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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

ESTAMOS SUPERESTIMANDO TERRORISTAS CARICATOS E IGNORANDO RISCOS MAIORES

Ubaldo foi um personagem criado por Henfil em 1975, quando o terrorismo de Estado...
A
bomba explode lá fora, agora o que vou temer? 

A pergunta de Torquato Neto na letra de Marginália II é emblemática quanto ao comportamento de expressivos contingentes de brasileiros letrados (como em tudo na vida, há honrosas exceções, claro!): estes não só temem desmesuradamente os perigos verdadeiros, como inventam outros quando os antigos evaporam.

Assim é que a sinistrose do momento são alguns atentados pirotécnicos em Brasília quando da diplomação do Lula como novo presidente da República e outro que deu chabu na semana passada e realmente teria produzido mortes... mas, a esmo, muito mais detonando a imagem do que alavancando a causa dos mentecaptos responsáveis.

Minha terra tem palmeiras onde sopra o vento forte da fome, do medo e muito, principalmente, da morte – também consta daquela certeira reflexão poética do Torquato nos idos de 1968. 

O que é o Brasil, se não um abatedouro de coitadezas? Pela fome, pelo abandono e pelas armas.
...já arrefecia, para satirizar  esquerdistas que continuavam exageradamente apavorados.
Um rio de sangue atravessa nossa História, com a imolação de indígenas, escravos, pobres, rebeldes e uma infinidade de etceteras, para a perpetuação de um autoritarismo e de uma exploração seculares.  

Então, os que hoje temem o jus sperniandi dos debiloides derrotados nas urnas e clamam por medidas policiais são, em grande parte, os que deveriam ter ido às ruas para derrubar o governo genocida antes que ele causasse a morte evitável de aproximadamente 400 mil brasileiros durante a pandemia de covid, afora os pelo menos 600 mil que, mesmo sem a escandalosa sabotagem negacionista à vacinação, estavam destinados a morrer.

Mas, esses heróis do teclado e dos conchavos vergonhosamente, deixaram que secundaristas e torcidas organizadas de futebol fossem enfrentar sozinhos as hordas fascistas na avenida Paulista... e escorraçá-las, comprovando que o inimigo, afinal, nunca passara de um tigre de papel.  

Assim como o era o império colonial português quando os inconfidentes mineiros tinham enorme chance de deflagrar um verdadeiro processo de independência, mas tantos que tinham algo a perder ficaram em cima do muro e acabaram descendo pelo lado errado; Tiradentes foi abandonado às feras.
Onde estão nossos mortos? Onde estavam nossos apoiadores de 68?
Tanto quanto fomos abandonados às feras nós, os resistentes dos
anos de chumbo, pois bastaria que um centésimo dos manifestantes de 1968 entrasse na luta conosco em 1969 para termos real possibilidade de vitória. 

Enfim, voltando à paúra da vez. parece nem sequer ter passado pela cabeça de quantos esperaram a desbozificação cair do céu, a obviedade de que eram inevitáveis esses episódios de faroeste caboclo após o Bozo:
 ter facilitado tanto o acesso a armas de todo tipo e calibre (inclusive as privativas das Forças Armadas), seja afrouxando a legislação, seja enfraquecendo o controle; e,
— haver trombeteado exaustivamente, dia e noite que os homens de bem precisavam tomar nas mãos o destino da pátria (ah, como o Samuel Johnson estava certo quanto ao último refúgio dos canalhas!). 

Mas nada, absolutamente nada, respalda os temores de uma virada de mesa de última hora. Não acontecerá. 

Os poderosos já chegaram a um entendimento de como terão seus interesses preservados no novo governo, segundo a velha lição de Lampedusa. 

Os vira-latas do capitalismo e os fanáticos deslumbrados dos acampamentos antidemocráticos não têm poder de fogo suficiente para peitar os que realmente mandam. 

