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domingo, 4 de dezembro de 2022

AS CARETAS DO PALHAÇO SINISTRO NÃO ASSUSTAM MAIS NINGUÉM

josias de souza
MÁGICO? BOLSONARO TIRA GAMBÁS DA CARTOLA E EXIBE O SHOW DE AUTOENCOLHIMENTO
Acreditar que a Terra é plana, que as urnas foram fraudadas e que Lula não subirá a rampa é um direito de cada um. 

Noutros tempos, a Inquisição romana queimava os que aceitavam as ideias de Copérnico, para quem a Terra girava em torno do Sol. E Bolsonaro ainda não aceitou nem Darwin, que dirá as urnas.

 Mas o final de semana ganharia novo sentido se os golpistas se entregassem a um passatempo. A coisa começa com uma pergunta singela: "E se...?" 

E se Bolsonaro tivesse vencido as eleições, como estariam as coisas? E se o Lula acusasse o TSE de fraude antes de se trancar numa cobertura em São Bernardo? E se o petismo deflagrasse nas redes sociais uma cruzada pela virada de mesa? E se os comunistas trancassem rodovias e cercassem os quarteis para pedir a deposição do "patriota"? 

Mal comparando, o bolsonarismo injeta na receita do seu pudim métodos que fizeram do antipetismo a força política que empurrou Bolsonaro para o Planalto em 2018. 

Lula jamais questionou o resultado das eleições que perdeu. Condenado, submeteu-se às determinações judiciais. Mas nunca hesitou em atiçar seus radicais para botar medo em adversários. Essa tática perdeu o prazo de validade em 2015, quando a classe média desceu ao asfalto para pedir a deposição de Dilma. 

Lula defendeu a permanência de sua pupila no Planalto com a língua em riste. Disse ser um defensor da paz e da democracia. Mas acrescentou: "Também sabemos brigar, sobretudo quando o Stedile colocar o exército dele nas ruas"

Vagner Freitas, então presidente da CUT, fez eco: "Se esse golpe passar, não haverá mais paz no país"

Aprovado o impeachment, Dilma chamou o caminhão de mudança. Em paz.
Quando foi condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula afirmou que não tinha "razão para respeitaro veredicto. Teve que respeitar. Cancelou viagem que faria à Etiópia. Entregou o passaporte às autoridades.

João Pedro Stedile, o hierarca do MST, soou ameaçador: "Aqui vai o recado para a dona Polícia Federal e para a Justiça: não pensem que vocês mandam no país. Nós, dos movimentos populares, não aceitaremos de forma nenhuma que o nosso companheiro Lula seja preso"

Em São Paulo, brasileiros sem teto bloquearam com pneus incendiados a via Dutra e a marginal Pinheiros. Com a autoridade de presidente do PT, Gleisi Hoffmann, riscava o fósforo: "Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente. Mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar"

Quando teve a prisão decretada, com o aval do Supremo Tribunal Federal, Lula refugiou-se no bunker do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Antes de se entregar à Polícia Federal, fez um comício. 

Disse à multidão: "Eles têm que saber que vocês são até mais inteligentes do que eu. E poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer ocupações no campo e na cidade..." A revolta social revelou-se uma ficção. 

Retorne-se, por oportuno, às interrogações do passatempo de domingo. E se Bolsonaro tivesse vencido as eleições? Bem, nessa hipótese, o capitão consolidaria seu projeto de transformar o Brasil numa autocracia mequetrefe.

E se o petismo se insurgisse contra o resultado? Bolsonaro cobraria do desafeto Xandão a reafirmação da segurança do sistema eleitoral que sempre questionou. 

E se a turma da CUT, do MST e do MTST trancasse rodovias e acampasse nas imediações de prédios militares? Bolsonaro não hesitaria em acionar as forças de segurança, inclusive as próprias Forças Armadas, se necessário. 

Nos últimos quatro anos, nenhum outro empreendimento prosperou tanto no Brasil quanto na fábrica de crises que Bolsonaro instalou no Planalto. 

Exilado no interior de sua mediocridade desde que foi derrotado, o pior presidente da história revela-se incapaz de desfazer suas crises. Pior: imagina que pode resolver uma crise criando outras. 

Bolsonaro revelou-se presidente mágico. Especializou-se em retirar gambás de dentro da cartola. Reduz sua própria estatura na frente das crianças. 

Trancado no Alvorada, prepara um grand finale. Ensaia o sumiço da cerimônia de posse. Tornou-se uma diminuta criatura.

O hipotético prestígio que lhe foi conferido pelos 58 milhões de votos amealhados no 2º turno logo caberá numa caixa de fósforos. 
(por Josias de Souza)

quarta-feira, 11 de março de 2020

DE HORA EM HORA A SITUAÇÃO DO BOZO PIORA E MAIS GENTE O QUER VER FORA

igor gielow
TÁTICA KAMIKAZE DE BOLSONARO PODE DEIXAR PRESIDENTE SOZINHO NO PALCO
Num espaço de dez dias, dois governadores de estado importantes disseram a interlocutores não acreditar que o presidente Jair Bolsonaro chegue ao final do mandato —quiçá ao fim deste ano.

