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segunda-feira, 25 de maio de 2026

ALÉM DE FABRICAR QUEIJO E CHOCOLATE, A SUÍÇA AGORA PRODUZ NEONAZISTAS

rui martins
A SUÍÇA QUER FECHAR AS PORTAS
Dia 14 de junho, o povo decidirá por voto secreto se a Suíça deve limitar sua população a 10 milhões de habitantes. 

Tal votação foi provocada pelo partido da extrema direita, UDC, com o objetivo de impedir a entrada de novos imigrantes na Suíça. A sondagem mais recente mostra uma pequena vantagem dos conservadores favoráveis a um limite da população.

A Suíça é um raro país governado pela democracia direta. Isso significa a possibilidade dos suíços proporem modificações nas leis do país nas esferas municipais, cantonais ou estaduais e federais. Não é fácil, mas diversas leis vigentes tiveram sua origem por iniciativa popular, aprovada pela maioria dos votantes em todos os cantões.

Desde sua criação em 1891, já houve mais de 200 iniciativas federais propondo modificações na Constituição suíça, das quais 26 foram aprovadas e entraram em vigor.  

A mais recente foi a criação e aprovação pelo povo, em 2024, de um décimo terceiro pagamento anual para os aposentados. Nisto o Brasil antecipou a Suíça em 61 anos, pois o décimo-terceiro salário brasileiro foi criado em 1962, incluindo também a aposentadoria em 1963, no governo João Goulart.

Existe hoje na Suíça uma preocupação com as consequências negativas, caso a iniciativa popular prevaleça, com o
Não a uma Suíça de 10 milhões sendo aprovado pelo povo.

Experiências parecidas, vividas por outros países, reforçam as más previsões econômicas para uma Suíça de fronteiras fechadas. Mesmo porque a dita cuja seria obrigada a romper compromissos e tratados com a União Europeia garantindo a livre circulação de pessoas.

O primeiro-ministro inglês Keir Starmer, após sua derrota eleitoral no mês passado, reconhecia os prejuízos da política isolacionista do Brexit e falava numa reaproximação com a União Europeia, embora evitasse tocar num retorno com anulação do brexit pelas complicações políticas e econômicas decorrentes.

Na verdade, o brexit foi um tiro no pé, mas a União Europeia não acredita num breturn depois da vitória, nas eleições municipais, do partido Reform UK, de Nigel Farage, o arquiteto do brexit, juntamente com Boris Johnson e David Cameron. 

Um swissexit, provocado por um voto popular suíço isolacionista, não teria o mesmo efeito negativo do referendo brexit?

Outro exemplo de contenção do aumento da população foi o da
política do filho único na China, de 1979 a 2015, com o objetivo de garantir o desenvolvimento chinês. 
Uma iniciativa popular pode jogar no lixo esta bandeira...

Isto acabou criando um desequilíbrio de gênero na China, pois a maioria dos casais, obrigados a ter um só filho, preferia ter menino.

A população foi se tornando idosa sem ser gradativamente substituída por jovens, isso que gerou uma diminuição da força de trabalho.

Desde 2021 os casais podem ter três filhos, mas agora são eles mesmos que decidem ter um ou dois filhos provocando baixa taxa de natalidade e um desequilíbrio demográfico.

Para complicar ainda mais a situação, a China enfrenta uma explosão de casos de demência (síndrome designativa de funções cognitivas que incluem o Alzheimer) na sua enorme população de idosos. 

Sem esquecer da falta de cuidadores dentro da família chinesa para zelar pelos avós e pais envelhecidos. A política do filho único criou para os jovens a responsabilidade de assumir, durante a vida, os cuidados dos quatro avós e dos dois pais.
...substituindo-a por esta. As cores se parecem

O cronista Yves Petignat, do jornal suíço Le Temps, destaca o paradoxo de que o partido UDC, autor da iniciativa popular, tem sua força justamente na Suíça rural, longe dos centros urbanos, onde a população está envelhecendo, existe desequilíbrio demográfico e a maioria dos jovens prefere ir viver nos .centros urbanos. 
(por Rui Martins)  

sábado, 5 de abril de 2025

O CAPITALISMO ENGOLE A SI MESMO

Qual a relação entre o preço dos ovos, as tarifas de Trump e a corrida armamentista da Europa? A relação é aquilo já descortinado por Marx no século XIX e que segue atual porque permanecemos essencialmente na mesma sociedade escrutinada por ele: a lei do valor. 

