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sexta-feira, 29 de março de 2019

ORDEM DO DIA DO GOVERNO DA DESORDEM

encontro com a ditadura – 6
Dentro do desiderato de enfocar o golpe de 1964 como sendo um ato de restauro da democracia ameaçada, o governo do capitão presidente Boçalnaro, o ignaro, determinou ao Ministério da Defesa que fosse dada uma ordem do dia em comemoração à data, reeditando o que sempre ocorria durante os anos de chumbo.  

Após considerações da atual cúpula das Forças Armadas, de que o momento atual não comportava exaltações a um período em que foram suprimidas as franquias próprias ao Estado de Direito dito democrático, houve uma poda nas pretensões presidenciais e o texto final acabou sendo mais moderado.

Mesmo assim, cabe uma análise conceitual sobre o seu conteúdo.

A ordem do dia publicada para ser lida nos quartéis começa fazendo alusão à intervenção militar havida após a vacância da Presidência da República, como se tal intervenção decorresse principalmente disto. Fake.

A saída do presidente João Belchior Marques Goulart ocorreu diante da imposição das tropas militares sob o comando de generais das unidades das várias regiões militares sediadas Brasil afora, que de modo articulado haviam tomado a inciativa de depor o governo constitucionalmente constituído, bem como da existência de forte aparato militar bélico do exército estadunidense sediado na costa brasileira.
Jango sendo enrolado pelo embaixador dos EUA, Lincoln Gordon

Os EUA programaram apoios militar e financeiro, consistentes nas operações militares intituladas Operação Brother Sam e Operação Popeye, tendo enviado à costa brasileira: 
— um porta-aviões nuclear, o USS Forrestal (CVA-59), um dos maiores que tinha então;
— seis destroiers;
— um encouraçado;
— um navio de transporte de tropas;
— navios petroleiros com capacidade para 130.000 barris de combustível;
— uma esquadrilha de aviões de caça;
— um navio de transporte com capacidade para cinquenta helicópteros, tripulações respectivas e armamento completo; e 
— vinte e cinco aviões C-135 para transporte de material bélico.

Todo esse arsenal ficou estacionado a uma distância de 50 a 12 milhas náuticas do porto de Vitória, no Espírito Santo, apontando para o Rio de Janeiro, sede do I Exército, onde se situava a Base Militar de Santa Cruz e o Corpo de Fuzileiros Navais. Era no RJ que se concentrava o maior núcleo das Forças Armadas.

Esses navios de guerra estadunidenses serviriam para, a partir de Minas Gerais, apoiarem o avanço de tropas favoráveis aos militares golpistas, caso as tropas legalistas (que sequer existiam) decidissem resistir ao golpe. Os Estados Unidos e os militares brasileiros dimensionaram a possível reação de modo a prevalecerem caso houvesse combates sangrentos, superestimando o poder de resistência do governo João Goulart, fragilizado pelo cerco financeiro e político institucional que se formara. 
O corvo foi destacado golpista em 1954 e reincidiu em 1964
Note-se que eram favoráveis ao golpe os governadores dos três Estados mais importantes: Adhemar de Barros (SP), Carlos Lacerda (RJ) e Magalhães Pinto (MG). 

Para o presidente Lyndon Baines Johnson, o que estava em curso no Brasil era uma extensão da guerra fria para a América Latina; os estadunidenses queriam dar uma demonstração do que poderia ser feito em Cuba, se assim o resolvessem. Era um exagero.

A famosa Operação Condor, deslanchada na década seguinte, previa intervenções militares na América Latina (como as que efetivamente vieram a ocorrer na Argentina, Chile e Uruguai), com receio de que a experiência cubana se alastrasse. O foco mais temido de contágio era o Brasil, importante sob todos os aspectos (territoriais e populacionais). O apoio estadunidense aos golpistas de 1964 já se inseriu nessa visão estratégica dos falcões do Pentágono, servindo-lhes como teste. O êxito obtido traria consequências as mais nefastas para nossos hermanos.

