Mostrando postagens com marcador Capinam. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capinam. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de maio de 2025

UM DIA JÁ FOMOS INGÊNUOS A PONTO DE LOUVAR RELES MARGINAIS COMO HERÓIS

R
eencontrei no Youtube a impactante música Charles, Anjo 45 praticamente recriada por Caetano Veloso, que a lançou em compacto simples com uma abordagem muito pessoal, em cadência lenta, bem diferente do sambão do Jorge Ben.

Ela havia sido um dos poucos destaques artísticos do esvaziado 4º Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo em 1969. O evento se desmoralizara no ano anterior ao premiar a bonitinha mas evasiva Sabiá porque o júri de poltrões teve medo de descontentar os militares no poder agraciando a franca favorita do público, Caminhando, do Geraldo Vandré.

Ademais, o Brasil entrara nas trevas do Ato Institucional nº 5 e os artistas responsáveis pelo apogeu da MPB entre 1965 e 1968 já haviam sido devidamente afastados, alguns do festival, outros do próprio país. 

Do que sobrou, a vencedora foi a piegas e esquecível Cantiga para Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, que voou mais baixo ainda do que a Sabiá de Chico Buarque e Tom Jobim. 

O pouco que havia de aproveitável não sensibilizou um júri tão
simpático mas incompetente quanto o do FIC anterior: a própria Charles, Anjo 45, mais Ando Meio Desligado (Mutantes) e Gotham City (Macalé/Capinam). 

Em seguida foi lançado o compacto do Caetano, com Jorge Ben fazendo coro, que o influente crítico Tarik de Souza colocou nas alturas:
"Mais do que o próprio autor, Caetano Veloso soube compreender a força dramática e a intensidade de comunicação da extraordinária Charles, Anjo 45.
O painel surrealista da favela traçado pela letra forte de Jorge Ben funde-se à interpretação pausada de Caetano, somada ao ritmo cadenciado e às invenções vocais do compositor [Jorge Ben], que também participou da gravação"
Mas, afora os méritos artísticos, houve outro motivo para eu disponibilizar aqui tal canção: a ingenuidade da letra forte do Jorge Ben, saudando um mero chefão de favela como protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood dos morros, rei da malandragem, etc., e descrevendo de forma apoteótica as comemorações previstas para quando ele saísse da prisão.

Hoje sabemos quão ingênua era nossa visão desses bandidos, como se fossem alternativa à repressão da ditadura. Em 1968, p. ex., o artista plástico Hélio Oiticica chegou a colocar numa de suas obras a frase Seja marginal. Seja herói

Vale ressalvar que os grandes bicheiros não eram criminosos tão terríveis quanto os traficantes que os sucederam como autoridades máximas dos morros, mas estavam muito longe de ser bonzinhos como a mitologia da esquerda os pintava.

Não me excluo dessa babaquice generalizada, mas desembarquei dela antes da maioria. É que a ditadura, para desmoralizar os presos políticos, resolveu colocá-los na companhia de presos comuns e os resultados foram catastróficos. 
Na Ilha Grande, da convivência forçada resultaram lições valiosas para os marginais aprenderem a se organizar de forma profissional, fundando os comandos que até hoje impõem a lei do cão aos pobres favelados.

E em 1969, seis companheiros do Movimento de Ação Revolucionária fugiram do presídio Frei Caneca (RJ) juntamente com três marginais, que em seguida aderiram à guerrilha. Quando o primeiro dos marginais foi preso de novo, delatou rapidamente todos os militantes do MAR que pôde.

Ficamos sabendo disso tudo na VPR e concluímos que até poderíamos somar forças com os presos comuns em fugas, mas depois deveríamos separarmo-nos deles o quanto antes, porque não tinham os mesmos motivos que nós para resistirem às torturas. 

A cultura do submundo brasileiro era (e é) de amoral promiscuidade entre policiais e bandidos. o que, aliás, foi bem mostrado no filme Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia,  do Hector Babenco: os tiras, além de dar-lhes proteção, chegavam a sugerir os roubos mais promissores e a fornecer armas aos bandidos, para depois arrancarem deles parte substancial do butim. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 4 de julho de 2019

PÁTRIA AMUADA, DILACERADA, BRASIL

vinícius torres freire
BRASIL, AINDA INFELIZ E COM MEDO
Faz quatro anos, o Brasil tem medo e é infeliz como nunca, pelo menos no último quarto de século, por aí. 

O Índice de Satisfação com a Vida (ISV), p. ex., nunca foi tão baixo por tanto tempo desde que o Ibope começou a fazer tal pesquisa para a Confederação Nacional da Indústria, em 1996. 

