sábado, 31 de março de 2018

QUEM NÃO QUISER SERVIR DE BOBO ÚTIL PARA MANIPULADORES ESPERTOS, ASSISTA A "O MECANISMO" ANTES DE SE POSICIONAR

Até quando as redes sociais vão servir como correia de transmissão para as manipulações petistas, engolindo lorotas convenientes como se fossem a tábua dos 10 mandamentos?!

Li muita gente séria garantindo que o seriado O mecanismo não tinha nada de mais, então fui tirar a prova dos nove e constatei a inexistência de qualquer intenção de detonar preferencialmente o PT, poupando seus adversários políticos.  

Tanto que o Michel Temer aparece como outro partícipe importante nos esforços para abafar as investigações policiais e livrar a cara das empreiteiras crapulosas.  

O Aécio Neves chega a ser caricato no seu oportunismo rasteiro, além de haver uma sugestão de que ele realmente se drogaria. 
Sérgio Moro/Paulo Rigo: pressões ilegais sobre os presos

O próprio Sérgio Moro (bem como alguns agentes da Polícia Federal) é mostrado ultrapassando os limites de sua autoridade e pressionando presos de forma ilegal para coagi-los a se tornarem delatores premiados. E por aí vai

Quanto ao STF, a impressão que O mecanismo passa é a de que ele tradicionalmente agia para garantir a tranquilidade dos poderosos, minimizando o estrago causados pelas investigações de escândalos, até que  resolveu bancar a Operação Lava-Jato, tomando o partido dos antipetistas na luta pelo poder e não conseguindo depois enfiar o dentifrício de volta no tubo. 

Enfim, trata-se de uma visão bem negativa do universo da política, da Justiça, do Ministério Público e da polícia, só aliviando um pouco para alguns personagens envolvidos na luta contra a corrupção, como o José Padilha vem fazendo desde Tropa de Elite, no qual relativizava até a prática da tortura. Mas, nem mesmo a agente Verena e o ex-agente Ruffo deixam de ter seus escorregões éticos e legais.

Enfim, se há alguma ideologia no seriado, é a de que está tudo podre (canceroso) no topo de nossa sociedade
Dilma Rousseff/Janete Ruskov: chamam-na de a louca
A insistência do PT em posar de vítima já encheu o saco. Qualquer detalhezinho ínfimo, tipo colocar na boca do Lula uma frase do Romero Jucá, serve como pretexto para uma tempestade em copo d'água como a que estamos assistindo, cujo real motivo é colocar sob suspeita uma obra que, apesar de suas evidentes limitações, acerta pelo menos ao igualar os políticos profissionais do PT, do MDB, do PSDB e todo o resto da corja como farinha do mesmo saco

A quem esses aprendizes de Goebbels pensam que enganam? Não ao cidadão comum, que há muito tempo concluiu a mesmíssima coisa sobre aqueles que fazem da política um meio de se darem bem no inferno capitalista, mandando os ideais de uma sociedade mais justa às urtigas. 

[Quanto à esquerda, deveria é aproveitar o desencanto com a democracia burguesa para reassumir-se como força transformadora da sociedade. Enquanto limitar-se a disputar privilégios com outros aspirantes a privilegiados, chafurdando na mesma lama dos demais políticos podres, de nada lhe adiantará quebrar os espelhos que refletem sua descaracterização.]

De resto, há milênios autores colocam falas de um personagem histórico na boca de outro quando isto é conveniente em termos artísticos.
Um típico sucesso de escândalo

Usar tal detalhezinho ínfimo, que mal se notaria no meio da trama, como pretexto para impugnar um seriado de mais de seis horas de duração é outra evidência gritante de que dessa gente os explorados não podem esperar nada que preste; e de que a esquerda, ou os deixa de lado e caminha para a frente, ou afundará no mesmo descrédito que eles cavaram para si próprios.

Quem não quiser servir de bobo útil para manipuladores espertos, assista a O mecanismo antes de se posicionar como um inquisidor do século 21, apoiando implicitamente a prática da censura.

Por último: atuei uns cinco anos como crítico de cinema, mas não farei uma análise a caráter da série... porque não passa de mais uma besteirinha da indústria de entretenimento, feita para dar lucro e não para lançar luzes sobre acontecimentos históricos. 