Os militares brasileiros tinham outras pretensões. Desde o golpe tenentista de 1930 acalentavam a ideia de um poder militar absolutista no Brasil, que não pudera ser efetivado no governo de Eurico Gaspar Dutra (1945/1950) e que tinha sido abortado com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. 

Havia chegado a hora. Juntou-se a fome com a vontade de comer, ou seja, o interesse de um determinado segmento militar (o general Golbery do Couto e Silva, p. ex., participara das tentativas de deposição de Vargas) com o clima de guerra fria
1964, em SP: Igreja dando forte apoio à Marcha da Família

Tudo isso –aliado ao apoio da tradicional elite política brasileira; de segmentos financeiros e industriais de São Paulo e Minas Gerais, além de internacionais; e da direita da Igreja Católica, em conflito cada vez mais evidente com os movimentos eclesiais de base– formou um caldo de cultura capaz de promover o golpe, pateticamente autodenominado de revolução

Para as empreitadas dos golpistas reais, são necessários bem mais do que um cabo e um soldado, como crê Eduardo Bolsonaro. Os de 1964, infelizmente, contaram com tudo de que necessitavam.

A esquerda brasileira, capitaneada pelo Partido Comunista Brasileiro, e os segmentos sindicais ligados ao Partido Trabalhista Brasileiro de Jango e Leonel Brizola, não tinham determinação política, apoio popular, nem a menor estrutura organizacional e bélica para um confronto de tal envergadura.

Esta era, de fato, a perspectiva histórica existente em 1964, embora a ordem do dia deste 2019 tente fazer-nos crer de que se tratava de um cenário ameaçador a ponto de justificar a usurpação do poder constitucional. 

A cúpula militar de hoje tem outras referências, e é por isso que as pretensões do Boçalnaro, o ignaro, por mais que ele multiplique os favorecimentos materiais e os elogios a torturadores do passado como o coronel Brilhante Ustra, não encontram guarida entre os altos comandantes militares. 
O vice Mourão na Fiesp: preparando o terreno para voo maior?
O alto grau de informações do generalato brasileiro não lhe permite entrar em aventuras belicistas num quadro de debacle capitalista mundial e justamente num país tomado pela depressão econômica, responsável pelo desemprego de milhões de brasileiros, falência estatal, dívida pública impagável sobre a qual incidem juros extorsivos e déficit previdenciário, etc.

Aliás, eles conhecem muito bem aquele que saiu das suas fileiras ainda como capitão, e que não preenche o perfil de sensatez, obediência e prudência sistêmica que hoje norteia a carreira militar. Canja e caldo de galinha não faz mal a ninguém. 

A ordem do dia editada dá um salto histórico no seu conteúdo. De 1969 pula para 1979, abordando a Lei da Anistia, como se quisesse sepultar todos os arbítrios cometidos nesse período pelos que estavam deslumbrados com o poder e com a popularidade do falso milagre brasileiro (financiado com juros da agiotagem internacional).

Omite, p. ex., o famigerado AI-5, de triste memória, a partir do qual a ditadura fechou o Congresso, prendeu, torturou, matou, suprimiu direitos, nomeou parlamentares biônicos, corrompeu e se deixou corromper, praticando todas aquelas atrocidades e atos abjetos que estão gravados na memória histórica nacional (e especialmente, nas memória das famílias brasileiras que foram diretamente vítimas de tais abusos) como uma página infeliz que jamais deve ser repetida.
O saudoso Eremias Delizoicov e outras vítimas fatais da ditadura: ignorados na ordem do dia.
Mais: 21 anos de poder autoritário não são 21 dias. A longa temporada de arbítrio contraria a ideia de intervenção momentânea e (pretensamente) saneadora, contida na ordem do dia. A verdade é que a linha dura da caserna prevaleceu então sobre os que entendiam que a restauração do estado dito democrático de direito deveria ser abreviada. 

O poder, como sói acontecer, subiu à cabeça dos dirigentes militares, que somente dele foram apeados por absoluta falta de condições econômicas e políticas para a continuidade do regime. 