Obviamente, não se pode negar as diferenças entre o capitalismo do século XIX e o do século XXI, mas tais diferenças estão dadas na configuração fenomênica e nas complexificações sociais estabelecidas ao longo dos últimos 150 anos, pois, por exemplo, não havia internet, shopping centers ou aviões na época de Marx. Contudo, na raiz da sociedade, em seu fundamento, o capitalismo segue sendo uma forma econômica fundamentada na propriedade privada dos meios de produção, atravessada pelo drama antagônico entre produção social e acumulação privada, crescimento produtivo e decrescimento do valor, crescimento da riqueza e explosão da miséria. Em nossa época, os aviões, a internet e os shoppings centers seguem sendo propriedade da burguesia e isso faz o capitalismo seguir sendo o que é, uma sociedade alicerçada em oposições, urdida em antagonismos inconciliáveis cujas tensões se amenizam em períodos de expansão do capital e explodem em períodos contracionistas. Essa é a lei do valor, tão objetiva quanto a gravidade, embora originada não da natureza, mas da história humana. 

A lei do valor explica Trump, explica o alto custo de vida e a corrida armamentista. Não se tratam de loucura, ganância ou a natureza belicista do ser humano, mas da aguda crise do capital vivida em nossa época. Desde o fim da segunda guerra mundial, o capitalismo engatou ciclos de crescimento razoavelmente estáveis, quebrados por ciclos depressivos, mas medidas de reorganização econômica conseguiam trazer novo impulso à acumulação. Assim, o fim dos anos dourados (1945-1970), quando o capitalismo cresceu sob o cadáver de milhões de mortos da grande guerra e sob os escombros de sua titânica destruição, foi seguido pela reorganização neoliberal, com o afrouxamento de regras trabalhistas, perdas de direitos sociais, incentivo à integração internacional e aprofundamento da financeirização. Naquele momento, o importante era concretizar um novo arranjo no sistema produtivo mundial, caracterizado agora pelo princípio do just in time, com a a produção ajustada a uma demanda não mais espontânea, mas rigorosamente induzida por sofisticados mecanismos de propaganda. 

Thatcher ajudou a implementar o 
neoliberalismo, com mão de ferro.

A nova configuração produtiva do mundo alongou as cadeias de valor e redistribuiu a divisão internacional do trabalho. Uma mesma mercadoria passou a ter suas partes fabricadas em países diferentes, aproveitando as vantagens setoriais de cada um, sendo que o núcleo duro do setor fabril se mudou para as regiões da periferia capitalista, onde a mão de obra é mais barata e a democracia mais fraca. 

Organizações multilaterais, tratados de livre comércio, reduções de barreiras aduaneiras, tudo isso foi o mote desse período porque as cadeias de valor precisavam circular livre e rapidamente. Quando fosse preciso comprar um carregamento de chips na China e enviar para os EUA, esse processo deveria ser ligeiro, sob pena de paralisação da cadeia de valor, e, por isso, não poderia haver muitos entraves para a saída dos chips na China e sua introdução nos EUA: os chips teriam estar prontos para serem despachados, passar para o transporte e serem levados por mar, céus e terra até o consumidor final. Em cada etapa do processo, o chip mudaria de mãos, mobilizando inúmeras empresas e intermediários, necessitando que a engenharia fiscal fosse a mais simples possível, com baixas alíquotas de imposto e sem muita burocracia, pois do contrário se elevaria o preço final do produto e a pulverização produtiva se tornaria inviável. A liquidez nesse contexto é essencial para permitir pagamentos ágeis e por isso o sistema financeiro é tão primordial. 

No entanto, o capitalismo vive há anos uma condição estagnada, com crescimento baixo. Alguns acreditavam que o just in time anularia a crise de superprodução, ignorando estar essa crise não em estoques abarrotados, mas na lógica de sempre ampliar a produção para compensar a perda relativa de valor. Mercadorias mais baratas só podem significar mais mercadorias sendo colocadas à venda. A manipulação da demanda através de estratégias de propaganda, obsolescência programada e a indução ao consumo supérfluo não anulam a lei da perda tendencial de valor. Acelera-se o tempo de absorção das mercadorias pela sociedade para compensar a inexistência de depósitos e pátios lotados, mas a materialidade da superprodução pode ser claramente vista nas toneladas de lixo, esgoto e resíduos de toda espécie que se acumulam no planeta. Podem ser vistas também nas incessantes mudanças de postos de trabalho a que são forçados os trabalhadores, sempre em vista de atender a uma mudança no fluxo das cadeias produtivas do capitalismo. 

União Europeia é exemplo de integração
de mercados nacionais.

Tal como antes, a tendência da queda do lucro leva à crise, primeiro localizada, depois generalizada. A inflação é um sintoma dessa crise, pois ela aparece diante da falência e da quebra das cadeias de valor, reduzindo ofertas, encarecendo financiamentos ou emperrando a circulação de produtos. 

De acordo com o momento, a resposta do capital à crise pode variar. Na década de 1970, a resposta foi o aprofundamento da liberalização mundial da economia, o combate ao protecionismo e a flexibilização das barreiras. Agora, a resposta parece ser a oposta, o aprofundamento do protecionismo e o fortalecimento das barreiras, o que é chamado pelos teóricos liberais de desglobalização, termo equivocado, pois o capitalismo é em sua própria natureza um processo contínuo de globalização, pautado nos Estado-Nações. 