Muito mais complicados foram os estertores da ditadura militar, quando quem praticava atentados não eram civis metidos a bestas, mas profissionais... que, mesmo assim, deram um monumental chabu no episódio do
Riocentro, quando a bomba explodiu no colo de quem a transportava.

Daquela vez, os terroristas eram agentes da repressão política indignados com a decisão do ditador Geisel de desmontar a estrutura de combate à esquerda armada montada a partir de 1969 e que já perdera a utilidade, só servindo para prejudicar a imagem e os negócios externos do Brasil.

Foram sequestros e espancamentos de oponentes do regime por parte de paramilitares, cartas-bombas enviadas a entidades como a OAB e a ABI, incêndios de bancas de jornais que vendiam publicações alternativas, prisão oficializada e tortura de esquerdistas inofensivos como Vladimir Herzog. Tudo para despertar reações que parecessem comprovar a lorota por eles sustentada, de que a ameaça subversiva ainda persistia e os DOI-Codis da vida continuavam tendo razão de existir.

Agora é gente muito mais destreinada, desorganizada e descerebrada que age. Vidas podem ser perdidas, danos podem ser causados, mas não deterão a desbozificação nem que a vaca tussa.

Temos mesmo é de temer o que acontecerá quando, depois da tarefa fácil de desfazer as medidas mais iníquas e arbitrárias do demencial ex-presidente, o Governo Lula tiver de mostrar serviço na área econômica, principal drama do nosso povo face à interminável recessão que nos fustiga (pouco importando os economistas  a reconhecerem como tal ou não!).
Terroristas acidentais não
sabem: bomba com cabeça
de palhaço dá chabu!

Aí, a frustração dos coitadezas poderá explodir, dando nova oportunidade à extrema-direita de transformar o ruim em péssimo. E é bem capaz de então as forças do retrocesso já se terem livrado do canastrão que sempre nega fogo na hora H e escolhido um aprendiz de Hitler mais apto para as liderar.

Temos certamente um ano de trégua pela frente, talvez um pouco mais. 

No entanto, se não partirmos desde já para as transformações em profundidade desesperadamente necessárias, aquelas capazes de tirar o Brasil do fundo do poço, dias piores virão. 

Muito piores! (por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 8 de novembro de 2022

DANIEL ALVES SERÁ BOI DE PIRANHA? BODE NA SALA? OU O TITE ERROU FEIO?

S
ejamos sinceros: a grita contra a convocação de Daniel Alves para o Mundial decorre em grande parte da posição por ele adotada, de apoio à micareta golpista do 7 de setembro de 2021, quando postou foto com a bandeira nacional e repetiu o slogan favorito do mito que virou mico – aquele lema que, implicitamente, se alinha com o último refúgio dos canalhas e com a mercantilização da fé.

Eu, que sempre vi artistas populares, esportistas e celebridades como pessoas que eventualmente são boas naquilo que as projetou, mas cuja opinião vale tanto quanto a de qualquer mortal em tudo o mais, nunca dei nem dou a mínima para as besteiras que saem da boca de analfabetos políticos inofensivos (aqueles que não passam à ação, ou seja, pelo menos não escoiceiam os alfabetizados).

Prefiro louvar as honrosas exceções, como Sócrates, Vladimir e Casagrande, grandes futebolistas que conseguiram ser maiores ainda como cidadãos quando isto foi necessário.  Esses me surpreenderam. 

Os pequenos oportunistas capazes de dar quaisquer contrapartidas por favores governamentais e os caçadores de holofotes que dizem qualquer aberração para serem falados, ainda que mal falados, não passam da regra (a mediocridade). 

Muito ódio se acumulou nesses quatro anos de trevas, destruição e mortes inúteis. Temos de sair desse ambiente sufocante, antes que todos viremos lobos de nossos semelhantes.