O generalato atual quer manter a função militar equidistante do poder político, o que não quer dizer deixar de exercer a sua tutela constitucional velada (o que corresponde, no caso brasileiro, à manutenção de uma ordem político-econômica dita democrática capitalista que se decompõe a olhos vistos). É que gato escaldo tem medo até da água fria.

A ordem do dia editada e publicada é bem diferente da desejava pelo capitão presidente. As pretensões governamentais embutem um viés totalitário inconfessável, mas perceptível nos conceitos e ações. Boçalnaro, o ignaro sonha com um inverossímil levante popular que lhe desse plenos poderes ditatoriais.
 Dele provêm ministros exóticos e orientações esdrúxulas

Mas o governo é insubsistente e mais parece uma colcha de retalhos ideológicos, com destaque para:
— os seguidores do guru astrólogo e filósofo de almanaque Olavo de Carvalho, que se auto-intitula revolucionário e foi responsável pelas mais exóticas e destemperadas nomeações de ministros do atual governo, bem como por orientações esdrúxulas que não se coadunam com a realidade de colapso mundial da ordem econômica;
— o pensamento liberal ultrapassado do ministro Paulo Guedes, que é globalizante por excelência,  chocando-se em muitos pontos com a doutrina estapafúrdia dos olavistas, dentre os quais se incluem o próprio presidente e seus filhos; e
— os generais de pijama recém-empregados e os ministros militares, que, por incrível que pareça, são considerados hoje como os equilibrados e sensatos moderadores dos arroubos militaristas do governo; e
— um nacionalismo entreguista, que é contraditório desde esse mesmo conceito de vias trocadas (se é nacionalista não deveria ser entreguista, e se é entreguista não deveria ser nacionalista).

De ou outro lado, temos um parlamento historicamente fisiológico que quer manter o seu poder de interferência nas verbas orçamentárias e reluta em coonestar medidas econômicas impopulares (eles precisam dos votos das suas bases) neste momento de uma acentuada realidade falimentar da economia brasileira num contexto de debacle mundial.
"um Judiciário sedento de poder e que resvala para o arbítrio"
Temos, ainda, um Poder Judiciário também sedento de poder e que, não raro, resvala para o arbítrio. Como dizia Ruy Barbosa, a pior ditadura é a do Judiciário, pois contra ele não há a quem recorrer.

A crise no topo é o mais eloquente testemunho de um estágio sócio-político-econômico que encontrou o seu ponto de fusão autodestrutivo e está a clamar por superação estrutural, cujo fundamento primário é a adoção de um novo modo de produção social.  

Daí eu vir afirmado em muitos artigos a minha posição de que os revolucionários emancipacionistas não devem participar dos governos, pois isso seria assumir a obrigação de administrar o capitalismo brasileiro no momento histórico mais agudo da sua rota falimentar.

Por motivo diverso, o segmento militar também não deseja assumir as rédeas do poder; no caso dele, por entender que a ingovernabilidade atual poderia debilitar a sua capacidade de tutela constitucional sistêmica. 
Por Dalton Rosado

O generalato miliar atual torce o nariz para aventuras e bravatas extemporâneas, e a ordem do dia que fora sugerida e pretendida era ainda mais deslocada no tempo do que a que foi editada a contragosto, pois corresponde ao cortejo fúnebre de um defunto que o governo ignaro tudo faz para trazer de volta à vida, em vão.  

sexta-feira, 30 de março de 2018

O GOLPE QUE PERDURARIA POR 21 LONGOS E TENEBROSOS ANOS, ATÉ ESVAIR-SE NA PRÓPRIA INCONSISTÊNCIA

O golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart, ocorreu dentro do contexto da chamada guerra fria. O bloco liderado pela União Soviética (e em menor escala pela China) rivalizava com os Estados Unidos e seus aliados na luta pela hegemonia político-econômica mundial.