Nenhum deles morre de amor pelo inquilino do Planalto, mas são aderentes de leituras usualmente sóbrias da realidade política. Têm ojeriza a processos de impeachment, que de resto não veem como opção agora. Deixam o quanto pior, melhor para seus colegas à esquerda.

Isso não quer dizer que não façam avaliações. Os motivos apresentados pelos governantes foram diversos, mas convergem para a ideia de que a governabilidade ora precária está se tornando inexistente.

Bolsonaro, como se sabe, está em conflito com o Congresso e dobrou a aposta no radicalismo de sua base mais aguerrida. Explicitou o apoio que antes negara ao protesto de domingo (15), fazendo um hedge ao dizer que ele também deveria ser um dos cobrados.

Não enganou ninguém. A manifestação democrática a que se refere, da voz do povo como dizem seus apoiadores, tem como itens centrais o palavrão dito pelo general Augusto Heleno, a crítica ao Congresso e mesuras como o fechamento de instituições.

Claro que direito de ir à rua é livre. Cabe lembrar que os protestos que ajudaram a derrubar Dilma Rousseff no biênio 2015-16 também incluíam em suas franjas toda sorte de boitatás que hoje proliferaram e viraram majoritários numa certa direita brasileira: defensores de intervenção militar, gente que celebra a suspeita de coronavírus se a vítima for alguém de quem não gosta, por aí vai.
Mas o centro das manifestações, concorde-se ou não com elas, nunca esteve nesse pessoal. Havia um caldo de insatisfação antipolítica brotado em 2013 associado à hecatombe econômica dilmista.

Já o ato insuflado pelo presidente orbita a acusação de um Poder contra outros. Isso para não falar nas bolas extras ofertadas pelo presidente, como a bizarra acusação de fraude sobre o Tribunal Superior Eleitoral. Ponto.

Que Bolsonaro levará gente à rua, há poucas dúvidas, ele ainda tem um naco respeitável do eleitorado. Será uma estrondosa demonstração de apoio popular à agenda do presidente contra a malvada classe política?

Parece improvável, a começar pelo fato de que ninguém sabe de que agenda se trata, fora os delírios e os retrocessos. O engasgo econômico atinge diretamente a classe média que costuma ir a essas manifestações. Já as reformas, bem, nessas nem mesmo os antes empolgados operadores da Faria Lima têm colocado muita fé.

Tanto é assim que os alvos potenciais estão quietos, apostando em que a coisa se esvaia de forma natural. A ver.

Segundo essa leitura, novamente o presidente emula seu antípoda, Lula. O petista passou anos ameaçando o uso do exército do Stédile, para ficar na massa de manobra miserável do campo, para impressionar elites, políticos e os militares ora sequestrados pelo bolsonarismo. Era nada, vento.

O que o presidente faz é assoprar a brasa antiestablishment que tão bem operou em 2018.

A questão é a percepção de que isso já não é suficiente ante a incapacidade do governo de encarar de forma adulta o desafio de lidar com nossos problemas enquanto o mundo desaba sob as brumas apocalípticas do coronavírus, da guerra do petróleo e todo o mais.

O bolsonarismo mais ideológico, com o perdão às ideologias, sempre gostou desse tom de Götterdämmerung inevitável, de embates épicos comandados por seu líder, da mística do sangue derramado em Juiz de Fora.

Muitos políticos ainda creem ser possível uma reversão parcial do quadro, justamente por compartilhar com os governadores supracitados a falta de ânimo com uma ruptura maior. É uma abordagem prudente. 

Mas se insistir na rota atual, Bolsonaro poderá cumprir a previsão dos chefes estaduais e acabar sozinho no palco, num teatro esvaziado. (por Igor Gielow)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

UNS LATEM, MAS NÃO MORDEM. OUTROS SÃO TÃO TOSCOS QUE PODEM ESTAR LEVANDO SEUS DELÍRIOS A SÉRIO

marcelo coelho
TORTURADORES REAIS E CHAVISTAS DE FICÇÃO
Gleisi, cadê a gente que morreria se fossem prender o Lula?
Qual a diferença entre uma ameaça e uma bravata? É que numa bravata ninguém acredita —nem mesmo aquele que a profere.

Lula e o PT ostentam um longo histórico de bravatas. Em 2015, o ex-presidente falou em convocar o exército do Stédile para lutar contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Depois de sua prisão, surgiram faixas e camisetas dizendo que eleição sem Lula é fraude.

Em sua coluna de 2ª feira (24), Vinicius Mota destaca (vide aqui) pontos de um documento petista, publicado após o impeachment. Bela autocrítica, ironiza ele, com razão.

