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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

SÓ SAM PECKINPAH, CINEASTA MAIOR, ABORDARIA A 2a GUERRA MUNDIAL SEM BASTARDAS E INGLÓRIAS PATRIAPATICES

Sam Peckinpah (1925-1984), descendente de índios paiutes,  foi um dos meus diretores favoritos de um tipo de cinema que teve seu apogeu na segunda metade do século passado e hoje quase não existe mais.

Refiro-me aos filmes de ação que, embora satisfizessem as expectativas de plateias menos sofisticadas, tinham embutidos ingredientes que agradavam em cheio aos cinéfilos mais exigentes.

Ou seja, dependendo do perfil de quem os assistia, podiam ser vistos apenas como espetáculos ou como muito mais do que isto.

Peckinpah nos brindou com um belo lote dessas pequenas obras-primas: Pistoleiros do entardecer (1962), Meu ódio será sua herança (1969), Sob o domínio do medo (1971), Pat Garrett e Billy the Kid (1973), Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (1974)...

A perfeição com que ele filmava cenas violentas lhe valeu injustas críticas de ser apenas uma prostituta explorando os baixos instintos das plateias, quando, na verdade, era o contrário.

O cinema estadunidense sempre banalizara a morte, como se fosse algo silencioso, indolor e inodoro: o mocinho atirava, os bandidos tombavam, o tiroteio terminava, e esta parecia ser a ordem natural das coisas.

Não para Peckinpah: com sua câmara lenta e uma duração bem maior dessas agonias, a morte de seus personagens era quase sempre mostrada como um acontecimento terrível, sofrido, único. 

Cruz de Ferro (1977) é uma das culminâncias de sua obra, ao mostrar os dramas internos de um destacamento de soldados alemães prestes a serem destruídos pela contra-ofensiva soviética, quando o curso da segunda guerra mundial já começara a mudar.

A novela de Willi Heinrich, que conheceu como soldado os episódios depois transpostos para a tela, é poderosa; e a adaptação de Peckinpah e seus roteiristas, simplesmente primorosa. 

Flagra o choque de dois personagens empenhados num duelo mortal em meio ao caos dà derrota iminente:
* um capitão de origem prussiana (Maximilian Schell) que, para satisfazer as expectativas familiares, precisa voltar para casa com uma Cruz de Ferro conquistada no campo de batalha, caso contrário desonrará as tradições dos seus antepassados; e 
* um cabo heroico (James Coburn) que preza acima de tudo o companheirismo com seus comandados, ao mesmo tempo em que detesta os oficiais.

James Mason e David Warner também compõem personagens inesquecíveis. Trata-se de uma verdadeira lição de cinema para os atarantados Tarantinos, que não se vexam de realizar bobagens patrioteiras como Bastardos Inglórios (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

ESTE FILME DEVERIA TER DIREÇÃO DO STANLEY KUBRICK E ROTEIRO DO SAM PECKINPAH. PERDEU MUITO SEM ELES?

Único filme dirigido pelo superlativo ator Marlon Brando, A Face Oculta (1961) é um western sobre vingança, tema pra lá de recorrente no gênero.
 
Introduziu, contudo, um toque de modernidade para a época, ao insinuar que  entre o bandido (Brando) abandonado e o comparsa (Karl Malden) que o deixou entregue à lei tenha existido uma atração homossexual, não necessariamente levada às vias de fato. 

Ou seja, há uma traição explícita que todos os espectadores captam e uma atração implícita, que só críticos e um público mais sofisticado percebem, pois Hollywood ainda se submetia ao código de  censura moralista que artificializou seu cinema por décadas.

Inicialmente,  A face oculta tinha Stanley Kubrick como diretor e Sam Peckinpah como roteirista, mas ambos saíram brigados com a Paramount e Brando assumiu. No entanto, seu relacionamento com a companhia se mostrou igualmente tempestuoso, as filmagens e a edição se alongaram, o orçamento foi em muito ultrapassado. Como consequência, mesmo sem fracassar na bilheteria o filme acabou dando prejuízo. 

Belas imagens, grande atuação do par central, algum aprofundamento psicológico, mas uma fita que perde muito na comparação com os faroestes italianos, que bombaram a partir de Por um punhado de dólares (1964) do Sergio Leone, e propondo uma abordagem  mais criativa e (os melhores deles) transgressora para os bang-bangs. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para ver A Face Oculta legendado no Youtube

domingo, 13 de abril de 2025

ESQUEÇAM JOHN FORD: NENHUM DIRETOR ESTADUNIDENSE DE WESTERNS FOI MAIOR QUE SAM PECKINPAH. VEJAM E CONSTATEM

John Ford tem uma baita lista de westerns no seu currículo e alguns foram muito marcantes, como No tempo das diligências (1939), Paixão dos fortes (1946), Rastros de ódio (1956) e O homem que matou o facínora (1962).

Bem maior, contudo, é a relação dos seus bangue-bangues convencionais, feitos para serem exibidos nas matinês de domingo e depois esquecidos. 

Afora terem abordagens ingênuas, na linha da imagem que a classe média dos EUA cultivava de si própria, bem como cativas dos valores que o cinema de Hollywood era obrigado a martelar na cabeça de seus públicos (caso da prevalência da lei e da ordem em territórios que, na verdade, estavam mais para grotões selvagens, onde a verdadeira lei era a do mais forte).

Então, embora com um número bem menor de títulos do gênero, em termos qualitativos Sam Peckinpah foi o cineasta mais foi fiel ao velho Oeste como ele era e não na visão bonitinha mas ordinária que os estadunidenses adoram projetar. 

