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terça-feira, 15 de julho de 2025

QUEM É BURRO, PEÇA A DEUS QUE O MATE, AO DIABO QUE O CARREGUE E AO XANDÃO QUE TRANQUE A CELA E DESTRUA A CHAVE

Desde o primeiro momento o blog Náufrago da Utopia avaliou como desastrosa a chantagem do clã Bolsonaro contra as instituições brasileiras, apostando em que nada de bom e tudo de ruim dela adviria. Agora tal avaliação está confirmada na íntegra.

Assim, o procurador geral da República Paulo Gonet acaba de pedir a condenação de Jair Bolsonaro por cinco crimes, três deles gravíssimos: liderar organização criminosa armada, tentar abolir violentamente o Estado democrático de Direito e dar um golpe de Estado (ainda que fracassado).

Só mesmo um cidadão tacanho, sem nenhuma familiaridade com as leis brasileiras, como é o caso do bananinha 03, poderia supor que uma ameaça estrangeira de ordem econômica impediria o Supremo Tribunal Federal de cumprir o seu dever. Mesmo que o Executivo quisesse prostrar-se aos EUA, não teria poder para tanto.

Então, o tiro do Trump, além de ser negativo ao extremo para a imagem dos Estados Unidos aos olhos do mundo inteiro, só poderia perder-se no vazio. 

E o amadorismo da tramoia foi tamanho que Lula ganhou a parada praticamente sem sair do lugar. Quem poderia recriminar seu governo por não realizar uma missão impossível?

Nem mesmo o agro, que vinha pendendo para o lado do Bolsonaro, está culpando o presidente pelos prejuízos que os aprendizes de feiticeiro lhe vão causar.

O centrão imediatamente recuou do apoio ao projeto inconstitucional dos bolsonaristas, que previa uma decisão da Câmara Federal em favor de uma anistia que não lhe cabia conceder, o que geraria um perigoso confronto entre Poderes. 

Hugo Motta já decidiu não pautar tal votação para o presente semestre, pois sabe quão impopular se torna quem apoia um governo estrangeiro em detrimento do seu país. 

O bolsonarismo se tornou tóxico da noite para o dia. Os tais patriotas, estarrecidos, descobriram que são, isto sim, traidores e entreguistas. E, como alfinetou uma jornalista amiga, graças ao plano infalível do Eduardo, o Lula saiu das cordas, enquanto os ultradireitistas nelas se enrolam cada vez mais. 

A disputa entre os postulantes à vaga do inelegível Jair na próxima campanha presidencial acirrou-se de tal maneira que agora está mais para briga de foice no escuro. 

Por enquanto quem se adaptou melhor às novas circunstâncias foi a Michelle Bolsonaro, que preferiu manter a serenidade e o comedimento enquanto o cenário estiver a ela desfavorável. Já Tarcísio de Freiras entrou em parafuso e o bananinha  03 faz questão de reivindicar a autoria de uma iniciativa sórdida, da qual qualquer pessoa  de bem se envergonharia.

PRISÃO DOMICILIAR -- Chega a ser irônico que, após tanto fazer para ultrapassar a democracia burguesa no Brasil, Jair Bolsonaro acabará cumprindo pena em prisão domiciliar (na ditadura dos seus sonhos o rigor seria bem maior...). Tal é a perspectiva nos círculos políticos, em razão de sua condição de septuagenário e das doenças que o têm obrigado a sucessivas internações hospitalares.

E isto não mudará nem mesmo se ele, após a condenação como o principal culpado pela tentativa de golpe de estado, for também apenado como o responsável indireto por algo entre 350 mil e 400 mil brasileiros que encontraram a morte como consequência de sua sabotagem vacinal, caso contrário tendiam a sobreviver à pandemia.

As leis brasileiras são  muito condescendentes com os criminosos que ocuparam posições de poder. E só poderão ser alteradas para casos futuros. 

Bolsonaro jamais cumprirá uma pena minimamente próxima de todo morticínio e sofrimento que causou E ainda esperneia para livrar-se das que, sendo ele o indivíduo monstruoso que é, não passarão de refresco... (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DE COMANDANTE DA VAR-PALMARES A COMANDANTE EM CHEFE

Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo, há muito demonstra ter ótimas fontes fardadas. Concordando ou não com as avaliações e opiniões, jamais deixo de ler seus textos para pinçar informações. 