O Índice de Medo do Desemprego (IMD) flutua nos níveis mais altos em 20 anos desde o início de 2015.

O prestígio de Jair Bolsonaro está em patamar neutro (nível equivalente de notas ótimo e péssimo), mas fraco para um presidente em início do mandato, segundo as pesquisas CNI-Ibope. 

Supera os desastres de popularidade de Dilma 2 e de Michel Temer, mas equivale ao de Dilma 1 depois do colapso de junho de 2013, ao de Lula 1 no pior do mensalão e ao de fins de FHC, em 2002, desgastado por oito anos de mandato, pela desvalorização do real e pelo apagão.

O ISV e o IMD (também da CNI-Ibope), bem como outras medidas de satisfação pessoal, política e econômica, deram uma melhorada depois da eleição, como costuma ocorrer depois do voto.  
Em fevereiro, o desânimo voltou a aumentar. Entre os mais pobres, o medo do desemprego e a satisfação com a vida não se moveram das profundezas a que desceram na recessão. Há uma notável disparidade de classe.

A confiança empresarial e dos consumidores medida pela FGV parou de piorar em junho, mas vai tão mal quanto no início de 2018. A ansiedade é maior entre micro e pequeno empresários da indústria, segundo pesquisa Datafolha para o sindicato paulista do setor, o Simpi.

Em junho de 2018, 76% desses empresários acreditavam que a crise ainda é forte, afeta muito os negócios, e não dá para prever quando a economia vai voltar a crescer.

Com a eleição, o ânimo melhorou. Os pessimistas eram apenas 32% em fevereiro. Em maio, voltavam a ser espantosos 64%. A expectativa de demissões voltou a crescer. Sacolejo semelhante de opinião também ocorreu no mercado financeiro.

É sempre difícil cravar motivos da piora de ânimos, mas houve notícias que costumam abalar esperanças.

Tumulto no noticiário político tende a aumentar o pessimismo econômico; não faltou balbúrdia no Planalto. 

Alta do preço dos alimentos abala a avaliação do governo e a confiança; houve uma carestia de comida, devida ao tempo ruim. 

A polarização odienta, para o que contribui o governo de extrema direita de Bolsonaro, afasta simpatizantes, para dizer o menos. Enfim, além da promessa de aumento do Bolsa Família, o governo nada disse aos mais pobres.

A esperança no recém-eleito sustentou o prestígio de Lula 1 no ano ainda ruim de 2003. 

A reeleição elevou até mesmo o prestígio de Dilma Rousseff a um patamar mais alto que o de Bolsonaro agora em junho. A avaliação da presidente logo sofreria um colapso com o estelionato eleitoral, o que derrubou os ânimos nacionais para os níveis deprimidos que vemos desde então.

É possível que a economia deixe de piorar a partir deste terceiro trimestre. A provável queda dos juros e a reforma da Previdência podem animar o terço mais rico da população, mais pelo efeito noticiário positivo. É muito pouco para alimentar esperanças.
A balbúrdia política é imprevisível, pois o governo não se pauta pela razão ou pela política de agregação. 

Pode mudar, caso não se prenda à permanente campanha eleitoral com o objetivo de manter um terço do eleitorado agitado com factoides extremistas. Não parece provável. (por Vinícius Torres Freire)

Estes versos, dos mais deprimentes que conheço, expressam bem o atual 
estado de ânimo dos brasileiros: "Só sinto frio na alma/ Estou vazio de
sentimento/ Não sinto água no corpo/ Nem amor, nem ferimento" (CL)

domingo, 30 de dezembro de 2018

BOICOTANDO A POSSE, ABANDONAREMOS PALCO E HOLOFOTES AO INIMIGO. MELHOR OPÇÃO SERÁ COMPARECERMOS... DE LUTO!

A posse de um presidente da República é um evento simbólico, que tenta projetar a imagem de um líder vitorioso, com amplo respaldo de seu povo.

A festa vai acontecer de qualquer jeito e será vista por boa parte dos 210 milhões de brasileiros.

Isto lá é hora de o PT, o Psol e o PCdoB deixarem o palco e os holofotes inteiramente para os inimigos, como se não existissem descontentes com o terrível retrocesso histórico representado pelo presidente fake news e sua cambada de fanáticos, obtusos e esquisitos?