Pôde fazê-lo por ter-se afirmado exatamente na década de 1960, quando o cinema dos EUA começou a voltar-se para enfoques críticos, deixando de ser a fábrica de ilusões de até então. Peckinpah, descendente dos índios paiutes, era bem o diretor capaz de mostrar aquilo que antes era escondido debaixo do tapete. 

E o fez de forma magnífica, em westerns tais quais Pistoleiros do entardecer (1962), Meu ódio será sua herança (1969), Pat Garrett e Billy the Kid (1973) e Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (1974)

[Isto sem falar noutros tantos clássicos ambientados na atualidade (Sob o domínio do medo/1971, Cruz de Ferro/1977, etc.)]

A visão de Peckinpah sobre esses dois personagens lendários do velho Oeste destaca o aspecto de terem sido ambos foragidos e amigos antes de Garrett (James Coburn), sentindo o peso dos anos e ansiando por uma vida mais tranquila, tornar-se xerife e ser obrigado a perseguir Billy (Kris Kristofferson).

Cheio de remorsos por estar desempenhando um papel que lhe repugna, ele parece mais velho e acabado a cada aparição na tela. É um faroeste outonal sobre a má consciência e tem uma trilha musical magistral de Bob Dylan (que também atua como ator secundário) realçando a melancolia da longa perseguição por um enorme território, o que torna muito difícil seus caminhos se cruzarem.

Lamentavelmente, tanto no lançamento cinematográfico no Brasil quanto na primeira versão em VHS havia um corte de quase 20 minutos, mutilando a poesia do filme. Fazia enorme diferença. (por Celso Lungaretti)   

Clique aqui para ver Pat Garrett e Billy the Kid completo no Youtube

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

NESTE FILMAÇO DE GUERRA, PECKINPAH MOSTRA A AGONIA DA FRENTE ORIENTAL SOB A PERSPECTIVA DOS ALEMÃES

Sam Peckinpah (1925-1984), descendente de índios paiutes,  foi um dos meus diretores favoritos de um tipo de cinema que teve seu apogeu na segunda metade do século passado e hoje quase não existe mais. 

Refiro-me aos filmes de ação que, embora satisfizessem as expectativas de plateias menos sofisticadas, tinham embutidos ingredientes que agradavam em cheio aos cinéfilos mais exigentes.

Ou seja, dependendo do perfil de quem os assistia, podiam ser vistos apenas como espetáculos ou como muito mais do que isto.

Peckinpah nos brindou com um belo lote dessas pequenas obras-primasPistoleiros do entardecer (1962), Meu ódio será sua herança (1969), Sob o domínio do medo (1971), Pat Garrett e Billy the Kid (1973), Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (1974)...

A perfeição com que ele filmava cenas violentas lhe valeu injustas críticas de ser apenas uma prostituta explorando os baixos instintos das plateias, quando, na verdade, era o contrário.

O cinema estadunidense sempre banalizara a morte, como se fosse algo silencioso, indolor e inodoro: o mocinho atirava, os bandidos tombavam, o tiroteio terminava, e esta parecia ser a ordem natural das coisas.

Não para Peckinpah: com sua câmara lenta e uma duração bem maior dessas agonias, a morte de seus personagens era quase sempre mostrada como um acontecimento terrível, sofrido, único. 
Cruz de Ferro (1977) é uma das culminâncias de sua obra, ao mostrar os dramas internos de um destacamento de soldados alemães prestes a serem destruídos pela contra-ofensiva soviética, quando o curso da segunda guerra mundial já começava a mudar.

A novela de Willi Heinrich, que conheceu como soldado os episódios transpostos para a tela, é poderosa; e a adaptação de Peckinpah e seus roteiristas, simplesmente primorosa. 

Flagra o choque de dois personagens empenhados num duelo mortal em meio ao caos dà derrota iminente:
-- um capitão de origem prussiana (Maximilian Schell) que, para satisfazer as expectativas familiares, precisa voltar para casa com uma Cruz de Ferro conquistada no campo de batalha, caso contrário desonrará as tradições dos seus antepassados; e 
-- um cabo heroico (James Coburn) que preza acima de tudo o companheirismo com seus comandados, ao mesmo tempo em que detesta os oficiais.

James Mason, David Warner e Senta Berger também compõem personagens inesquecíveis. É um filmaço! (por Celso Lungaretti) 
 

domingo, 27 de janeiro de 2019

O INSTANTE É PROPÍCIO PARA REVERMOS O PREMONITÓRIO 'SOB O DOMÍNIO DO MEDO'

São tantos  os brasileiros que estão sob o domínio do medo nos dias atuais (afora os que não estão mais aqui, por já terem dado no pé...), que avaliei ser um momento bem oportuno para repostar o filme de Sam Peckinpah que recebeu tal título em nosso país.

Lançado em 1971, é uma obra das mais impactantes, dirigida com a maestria habitual por Peckinpah, o poeta da violência

Mas, se o enredo for tomado como uma parábola sobre o mundo moderno, a coisa pega. Houve quem o considerasse fascistoide, mesma prevenção que existiu contra outras duas fitas marcantes do período, Perseguidor implacável (d. Don Siegel, 1971) e Desejo de matar (d. Michael Winner, 1974).

As decisões dos personagens principais das três fitas fazem sentido à luz dos seus dramas específicos, mas parecem servir como pretexto para uma apologia da volta à lei das selvas. Cabe a cada espectador decidir se os encara como episódios isolados ou como receita genérica para a sociedade, na linha dos ignaros de hoje em dia.
Susan George estuprada: tensão vai num crescendo até explodir

Matemático estadunidense (Dustin Hoffman) vai com sua esposa (a sensual Susan George) para o vilarejo de origem dela na Inglaterra rural, onde espera escrever um livro em paz. Mas, os aldeãos tomam sua sofisticação por fraqueza e o provocam continuamente, até que ele explode e desencadeia uma espiral de violência.