A consolidação da revolução cubana de 1959, que se declarou marxista-leninista após derrubar o corrupto presidente Fulgêncio Batista (aliado dos EUA), foi ameaçada pelo patrocínio estadunidense aos mercenários de vários países e cubanos exilados, fornecendo-lhes infraestrutura militar para uma invasão e tentativa de deposição dos revolucionários. 

O episódio ocorreu em 1961 na Baía dos Porcos, noroeste da ilha cubana, saindo vitorioso o heroico povo cubano, que impôs uma fragorosa derrota aos invasores.

Logo após, em 1962, veio a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba como resposta aos congêneres estadunidenses instalados na Turquia, quase desencadeando uma hecatombe nuclear cujo resultado seria um genocídio da humanidade sem precedentes. 
Invasão da Baía dos Porcos: fracasso total.

A equivalência de forças destrutivas fez com que as disputas acabassem circunscritas ao campo político, abortando, felizmente, a possibilidade de guerra nuclear. E uma das exigências soviéticas para retirarem os mísseis foi a de que os EUA se comprometessem a não tentarem mais derrubar pela força o regime cubano, cuja sobrevivência, a partir de então, deixou de ser diretamente ameaçada.

É neste quadro de disputa política mundial que o Brasil, um gigante sul-americano em extensão e população passou a ter importância estratégica para os Estados Unidos. Dependendo de para onde o Brasil se inclinasse, o controle da hegemonia político-econômica seria alterado nas Américas.     

O governo constitucional de João Goulart – herdeiro da antipatia estadunidense por Getúlio Vargas desde os tempos da 2ª guerra mundial, bem como da dos militares brasileiros que o depuseram em 1945 mas tiveram de engoli-lo com casca e nó em 1950, acabando por levá-lo ao suicídio em 1954 – estava condenado a priori. 

A influência que o Partido Comunista Brasileiro e as centrais sindicais passaram a ter com a assunção de Goulart ao governo após a renúncia do tresloucado presidente populista de direita Jânio Quadros (que condecorou Guevara), foi o ingrediente que somou a fome com a vontade de comer nessa estranha cozinha política mundial.
Goulart titubeou demais e depois não resistiu ao golpe
.
MOMENTOS FINAIS DO REGIME
DEMOCRÁTICO
DE PÓS-GUERRA
.
Os ministros militares, face à tensão política e crise econômica que se agravavam desde o início de 1964, solicitaram ao presidente a decretação do estado de sítio, para conter as turbulências em curso. Goulart encaminhou o pedido (sem arregimentar sua tropa parlamentar para a aprovação) ao Congresso Nacional, que o rejeitou. Era um jogo de cena de ambos os lados que já mediam forças. 

Diante disto, segmentos militares apoiados pela grande imprensa, pelas alas direitistas da Igreja e pelo grande empresariado nacional, com o sinal verde dos EUA (que não apenas disponibilizaram infraestrutura financeira e militar para os golpistas, mas também se comprometeram a, caso fosse necessário, desembarcarem tropas no Espírito Santo, que dali chegariam a Minas Gerais, onde contariam com o apoio do governador Magalhães Pinto) consolidaram a efetivação do golpe de estado. Não era coisa de pouca monta.     

Por seu turno os comunistas trombeteavam bravatas, dimensionando mal suas próprias forças, inferiores e desarticuladas. 
Na Central do Brasil, o princípio do fim.
Luiz Carlos Prestes, principal dirigente do Partido Comunista Brasileiro, prometeu: "Se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato". Ficou o dito por não dito...

O governo Goulart estava sitiado pelos governadores de São Paulo, Adhemar de Barros, apelidado de rouba-mas-faz; da Guanabara, Carlos Lacerda, também conhecido como o corvo; e de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto. 

Ao contrário dos espantalhos que a direita utilizava para assustar a classe média, os movimentos sindicais e estudantis, bem como as Ligas Camponesas e os grupos dos 11 articulados pelo governador gaúcho Leonel Brizola, não tinham condições mínimas de prevalecerem num confronto militar. Daí não ter havido resistência real ao golpe.