Jair Bolsonaro teve 39% dos votos no 2º turno, mas parecerá unanimidade se os partidos de esquerda não estiverem lá dizendo em alto e bom som que 61% dos brasileiros não votaram nele: ou porque não votariam nele de jeito nenhum, ou porque não o viram como solução, ou porque concluíram que havia coisas melhores para se fazer num domingo. 

Uma das campanhas mais simpáticas e impactantes já realizadas por aqui foi a das diretas-já, em 1983/1984, que tinha como símbolo a cor amarela. A extrema-direita copiou o exemplo e adotou o verde-amarelo nas manifestações contra Dilma.

É assim que os partidos de esquerda deveriam comparecer à solenidade de posse: com todos os seus membros presentes e se mantendo o mais próximos possível entre si (para serem vistos como um conjunto e não como gatos pingados). E, claro, adotando algo que os identificasse.

Qual? Proponho a cor preta nas vestes, pois quem souber o que realmente aquela festa macabra prenuncia, estará com a morte na alma. O luto é a melhor expressão de tal sentimento. 
"Só sinto frio na alma / Estou vazio de sentimento / 
Não sinto água no corpo / Nem amor, nem ferimento"

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

SÉRIE "1968, UTOPIA DO PASSADO OU PROJETO DE FUTURO?" – 3: O CÉU COMO BANDEIRA E A HISTÓRIA NA MÃO.

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura militar atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas setembradas de 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com a certeza na frente, tentando tomar a História na mão [1], marcaram fortemente sua presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu corpo cheio de estrelas e tendo el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.

COMPETIÇÃO OBSESSIVA

A própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado.

Então, é tempo de os estudantes começam a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho. 

E isto com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.

Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP em 2007, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, uma década depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.
Mas, Zuenir Ventura está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste inverno da desesperança que nos foi imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.

O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump agora nos tenta enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.
E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima é encarnada pelas novas gerações, pela juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutarmos: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo: se você não vem, eu mesmo vou brigar [4]

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos: vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todooh baby, a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
[2] Caetano Veloso, É Proibido Proibir
[3] Gil, Capinam e Torquato Neto, Soy Loco Por Ti, América
[4] Sérgio Ricardo, Esse mundo é meu
[5] Edu Lobo, Ponteio
[6] Raul Seixas, Cachorro Urubu

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ASSISTA À VERSÃO INTEGRAL DO "1900" DO BERTOLUCCI, COM 70 MINUTOS A MAIS.

O filme 1900 (Novecento, 1976), cujas duas partes podem ser vistas abaixo com legendas em português e na sua DURAÇÃO ORIGINAL DE 5 HORAS E 10 MINUTOS, foi um projeto extremamente ambicioso do cineasta italiano Bernardo Bertolucci.

Passou nos cinemas com pouco menos de 4 horas, depois saiu em DVD com 310 minutos (como o vemos aqui), mas Bertolucci sonhara com uma obra maior ainda: uma minissérie em seis capítulos, totalizando oito horas!  O que terá deixado de lado, quando não conseguiu viabilizá-la nas tratativas com a TV?
De Niro e Depardieu: amigos pessoais, inimigos de classe. 

Por meio das trajetórias paralelas de um filho de latifundiário (Robert De Niro) e um filho de camponeses (Gerard Depardieu), nascidos exatamente ao iniciar-se o novo século, ele traça um grandioso painel da sociedade italiana no século 20, com destaque para o apogeu e decadência dos movimentos comunista e fascista (este personificado por um capataz composto de forma tão vigorosa por Donald Sutherland que acaba ofuscando os dois atores principais).

A história alcança até o chamado compromisso histórico, quando o PCI, em troca do poder, abdicou definitivamente de quaisquer veleidades revolucionárias. [As semelhanças com um certo pacto firmado pelo PT em 2002 NÃO são mera coincidência. Goethe explica...]

Num primor de sarcasmo, Bertolucci dá sua visão sobre o compromisso histórico  na sequência em que os dois envelhecidos amigos pessoais/inimigos de classe, gagás e rabugentos, fustigam-se mutuamente, mas já não têm capacidade para causar dano um ao outro.
Sutherland encarna de forma brutal o fascismo nascente

Trata-se, contudo, de um filme com altos e baixos, às vezes nos empolgando por suas sequências fortíssimas, às vezes nos parecendo um tanto esquemático. O certo é que as cinco horas passam bem mais depressa do que as duas ou três horas dos épicos de Hollywood, com raríssimas exceções (Spartacus, do Stanley Kubrick, é uma delas).

