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quinta-feira, 6 de junho de 2019

PARA TODAS AS VÍTIMAS DO MUNDO BURGUÊS QUE SE DESINTEGRA – 2

(continuação deste post)
Jamais se ensina na escola o que é a extração de mais-valia e seu caráter socialmente diabólico; muito menos que não há nenhuma sociedade estruturalmente organizada no mundo que não a pratique (aí incluídas as sociedades ditas marxista-leninistas, como as de Cuba e da Coreia do Norte). 

Também não se explicita na escola a sua natureza segregacionista e negativa, justamente porque não há escola sem partido e as escolas das sociedades mundiais capitalistas têm um único e verdadeiro partido: o capitalismo, seja ele liberal ou estatista. 

A estrutura montada  e moldada pela lógica do valor ao longo dos três últimos milênios introjetou nas mentes humanas a submissão ao fetichismo da mercadoria, que nada mais é do que a aceitação de uma mediação social na qual coisas inanimadas (os objetos transformados em mercadorias) assumem personalidades na vida social e submetem os homens que criaram tal mediação à sua lógica autofágica de reprodução cumulativa, segregacionista e autotélica, cujo único desiderato é a própria acumulação vazia de sentido humano e social.
Tendo tal lógica fetichista, matemática e desumana agora atingido o ponto de saturação por força de suas contradições internas (e não por ação externa teoricamente contrária), inviabilizando celeremente a vida social e ecológica planetária, o saudável seria caminharmos para a frente na busca de alternativas. 

Estamos, contudo, caminhando para trás, na ilusão de que se possa restaurar um passado que, embora fosse menos ruim do que o presente, nem de longe poderia ser considerado satisfatório.

O esplendoroso saber científico da humanidade, infelizmente não encontra correspondência no saber acadêmico e popular sobre a essência dos mecanismos que regem a nossa vida social. 

Isto ocorre justamente porque nos é proibido conhecer os segredos do quarto escuro no qual estão guardados a sete chaves os ensinamentos que fariam implodir todo o universo de conceitos e valores decadentes ainda em vigência.                                                                                                                                   
2o poder econômico e o apoio estatal ao capitalismo decadente –  Os mecanismos de dominação econômica e institucional estão a manietar diariamente o cidadão desesperado, de modo a que ele permaneça preso à lógica do sistema, procurando a ele adaptar-se, mesmo que ao preço da morte de seus semelhantes. Isto é o que de mais terrível se pode observar como fato social.

Se o fetichismo da mercadoria torna todos adversários de todos sob o primado da concorrência de mercado, é a força do capital (concentrado e disputado como se travássemos um jogo da morte no qual quem perde morre e quem ganha sobrevive) aquilo que impede proposições teóricas e práticas alternativas ao domínio impessoal e fratricida da lógica do valor. 

A coisa é de tal forma dominante do pensar que ninguém consegue racionar fora do pensamento da fria lógica numérica capitalista, daí tantos aceitarem a a tese de que seria justo se fazer o ajuste fiscal à custa do sacrifício do povo como forma (falaciosa) de se salvar esse mesmo povo. Não é por menos que expressivos membros do parlamento cobrem de loas o mercador de ilusões Paulo Guedes, que tudo faz para convencer os brasileiros da pretensa irrefutabilidade desse tese.

Chega a ser irritante constatarmos que tantos não consigam racionar fora dos padrões estabelecidos, como se o pensar dos brasileiros estivesse preso numa jaula de ferro mental inexpugnável.    

É o próprio poder econômico e o Estado que lhe dá proteção institucional por meio da lei (direito burguês) e da força (exércitos regulares e polícia), a razão da opressão social, cujos custos de manutenção são subsidiados por contribuintes economicamente exauridos pelos tributos deles arrancados. 

Mas quem sustenta o Estado (o povo) não percebe os mecanismos da submissão que lhe é imposta; aliás, no geral, o oprimido contribuinte vê o seu opressor como um protetor e reivindica cada vez mais a presença social desse mesmo estado.    

Assim, foi graças à inconsciência educacional sobre a natureza dos mecanismos de mediação social em vigor, aliada a uma força econômica e institucional opressora, que nossa sociedade chegou ao atual salve-se quem puder.

Entretanto, nunca estivemos tão próximos de um estágio superior de civilização, proporcionado pela evolução do saber tecnológico que vem alterando as relações sociais de produção, às vezes de modo pouco perceptível. Tais mutações sempre ocorreram no itinerário da humanidade quando novas relações de produção são estabelecidas e forçam um novo contrato social. Tal fenômeno está agora a ocorrer celeremente. 

Cabe-nos a tarefa de estabelecer um modo de produção fora da forma-valor, que substitua o velho decrépito pelo novo auspicioso. 

