terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O JULGAMENTO LEGAL DO LULA AINDA NEM COMEÇOU, MAS O MORAL VOCÊ PODE CONHECER DESDE JÁ.

Por Clóvis Rossi
OS CRIMES COMPROVADOS DE LULA QUE
SÓ O ELEITOR TEM CONDIÇÕES DE JULGAR
Às vésperas da decisão do TRF4 sobre o caso Lula, é obrigatório repetir o que escrevi no dia 13 de julho do ano passado: "Prefiro que Luiz Inácio Lula da Silva seja julgado pelos eleitores, no pleito presidencial de 2018, do que impedido de concorrer por uma decisão judicial.

A menos, óbvio, que as investigações sobre o ex-presidente cheguem a um batom na cueca, caso em que merece ser condenado e preso".

Acrescento o que faltou dizer em 2017: as únicas pessoas autorizadas a decidir se há ou não um batom na cueca, do ponto de vista jurídico, são os integrantes do TRF4. Não são os amigos e/ou correligionários de Lula nem seus inimigos e/ou adversários.

Ou o Brasil aceita de uma vez por todas a prevalência das instituições —no caso, o sistema judicial— sobre interesses pessoais e eleitorais ou jamais chegaremos a ser um país civilizado.

Explico agora porque prefiro o julgamento das urnas: está perfeitamente comprovado que Lula cometeu um crime do ponto de vista do comportamento político, ético e administrativo, seja ou não dono do tal triplex. 

Não é apenas a minha opinião: foi o que disse à Folha, no domingo, 21, Cesar Benjamin, que conhece o PT e seu líder por dentro, por ter coordenado a campanha de Lula à Presidência em 1989 e por ter sido um dos fundadores do PT (saiu, desiludido, em 1995): 
"Como cidadão, sei que ele [Lula] deve ser condenado politicamente, pois, ao escancarar as portas do Estado para a corrupção e aceitar a função de lobista de grandes empresas, não manteve a dignidade que se espera de um presidente da República e um líder popular".
É isso, simples assim.

Há mais, usando de novo o texto publicado em julho passado:

1 - Está comprovado que a Petrobras foi o epicentro de um gigantesco esquema de corrupção, durante o governo Lula (e também com Dilma Rousseff).

As provas, nesse capítulo, são caudalosas, inclusive e principalmente a confissão de ex-diretores e devolução de dinheiro. Ninguém devolve dinheiro auferido legalmente.

Se Lula participou do esquema de corrupção, não sei. Mas chefe que deixa roubar é sempre politicamente culpado.

Que Lula sabia da corrupção, prova o fato, confessado por ele próprio, de que cobrou Renato Duque, um dos diretores envolvidos, sobre o esquema montado na empresa estatal.
2 - Que o PT se lambuzou com a corrupção é também fora de dúvida. A expressão lambuzou-se não é do juiz Sergio Moro, mas de Jaques Wagner, um dos principais cardeais petistas.

Lula, como principal liderança do partido, pode até ser inocente de tudo, mas, mesmo que o seja, demonstrou não controlar o apetite voraz de seus companheiros.

Ou é conivente ou omisso, crimes políticos imperdoáveis.

3 - Que há uma escandalosa promiscuidade entre Lula, a Odebrecht e a OAS, entre outras construtoras, também ninguém discute.

Lula se transformou em caixeiro viajante a serviço da Odebrecht, uma empresa que confessa ter adotado práticas impróprias.

Só Lula não sabia dessas práticas? O ex-presidente, no cargo ou depois de deixá-lo, nunca escondeu que vendia empresas, produtos e serviços brasileiros em outros países, entre eles principalmente a Odebrecht.

Ou, posto de outro modo, a corrupção transformou-se, com Lula, em produto de exportação, de que dá prova, por exemplo, o fato de que todos os presidentes peruanos deste século receberam propinas da Odebrecht. Um deles está até na cadeia.

Não é só a Odebrecht: é escandalosa a familiaridade com que Lula se referia, no depoimento a Moro, ao Leo, que vem a ser Leo Pinheiro, presidente da OAS, que se deu ao trabalho de sair do seu escritório para servir como corretor para vender (ou doar) um apartamento a Lula.

Essa gestão também está comprovada e, mesmo que não haja ilegalidade, é moralmente inaceitável quando todo o mundo sabe que empresas como a OAS (e a Odebrecht) dependem de negócios com o poder público.

O elenco de detalhes desabonadores para o ex-presidente poderia estender-se, mas já basta para voltar ao início deste texto: o ideal seria que o eleitorado decidisse se são suficientes para não votar em Lula ou se a maioria não se incomoda com eles. 

Demonstraria se o caso Lava-Jato foi suficientemente pedagógico para o eleitorado brasileiro ou se ele prefere continuar sendo mal educado para usar o rótulo (correto) que Washington Olivetto pespegou no Brasil, na sua entrevista deste domingo (21) à Folha.