O caldo entorna quando, após atropelá-lo sem o ferir gravemente,  socorre um deficiente mental (David Warner). Ignora, contudo, que um clã truculento está à caça do sujeito, pois acredita tratar-se de um pedófilo assassino. 

É quando o matemático se enche de brios e, como um castelão medieval, recusa-se a entregar aquele a quem acolheu. Mais: decide defender a sua fortaleza seguindo à risca o figurino da idade das trevas, ou seja, mostrando-se tão brutal quanto os sitiantes. 

Os menos simplistas viram o filme sob outro aspecto: o de que estaríamos regredindo à Idade Média, a ponto de sermos obrigados a trancar-nos em nossos edifícios seguros e condomínios fechados, enquanto a miséria grassa ao redor e os miseráveis nos acossam. 

Então, não se trataria de uma ode à barbárie, mas sim de um alerta contra ela, na forma de uma exacerbação dos horrores que a escalada da desigualdade estaria engendrando.
Forças desiguais: seis ferrabrases contra um matemático

Mas, existe um aspecto que me parece mais lincado com este momento: o de que mesmo um indivíduo franzino e pacífico pode, em determinadas circunstâncias, travar uma batalha pessoal contra ferrabrases e vencê-los. Isto, claro, desde que não fuja do desafio.

Pois, como ensinou o Geraldo Vandré dos bons tempos, "quem afrouxa na saída / ou se entrega na chegada / não perde nenhuma guerra / mas também não ganha nada".

Por último: fujam do remake de 2011, é um caça-niqueis irrelevante.

sábado, 26 de maio de 2018

OS CAMINHONEIROS ESTÃO BOTANDO PRA QUEBRAR? ENTÃO, É MOMENTO OPORTUNO PARA CURTIRMOS O FILME "COMBOIO"...

Até agora eu não cogitara postar aqui o filme Comboio (1978), mas, neste momento em que nossos caminhoneiros estão botando pra quebrar, tem tudo a ver. 

Minha relutância se devia a tratar-se de uma obra menor na carreira do grande diretor e roteirista estadunidense Sam Peckinpah, um californiano descendente de índios paiutes, que teve seu apogeu nas décadas de 1960 e 1970, quando foi responsável por obras-primas como Pistoleiros do entardecer, Meu ódio será sua herança, Sob o domínio do medo, Pat Garrett e Billy The Kid e Cruz de ferro

Comboio mostra exatamente o poder de fogo de que dispõem os caminhoneiros que transportam cargas pesadas e estão o tempo todo se contatando por rádio. Ao decidirem utilizar seus veículos como armas, é como se conduzissem gigantescos tanques de guerra.
Quando um dos mais populares deles (Kris Kristofferson) entra em confronto com um xerife truculento e corrupto (Ernest Borgnine), recebe a solidariedade dos colegas, que convergem de todos os pontos para aquela cidade, decididos a formarem um gigantesco comboio e invadi-la, apesar das tropas estaduais mobilizadas para os deterem pelo caminho. 

Funciona muito bem como espetáculo, tem sequências eletrizantes nas rodovias, mas, com sua pegada meio cômica, fica aquém do padrão habitual de Peckinpah, acostumado a lançar um olhar adulto e geralmente amargo sobre episódios do passado e presente, com o uso de uma violência muito impactante como componente dramático, não por mero exibicionismo comercial. Apropriadamente, chamavam-no de poeta da violência.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

SÃO MUITOS OS QUE ESTÃO SOB O DOMÍNIO DO MEDO NESTA SEMANA...

Confesso que há um tanto de ironia na minha decisão de acrescentar o polêmico Sob o domínio do medo à relação dos filmes para ver no blogue  exatamente nesta semana em que as duas principais candidatas à Presidência da República estão simplesmente apavoradas face à possibilidade de saírem mais batatas quentes do forno do Paulo Roberto Costa. 

Quanto a Aécio Neves, ainda fazendo blague com os filmes de Sam Peckinpah, até 6ª feira passada estava se conformando com a derrota, parecendo prontinho para entregar os pontos e dizer às duas competidoras: meu ódio será sua herança. No entanto, depois que os assassinos de elite da veja alvejaram reputações e lhe deram novo alento, parece acreditar que o seu comboio ainda poderá chegar ao Palácio do Planalto. Mas, como a morte não manda recado, só para ele não caiu a ficha de que a sua candidatura já era, restando-lhe apenas fazer um juramento de vingança, no sentido de que tudo será diferente em 2018...

Falando sério, Sob o domínio do medo (1971) é um filme extremamente impactante, dirigido com a maestria habitual por Peckinpah, o poeta da violência. Mas, se o enredo for tomado como uma parábola sobre o mundo moderno, a coisa pega. Houve quem o considerasse fascistóide, mesma prevenção que existiu contra outras duas fitas marcantes do período, Perseguidor implacável (d. Don Siegel, 1971) e Desejo de matar (d. Michael Winner, 1974).

As decisões dos personagens principais das três fitas fazem sentido à luz dos seus dramas específicos, mas parecem servir como pretexto para uma apologia da volta à lei das selvas. Cabe a cada espectador decidir se os encara como episódios isolados ou como receita genérica para a sociedade.

Matemático estadunidense (Dustin Hoffman) vai com sua esposa (a sensual Susan George) para o vilarejo natal dela na Inglaterra rural, onde espera escrever seu livro em paz. Mas, os aldeãos tomam sua sofisticação por pusilanimidade e o provocam continuamente, até que ele explode: socorre um retardado mental (David Warner) que um clã truculento acredita tratar-se de um pedófilo assassino. e, como um castelão medieval, recusa-se a entregar aquele a quem acolheu, defendendo a sua fortaleza com a mesma bestialidade dos sitiantes. 

