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quinta-feira, 10 de julho de 2025

A FRASE DO DIA É SOBRE AS IRONIAS DA HISTÓRIA E TIROS SAINDO PELA CULATRA

O Lula ESTÁ INCONSOLÁVEL: desde OS ANOS 70 DANDO UM duro DANADO  para domesticar a esquerda brasileira 
e o Trump, EM POUCOS dias, DESTRUIU toda A SUa obra!
.
A esperteza, quando é demais, acaba engolindo o esperto...
Não há nada como um dia depois do outro, daí estarmos
iniciando uma nova temporada do filme Os companheiros,
um clássico das lutas sociais, dirigido por Mario Monicelli.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

ADEUS, PASSADO VELHO! FELIZ PASSADO NOVO! – 1

Fui candidato à prefeitura de Fortaleza em 1988, apoiado pela prefeita Maria Luíza e tendo o Ciro Gomes como adversário. Considero tal episódio uma mancha no meu currículo.

Não precisaria haver passado por tal experiência para saber que estava legitimando a inescapável opressão inerente à função do Estado; pode-se saber que o fogo queima sem ir queimar as mãos na chama.

Mas, se houve algo de positivo na minha experiência como secretário de finanças da administração popular de Fortaleza, foi a dúvida que ali se iniciou (e posteriormente se comprovou) da disfunção revolucionária que isto representa perante o imaginário popular; e, portanto, de que nunca deveria ter assumido tal função.

Em 1986 os prefeitos das capitais voltaram a ser escolhidos pelo voto (até então o ditador militar os indicava e os governadores os nomeavam), daí terem sido realizadas eleições para o cumprimento de mandatos-tampões até 1988, no sentido de ajustar o calendário eleitoral.  

Mas, as capitais ainda não contavam com autonomia financeira fiscal, que só viria com a promulgação da Constituição de outubro/1988. O triênio 1986/1988 foi, portanto, um período muito difícil para os administradores provisórios das finanças municipais, como era meu caso.

O problema era agravado pelo fato de Fortaleza ser a primeira administração de uma capital brasileira por parte do PT, daí decorrendo que:
— não dispúnhamos de vereadores petistas. 
— só em 1987 passamos a contar com dois deputados estaduais, em meio a 46 parlamentares;
— não havia nenhum deputado federal do PT no Ceará.

Mesmo assim, nosso grupo fez oposição cerrada ao presidente achado (só o foi por causa da morte de Tancredo Neves às vésperas da posse) José Sarney. 

O antigo presidente do PDS, partido da ditadura, num passe de mágica havia herdado a faixa presidencial, governando pelo PMDB, um partido criado pela ditadura para ser oposição de mentirinha (são coisas que só acontecem nesta terra brasilis...). E depois virou aliado do PT, na política de conciliação de classes então adotada. 

Foi, aliás, por conta de tal política de promiscuidade com os inimigos estratégicos que: 
— a Maria Luíza, eu e outros companheiros fomos expulsos do PT;
— sofremos oposição do PC do B (por força da opção conciliadora por ele adotada desde os primeiros anos da redemocratização) e do próprio PT, na medida em que nos diferenciávamos na linha programática e discordávamos da ajuda financeira ao partido e aos seus candidatos, um óbvio ovo da serpente da corrupção;
— sofremos a mais virulenta oposição e boicote empresarial da direita, que queria demonstrar a inviabilidade administrativa de um projeto revolucionário por dentro da administração pública (e nem precisavam de tanto ódio e esforço, porque a própria realidade conspirava contra nós, tanto que eles próprios não conseguem administrar bem o inadministrável aparelho de Estado capitalista, no sentido de prover suficientemente as demandas públicas básicas).

Mas, mesmo assim:
— conseguimos equilibrar as finanças públicas num padrão de receitas/despesas razoavelmente compatíveis (até porque a nós não era permitido nos endividarmos, o que nos obrigava a pagar rigorosamente o tal serviço da dívida impagável que herdamos das administrações anteriores);
— elaboramos um sem número de projetos sociais que ficaram engavetados até a posse do novo prefeito, só então sendo liberados. Isto permitiu que Ciro Gomes, aliado dos governos federal e estadual, se tornasse, em apenas um ano, o melhor prefeito do Brasil, laurea que o catapultou para em seguida eleger-se governador do Ceará, tornando-se personagem importante da política nacional;
— mantivemo-nos fieis às nossas bandeiras revolucionárias, ainda que num espaço de poder municipal e sob condições tais que mais parecia tratar-se de um suicídio eleitoral desassistido;

Involuntariamente, prestamos um serviço ao capitalismo ao equilibrar as finanças públicas municipais, e nos restou a lição e compreensão sobre tal impropriedade.