É óbvio que a miniatura brasileira de Hitler jamais pode ser perdoada, pois uns 400 mil zumbis se ergueriam das covas para nos fustigar. Mas a poeira que o vento arrastou para um lado e para outro pode ser deixada de lado. É insignificante demais para que nos ocupemos dela.
Se foi uma jogada maquiavélica do Tite, os
cronistas esportivos caíram como patinhos

Antes eram 22 os convocados para as Copas do Mundo, agora são 26. Tite provavelmente escolheu Daniel Alves como boi de piranha (ou colocou um bode na sala) para que não fossem alvejados aqueles que ele pretende realmente botar pra jogar.

Se foi por isto, até que conseguiu. Não há unanimidade quanto a quem foi injustiçado e quem faltou convocar. 

Gabigol poderia ter sido o mais chorado, só que nunca igualou, com a camisa canarinha, seus desempenhos no Flamengo – além de estar fazendo, mesmo no rubro-negro, uma temporada meia boca em 2022.

De quebra, parece que a presença de Daniel Alves desanuvia o ambiente. Se é desse tipo de bufão que aqueles 25 marmanjões carecem para não ter tremedeira diante das responsabilidades, por que não?

Por último: não houve idêntica unanimidade na rejeição ao palhaço infinitamente mais nefasto que um eleitorado bovinizado convocou em 2018 para emporcalhar a faixa presidencial. Esperava-se goleada no último dia 30 e o placar ficou em míseros 50,9% a 49,1%. Uma lástima!

A tradição brasileira continua sendo de agressividade contra os pequenos pavões e tibieza diante das aves de rapina. Já passou da hora disso mudar. (por Celso Lungaretti)    

domingo, 1 de maio de 2022

LULA: DE METAMORFOSE AMBULANTE A PANTERA COR-DE-ROSA

Leio na imprensa que o novo publicitário de campanha do Lula quer deixar o PT menos vermelho ainda. É possível? A mim me parece que, se continuar desbotando, o vermelho petista acabará virando pink.

Com sua conhecida humildade, Lula já pretendeu ser uma metamorfose ambulante (o Raulzito engasgaria...).  Com quem ele parecerá de agora em diante? Com a pantera cor-de-rosa?

Segundo noticiaram Luiz Vassalo e Beatriz Bulla no Estadão, a descaracterização tornará o PT praticamente irreconhecível para quem ainda se lembra de como ele era nos seus saudosos primórdios (1979/80): 
"O vermelho não deve sumir, mas pode perder a preponderância para o verde e amarelo. O discurso, hoje voltado às bases, como movimentos sociais e sindicatos, deve mudar e fazer acenos, também, ao empresariado".
Basta ou querem mais?
"Sócio de empreendimentos de cifras milionárias e ligado a políticos de centro-direita do PSDB e do União Brasil, o publicitário Sidônio Palmeira – recém-contratado – quer dar à campanha do ex-presidente Lula um tom que amplie seu alcance para além dos militantes, grupo que ele considera fechado e à esquerda".
Quem acompanha com espírito crítico a trajetória do PT neste século, não se surpreenderá muito. A comunicação do partido apenas vai refletir melhor a tendência que vem se acentuando internamente desde aquela melancólica Carta ao Povo Brasileiro de 2002, quando rendendo-se às exigências do grande capital para que este lhe permitisse vencer a eleição e ser empossado, Lula prometeu solenemente que os contratos, por mais crapulosos que fossem, seriam todos honrados!

Foi o início da direita, volver!, a guinada que transformou a estrela da esperança numa anã negra (estrela sem brilho). 

E agora tal processo chega à culminância, com o PT passando recibo de que deixou de ser vermelho e vai disputar com o Bolsonaro o direito de utilização da marca verde e amarela. 

