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terça-feira, 6 de maio de 2025

HÁ 50 ANOS, O SUCESSO AVASSALADOR DE "TUBARÃO" ALÇAVA STEVEN SPIELBERG INSTANTANEAMENTE A GRANDE DIRETOR

Em 1975, quando Steven Spielberg estava com 28 anos, sua carreira como diretor se resumia a curtas metragens, filmes e episódios de seriados para TV e um único longa para cinema, Louca escapada, sem grande repercussão. 

Mas Encurralado (1971), um dos seus trabalhos para a tela pequena, impressionara tanto que acabou sendo lançado na tela grande. Esperava-se dele algo maior e a promessa foi cumprida com Tubarão, que o alçou instantaneamente à condição de grande diretor de Hollywood. 

Foi novamente um filme de ação, tendo como receita do seu êxito a temática do duelo . Em Encurralado, havia sido o confronto, que acaba se tornando mortal, entre os motoristas de um conversível e de m enorme caminhão, ao longo da rodovia.

Tubarão tem 124 minutos e vale sobretudo pela metade final, quando um xerife, um oceanografo e um caçador profissional de tubarões saem no encalço de uma fera gigantesca que atacava os banhistas de uma cidade turística e, ao invés de fugir, os enfrenta.
Ou seja, o enredo tinha a mesma inverossimilhança de
Moby Dick: peixes não duelam com homens, estão apenas ocupados com alimentarem-se de peixes menores. Mas, se tanto a baleia quanto o tubarão não fossem vingativos e perseguissem os homens que os haviam tentado matar, ambas as histórias não seriam tão impactantes.

O talento de Spielberg em culminar seu filme com ação eletrizante, de tirar o fôlego, foi recompensado: Tubarão bombou no mundo inteiro e motivou os produtores a lançarem três sequelas (com histórias encomendadas do mesmo escritor e roteirista, Peter Benchley) e vários trabalhos menores com outras criaturas marinhas gigantescas, mas a moeda não caiu outra vez em pé. 

Sem Spielberg, que não quis continuar explorando filão que inaugurara, não houve mais nenhuma  bilheteria expressiva. 

De resto, a grande atuação do filme ficou por conta do Robert Shaw, que precisava compor um personagem impressionante, obcecado em vingar-se dos peixes que quase o haviam devorado, e deu total conta do recado. 

E o tema musical do ataque do tubarão, composto pelo John Williams, é do tipo chiclete: gruda nos ouvidos. (por Celso Lungaretti)    
O filme Tubarão pode ser alugado/comprado no próprio
Youtube; está disponível também no streaming da Prime.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

QUANDO OUTRO EXTERMÍNIO DE PALESTINOS ESTÁ EM CURSO, VEJA A PERFÍDIA COM QUE AS POTÊNCIAS SEMPRE AGIRAM NA ARÁBIA!

Demorou, mas finalmente o blog pôde disponibilizar o maior épico da história do cinema: Lawrence da Arábia (1962), um filme tão superlativo que, segundo Steven Spielberg, jamais poderia ser realizado nos dias atuais. 

Isto não só por seu astronômico orçamento, como também pela qualidade dos profissionais envolvidos no projeto, desde o elenco estrelar (Peter O'Toole no papel que o tornou um grande astro, mais Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Jack Hawkins, Omar Sharif, etc.) até os técnicos, passando pelo extraordinário diretor que foi David Lean (Grandes esperanças, A ponte do rio Kwai, Doutor Jivago).

E afora o fato de inspirar-se nas peripécias reais de um dos personagens mais fascinantes do século passado, o arqueólogo, explorador, diplomata, militar, agente secreto e escritor T. E. Lawrence, que foi oficial de ligação entre as tropas britânicas e os revoltosos árabes durante a 1ª Guerra Mundial.
O Lawrence real, bem mais baixo
do que o ator Peter O' Toole.

Com seus múltiplos talentos e interesses, Lawrence era o britânico que melhor compreendia os anseios dos árabes, na verdade uma infinidade de tribos nômades que o príncipe Faiçal tentava unir para confrontar o Império Otomano. 