O capital expulsa os revolucionários do seu aparelho de estado assim que pode, como se fosse um vírus no interior daquele ente político dedicado basicamente a perpetuar a opressão.

Agora, quando assisto enfastiado ao debate político-eleitoral, é como estar revendo um filme velho e ruim, daqueles tão mentirosos que não são nem ficção, nem realismo fantástico, mas simplesmente um espetáculo farsesco com roteiro pobre e interpretação a cargo de canastrões sem brilho.

Os candidatos não estão desconectados da realidade em si (de vez que denunciam as mazelas não resolvidas pelo Estado), mas sim do nexo causal dos problemas. 

Nenhum deles denuncia ou alude à causa maior, a obsolescência do capitalismo, atribuindo sempre o fracasso a questiúnculas administrativas. 

Não podem nem querem admitir que o regime da exploração do homem pelo homem sempre foi ruim, tendo agora passado a ser inviável. E isto por estarem presos os padrões sistêmicos pelos quais pretendem se eleger. Afinal, não se deve cuspir no prato que se come!

Os estados nacionais estão falidos justamente porque o capitalismo atingiu o seu crepúsculo existencial após cumprir o itinerário histórico iluminista de nascimento e vida, ora encaminhando-se para a morte histórica, mas não sem antes tentar nos levar para o abismo de uma hecatombe nuclear ou ecológica, como resultante de sua insanidade.

A debacle atual não advém de questões meramente administravas e constitucionais burguesas, ou do antagonismo entre decrépitas ditaduras militaristas e sanguinárias em oposição a democracias burguesas sociais-democratas bem-intencionadas e sensíveis do ponto de vista humano, mas equivocadas.

O verdadeiro foco das nossas mazelas sociais é um modo de relação social subtrativo da riqueza material coletivamente produzida, graças à mediação social feita pela riqueza abstrata.

Dizia Marx que o inferno está cheio de gente bem-intencionada! (por Dalton Rosado – continua neste post)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

O BOM FILHO À CASA TORNA. É O QUE O PSOL PRETENDE FAZER...

Está na coluna da Mônica Bergamo deste 5ª feira, 10:
"O Psol está preparando uma agenda com 12 pontos que deverão ser levados à discussão programática com o PT. 
O tema será tratado na primeira reunião da executiva nacional da legenda deste ano, marcada para esta 6ª feira (11).

Em congresso realizado em setembro passado, o Psol definiu por 56% a 44% que iria apoiar a campanha do ex-presidente Lula e não lançaria candidato próprio ao Planalto. Essa decisão ainda deve ser confirmada numa conferência da legenda prevista para abril.

A condição para o apoio do Psol era justamente que o PT adotasse um programa de governo que contemplasse a esquerda. Nesta sexta serão levantados os temas que deverão ser levados à mesa de discussões com o PT em busca da construção de unidade.

Os três principais eixos que deverão ser defendidos pelo Psol são:

— a revisão do teto de gastos e de reformas promulgadas nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro;

— políticas ambientais, entre elas a transição energética e o desmatamento zero; e 
— a implementação de uma reforma tributária.

Membros do partido pregam a taxação de bilionários com o objetivo de financiar um programa de transferência de renda.

Apesar de o Psol se declarar contra a formação de uma chapa entre Lula e o ex-governador Geraldo Alckmin , líderes da legenda admitem que o apoio ao petista deve ser mantido de qualquer forma".
Não vejo, contudo, nenhuma possibilidade de se conciliarem os tais 12 pontos com o programa aprovado no Encontro Nacional de fundação do Psol, realizado nos dias 5 e 6 de junho de 2004, em Brasília, principalmente o item 3 da Parte I – Bases do programa estratégico:
"Nossa base programática não pode deixar de se pautar num principio: o resgate da independência política dos trabalhadores e excluídos. 
Não estamos formando um novo partido para estimular a conciliação de classes. Nossas alianças para construir um projeto alternativo têm que ser as que busquem soldar a unidade entre todos os setores do povo trabalhador – todos os trabalhadores, os que estão desempregados, com os movimentos populares, com os trabalhadores do campo, sem-terra, pequenos agricultores, com as classes médias urbanas, nas profissões liberais, na academia, nos setores formadores de opinião, cada vez mais dilapidadas pelo capital financeiro...