Estou com Samuel Johnson e não abro: "O patriotismo é o último refúgio de um canalha". 
(por Celso Lungaretti)

sábado, 14 de novembro de 2020

PORTA-VOZES DA PÁTRIA NÃO PASSAM DE ESPERTALHÕES ENROLADOS EM BANDEIRAS. E HÁ OUTROS CANDIDATOS A EVITARMOS!

demétrio magnoli
GUIA PRÁTICO DO VOTO
Não vote em candidatos que:
1
. invocam o espectro do inimigo do povo
A crítica dura do adversário faz parte do jogo. Mas exibi-lo, explícita ou implicitamente, como inimigo do povo, revela uma alma antidemocrática.
.
Os regimes tirânicos apoiam-se no conceito de que as sociedades estão divididas entre cidadãos leais e traidores, aos quais se reserva a prisão, o degredo ou a morte. A figura retórica do inimigo do povo é a transposição dessa ideia às condições postas pelo sistema democrático.
.
Candidatos que operam por essa lógica estão cometendo uma fraude. O jogo democrático parte do pressuposto de que todos as candidaturas são expressões legítimas da pluralidade ideológica da sociedade. Tratar o rival eleitoral como inimigo do povo é violar as regras que asseguram o direito de candidatura do próprio acusador.
2
. apresentam-se como porta-vozes da pátria
Tais candidatos não passam de espertalhões enrolados em bandeiras.
.
Samuel Johnson classificou o patriotismo como último refúgio do canalha, num contexto em que distinguia os autodefinidos patriotas do patriotismo genuíno. 

O segundo é o patriotismo cívico, isto é, o chamado a um esforço nacional comum pelo bem-geral. Já o primeiro é o nacionalismo vulgar, destinado a extrair proveito pessoal do sentimento de coesão nacional.
.
A pátria é de todos os cidadãos —e, portanto, nenhum partido singular pode querer representá-la. A pretensão abusiva descortina espíritos autoritários: embriões de ditadores.
3. falam em nome de Deus.
Tais candidatos colidem tanto com os princípios terrenos que governam a disputa eleitoral quanto com os valores da fé que alegam praticar. São falsários, duplamente.
.
Deus não tem partido. Fazer campanha usando o nome de Deus é tão patético quanto agradecer a Deus por um gol marcado. Não há fé nenhuma nas duas atitudes, mas mera ignorância ou, mais provavelmente, baixa esperteza. O Estado é laico, única garantia de liberdade para todas as religiões. O programa oculto do candidato que porta a cruz é exterminar a liberdade religiosa.
4alegam representar corporações.
São aqueles que exibem-se como representantes de policiais, professores, médicos, advogados, juízes ou procuradores. Os candidatos que adicionam um qualificativo profissional a seus nomes (professor X ou Y, doutor isso ou aquilo) pertencem a essa coleção de pescadores das lagoas do corporativismo..
O Brasil moderno nasceu sob o signo do corporativismo varguista, que continua a nos assombrar. As corporações são atores legítimos do jogo das sociedades abertas, por meio de associações e sindicatos que vocalizam suas reivindicações, exercendo pressão sobre governos e órgãos legislativos. Mas as eleições não devem se subordinar às suas agendas.
.
A Câmara Federal, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais existem para espelhar a pluralidade política da sociedade, ou seja, dos cidadãos. Transformá-las em fóruns corporativos é calar a voz dos indivíduos não organizados em associações ou sindicatos e, ainda, falsear a representação das próprias corporações, que têm regras próprias para eleger seus representantes.
5
promovem a violência policial.
Tais candidatos são bandidos fantasiados nas roupagens de cidadãos do bem. De fato, o que querem é fragmentar as polícias em milícias privadas, em esquadrões da morte. Não passam de bandos de vigilantes com passaporte para assassinar. 
(por Demétrio Magnoli)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

AS URNAS DE NOSSA DESESPERANÇA – 6: O MITO FABRICADO É UM AVENTUREIRO DESQUALIFICADO E PERIGOSO.

(continuação deste post)
Jair Bolsonaro, social e economicamente ignaro 
No mundo inteiro observa-se um crescimento das ideias totalitárias, variando apenas o grau de intensidade, conforme a situação de cada país no concerto do capitalismo mundial. 