As grandes obra-primas de Bertolucci foram mesmo O Conformista (Il conformista, 1970), sobre o papel da repressão sexual na formação da personalidade fascistizada; e Último tango em Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972), que primeiramente despertou a fúria dos moralistas rançosos de direita, depois das patrulheiras cricris feministas, mas é infinitamente maior do que seus vãos detratores, em seu primitivismo abissal, conseguiram captar...

Aliás, quem disse tudo sobre a intolerância dos broncos foi o grande poeta Capinam: "moda de viola não dá luz a cego". 

segunda-feira, 13 de março de 2017

POR QUE A HISTÓRIA DE 1964 SE REPETIU COMO FARSA EM 2016? PORQUE A ESQUERDA CONTINUAVA PREGANDO A MESMA BALELA!

Visão anacrônica levou à repetição da História em 2016
Disse o inspirado poeta Capinam que moda de viola não dá luz a cego. Mesmo assim, o bom companheiro Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela USP, faz uma louvável tentativa de iluminar os caminhos da esquerda brasileira, no artigo Quem derrubou Dilma?.  

Ele questiona "um ponto de vista que tem como centro o conceito de burguesia interna e a tese de que os governos Lula e Dilma seriam a expressão política de uma frente neodesenvolvimentista, liderada por essa suposta fração de classe em aliança com setores da classe trabalhadora". 

Para os fragorosamente derrotados em 2016, que fogem da imprescindível autocrítica como o diabo da cruz, "a derrubada do governo teria sido (...) produto de uma ofensiva política de uma fração burguesa oposta a essa, a burguesia associada, aproveitando-se de um contexto de crise da frente neodesenvolvimentista impulsionada, sobretudo, pelas dificuldades econômicas que se intensificaram a partir de 2012/2013".

Fuser vai em direção contrária: "Quem deu o golpe de estado em 2016 foi a burguesia, e não uma fração específica dessa classe social. Não foi simplesmente a burguesia associada ( ao imperialismo)  e sim a burguesia em bloco, como classe unida por interesses comuns que transcendem os interesses específicos de frações, grupos, setores, empresas e indivíduos".
Fuser: foi a burguesia "como classe unida" que derrubou Dilma.

Que o Fuser tem carradas de razão, é o chamado óbvio ululante! Fiquei chocado, contudo, ao constatar até hoje existe uma esquerda Carolina (o tempo passou na janela e só ela não viu...) acreditando numa balela oportunista de meados do século passado, que foi simplesmente pulverizada, em termos práticos, pelo golpe de 1964; e em termos teóricos, pela minha geração revolucionária (a de 1968). 

Tal empulhação servia para esquerdistas obcecados pelo poder a qualquer preço (inclusive como sócios minoritários dos capitalistas) justificarem as alianças espúrias que mantinham com uma parcela dos inimigos de classe, cujos resultados foram os previsíveis: na hora H, a burguesia se colocou todinha contra eles. Mas, como a lição da História não foi bem assimilada por alguns lerdos de raciocínio, acabamos de assistir à aula de reposição... 

Essa gente parece não ter lido sequer A revolução brasileira, de Caio Prado Jr., um livro de 1966 que já demonstrara irrefutavelmente inexistir qualquer segmento burguês com o qual revolucionários devessem aliar-se, daí a tarefa fundamental ser, então como agora, combatermos implacavelmente a burguesia, sempre priorizando o fim da exploração do homem pelo homem.
O tempo passou na janela e só o PT não viu...

domingo, 5 de fevereiro de 2017

É HORA DE TERMOS NOVAMENTE O CÉU COMO BANDEIRA E DE VOLTARMOS A TOMAR A HISTÓRIA NA MÃO!

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas  setembradas  de 1967, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com  a certeza na frente, tentando tomar  a História na mão [1], marcaram fortemente sua presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de  derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu  corpo cheio de estrelas e tendo  el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
.
COMPETIÇÃO OBSESSIVA
.
A própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado.

Então, é tempo de os estudantes começam a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho, com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.

Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP em 2017, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, uma década depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.
Mas, Zuenir Ventura está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste inverno da desesperança que nos foi imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.

O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump agora nos tenta enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.
E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima é encarnada pelas novas gerações, pela juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutar: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo:  se você não vem, eu mesmo vou brigar [4]

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos:  vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores"
[2] Caetano Veloso, "É Proibido Proibir"
[3] Gil, Capinam e Torquato, "Soy Loco Por Ti, América"
[4] Sérgio Ricardo, "Esse mundo é meu"
[5] Edu Lobo, "Ponteio"
[6] Raul Seixas, "Cachorro Urubu"
Related Posts with Thumbnails