Celso Lungaretti
LULA É HOJE UM PERSONAGEM NOCIVO PARA
IMPRESCINDÍVEL REVOLUÇÃO BRASILEIRA
O artigo do veterano e ótimo jornalista Clóvis Rossi é uma espécie de julgamento moral do Lula, à luz dos valores republicanos e do Estado democrático de Direito, que têm sido incensados pelo PT desde que abandonou de vez a luta contra a exploração do homem pelo homem e, consequentemente, pela substituição da democracia burguesa por uma democracia que pertença a todos e a todos expresse, ao invés de um mero arcabouço institucional da imposição dos interesses da classe dominante aos dominados.

Meu ângulo de análise é outro, o de um revolucionário que está se lixando para os valores republicanos e o Estado democrático de Direito. Então, não me aterei a detalhes policiais do caso, mas, tão somente, ao papel histórico do Lula.

Nordestino pobre que, embora tenha vindo para São Paulo aos sete anos de idade, absorveu as influências do coronelismo (tanto que sempre se deu bem com os ACM's e Sarneys da vida), mesclando-as depois com as do nascente sindicalismo de resultados do final da ditadura.

O certo é que sua projeção como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) se deu graças a greves sobre as quais sempre pairou a suspeita de que fossem combinadas com as grandes montadoras: querendo livrar-se do congelamento de preços que a ditadura lhes impunha, interessava-lhes que houvesse tais paralisações, dando-lhes pretexto para cobrar mais pelos veículos como forma de compensar os aumentos de salários por elas concedidos. Os ministros da Fazenda da ditadura acabavam cedendo às suas pressões e abrindo uma exceção para elas. 

Durante tais greves, muitos militantes de esquerda tentavam entrar no território de Lula e sua patota sindicalista, sendo firmemente rechaçados. 

Depois, contudo, com a volta de Leonel Brizola ao Brasil, Lula percebeu que, se o deixasse sair na frente na organização de um partido de esquerda, acabaria se tornando um mero satélite na sua órbita. Mas, como estruturar um partido nacional se ele e seus seguidores só eram influentes em São Paulo? 
Assim, embora viesse até então mantendo zelosamente os esquerdistas de fora  do ABC afastados das assembleias no estádio de Vila Euclides, foi obrigado a negociar com os ditos cujos para ganhar a abrangência que lhe permitisse travar uma disputa equilibrada, pela hegemonia da esquerda, com o PTB (acabou sendo PDT) de Brizola. 

As forças que se uniram para formar o Partido dos Trabalhadores foram os sindicalistas do ABC, os partidos e grupos de esquerda que haviam sobrevivido ao terrorismo de Estado da ditadura e a chamada esquerda católica.
Ou seja, circunstancialmente Lula foi obrigado a somar forças com a esquerda, mas nunca morreu de amores por ela. Solapou sua influência na década de 1980 estimulando o inchaço do PT (a permissão do ingresso em massa de ambiciosos de todo tipo, interessados num bolso mais cheio e não numa sociedade mais justa), apoiando o expurgo de tendências como a Convergência Socialista e, enfim, alinhando-se sempre com as posições que conduziam à desideologização do partido.

A seu mando, Zé Dirceu fechou com os poderosos da economia o acordo pelo qual estes não se oporiam à eleição e posse de Lula como presidente da República, comprometendo-se o novo governo, em contrapartida, a não tomar decisões macroeconômicas desfavoráveis aos donos do Brasil. Cada vez que eu o escutava repetir que os banqueiros nunca haviam lucrado tanto quanto com ele no poder, quase vomitava!

Então, o verdadeiro significado dos governos petistas foi o engessamento da luta contra o capitalismo, com os explorados sendo levados a crer que, de migalha em migalha, acabariam enchendo o papo. Mas, quando a economia entrou em crise e não havia mais migalhas a distribuir, as galinhas se viram sob uma das piores recessões brasileiras de todos os tempos e cruzaram as asas enquanto Dilma Rousseff era enxotada do poder. 

O que poderemos esperar de Lula, caso os poderosos lhe permitam concorrer à eleição presidencial e, vencendo, ser empossado? 

Existe alguém que acredite numa conversão miraculosa aos ideais revolucionários? 

Ou ele protagonizará mais uma (de antemão fracassada) tentativa de provar que a conciliação de classes e o reformismo ainda podem fazer a felicidade do povo brasileiro, embora tal crença nos faça marcar passo desde 1986?

Neste sentido, eu também prefiro que Lula seja rechaçado pelo eleitorado e não afastado da eleição pela Justiça burguesa. Pois, hoje, ele não passa do obstáculo para que os explorados tomem seu destino na mão e passem a construir uma sociedade bem diferente dessa atual, que se mostra cada vez mais desigual e bárbara. 
  
O certo é que, aconteça o que acontecer no julgamento legal do Lula, seu papel histórico já está encerrado. Deveria ter pendurado as chuteiras há muito tempo.