São estas alianças que vão permitir a construção da auto-organização independente e do poder alternativo popular, para além dos limites da ordem capitalista. Por isso, nosso partido rejeita os governos comuns com a classe dominante". 
Na conferência prevista para abril, a tendência é que seja confirmada tal decisão de tornar o Psol uma força auxiliar da burguesia, subjugado ao partido que melhor representa no Brasil atual a política de conciliação de classes e a participação espúria da esquerda em governos comuns com a classe dominante.

E restará uma pergunta que não vai querer calar: por que o rompimento com o PT e a fundação do Psol, se era para voltar com o rabo entre as pernas 17 anos depois?
(por Celso Lungaretti)

"...aqui me tens de regresso/ e suplicante te peço/ a minha nova inscrição..."

sábado, 13 de janeiro de 2018

MUITOS ESQUERDISTAS ESTÃO PARANDO DE PENSAR E SE TORNANDO REPETIDORES PASSIVOS DE SLOGANS SIMPLISTAS

Por Marco Aurélio Nogueira
A ESQUERDA QUE NÃO
 MERECEMOS TER
Do jeito que estão as coisas, não há como cogitar da afirmação de um competitivo campo de esquerda no Brasil.

Indo além: o movimento progressista está desnorteado, desarvorado, sem fibra.

A esquerda é um universo amplo, plural, integrado por muitas correntes, agregações e pessoas. Vai do liberalismo político democrático aos defensores do socialismo, de ambientalistas e ecologistas aos libertários, dos que lutam por direitos aos que querem igualdade e reconhecimento. É parte do progressismo, do reformismo, da democracia, ainda que nem sempre acerte os passos com tais plataformas.

Quando, porém, no Brasil, você para e olha, a impressão é que a esquerda se resume ao petismo, aos seguidores de Lula e aos correligionários do PT, com seus aliados, seus trânsfugas e seus satélites.

A simplificação mental é assustadora. Um mundo todo está acabando na política. Partidos e lideranças se desfazem por efeito das transformações estruturais do capitalismo e, no Brasil, dos desdobramentos da Lava-Jato e da crise do Estado e da política.
"Não há mais crítica política. Muito menos autocrítica"

Em vez de reconhecer isso, o esquerdismo prevalecente opta por vitimizar Lula e o PT: somente eles seriam perseguidos. Impeachment foi golpe, eleição sem Lula seria fraude, Lula estaria sendo condenado sem prova só para não poder se candidatar, a lawfare seria a adaga espetada em seu peito. Uma catilinária ilimitada.

Tudo isso é interpretado como expressão pura da esquerda, sem mais. Blogs, robôs, sites, mídia eletrônica organizam uma incansável campanha para ampliar o diagnóstico de que tudo só acontece porque a direita (jamais definida com clareza), os liberais, os socialistas democráticos, os partidos do sistema, decidiram atacar o PT e a esquerda, porque a Globo não gosta de Lula e quer dominar tudo, porque Sergio Moro é um partidário antipetista. Porque as elites resolveram sangrar a sociedade.

Estaria assim em marcha uma violenta guinada regressista, tradução brasileira do mesmo fenômeno que se veria no mundo. Direitos pisoteados, pobres sendo remetidos ao inferno da miséria, trabalhadores encurralados, superexplorados, tratados como animais, um cenário de horror. E, no meio dele, Lula e o PT lutando como verdadeiros patronos da Humanidade, que por eles, no mundo todo, torce apaixonadamente.
"Rolo compressor disseminando um pensamento único"
Consolidou-se assim uma nova faceta do mito global do redentor. Não há mais crítica política. Muito menos autocrítica. Os iluminados, como se fossem escolhidos, sabem tudo, dominam os mares, voam mais alto. São perseguidos e, por isso, automaticamente purificados, desobrigados de analisar os próprios passos, os erros cometidos, as culpas que carregam. Toda exigência deveria ser suspensa para não facilitar o trabalho da direita.  

Durante os anos do petismo no poder, a crítica não podia ser formulada porque desestabilizaria e enfraqueceria o governo; depois do impeachment, ela é inadmissível porque serviria para fortalecer os golpistas. De negação em negação, de recusa em recusa, foi-se empurrando a sujeira para baixo do tapete.

