Mostrando postagens com marcador DOI-Codi/RJ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador DOI-Codi/RJ. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

DOIS COMPANHEIROS QUE EU ESTIMAVA MUITO, EXECUTADOS NA CASA DA MORTE

Nunca procurara conhecer em detalhes como morreram companheiros queridos, nem mesmo quando esses relatos ficaram fáceis de levantar na internet. Sabia que isso me deprimiria demais.

Contudo, ao escrever o Náufrago da Utopia, tal informação se tornou obrigatória.

Sabia que desaparecera prisioneira da repressão a Heleny Ferreira Guariba (de quem muito gostei mas me contive porque em cada instante que passava com ela a colocava em perigo, a Lucy ainda desconhecida do DOI-Codi  e eu com a face estampada nos cartazes de procurados espalhados por todo lugar). Mas ignorava que ele expirara na famigerada Casa da Morte de Petrópolis. 

À dor da perda, que nunca deixei de sentir, acrescentou-se a raiva impotente ao saber que ela foi levada a um centro clandestino de torturas, sem esperança de sobreviver, para passar pelos piores tormentos e, no final, ser abatida com um animal.

Quando estava sendo torturado no limite das minhas forças, consolava-me a certeza de que aquilo teria um fim. Bastaria aguentar mais um dia, e outro, e outro… até que os companheiros tomassem providências defensivas lá fora e não sobrassem mais  motivos operacionais  para aquela bestialidade.

Sem luz nenhuma no fim do túnel, apenas a certeza da morte, como terão sido os últimos dias da Lucy?

Foi o que me atormentou ao longo de toda uma noite insone, no pior momento possível, pois estava em má situação financeira e era obrigado a passar umas 14 horas por dia escrevendo o livro que, contra a entrega dos originais, iria me livrar de outro pesadelo, o despejo.
Também supunha que José Raimundo da Costa, a melhor amizade que formei na VPR, houvesse mesmo morrido ao resistir à prisão, como os jornais noticiaram.

Já no momento dos acontecimentos, eu sabia muito bem que boa parte das mortes noticiadas dessa forma não passava de execuções a sangue-frio.

Ao ser levado para depor numa auditoria do Exército, certa vez, o oficial que comandava a escolta comentou o sucessivo anúncio de mortes de companheiros do Movimento Revolucionário Tiradentes. Segundo os jornais, depois da morte em combate, sempre era encontrada uma pista que levava ao elo seguinte da cadeia. Risível.

Para não deixar dúvidas, aquele oficial disse: "Você tem sorte de estar preso. Lá fora, hoje, não escaparia com vida"

Mesmo assim, no caso do Moisés, eu acreditei — quis crer — na versão oficial.

Quem sobrevivia na clandestinidade desde 1964 e se safara de tantas armadilhas, certamente resistiria até a última bala — pensei.

Não levei em conta, no entanto, sua amizade com o cabo Anselmo, a quem sempre defendera das acusações lançadas por outros agrupamentos de esquerda.

A confiança no velho companheiro dos movimentos da marujada, com certeza, causou sua prisão com vida. Quem foi capaz de armar uma cilada mortal para a mulher que engravidara, não hesitaria em impedir que um velho amigo tivesse um final menos atroz.

Moisés era um homem forte, que convivia há muito tempo com a ideia de morrer pelas mãos dos inimigos. Mas, o que ele deve ter passado  antes, também na Casa da Morte, é que me horroriza até hoje.

Pois, com o Moisés, o ressentimento era, inclusive, pessoal.

Pouco antes do golpe de 1964, sua prisão foi ordenada e o oficial encarregado de cumprir a missão fez a besteira de não levar escolta.

Os marinheiros do navio em que o Moisés servia simplesmente lhe perguntaram: "O que fazemos com esse palhaço?".

Ao que ele respondeu: "Jogamos no mar, é claro!".

Dito e feito. Só que o  palhaço  ensopado, submetido à pior das humilhações, conquistaria depois posição importante no Cenimar, o serviço de informações da Marinha. Da qual se serviu para mover uma caçada ao Moisés no País inteiro, obcecado com a ideia da desforra.

Só em pensar que esse reencontro haja finalmente ocorrido, tenho arrepios. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 5)

Era de manhã cedinho numa quinta-feira, 16 de abril de 1970. Ao me retirarem o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel que, soube depois, era o da Polícia do Exército no bairro carioca da Tijuca, onde operava o DOI-Codi, reunindo efetivos da repressão originários das três Armas.

Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas, no fundo do quartel. Durante dois meses e meio sofreria todo tipo de intimidação e sevícia, conforme relatei no meu livro Náufrago da Utopia   e também em vários artigos e entrevistas. 

Avalio como desnecessário e deprimente repetir os pormenores da minha descida ao inferno. Melhor falar nas lições que extraí, algumas no próprio momento, outras repassando os tormentos na memória, de volta à cela.

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos . Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já dependurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo do que queriam saber. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que revelava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. 

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: os companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem com outros quadros. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte  do que ocorreu comigo naqueles primeiros dias de sofrimentos dilacerantes. 

Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes superiores organicamente a mim e com os que eram do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. O certo é que, por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles  momentos terríveis (e só neles!). 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderiam causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado cujo único contato com a organização era exatamente comigo. 

Só que o aliado Roberto Macarini (foto ao lado) morreu, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.

Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.

Quanto à injusta estigmatização que sofri por atribuírem-me uma responsabilidade que jamais tive na queda da área 2 de treinamento guerrilheiro, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que coloca o patamar hierárquico acima de tudo e não como o homem justo que sempre procurei ser.  (por Celso Lungaretti)

ACESSE  TODOS OS POSTS DESTA SÉRIE CLICANDO EM
PARTE 1PARTE 2PARTE 3PARTE 4
PARTE 5PARTE 6PARTE 7

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

MÚSICA DE LUNGARETTI E DALTON LEMBRA JUNHO DE 2013 ("A CIDADE ESTAVA POR UM FIO, DOIS BABACAS ACENDERAM O PAVIO")

Policiais cegando jornalistas com balas de borracha e black blocs reagindo à violência com
vandalismo: foi fácil para a mídia transmitir à opinião pública uma imagem devastadora.
.
PARA TURISTA ACIDENTAL, FALTAVA-ME A GRANA
E A GANA. MAS POETA ACIDENTAL, POR QUE NÃO?
J
á escrevi sobre minhas fases de crítico acidental de cinema (vide aqui) e de música (vide aqui), pois duraram meia década cada e renderam centenas de textos publicados, ainda que não o fossem na grande imprensa. 

Também posso me considerar um poeta acidental, embora a repercussão fosse menor ainda. Mas, como mensurar um sonho? 

O importante, bem disse o Paulo César Pinheiro, é que a nossa emoção sobreviva. Talvez sirva de inspiração para os que virão depois de mim e siga por algum tempo produzindo alguns dos efeitos que eu tentei causar...
    
Faço poesias desde os meus 13, 14 anos, por aí. Sempre que qualquer inspiração surgia, eu a colocava no papel. 

Comecei fazendo-as quilométricas e palavrosas, mas, com o tempo, fui para o extremo oposto, tentando dizer o máximo com o mínimo de palavras.

No inferno do DOI-Codi, em maio ou junho de 1970, cheguei a ter como companheiro de cela o major Joaquim Cerveira (vide aqui), anos depois assassinado pela Operação Condor.  Estávamos em cinco. Para tentarmos pairar por alguns momentos acima das nossas dores e dramas, ele cantava seus sambas e eu recitava minhas poesias, ambos de memória.
Colega na poesia, Rubens Lemos me pediu para
travar uma luta dramática; a vitória caiu do céu

Quando morava numa comunidade alternativa, em 1972, escrevia versos a esmo em meio às nossas viagens de LSD. 

Houve vezes em que depois encontrei matéria-prima poética em meio àquela algaravia toda. Aproveitava o aproveitável, dando um trato e acrescentando complementos,  e jogava o resto fora.

Em meados daquela década, participava dos espetáculos de poesia e música do Grupo Cacimba e era um dos autores das coletâneas independentes produzidos com a grana resultante. 

O Rubens Lemos, radialista de esquerda e veterano quadro do partidão, era outro dos poetas. Foi graças a isto que, quando o filho dele mais três companheiros presos, os chamados quatro de Salvador, estavam prestes a iniciar uma greve de fome em 1986, ele pediu minha ajuda para fazê-la repercutir e, com muito esforço e um bocado de sorte, encontrei o caminho de uma vitória que parecia impossível (vide aqui).   

Na década de 1990 resolvi tentar a sorte nos concursos de poesia anunciados na internet. Peguei todas as poesias que considerava pelo menos razoáveis e fiz um livro resumindo as etapas da minha trajetória de vida e as poesias criadas em cada uma delas. 

Não ganhei nada, mas tinha carinho por aquele trabalho. Aí uma pane do computador e um técnico trapalhão que o reformatou sem cuidado fez meu livro virar pó. Foi quando perdi boa parte do meu entusiasmo pela coisa.

Guardo como melhor lembrança a poesia que dediquei à moça que tentava conquistar e acabou se tornando a mãe da minha filha mais velha.

Muitas poesias que faço têm um ritmo musical e são facílimas de adaptar para letras de canções. Aqui e ali alguns o fizeram, inclusive sem que eu jamais ouvisse o resultado (isto antes da internet, claro!).

Minha última poesia foi Junho Indignado, por causa do forte impacto que as manifestações de 2013 tiveram sobre mim. Lamentei que a bestialidade das polícias estaduais e a insensatez (ou provocações deliberadas, sabe-se lá, Anselmos sempre há...) dos black blocs acabassem ofuscando o ingrediente revolucionário daqueles protestos. 
Quis dizer isto em versos, mais ou menos na linha da chamada
vanguarda paulistana do período 1979/1985, aquela do Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Por quê? Sei lá, foi como imaginava a canção na qual aqueles versos caberiam, quando os estava criando. 

Esta poesia derradeira foi agora musicada pelo Dalton e deu origem ao vídeo abaixo, na voz do Gomes Brasil. 

Se calhar, a parceria com o bom Dalton poderá render outros frutos, caso a musa de outrora decida me visitar de novo. O certo é que não pretendo utilizar com tal objetivo as poesias que sobraram do apagão do computador (eis algumas aqui). 

Marcam outras épocas e eu encaro a vida como movimento e mudança. Enquanto não me faltarem as forças, estarei tentando escrever novas páginas.  A História jamais tem fim para os revolucionários. (CL) 
Related Posts with Thumbnails