Torço para que sua aposentadoria não se dê sob a humilhação e o constrangimento das grades, pois é algo que nenhum ancião merece, quando não tiver cometido crimes hediondos nem se constituir numa ameaça para a sociedade. Mas, para a necessária e imprescindível revolução brasileira, ele hoje não passa de um personagem nocivo.

(o texto é definitivo, a edição será completada mais tarde)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

UM PARADOXO: O MERCADO IMPÕE A ROBOTIZAÇÃO QUE O DESTRÓI!

"Quando não há caminhos traçados,
nós voamos" (Rainer Maria Rilke)
Ao acreditar que a eliminação do patronato privado bastasse para levar a classe operária ao paraíso, o marxismo-leninismo do movimento operário deu uma demonstração do seu equívoco analítico, bem como de de que não conhecia o Marx esotérico e suas concepções verdadeiramente científicas. 

Em todas as experiências marxista-leninistas tradicionais estava presente a famigerada figura do mercado, demonstrando cabalmente que nessas experiências estavam também presentes todas as categorias capitalistas existentes no capitalismo liberal burguês e, portanto, diferenciando-se destas últimas apenas na forma política de acesso e administração do Estado e no conteúdo jurídico da propriedade, sem aboli-la.

É no mercado que se torna realizada a expectativa de extração da mais-valia pelo capital, posto que, se ali não se realiza o valor de troca da mercadoria produzida, tudo se transforma em prejuízo, no sentido da produção acumulada do valor. 

Assim, o mercado é, ao mesmo tempo, o altar da verdade econômica capitalista, bem como o local de aferição estatística de valor médio mundial de trabalho abstrato coagulado nas mercadorias. É o termômetro de aferição do valor.

É no mercado, local em que as mercadorias se digladiam em busca da própria hegemonia, que se afere o quantum de trabalho abstrato exigido para a viabilidade econômica da produção das ditas cujas, ficando sinalizada a incessante necessidade de redução dos custos de tal produção.

Nesse confronto épico das mercadorias no mercado reside o mais importante paradoxo capitalista: a necessidade de diminuição dos custos de produção como fundamento para a vitória na guerra concorrencial de mercado, a qual somente é possível com a redução crescente do trabalho abstrato (ou redução média do valor do trabalho) e o incremento contínuo e aumentado do próprio valor, por sua vez somente possível pelo trabalho abstrato. 

Esta contradição inconciliável da lógica capitalista evidencia a sua completa irracionalidade como modo sustentável de mediação social, conforme o Marx esotérico previu há 160 anos. Não devia ser uma novidade para os marxistas, posto que, certamente, não o é para os economistas minimamente conscienciosos da dinâmica capitalista.

DESNÍVEL DE PRODUTIVIDADE ENTRE 
OS PAÍSES ESTÁ INVIABILIZANDO A 
VIDA PLANETÁRIA SOB O CAPITALISMO
.    
Desde há muito que os economistas que gerem o controle monetário dos países capitalistas sabem que o grande mundo do capital (os integrantes do G7 e seus Bancos Centrais) emitem moedas internacionais sem lastro, que somente não causam inflação em seus próprios países porque são exportadas para a restante dos países emissores de suas moedas não aceitas no mercado internacional.

É assim que funciona: os países ricos ditam a sua opressão mercadológica e uma das suas formas se processa via emissão de moedas internacionais, o que lhes viabiliza a vida, aí incluída a produção de mercadorias e compra destas para as satisfações dos seus elevados padrões de consumos locais, em padrões bem diferenciados dos demais. 

Entretanto, a corrosão causada pelo desnível de produtividade de uns países com relação a outros na guerra concorrencial de mercado está inviabilizando a vida planetária sob o capitalismo, sendo esta a razão da decomposição institucional dos países periféricos e do surgimento do terror como ingrediente recorrente do estado de barbárie social mundial. 

No período pré-capitalista as relações de produção envolviam a necessidade de grande contingente de mão-de-obra bruta, sempre pouco especializada, principalmente porque toda a produção advinha do setor primário da economia, no qual a produção rural agrícola era preponderante. 
Com o advento do rápido desenvolvimento capitalista que provocou o aparecimento da máquina a vapor e na sequência o domínio tecnológico da mecanização da produção de mercadorias a partir dos combustíveis fósseis e da energia elétrica, presenciou-se o processo de modificação social crescente que resultou na primeira revolução industrial inglesa, por volta da metade do século XIX. 

Os desempregados em massa (principalmente das indústrias têxteis inglesas que substituíram os teares manuais dando ensejo ao aparecimento dos luddistas, desempregados que quebravam as máquinas no condado de York, Inglaterra, em 1812) puderam ser substituídos por novos nichos de mercado de trabalho que surgiam. 

Isto proporcionou a ascensão capitalista dos países produtores, com o uso das novas tecnologias e conquistas sociais que deram a falsa impressão do caráter civilizatório do capitalismo nesses mesmos países, como se o mesmo processo pudesse se repetir nos países periféricos, algumas colônias, importadores e exclusivamente produtores de matéria prima.  