A mitificação corre solta, impulsionada por gente que se vangloria de ter uma inteligência superior, experiência política e boas intenções. Converte-se Lula num factótum da perfeição, dono de uma racionalidade política jamais vista e de uma entrega total aos pobres. Passa-se uma esponja em pecados eventuais, na sede desmesurada por poder, no protagonismo centralizador, avesso a disciplinas e partidos. O mito assim forjado tem alguns pés de barro, devidamente ocultados para não estragar o enredo, mas nem por isso deixa de ser alimentado.
"Uma estratégia coitadista, de vitimização"

A convicção cega embota as mentes, a superficialidade do diagnóstico agita, mas não consegue esclarecer nem ativar um verdadeiro programa de luta e transformação. Vai-se por inércia, repetindo chavões e slogans fáceis, que se derramam como água, a um ponto em que tudo se converte em senso comum. 

Nesse momento, as pessoas simplesmente param de pensar. Deixam de ser autônomas, convertem-se em repetidoras passivas, que se lançam em embates infrenes contra tudo e todos.

Os que procuram complicar um pouco o argumento, ponderar ou encontrar um terreno de maior razoabilidade, são atacados sem pena nem consideração. São estigmatizados, convertidos em aliados de golpistas.  Avança assim um rolo compressor dedicado a disseminar um tipo de pensamento único progressista, a martelar verdades tidas como absolutas, a promover polarizações sempre mais insanas e insensatas, a construir uma narrativa que beira a irracionalidade.

Todos seriam parciais: o MP, a PF, Moro e a Lava Jato, os juízes do TRF-4, a Justiça inteira, as instituições em seu conjunto, os delatores premiados, a mídia. Exagera-se, para levar ao extremo uma estratégia coitadista, de vitimização. 
"Uma nova faceta do mito global do redentor"
O país? Ora, o país… O importante seria não perder o foco: salvar o líder redentor. Fernando Gabeira disse bem: “A esquerda decide lançar todas as suas fichas na salvação do líder num momento em que a maioria está preocupada com a salvação do País. Essa energia concentrada em salvar Lula deixa de lado algumas questões vitais que ela teria de encarar num processo eleitoral”.

O desprezo pela dúvida e pela opinião divergente culmina na redução delas ao imprestável, ao suspeito. Não haveria porque debater se o outro é visto como inimigo a ser destruído. É uma questão de fé.

Interditam-se assim posturas e iniciativas que poderiam ajudar a oxigenar o ambiente, a fazer avançar uma crítica mais realista, a tolerância, a busca de entendimentos para fortalecer o próprio campo da esquerda, revitalizando um patrimônio de afetos, agregações, sinergias. Para o pensamento único, a dissonância é incômoda.

Vez ou outra se ouvem vozes falando em unidade das esquerdas e das forças populares para frear o governo entreguista e impedir a usurpação que se anuncia com o julgamento político de Lula. É uma retórica rebarbativa, que não avança na compreensão do quadro e se perde na proposição abstrata de uma imprecisa aliança nacional para defender a democracia. 
"Passa-se uma esponja em pecados eventuais"

Perorações desse tipo desaguam inevitavelmente na postulação do direito que teria Lula de disputar a eleição, porque ele é o líder supremo, amado pelo povo, pouco importando se cometeu deslizes, se vier a ser condenado, se tiver a ficha suja de acordo com a legislação em vigor.

Isso tudo acontece não só porque o esquerdismo prevalecente conseguiu acumular recursos e mostra competência na agitação e na propaganda. Acontece também porque a nossa época é uma época de lassidão crítica, de preguiça, de acomodação, de miséria intelectual. Uma época opiniática, em que cada um carrega a sua verdade e sua fé.

Acontece também porque os demais protagonistas do campo democrático e de esquerda – aquilo que se deveria chamar de esquerda democrática – não souberam se projetar e se articular, deixando o terreno vazio. Parte deles nem consegue se descolar do petismo lulista.

A desgraça maior é que ninguém sabe bem o que fazer.

Os esquerdistas acham que com a volta de Lula o sol voltará a brilhar e a emancipação será retomada. Não se dão sequer ao trabalho de verificar os dados e de perguntar ao Lula o que ele de fato fará se for eleito presidente.
"Uma reinvenção que nos faça voltar a ter orgulho de nos proclamarmos de esquerda"
Os que querem se diferenciar desse senso comum batem cabeça, ora se entregando ao encontro de um nome com que dar operacionalidade ao moderantismo de centro, ora abraçando bandeiras caras ao neoliberalismo, sem atualizá-las ou corrigi-las.