Para tanto, teremos de enfrentar de uma vez por todas esse Sansão envelhecido que está ficando careca e perdendo a força que lhe provinha do poder econômico. É hora de apressarmos a chegada da sua calvície...
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(por Dalton Rosado)

sexta-feira, 30 de março de 2018

PARA OS SENHORES DO MUNDO, A BEM-AVENTURANÇA É SEMPRE SUBVERSIVA

O estraga-matinês
Quando eu era criança, na 6ª Feira Santa os cinemas de bairro só passavam filmes religiosos toscos, de um primarismo atroz, por serem os que lhes custavam menos.

Um se chamava 
O Mártir do Calvário. Outro, Vida, Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo. Devem ter existido mais de que eu não esteja recordando.

As cópias eram sempre as mesmas, já que não compensava fazer novas para aproveitá-las só uma vez por ano. Estavam em petição de miséria,  tremidas, puladas, chuviscadas e embaçadas.

Os cinemas  pulgueiros  nem cogitavam exibir uma superprodução como Os Dez Mandamentos. Não só pela diferença no preço, mas também porque, com seus 220 minutos mais o intervalo entre a primeira e a segunda partes, ficaria restrito a duas sessões. Péssimo negócio.

O certo é que, na minha infância, eu me tornei avesso a filmes bíblicos. Além de não me interessarem, impediam que eu aproveitasse a folga escolar como gostava, vendo bangue-bangues, comédias, ficção-científica, capa-e-espada, etc. De que valia um feriado sem matinê?

Lá pelos 17 anos, no começo do meu engajamento político, assisti com algum interesse à visão marxista da trajetória de Cristo: O Evangelho Segundo São Mateus (1964, d. Pier Paolo Pasolini). Mas, não me deslumbrei. Muito árido, parecendo mais teatro antigão do que cinema.

Em 1973, entretanto, Jesus Christ Superstar me atingiu como um raio.
Os Dez Mandamentos, versão 1956: longo demais.

Transposição para o cinema da opera-rock de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, era, em primeiro lugar, belíssimo, com ótimas coreografias, músicas marcantes e o verdadeiro achado de filmá-lo em ruínas e desertos de Israel.

Norman Jewison, o diretor, tem grandes filmes no seu currículo, como A Mesa do Diabo (1965), No Calor da Noite (1967), Rollerball - Os Gladiadores do Futuro (1975), A História de um Soldado (1984) e Hurricane (1999). Faz mais o gênero artesão, porém com muito bom gosto e sensibilidade.

O que realmente me fez a cabeça foram as letras pra lá de inteligentes de Tim Rice, apropriadíssimas para cada situação enfocada (o filme mostra os últimos sete dias de Cristo), além de proporem um enfoque absolutamente novo e fascinante: os personagens principais do drama bíblico são mostrados como vítimas de uma armadilha do destino, forçados a agir contra suas propensões e preferências.

Cristo segue as ordens de Deus, mas gostaria mesmo é de continuar vivo. Sua relutância e temor do sacrifício se ressalta, principalmente, na sequência do Gethsemane, quando ele pergunta ao Criador por que, afinal, deve morrer. No final do tema musical, pede que, se essa é a vontade de Deus, então que o mate e o pregue na cruz... mas, o faça depressa, antes que ele mude de ideia.
Jesus Christ Superstar: personagens bíblicos se debatem numa armadilha do destino 
Pilatos não vê crime em Cristo e tenta salvá-lo de todas as maneiras, só cedendo diante da fúria da multidão, que ameaça denunciá-lo a César.

Judas não quer ser delator, mas teme uma retaliação terrível de Roma sobre seu povo, caso as pregações de Cristo prossigam. O episódio da expulsão dos vendilhões do templo o leva a crer que a situação foge ao controle e terminará num banho de sangue. É quando decide entregar Cristo aos inimigos.

Caifás age para preservar a autoridade dos sacerdotes, igualmente temendo que Roma intervenha caso eles já não consigam mais manter dócil o povo.

Enfim, nunca me agradou a visão de que o drama bíblico já fora inteirinho escrito por um roteirista das alturas e era representado mecanicamente pelos homens, obedecendo à vontade de um Deus que não admitiria questionamentos. 
Traição de Judas revisitada: ele queria evitar um massacre 

Colocada a coisa desta forma, tornavam-se todos títeres, Cristo inclusive. E títeres não me provocam empatia.

Ao humanizar esses personagens, destacando o sofrimento que lhes causava o papel para o qual estavam sendo empurrados, a ópera-rock e o filme apresentaram o drama bíblico como uma tragédia nos moldes gregos, em que homens imbuídos até de boas intenções são arrastados inapelavelmente para desfechos terríveis e injustos.

Esse evangelho na ótica da era hippie continua sendo o melhor de todos, pelo menos para quem, como eu, quer extasiar-se com a arte e não venerar aquilo que é tido como sagrado.  

Vale acrescentar que os apóstolos e os hippies tinham mesmo muito em comum: sua mensagem de paz e amor contrariava os desígnios dos poderosos e era por eles duramente combatida – já que, para os senhores do mundo, a bem-aventurança é sempre subversiva.
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