É 96% de thriller policial, com umas pitadas de niilismo político simplório para dar um saborzinho picante e suscitar polêmicas que ajudam a promover o produto em questão (a Netflix buscou e obteve o velho sucesso de escândalo). Nunca levo a sério o que não merece ser levado a sério. 

sexta-feira, 30 de março de 2018

NO DIA QUE A LIBERDADE FOI-SE EMBORA

Eu tinha 13 anos em 31 de março de 1964.

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!.

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.
Dê ouro para a compra de instrumentos de tortura?

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

E, na preparação do clima para a quartelada, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era extremadamente anticatólico.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do tempo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.
Já vi enterros mais animados...
E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas designavam os excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que "no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "senti apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro -- seja o 31 de março do calendário dos tiranos, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação -- não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual não nos livraríamos por 21 intermináveis anos.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados.

O filme O desafio foi um marco da reação artística ao golpe militar. Mostra um
jovem jornalista prostrado pela derrota, mas recuperando a disposição
de luta num final antológico. Estudantes chegavam a pichar o
título nos muros das grandes cidades. Termina com o
tema Tempo de Guerra, da peça Arena conta
Zumbi (outro marco), que apontava
o caminho da luta armada. 

O GOLPE QUE PERDURARIA POR 21 LONGOS E TENEBROSOS ANOS, ATÉ ESVAIR-SE NA PRÓPRIA INCONSISTÊNCIA

O golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart, ocorreu dentro do contexto da chamada guerra fria. O bloco liderado pela União Soviética (e em menor escala pela China) rivalizava com os Estados Unidos e seus aliados na luta pela hegemonia político-econômica mundial.

A consolidação da revolução cubana de 1959, que se declarou marxista-leninista após derrubar o corrupto presidente Fulgêncio Batista (aliado dos EUA), foi ameaçada pelo patrocínio estadunidense aos mercenários de vários países e cubanos exilados, fornecendo-lhes infraestrutura militar para uma invasão e tentativa de deposição dos revolucionários. 

O episódio ocorreu em 1961 na Baía dos Porcos, noroeste da ilha cubana, saindo vitorioso o heroico povo cubano, que impôs uma fragorosa derrota aos invasores.

Logo após, em 1962, veio a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba como resposta aos congêneres estadunidenses instalados na Turquia, quase desencadeando uma hecatombe nuclear cujo resultado seria um genocídio da humanidade sem precedentes. 
Invasão da Baía dos Porcos: fracasso total.

A equivalência de forças destrutivas fez com que as disputas acabassem circunscritas ao campo político, abortando, felizmente, a possibilidade de guerra nuclear. E uma das exigências soviéticas para retirarem os mísseis foi a de que os EUA se comprometessem a não tentarem mais derrubar pela força o regime cubano, cuja sobrevivência, a partir de então, deixou de ser diretamente ameaçada.

É neste quadro de disputa política mundial que o Brasil, um gigante sul-americano em extensão e população passou a ter importância estratégica para os Estados Unidos. Dependendo de para onde o Brasil se inclinasse, o controle da hegemonia político-econômica seria alterado nas Américas.     

O governo constitucional de João Goulart – herdeiro da antipatia estadunidense por Getúlio Vargas desde os tempos da 2ª guerra mundial, bem como da dos militares brasileiros que o depuseram em 1945 mas tiveram de engoli-lo com casca e nó em 1950, acabando por levá-lo ao suicídio em 1954 – estava condenado a priori. 

A influência que o Partido Comunista Brasileiro e as centrais sindicais passaram a ter com a assunção de Goulart ao governo após a renúncia do tresloucado presidente populista de direita Jânio Quadros (que condecorou Guevara), foi o ingrediente que somou a fome com a vontade de comer nessa estranha cozinha política mundial.
Goulart titubeou demais e depois não resistiu ao golpe
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MOMENTOS FINAIS DO REGIME
DEMOCRÁTICO
DE PÓS-GUERRA
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Os ministros militares, face à tensão política e crise econômica que se agravavam desde o início de 1964, solicitaram ao presidente a decretação do estado de sítio, para conter as turbulências em curso. Goulart encaminhou o pedido (sem arregimentar sua tropa parlamentar para a aprovação) ao Congresso Nacional, que o rejeitou. Era um jogo de cena de ambos os lados que já mediam forças. 