Uns e outros se acham autossuficientes. Atacam-se reciprocamente sem tréguas, e no correr da batalha deixam de lado o mais importante.

O mais importante? A defesa da democracia e de um reformismo realista, progressivo, consistente em termos programáticos, que nos permita repor o país nos eixos e disputar o futuro, coisa que somente será concebível se houver o concurso generoso de muitos. A defesa da igualdade, da liberdade, de direitos para todos, de formas abertas de vida social, da solidariedade, da cooperação.

O mais importante? A colocação em marcha de uma reinvenção que nos faça voltar a ter orgulho de nos proclamarmos de esquerda.

Por Celso Lungaretti
Observação do editor: este artigo, como um todo, é de suma importância para tentarmos acordar a esquerda brasileira de sua letárgica resignação ao avanço do pensamento único em suas fileiras e à continuidade das práticas populistas que vêm dando errado desde a redemocratização, afastando-a cada vez mais das bandeiras transformadoras da sociedade.

Então, para não desviar o foco dos aspectos principais, vou abster-me de questionar com maior profundidade o penúltimo parágrafo, limitando-me apenas a deixar este registro: só nos caberá defender a democracia burguesa se e quando ela estiver realmente ameaçada de ceder lugar a um estado totalitário; e não nos cabe defender o reformismo em momento nenhum e em nenhuma circunstância.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DIA 24 SE DECIDE O FUTURO DO PT: SEM LULA VAI VIRAR NADA E COM LULA CONTINUARÁ SENDO UM PLACEBO DA ESQUERDA.

david emanuel de souza coelho
AS ETAPAS DA DECADÊNCIA PETISTA

"Tudo começou quando rejeitaram a luta anticapitalista"
Primeiro, rejeitaram a revolução socialista, pois era coisa de utópico. 

Depois, decidiram criar um partido político, pois a luta só pode acontecer dentro dos marcos da democracia burguesa. 

Mais pra frente, concordaram em aceitar dinheiro do capital, pois não fazê-lo seria sectarismo e coisa de gente ultrapassada. 

Em algum momento concluíram que era preciso fazer alianças com os partidos da ordem burguesa, pois só assim seria possível chegar ao tão almejado poder. 

Em seguida, resolveram que fazer reformas no capitalismo era papo de doido, coisa de gente romântica. O lance era fazer o país crescer e não deixar o povo morrer de fome.

Mais um tempo se passou e avaliaram que era suficiente o trabalhador poder comprar uma geladeira e um carro. Pois, afinal, o carro é o símbolo máximo de emancipação do ser humano moderno.

Em certo momento, no meio disso tudo, decidiram mandar a ética às favas, pois "o mundo é assim mesmo, o que podemos fazer?".
"Agora não são mais nada"
Noutro momento mais adiantado, resolveram que a verdade também era coisa de gente alucinada, o importante era apenas o projeto. 

Por fim, abandonaram o projeto, era muita metafísica para eles. Muito romantismo.

Hoje, grande parte deles está na prisão e os que estão fora apenas contam os dias para também chegarem lá. 

Mas, é bom lembrar, tudo começou lá atrás, quando rejeitaram a luta anticapitalista e acreditaram piamente que conseguiriam domar o indomável. Foram tragados, digeridos e cuspidos. Agora não são mais nada. 

Observação do editor: esta contundente análise do David Emanuel de Souza Coelho é de alguns meses atrás, mas continua resumindo admiravelmente a trajetória negativa do PT até chegar à situação atual, quando precisa apostar todas as fichas na sobrevivência da candidatura presidencial do Lula, ameaçada pela confirmação, no próximo dia 24, da condenação sofrida em primeira instância.

Se Lula continuar na disputa, dará sobrevida a um partido que há muito deixou de trazer esperanças aos explorados, limitando-se agora a assustá-los com quadros horrorizantes daquilo que os adversários estariam fazendo ou pretendendo fazer. 

É anti isto e anti aquilo, mas não ousa mais definir claramente o que colocará no lugar, pois:
  • não poderia prometer, nem mesmo para fins meramente propagandísticos, a criação de uma alternativa popular de poder, sob pena de contrariar os banqueiros, usineiros e outros donos do PIB que vem bajulando repulsivamente desde 2003;
  • também não pode admitir sinceramente (pegaria mal!) que vai apenas repetir as políticas que fracassaram miseravelmente ao longo da atual década, culminando na derrubada de Dilma Rousseff por um piparote parlamentar, sem que as grandes massas vissem motivos para reagir.
Então, permito-me complementar o artigo do David: o que realmente se decidirá daqui a duas semanas é se a decadência do PT vai finalmente se concluir ou continuaremos assistindo à sua interminável agonia.