Os menos simplistas viram o filme sob outro aspecto: o de que estaríamos regredindo à Idade Média, mantendo-nos a salvo em nossos edifícios seguros e condomínios fechados, enquanto a miséria grassa ao redor e os miseráveis nos acossam. Então, não se trataria de uma ode à barbárie, mas sim de um alerta contra ela, na forma de uma exacerbação dos horrores que a escalada da desigualdade estaria engendrando.

Ah, ia esquecendo: existe um remake caça-niqueis de 2011, do qual convém mantermos distância.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O ÚLTIMO GRANDE FILME SOBRE A SAGA DE BILLY THE KID

Emilio Estevez: um Billy marcante
O filme para ver no blogue que disponibilizo abaixo, agora em versão legendada, é uma das muitas abordagens cinematográficas da saga de Billy the Kid: Jovem demais para morrer (1990, d. Geoff Murphy). 

Trata-se da sequência de  Os Jovens Pistoleiros (1988, d. Christopher Cain), trazendo novamente Emilio Estevez como Billy, Kieffer Sutherland como 'Doc' Scurlock e Lou Diamond Phillips como Chavez y Chavez. 

A troca de diretor ajudou: é um filme bem mais rico e estiloso do que o anterior.

O primeiro reconstituiu, sem grandes novidades, a chamada guerra do condado de Lincoln

O segundo não se limitou ao foco principal (a perseguição movida contra Billy por seu velho amigo Pat Garrett, interpretado por William Petersen), acrescentando elementos interessantes como a participação do jornalista contratado pelo xerife para ser seu ghost writer e a introdução do nonagenário Brushy Bill Roberts (falarei mais sobre os dois assuntos abaixo). 

Os Young Guns, como se constata no próprio título original, exploraram e enfatizaram o fator juventude. É seu diferencial, dos mais convenientes para uma época em que o juvenilismo andava muito em alta nas artes.

A escolha do roqueiro Jon Bon Jovi para criar a trilha musical do Jovem demais para morrer, no entanto, revelou-se mais do que uma tacada comercial perspicaz; ele compôs temas realmente bons, principalmente "Blaze of glory", que acabaria se tornando um dos seus maiores sucessos.

Na categoria único grande filme de um diretor sem maiores pretensões artísticas, não chega a ser um Keoma, a obra-prima da qual poucos julgavam Enzo G. Castellari capaz. Mas, sem dúvida nenhuma, é muito superior a tudo que Geoff Murphy fez, antes e depois.

O HOMEM E A LENDA

Morto aos 21 anos, Henry McCarty, também conhecido como William Henry Bonney e  Billy the Kid, começou a se tornar uma das maiores lendas do Velho Oeste estadunidense por obra e graça daquele que o matou.

Pat Garrett pagou a um escriba para relatar, em seu nome, a caçada ao velho parceiro de cavalgadas.

A versão de Pat Garrett -- Billy the Kid: a história de um bandido (L&PM, 258 p.) -- é apresentada como uma tentativa de restabelecer a verdade dos fatos, pois já se começava a mitificar o personagem.
Billy não era parecido com
Kris Kristofferson ou Estevez...

Foi como apagar uma fogueira com gasolina: fez o mito crescer cada vez mais.

O que se sabe:
  • Billy perdeu cedo o pai e, aos 14 anos, tornou-se órfão também de mãe;
  • preso por roubar roupas de uma lavanderia, foge da prisão e vagueia pela fronteira entre EUA e México, furtando cavalos;
  • mata um ferreiro no Arizona, aos 17 anos;
  • escapa para o Novo México e, no condado de Lincoln consegue um emprego honesto na fazenda de John Tunstall, a quem passa a admirar muito;
  • quando Tunstall é assassinado a mando de outro fazendeiro da região, ele e outros vingadores, intitulando-se  vigilantes, travam uma guerra sangrenta contra a facção contrária.
O que permanece nebuloso:
  • o número de suas vítimas fatais, pois, das 20 ou 21 mortes que lhe atribuíram, apenas em quatro sua autoria é hoje dada como líquida e certa, havendo dúvidas quanto a outras cinco e a certeza de que as demais foram mero exagero;
  • se realmente foi morto por Pat Garrett ou sobreviveu, só vindo a expirar em 1950, quando um ancião que usava o nome de Brushy Bill Roberts disse ser, na verdade, Billy the Kid, em busca do perdão governamental (mas, faleceu antes que sua história fosse apurada e o assunto se arrastou até 2010, quando o governador do Novo México negou definitivamente o que seria um indulto simbólico do pistoleiro).
...nem Pat com James Coburn...
O motivo para o pedido tão insistentemente reapresentado é o seguinte: o governador Lew Wallace, empenhado em acabar com a corrupção e arbitrariedades dos poderosos de Lincoln, prometeu (mas não cumpriu) perdoar Billy caso ele depusesse incriminando os assassinos do seu ex-patrão.

"O fora-da-lei foi mais honrado", diz o criminalista Joel Jacobsen, autor de Such Men as Billy the Kid, garantindo existirem evidências "fortes, irrefutáveis mesmo" da veracidade de tal barganha.

Em Jovem Demais Para Morrer,  Wallace é mostrado como sincero, mas impotente para cumprir o prometido.

Foi no último dia do mandato que o governador Bill Richardson anunciou sua decisão: alegou "incertezas" quanto a seu antecessor haver ou não prometido o perdão e "uma ambiguidade histórica sobre o motivo pelo qual o governador Wallace teria desistido da graça".