É importante sabermos o que rola nos bastidores da caserna; afinal, trata-se  de um foco habitual de golpes de estado. É lá que eles são tramados e é de lá que eles começam a ser desfechados.

Nesta 6ª feira (7) em que se comemora exageradamente uma mera  troca da guarda, a substituição da dependência política de Portugal pela dependência econômica da Inglaterra (coitado do Tiradentes, este sim queria independência de verdade!), o artigo é dos mais emblemáticos.


Refere-se a uma torturada pelos militares que depois descobriu virtudes insuspeitadas no inimigo de outrora. Antes tarde do que nunca...
 
Só não entendo por que, dando-se tão bem com eles, não lhes pede o pequeno favor de revelarem onde estão os restos mortais dos companheiros (também...) de outrora. 

Como a Heleny Guariba (foto ao lado), nossa aliada no tempo em que ambos militávamos na VAR-Palmares. Ela foi vista pela Inês Etienne Romeu na Casa da Morte de Petrópolis e nunca mais foi vista por ninguém. 

Não lhe deram sequer a chance de um dia reavaliar seus conceitos. Morreu acreditando estar sendo martirizada por ogros bestiais.

Aliás, eu tenho o mesmo defeito:  não consegui até hoje esquecer que os militares me causaram uma lesão permanente e quase me mataram. Os caminhos estariam mais abertos para mim se eu tivesse uma conveniente amnésia.

Leiam com atenção, abaixo, a coluna da Cantanhêde. É muito instrutiva.

A COMANDANTE EM CHEFE

"Com a comandante em chefe cercada de fardas e quepes verdes, azuis e brancos, diante de acrobacias de caças da FAB, este Sete de Setembro é uma boa oportunidade para destacar o que poucos percebem: as relações entre a ex-torturada Dilma e as Forças Armadas vão muitíssimo bem, obrigada.

Conforme a repórter Natuza Nery e eu apuramos, as manifestações de apreço de Dilma pelas três Forças revelam-se subjetivamente, nas declarações em reuniões, e objetivamente, na aprovação de planos e programas.

Pode parecer estranho, mas Dilma tem pontos em comum com os militares: o nacionalismo e a disciplina. Militar não faz greve (como os policiais têm feito) e cumpre metas -de prazos e de preços. Coisas raras.

Dilma vive chorando as pitangas por causa da crise mundial, mas garantiu financiamentos do BNDES para a indústria bélica e recursos para projetos em andamento, como o de submarinos da Marinha, e novos, como o Proteger, do Exército, para a segurança de prédios estratégicos.

Na negociação de salários com o serviço público, em agosto, só duas categorias tiveram aumentos diferenciados: professores universitários e militares. Para uns, o anúncio foi com estardalhaço. Para outros (30% em três anos), quase escondido.

Motivo: o tratamento de Dilma aos militares causa ciúmes, especialmente na Polícia Federal, que disputa com o Exército a coordenação da segurança na Copa e na Olimpíada.

Em recente reunião com ministros civis, a presidente elogiou o Exército e chamou o general Enzo Peri ao Planalto para expor a operação militar que, segundo ele, impediu ao menos 40 ataques cibernéticos graves durante a Rio+20. Os presentes captaram o recado.

Hoje, Dilma fará um discurso ufanista que tanto agrada os militares. Mas o que eles mais gostaram foi do que ela disse na instalação da Comissão da Verdade: 'Não nos move o revanchismo'. Eles esperam que não."