Diante disto, segmentos militares apoiados pela grande imprensa, pelas alas direitistas da Igreja e pelo grande empresariado nacional, com o sinal verde dos EUA (que não apenas disponibilizaram infraestrutura financeira e militar para os golpistas, mas também se comprometeram a, caso fosse necessário, desembarcarem tropas no Espírito Santo, que dali chegariam a Minas Gerais, onde contariam com o apoio do governador Magalhães Pinto) consolidaram a efetivação do golpe de estado. Não era coisa de pouca monta.     

Por seu turno os comunistas trombeteavam bravatas, dimensionando mal suas próprias forças, inferiores e desarticuladas. 
Na Central do Brasil, o princípio do fim.
Luiz Carlos Prestes, principal dirigente do Partido Comunista Brasileiro, prometeu: "Se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato". Ficou o dito por não dito...

O governo Goulart estava sitiado pelos governadores de São Paulo, Adhemar de Barros, apelidado de rouba-mas-faz; da Guanabara, Carlos Lacerda, também conhecido como o corvo; e de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto. 

Ao contrário dos espantalhos que a direita utilizava para assustar a classe média, os movimentos sindicais e estudantis, bem como as Ligas Camponesas e os grupos dos 11 articulados pelo governador gaúcho Leonel Brizola, não tinham condições mínimas de prevalecerem num confronto militar. Daí não ter havido resistência real ao golpe.

O povo, que na sua grande maioria sempre se posiciona em função da situação econômica momentânea, vivia as agruras da inflação alta e da queda do PIB, tornando-se presa fácil para a propaganda golpistas.

Em meio a isso tudo, os decretos governamentais que sacramentavam as chamadas reformas de base foram assinados em grande manifestação ocorrida na Central do Brasil (RJ), no dia 13 de março, com  a participação de mais de 100 mil pessoas. Foi a gota d´água que serviu de senha para o desencadear do golpe, mas que não refletia e realidade de apoio popular. A empedernida elite brasileira empresarial e política arregaçou as mangas para a briga. 

Estabeleceu-se um confronto de manifestações públicas de um lado e de outro (como a Marcha da família, com Deus, pela liberdade, que teve lugar em São Paulo, no dia 19 de março, unindo conservadores moderados e ultradireitistas), enquanto nos quartéis se lubrificavam os artefatos de guerra para um confronto anunciado. 
Quebra da hierarquia tangeu oficialidade para o golpe

No dia 22 de março, generais da reserva (em número de 72) lançaram o manifesto Sentinelas Alertas, com o silencioso apoio dos generais da ativa, que serviu como chancela para as ações a serem perpetradas.

No dia 25 de março, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, subalternos da Marinha, liderados pelo Cabo Anselmo (que mais tarde viria a ser desmascarado como agente infiltrado) promoveram uma manifestação em apoio ao Governo, em flagrante desacato à oficialidade elitista e reacionária daquela Arma. 

No dia seguinte os marujos foram presos e, posteriormente anistiados pelo presidente João Goulart. Estava explicitada a cisão militar nos escalões inferiores da soldadesca, mas sem firme consistência revolucionária. 

No dia 30 de março Goulart compareceu a uma festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, juntamente com seus ministros Civis,  e na qual estavam presentes muitos militares. Ali proferiu forte discurso em defesa do seu governo e das reformas de base. Chegara a hora da definição de rumos.

Desencadeado o golpe, o presidente João Goulart tomou conhecimento da unidade das forças militares brasileiras e estadunidenses que haviam estacionado navios na costa brasileira (à distância de 50 a 12 milhas náuticas do porto da cidade de Vitória (ES). 
A família não sabia, mas marchava contra a liberdade

Tratava-se de uma poderosa frota militar naval e aérea capaz de enfrentar resistência miliar de grandes proporções nas chamadas operações Brother Sam e Popeye.

Incluía porta-aviões nucleares; encouraçados; destróieres; esquadrilha de aviões; e farta quantidade de combustível, veículos, armamentos e munições correspondentes, além de substancioso efetivo militar.