De qualquer forma, Billy já havia sido reabilitado pela arte, com sua lenda  inspirando verdadeiras obras-primas:
  • o estranhíssimo western freudiano Um de Nós Morrerá (1958, d. Arthur Penn), em que seu drama é equiparado ao de um filho que perdeu o pai (não o biológico, mas o fazendeiro Tunstall);
    ...talvez com William Petersen
    • o belíssimo western outonal Pat Garrett & Billy the Kid (1973, d. Sam Peckinpah), centrado na má consciência do primeiro, que aceita uma estrela e uma missão infame como preço a pagar por uma velhice sem sobressaltos nem preocupações financeiras; e
    • a antológica trilha musical composta por Bob Dylan para o filme de Peckinpah, incluindo "Knockin' at Heaven's Door".
    Isto em meio aos mais de 20 filmes e a uma série cinematográfica de 42 episódios que o tiveram como personagem, a partir do silencioso Billy the Kid, de 1911, dirigido por Laurence Trimble.

    O mais bizarro, certamente, foi Billy the Kid vs. Dracula (1966, d. William Beaudine), em que o vampiro, interpretado por John Carradine, dá uma chegadinha no Velho Oeste.

    Poucos sabem, mas o western clássico A face oculta (1961), dirigido e estrelado por Marlon Brando, se baseou numa novelização da vida de Billy. Rod Além da Imaginação Serling e Sam Peckinpah teriam colaborado no roteiro, sem que isto lhes fosse creditado.

    quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

    O RETROCESSO HISTÓRICO PODERIA TER SIDO EVITADO?

    Para quem conheceu o cinema comercial de outrora, o panorama atual sugere terra arrasada. 

    Épicos como os de David Lean (principalmente A ponte do rio Kwai e Lawrence da Arábia), os grandes westerns de Sergio Leone e Sam Peckinpah, os policiais de Jean-Pierre Melville e Jose Giovanni (tanto os que ele próprio roteirizou e dirigiu, quanto os que se baseiam em suas excelentes novelas), as comédias de Dino Risi e Mario Monicelli não eram sequer considerados filmes de arte; destinavam-se a públicos mais amplos e geralmente os atingiam. 

    No entanto, nem de longe eram desprezíveis em termos artísticos. Muito pelo contrário. Tanto que vários deles estão sendo redescobertos e aclamados, merecidamente.

    Enquanto isto, a lista das maiores receitas da indústria cinematográfica na atualidade praticamente coincide com a dos abacaxis mais execráveis. Dificilmente ultrapassam a idade mental de 12 anos.

    Um respiradouro acaba sendo a TV por assinatura. Produções bancadas pelos canais pagos e comercializadas também no circuíto de DVD e blu-ray tentam atender às expectativas mais sofisticadas, enquanto a TV aberta vai se distanciando vez mais da vida inteligente. 

    Um bom exemplar dos novos tempos é Átila, o huno (2001), disponibilizado na janelinha abaixo. Mesmo sem grandes destaques na direção (Dick Lowry), no roteiro (Roberto Cochran) e no elenco (só o eterno coadjuvante Powers Boothe impressiona), consegue mesclar bem o entretenimento, a reconstituição de época e a reflexão histórica.

    Sugere que a única personalidade apta a salvar o Império Romano era o general Flavius Aetius (Boothe); que só o conquistador Átila (Gerard Butler) poderia ter mantido a centralização política e econômica após o colapso de Roma; e que a morte quase simultânea de ambos condenou o mundo civilizado à fragmentação, ruralização e retrocesso, ensejando um milênio de trevas. 

    É uma tese fascinante, embora me pareça exagerar o papel do indivíduo na História. Creio que a decadência de Roma já se tornara irreversível e, no máximo, Aetius a retardaria um pouco; e que o Império Huno, mesmo que substituísse o romano, não sobreviveria ao seu criador, acabando por estilhaçar-se da mesma forma. 

    Mas, pelo menos Átila, o Huno nos convida a pensarmos a História, ao invés de permanecermos espectadores do passado como o somos do presente. Neste sentido, cumpre muito mais a função da arte do que superproduções ambiciosas como Tróia, do Wolfgang Petersen (aquele cineasta que, quando foi para Hollywood, deixou todo seu talento na Alemanha...). 

    sexta-feira, 2 de agosto de 2013

    POST SOBRE BILLY THE KID É O MAIS ACESSADO EM 5 ANOS DO "NÁUFRAGO"

    Inaugurado em 08/08/2008, este blogue completará cinco anos com quase 700 seguidores e mais de 770 mil visualizações de páginas, originárias do Brasil (600 mil), EUA (90 mil), Rússia (16,7 mil), Portugal (13 mil) e Alemanha (6,2 mil), principalmente.

    Os textos postados estão na casa de 2,1 mil, sendo mais de 300 com o marcador Cesare Battisti; quando da libertação do escritor que a Itália queria silenciar, o total já era de aproximadamente 250. 

    Foi a mais prolongada e --considerando-se a extrema desigualdade de forças--, surpreendentemente vitoriosa campanha assumida pelo blogue, que também se colocou ao lado do cineasta Roman Polanski; do ex-etarra Joseba Gotzon; de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; da iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; do movimento estudantil em geral e dos universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e do de outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   

    Afora as lutas travadas contra as múltiplas facetas e manifestações do autoritarismo, inclusive no seio da web; e a defesa permanente dos direitos humanos, dos ideais revolucionários e da memória da resistência à ditadura de 1964/85, da qual tenho orgulho de haver participado, ao lado de alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu.

    Dos textos mais clicados no blogue, o 1º lugar é de 27/12/2010,  tinha até agora 4.240 hits e está sendo republicado abaixo, como parte desta pequena retrospectiva que incluirá também os meus três favoritos e um balanço do caminho até aqui percorrido.