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A COMISSÃO DA VERDADE EM FRASES

"Merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pai, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo pode existir uma história sem voz."
(presidente Dilma Rousseff, dando uma no cravo)

"...também reconheço e valorizo pactos políticos que nos levaram à redemocratização..."
(Dilma Rousseff, dando a outra na ferradura, pois ditadores não podem anistiar-se e a seus esbirros em plena ditadura, nem cabe a qualificação de  pacto --salvo na acepção medieval de  acordo com o demônio-- para o que foi negociado em posição de força por um dos lados, tendo a libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados como moeda de troca para impor sua vontade ao outro lado, o que configura CHANTAGEM pura e simples)

"Os sete integrantes da Comissão são sensatos, ponderados e preocupados com a justiça e o equilíbrio."
(mais uma de Dilma na ferradura, ao omitir que havia um critério imposto pela direita parlamentar para a escolha desses sete, o de não terem sido vítimas diretas da ditadura, pois ex-resistentes  sensatos, ponderados e preocupados com a justiça e o equilíbrio  existem vários e foram todos barrados no baile)

"Espero que a comissão realmente encerre de uma vez por todas esses problemas."
(ex-presidente Fernando Collor, que nada fez para encerrá-los quando tinha poder para tanto, ou seja, antes de ser expelido da chefia do Estado sob vara)

"O esclarecimento dos crimes não será uma revanche."
(ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que igualmente se omitiu, embora haja tido mais tempo ainda, oito anos, para esclarecer os crimes)

"A criação da Comissão foi um passo estupendo."
(ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esquecendo de dizer que preferível a tal  passo estupendo teria sido a impugnação do habeas corpus preventivo que os criminosos da ditadura concederam a si próprios em 1979 e ele não permitiu que fosse sequer questionado em 2007, quando proibiu seus ministros Tarso Genro e Paulo Vannuchi de pleitearem a revogação da Lei de Anistia) 

"...as ações da esquerda não exigem mais do que as recuperar. Hoje ainda é preciso investigar crimes da ditadura justamente porque seus militares e policiais investigaram as ações da esquerda desarmada e da esquerda armada.

Fizeram-no com os métodos que depois não tiveram a hombridade e a coragem de reconhecer, motivo real da Comissão da Verdade...
"
(Jânio de Freitas, colunista da Folha de S. Paulo, constatando o óbvio)

"...não se preocupem as vítimas, os familiares, a esquerda, porque essa história fala por si. Basta contá-la, sistematizando o que já há e acrescentando o quanto falta para que tenha um começo, um meio e (finalmente...) um fim.

Foi uma guerra desigual e desumana, com torturadores de um lado e torturados de outro. Não há nenhuma outra verdade a ser investigada que possa se impor a essa realidade.
"
(Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de São Paulo, idem)

"...o direito de qualquer réu é não criar provas contra si. Isso quer dizer: pode mentir que não tem problema... Como agora no julgamento, se for necessário, eu posso exercer esse direito também. Isso é inerente à Justiça brasileira."
(tenente-coronel Maurício Lopes Lima, que torturou Dilma Rousseff e dezenas de presos políticos, admitindo que mentirá à Comissão)

"...o cenário que se desenha é o do parto da montanha produzir um rato: os militantes já cansaram de proclamar a verdade e os militares não terão motivo nenhum para abdicar da mentira.

A tendência é que  se sistematizem as versões já conhecidas sobre as execuções e demais atrocidades da ditadura, pouco se avançando na descoberta dos armários em que eles guardaram os esqueletos --salvo se a Comissão pudesse ao menos ordenar a prisão dos comprovadamente perjuros.

Mas, é óbvio que isto não ocorrerá.
"
(euzinho, antecipando que os militares continuarão enrolando, numa repetição de como agem em relação aos restos mortais dos guerrilheiros covardemente executados no Araguaia)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

GRANDE IMPRENSA AINDA DISTORCE O CASO BATTISTI

Peluso, o destrambelhado cruzado das más
causas, saiu atirando contra os colegas e Dilma.
Guinada no Supremo é o título da coluna desta 5ª feira (19) de Eliane Cantanhêde na Folha de S. Paulo (vide íntegra aqui), enfocando o fim da presidência do reacionário empedernido e fanático medievalista Cézar Peluso.

Trata-se daquele ministro que, no Caso Battisti, produziu o relatório mais tendencioso da história do STF, acolhendo as piores falácias dos inquisidores e rechaçando todas as alegações da defesa, inclusive com o emprego dos mais grotescos malabarismos jurídicos e factuais.

Isto num processo pra lá de polêmico, cujas três votações terminaram em 5x4.