O Estado-Nação é o quartel-general dos burgueses. É para ele que se voltam quando a situação está crítica, pois possuem nele um mercado cativo, acesso à estrutura militar, jurídica e policial capaz de defender seus interesses e posses nos momentos mais dramáticos da crise do capital. É a partir dele também que podem levar adiante outro impulso expansionista. 

Brexit foi o primeiro grande evento de restauração
do nacionalismo.

Hoje o principal motor econômico é a indústria militar. Esse setor vem puxando a frágil reprodução do valor, impedindo uma derrocada generalizada. Não à toa, a guerra da Ucrânia e o massacre contra o povo palestino têm sido fundamentais para a venda de armamentos. A Europa também entrou no processo de ser rearmar para manter sua frágil economia com sinais de vida. Obviamente, um recrudescimento do militarismo só pode ser feito se criando o famoso inimigo externo, e por isso os líderes europeus transformaram Putin no demônio e a Rússia no monstro engolidor de mundos. 

Por isso, o cada vez mais fascistizado Macron foi recentemente à TV fazer discurso belicista, digno de Napoleão III, exortando os franceses a morrerem pela pátria. Puro e simples revival de 1914, quando os trabalhadores da Europa foram conclamados a morrerem nas trincheiras por seus Estado-Nações, ou seja, por suas burguesias. O roteiro parecia ter caído em desuso em 1945, mas após décadas de colapso das esquerdas e de hegemonia liberal, o discurso rançoso de se sacrificar pela pátria pode retornar com força. 

O nacionalismo retorna e com ele todos os seus elementos próprios: xenofobia e protecionismo. O ódio ao estrangeiro é irmão do ódio ao produto estrangeiro. As barreiras comerciais e alfandegárias são elevadas em prol da proteção ao mercado interno e defender a nação do estrangeiro, do inimigo externo, seja ele o chinês ou o russo, passa a ser prioridade. A mensagem da burguesia é clara: sacrifiquem-se em prol da pátria, primeiro pagando mais caro, depois nos campos de batalha. 

Com seu governo em frangalhos,
Macron quer que os franceses
morram pela pátria. 

É assim que Macron e Trump acabam por dar as mãos. Ambos levam a cabo o empreendimento ditado por suas burguesias em resposta à crise do capital. E outras lideranças seguem a prática ao redor do planeta, com maior ou menor tônica conclamam seus povos a se galvanizarem em torno da pátria, ou seja, em torno dos patrões. O mundo vai se despedaçando e se encaminhando para o possível desfecho trágico: a guerra mundial. Rosa Luxemburgo já colocava, a economia imperialista só pode levar à guerra imperialista. O confronto total é o momento de salvação do capitalismo porque é nele que pode ocorrer a queima maior e titânica de valor, em infraestrutura e vidas humanas, ao mesmo tempo que consegue puxar a indústria explorando o trabalho a salários irrisórios, forçando a venda de insumos a preços rebaixados e expropriando tudo o que for possível, até mesmo os capitalistas mais frágeis. Para se salvar, o capitalismo engole a si mesmo. Resta saber se o mundo sobreviverá a mais essa queima de capitais, pois agora a queima pode ser com combustível nuclear. 

Enquanto isso, a esquerda segue bestificada, entre o ilusionismo liberal de defesa da democracia e a miséria de do oportunismo. (por David Coelho)



 


quinta-feira, 7 de julho de 2022

BORIS JOHNSON É A PRIMEIRA GRANDE 'VÍTIMA' DA CRISE GERAL CAPITALISTA

A
renúncia de Boris Johnson do cargo de primeiro ministro britânico é um sinal do que poderá vir nos próximos meses e em outros países importantes do mundo capitalista. 

Oficialmente, sua queda se deve a sucessivos escândalos, dele mesmo e de aliados próximos. 

Contudo, na prática, a queda ocorre pela crescente deterioração das condições de vida no Reino Unido, a qual se soma à já antiga crise do Brexit. 

Na Inglaterra a situação é de tal gravidade que a revista The Economist lançou recente artigo alertando para os perigos da carestia para a estabilidade social e política. Ou seja, a burguesia britânica hoje se assusta com a existência da fome em suas terras e com as consequências da luta de classes que daí decorrerá.  

Mas não seria preciso ler a revista dos financistas ingleses para ter noção do tamanho da crise social no país da Rainha.

Não faz poucos dias aconteceu por lá a maior greve dos últimos 40 anos, responsável por imobilizar toda a rede metroviária da região de Londres. Outros setores da economia também encaminham-se para fortes paralisações.

Neste cenário, o Partido Conservador resolveu se adiantar para garantir sua sobrevivência, blindando-se diante da insatisfação popular. 

Assim, Johnson foi sacrificado para aplacar a fúria dos trabalhadores, colocando carne nova para ser sangrada no altar do capitalismo. 