Para a cúpula do PT, o partido falhou ao não impedir a sabotagem conservadora da Polícia Federal e ao não alterar os currículos das academias militares. O documento citado por Vinicius Mota também lembra que o Executivo, na era Dilma, distribuiu verbas demais aos monopólios da comunicação.

Mais grave foi a frase da senadora Gleisi Hoffmann, que diante da possibilidade de uma prisão de Lula chegou a dizer que ia ter de matar gente.

Um momento. Gleisi Hoffmann disse que ia matar gente?
Exército do Stedile em marcha

É o que li num artigo de Fernando Schüler, O paradoxo da democracia brasileira, publicado na Folha de 5ª feira passada (20).

Mas a citação estava errada. A frase de Gleisi era: Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar.

Foi uma irresponsabilidade. Ela imaginou que algumas pessoas arriscariam a vida em defesa de Lula, mas ao mesmo tempo não se ofereceu para tal sacrifício; entregava a missão, quem sabe, para o exército de Stédile.

Mas é muito diferente dizer que matarão pessoas para prender Lula e dizer que iremos matar gente para não prender Lula.

A distorção operada por Fernando Schüler em seu artigo é significativa. Reflete o esforço generalizado de neutralizar a fraseologia de Bolsonaro e do general Mourão, insistindo na ideia de que o PT é tão radical e antidemocrático quanto a chapa do PSL.

Retomo as autocríticas petistas citadas por Vinicius Mota. Não é certo querer influenciar nas atividades da Polícia Federal. É errado distribuir verbas publicitárias segundo critérios políticos.

Só que, evidentemente, ações desse tipo não configurariam uma ruptura da ordem constitucional. Outros governos democráticos não tiveram escrúpulos em nomear procuradores-gerais da República bem mais camaradas do que Rodrigo Janot.

Quanto a propor uma mudança nos currículos das academias militares, acho que isso seria uma ótima ideia. No mundo das Forças Armadas, nem mesmo a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, foi absorvida —que dizer da Comissão da Verdade.
Alguém tão infantilizado a ponto de gostar disto não percebe nem que é só encenação barata...
Passemos ao exército de Stédile. Uma bravata, como muitas. Péssima, aliás, porque admite que o líder do MST possui nada mais que uma massa de manobra. Bravata, porque Lula sabia perfeitamente que protestos do MST não seriam capazes de enfrentar uma tropa de choque.
Os fatos: chamando ou não de golpe o impeachment de Dilma (pessoalmente acho que foi 80% um golpe), o PT o engoliu. Com protestos e delongas, Lula se entregou à Polícia Federal. Com toda a fraseologia de que sem Lula a eleição é fraude, Haddad disputa a Presidência e sabe que, se perder, perdeu.

Não que eles sejam bonzinhos. Simplesmente faltou força para barrar o impeachment e para intimidar a Justiça no caso Lula.

No seu auge, Lula não enveredou pelo chavismo. Por que Haddad faria isso agora? É pura ficção.
...e tende a reagir mal quando seus castelos no ar desabarem.

Serão igualmente bravatas as frases de Bolsonaro? Quando ele põe em dúvida a urna eletrônica, fico preocupado, mas não muito —Brizola dizia a mesma coisa. Quando ele fala em metralhar a petralhada, não acredito que fará isso assim que eleito.

O problema é saber se ele acredita no que está dizendo, e, mais ainda, se seus apoiadores mais extremados estarão dispostos a isso. Ainda mais depois de eleitos.

Se ele decidir fechar o Congresso, convocar uma Constituinte ao estilo Mourão, quem terá forças para defender as instituições?

Bolsonaro diz que o movimento de 1964 não foi um golpe, elogia como heróis os torturadores da ditadura, cogitou aumentar o número de membros do STF. 

Por este último motivo, aliás, Janaina Paschoal achou melhor não entrar na chapa do capitão reformado. Janaína, pelo menos, não considerou bravata —e me arrisco a dizer que ela entende disso. (por Marcelo Coelho)

domingo, 22 de julho de 2018

UM TERÇO DO ELEITORADO TEM OJERIZA POR BOLSONARO. VEJA ALGUNS MOTIVOS

josias de souza
BOLSONARO É FENÔMENO
COM CALCANHARES DE VIDRO
Frases de outrora que tirarão votos agora: 1) pregações genocidas...
O que é um fenômeno? Um deputado de ultradireita não é um fenômeno. O endeusamento de Donald Trump não é um fenômeno. Pesquisa eleitoral não é um fenômeno. Fenômerno é um apologista de Trump liderar as pesquisas presidenciais no Brasil recitando teses de ultradireita. 

Com a aclamação de sua candidatura pelo raquítico PSL, neste domingo (22), Jair Bolsonaro consolida-se como grande surpresa da temporada eleitoral de 2018. Mas o fenômeno, indica o Datafolha, tem calcanhares de vidro que dificultam sua caminhada até o Palácio do Planalto.