Como os turcos eram aliados dos alemães, Faiçal recebia um reticente apoio da pérfida Albion e dos franceses, que não confiavam naqueles dispersos e indisciplinados combatentes do deserto.

Lawrence, que desde os tempos de arqueólogo simpatizava com a causa que um destino insólito lhe permitia estar defendendo, acaba conquistando a confiança de  Faiçal e se tornando um trunfo valiosíssimo para popularizar a revolta árabe na Europa, que se deslumbrou com os feitos militares (principalmente em ações guerrilheiras) daquele oficial da rainha vestido à moda árabe.

O filme tem 222 minutos e é de uma beleza estonteante, não se restringindo à escalada de Lawrence, desde seu papel subalterno como oficial britânico até tornar-se um herói de dois continentes. Também mostra as múltiplas contradições a que ele foi conduzido pela crueza da guerra e o seu papel ambíguo dentro dela (servia aos colonialistas, mas tentava arrancar deles o máximo de benefícios para aqueles ao lado de quem lutava). 

Acaba vencendo, mas também fracassando: como sempre, os poderosos, depois de outros tirarem as castanhas do fogo por eles, poupando-os de queimarem os dedos,  descumpriram suas solenes promessas e Lawrence se tornou um homem amargurado e arredio à notoriedade que conquistara, inclusive graças à sua interessantíssima autobiografia, Os sete pilares da sabedoria.
David Lean consegue colocar na tela todas as nuances da personalidade de Lawrence, algumas explicitamente (como um massacre inútil 
por ele ordenado, de turcos que debandavam em grande inferioridade numérica), outras de forma velada. 

Caso de uma possível homossexualidade do seu herói, que até hoje desperta polêmicas, ainda mais com a descoberta recente de que ele tinha, afinal, uma provável amante.

À maneira discreta dos britânicos, isto fica sugerido no relacionamento de Lawrence com seus dois jovens criados. E, com a mesma delicadeza, o filme não omite, mas também evita mostrar até o desfecho, o episódio de sua prisão pelos turcos, quando foi por eles estuprado, sem nunca ter escondido tal fato (relatou-o no seu livro).

Enfim, é um tipo de filme multifacetado, no qual cada pessoa, de acordo com seu nível de informação e sua sensibilidade, ou encontra as peças de um painel riquíssimo sobre um grande homem e sua época, ou apenas uma aventura que, embora pareça inverossímil, aconteceu mesmo, embora nem sempre exatamente como é mostrada.  

Afinal, não se trata de um documentário, mas sim de um filmaço, destinado a um público infinitamente maior e, ademais, com uma inteligência que as superproduções atuais desistiram de sequer tentarem atingir. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

SPIELBERG COMEÇOU COM UM EMPOLGANTE DUELO ARTÍSTICO, DEPOIS SÓ DUELARIA PELA MAXIMIZAÇÃO DOS CIFRÕES

A engrenagem capitalista nas artes tem o toque de Sadim (Midas ao contrário): todo ouro que toca vira cascalho. É interminável a lista de grandes talentos que minguaram por se prostituírem ao chamado cinemão, limitando-se a prover as banalidades inócuas que os espectadores medianos apreciam.

Steven Spielberg ocupa lugar de destaque na relação. Poderia ter feito cinema de verdade, a julgar pelo pique inicial. Mas, o primeiro grande sucesso, Tubarão (1975), foi o último grande filme. Nunca mais deixou de bajular os consumidores em troca de um punhado de dólares. 

Estreou com um filme de TV tão bom que acabou nos cinemas: este Encurralado (1971), a que vocês podem assistir na janelinha abaixo.

O título original, Duel, é mais apropriado. 

Caminhoneiro antipatiza com um caixeiro viajante (Dennis Weaver) que buzinou insistentemente pedindo passagem. Por este único motivo, passa a persegui-lo e a hostilizá-lo desmedidamente ao longo da estrada, até o pacato sujeito se convencer de que não tem como escapar do duelo. Só sobreviverá se assumir o desafio.

Afora a maestria com que Speilberg faz crescer o suspense a cada segundo do seu estranho road movie, há todo um simbolismo por trás da ação, remetendo-nos à história bíblica de Davi e Golias: o vendedor tem o alusivo nome de David Mann (Davi, homem) e confronta um gigantesco monstro mecânico cujo condutor nunca é visto. 