Se quatro colegas não concordaram com o relator quanto à invasão de prerrogativas do Executivo (ao fulminar a decisão legítima do ministro da Justiça e, com ela, a própria Lei do Refúgio, tornada letra morta) e à extradição de Battisti, isto demonstra claramente que havia motivos relevantes para dúvidas. O relatório de Pelluso, contudo, era só certezas, igualzinho a um gavião da Fiel exaltando a grandeza do  Timão...

Pior ainda foi na terceira votação (em 18 de novembro de 2009), quando ele e Gilmar Mendes tentaram passar por cima também do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como já haviam feito com Tarso Genro ao detonarem a lei e desconsiderarem a jurisprudência.

Aí, Ayres Britto, que os acompanhara até então, resolveu dar um basta!. Afinal, a última palavra em casos de tal gravidade pertence à autoridade máxima desde os tempos da monarquia (lembremo-nos, p. ex., de que D. Maria I comutou a pena de morte de 11 dos inconfidentes mineiros, só a mantendo para Tiradentes).

Britto jamais concordou com o
esvaziamento do poder presidencial
Automatizar a extradição, de forma que Lula fosse obrigado a executá-la sem dar um pio, contrariaria toda a tradição jurídica ocidental.

Daí a perplexidade que me causou este parágrafo da Cantanhêde:
"No caso Cesare Battisti, Ayres Britto ficou aborrecido quando anunciamos que mudaria o voto. Em longo telefonema, elegante, é verdade, garantiu que 'não era homem' de decidir o voto por pressão de ninguém. O voto, ele não mudou, mas fez um contorcionismo técnico interessante que mudou o próprio resultado do julgamento. Battisti ficou".
Menos, Eliane, bem menos.

Consultando as atas da segunda sessão de julgamento (12/11/2009), você constatará que Britto já havia se posicionado firmemente contra a tese de que a decisão do Supremo deveria ser definitiva, defendendo com unhas e dentes a prerrogativa do presidente da República de dar a última palavra, conforme sempre ocorreu no Brasil.

Então, inexistiu qualquer  contorcionismo técnico  oportunístico, como fica subentendido.  Britto apenas não arredou pé da sua convicção, já expressa com máxima clareza na sessão anterior.

O que ele fez foi retirar seu apoio à blitzkrieg de Mendes & Peluso, que queriam entregar Battisti à Itália a qualquer preço, mesmo o de violentar o equilíbrio de Poderes.

E lhe dou uma informação a mais, de graça. Britto, percebendo que seria o fiel da balança, refletiu profundamente nos seis dias transcorridos entre a segunda e terceira sessões. 

A grande imprensa ainda não digeriu a
derrota: continua confundindo seu público.
Leu muito, o que até então não havia feito, sobre os processos contra militantes ultraesquerdistas dos anos de chumbo na Itália. 

E ficou ciente da obviedade que Peluso e a grande imprensa tanto esconderam: eram mesmo meros linchamentos com verniz jurídico, conforme já alertara o principal jurista italiano do século passado, Norberto Bobbio (a legislação típica de ditaduras então introduzida --e mais tarde revogada-- admitia até que um acusado permanecesse em prisão preventiva por mais de dez anos!!!).

Mas, desavisadamente, Britto já dera sinal verde para a extradição. Então, não quis passar recibo de que tomara uma péssima decisão tangido pelo relatório de Peluso, no qual havia acreditado piamente.

Tratou de corrigir o erro de outra forma, ao transformar em voto a posição já manifestada, de que não cabia ao Supremo esvaziar o poder presidencial.

Quando Peluso e Mendes, num abuso flagrante de autoridade, tentaram evitar o cumprimento da decisão que o STF já tomara, nova votação confirmou a justeza  técnica  do posicionamento de Britto, em 08/06/2011. E por um placar mais elástico, para não deixar nenhuma dúvida: 6x3.
Finalmente: faltou esclarecer por pressão  de quem  Britto teria  mudado sua posição. 

Pois a desigualdade de forças era gritante e pressões explícitas, avassaladoras, quem as moveu foram o governo italiano e a grande imprensa brasileira. 