No início do século XX surgiu a segunda revolução industrial, ou revolução fordista, com o advento da engenharia de produção taylorista (uso da tecnologia mecânica com a produção em série esteira de produção, na qual ocorre uma sincronia de movimentos que eleva o nível de produtividade). Parafraseando a frase célebre de Clausewitz, a 1ª Guerra Mundial foi uma continuação, por outros meios, da disputa entre os países pela hegemonia de mercado com as novas concepções heterogêneas de produtividade de mercadorias.

Com a guerra e suas consequências veio a depressão econômica; e esta desembocou na 2ª Guerra Mundial, como consequência da primeira e pelos mesmos motivos. 
Um quarto de século depois, chegamos à era da terceira revolução industrial e seus primeiros passos na introdução da microeletrônica, que promoveria a revolução cibernética; da comunicação via satélite; e da robotização.

Nunca antes a produção de mercadorias sofrera uma transformação tão rápida e profunda, com consequências igualmente transformadoras da vida social. 

Tudo nos leva a concluir que seja a transformação do modo de produção social o motor das transformações sociais para melhor ou para pior, e não a política, que apenas obedece aos ditames da ordem econômica em mutação. A política não determina as mutações da produção de mercadorias ditada pelo mercado, apenas se ajustando a elas. 

ROBOTIZAÇÃO EM DESTAQUE 
NO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL
.
Assim, não é difícil de se compreender o porquê das preocupações do Fórum Econômico Mundial (em sua reunião que terá início nesta 3ª feira, 23, na cidade suíça de Davos) com a introdução cada vez mais presente da robotização na produção e suas consequências desastrosas para toda a lógica de mediação social patrocinada pela forma-valor, ou seja, pelo capitalismo. Até porque, uma recente e bombástica previsão da consultoria McKinsey, segundo a qual a robótica eliminará até 800 milhões de emprego até 2030, vem repercutindo intensamente no mundo inteiro.
É que o desemprego estrutural, que põe à margem da produção e do consumo milhões de trabalhadores mundo afora, não apenas causa a miséria destes como ameaça a própria sustentabilidade da ordem econômica mundial (e isto sim é importante para eles!). Hoje há uma defasagem entre a criação de novos nichos de emprego (a menor) promovida pela mesma tecnologia que promove o desemprego (a maior). 

Agressão ecológica (que é outro fator preponderante na autofagia capitalista) à parte, as soluções levantadas para o problema se cingem à esfera da imanência capitalista.

Propostas como a do ex-senador e atual vereador Eduardo Suplicy (um dos poucos que se salvam na decomposição moral dos políticos brasileiros), concomitantemente levantada pela Consultoria McKinsey, de criação de um salário base para toda a população economicamente ativa, como se fosse um seguro-desemprego, é ingênua. Esbarra no fato de que tal remuneração se dá em dinheiro; e, como sem trabalho não há dinheiro, ela é simplesmente inexequível.   

A questão é que a superação do trabalho abstrato e consequente introdução de atividades laborais sem remuneração que visem à produção de bens e serviços destinados apenas à satisfação das necessidades de consumo sociais e não ao lucro, implica a superação do capitalismo; este parece ser um tabu intransponível, como se a humanidade não pudesse optar por outro modo de produção. 

Vejamos o tamanho da encrenca que os defensores do capitalismo vão ter de encarar nos debates do Fórum Econômico Mundial de Davos:
a Organização Internacional do Trabalho, órgão de insuspeita ligação com a ordem capitalista mundial, afirma que até 2030, de 400 a 800 milhões de trabalhadores economicamente ativos estarão desempregados mundo afora, o que representa de 11% a 23% da população mundial inserida na produção de mercadorias e serviços (que também é mercadoria); 
— que foi de 9% o aumento da robotização na produção industrial e de serviços desde 2010 até a presente data e tal esse índice tende a aumentar, provocando mais desemprego. 
No Brasil, segundo o relatório da mesma Consultoria McKinsey, teremos: 
— a introdução de 11.900 robôs entre 2015/2030, com a Embraer à frente do processo, como modo de fazer frente à concorrência internacional de mercado no setor da produção de aeronaves, segundo seu presidente Guilherme Sousa; 
— 1,7 milhões de trabalhadores afetados pela robotização até 2030; 
— 60 mil cargos públicos serão extintos como ajuste ao déficit fiscal;— e por aí vai. 
Há que se pensar fora da caixa (ou do$ caixa$?) na questão dos impasses mundiais da produção social, sob pena de sucumbirmos na barbárie social e ecológica já em curso. 

Por que não produzir apenas para satisfazer necessidades sociais ao invés do lucro? Há alguma coisa de muito podre no reino da hipocrisia da economia mundial. (por Dalton Rosado)

domingo, 21 de janeiro de 2018

UMA OBRA-PRIMA DO MESTRE SERGIO LEONE: "ERA UMA VEZ A REVOLUÇÃO"

Se você estranhou o título deste post, tem toda razão: não existe no Brasil um filme intitulado Era uma vez a revolução.