Umas são totalitárias para imposição submissa da pobreza (casos da África, Ásia, Oriente Médio, América Central e do Sul); outras para a imposição da conservação de privilégios ameaçados (casos da União Europeia, Estados Unidos, etc.).     

Tal crescimento, entretanto, não significa hegemonia de pensamentos, mas um acirramento entre posições políticas (conservadoras, liberais, socialistas, trabalhistas, etc.) como consequência da ruptura do pacto social até então vigente, em razão de fatores econômicos novos que promovem o desequilibro social insuportável e irremediável sob o capitalismo.          

O fenômeno pode ser explicado à luz de uma análise econômica de depressão mundial principalmente, mas conjugada com aspectos da descentralização do controle das mídias de comunicação. Estas agora disseminam um volume de informações visuais e auditivas mais abrangentes e nas quais a palavra escrita é menos usada, abrindo o leque em termos de formação de opiniões.

É cada vez maior tanto a concentração de riqueza abstrata entre os que a detém (dinheiro e mercadorias como representação do valor), quanto o contingente dos que já não conseguem minimamente recursos para o provimento das suas necessidades básicas. 

Conforme recentíssimo relatório da FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a fome não cessa de aumentar mundo afora.
"Amadores!", dizem os banqueiros aos saqueadores comuns
São problemas decorrentes de fatores climáticos como o aquecimento global; da falência da economia real; dos juros altos para os países periféricos devedores; e da falência das finanças estatais, que, somados, implicam a impossibilidade do provimento das necessidades vitais de alimentação (bem como de outras demandas sociais básicas).

Os índices de desnutrição aumentaram na África, América do Sul e se mantêm em níveis elevados na Ásia (maior contingente populacional do mundo); acirra-se o quadro mundial de disputa entre os que conseguem se manter economicamente sustentáveis e os que apenas são vistos, pela ordem econômica, como párias que consomem sem produzir valor. 

Segundo a FAO, na África cerca 370 milhões de pessoas passam necessidade e a quarta parte da população do continente tem sintomas de desnutrição. Regimes totalitários ou democraticamente perpetuados e apoiados por forças militares impõem ao povo africano a migração em massa (sob condições de absoluto risco) pelos mares, em busca de uma nova vida numa Europa que é cada vez mais intolerante à imigração. 

O fenômeno da imigração é mundial; por aqui, vemos haitianos, bolivianos e venezuelanos buscarem o nosso país como forma de escaparem das tragédias sociais em seus países. 

Paradoxalmente, vêm para um país que, por sua vez (em que pese a baixo índice de densidade demográfica), é exportador de gente para as nações desenvolvidas, principalmente profissionais especializados e com nível superior de escolaridade.
A cena social mostra os ricos do mundo cada vez mais se encastelando nos seus muros da segregação social com medo da barbárie social capitalista, expressa na violência urbana que assume hoje contornos de guerra civil em muitos países (inclusive no Brasil) e no desespero de imigrantes famintos.  

O muro do qual falamos não é apenas físico (embora sejam visíveis as cercas elétricas, monitoramento de vídeo, guardas, casamatas, etc.), mas, sobretudo social.

O que fomenta o surgimento de salvadores da pátria – Jair Bolsonaro surfa na onda do desconforto social de segmentos privilegiados que acreditam no resguardo dos seus interesses pela força ditatorial, sem considerar os riscos que ele representa; e de pessoas desinformadas que fazem uma leitura superficial e simplista sobre o que está subjacente à nossa tragédia social (com destaque para a extrema superestimação da questão da corrupção com o dinheiro público). 