Com Lula fora da raia, Bolsonaro lidera o páreo presidencial com 19%, informa a sondagem mais recente do Datafolha, divulgada em junho. Entretanto, um terço do eleitorado desenvolveu uma ojeriza pelo fenômeno —32% dos entrevistados disseram que jamais votariam no capitão. Bolsonaro tem dificuldades para crescer. Mais: nas projeções de 2º turno, sua liderança derrete.
...2) justificação insolente do nepotismo... 
Se não estivesse inelegível, Lula (49%) surraria Bolsonaro (32%) num hipotético segundo round. Marina Silva (42%) colocaria dez pontos de vantagem sobre o fenômeno (32%). Ciro Gomes (36%) subiria ao ringue estatisticamente empatado com a novidade (34%). Até Geraldo Alckmin (33%) emparelharia suas luvas com as de Bolsonaro (33%), num empate matemático.

Numa eleição imprevisível, em que 33% dos eleitores chegam à beira da urna sem ter escolhido um candidato, tudo pode acontecer. Mas a liderança de Bolsonaro tem, por ora, a solidez de um pote de gelatina. Sem alianças, o candidato terá algo como sete segundos para vender o seu peixe no horário eleitoral. Mal dá para pronunciar o nome.

Bolsonaro alardeia que vencerá a eleição no primeiro turno, fazendo suas barricadas na internet. Em política, impossível não é senão uma palavra que contém o possível.  Mas Valdemar Costa Neto, um PhD em poder, preferiu tomar distância. 
...3) preconceito contra as mulheres...

Ao farejar o risco de Bolsonaro dar com os burros n’água, o dono do PR decidiu apostar num burro mais seco. Entregou o tempo de propaganda do seu partido para o tucano Geraldo Alckmin, estimulando as outras legendas do centrão a fazer o mesmo.

O fenômeno arrancou a extrema-direita do esconderijo entoando raciocínios que transformaram o candidato numa espécie de porta-voz do desalento. Bolsonaro captou no ar o sentimento do armário. Há quatro meses, ao filiar-se ao PSL, declarou que seu modelo é Donald Trump, “um exemplo para nós seguirmos.” 

Na área da segurança pública, sua prioridade é liberar as armas, aproximando o Brasil dos Estados Unidos, país onde estudantes adolescentes matam colegas de classe com armas compradas na loja da esquina. Apoiado pela Bancada da Bala, Bolsonaro deseja vitaminar o grupo no Congresso. “Quem sabe teremos aqui a bancada da metralhadora”, vaticionou. “Violência se combate com energia e, se necessário, com mais violência”.

No rol de inimigos de Bolsonaro, marginais e vagabundos dividem espaço com os homossexuais. “Um pai prefere chegar em casa e ver o filho com o braço quebrado no futebol, e não brincando de boneca”, declarou. “Casamento é entre homem e mulher. E ponto final”. 

No final do ano passado, Bolsonaro classificou a turma do MST de terrorista. Propôs um tratamento implacável: ''A propriedade privada é sagrada. Temos que tipificar como terroristas as ações desses marginais. Invadiu? É chumbo!'' Chegou mesmo a defender o uso de lança-chamas contra os liderados de João Pedro Stédile.
...4) racismo e cafajestice.
Deputado federal de sete mandatos, Bolsonaro às vezes soa como se os seus 27 anos de Congresso fossem um mero asterisco. ''Se o Kim Jong-un jogasse uma bomba H em Brasília e só atingisse o Parlamento, você acha que alguém ia chorar?”, indagou numa palestra, arrancando risos da plateia. 

De economia Bolsonaro reconhece que não entende bulhufas. Nessa matéria, o candidato tornou-se uma espécie de jarro vazio, dentro do qual o economista Paulo Guedes despeja o seu receituário liberal. Guedes disse que, num eventual governo Bolsonaro, seriam mantidos em seus postos membros da equipe econômica da gestão de Michel Temer, um presidente reprovado por oito em cada dez brasileiros.

Dogmático aos 63 anos, Bolsonaro comporta-se como se já não tivesse idade para aprender mais coisas. Polêmico, também não exibe a sabedoria dos políticos que aprenderam a ocultar o que ignoram. 
Para um candidato assim, tão controverso, a tarefa de reduzir antipatias é mais complicada. 

O fenômeno terá que se desdobrar se não quiser passar à história como o presidente mais fenomenal que o Brasil jamais terá. 
(por Josias de Souza)

quinta-feira, 29 de março de 2018

MUITA CALMA NESSA HORA!

Gilmar Mendes foi chamado de "palhaço"...
Está no noticiário que até ministros do Supremo Tribunal Federal, como Edson Fachin, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, andam sendo pressionados e/ou hostilizados por cidadãos comuns. 

Parece que a tentação de sentir-se espetacular na sociedade do espetáculo fala mais alto do que o receio de complicações legais. Um desses abilolados não só perseguiu e xingou Mendes nas ruas de Lisboa, como filmou tudo com seu celular e postou as imagens na internet, fazendo questão de deixar à vista aquela em que aparecia refletido num espelho, por meio da qual poderá ser identificado.