O povo, que na sua grande maioria sempre se posiciona em função da situação econômica momentânea, vivia as agruras da inflação alta e da queda do PIB, tornando-se presa fácil para a propaganda golpistas.

Em meio a isso tudo, os decretos governamentais que sacramentavam as chamadas reformas de base foram assinados em grande manifestação ocorrida na Central do Brasil (RJ), no dia 13 de março, com  a participação de mais de 100 mil pessoas. Foi a gota d´água que serviu de senha para o desencadear do golpe, mas que não refletia e realidade de apoio popular. A empedernida elite brasileira empresarial e política arregaçou as mangas para a briga. 

Estabeleceu-se um confronto de manifestações públicas de um lado e de outro (como a Marcha da família, com Deus, pela liberdade, que teve lugar em São Paulo, no dia 19 de março, unindo conservadores moderados e ultradireitistas), enquanto nos quartéis se lubrificavam os artefatos de guerra para um confronto anunciado. 
Quebra da hierarquia tangeu oficialidade para o golpe

No dia 22 de março, generais da reserva (em número de 72) lançaram o manifesto Sentinelas Alertas, com o silencioso apoio dos generais da ativa, que serviu como chancela para as ações a serem perpetradas.

No dia 25 de março, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, subalternos da Marinha, liderados pelo Cabo Anselmo (que mais tarde viria a ser desmascarado como agente infiltrado) promoveram uma manifestação em apoio ao Governo, em flagrante desacato à oficialidade elitista e reacionária daquela Arma. 

No dia seguinte os marujos foram presos e, posteriormente anistiados pelo presidente João Goulart. Estava explicitada a cisão militar nos escalões inferiores da soldadesca, mas sem firme consistência revolucionária. 

No dia 30 de março Goulart compareceu a uma festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, juntamente com seus ministros Civis,  e na qual estavam presentes muitos militares. Ali proferiu forte discurso em defesa do seu governo e das reformas de base. Chegara a hora da definição de rumos.

Desencadeado o golpe, o presidente João Goulart tomou conhecimento da unidade das forças militares brasileiras e estadunidenses que haviam estacionado navios na costa brasileira (à distância de 50 a 12 milhas náuticas do porto da cidade de Vitória (ES). 
A família não sabia, mas marchava contra a liberdade

Tratava-se de uma poderosa frota militar naval e aérea capaz de enfrentar resistência miliar de grandes proporções nas chamadas operações Brother Sam e Popeye.

Incluía porta-aviões nucleares; encouraçados; destróieres; esquadrilha de aviões; e farta quantidade de combustível, veículos, armamentos e munições correspondentes, além de substancioso efetivo militar.

Os movimentos militares foram deflagrados na madrugada de 31 de março pelo general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar que, precipitadamente (estava previsto para o dia seguinte), desencadeou o levante a partir de Juiz de Fora. Os demais comandos militares aderiram prontamente, como planejado. Não se registrou resistência significativa por parte do governo e dos movimentos populares.

Não aderindo ao apelo de resistência feito por seu cunhado Leonel Brizola, que era então deputado federal pela Guanabara, Goulart partiu para o exílio. Os militares se assenhorearam do poder político e passar a ditar as ordens. Até os seus apoiadores políticos civis no golpe (como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek) sofreriam, posteriormente, as agruras do arbítrio).    

Assim fez-se noite em nosso viver, com a ascensão militar ao comando político do Estado, num golpe que se radicalizaria no final de 1968 com torturas, assassinatos e banimentos, e que perduraria por longos e tenebrosos 21 anos até esvair-se na própria inconsistência. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 30 de março de 2017

DALTON ROSADO: "UM INSTANTÂNEO DO GOLPE MILITAR DE 1964".

"Apesar de você, amanhã há de ser
outro dia..." (Chico Buarque)
. 
O golpe militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart, ocorreu dentro do contexto da chamada guerra fria. O bloco liderado pela União Soviética (e em menor escala pela China) rivalizava com os Estados Unidos e seus aliados na luta pela hegemonia político-econômica mundial.