Bolsonaro pode ser considerado, sem qualquer exagero, como: 
Ele é um evidente misógino...
— machista, conforme se evidenciou no tratamento desequilibrado e grosseiro por ele dado às mulheres parlamentares que algum dia lhe tenham feito oposição na Câmara Federal (está no seu sétimo mandato consecutivo); 
— racista, pois são gritantes seus preconceitos ao referir-se a afrodescendentes e indígenas;
— nacionalista xenófobo, cujo fanatismo é agravado por sua rígida disciplina militarista, na qual busca respostas para problemas que transcendem a sua compreensão limitada dos problemas sociais;
— falso outsider, visto que acumula mandatos legislativos há 27 anos (e os filhos seguem seus passos) mas se apresenta como anti-político; 
— político com pretensões totalitárias, tanto que se refere com desprezo à participação popular e conta, para a sustentação do seu governo, com as forças militares (já prevendo as reações às medidas impopulares que adotará em defesa do status quo capitalista);   
— político desinformado e com chocante conhecimento  das complexas questões que envolvem o cenário econômico mundial e brasileiro;         
— homofóbico, vez que simplesmente agride os gays por terem tal opção e trata os homossexuais como doentes, propondo até a tal cura gay, em voga entre desmiolados;
— terrorista, pois, como sabemos, pretendeu protestar contra os baixos soldos militares fazendo explodir bombas em instalações militares e na adutora do Guandu (tendo, inclusive, entregue a uma repórter desenho de próprio punho, mostrando como sabotaria o abastecimento de água do RJ);
— defensor de torturadores, pois várias vezes exaltou publicamente o exemplo do coronel Brilhante Ustra, que, à época da ditadura, prendia, torturava e matava a sangue frio dissidentes políticos (tidos como subversivos), encenando pretensos embates de rua que apenas serviam como justificativas para assassinatos bestiais de pessoas presas e indefesas;
— parlamentar sem brilho, pois é notório que teve sempre pouca atuação objetiva no sentido de proposições ou mesmo em debates, notabilizando-se apenas por suas bravatas bombásticas e pelas agressões verbais a seus colegas (e a tantos quantos caíssem no seu desagrado); e
— oportunista, pois, apesar de se declarar um anticomunista de carteirinha assinada, fez lobby para a efetivação em cargo público de Aldo Rebelo (PC do B) por conveniência pessoal, de onde se conclui que, ou não via o Rebelo como tão comunista assim, ou ele próprio, Bolsonaro, não passa de um anticomunista de ocasião.
...e tem uma incontida fixação em pistolas.
A síntese que se pode fazer do candidato Bolsonaro é que ele corresponde a um aventureiro desqualificado e perigoso: pode conduzir o já combalido Brasil a uma aventura de resultados imprevisíveis, mas com enorme chance de serem nefastos.

Breve análise do programa de governo do Bolsonaro – o perfil pessoal do candidato Bolsonaro se coaduna com suas propostas de governo ultraconservadoras, que seguramente não resolverão o problema da atual decadência do capitalismo.

Tais propostas confirmam  estar ele imbuído de um pensamento retrógrado que observa o futuro com a nuca, convergindo para a visão de um Estado mínimo voltado para a preservação das regras do jogo capitalista por meio da força militar e do autoritarismo. 

A proposição de redução dos ministérios, comum a muitos candidatos, é antiga e se direciona no sentido da redução do déficit fiscal a qualquer custo social, como prega o Fundo Monetário Internacional para os países periféricos (tal organismo de crédito, contudo, nada tem a dizer sobre a crescente dívida pública e privada dos países desenvolvidos). 

Promete reduzir a dívida pública em 20%, proposição que ainda que fosse conseguida à custa de nossos sacrifícios em nada resolveria o problema dos altos juros dessa dívida pagos pelo Brasil, ponto sobre o qual ele não se pronuncia.

Na esteira de seu pensamento neoliberal e ultraconservador, evidentemente, enxerga na privatização de tudo (previdência social, educação, etc.) a varinha de condão capaz de transformar o inferno capitalista no paraíso. 
O grande Paulo Freire teria mesmo de ser um dos alvos de Bolsonaro

Defende uma visão armamentista, quando diz que a arma é um objeto inerte que pode ser usado para o bem ou para o mal. No caso daqueles a quem Bolsonaro quer armar, a segunda hipótese certamente é verdadeira. 