    É outro fruto tardio, este da minha passagem pela crítica cinematográfica no final dos anos 70 e início dos '80. Foi, aliás, como cinéfilo desde criancinha que me interessei pelos muitos filmes a respeito de Pat Garrett e Billy the Kid, principalmente o magnífico western outonal de Sam Peckinpah, uma das minhas  fitas de cabeceira...


    BILLY THE KID PODE RECEBER AGORA 
    O PERDÃO PROMETIDO EM 1879

    Billy não era parecido com Kris
    Kristofferson ou Emilio Estevez...
    Billy the Kid pode ser oficialmente perdoado pelo governador do Novo México, quase 130 anos após sua morte, ocorrida em julho de 1881.

    É outra pendência que ficou para o finalzinho de mandato: assim como o presidente Lula em relação ao Caso Battisti, o governador Bill Richardson prometeu dar sua decisão até 5ª feira, 31, quando deixará o cargo.

    Morto aos 21 anos, Henry McCarty, também conhecido como William Henry Bonney e  Billy the Kid, começou a se tornar uma das maiores lendas do Velho Oeste estadunidense por obra e graça daquele que o matou: Pat Garrett.

    O xerife pagou a um escriba para relatar, em seu nome, a caçada por ele movida contra o velho companheiro de cavalgadas.

    A versão de Pat Garrett -- Billy the Kid: a história de um bandido (L&PM, 258 p.) -- é apresentada como uma tentativa de restabelecer a verdade dos fatos, pois já se começava a mitificar o personagem.

    Foi como apagar uma fogueira com gasolina: fez o mito crescer cada vez mais.

    O que se sabe:
    • Billy perdeu cedo o pai e, aos 14 anos, tornou-se órfão também de mãe;
    • preso por roubar roupas de uma lavanderia, foge da prisão e vagueia pela fronteira entre EUA e México, furtando cavalos;
    • mata um ferreiro no Arizona, aos 17 anos;
    • escapa para o Novo México e, no condado de Lincoln consegue um emprego honesto na fazenda de John Tunstall, a quem passa a admirar muito;
    • quando Tunstall é assassinado a mando de outro fazendeiro da região, ele e outros vingadores, intitulando-se  vigilantes, travam uma guerra sangrenta contra a facção contrária.

    O que permanece nebuloso:
    • o número de suas vítimas fatais, pois, das 20 ou 21 mortes que lhe atribuíram, apenas em quatro sua autoria é hoje dada como líquida e certa, havendo dúvidas quanto a outras cinco e a certeza de que as demais foram mero exagero;
    • se realmente foi morto por Pat Garrett ou sobreviveu, só vindo a expirar em 1950, quando um ancião que usava o nome de Brushy Bill Roberts disse ser, na verdade, Billy the Kid, em busca do perdão governamental (mas, faleceu antes que sua história fosse apurada).
    Embora não se constituam nos melhores filmes a respeito de Billy, os dois Young Guns são os mais esclarecedores.

    O primeiro -- Os Jovens Pistoleiros (1988, dirigido por Christopher Cain) -- reconstitui a guerra do condado de Lincoln, mostrando como as disputas violentas por terras acabaram devolvendo à criminalidade os empregados de Tunstall (que contratava jovens marginais e os regenerava).

    E o outro -- Jovem Demais Para Morrer (1990, d. Geoff Murphy) --, além da perseguição de Pat Garrett a Billy, introduz elementos interessantes, como a participação do jornalista contratado como  ghost  writer, o surgimento do nonagenário Brushy Bill Roberts (cujas alegações são aceitas como verdadeiras pelo filme) e o próprio fulcro do atual pedido de perdão.

    ...e muito menos Pat com James
    Coburn ou William Pettersen.
    É que o governador Lew Wallace, empenhado em acabar com a corrupção e arbitrariedades dos poderosos de Lincoln, prometeu (mas não cumpriu) perdoar Billy caso ele depusesse incriminando os assassinos do seu ex-patrão.

    "O fora-da-lei foi mais honrado", diz o criminalista Joel Jacobsen, autor de Such Men as Billy the Kid, garantindo haver evidências "fortes, irrefutáveis mesmo" dessa barganha.

    Em Jovem Demais Para Morrer,  Wallace é mostrado como sincero, mas impotente para cumprir o prometido.

    Então, o dilema proposto ao governador atual é o seguinte: cabe a ele honrar a palavra de seu remoto antecessor?

    Seja qual for a decisão, o certo é que Billy já foi reabilitado pela arte, com sua saga inspirando verdadeiras obras-primas:
    • o estranhíssimo western freudiano Um de Nós Morrerá (1958, d. Arthur Penn), em que seu drama é equiparado ao de um filho que perdeu o pai (não o biológico, mas o fazendeiro Tunstall);
    • o belíssimo western outonal Pat Garrett & Billy the Kid (1973, d. Sam Peckinpah), centrado na má consciência do primeiro, que aceita uma estrela e uma missão infame como preço a pagar por uma velhice sem problemas financeiros;
    • a antológica trilha musical composta por Bob Dylan para o filme de Peckinpah, incluindo "Knockin' at Heaven's Door".
      Há quem destaque também os temas criados por Jon Bon Jovy para Jovem Demais Para Morrer e depois reunidos no álbum Blaze of Glory.

      Têm lá seu impacto, mas a inevitável comparação com o trabalho de Dylan acaba sendo cruel para Bon Jovi...

      P.S.: o governador do Novo México decidiu negar o indulto simbólico a Billy. Alegou "incertezas" quanto a seu antecessor haver ou não prometido o perdão e "uma ambiguidade histórica sobre o motivo pelo qual o governador Wallace teria desistido da graça". 

      quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

      O POST CAMPEÃO DESTE BLOGUE

      Abaixo eu republico o post mais lido deste blogue nos seus quase três anos e meio de existência; de 27/12/2010 até este momento, já havia sido visitado 4.236 vezes.