A consolidação da revolução cubana de 1959, que se declarou marxista-leninista após derrubar o corrupto presidente Fulgêncio Batista (aliado dos EUA), foi ameaçada pelo patrocínio estadunidense aos mercenários de vários países e cubanos exilados, fornecendo-lhes infraestrutura militar para uma invasão e tentativa de deposição dos revolucionários. 

O episódio ocorreu em 1961 na Baía dos Porcos, noroeste da ilha cubana, saindo vitorioso o heroico povo cubano, que impôs uma fragorosa derrota aos invasores.

Logo após, em 1962, veio a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba como resposta aos congêneres estadunidenses instalados na Turquia, quase desencadeando uma hecatombe nuclear cujo resultado seria um genocídio da humanidade sem precedentes. 
Invasão da Baía dos Porcos: fracasso total.

A equivalência de forças destrutivas fez com que as disputas acabassem circunscritas ao campo político, abortando, felizmente, a possibilidade de guerra nuclear. E uma das exigências soviéticas para retirarem os mísseis foi a de que os EUA se comprometessem a não tentarem mais derrubar pela força o regime cubano, cuja sobrevivência, a partir de então, deixou de ser diretamente ameaçada.

É neste quadro de disputa política mundial que o Brasil, um gigante sul-americano em extensão e população passou a ter importância estratégica para os Estados Unidos. Dependendo de para onde o Brasil se inclinasse, o controle da hegemonia político-econômica seria alterado nas Américas.     

O governo constitucional de João Goulart – herdeiro da antipatia estadunidense por Getúlio Vargas desde os tempos da 2ª guerra mundial, bem como da dos militares brasileiros que o depuseram em 1945 mas tiveram de engoli-lo com casca e nó em 1950, acabando por levá-lo ao suicídio em 1954 – estava condenado a priori. 

A influência que o Partido Comunista Brasileiro e as centrais sindicais passaram a ter com a assunção de Goulart ao governo após a renúncia do tresloucado presidente populista de direita Jânio Quadros (que condecorou Guevara), foi o ingrediente que somou a fome com a vontade de comer nessa estranha cozinha política mundial.


MOMENTOS FINAIS DO REGIME
 DEMOCRÁTICO DE PÓS-GUERRA
.
João Goulart titubeou demais e depois não resistiu ao golpe
Os ministros militares, face à tensão política e crise econômica que se agravavam desde o início de 1964, solicitaram ao presidente a decretação do estado de sítio, para conter as turbulências em curso. Goulart encaminhou o pedido (sem arregimentar sua tropa parlamentar para a aprovação) ao Congresso Nacional, que o rejeitou. Era um jogo de cena de ambos os lados que já mediam forças. 

Diante disto, segmentos militares apoiados pela grande imprensa, pelas alas direitistas da Igreja e pelo grande empresariado nacional, com o sinal verde dos EUA (que não apenas disponibilizaram infraestrutura financeira e militar para os golpistas, mas também se comprometeram a, caso fosse necessário, desembarcarem tropas no Espírito Santo, que dali chegariam a Minas Gerais, onde contariam com o apoio do governador Magalhães Pinto) consolidaram a efetivação do golpe de estado. Não era coisa de pouca monta.     

Por seu turno os comunistas trombeteavam bravatas, dimensionando mal suas próprias forças, inferiores e desarticuladas. Luiz Carlos Prestes, principal dirigente do Partido Comunista Brasileiro, prometeu: "Se a reação levantar a cabeça, nós a cortaremos de imediato". Ficou o dito por não dito...
Na Central do Brasil, o princípio do fim.