Os movimentos militares foram deflagrados na madrugada de 31 de março pelo general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar que, precipitadamente (estava previsto para o dia seguinte), desencadeou o levante a partir de Juiz de Fora. Os demais comandos militares aderiram prontamente, como planejado. Não se registrou resistência significativa por parte do governo e dos movimentos populares.

Não aderindo ao apelo de resistência feito por seu cunhado Leonel Brizola, que era então deputado federal pela Guanabara, Goulart partiu para o exílio. Os militares se assenhorearam do poder político e passar a ditar as ordens. Até os seus apoiadores políticos civis no golpe (como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek) sofreriam, posteriormente, as agruras do arbítrio).    

Assim fez-se noite em nosso viver, com a ascensão militar ao comando político do Estado, num golpe que se radicalizaria no final de 1968 com torturas, assassinatos e banimentos, e que perduraria por longos e tenebrosos 21 anos até esvair-se na própria inconsistência. (por Dalton Rosado)

PARA OS SENHORES DO MUNDO, A BEM-AVENTURANÇA É SEMPRE SUBVERSIVA

O estraga-matinês
Quando eu era criança, na 6ª Feira Santa os cinemas de bairro só passavam filmes religiosos toscos, de um primarismo atroz, por serem os que lhes custavam menos.

Um se chamava 
O Mártir do Calvário. Outro, Vida, Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Devem ter existido mais de que eu não esteja recordando.

As cópias eram sempre as mesmas, já que não compensava fazer novas para aproveitá-las só uma vez por ano. Estavam em petição de miséria,  tremidas, puladas, chuviscadas e embaçadas.

Os cinemas  pulgueiros  nem cogitavam exibir uma superprodução como Os Dez Mandamentos. Não só pela diferença no preço, mas também porque, com seus 220 minutos mais o intervalo entre a primeira e a segunda partes, ficaria restrito a duas sessões. Péssimo negócio.

O certo é que, na minha infância, eu me tornei avesso a filmes bíblicos. Além de não me interessarem, impediam que eu aproveitasse a folga escolar como gostava, vendo bangue-bangues, comédias, ficção-científica, capa-e-espada, etc. De que valia um feriado sem matinê?

Lá pelos 17 anos, no começo do meu engajamento político, assisti com algum interesse à visão marxista da trajetória de Cristo: O Evangelho Segundo São Mateus (1964, d. Pier Paolo Pasolini). Mas, não me deslumbrei. Muito árido, parecendo mais teatro antigão do que cinema.

Em 1973, entretanto, Jesus Christ Superstar me atingiu como um raio.
Os Dez Mandamentos, versão 1956: longo demais.

Transposição para o cinema da opera-rock de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, era, em primeiro lugar, belíssimo, com ótimas coreografias, músicas marcantes e o verdadeiro achado de filmá-lo em ruínas e desertos de Israel.

Norman Jewison, o diretor, tem grandes filmes no seu currículo, como A Mesa do Diabo (1965), No Calor da Noite (1967), Rollerball - Os Gladiadores do Futuro (1975), A História de um Soldado (1984) e Hurricane (1999). Faz mais o gênero artesão, porém com muito bom gosto e sensibilidade.

O que realmente me fez a cabeça foram as letras pra lá de inteligentes de Tim Rice, apropriadíssimas para cada situação enfocada (o filme mostra os últimos sete dias de Cristo), além de proporem um enfoque absolutamente novo e fascinante: os personagens principais do drama bíblico são mostrados como vítimas de uma armadilha do destino, forçados a agir contra suas propensões e preferências.

Cristo segue as ordens de Deus, mas gostaria mesmo é de continuar vivo. Sua relutância e temor do sacrifício se ressalta, principalmente, na sequência do Gethsemane, quando ele pergunta ao Criador por que, afinal, deve morrer. No final do tema musical, pede que, se essa é a vontade de Deus, então que o mate e o pregue na cruz... mas, o faça depressa, antes que ele mude de ideia.
Jesus Christ Superstar: personagens bíblicos se debatem numa armadilha do destino 
Pilatos não vê crime em Cristo e tenta salvá-lo de todas as maneiras, só cedendo diante da fúria da multidão, que ameaça denunciá-lo a César.

Judas não quer ser delator, mas teme uma retaliação terrível de Roma sobre seu povo, caso as pregações de Cristo prossigam. O episódio da expulsão dos vendilhões do templo o leva a crer que a situação foge ao controle e terminará num banho de sangue. É quando decide entregar Cristo aos inimigos.