Para Bolsonaro a propriedade não deve ter função social, devendo qualquer reivindicação de terra para plantar ou morar ser encarada como ato terrorista. 

Para a educação defende o expurgo das ideias de Paulo Freire, como se esse grande educador que criou um método de alfabetização copiado mundo afora fosse responsável por nosso analfabetismo crônico. Quer a educação como mercadoria, e tudo dentro da sua visão de defesa dos conceitos capitalistas e nacionalistas de governo. 

Francamente, não é necessário aprofundarem-se as propostas de Jair Bolsonaro, pois basta uma análise preliminar para se inferir claramente o desastre que seria um governo sob sua orientação, com a resposta aos males sendo buscada na intensificação daquilo que corresponde às suas causas. 

As perspectivas eleitorais do candidato Bolsonaro  é possível que o presidenciável ultradireitista chegue ao 2º turno graças ao atentado que o transformou em vítima, reforçando a ideia que ele tenta transmitir, de que seria um mártir salvador da pátria. Mas, nem mesmo isto são favas contadas.
Sua candidatura, apesar de encontrar guarida numa faixa de eleitores que o consideram capaz de confirmar o dístico ordem e progresso (ou seja, da ordem capitalista e progresso econômico para os burgueses), não tem consistência para a grande maioria do eleitorado. 

As pesquisas de opinião pública demonstram um alto grau de rejeição a Bolsonaro, por parte de eleitores que, por muitas razões, não se identificam com o seu perfil aventureiro. 

Então, a dispersão das intenções de voto torna quase impossível haver um ganhador já no dia 7 de outubro e, num 2º turno, Bolsonaro seria facilmente abatido por qualquer adversário.  

De minha parte, sempre acho que é um equívoco a esquerda bem intencionada (exclusive aquela fisiológica que adora mamar nas tetas do Estado, e mais não é do que uma direita envergonhada) querer o poder estatal. 

Isto porque, quando no poder, a esquerda nada pode fazer senão administrar as inadministráveis finanças públicas e direcionar os parcos recursos para a infraestrutura estatal do capital sem a qual o Estado definha, frustrando, assim, o eleitorado que sempre espera sua redenção a partir da ascensão à Presidência da República de quem proclama a intenção de defender o povo. 

Mas sei do perigo que representa uma candidatura como a do Bolsonaro para as liberdades de opinião e interesses populares no que diz respeito às poucas franquias institucionais ainda existentes e ao atendimento de demandas sociais mínimas.

Um governo com tal perfil somente iria aprofundar as desigualdades, mormente num momento de decadência do modelo social capitalista nos países periféricos como o Brasil.

Mas, mesmo tendo consciência do perigo, entendo que devamos enfrentar as falácias institucionais e o perigo fascista negando legitimidade ao processo eleitoral por abstenção ao voto ou votando nulo.  

O voto é sempre inútil por legitimar a ordem institucional que dá sustentação à ordem econômica segregacionista (ambas se completam); e o voto dito útil, dado como forma de se evitar o mal maior (os ultraconservadores como Bolsonaro) acaba criando expectativas frustradas. 

Devemos sempre enfrentar a crueldade do mal maior com a coragem do confronto que dá adeus às ilusões democrático-burguesas e com posturas que gerem consistentes teses e práticas emancipacionistas, ainda que tais proposições demandem tempo, esforços e sacrifícios.

Apesar de tudo, repito o que disse em artigo anterior: torço pelo seu pleno restabelecimento, quer seja por meu respeito pela vida de qualquer ser humano, seja pela aura de martírio que a sua morte suscitaria e a consequente substituição por outro qualquer de sua estirpe, com chances ainda maiores de vitória.        

Não vote, e, se não puder, vote nulo! (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

terça-feira, 27 de março de 2018

HOJE É DIA DE PARABENIZAR O DALTON ROSADO E DE DETONAR O PATRIOTISMO

Faz exatos dois anos que o Dalton Rosado começou a colaborar com este blog, trazendo abordagens teóricas que rapidamente encontraram um público assíduo e ajudaram sobremaneira o Náufrago a cumprir uma das principais missões que assumiu, a de estimular o exercício do pensamento crítico.