      Estava um pouco à frente de Michael Jackson (1958-2009): do boi só se perde o berro, com 3.939 visualizações; e bem à frente das 1.615 de Casoy me move ação criminal por artigo sobre o episódio dos garis.

      Eu não saberia explicar por que os artigos sobre o pistoleiro lendário e o rei do pop despertaram tanto interesse. Talvez vocês, leitores, tenham algum palpite.

      O certo é que, quando os escrevi, encarei os dois primeiros como rotina. E que outros, nos quais botei muito mais empenho, nem aparecem na lista.

      Talvez seja uma lição de humildade para mim...

      BILLY THE KID PODE RECEBER AGORA 
      O PERDÃO PROMETIDO EM 1879

      Billy não era parecido com Kris
      Kristofferson ou Emilio Estevez...
      Billy the Kid pode ser oficialmente perdoado pelo governador do Novo México, quase 130 anos após sua morte, ocorrida em julho de 1881.

      É outra pendência que ficou para o finalzinho de mandato: assim como o presidente Lula em relação ao Caso Battisti, o governador Bill Richardson prometeu dar sua decisão até 5ª feira, 31, quando deixará o cargo.

      Morto aos 21 anos, Henry McCarty, também conhecido como William Henry Bonney e  Billy the Kid, começou a se tornar uma das maiores lendas do Velho Oeste estadunidense por obra e graça daquele que o matou: Pat Garrett.

      O xerife pagou a um escriba para relatar, em seu nome, a caçada por ele movida contra o velho companheiro de cavalgadas.

      A versão de Pat Garrett -- Billy the Kid: a história de um bandido (L&PM, 258 p.) -- é apresentada como uma tentativa de restabelecer a verdade dos fatos, pois já se começava a mitificar o personagem.

      Foi como apagar uma fogueira com gasolina: fez o mito crescer cada vez mais.

      O que se sabe:
      • Billy perdeu cedo o pai e, aos 14 anos, tornou-se órfão também de mãe;
      • preso por roubar roupas de uma lavanderia, foge da prisão e vagueia pela fronteira entre EUA e México, furtando cavalos;
      • mata um ferreiro no Arizona, aos 17 anos;
      • escapa para o Novo México e, no condado de Lincoln consegue um emprego honesto na fazenda de John Tunstall, a quem passa a admirar muito;
      • quando Tunstall é assassinado a mando de outro fazendeiro da região, ele e outros vingadores, intitulando-se  vigilantes, travam uma guerra sangrenta contra a facção contrária.

      O que permanece nebuloso:
      • o número de suas vítimas fatais, pois, das 20 ou 21 mortes que lhe atribuíram, apenas em quatro sua autoria é hoje dada como líquida e certa, havendo dúvidas quanto a outras cinco e a certeza de que as demais foram mero exagero;
      • se realmente foi morto por Pat Garrett ou sobreviveu, só vindo a expirar em 1950, quando um ancião que usava o nome de Brushy Bill Roberts disse ser, na verdade, Billy the Kid, em busca do perdão governamental (mas, faleceu antes que sua história fosse apurada).
      Embora não se constituam nos melhores filmes a respeito de Billy, os dois Young Guns são os mais esclarecedores.

      O primeiro -- Os Jovens Pistoleiros (1988, dirigido por Christopher Cain) -- reconstitui a guerra do condado de Lincoln, mostrando como as disputas violentas por terras acabaram devolvendo à criminalidade os empregados de Tunstall (que contratava jovens marginais e os regenerava).
      ...e muito menos Pat com James
      Coburn ou William Pettersen.

      E o outro -- Jovem Demais Para Morrer (1990, d. Geoff Murphy) --, além da perseguição de Pat Garrett a Billy, introduz elementos interessantes, como a participação do jornalista contratado como  ghost  writer, o surgimento do nonagenário Brushy Bill Roberts (cujas alegações são aceitas como verdadeiras pelo filme) e o próprio fulcro do atual pedido de perdão.

      É que o governador Lew Wallace, empenhado em acabar com a corrupção e arbitrariedades dos poderosos de Lincoln, prometeu (mas não cumpriu) perdoar Billy caso ele depusesse incriminando os assassinos do seu ex-patrão.

      "O fora-da-lei foi mais honrado", diz o criminalista Joel Jacobsen, autor de Such Men as Billy the Kid, garantindo haver evidências "fortes, irrefutáveis mesmo" dessa barganha.

      Em Jovem Demais Para Morrer,  Wallace é mostrado como sincero, mas impotente para cumprir o prometido.

      Então, o dilema proposto ao governador atual é o seguinte: cabe a ele honrar a palavra de seu remoto antecessor?

      Seja qual for a decisão, o certo é que Billy já foi reabilitado pela arte, com sua saga inspirando verdadeiras obras-primas:
      • o estranhíssimo western freudiano Um de Nós Morrerá (1958, d. Arthur Penn), em que seu drama é equiparado ao de um filho que perdeu o pai (não o biológico, mas o fazendeiro Tunstall);
      • o belíssimo western outonal Pat Garrett & Billy the Kid (1973, d. Sam Peckinpah), centrado na má consciência do primeiro, que aceita uma estrela e uma missão infame como preço a pagar por uma velhice sem problemas financeiros;
      • a antológica trilha musical composta por Bob Dylan para o filme de Peckinpah, incluindo "Knockin' at Heaven's Door".

      Há quem destaque também os temas criados por Jon Bon Jovy para Jovem Demais Para Morrer e depois reunidos no álbum Blaze of Glory.