Caifás age para preservar a autoridade dos sacerdotes, igualmente temendo que Roma intervenha caso eles já não consigam mais manter dócil o povo.

Enfim, nunca me agradou a visão de que o drama bíblico já fora inteirinho escrito por um roteirista das alturas e era representado mecanicamente pelos homens, obedecendo à vontade de um Deus que não admitiria questionamentos. 
Traição de Judas revisitada: ele queria evitar um massacre 

Colocada a coisa desta forma, tornavam-se todos títeres, Cristo inclusive. E títeres não me provocam empatia.

Ao humanizar esses personagens, destacando o sofrimento que lhes causava o papel para o qual estavam sendo empurrados, a ópera-rock e o filme apresentaram o drama bíblico como uma tragédia nos moldes gregos, em que homens imbuídos até de boas intenções são arrastados inapelavelmente para desfechos terríveis e injustos.

Esse evangelho na ótica da era hippie continua sendo o melhor de todos, pelo menos para quem, como eu, quer extasiar-se com a arte e não venerar aquilo que é tido como sagrado.  

Vale acrescentar que os apóstolos e os hippies tinham mesmo muito em comum: sua mensagem de paz e amor contrariava os desígnios dos poderosos e era por eles duramente combatida – já que, para os senhores do mundo, a bem-aventurança é sempre subversiva.

quinta-feira, 29 de março de 2018

MUITA CALMA NESSA HORA!

Gilmar Mendes foi chamado de "palhaço"...
Está no noticiário que até ministros do Supremo Tribunal Federal, como Edson Fachin, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, andam sendo pressionados e/ou hostilizados por cidadãos comuns. 

Parece que a tentação de sentir-se espetacular na sociedade do espetáculo fala mais alto do que o receio de complicações legais. Um desses abilolados não só perseguiu e xingou Mendes nas ruas de Lisboa, como filmou tudo com seu celular e postou as imagens na internet, fazendo questão de deixar à vista aquela em que aparecia refletido num espelho, por meio da qual poderá ser identificado.

Isto vem ao encontro da minha interpretação do episódio dos tiros disparados contra a caravana do Lula: não passam de amadores metidos a bestas querendo aparecer. 

Trata-se, claro, de um fenômeno preocupante e que tem de ser coibido, mas não equivale a nenhuma conspiração de profissionais para matar figurões, como, p. ex., a que redundou no assassinato do então presidente dos EUA John Kennedy em 1963. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
...por este exibicionista.

Percebe-se, contudo, a existência de uma exploração política exacerbada dos disparos contra a lataria de ônibus, pois há gente tentando de todas as maneiras influenciar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre prisão imediata do Lula x necessidade de aguardar-se que mais uma instância judicial confirme sua condenação.

Mantenho a minha posição de que Lula deveria é cumprir sua pena em prisão domiciliar, por ser idoso e por haver sido sentenciado em razão de um crime do colarinho branco, cuja gravidade é imensamente menor que a dos crimes hediondos, por mais que certos jacobinos do Ministério Público defendam o contrário. 

Fizeram da corrupção política um espantalho e querem sustentar de qualquer maneira tal ilusão, omitindo que muito mais danosa para os brasileiros sempre foi a aberrante desigualdade econômica e os escandalosos lucros dos grandes empresários em geral e dos banqueiros em particular. 

Uma esquerda digna desse nome estaria é explicando há muito tempo esta verdade óbvia para o povo (números para comprová-la não faltam), ao invés de, covardemente, evitar contrariar os simplismos que a indústria cultural martela na cabeça das pessoas humildes. 

De certa forma, os processos do mensalão e do petrolão a puniram por sua pusilanimidade. 

O Paulo Francis afirmou e eu sempre reiterei que o combate à corrupção é uma bandeira da direita (um acréscimo de minha parte foi o de que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e existirá enquanto os seres humanos forem compelidos a buscar o enriquecimento como prioridade suprema de suas existências).
"O combate à corrupção é uma bandeira da direita"
Mas a esquerda, de forma oportunística, quis mais é surfar nessa onda, como quando apoiou a Operação Satiagraha, alinhando-se com uma das quadrilhas que travavam aquela disputa de gângsteres por um mercado florescente. 