Mas, se dependesse do magistral diretor italiano Sergio Leone, esta seria, em todos os países, a denominação da segunda obra da trilogia iniciada por Era uma vez no Oeste (1968) e encerrada com Era uma vez na América (1984).

Por razões que a própria razão desconhece –mas a indústria cultural conhece muito bem!–, o Once upon a time the revolution virou Duck You Sucker ou A Fistful of Dynamite nos EUA, Giù la testa na Itália e Quando explode a vingança no Brasil. Só os franceses respeitaram a vontade do criador: Il était une fois la révolution.

O que fez certo sentido, se levarmos em conta a intenção de Leone, de sempre atingir o grande público (oferecendo-lhe, contudo, algo além do mero entretenimento). Mas, para que lograsse o intento de atingir todo e qualquer público, era imprescindível evitar que o filme fosse proibido pelas ditaduras do 3º mundo e boicotado pelas empresas distribuidoras no 1º mundo.  Revolução  no título certamente atrairia atenções indesejáveis. Vai daí que...

Além do artesanato impecável de imagens e de músicas que se completavam às mil maravilhas, dos enquadramentos inovadores (com closes tão extremos que evidenciavam até as menores rugas de um Charles Bronson) e das atuações soberbas de atores que não tinham ainda recebido o merecido reconhecimento (foi ele quem projetou Clint Eastwood, p. ex.), Leone se destacava por embutir nos seus filmes mensagens e discussões as mais importantes e necessárias, mas que dificilmente tinham guarida no cinema dito comercial.

Era como um bolo em camadas: os espectadores medianos tinham ação de sobra para satisfazerem-se, enquanto os mais sofisticados captavam conteúdos como o antibelicismo de Três homens em conflito, o repúdio ao capitalismo monopolista em Era uma vez na América, etc.

Em Quando explode a vingança, o fio condutor é a amizade improvável entre um bandido mexicano que, ajudado por sua filharada, quer realizar um um grande assalto a banco (Rod Steiger) e um ex-militante do IRA que, foragido do seu país, ganha a vida como dinamitador a serviço da mineração (James Coburn).
Leone saúda os anônimos homens do povo como os verdadeiros heróis das revoluções, contrapondo-os aos líderes que acabam sempre traindo a causa –tanto no México (o médico interpretado por Romolo Valli) quanto na Irlanda (o dirigente do IRA, papel confiado ao ator neozelandês David Warbeck).

É uma produção de 1971, quando os dois maiores partidos comunistas do ocidente vinham de decepcionar terrivelmente os esquerdistas autênticos, seja voltando as costas aos movimentos de 1968 (o PC italiano), seja somando forças com o governo burguês para salvá-lo dos jovens rebeldes, ajudando a abortar uma revolução que já estava nas ruas (o PC francês).

O desencanto com tais traições impregna o filme, que parece também lançar um alerta de que as Brigadas Vermelhas e congêneres marchavam para um destino trágico.

Um detalhe significativo  é Leone ter mostrado de forma totalmente desumanizada o comandante das forças contra-revolucionárias (Antoine Saint-John), a ponto de ele não proferir uma única palavra.

É visto escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, olhando pelo binóculo. Leone não lhe concede sequer a dignidade da fala para, de sua forma sutil, expressar o desprezo absoluto que sentia pela direita troglodita e seus jagunços fardados.

Outra grande sacada do mestre italiano é ressaltar que a História nunca fixa a versão correta dos fatos. A frase que o irlandês sempre repete, sobre "os grandes e gloriosos heróis da revolução" (aludindo a quem, na verdade, não o era), constitui-se num primor de sarcasmo.

sábado, 20 de janeiro de 2018

UMA PARÁBOLA APOCALÍPTICA SOBRE A REBELDIA JOVEM DE 1968: "SE...."

Os dois filmes que marcaram o indelevelmente o ano de 1968, para os que vivemos o sonho e ainda o temos como um referencial maior de nossas existências, foram A chinesa (d. Jean-Luc Godard) e Se.... (d. Lindsay Anderson). 

E a obra-prima do pós-1968, evidentemente, é Jonas, que terá 25 anos no ano 2000 (d. Alain Tanner, 1976), que já disponibilizamos aqui.

A chinesa, que estreou na França em agosto de 1967 mas só chegou ao Brasil no ano seguinte, mostra um grupo de jovens reunidos numa comunidade para aprenderem teorias revolucionárias e tentarem viver e se relacionar como homens novos. Quando os ventos de mudança sacudiram a França em 1968, A chinesa foi, merecidamente, considerado um filme premonitório.

Se...., por sua vez, foi estrelado por Malcolm McDowell (ícone dos filmes que então se faziam sobre a rebeldia jovem) e estreou em dezembro de 1968. Tem pontos de contato com as jornadas contestatórias, mas também diferenças significativas. 
A mais óbvia é mostrar três alunos rebeldes, atritados com o sistema educacional e que são rechaçados inclusive pelos seus colegas. Até faz sentido se pensarmos apenas na Inglaterra, mas em vários países do continente europeu a contestação foi razoavelmente popular entre os estudantes, de forma que o trio não estaria tão sozinho.