      Têm lá seu impacto, mas a inevitável comparação com o trabalho de Dylan acaba sendo cruel para Bon Jovi...

      P.S.: o governador do Novo México decidiu negar o indulto simbólico a Billy. Alegou "incertezas" quanto a seu antecessor haver ou não prometido o perdão e "uma ambiguidade histórica sobre o motivo pelo qual o governador Wallace teria desistido da graça".

      segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

      BILLY THE KID PODE RECEBER AGORA O PERDÃO PROMETIDO EM 1879

      Billy não era parecido com Kris
      Kristofferson ou Emilio Estevez...
      Billy the Kid pode ser oficialmente perdoado pelo governador do Novo México, quase 130 anos após sua morte, ocorrida em julho de 1881.

      É outra pendência que ficou para o finalzinho de mandato: assim como o presidente Lula em relação ao Caso Battisti, o governador Bill Richardson prometeu dar sua decisão até 5ª feira, 31, quando deixará o cargo.

      Morto aos 21 anos, Henry McCarty, também conhecido como William Henry Bonney e  Billy the Kid, começou a se tornar uma das maiores lendas do Velho Oeste estadunidense por obra e graça daquele que o matou: Pat Garrett.

      O xerife pagou a um escriba para relatar, em seu nome, a caçada por ele movida contra o velho companheiro de cavalgadas.

      A versão de Pat Garrett -- Billy the Kid: a história de um bandido (L&PM, 258 p.) -- é apresentada como uma tentativa de restabelecer a verdade dos fatos, pois já se começava a mitificar o personagem.

      Foi como apagar uma fogueira com gasolina: fez o mito crescer cada vez mais.

      O que se sabe:
      • Billy perdeu cedo o pai e, aos 14 anos, tornou-se órfão também de mãe;
      • preso por roubar roupas de uma lavanderia, foge da prisão e vagueia pela fronteira entre EUA e México, furtando cavalos;
      • mata um ferreiro no Arizona, aos 17 anos;
      • escapa para o Novo México e, no condado de Lincoln consegue um emprego honesto na fazenda de John Tunstall, a quem passa a admirar muito;
      • quando Tunstall é assassinado a mando de outro fazendeiro da região, ele e outros vingadores, intitulando-se  vigilantes, travam uma guerra sangrenta contra a facção contrária.

      O que permanece nebuloso:
      • o número de suas vítimas fatais, pois, das 20 ou 21 mortes que lhe atribuíram, apenas em quatro sua autoria é hoje dada como líquida e certa, havendo dúvidas quanto a outras cinco e a certeza de que as demais foram mero exagero;
      • se realmente foi morto por Pat Garrett ou sobreviveu, só vindo a expirar em 1950, quando um ancião que usava o nome de Brushy Bill Roberts disse ser, na verdade, Billy the Kid, em busca do perdão governamental (mas, faleceu antes que sua história fosse apurada).
       Embora não se constituam nos melhores filmes a respeito de Billy, os dois Young Guns são os mais esclarecedores.

      O primeiro -- Os Jovens Pistoleiros (1988, dirigido por Christopher Cain) -- reconstitui a guerra do condado de Lincoln, mostrando como as disputas violentas por terras acabaram devolvendo à criminalidade os empregados de Tunstall (que contratava jovens marginais e os regenerava).

      E o outro -- Jovem Demais Para Morrer (1990, d. Geoff Murphy) --, além da perseguição de Pat Garrett a Billy, introduz elementos interessantes, como a participação do jornalista contratado como  ghost  writer, o surgimento do nonagenário Brushy Bill Roberts (cujas alegações são aceitas como verdadeiras pelo filme) e o próprio fulcro do atual pedido de perdão.

      ...e muito menos Pat com James
      Coburn ou William Pettersen.
      É que o governador Lew Wallace, empenhado em acabar com a corrupção e arbitrariedades dos poderosos de Lincoln, prometeu (mas não cumpriu) perdoar Billy caso ele depusesse incriminando os assassinos do seu ex-patrão.

      "O fora-da-lei foi mais honrado", diz o criminalista Joel Jacobsen, autor de Such Men as Billy the Kid, garantindo haver evidências "fortes, irrefutáveis mesmo" dessa barganha.

      Em Jovem Demais Para Morrer,  Wallace é mostrado como sincero, mas impotente para cumprir o prometido.

      Então, o dilema proposto ao governador atual é o seguinte: cabe a ele honrar a palavra de seu remoto antecessor?

      Seja qual for a decisão, o certo é que Billy já foi reabilitado pela arte, com sua saga inspirando verdadeiras obras-primas:
      • o estranhíssimo western freudiano Um de Nós Morrerá (1958, d. Arthur Penn), em que seu drama é equiparado ao de um filho que perdeu o pai (não o biológico, mas o fazendeiro Tunstall);
      • o belíssimo western outonal Pat Garrett & Billy the Kid (1973, d. Sam Peckinpah), centrado na má consciência do primeiro, que aceita uma estrela e uma missão infame como preço a pagar por uma velhice sem problemas financeiros;
      • a antológica trilha musical composta por Bob Dylan para o filme de Peckinpah, incluindo "Knockin' at Heaven's Door".
        Há quem destaque também os temas criados por Jon Bon Jovy para Jovem Demais Para Morrer e depois reunidos no álbum Blaze of Glory.

        Têm lá seu impacto, mas a inevitável comparação com o trabalho de Dylan acaba sendo cruel para Bon Jovi...

        P.S.: o governador do Novo México decidiu negar o indulto simbólico a Billy. Alegou "incertezas" quanto a seu antecessor haver ou não prometido o perdão e "uma ambiguidade histórica sobre o motivo pelo qual o governador Wallace teria desistido da graça". 
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