O quanto a medida dará certo para o partido atualmente no poder vai depender do tamanho do buraco da futura crise. Dependendo da intensidade do abalo na reprodução capitalista, nem mesmo o sistema político britânico, já fraturado, poderá se salvar. 

A grande lição do momento é enxergar o quanto a crise capitalista presente não mais está circunscrita à periferia do sistema, mas atinge o próprio coração burguês. 

A guerra da Ucrânia e os preparativos para uma terceira guerra mundial são fortes sinais de que o próximo abalo não será meramente localizado, colocando-se definitivamente enquanto uma crise geral igual à de 1929, capaz de abrir passagem para uma situação revolucionária em nível planetário. (por David Emanuel Coelho)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DEPOIS DO VENDAVAL – 1: O MUNDO QUE EMERGIRÁ DA PANDEMIA

Por óbvio, analisar como ficará o mundo após o fim da pandemia possui um forte componente especulativo. 

De fato, falar sobre o futuro sempre entra no aspecto de previsão, realizável ou não. No entanto, aqui aplicarei a ideia da tendência, que se caracteriza pelas potencialidades do movimento concreto atual. 

Portanto, dissecarei possibilidades inscritas no cenário presente, particularmente na dinâmica econômica e geopolítica do mundo atual. 

Fosse possível resumir o processo mundial com a pandemia numa imagem, seria aceleração. A pandemia não veio modificar a dinâmica geoeconômica da nossa era, mas acelerar processos que já estavam em andamento. Então, o mundo pós-pandemia vai ser um mundo no qual os arranjos que vinham se desenhando até aqui terão ganhado contornos mais definitivos. 

O mundo antes da pandemia vivia o que gosto de chamar de dissolução do neoliberalismo. O que isto significa? Por mais paradoxal que pareça, não se trata da superação desta forma de acumulação capitalista, mas sim de sua conclusão lógica. 

O neoliberalismo já havia arruinado com as diversas instâncias de vínculos sociais, de representação política e de proteção social. Ou seja, houve um processo de descoletivização da sociedade, agravada pela profunda desindustrialização dos países europeus e americanos. 
"erguiam-se centenas de muros e barreiras à circulação das pessoas"
O resultado deste processo foi a atomização da sociedade: cada indivíduo passou a centrar-se apenas em si mesmo, interagindo com os demais apenas e tão somente por meio da troca de mercadorias, e, acima de tudo, da troca de dinheiro. 

O dinheiro assumiu a função de costura do tecido social. Não havendo mais sindicatos, associações, clubes, parlamentos ou mesmo entidades públicas para criar laços sociais – pois todas, ou foram extintas, ou se tornaram meras correias de transmissão dos interesses do capital – restou às pessoas a conexão por intermédio da troca de valores. 

No entanto, quando a primeira grande crise do regime neoliberal explodiu em 2008, o dinheiro escasseou. A diminuição da troca de dinheiro na sociedade equivaleu à descostura de um vestido. O tecido social começou a se dissolver e, como já não existiam entidades coletivas, a alternativa foi a escalada da guerra de todos contra todos. 
"o principal problema residiu na falta de organização e orientação revolucionária"
É neste contexto que devemos compreender as revoltas anticapitalistas ao longo do planeta nos últimos dez anos, bem como seus fracassos e a ascensão de governos de extrema-direita. 

Quanto ao fracasso, bastaria dizer por agora, de forma ligeira, que o principal problema residiu na falta de organização e orientação revolucionária. 

Ela é fruto não só da decadência dos movimentos revolucionários, mas também da perda de credibilidade das organizações de esquerda, a maioria capturadas pelo regime neoliberal e transformadas em meras administradoras da miséria. 

A ascensão da extrema-direita veio no rastro dos fracassos e foi galvanizada por uma tentativa reacionária de explicação da crise. Corretamente, os neofascistas acusaram a falência das antigas organizações políticas e coletivas e o abandono do povo por parte destas. A transformação de antigos revolucionários em ricaços ou sua decadência moral pela corrupção cumpriram importante papel na propaganda reacionária. 
Velhos clichês: a busca da salvação no passado místico
Mas, os neofascistas não teriam tido o êxito que tiveram se não tentassem, de alguma forma, reconstruir laços sociais para romper a atomização social. Neste aspecto, buscaram galvanizar a população em torno das ideias de Deus, pátria e família, buscando a salvação no passado místico. 

Alguns, mais audaciosos, tentaram reconstruir a glória econômica do passado, como é o caso de Trump e Johnson. 

E aqui entramos no reflorescimento do nacionalismo, ou, ao menos, do discurso xenófobo. Importante constatar que o regime neoliberal não impôs a atomização apenas dos indivíduos, mas também das nações. Pode parecer contraditório isto diante do fato de que a época neoliberal foi uma época de intensa globalização. Mas esta globalização foi a do dinheiro, não das pessoas. 