O que tornou ainda mais acachapante sua derrota.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A QUEIXA DOS EUROPEUS: QUERIAM QUE LULA "ALIVIASSE" PARA BERLUSCONI

"Eu assisti de camarote
o teu fracasso,
palhaço, palhaço"
(B. Lacerda/H. Martins, "Fracasso")


Deu na Folha de S. Paulo que "países da União Européia articulam um ato de solidariedade à Itália", no bojo da decisão brasileira de negar a extradição do escritor Cesare Battisti por haver grande possibilidade de sofrer humilhações e maus tratos naquele país (além, acrescento eu, de correr risco de ser assassinado, já que um sindicato de carcereiros o jurou de morte).

O mais interessante na notícia da Folha é este trecho:
"O que mobiliza a Europa não é a decisão em si, mas o descumprimento de um acordo prévio entre os governos italiano e brasileiro para que a decisão do ex-presidente Lula não questionasse o Estado de Direito e as instituições da Itália.

O acordo foi intermediado por [José] Viegas [embaixador brasileiro na Itália] diretamente com o próprio Lula. Apesar disso, o então presidente na última hora se baseou num parecer da AGU (Advocacia-Geral da União) dizendo que Battisti poderia ser 'submetido a agravamento de sua situação' em seu país".
A autora é a colunista Eliane Cantanhêde que, há quase um ano (16/01/2010), já revelara a existência desse acerto entre os dois países:
"O governo italiano mandou um recado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: seria 'agressivo e deselegante' se ele acatasse a sugestão do Ministério da Justiça de fundamentar a não extradição (...) no temor de que ele ficaria sujeito a 'perseguição política' no seu país.

Na avaliação italiana, isso seria mal visto pelo governo, pela Justiça e pela opinião pública da Itália...

Sendo assim, a argumentação de Lula deverá evitar qualquer tipo de ataque ou suspeição sobre três aspectos: a lei, as instituições e o Estado Democrático italianos. Deve, portanto, se concentrar no interesse brasileiro e/ou em 'questões humanitárias'".
Um dos males desse tipo de jornalismo, lastreado unicamente naquilo que fontes dos altos escalões sopram no ouvido do(a) repórter, é que o leitor não tem como averiguar ele mesmo se a informação é verdadeira ou foi  plantada  para contemplar quaisquer interesses.

Um jornalista veterano (meu caso) baseia-se em indícios como o de que Eliane Cantanhêde, em várias outras situações, deixou perceber que tinha/tem um informante muito bem posicionado no Ministério da Defesa -- talvez o próprio ministro Nelson Jobim, a quem ela sempre apóia nos momentos cruciais.

Então, levando em conta que suas informações  de cocheira  costumavam ser confirmadas e a congruência entre o que ela relatava e o quadro que eu mesmo deduzia, apostei em que Eliane estivesse certa em janeiro/2010... e aposto que continua certa em janeiro/2011.

Os apoiadores de Cesare Battisti suamos sangue para que, na terceira votação do Supremo Tribunal Federal, a corte não  automatizasse  a extradição. Quando fracassou a tentativa dos ministros alinhados com a posição italiana, de usurparem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a prerrogativa de dar a última palavra (como sempre se fez no Brasil),  nós concluímos que o desfecho justo passava a ser apenas questão de tempo.

Então, fazia todo sentido que os linchadores do Velho Mundo tivessem chegado à mesma conclusão, de que suas pressões descabidas e insultuosas de nada mais adiantariam.

Realmente, baixaram a bola entre janeiro e dezembro, só reincindindo às vésperas do anúncio da decisão de Lula, quando incorreram em mais uma grave heresia diplomática: a de se manifestarem sobre uma   presumida intenção  presidencial, baseados (segundo eles mesmos alegaram) no noticiário da imprensa.

Ora, isto foi altamente impróprio, tanto que lhes valeu um merecido puxão de orelhas do então chanceler Celso Amorim. No relacionamento com autoridades de outros países, governos se posicionam sobre fatos concretos, não sobre projeções midiáticas de medidas futuras.

Pior ainda é quando tentam ganhar no grito... de um presidente da República.

Mais uma gafe da horda berlusconiana, verdadeiros rinocerontes em loja de cristais, exibindo um primarismo político e falta de compostura chocantes para um país que, dois milênios atrás, difundia a civilização no resto do mundo.