Para introduzir Se...., citarei trechos do ótimo livro Um olhar sobre o cinema, de Humberto Pereira da Silva, conforme foram reproduzidos no blog Convergência Cinéfila, um dos melhores do Brasil na área cinematográfica.
"If...., de Lindsay Anderson, Palma de Ouro em Cannes em 69, foi justamente concebido em 68 e trata da rebeldia estudantil numa instituição de ensino inglesa (chamada apenas de Academia).
Tendo como fonte o livro Crusaders (Guerrilheiros), de David Sherwin, If.... se insere no rol de filmes que hoje servem de referência para a compreensão do espírito de rebeldia dos anos 60 e ainda situam a ação no ambiente escolar (a escola, na época, era entendida por muitos como entrave à mudança de costumes –minissaia, cabelos compridos, liberação sexual– e aparelho de manutenção da ordem burguesa). 
...a Academia, em If...., ao contrário da platônica, é o lugar da conservação, da manutenção de valores tradicionais, da ordem e da disciplina: e, na mesma medida, avessa à controvérsia, ao embate de ideias. 
Com isso, o que se tem então neste filme de Lindsay Anderson é um caráter deliberadamente irônico e alegórico (ironia que se pode observar já no título: à conjunção se não se segue um verbo no subjuntivo, mas quatro pontinhos). 
Linday Anderson concebeu If.... na forma de capítulos; como num romance, ou num livro escolar, os títulos anunciam o tema narrativo... [seguindo] a seguinte ordem: 1. Moradia estudantil; 2 A Academia; 3. Tempo do período; 4. Ritual e Romance; 5. Disciplina; 6. Resistência; 7. Rumo à guerra; e 8. Guerrilheiros. Os episódios do filme opõem os Crusaders e os Wipps, que representam a ordem na Academia. 
Para cada capítulo, ou episódio, a composição da ambiência, as linhas que indicam situações que culminam no confronto final entre estudantes rebelados e os representantes da ordem institucional...
...[no final] os três [estudantes rebeldes] são acusados de causar transtornos e, com isto, macular a imagem da instituição. A fim de que a Academia não se revele pusilâmine, eles são então punidos com chibatadas de vara de marmelo...
...Após a punição, (...) fazem pacto de sangue cujo significado se dará a conhecer no [apocalíptico] final".

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

WOODY ALLEN E A LÂMINA SINISTRA QUE CAI SOBRE QUALQUER CABEÇA SÓ PORQUE ALGUÉM SOLTOU UM GRITO

Por João Pereira Coutinho
"...em 2014, em carta para o New York Times, Dylan Farrow, a filha adotiva de Woody Allen, acusou o pai de a ter molestado sexualmente na infância.A história era conhecida desde 1992. Mas também era conhecido o veredito da justiça: Woody Allen estava inocente.

Pior: o irmão de Dylan acusou Mia Farrow, então em pleno divórcio litigioso com Woody, de ter manipulado a filha para que esta acusasse o pai desse repugnante crime.

Fim de história?

Longe disso: Hollywood descobriu agora que Woody Allen, 25 anos depois, tem lepra. Perdi a conta aos atores —passados e presentes— que rasgam as vestes em público e mostram arrependimento por terem trabalhado com ele.

Outros, preventivamente, declararam que jamais trabalharão com o diretor. Desse coro, Alec Baldwin foi uma exceção: depois de relembrar que Woody Allen foi ilibado das acusações, o ator declarou que ter trabalhado com ele foi das melhores coisas da sua carreira. (E foi, Alec.)
Gostariam que Allen passasse pelos mesmos apuros...

Entenda, leitor: a questão não está em saber se o abuso de crianças é coisa séria. Claro que é. Mais: é um crime invulgarmente repugnante, que deve ser punido com uma dureza exemplar.

A questão é outra: será que devemos abandonar os princípios básicos de um Estado de Direito e linchar em público alguém que foi acusado por outro de uma conduta reprovável?

Cuidado com a resposta. Se ela é afirmativa, esse é um mundo em que eu não quero viver. Até porque eu conheço esse mundo: é o mundo típico dos regimes totalitários, que executavam dissidentes sem provas, sem julgamento, sem nada.

É um mundo destrutivo, sim. Mas também é um mundo autodestrutivo: faz parte da dinâmica totalitária devorar os seus próprios filhos.

Os jacobinos souberam disso durante o Terror da Revolução Francesa. Os bolcheviques também com as purgas de Stalin na década de 1930.
...do seu personagem em Um assaltante bem trapalhão.
Por outras palavras: os carrascos de hoje podem ser facilmente as vítimas de amanhã. Basta que alguém, algures, siga os mesmos métodos duvidosos.

E, quando esse momento chegar, a que tipo de defesa terão direito? Presunção de inocência? Mas como, se eles aboliram essa presunção com seus comportamentos histéricos?