Isto a deixou sem credibilidade para opor-se aos evidentes excessos cometidos por policiais e procuradores nas posteriores cruzadas enxuga-gelo.

Enfim, os erros crassos cometidos lá atrás desembocaram no impeachment da Dilma e na iminente prisão do Lula. 

Mas, a esquerda brasileira nunca dependeu desesperadamente da posse da Presidência da República, que, relativamente a seu papel primordial (fazer a revolução anticapitalista), não passa de um objetivo tático; e até as pedras da rua sabem que Lula não ficará muito tempo no xilindró, logo algum jeitinho se dará para livrá-lo das grades (o mais tardar no indulto natalino).

Então, muita calma nessa hora! 

A correlação de forças nem de longe nos favorece neste instante. Opodres Poderes da República estão fragilizados, mas o verdadeiro inimigo (o poder econômico) tem como mobilizar facilmente todas as forças e recursos necessários para nos esmagar. E não há dúvida de que o fará, se as coisas chegarem a esse ponto.
"O poder econômico tem como nos esmagar"

Vai daí que, estimulando a radicalização, estaríamos apenas levantando a bola para o outro lado marcar pontos e talvez até nos destruir. Pode se partir para a guerra quando se dispõe de um exército de verdade, mas aquele que João Pedro Stedile possuiria não tem sido visto em campo de batalha nenhum... 

Então, temos mais é de assumir que estamos uma fase de defensiva estratégica, durante a qual devemos repensar nossas estratégia e táticas, reagrupar nossas forças e ampliar em muito nossos contingentes organizados, antes de cogitamos voos maiores. 

Não é hora de sequer flertarmos com a ideia de confrontos, muito menos de os propiciarmos com provocações insensatas e bravatas pueris.

quarta-feira, 28 de março de 2018

DEPOIS DA PRISÃO DO LULA, O DILÚVIO: É O ROTEIRO DA CARAVANA DOS INSENSATOS?

É perigosa e irresponsável a provocação que os dirigentes do PT levam a cabo, apostando na turbulência como a talvez última possibilidade de salvar o ex-presidente Lula das grades.

Neste exato momento, Lula não passa de um político profissional que a Lei da Ficha-Limpa impedirá de disputar a próxima eleição presidencial e uma sentença por corrupção deverá, mais dia, menos dia, conduzir ao cativeiro.

A caravana dos insensatos que percorre o país seria, em princípio, apenas inútil, pois é característica de candidatos a alguma coisa e ele já deixou de ser candidato a seja lá o que for. 

Mas, constitui-se num multiplicador de tensões, cujo efeito tóxico aumenta ainda mais por termos um governo fraco como o de Michel Temer, uma corte suprema que adia o inadiável por medo de decidir e um Congresso que se omite quando a temperatura política se aproxima da fervura. 

A decisão de visitar estados onde Deus e o mundo sabiam que Lula seria mal recebido é, no mínimo, suspeita. E, como suas consequências podem ser desastrosas, tem de ser incisivamente repudiada.

Os disparos ocorridos nesta 3ª feira (27) foram, evidentemente, uma iniciativa de amadores desmiolados e fanáticos; profissionais jamais atirariam daquela forma, a esmo, com chance infinitesimal de atingir o suposto alvo (o Lula nem estava lá!).

Algo assim só serve como alerta, levando as forças de segurança a montarem esquemas de proteção que funcionem. As chances de êxito numa tentativa seguinte se tornam irrisórias. 

Posso afirmar, sem qualquer receio de queimar a língua, que, caso sejam presos os autores de ambos os atentados, vai se constatar que os assassinos de Marielle Franco são realmente perigosos e os alvejadores de lataria de ônibus, trapalhões metidos a bestas...

Mas, a escalada de chamamentos ao caos acabará mesmo atraindo o caos, se não a detivermos.

Para os grãos petistas e sua obsessão extremada pelo poder ilusório de um presidente da República sob a democracia burguesa, na qual quem manda mesmo é o poder econômico, parece não importar que, depois de Lula (ser preso) venha o dilúvio.

Mas é também sobre todos nós, os explorados e os que lutamos contra a exploração, que tal dilúvio desabará. Então, temos o dever de refletir sobre se compensa assumirmos neste momento, com o povo desmobilizado e desesperançado como está, o risco de submergirmos de novo no totalitarismo sob o qual padecemos 36 anos no século passado.

