Estados Americanos force o Estado brasileiro a modificar seu entendimento. Tudo é possível.

Mas, o veredicto acerca da queixa formulada há 15 anos, relativa ao massacre de 70 combatentes do Araguaia e à ocultação dos restos mortais da maioria, só sairá em janeiro próximo.

Muita água vai passar sob a ponte nos próximos oito meses; inclusive, teremos trocado de presidente.

Gato escaldado, não tenho as mesmas ilusões quanto às vias institucionais; essa OEA é a que falhou miseravelmente no golpe de Honduras.

O certo é que a 5ª Feira Negra do STF legou aos pósteros um absurdo jurídico que até o sujeito da esquina (aquele personagem tão menosprezado pelo ministro Gilmar Mendes...) percebe: o de que uma ditadura possa fazer aprovar uma Lei de Anistia que cumpra o espúrio papel de habeas corpus preventivo, para que seus criminosos não sejam punidos adiante, quando o país voltar à democracia.

Pior ainda do que a impunidade dos carniceiros do passado, na minha opinião, foi ter sido deixada em aberto essa possibilidade, permitindo que, no futuro, o mesmo subterfúgio infame seja utilizado de novo.

Trata-se de um nó que os empolados ministros do STF deram e teremos de desatar, em benefício dos que virão depois de nós. Pois, bem vistas as coisas, é eles e a luta deles que devemos agora priorizar.

Falei sobre isso no meu discurso.


Também juntei a minha voz aos que reverenciaram os heróis mortos.

A exibição de pequenos pôsteres com foto dos companheiros que tombaram na luta contra a ditadura de 1964/85 tem tudo a ver numa manifestação como essa, mas é deprimente ao extremo para quem os conheceu vivos.

Então, logo na minha chegada ao Pátio do Colégio, enquanto se montava o cenário, já vi os cartazetes de meu colega de infância e companheiro de armas Eremias Delizoicov, retalhado por 35 disparos aos 18 anos; da Heleny Guariba, que começou a atuar na VPR como aliada do meu setor de Inteligência e pela qual eu tinha grande estima; do Eduardo Leite, o Bacuri, homem duro na ação mas que muitas vezes parecia um meninão no trato pessoal; do Devanir de Carvalho, que solidariamente me abrigou num aparelho do MRT quando fiquei descontactado da VPR em meio à confusão do pós-racha de outubro de 1969.

Quantas lembranças. E como dói pensar em tudo que perderam, abatidos no auge de suas existências pelas bestas-feras da repressão!

Para me deixar mais melancólico ainda, aquelas peças foram distribuídas aos manifestantes, para que as mantivéssemos orgulhosamente erguidas durante o ato. E a mim, por coincidência, coube logo o pôster de Juarez Guimarães de Brito, o melhor dentre todos os dirigentes revolucionários que conheci na vida, porque o mais humano e o menos apegado ao poder.

Professor universitário, vários de seus alunos o acompanhariam na militância. E foi ao ver um de seus pupilos preso e servindo como isca num ponto que ele tomou a decisão generosa e temerária de arriscar a vida num plano de resgate que improvisou no momento.

Deu errado e ele arcou integralmente com as consequências de seu erro: cercado, sem chance de fuga, suicidou-se para não cair nas garras do DOI-Codi.


sexta-feira, 25 de setembro de 2009

DESAPARECIDOS: O GOVERNO CONTINUA FIRME COMO GELÉIA

Evaporada: a diretora teatral Heleny Guariba, que conheci como aliada da VPR, foi vista pela última vez na Casa da Morte de Petrópolis.

Onde estão os documentos do regime militar que poderiam esclarecer o destino de mais de 140 perseguidos políticos evaporados durante os anos de chumbo?

Boa parte foi queimada nos quartéis e repartições, como até o Fantástico já flagrou.

Outro tanto foi transferido para arquivos particulares das viúvas da ditadura, como se percebe nos textos de propaganda enganosa difundidos pelos sites fascistas.

Eles trazem informações inexistentes nos arquivos oficiais, mas, claro, os aprendizes de Goebbels só utilizam a parte que lhes convém: aquela que serve para denegrir os antigos resistentes.

O ministro da Defesa Nelson Jobim é o primeiro a defender a impunidade eterna dos responsáveis pelas atrocidades perpetradas pelas Forças Armadas durante os 21 anos de usurpação do poder.

Então, dele não se pode esperar cooperação nenhuma no resgate da verdade, só manobras dispersivas quando, sob vara da Justiça, é obrigado a organizar expedições de busca de restos mortais no Araguaia.

Firme como geléia, o Governo vai recorrer a anúncios de TV para incentivar a população a fornecer documentos e informações que ajudem a localizar os mortos sem sepultura. Seria cômico se não fosse trágico.