Isto vem ao encontro da minha interpretação do episódio dos tiros disparados contra a caravana do Lula: não passam de amadores metidos a bestas querendo aparecer. 

Trata-se, claro, de um fenômeno preocupante e que tem de ser coibido, mas não equivale a nenhuma conspiração de profissionais para matar figurões, como, p. ex., a que redundou no assassinato do então presidente dos EUA John Kennedy em 1963. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
...por este exibicionista.

Percebe-se, contudo, a existência de uma exploração política exacerbada dos disparos contra a lataria de ônibus, pois há gente tentando de todas as maneiras influenciar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre prisão imediata do Lula x necessidade de aguardar-se que mais uma instância judicial confirme sua condenação.

Mantenho a minha posição de que Lula deveria é cumprir sua pena em prisão domiciliar, por ser idoso e por haver sido sentenciado em razão de um crime do colarinho branco, cuja gravidade é imensamente menor que a dos crimes hediondos, por mais que certos jacobinos do Ministério Público defendam o contrário. 

Fizeram da corrupção política um espantalho e querem sustentar de qualquer maneira tal ilusão, omitindo que muito mais danosa para os brasileiros sempre foi a aberrante desigualdade econômica e os escandalosos lucros dos grandes empresários em geral e dos banqueiros em particular. 

Uma esquerda digna desse nome estaria é explicando há muito tempo esta verdade óbvia para o povo (números para comprová-la não faltam), ao invés de, covardemente, evitar contrariar os simplismos que a indústria cultural martela na cabeça das pessoas humildes. 

De certa forma, os processos do mensalão e do petrolão a puniram por sua pusilanimidade. 

O Paulo Francis afirmou e eu sempre reiterei que o combate à corrupção é uma bandeira da direita (um acréscimo de minha parte foi o de que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e existirá enquanto os seres humanos forem compelidos a buscar o enriquecimento como prioridade suprema de suas existências).
"O combate à corrupção é uma bandeira da direita"
Mas a esquerda, de forma oportunística, quis mais é surfar nessa onda, como quando apoiou a Operação Satiagraha, alinhando-se com uma das quadrilhas que travavam aquela disputa de gângsteres por um mercado florescente. 

Isto a deixou sem credibilidade para opor-se aos evidentes excessos cometidos por policiais e procuradores nas posteriores cruzadas enxuga-gelo.

Enfim, os erros crassos cometidos lá atrás desembocaram no impeachment da Dilma e na iminente prisão do Lula. 

Mas, a esquerda brasileira nunca dependeu desesperadamente da posse da Presidência da República, que, relativamente a seu papel primordial (fazer a revolução anticapitalista), não passa de um objetivo tático; e até as pedras da rua sabem que Lula não ficará muito tempo no xilindró, logo algum jeitinho se dará para livrá-lo das grades (o mais tardar no indulto natalino).

Então, muita calma nessa hora! 

A correlação de forças nem de longe nos favorece neste instante. Opodres Poderes da República estão fragilizados, mas o verdadeiro inimigo (o poder econômico) tem como mobilizar facilmente todas as forças e recursos necessários para nos esmagar. E não há dúvida de que o fará, se as coisas chegarem a esse ponto.
"O poder econômico tem como nos esmagar"

Vai daí que, estimulando a radicalização, estaríamos apenas levantando a bola para o outro lado marcar pontos e talvez até nos destruir. Pode se partir para a guerra quando se dispõe de um exército de verdade, mas aquele que João Pedro Stedile possuiria não tem sido visto em campo de batalha nenhum... 

Então, temos mais é de assumir que estamos uma fase de defensiva estratégica, durante a qual devemos repensar nossas estratégia e táticas, reagrupar nossas forças e ampliar em muito nossos contingentes organizados, antes de cogitamos voos maiores. 

Não é hora de sequer flertarmos com a ideia de confrontos, muito menos de os propiciarmos com provocações insensatas e bravatas pueris.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

SE LULA QUISER EVITAR A PRISÃO, TERÁ DE CONVENCER GLEISI HOFFMANN A FAZER VOTO DE SILÊNCIO...

Gleisi está mais perdida do que cego em tiroteio...
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, marcou gol contra antes do julgamento do Lula pelo TRF-4, ao declarar que (a direita, presumo) iria "ter de matar gente" caso fosse decidida a prisão do dito cujo. A imprensa burguesa deitou e rolou em cima do que, com verossimilhança, apresentou como uma tentativa de intimidar a Justiça.

Depois, Gleisi caiu no ridículo ao levantar a bandeira da tolerância zero contra o Pixuleco numa reunião da liderança nacional do PT. Fez lembrar a piada do marido traído que remove do seu lar o leito na qual fora consumado o adultério.