Para aquela esquerda (à qual pertenço) que já se compenetrou da inutilidade de combater-se o capital participando do jogo de cartas marcadas dos podres Poderes, a decisão a ser tomada é outra: a de colocarmos imediatamente de lado as tempestades de som e fúria significando nada da democracia burguesa e redirecionarmos a nossa atuação, passando a conferir prioridade máxima para as lutas sociais que se travam ou podem ser travadas no País inteiro e, assim, irmos acumulando forças para a superação do capitalismo, única solução real para as aflições dos brasileiros.

domingo, 7 de janeiro de 2018

PARA ARTICULISTA, CANDIDATURA DE LULA "ALIENARÁ AINDA MAIS A JÁ SIDERADA ESQUERDA BRASILEIRA"

Por David Emanuel de Souza Coelho
Para ser direto e falar sem contorcionismos, defendo que Lula não apenas não tem o direito de se candidatar, como também que é seu dever não fazê-lo.

Para além da expressão de um personalismo oco, qual a contribuição de uma candidatura de Lula à luta dos trabalhadores? Nenhuma. A campanha de Lula se pautará nas reminiscências de uma época histórica superada, impossível de repetição. 

Eleito, o que Lula fará? Essencialmente, o mesmo que Temer, só que com o MST e a UNE. Buscará as mesmas alianças que levaram Dilma ao fracasso. 

Alimentará o ódio da extrema-direita duplamente: por meio do simbolismo de sua presença na presidência e mediante dinheiro e poder distribuídos a seus aliados fascistas no congresso e nos estados. 

Alienará ainda mais a já siderada esquerda brasileira, afastando os trabalhadores de seus ideais e os jogando no colo de figuras como Bolsonaro.

E tudo pra quê? Para satisfazer a máquina burocrática do petismo.

Caso Lula não tivesse destruído o PT, com seu personalismo bonapartista, poderia contar com outros nomes para concorrer e ele poderia recolher-se à sua pacata vida de aposentado. 

Mas, não satisfeito em ter arruinado o partido, agora quer dar o tiro de misericórdia, levando junto o resto da esquerda nacional e o país inteiro. 
A mera presença de Lula na eleição já será um desserviço. A esquerda delirante pode vir com suas platitudes tipo Lula tem o direito a concorrer e os trabalhadores de não votarem nele, que são apenas atestados de rendição e impotência, mas é fato que a candidatura de Lula significará o obscurecimento de qualquer debate programático em prol da disputa de caricaturas políticas, pretensamente elevadas ao patamar de grandes totens históricos. 

Lula não tem absolutamente nada a oferecer e seria bom que se retirasse da cena em prol do surgimento de algo mais radical e autêntico, algo que não vise fazer banqueiros ganhar dinheiro como nunca dantes na história, mas que vise acabar, de vez, com a existência de bancos e banqueiros.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

SCHWARTSMAN E LUNGARETTI ANALISAM O MELANCÓLICO FINAL DE UMA ETAPA

Por Hélio Schwartsman
UMA GESTÃO PARADOXAL
A Câmara começa hoje a analisar a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. Se não houver surpresas, ele se livrará do processo, como já se livrou da primeira investida da Procuradoria-Geral da República e da ação na Justiça Eleitoral que também poderiam tê-lo apeado do cargo.

Há algo de paradoxal aí. Temer, apesar de ser o presidente mais impopular da história do país e estar enroladíssimo em escândalos de corrupção, conseguirá, ao que tudo indica, concluir seu mandato, enquanto Dilma Rousseff, igualmente impopular, mas que ainda conserva uma imagem de honestidade pessoal, perdeu o seu. 

A elucidação do mistério é simples. Dilma dilacerou a economia do país e ainda por cima se meteu numa crise política que praticamente inviabilizava suas tentativas de consertar as coisas. Nem o PT votava a favor de suas medidas.

Já Temer logrou impedir a deterioração do quadro econômico e ganhou algum tempo para a aprovação de reformas. 

Equilibra-se agora entre o fisiologismo explícito e o cálculo pragmático de que não vale muito a pena iniciar um longo processo de afastamento (que resultaria em eleição indireta), quando estamos a menos de um ano do pleito direto.