Sem papas na língua, Criméia Alice Schmidt de Almeida, membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e viúva do evaporado André Grabois, encontrou a definição certa para a campanha: "ridícula".

Vindo ao encontro do que já escrevi várias vezes, ela diz:
"São documentos públicos, produzidos pelo serviço público, que estão em mãos de particulares. O governo, em vez de responsabilizar os agentes do serviço público que fizeram isso, resolve fazer uma campanha na televisão pedindo 'por favor'. É surrealista".
Nada a acrescentar.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ONU APURA TORTURAS ISRAELENSES

Especialistas em direitos humanos da Organização das Nações Unidas estão investigando as denúncias de torturas praticadas por Israel contra palestinos na chamada instalação 1931.

As informações que lhes chegaram ao conhecimento são de que:
  • trata-se de um centro de detenção secreto, situado em “local indeterminado de Israel e inacessível para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha”;
  • nele ocorrem torturas e maus tratos, além das condições de detenção serem deficientes.
A resposta que receberam, por escrito, seria cômica se não fosse trágica: Israel afirmou que não usa esse centro "há anos".

Ou seja, nem sequer negou tratar-se de um centro de torturas, pois percebeu que a mentira seria dura de engolir: para que um país mantém prisioneiros em instalações clandestinas, se não para fazer o que não pode ser feito às claras?

Então, Israel saiu pela tangente. A resposta que deu pode ser traduzida para "torturava antes, mas agora não torturo mais". Acredite quem quiser.

De resto, desta vez o estado judeu não pode ser acusado de estar copiando os métodos que a Alemanha nazista utilizava contra os próprios judeus: naquele tempo não se ocultavam os campos de concentração.

O know-how de torturar opositores do regime em centros clandestinos é latino-americano. No Brasil, o mais conhecido foi a Casa da Morte de Petrópolis (RJ), palco do suplício e execução dos meus estimados companheiros José Raimundo da Costa e Heleny Ferreira Telles Guariba, dentre outros.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ANOS DE CHUMBO: OS MORTOS CONVENIENTES... E OS OUTROS

Meu ex-colega de ECA/USP, Augusto Nunes, escreveu sobre um militante da ALN executado por seus companheiros em 1971: http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2008/11/19/temadodia/coisas_da_politica_as_travessuras_do_jovem_combatente.html

Foi um erro terrível? Foi, claro. Nenhum verdadeiro revolucionário pode admitir que, mesmo durante uma luta de resistência à tirania, decisão tão extrema seja tomada enquanto perdurar a mínima dúvida sobre a culpa do acusado.

Quanto a justiçamentos em regime democrático, são simplesmente inconcebíveis e inaceitáveis. Ponto final.

Chocou-me, principalmente, saber que Márcio Leite de Toledo não teve o direito de se defender no tribunal revolucionário convocado para julgar o seu caso. Continuou cumprindo normalmente suas tarefas de militante, alheio ao que estava ocorrendo. Depois, foi emboscado e morto.

É óbvio que poderiam tê-lo convocado para o julgamento, dando-lhe a oportunidade de pronunciar-se sobre as suspeitas (não certezas) que havia contra ele. É como minha organização, a VPR, certamente procederia.

Mas, não se pode omitir, como Nunes faz, a situação catastrófica que a ALN vivia nos estertores da luta armada, tendo seus quadros dizimados dia a dia, já que a ditadura partira para o extermínio sistemático dos quadros da resistência.

A VPR não quis acreditar que o cabo Anselmo fosse espião e pagou um preço altíssimo por isto.

A ALN executou quem não era espião, mas parecia ser (acreditava-se que ele tivesse entregado à repressão Joaquim Câmara Ferreira, causando sua morte).

Trata-se de ocorrências deploráveis, mas recorrentes, nas lutas travadas em circunstâncias dramáticas, contra inimigos muito mais poderosos, como foram os casos da resistência ao nazi-fascismo na Europa e ao totalitarismo de direita no Brasil.

Márcio Leite de Toledo indubitavelmente merece as lágrimas por ele derramadas.

Mas também as merecem os revolucionários que sofreram torturas atrozes e depois foram abatidos como cães, em aparelhos clandestinos da repressão como a Casa da Morte de Petrópolis (RJ). Foi onde evaporaram meus queridos companheiros José Raimundo da Costa e Heleny Ferreira Telles Guariba.

E é repulsivo perceber que as tribunas da grande imprensa estão escancaradas para artigos como esse, mas blindadas contra os que evocam os episódios igualmente dramáticos dos companheiros que foram martirizados pelo regime militar.

A mídia anda burguesa como nunca. Recebendo, às vezes, uma pequena ajuda de esquerdistas que não tiveram coragem de pegar em armas quando esta era a única opção que restava, sob o festival de horrores do AI-5.

Continuam despeitados até hoje, por não terem ousado ir até onde fomos. E tudo fazem para desmerecer nossa luta.
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