Nada a estranhar, portanto, que a Folha de S. Paulo a escolhesse para entrevistada desta 2ª feira (29) da editoria Poder, certamente esperando que ela desse mais tiros no pé do Lula. Dito e feito:

[sobre o vai ter de matar gente] "Nós ainda temos recursos judiciais para apresentar tanto ao STJ quanto ao STF. Não acredito que a corte suprema vai deixar acontecer uma barbaridade dessas. Seria uma violência não só contra o Lula, mas contra a democracia e o povo brasileiro, pela representatividade que ele tem no país. (...) Nós entendemos que a sentença do TRF-4 é eminentemente política. (...) O STF vai recolocar as coisas nos eixos. Nós avaliamos que o tribunal não permitirá essa violência."
Comentário: seu primeiro erro foi ela dizer que o PT apresentará recursos judiciais ao STJ e ao STF, mas só se mostrar esperançosa com relação à corte suprema, como se a decisão negativa do tribunal superior já fossem favas contadas. Boa maneira de predispor o STJ contra Lula.
...e suas lambanças fragilizam ainda mais o Lula.
Pior ainda foi trombetear que o STF vai recolocar a coisa nos eixos, pois não permitirá essa violência
Como o Josias de Souza revelou neste post do seu blog, havia mesmo uma tendência de o Supremo atirar uma boia para o Lula: "Depois de aprovar —em duas votações— o início da execução das penas na segunda instância, o Supremo trama adiar as prisões no mínimo até o julgamento de recursos ajuizados numa terceira instância: o STJ..."
Com que cara a Carmen Lúcia colocará agora em pauta a rediscussão do assunto? Com que cara os ministros voltariam atrás de sua decisão anterior?
Depois que a Gleisi abriu a bocarra, tal iniciativa parecerá jogo de cartas marcadas e favorecimento do STF a um condenado em particular. Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue... 

"Lula tem 40% nas pesquisas e querem impedir que as pessoas manifestem o seu voto. Estamos num processo de ruptura constitucional. Temos que ter um enfrentamento."
Comentário: de que adianta pregar enfrentamentos sem ter efetivos que possam levá-los à prática? Tantas vezes o PT prometeu colocar nas ruas o exército do Stedile que isso já virou motivo de irrisão. Não assusta mais ninguém. Fala sério!

"Pela primeira vez o tribunal fez uma transmissão ao vivo de um julgamento. Para quê? Para ficar lendo relatório dizendo que tinham provas mesmo sem ter? Tentando convencer? Ou seja, tinha um direcionamento de convencimento da opinião pública." 
Comentário: desde quando a esquerda é contra a transparência? A transmissão ao vivo deu à acusação a possibilidade de demonstrar a justeza suas alegações e à defesa, a chance de as detonar face a um público muito mais amplo do que aquele que normalmente teria um conhecimento mais preciso do que rolou no julgamento. Ser contra isto é mais uma sandice tipo inculpar o Pixuleco pelas desgraças do Lula.
Ninguém mais suporta tanta teoria da conspiração!
"Eles combinaram o voto sim. E mais: combinaram por uma questão corporativa, de autodefesa, de não abrir nenhum flanco de ataque, entre aspas, ao Judiciário."
Comentário: eu também suponho que isto deva ter acontecido. Mas, cadê as provas (aquelas pelas quais o PT tanto clama)? Em debate político sério, uma declaração dessas não passa de teoria da conspiração. Levantar suspeitas e deixá-las suspensas no nada é coisa de amadores. Só convence quem já está convencido.

"Espero que as instâncias superiores corrijam tudo isso porque vai ficar muito feio para o Brasil. Aliás, já vemos, no mundo, críticas ao TRF-4."
Comentário: desde quando um brasileiro deve fazer o que quer que seja apenas para evitar críticas no exterior? É exatamente contra o que nossa esquerda se batia no tempo em que era esquerda de verdade e não essa caricatura chamada PT. 
Ir chorar as pitangas lá fora é indigno, uma volta ao complexo de vira-latas, coisa de maricas que vai no colo da mamãe se queixar da surra que levou na rua. Tem mais é de aprender a brigar melhor para, na ocasião seguinte, resolver sozinho suas paradas. A ONU, a OEA, os intelectuais progressistas, etc., não farão isso por nós.