Devemos-lhe cerca de 230 posts impecáveis, nos quais ele dissecou a atualidade brasileira e mundial a partir, principalmente, dos ensinamentos da vertente de reinterpretação da obra de Marx que ficou conhecida na Alemanha como crítica do valor, tendo Robert Kurz como seu expoente mais destacado. Suas abordagens na linha da economia política têm tudo a ver com este momento em que a crise insolúvel do capitalismo se aproxima do inevitável desfecho, produzindo acontecimentos dramáticos em escala mundial.

Como uma pequena homenagem ao Dalton, é republicado abaixo o terceiro dos seus artigos, datado de 4 de abril de 2016 mas, surpreendentemente, mais apropriado para os dias atuais do que para o momento em que foi escrito, pois o patriotismo voltou à tona estrondosamente com a saída do Reino Unido da União Européia e a eleição de Donald Trump, mais último refúgio dos canalhas (conforme a frase lapidar de Samuel Johnson) do que nunca...
O PATRIOTA
"...quase todos os hinos nacionais falam de guerra..."
Todos nós fomos educados dentro de um sentimento de adoração à pátria; de respeito e disponibilidade à defesa dos interesses patrióticos, ainda que com a própria vida; e aconselhados à convivência fraterna com as demais pátrias. 

Entretanto, a lógica das relações sociais internacionais denuncia uma contradição implícita entre o sentimento patriótico e a boa convivência com os demais patriotas estrangeiros. 

Tal como ocorre no interior dos países, onde a cisão social promovida pela lógica das relações sociais sob a forma-valor estabelece cidadãos de primeira classe, os bem aquinhoados, e os de segunda classe, os trabalhadores assalariados de baixa renda (a grande maioria), as relações comerciais internacionais estabelecem uma disputa mercadológica pela riqueza abstrata que se constitui como verdadeira guerra de interesses econômicos entre nações ricas e pobres. 
"...embora a rima ajude..."

Cada Estado defende os interesses privados ou estatais das suas empresas contra as empresas estrangeiras, visando à maior arrecadação de impostos, embora o Estado nacional, a pátria, esteja, agora, na globalização do capital, sofrendo uma fragilização inerente à emigração e decomposição do próprio capital, ou propiciando a formação de blocos, como a União Europeia.

Assim, o sentimento patriótico, que obedece à lógica de disputa mercadológica da riqueza abstrata, na qual cada mercadoria persegue a hegemonia de mercado, é parte da causa do empobrecimento das pátrias perdedoras dessa disputa fratricida.  

A crítica ao patriotismo pode parecer absurda, pois contraria uma lógica que vem sendo positivada nas nossas mentes nos últimos séculos; e isso porque a aceitação da contrariedade significa uma postura de necessária ruptura com tudo que até então nos foi ensinado como bom. 

Defesa de cultura regional e preservação de sentimentos atávicos não devem ser confundidas com patriotadas próprias de posturas xenófobas. É graças a isso quase todos os hinos nacionais falam de guerra, pois é esse o sentimento indutor da separação patriótica. 
"...o patriota é alguém que foi massacrado por uma positivação cultural ora insustentável..."
O senso comum entende que o conceito de patriotismo é cláusula pétrea da melhor compreensão de organização social; questioná-lo corresponde uma heresia, assim como alguém dizer que é contra a lei da gravidade, p. ex.

O patriota não é um idiota (embora a rima ajude), mas apenas alguém que foi massacrado por uma positivação conceitual que ora se torna insustentável graças à falência do modelo social do qual tal qualificação e conceito fazem parte. 

O mundo deve ser uno, sem fronteiras, etnicamente harmônico, culturalmente diverso e solidário no atendimento das necessidades dos seres humanos.
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