BOBBIO: ITÁLIA ADOTAVA "LEIS DE EXCEÇÃO"

Quanto ao descumprimento de parte do acordo com a Itália -- outro pedido, o de não se criarem embaraços para o premiê Berlusconi quando de sua visita ao Brasil, foi rigorosamente atendido --, a que se deveria?

Ficando no terreno das hipóteses, eu diria que tantas os italianos fizeram, no curso de sua interferência despropositada e agressiva num julgamento brasileiro (servilmente consentida pela dupla direitista Gilmar Mendes/Cezar Peluso), que a Advocacia Geral da União deve ter aconselhado Lula a lastrear sua decisão num motivo incontestável à luz do tratado de extradição entre os dois países, de preferência a confiar na boa fé de quem vinha demonstrando não ter nenhuma..

"Interesse brasileiro" e/ou "razões humanitárias" seriam alegações mais frouxas e fáceis de derrubar, no caso de a Itália continuar tentando servir-se do STF como cabeça-de-ponte para impor sua vontade ao Brasil.

Já o motivo alegado está imune a qualquer contra-ataque jurídico. Um país cujas autoridades dão declarações tão histéricas e demagógicas quanto as italianas deram a respeito de Battisti, e cujo serviço secreto trama com mercenários o assassinato de um exilado no exterior, não oferece mesmo garantia nenhuma à vida e à integridade física e psicológica do extraditando.

Na verdade, o Brasil foi até generoso, pois certo mesmo estava o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, ao conceder o refúgio humanitário a Battisti porque ele não foi sentenciado num verdadeiro julgamento, mas sim num linchamento togado.
Face ao desafio das organizações armadas de esquerda na década de 1970, o Estado italiano reagiu, segundo Genro, "não só aplicando normas jurídicas em vigor à época, mas também criando 'exceções' (...) que reduziram prerrogativas de defesa dos acusados de subversão e/ou ações violentas, inclusive com a instituição da  delação premiada, da qual se serviu o principal denunciante" de Battisti.

O ministro brasileiro utilizou uma citação do maior jurista italiano do século passado, Norberto Bobbio, para caracterizar a cultura de abusos contra os direitos humanos que prevaleceu durante os  anos de chumbo:
“A magistratura italiana foi então dotada de todo um arsenal de poderes de polícia e de leis de exceção: a invenção de novos delitos como a ‘associação criminal terrorista e de subversão da ordem constitucional’ (...) veio se somar e redobrar as numerosas infrações já existentes – ‘associação subversiva’, ‘quadrilha armada’, ‘insurreição armada contra os poderes do Estado’ etc. Ora, esta dilatação da qualificação penal dos fatos garantia toda uma estratégia de ‘arrastão judiciário’ a permitir o encarceramento com base em simples hipóteses, e isto para detenções preventivas, permitidas (...) por uma duração máxima de dez anos e oito meses".
De um lado, os mais gritantes absurdos jurídicos -- como essa hipótese kafkiana de se manter um suspeito preso, sem qualquer condenação, por mais de uma década; e a instituição de leis com efeito retroativo, a exemplo da que serviu para condenar Battisti.

Do outro, a tortura grassando solta, como também destacou Tarso Genro:
"Determinadas medidas de exceção adotadas pela Itália nos 'anos de chumbo' (...) ressoam ainda hoje nas organizações internacionais que lidam com direitos humanos. A condenação a determinados procedimentos e penas motivou, de um lado, relatórios da Anistia Internacional e do Comitê europeu para a prevenção da tortura e das penas ou tratamentos desumanos ou degradantes e, de outro, a concessão de asilo político a ativistas italianos em diversos países, inclusive não europeus".
O motivo maior da decisão soberana do Brasil, ao salvar Battisti da  vendetta  neofascista, foi o de a Itália estar querendo fazer cumprir uma sentença (já prescrita!) decorrente de uma farsa jurídica, montada a partir de leis de exceção, de  delatores premiados  atirando suas culpas nas costas dos companheiros e de magistrados que engoliam até procurações forjadas para darem aparência de legalidade à condenação de um réu ausente. E isto num clima de intimidação, coerção e maus tratos generalizados.

Berlusconi e sua troupe deveriam é ser-nos gratos por não termos jogado estas verdades nas suas caras de  buffones...
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