Para ver isto, basta lembrar a natureza essencialmente comercial de praticamente todos os tratados e acordos internacionais feitos ao longo das últimas décadas. Mesmo nas organizações vinculadas à ONU, que seriam espécies de estruturas sociais coletivas a nível mundial, as mais destacadas foram as de cunho financeiro: FMI e Banco Mundial. 

É sintomático que, enquanto se criavam múltiplas facilidades para a circulação de mercadorias e dinheiro, erguiam-se centenas de muros e barreiras à circulação das pessoas. Nunca na história humana houve tantos muros e cercas costeando fronteiras ao redor do planeta. E isto em plena globalização!
"grandes potências reiniciaram competição entre si"

Ou seja, a integração mundial emulava a integração entre os indivíduos: era apenas o tênue fio do dinheiro costurando um tecido geopolítico frágil. 

Quando veio a crise e o dinheiro escasseou, o efeito foi o mesmo: guerra de todos contra todos, mas, neste caso, o todos eram os países. 

Isto explica o fenômeno Trump e seu America first, assim como o brexit e outras ações de unilateralismo ao redor do mundo. As grandes potências reiniciaram uma competição entre si e os países menores ficaram na situação de ter de escolher em qual time jogar. 

Então, o quadro mundial antes da pandemia era de uma radicalização do unilateralismo, do fechamento de fronteiras e da competição desenfreada entre os países. A pandemia, na minha visão, apenas veio acelerar isto. 

Pois, com a pandemia ficou claro o absurdo de se ter apenas um país enquanto fábrica do mundo, no caso, a China. Além disto, a pandemia mostrou que o tão propalado mercado mundial era tão frágil quanto uma célula sendo atacada pelo coronavírus. 

Na hora H, as cadeias de abastecimento falharam ao redor do mundo e as produções ficaram paralisadas, sem condições de receber os insumos. Isto se mostrou ainda mais dramático no caso da produção de insumos hospitalares. 

O me first tornou-se a tônica, com países roubando suprimentos de outros nos conveses dos portos e nas pistas de decolagem.
"com países roubando suprimentos dos outros"
Ficou patente que a solidariedade, mesmo forçada pelo dinheiro, não existe nesta suposta comunhão global. Até mesmo a União Europeia revelou seu caráter atomizado com a Alemanha recusando-se a ajudar países-membros necessitados. 

Diante disso, o que avento para o mundo pós-pandemia? Um mundo ainda mais atomizado e com países ainda mais fechados. 

Antigas barreiras já existentes, agora serão erguidas ou reforçadas com justificativas sanitárias. Os países se tornarão amplamente desconfiados uns dos outros e antigas organizações de cooperação – creio até que mesmo a OMS – serão colocados em questão. 

As grandes potências vão começar uma corrida pela reindustrialização, ao menos de insumos fundamentais. As cadeias globais de abastecimento ficarão desacreditadas e voltará a ter impulso a ideia de fazer estoques e criar cadeias locais de produção. O just in deverá perder força. 

A China certamente sairá da crise como superpotência e líder mundial, mas deverá tomar decisões rumo a uma economia ainda mais nacionalizada, pois as multinacionais instaladas em seu território sofrerão forte pressão das sedes para desinvestir no país. 

Meu prenúncio, portanto, será de um mundo ainda mais conflituoso, com o capitalismo retrocedendo ainda mais para suas bases nacionais. As burguesias refluirão para dentro de seus países de origem, em busca de proteção e estímulo dos Estados nacionais. 

Será, portanto, um período tenso, de menor cooperação internacional e mais competição. 

E o Brasil nisto? Bom, este será assunto para o próximo capítulo desta série. (por David Emanuel de Souza Coelho) 
(continua neste post)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

BREXIT: A MONTANHA PARIU UM RATO.

david emanuel coelho
O SENTIDO DO BREXIT
Consumou-se na última 6ª feira (31)  a retirada do Reino Unido da União Europeia. Conturbada saída, que paralisou o país durante três anos e derrubou dois governos. No final, os britânicos, já cansados do dramalhão, resolveram dar amplos poderes ao palhaço Boris e permitiram a conclusão do processo, antes obstacularizado por impasses parlamentares. 

Mas, qual o sentido do Brexit? Uma questão difícil, cuja resposta demanda uma análise muito mais longa e profunda que a destas linhas. No entanto, é possível perfeitamente fazer um delineamento sobre o porquê da saída do Reino Unido. 

Em primeiro lugar, é bom frisarmos que a União Europeia de modo algum é uma instituição progressista ou humanista. Não é uma internacional, onde países cooperam entre si para o melhor aprimoramento de seus povos.

O que não significa, certamente, não ter ela seus méritos, dos quais o principal é trazer estabilidade política e militar a um continente varado por guerras seculares, duas de níveis de destruição apocalípticas. 

Que França e Alemanha cooperem entre si e resolvam seus problemas pela via do parlamento europeu é muito mais saudável do que se dilacerarem em confrontos bélicos. 