"Nós tivemos pouco acúmulo de força e achamos que poderíamos resolver tudo sem a presença do povo nas ruas. Que trabalhar só com o parlamento e a via institucional resolveria os problemas. E isso acabou se mostrando, não sei se um erro total, mas um caminho que não consolidou o projeto de país pelo qual tanto lutamos. Precisamos ter participação popular, [acionar] mecanismos de democracia direta já previstos na Constituição, como referendos e plebiscitos."
Comentário: finalmente a Gleisi diz algo aproveitável, pelo menos no trecho autocrítico (foi um erro total, sem dúvida!). Mas, em seguida, volta às soluções tímidas e insuficientes que são marca registrada do PT na atualidade. Referendos e plebiscitos não nos levarão a lugar nenhum pois, se o poder econômico der importância ao que estiver em discussão, terá sempre como obter o resultado que lhe convenha.
Será que existia alguma Gleisi no circulo de amizades do Voltaire?
"...eu fiquei abismada porque esse país aceita tantas verborragias de violência, como as do Bolsonaro, as do juiz  Bretas, do Rio. O [reitor] Cancellier se suicidou. Não vi nenhum desses analistas de jornais que quase me trucidaram falar nada. É engraçado, né? A eles, tudo é permitido. A nós, nada. Então a gente não tem o direito nem de levantar a voz para protestar?" 
Comentário: se a Gleisi sinceramente esperava imparcialidade da indústria cultural, deveria estar assistindo a algum filmeco tipo Arquivo X: eu quero acreditar e não presidindo o PT. Não faz sentido criticarmos lobos por serem carnívoros. Temos é de ficar espertos para não sermos engolidos por eles.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

EU E A DILMA: UM CASO DE DESAMOR À PRIMEIRA VISTA (final)

A última eleição presidencial esquentou a partir da morte de Eduardo Campos, no dia 13 de agosto de 2014. E, se não me animava a lutar por nenhuma candidatura, a partir daí ficaram claras na minha mente quais as possibilidades que deveriam ser evitadas a todo custo:
  • um verdadeiro golpe de estado, com tropas e tanques nas ruas, que nos faria retroceder décadas, extirpando o pouco que se construiu de aproveitável a partir de 1985; e
  • a reeleição de Dilma, a pior timoneira possível e imaginável numa tempestade como a que se formava.
Então, ao mesmo tempo em que rebatia falácias utilizadas para desconstruir a candidatura de Marina Silva e tentava convencer os petistas a refrearem a selvageria de sua campanha, em várias ocasiões manifestei minha simpatia pelo volta, Lula!, pois a troca de cabeça de chapa provavelmente recolocaria no poder um político com habilidade e jogo de cintura para, pelo menos, reduzir as previsíveis tensões de um futuro imediato que seria crítico em termos econômicos.

Já Dilma, com sua péssima leitura do quadro político, seu primarismo estratégico, sua truculência tática e sua irredutibilidade característica de tecnoburocratas, é do tipo que joga álcool na fogueira o tempo todo, às vezes sem sequer perceber...

Assim, depois de tentar acelerar a economia no tranco (estatal) durante o primeiro governo, ela parece ter ficado aturdida quando lhe caiu a ficha de que, isto sim, incubara uma grave recessão.

E, tão sofregamente quanto abraçara o nacional-desenvolvimentismo, deslocou-se para o polo quase que oposto: o neoliberalismo. Quis, a ferro e fogo, consertar a lambança que aprontara. Engoliu a retórica interesseira do mercado sobre qual deveria ser o antídoto e, claro, só conseguiu piorar o que já estava péssimo.

A escolha do ideologicamente detestável e politicamente inábil Joaquim Levy para ministro da Fazenda foi um balde de água fria na ala lulista do PT, pois a adoção do receituário de Milton Friedman por um partido de esquerda seria óbvio veneno eleitoral.

Dilma fizera a opção de tentar salvar sua reputação (supondo-se que as medidas ortodoxas, com enorme ônus social, ao menos revertessem o quadro de progressiva piora dos índices econômicos), mesmo que isto implicasse mandar às urtigas a candidatura presidencial de Lula em 2018.

E Levy, ainda por cima, levantava a bola para os inimigos anunciando medidas extremamente impopulares como o estupro de direitos trabalhistas e a exumação do famigerado imposto do cheque, que a classe média via como um conto de vigário no qual caíra uma vez (a utilização de um médico digno mas ingênuo para dourar a pílula de mais um assalto ao bolso do contribuinte) e jamais cairia de novo.

Talvez Leonel Brizola haja esquecido de contar a Dilma como João Goulart, na presidência da República, tinha seus ministros burgueses triturados pela esquerda até se afastarem, cansados de tanta grita assumida e de tanta puxação de tapete nos bastidores. O cunhado-urso poderia discorrer sobre isto com muito conhecimento de causa, pois era a principal mão que movimentava os cordéis dessa rejeição.

A História se repetiu em 2015, com o enfático repúdio a Levy por parte de Rui Falcão (presidente do partido), João Pedro Stedile (MST), Guilherme Boulos (MTST), Wagner Freitas (CUT), André Singer e Franklin Martins (sucessivos secretários de Comunicação de Lula quando este era presidente da República), etc.

O fogo amigo minava cada vez mais o já parco prestígio de Levy enquanto, paradoxalmente, era a direita quem o tentava sustentar, com Luís Carlos Trabuco conversando ao pé do ouvido da Dilma para apaziguá-la sempre que ela se exasperava com seu ministro da discórdia, os jornalões lançando editoriais alarmistas, o Reinaldo Azevedo o colocando como única exceção num governo por ele execrado, etc. A fratura estava exposta a tal ponto que, mesmo nas manifestações contra o impeachment, a defesa do mandato de Dilma coexistia com o exacerbado repúdio à sua política econômica.