Tentar acabar com o abuso reinante na indústria de cinema é um objetivo meritório. Um objetivo que, convém lembrar, vem com anos de atraso, depois do secretismo covarde e provavelmente criminoso de muitos puritanos de agora.

Mas ao lado dessa luta ergue-se uma outra guilhotina: uma lâmina sinistra que cai sobre qualquer cabeça só porque alguém soltou um grito."
Por Celso Lungaretti
O escritor e cientista político português João Pereira Coutinho também ousou ir contra a corrente dos linchamentos morais descabidos. Somos poucos. Infelizmente, quando encontra alguém sendo apedrejado, a maioria vai logo catar pedras.

Vi esta canalhice se voltar contra muita gente boa, começando pelo grande Monteiro Lobato, a quem iletrados tentaram inculpar pelos insultos racistas da personagem Emília contra a Tia Nastácia. Não tinham a mais remota noção da grandeza daquele a quem tentavam atingir, tanto como escritor quanto como guerreiro que travou o bom combate nos tempos sombrios de outra ditadura.

E o ridículo supremo foi quando militantes fanáticas do feminismo tentaram colar a etiqueta de estupro no fato de a atriz Maria Schneider ter aceitado fazer uma cena de sodomia simulada que não constava do roteiro da obra-prima O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci. 
Seu estupro sem penetração faria a delícia do saudoso Sérgio Stanislaw Ponte Preta Porto, talvez até o convencesse a lançar um livro sobre o festival de besteiras que assola o mundo...

Por último, uma observação sobre vítima recente, o William Waack. 

Salta aos olhos que o episódio foi uma armação, não havendo a mais remota base para qualificá-lo de racista apenas por conta de uma piada de mau gosto que fez no intervalo do trabalho e foi exumada um ano depois, com evidente má fé, pelos que queriam desqualificá-lo por outros motivos.

Devemos defender injustiçados a despeito do seu (mau ou duvidoso) caráter, para que a injustiça não prospere; tais linchamentos são nocivos e execráveis, devendo, portanto, ser incondicionalmente repudiados pelos justos.
Bertolucci, Schneider e Brando. Estuprada?! Falsa sério...

Mas, a Globo procedeu da maneira mais abjeta com Waack e, mesmo assim, ele firmou um acordo podre, que vem cumprindo à risca, de passar uma borracha em cima da postura de quem, demitindo-o, avalizou a arapongagem, o roubo de uma gravação para fins crapulosos e o atentado contra sua reputação.

Só existe uma explicação possível e imaginável para ele não ter ido à luta contra a Globo, tanto na Justiça quanto nas entrevistas e nos artigos que escreve: é sonante e, certamente, possui muitos zeros. 

Se Waack não chutar o pau da barraca, dando a público os termos de seu pacto com o diabo... quer dizer, com a Globo, eu continuarei defendendo-o da acusação que serviu como pretexto para seu apedrejamento, mas perderei o respeito por ele como cidadão e como ser humano.
Aos 16 anos assisti a uma peça sobre Galileu Galilei, encenada por um grupo teatral amador, cuja frase mais marcante nunca saiu da minha memória, inspirando-me até hoje:
"Há um mínimo de dignidade que não se pode negociar, nem mesmo em troca da liberdade, nem mesmo em troca do sol".
Muito menos em troca de uma mega-sena acumulada...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A LIÇÃO QUE FICOU DA ADMINISTRAÇÃO POPULAR DE FORTALEZA: PELAS URNAS A CLASSE OPERÁRIA NÃO VAI AO PARAÍSO

NÃO TENHO SAUDADES, MAS CONFESSO QUE APRENDI

Era dia 17 de novembro de 1985 e terminava a apuração de votos (que naquele tempo era manual), confirmando os prognósticos das empresas especializadas: dera-se a primeira vitória de uma candidata do PT a um cargo executivo da importância da prefeitura de Fortaleza, quinta maior cidade do Brasil.

Uma multidão exultava diante do local de apuração, o Ginásio Paulo Sarasate. Tendo participado da coordenação da campanha (juntamente com Jorge Paiva, o coordenador geral, e outros menos votados, como o atual deputado federal José Guimarães, do PT), eu assistia àquela profusão de contentamento da multidão com um misto de alegria e preocupação. 

Lembro-me que estávamos em cima de uma Kombi, eu e o então deputado federal do PT José Genuíno (cearense radicado em São Paulo, que viera para o evento à última hora). Ele, percebendo minha alegria contida, que certamente transmitia certa dose de contrição, perguntou-me: você não está feliz?  Respondi-lhe que sim, mas também preocupado com o day after, pois aquela multidão estava se sentindo redimida e a nossa vitória não significava, obviamente, a redenção.
Na euforia da vitória; dias piores viriam.
Havíamos obtido a vitória eleitoral justamente em função do caos que marcara os governos de prefeitos nomeados por governadores que, por sua vez, eram escolhidos pela ditadura militar. Ainda por cima, as prefeituras daquela época não tinham autonomia financeira, pois esta só viria quando a Constituição de 1988 passasse a vigorar, no ano seguinte.    