Mas, não podemos esquecer o que a UE é: um conglomerado comercial, antes de tudo. E não um conglomerado qualquer, mas um conglomerado essencialmente franco-alemão. 

Sim, o projeto europeu é um projeto do eixo Paris-Berlim, as duas maiores economias continentais, e que galvanizam em torno de si forças medianas (Itália, Espanha, Suécia, etc.) e anões (Portugal, Grécia, Polônia, etc.). 

A essência do projeto europeu é fazer frente ao imperialismo estadunidense e russo (soviético, na época da guerra fria).

Quando a 2ª Guerra Mundial terminou, os países europeus se depararam com a terrível verdade de que sua época de glória havia chegado completamente ao fim. Duas guerras altamente destrutivas e o posterior desmantelamento do sistema colonial haviam solapado o poderio econômico, militar e político da Europa. O continente  estava agora dividido entre as duas superpotências vitoriosas nos campos de batalha: EUA e União Soviética. 

Diante deste quadro, os europeus rapidamente chegaram à conclusão de que era hora de, esquecendo antigas rixas, se unirem para fazer frente às duas potências que ensanduichavam o continente. Foi quando surgiu a primeira Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, rapidamente transformada em Comunidade Comum Europeia, embrião da futura União Europeia. 
O Reino Unido não participou do início do processo. Na verdade, com seu milenar isolacionismo, o Reino Unido sempre viu os países continentais enquanto competidores, e não parceiros. 

No entanto, a coisa estava feia em fins da década de 60. A desintegração do Império Britânico, com a independência da Índia e da África do Sul, além da perda de colônias no Oriente Médio e na África, levaram a economia britânica à beira da falência. O país vivia uma autêntica derrocada e via apenas uma chance de dar a volta por cima: entrar na Comunidade Europeia. 

Fez pelo menos três tentativas neste sentido, sendo repelida duas vezes. Tendo afinal conseguido, pôde salvar sua economia com o acesso a um mercado de milhões de pessoas e, mais ainda, às matérias-primas a preços razoáveis que vinham do centro da Europa. 

O Reino Unido, contudo, nunca escondeu que tinha agenda própria em sua participação no bloco europeu. Jamais aceitou muito bem a evolução do bloco de econômico para político e, menos ainda, viu com bons olhos a criação da moeda comum. No fim, ficou como se fosse um apêndice à União Europeia, com um pé dentro e outro fora. 

O motivo para isto é muito simples: os britânicos sempre souberam e levaram em conta que o projeto europeu era essencialmente franco-alemão. Se entraram, foi por necessidade vital, mas jamais aceitaram virar uma colônia de Paris e de Berlim.

Com o decorrer do tempo, a integração cada vez maior dos países do bloco colocou um dilema fundamental para Londres: ou entraria por completo ou sairia de vez. A resposta já sabemos. 

No fim, os laivos imperialistas da elite britânica falaram mais alto e foram determinantes. 

O Brexit não foi, portanto, um divórcio inesperado, estando mais para o fim de um casamento por conveniência, no qual o amor nunca esteve presente de fato. 

Isto quanto à burguesia britânica. E as pessoas comuns? Por que apoiaram?

A falta de engajamento das elites com o projeto europeu certamente teve um papel nisto, fazendo a população média não se enxergar enquanto europeia. Este é um fator importante, mas não o decisivo. 

O decisivo tem a ver com algo semelhante ao que passava o Reino Unido em fins da década de 60, com a diferença de que agora o sofrimento é quase exclusivo às faixas populares. 

Em 1960, a indústria britânica afundava e a burguesia do país via seu futuro sob ameaça. Hoje, já não existem mais indústrias na Ilha, foram todas para a China e a burguesia insular não teme mais o futuro, pois abarrotada de dinheiro, o qual deixa guardado em paraísos fiscais, enquanto curte a vida em algum castelo da Suíça ou numa ilha tropical do Pacífico. 

Para esta burguesia, o problema hoje é outro: as regulações bancárias, trabalhistas e ambientais da UE, que dificultavam seus negócios. Daí ela ela ter amplamente se posicionado pró-Brexit. 

O povo, por sua vez, sofre com a queda de sua qualidade de vida, a destruição dos serviços públicos e o fim de seus empregos. Ao mesmo tempo, vê Bruxelas focando apenas em salvar o sistema financeiro e garantir que os já bilionários continuem assim ou fiquem-no ainda mais. 

Este povo não acredita no projeto europeu porque o projeto europeu não se importa com ele. Nisto, os britânicos não estão sozinhos, compartilhando o mesmo sentimento anti-europeu de gregos, franceses, italianos, espanhóis, belgas, etc. 

Para a classe trabalhadora britânica, o Brexit simbolizou um grito de protesto contra o regime neoliberal, um grito impotente e manipulado, mas não menos sincero. 