A presidente, enquanto isto, mostrava total impotência para deter a degringola econômica, só se preocupando com manobras rasteiras para evitar que o Congresso Nacional ou a Justiça Eleitoral a defenestrassem.

Ou seja, ganhava sobrevida no varejo mas continuava marchando para a ruína no atacado, pois país pobre como o Brasil não aguenta a depressão econômica que se desenha para breve. E, quando a penúria estiver causando turbulência social, alguma solução a classe dominante produzirá para se manter dominante; como a impopularidade de Dilma já atingiu o ponto de não-retorno, tal solução passará necessariamente por sua saída do poder. Quem viver, verá.

Também, pudera! Expelido Levy, ela teve uma chance de ouro para voltar às boas com a esquerda, que é quem a conseguiu manter no posto até agora (se dependesse da direita, seu ano sabático já estaria em curso...). E o que fez?
  • ofendeu toda a rede virtual chapa branca ao escolher a odiada Folha de S. Paulo como veículo de sua mensagem de ano novo; e
  • estragou o reveillon da imensa maioria dos seus leitores, ao anunciar que continuará tentando socar o arrocho fiscal garganta dos brasileiros abaixo e que trama a elevação da idade mínima para aposentadoria, cometendo terrível injustiça com os que começam a trabalhar cedo (meu pai pegou no batente com míseros 11 anos e, que eu saiba, burlas à lei continuam ocorrendo até hoje, aos montes...).
Ou seja, Dilma não aprendeu nem esqueceu nada com o fracasso retumbante de Levy. Talvez porque, depois de reconhecer que pisara feio na bola em seu primeiro governo, falte-lhe humildade para admitir que novamente meteu os pés pelas mãos em 2015. [Nem mesmo como Wanda ela convivia bem com as autocríticas...]

Como a Operação Lava-Jato continuará colocando sob os holofotes as maracutaias do PT e parceiros, enquanto a recessão só tende a agravar-se, a meteorologia política indica a certeza de muitas chuvas e trovoadas depois do carnaval, além da possibilidade de ocorrências ainda piores.

Pessoalmente, mantenho o otimismo possível nas melancólicas circunstâncias presentes. Acredito: 
  • que Dilma, de um jeito ou de outro, cairá, até por ser o desejo secreto de muitos grãos petistas; 
  • que, desde que tal queda se dê nos marcos constitucionais (sem quartelada e ditadura), Lula voltará a ter chance de sucesso eleitoral em 2018, mantendo-se, portanto, aberta a porta para o reformismo;
  • que, por outro lado, o abalo sofrido pela esquerda foi profundo e acarretará um processo agudo de autocríticas e busca de novas opções por parte dos militantes mais articulados e idealistas; e
  • que, consequentemente, teremos uma chance de arejar e reciclar a esquerda, a fim de recolocá-la no rumo da revolução, cada vez mais necessária quando o capitalismo faz água por todos os lados e ameaça até destruir a espécie humana.
Por último, retomo a questão levantada no início desta digressão, sobre motivos de eu não considerar Dilma merecedora de solidariedade revolucionária, depois de tê-la prestado a tantos companheiros, mesmo em circunstâncias adversas e que exigiram grande sacrifício pessoal.

É que considerei simplesmente inaceitável sua iniciativa de forçar a inclusão de Leonel Brizola no Livro dos Heróis da Pátria, mesmo tendo de, casuisticamente, alterar a regra dessa homenagem (que a restringia a personagens históricos mortos há pelo menos 50 anos)  e sabendo que isto implicaria num desprestígio póstumo para heróis muito mais merecedores de que se abrissem exceções em seu benefício, Carlos Lamarca e Carlos Marighella, os únicos que, pela trajetória e seu significado simbólico, se ombreiam aos grandes Tiradentes (o 1º da lista), Zumbi dos Palmares (o 2º) e Frei Caneca (o 12º).

Isto reforçou minha convicção de que ela ainda não transcendeu os ressentimentos de 1969, fazendo questão até hoje de marcar distância dos antigos militaristas e dos revolucionários em geral, como deu para percebermos claramente na afoiteza com que encaminhou a criação da Comissão Nacional da Verdade e no abandono a que a relegou em seguida, não lhe dando respaldo para vencer sucessivos braços-de-ferros com milicões recalcitrantes. 

É direito dela querer ser hoje apenas uma política convencional. Deveria, contudo, ter a sinceridade de admitir que se trata muito mais de uma negação que de uma continuação da Wanda.

À qual, mesmo não morrendo de amores por ela, eu respeitava, como respeito todos os companheiros que travaram luta tão desigual e trágica. Difundo-lhes o exemplo e honro sua memória. 

Mas, a excelentíssima senhora presidente da República é-me indiferente, como me são indiferentes todos os dignatários dos podres Poderes. 
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