No nosso caso particular, as dificuldades eram evidentes: não dispúnhamos de nenhum vereador do PT ou de qualquer partido de esquerda; nenhum deputado estadual; e nenhum deputado federal na bancada cearense. 

Eu viria a ser o secretário de Finanças, incumbido de administrar a falência da prefeitura de Fortaleza.

Os meus receios não tardaram a ser confirmados pelo desenrolar dos acontecimentos:
— com 15 dias de governo, as categorias profissionais que haviam conquistado o piso salarial correspondente (graças, em grande parte, à nossa luta) estavam prontas para cobrar a implementação de tais conquistas, embora o orçamento já fosse deficitário; 
Reunião com o secretariado: abacaxis para descascar
— a empresa de ônibus de propriedade da prefeitura exigia o aumento do preço das passagens, como forma de cobrir o déficit que vinha sendo subsidiado pela receita da própria prefeitura, cujas finanças estavam combalidas; 
— os empresários de ônibus, idem;  
— as empresas de coleta de lixo, pressionando ao máximo que fossem efetuados os pagamentos em atraso, deixavam, premeditadamente, de cumprir sua tarefa, de forma que o lixo se amontoava nas ruas, tornando insuportável o mau cheiro e o desconforto; 
— para completar o quadro, naquele início de ano vieram as chuvas particularmente e precocemente regulares, que aumentavam os buracos sem que as tradicionais verbas federais (era assim que funcionavam as prefeituras ao tempo da ditadura) chegassem. Era uma deliberada tentativa de fazer passar por ineficiente a administração popular recém-instalada. 
Em greve de fome contra o boicote do governo federal
As dificuldades administrativas tradicionais eram enormes e intermináveis. Ademais, a prefeita Maria Luíza Fontenele, além de ser a primeira mulher eleita para uma prefeitura de capital, pertencia à ala marxista do PT, que estava sofrendo um processo de perseguição interna (éramos adeptos do marxismo tradicional, do movimento operário, só posteriormente evoluindo para o marxismo esotérico da crítica ao valor/dissociação de gênero).

A dose era muito forte para o sistema, e até mesmo para o PT.

A ideia de assumir um cargo executivo na esfera política do capitalismo liberal burguês era e é um equívoco para quem se propõe a ser anticapitalista. 

Uma vez investido no poder, e sendo obrigado a conviver com todos os antagonismos sistêmicos institucionais decorrentes do imperativo de manutenção da ordem capitalista, um governo que possua norte revolucionário, ou mesmo reformista sério, passa a ter de administrar não somente a crise financeira do aparelho de Estado na atual fase de depressão econômica capitalista, como se vê obrigado a revogar as conquistas sociais adquiridas na fase de ascensão capitalista. 
Maria Luíza e D. Helder Câmara nas ruas de Fortaleza

Ou seja,  eram sapos e mais sapos a serem engolidos em nome da governabilidade capitalista. Pode?  

No caso da nossa administração popular de 1986/1988 em Fortaleza, os problemas se agravaram pelo fato de não aceitarmos a política de conciliação com os políticos tradicionais e com donos do PIB tupiniquim, o que nos colocou em rota de colisão com a descaracterização ideológica do petismo, já em curso (corrupção à parte, pois naquela época ela ainda não era tão visível).

Este foi o verdadeiro motivo da expulsão de Maria Luíza e seus apoiadores (inclusive eu, por ela escolhido para ser seu candidato à sucessão). 

De tudo ficou a lição não apenas da ingovernabilidade de qualquer governo que se proponha a ser pró-povo (a máquina estatal não foi concebida e aperfeiçoada para isto), bem como de quão incoerente é, para quem denuncia a falência vindoura do capitalismo, tentar administrá-lo em proveito desse mesmo capitalismo. 
Com Suplicy e Gilson Menezes
Tal foi, em linhas gerais, a trajetória que nos levou ao amadurecimento político e consequente opção pelo Marx esotérico, que se contrapõe em tudo ao Marx exotérico, do movimento operário, marcado pelo politicismo inconsequente. 

A concepção de luta social a partir da crítica da economia política e da dissociação de gênero difere completamente:
— dos métodos e objetivos teleológicos da luta eleitoral; 
— da luta pela inserção administrativa no aparelho de Estado; e 
— das concepções e objeto teleológico das atuais lutas do movimento sindical (movimento feminista do movimento dos sem-terra e dos sem-teto, etc).    
Estão equivocados os que defendem a candidatura do Lula como se fosse um ato de resistência anticapitalista. 

Destarte, não tenho saudades da nossa experiência da administração popular, mas confesso que aprendi com ela. (por Dalton Rosado)

PS: sugiro que leiam ou releiam o meu artigo sobre
o bitcoin, agora que começa a evidenciar-se que
o dito cujo, em essência, não passa da
abstração da abstração. 


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