Assim como milhões viram em Trump e Bolsonaro a solução para consertar uma sociedade falida, milhões de britânicos viram no Brexit a solução para consertar um sistema que não funciona mais para eles. 

O sentido profundo do Brexit, portanto, é um clamor popular em prol da sua emancipação. Um grito de rebeldia contra um sistema desumano. 

Paradoxalmente, no entanto, o que lhes foi martelado dia e noite como salvação será apenas mais uma etapa de sua trajetória para o fundo do abismo. (por David Emanuel de Souza Coelho)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

ECONOMICÍDIO VAI ACELERAR DECADÊNCIA BRITÂNICA. MAS NÃO ZOMBEMOS, POIS NÓS TAMBÉM SUCUMBIMOS À IRRACIONALIDADE

dalton rosado
ESTADOS NACIONAIS, CAPITALISMO E
AS SUAS RELAÇÕES COM O BREXIT
"A União Europeia não modera a influência britânica – ela a amplifica. Uma Europa forte não é uma ameaça à
liderança global britânica – ela a eleva"
(Barack Obama)
Os estados acionais modernos são fruto da consolidação histórica do capitalismo.

As suas falências e constituição em blocos são, portanto,  frutos da sua contradição implícita e de sua decadência; e se constituem em embrião e prenúncio da necessidade de uma nova ordem transnacional, sob novos critérios de produção e consumo.

Assim, o Brexit vai na contramão da história. 

A ruptura com o feudalismo para implantação do capitalismo e seus mecanismos jurídico-constitucionais de controle é a razão pela qual houve confronto com a forma governamental de então em razão do conteúdo das relações sociais em mutação, cujo início data do século 16.

As dissenções atuais obedecem ao mesmo critério de base: as dores do parto de uma necessária superação de uma relação social, motivada pela falência de uma ordem econômica que se tornou obsoleta.  

O absolutismo feudal monárquico-eclesiástico ocidental, baseado no modo de produção escravista direto (servos europeus, negros africanos, etc.) perdia força política diante das relações burguesas (escravização indireta pelo trabalho abstrato) em ascensão, que clamavam por uma nova ordem jurídico-constitucional adequada às relações mercantis em curso.
Exterminadores do futuro: Boris Johnson, o Bozo de lá...

O processo de superação da velha ordem e a entronização dos estados nacionais burgueses (a república dita iluminista), nos últimos 500 anos, enfrentou obstáculos erguidos por reis e imperadores, pelos senhores feudais e pela igreja católica, até sua consolidação definitiva como democracia burguesa – tutelada pela vigilante força militar, sempre pronta para intervir quando necessário.

É sempre assim: o modo de produção social é o que determina o caráter político-jurídico da ordem estabelecida. 

Vivemos agora, no início do século 21, um processo de mutação das relações sociais: o trabalho abstrato, base de sustentação do capitalismo já que é fonte de produção do valor (categoria capitalista que, tal qual o sangue em nossos corpos, irriga todo o organismo social, estatal e mercantil), decresce e ameaça colapsar em razão das próprias contradições das relações mercantis.

Ao criar novos nichos de trabalho abstrato, o capital está cada vez mais reduzindo a proporção do dito cujo nas mercadorias produzidas (com a consequente redução do valor global do trabalho abstrato); ou seja, vai matando a galinha dos ovos de ouro.

A criação de blocos econômicos estatais tem sido uma tendência do capitalismo como forma de sobrevivência e criação hegemônica de domínio econômico sobre regiões mundo afora que detêm níveis de produtividade menores de mercadorias e de acesso às sofisticadas tecnologias de produção patrocinadas pela microeletrônica e pesquisas científicas; e, ao mesmo tempo, para servir como estímulo interno ao consumo e consequente produção de mercadorias.
...e Bolsonaro, o Boris Johnson daqui.

Também os traumas da primeira e segunda guerras mundiais contribuíram no velho mundo para a criação desses blocos (caso da União Europeia) como fonte de inibição de tentativas de dominações nacionalistas de um tirano qualquer, sequioso por impor poder hegemônico capitalista de um país sobre os demais mediante agressões bélicas. 

Mas, como tudo no capitalismo é contraditório e irresolúvel no longo prazo por força dos seus pressupostos idiossincrásicos e irracionais, eis que as fissuras dentro desses blocos não tardaram a aparecer.

As divergências se prendem a fatores econômicos, pois são estes que regem o comportamento político estatal, e não o contrário. 

Diante da crescente perda de poder aquisitivo mundial, não poupando nem mesmo os ricos de outrora, observa-se uma onda de insatisfação social, sem que a população saiba exatamente a origem dos seus infortúnios.

De tal insatisfação popular resulta n movimento pendular eleitoral entre partidos de direita, de ultradireita, de centro, de centro-esquerda, e de esquerda, que mais não passam de posições econômicas político-geo-referenciadas que lhes servem de norte (e isto dentro de um mesmo movimento pendular, no qual todos se mexem e nenhum sai do mesmo lugar). 