Temer teve a chance de passar para a história como o presidente que estabilizou a economia e fez as reformas necessárias para o país voltar a crescer. As coisas começaram a dar errado para ele quando os irmãos Batistas entraram em cena, solapando a ampla maioria parlamentar que o governo vinha construindo.

Já para o país, as coisas começaram a dar errado quando o presidente, em vez de renunciar ao cargo e deixar que a agenda de reformas seguisse sob a batuta de outro, se pôs a comprar os votos necessários para salvar seu mandato, num movimento que, ironicamente, conspira contra a recuperação da economia, que sempre foi a primeira e única razão de ser do governo Temer.

Por Celso Lungaretti
A ÚLTIMA FLECHADA ERRA
O ALVO, COMO AS OUTRAS.
Diz um provérbio português, de autor desconhecido, que o tempo é o senhor da razão. Cai bem para estes dias em que se torna praticamente axiomático aquilo que eu escrevia lá atrás e me valia tantas críticas injustas e desqualificações tendenciosas.

Não é só o bacharel em Filosofia Hélio Schwartsman que atribui a queda de Dilma ao pandemônio econômico que engendrou e à sua incapacidade política de, ao menos, estancar a sangria. O próprio Lula acaba de fazê-lo, ao apontar os dois pecados capitais de Dilma, contra os quais adverti em vão quando ainda havia tempo para os evitarmos: 
— a insistência em ser ela a candidata do PT em 2014, quando saltava aos olhos e clamava aos céus que não teria competência para lidar com uma recessão tão aguda como a que se prenunciava, enquanto o próprio Lula era dotado de muito mais jogo de cintura para empunhar o leme durante a travessia das intempéries; e 
— a desastrosa decisão de tentar dar a volta por cima com uma rendição incondicional ao inimigo de classe (ou seja, a entrega do comando a economia a um neoliberal), decepcionando o eleitorado e a militância petistas a tal ponto que muitos e muitos depois assistiriam impassíveis à sua queda.
Você vê algo acima? Não se engane, é ilusão de ótica!
Infelizmente, impeachment consumado, o PT tudo fez para evitar a autocrítica que se impunha após um fracasso de consequências tão terríveis (reergueu a direita e afundou a esquerda), agarrando-se com unhas e dentes às três linhas-mestras de sua atuação desde que descartou em definitivo os projetos revolucionários: a conciliação de classes, o reformismo e o populismo.

Então, mesmo sem apoiá-lo incisivamente, viu com simpatia o Fora Temer!, pois desviava as atenções e fornecia catarse inofensiva aos que estavam com a derrota entalada na garganta. 

E mais cinco meses seriam jogados no lixo por conta de uma confusa coalizão entre um dos piores criminosos do colarinho branco no meio empresarial, um procurador-geral da República que transformou uma questiúncula pessoal (seu inconformismo com a substituição no cargo por uma desafeta) em questão nacional e a rede de comunicação mais nociva ao Brasil dentre todas.

Aos que faziam política com a bílis e não com os miolos, cansei de indagar de que adiantaria trocarmos o medíocre político profissional Michel Temer por seu genérico piorado (o Rodrigo Maia) para, lá por meados de 2018, ser empossado um substituto eleito pelo Congresso, que cumpriria meio ano de mandato-tampão com Brasília às moscas, pois nada de importante acontece por lá quando todas as atenções do mundo político estão voltadas para campanhas eleitorais.
O legado de Rodrigo Janot virará pó com a mais do que previsível rejeição da segunda denúncia contra Temer, só tendo servido para aumentar o cacife dos parlamentares fisiológicos, que exigiram mundos e fundos para o ajudarem a manter o mandato.

E o realmente necessário continua por ser feito desde maio de 2016, quando deveríamos ter começado a decidir o que colocar no lugar das estratégias e táticas do petismo, após ficar claríssimo que ganhar eleições e gerenciar o capitalismo para os capitalistas nunca resolverá a situação dos explorados, e que as concessões obtidas da burguesia em determinada conjuntura podem ser facilmente anuladas numa conjuntura seguinte.

Conquistas definitivas só virão quando acumularmos força suficiente para as sustentar contra todos os inimigos e em quaisquer circunstâncias. 