O governo Goulart estava sitiado pelos governadores de São Paulo, Adhemar de Barros, apelidado de rouba-mas-faz; da Guanabara, Carlos Lacerda, também conhecido como o corvo; e de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto. Ao contrário dos espantalhos que a direita utilizava para assustar a classe média, os movimentos sindicais e estudantis, bem como as Ligas Camponesas e os grupos dos 11 articulados pelo governador gaúcho Leonel Brizola, não tinham condições mínimas de prevalecerem num confronto militar. Daí sua não ter havido resistência real ao golpe. 

O povo, que na sua grande maioria sempre se posiciona em função da situação econômica momentânea, vivia as agruras da inflação alta e da queda do PIB, tornando-se presa fácil para a propaganda golpistas.

Em meio a isso tudo, os decretos governamentais que sacramentavam as chamadas reformas de base foram assinados em grande manifestação ocorrida na Central do Brasil (RJ), no dia 13 de março, com  a participação de mais de 100 mil pessoas. Foi a gota d´água que serviu de senha para o desencadear do golpe, mas que não refletia e realidade de apoio popular. A empedernida elite brasileira empresarial e política arregaçou as mangas para a briga. 

Estabeleceu-se um confronto de manifestações públicas de um lado e de outro (como a Marcha da família, com Deus, pela liberdade, que teve lugar em São Paulo, no dia 19 de março, unindo conservadores moderados e ultradireitistas), enquanto nos quartéis se lubrificavam os artefatos de guerra para um confronto anunciado. 

No dia 22 de março, generais da reserva (em número de 72) lançaram o manifesto Sentinelas Alertas, com o silencioso apoio dos generais da ativa, que serviu como chancela para as ações a serem perpetradas.
Quebra da hierarquia tangeu oficialidade para o golpe
No dia 25 de março, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, subalternos da Marinha, liderados pelo Cabo Anselmo (que mais tarde viria a ser desmascarado como agente infiltrado) promoveram uma manifestação em apoio ao Governo, em flagrante desacato à oficialidade elitista e reacionária daquela Arma. No dia seguinte os marujos foram presos e, posteriormente anistiados pelo presidente João Goulart. Estava explicitada a cisão militar nos escalões inferiores da soldadesca, mas sem firme consistência revolucionária. 

No dia 30 de março Goulart compareceu a uma festa promovida pela Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar no Automóvel Clube do Rio de Janeiro, juntamente com seus ministros Civis,  e na qual estavam presentes muitos militares. Ali proferiu forte discurso em defesa do seu governo e das reformas de base.

Chegara a hora da definição de rumos. 

Desencadeado o golpe, o presidente João Goulart tomou conhecimento da unidade das forças militares brasileiras e estadunidenses que haviam estacionado navios na costa brasileira (à distância de 50 a 12 milhas náuticas do porto da cidade de Vitória (ES), uma poderosa frota militar naval e aérea capaz de enfrentar resistência miliar de grandes proporções, nas chamadas Operação Brother Sam e Operação Popeye.
A família não sabia, mas marchava contra a liberdade...

Tratava-se de porta-aviões nucleares; destroiers; encouraçados; esquadrilha de aviões; e farta quantidade de combustível, veículos, armamentos e munições correspondentes, além de substancioso efetivo militar. 

Os movimentos militares foram deflagrados na madrugada de 31 de março pelo general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar que, precipitadamente (estava previsto para o dia seguinte), desencadeou o levante a partir de Juiz de Fora. Os demais comandos militares aderiram prontamente, como planejado. Não se registrou resistência significativa por parte do governo e dos movimentos populares.

Não aderindo ao apelo de resistência feito por seu cunhado Leonel Brizola, que era então deputado federal pela Guanabara, Goulart partiu para o exílio. Os militares se assenhorearam do poder político e passar a ditar as ordens. Até os seus apoiadores políticos civis no golpe (como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek) sofreriam, posteriormente, as agruras do arbítrio).    

Assim fez-se noite em nosso viver, com a ascensão militar ao comando político do Estado, num golpe que se radicalizaria no final de 1968 com torturas, assassinatos e banimentos, e que perduraria por longos e tenebrosos 21 anos até se esvair na própria inconsistência. (por Dalton Rosado)
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