Enquanto os blocos econômicos se esfacelam diante da insatisfação popular, com oportunistas demagogos sempre surfando nessa onda como pretensos salvadores da pátria, a saída para os povos da periferia do capitalismo não têm sido os aeroportos (de vez que lhes faltam dinheiro e passaportes regularizados para uma imigração segura). 
O cenário para o qual o neoliberalismo nos conduz

Restam-lhes os barcos precários para cruzar os mares (caso dos africanos) ou a travessia pelos subterrâneos das fronteiras terrestres vigiadas (centro-americanos e sul-americanos), para citar os exemplos mais emblemáticos.

Os estados nacionais da periferia do capitalismo estão em permanente ebulição política e com tendência de controle pela força militar aliada a poderes civis (ou ela mesma colocando a faixa presidencial sobre uma farda qualquer).

Por seu turno os Estados capitalistas dominantes sofrem como a migração das suas empresas em busca de mão-de-obra barata. 

A Venezuela não é diferente da Bolívia; o Egito não é diferente da Líbia; a Coreia do Norte não é diferente da Arábia Saudita; o Zimbabue não é diferente da Angola; o Irã não é diferente do Iraque; a Inglaterra não é diferente da França; os Estados Unidos não são diferentes da China; o Vietnã do Norte não é diferente de Cuba, e por aí vai. 

Seja sob o tacão militar ou sob o tacão do voto (caso do Chile), a base que orienta o poder político é a mesma: a relação social baseada na produção de mercadorias.

Como dizia Che Guevara “a mercadoria é o núcleo econômico do sistema capitalista e, enquanto ela existir, seus efeitos se farão sentir na organização da produção e, consequentemente, na consciência”. 
     
O Reino Unido, que já não usava a mesma moeda da União Europeia, consuma agora uma ruptura maior. Ela não passa, contudo, de um bravata inconsequente, decidida por uma população nacional insatisfeita com seu declínio econômico e saudosa dos tempos nos quais se dizia que no império britânico o sol nunca se põe... 

Permanecer na UE, do ponto de vista econômico, traria mais vantagens para o Reino Unido do que a sua saída. Os conservadores, que mesmerizaram os britânicos com seus cantos de sereia, logo, logo os verão cobrarem as vantagens prometidas.

Mas, claro, vão ser contraditados pela cruel realidade capitalista em processo de depressão globalizada. 

Qualquer semelhança nacionalista-liberal britânica (guardadas as proporções de poder econômico) com as diretrizes e conceitos do governo brasileiro atual não é mera coincidência, mas opção ideológica irracionalmente consciente. (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

BREXIT: OS BRITÂNICOS ESTÃO REDUZIDOS A GATINHOS E COMETEM ECONOMICÍDIO PARA TENTAREM CRER QUE CONTINUAM LEÕES

hélio schwartsman
ILUSÃO DE CONTROLE
Às 23h desta 6ª feira (31), o Reino Unido se separa oficialmente da União Europeia, pondo fim a uma novela que se estendeu por mais de três anos.

No plano econômico, o divórcio é um tiro no pé. Os britânicos estão abrindo mão de acesso privilegiado a um mercado de mais de 500 milhões de pessoas e criando ex nihilo sérias dificuldades para suas empresas. 

A aventura custará ao Reino Unido entre dois e oito pontos do PIB até 2034, segundo estimativa do próprio governo.

Se é tão ruim assim, por que os britânicos decidiram sair? Europeístas até podiam afirmar que os eleitores foram enganados no plebiscito de 2016, no qual a campanha pelo brexit abusou das fake news. 

Mas não vejo como insistir neste argumento após a vitória de Boris Johnson em dezembro. O brexit foi o tema dominante na eleição, que teve lugar após anos de debates. A matéria estava madura para ir a voto.

Minha hipótese para explicar o fenômeno é o desejo de controle. Seres humanos somos obcecados por nos sentir no controle. 
Há um experimento bem maluco da psicologia em que voluntários são colocados diante de luzes que piscam num padrão aleatório e instruídos a apertar um botão, que não faz rigorosamente nada —embora as cobaias não saibam disso. Em pouco tempo, a maioria jura que controla as luzes.

Esse viés, creio, alimenta a narrativa de que, com o brexit, os britânicos decidirão seu futuro sem a interferência de estrangeiros e voltarão a ter domínio sobre suas fronteiras. 

É pura ilusão, porque o eleitor só tem controle de fato sobre o seu próprio voto, cujo peso é irrisório em qualquer pleito maior que o para síndico de prédio. Sob essa perspectiva, não faz tanta diferença se as políticas são definidas em Londres ou em Bruxelas.

Curiosamente, essa ilusão de controle é um dos elementos de legitimação da democracia, ao criar a sensação de que cada voto conta.
(por Hélio Schwartsman)
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