As principais lições a extrairmos dos três mandatos presidenciais e um terço do PT são: 
  • a de que o reformismo e a conciliação de classe não trazem conquistas permanentes para os trabalhadores e os excluídos, apenas melhoras fugazes e meros paliativos, sem, p. ex., fazerem recuar 0,1% que seja a dantesca desigualdade econômica no Brasil;
  • a de que, à medida que a crise insolúvel do capitalismo se agrava e marcha para o desfecho, as instituições brasileiras estão derretendo a tal ponto que as soluções, percebe-se claramente, têm de ser buscadas muito além das ilusões eleitoreiras;
  • a de que os tais valores republicanos só são respeitados pela classe dominante enquanto isto lhe convém, podendo os mandatos conquistados nas urnas ser deletados mediante meros piparotes parlamentares.
Então, como o PT até agora não propôs absolutamente nada que nos desse a mais tênue esperança de que um terceiro mandato do Lula seria diferente dos dois anteriores (os quais já pontavam para o beco sem saída no qual Dilma se aprofundou até bater com a cara no muro), a pergunta a ser feita é: vale a pena investirmos na radicalização num momento em que nem sequer saberíamos o que fazer com o poder caso ele nos caísse na mão, além de ser enorme a chance de levantarmos a bola para a extrema-direita marcar o ponto? 

Bem melhor será começarmos a fazer a lição de casa pendente desde o dia 31 de agosto de 2016, quando era imperativo discernirmos quais erros nos levaram a uma derrota tão acachapante como o impeachment de Dilma; e, a partir daí, adotarmos estratégia, tática, posturas e valores alternativos, para substituírem os que historicamente caducaram, bem como abrirmos espaço para a renovação de lideranças, pois salta aos olhos que foram muitas as que se descredenciaram nos últimos anos.

terça-feira, 27 de março de 2018

AS VIÚVAS DA DITADURA APAGARÃO SUAS 54 VELINHAS ENSANGUENTADAS... EM PLENO SÁBADO DE ALELUIA!

No dia 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho, sedento de glória, antecipou-se ao cronograma dos golpistas e partiu com suas tropas de Juiz de Fora (MG), rumo ao Rio de Janeiro, pela Via Dutra. 

A longa marcha desse incrível exército Brancaleone começou na madrugada de 31 e terminou no dia 2.

O que mais houve no próprio dia 31 foram militares e políticos se contatando para discutirem qual lado apoiariam. O desfecho era incerto.

Então, a data que realmente caracteriza a tomada de poder pela ultradireita é o dia 1º de abril, quando, lá pelo meio-dia, João Goulart iniciou sua fuga, primeiramente para Brasília, depois para o Rio Grande do Sul.

A debandada presidencial foi interpretada pelos chefes militares como indício seguro de que ele estava derrotado. Então, passaram a aderir em massa à quartelada, tornando-a irreversível.

Mas, por motivo meramente propagandísticos, os farsantes preferiram batizar o golpe de revolução de 31 de março, empilhando mentiras (não foi revolução nem aconteceu em tal data) enquanto faziam contorcionismos para escaparem da identificação com o dia da mentira (1º de abril).

Bem, já que até hoje eles martelam tanto sua versão falaciosa, vou dar-lhes razão neste ano: OK, foi no dia 31. Podem sair na calçada da avenida Rio Branco (onde fica a sede central do Clube Militar no RJ) gritando Viva a Morte!.

[Ôps, desculpem o meu lapso. Este slogan pertencia aos fascistas espanhóis, não aos fascistas brasileiros. Enfim, é tudo farinha do mesmo saco...]

Só lhes recomendo que tomem cuidado com a repulsa que suas exaltações de atrocidades causam no cidadão comum. Afinal, todos sabemos o que o povo costuma fazer com personagens odiosos no sábado de Aleluia. E ninguém gosta de ver seu nome afixado em bonecos que são malhados e queimados pela multidão...

O XIS DA QUESTÃO

"Nós precisamos de um novo
modelo econômico que
ofereça esperança
às pessoas" 
(Ngaire Woods,
reitora da Escola de Governo Blavatnik,
da  Universidade de Oxford)
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