Não será nas urnas que vamos obter tal força.

sábado, 15 de julho de 2017

O GRADUALISMO PARIU UM MONSTRO

"o verdadeiro resultado da governabilidade do ingovernável"
vladimir safatle
O GOLPE FINAL 
Aqueles que, nas últimas décadas, acreditaram que o caminho do Brasil em direção a transformações sociais passava necessariamente pelo gradualismo deveriam meditar profundamente nesta semana de julho.

Não foram poucos os que louvaram as virtudes de um reformismo fraco porém seguro que vimos desde o início deste século, capaz de paulatinamente avançar em conquistas sociais e melhoria das condições de vida dos mais vulneráveis, enquanto evitava maiores conflitos políticos graças a estratégias conciliatórias.

"Há de se respeitar a correlação de forças", era o que se dizia. Para alguns, isso parecia sabedoria de quem lia A Arte da Guerra, de Sun Tzu, antes de reuniões com José Sarney e a lama do PMDB. Eu pediria, então, que meditássemos a respeito do resultado final de tal sabedoria.

Pois o verdadeiro resultado dessa estratégia está evidente hoje. Nunca o Brasil viu tamanha regressão social e convite à espoliação do mundo do trabalho.
E pensar que antes o Lula liderava greves contra a Fiesp!

O salto de modernização que nos propõem hoje tem requintes de sadismo. Ou, que nome daríamos para a permissão de mulheres gestantes trabalharem em ambientes insalubres e de que trabalhadores tenham o direito de negociar seu horário de almoço?

Tudo isso foi feito ignorando solenemente o desejo explícito da ampla maioria da população. Ignorância impulsionada pelo papel nefasto que tiveram setores majoritários da imprensa ao dar visões completamente monolíticas e unilaterais das discussões envolvendo tal debate.

Mas isso podia ser feito porque não há mais atores políticos capazes de encarnar a insatisfação e a revolta. Hoje, o governo pode atirar contra a população nas ruas em dias de manifestação e sair impune porque não há ator político para incorporar rupturas efetivas. Eles se esgotaram nos escaninhos de tal modelo de gestão social brasileiro.

A reforma trabalhista apenas demonstra que o gradualismo pariu um monstro. Os mesmos que votaram para mandar a classe trabalhadora aos porões de fábricas inglesas do século 19 estavam lá nas últimas coalizões dos governos brasileiros, sendo ministros e negociadores parlamentares.
"A política conciliatória os alimentou e preservou"

Ou seja, a política conciliatória os alimentou e os preservou, até que eles se sentissem fortes o suficiente para assumirem a cena principal do poder. "Mas era necessário preservar a governabilidade", diziam. Sim, este é o verdadeiro resultado da governabilidade do ingovernável, da adaptação ao pior.

Como se fosse apenas um acaso, no dia seguinte à aprovação da reforma trabalhista o Brasil viu o artífice deste reformismo conciliatório, Luiz Inácio Lula da Silva, ser condenado a nove anos de prisão por corrupção. Esse era um roteiro já escrito de véspera.

De toda forma, há de se admirar mais um resultado desta política conciliatória –a adaptação ao modelo de corrupção funcional do sistema brasileiro e, consequentemente, a fragilização completa de figuras um dia associadas, por setores majoritários da população, a alguma forma de esperança de modernização social.

O Brasil agora se digladia entre os que se indignam com tal sentença e os que a aplaudem com lágrimas de emoção. Engraçado é ver outros políticos que também mereciam condenação pregarem agora moralidade.

No entanto, o problema é que só existirá essa sentença, nada mais. Este é o capítulo final. Da mesma forma que o capítulo final do julgamento do mensalão foi a prisão de José Dirceu. Perguntem o que aconteceu com o idealizador do mensalão, o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo.
"Perguntem o que aconteceu com o idealizador do mensalão"

Ou perguntem sobre o que acontecerá a outro presidente do mesmo partido, aquele senhor que foi pego em gravação telefônica dizendo que deveria procurar um interceptador para propina que pudesse ser assassinado.

Ou o ex-presidente FHC, citado nos mesmos escândalos que agora condenam Lula. Muitos reclamam da parcialidade da Justiça brasileira: há algo de comédia nessa reclamação.

Que esta semana seja um sinal claro de que uma forma de fazer política no Brasil se esgotou (*), seus fracassos são evidentes, suas fraquezas também. Continuar no mesmo lugar é apenas uma forma autoinduzida de suicídio.
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* Safatle veio ao encontro da avaliação que fiz neste artigo, de que, com a condenação do Lula, toda uma época, a do reformismo à brasileira, termina de forma melancólica. (CL) 
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