Indo mais além, eram tempos de Guerra do Vietnã e da contestação jovem, que desestabilizavam o mundinho careta (segundo o jargão dos pirados da época) no qual David Mann se acostumara a viver. Assim como ele, a chamada maioria silenciosa sentia-se repentinamente ameaçada, tendo de travar duelos para os quais não se havia preparado. Encurralado flagra tal desconforto.
Situação semelhante é mostrada no filme que representou um divisor de águas na carreira de Spielberg, Tubarão, quando o perigo inesperado se corporifica num monstro marinho, que também surge do nada e atrai para um duelo mortal o xerife prosaico e sem queda para herói (Roy Scheider).

Maior faturamento da história do cinema até então, tonteou Spielberg, tornando-o um obcecado por bilheterias. A partir daí ele realizaria um sem-número de besteirinhas caça-níqueis, além de recorrer a uma apelação manjadíssima (fazer coro com a cantilena dos judeus, os magnatas que comandam Hollywood) quando se dispôs a obter, custasse o que custasse, o seu primeiro Oscar.  

Seu A lista de Schindler desperdiçou uma ótima história e um personagem histórico exemplar ao satanizar excessivamente os nazistas, repisar demais suas bestialidades e vitimizar de forma maniqueísta ao extremo as suas vítimas, acabando por se tornar esquemático, repetitivo e tedioso .

Essencializado, poderia ter sido uma obra-prima. Não consigo lembrar de um filme mais carente de cortes, tantas são as excrescências (pieguices e redundâncias) a clamarem por cortes. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 2 de maio de 2017

OS FILMES DE TERROR ATRAVÉS DOS TEMPOS... E O QUE ESTÁ POR TRÁS DELES!

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural se alastrou por vídeos e telas. Que 
sortilégios o rejuvenesceram? Por que os possuídos e assombrados passaram
a ser os jovens? Trata-se de enigmas que só desvendaremos 
se reconstituirmos sua trajetória maligna...
.
Tão imensa quanto o King Kong...
O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.

Possessões demoníacas, p. ex., eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o árduo e exaustivo trabalho braçal.

As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponível que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de íncubos (demônios tentadores).

A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico Drácula, é uma variante dessas crenças. O canino que cresce para invadir jugulares tem óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo.
...seria a volúpia de Fay Wray.
Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.

A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os impulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de O Médico e o Monstro e O Retrato de Dorian Gray, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

E o sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de Frankenstein, em que os cientistas são mostrados como fabricantes de monstros.

Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o rançoso moralismo dominante em Hollywood permitiria, p. ex., uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico Carmilla, de Sheridan Le Fannu.

E a própria penetração dos caninos de Drácula nos alvos pescocinhos das heroínas era convenientemente encoberta pela do vampiro, que neste momento estratégico erguia o braço para ocultar a cena dos espectadores.
Sensualidade latente no Drácula de 1931

Apesar disto, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico Drácula (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.

E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) – King Kong (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper – foi por alguns analistas decifrado como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia no corpo daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.
GRANDE DEPRESSÃO x ESCAPISMO
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O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo que fornece fantasias compensatórias.
Frankenstein fazia esquecer a penúria
Assim, o homem comum na platéia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.

Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disto, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.

Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.

A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.
HORRORES NUCLEARES x CATARSE
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O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadores povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e violência da 2ª Guerra Mundial.
Godzila: menos aterrorizante que a bomba de Hiroshima.

Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização, foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.

O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma manteira, daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas, etc.), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.

Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam – e, morbidamente, desejavam – , para, afinal, serem exterminados e a ameaça, afastada.

Por meio da morte de cada criatura dessas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.
Postêres ingênuos, mas muito impactantes.
Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.

Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada –  pois, afinal, nenhum Godzilla imaginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.

Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

Indo ao encontro dos temores primitivos e inconscientes dos homens, as fitas de monstros reconstituíram a situação de dependência das crianças –  tão impotentes face aos adultos, animais e ao meio ambiente quanto as multidões mesmerizadas desses filmes o eram em relação às tarântulas escorpiões gigantes que atacavam cidades.
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A ÚLTIMA CENTELHA DO TERROR CLÁSSICO
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Christopher Lee, o melhor de todos os Dráculas.
A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (Drácula, Frankenstein, o lobisomem, a múmia, Dr. Jeckill/Mr. Hide, o fantasma da ópera, etc.), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.

Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.

Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de filmes B, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).

Este  revival  terrorístico foi por alguns avaliado como uma reação à vida insípida e sedentárias das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadão comum sente-se enredado e tolhido.

A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.
Um clássico absoluto: O corvo.

No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano. Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.

E tratamos com outras organizações impessoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.

Quando temos queixar a fazer, acabamos perdidos no labirinto das várias burocracias arrogantes. Se nos sentimos oprimidos ou logrados, dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.

Não seria mais fácil lidar com alguma corporificação do Mal, um ente definido, tangível, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater Drácula do que o demônio do vestibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?

Não seria mais simples queimar o laboratório do barão Frankenstein do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?.

O SANGUINOLENTO TERROR ZOOLÓGICO
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Na década seguinte, veio a voga do terror zoológico, desencadeada em 1975 por Tubarão, de Steven Spielberg. Desta vez, o homem se via confrontado por animais de dimensões comuns (cobras, abelhas, aranhas, cães, polvos, baleias, piranhas). Mas que, por conta dos desvarios ecológicos ou de experiências científicas malogradas, voltavam-se contra ele.
Roy Scheider e sua pescaria complicada

São filmes em que se percebe certo complexo de culpa pelos danos causados à natureza e às espécies animais, mas, ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre o homem e a vida selvagem. Ou seja, parecem reforçar o condicionamento dos urbanoides que subsistiam em oposição ao habitat natural, reconfigurando-o ao invés de harmonizar-se com ele.

Além disto, a crueza com que são mostrados os ataques de animais contra seres humanos denunciam uma enorme carga de agressividade reprimida nas plateias, que vibravam ao verem gente sendo estraçalhada..
A FÚRIA DAS CRIANÇAS MIMADAS
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A morbidez se manteve nos anos 80, com dilacerações explícitas salpicando de sangue os espectadores. O psiquiatra Thomas Radecki disse certa vez que existiam mais de mil estudos científicos e reportagens sobre a violência desmedida nos filmes, sendo que 75% deles concluíram que havia um sensível aumento de atitudes anti-sociais e violentas depois de as pessoas assistirem a tais fitas.

O público-alvo desse terror de base sadomasoquista era o juvenil e adolescente. Praticamente desde o início da década de 1980, nas salas de exibição a predominância passou a ser dos menores de 18 anos, daí a produção ter sido cada vez mais direcionadas para estas faixas etárias. E, com a disseminação do VHS e do DVD, o terror para jovens virou verdadeira mania.
6ª feira 13: Jason Voorhees punindo o sexo adolescente.

Tratava-se de um filão em que o sobrenatural tinha como adversários não mais os amadurecidos mestres em ocultismo, mas sim garotos e rapazes; as carnificinas alternavam-se com alívios cômicos; e a trilha sonora era de  heavy metal.

A extrema agressividade implícita nos jovens consumidores dessas fitas advinha do narcisismo exacerbado que as crianças desenvolvem na sociedade de consumo. Mimadas e paparicadas à exaustão, sentem como um crime de lesa-majestade os golpes que a realidade vai desferindo contra suas ilusões de onipotência, daí a agressividade que acumulam e para qual esses filmes ofereciam projeção e catarse.

Além disto, após o período dourado da juventude vem o ingresso na sociedade extremamente competitiva dos dias atuais, a começar pela guilhotina do vestibular. Os filmes em que jovens derrotam vampiros e monstros são simbolizações dos ritos de passagem, servindo magicamente para revigorar a confiança dos adolescentes quanto a enfrentar com êxito os desafios que marcarão sua transição para o mundo dos adultos.

E a liberação sexual que vinha num crescendo desde a os anos 60 não era isenta de castigos (simbólicos). Grande parte desses filmes, e a série Sexta-feira 13 em especial, insistia em mostrar, ad nauseam, jovens namorados sendo trucidados por entes malignos logo após terem mantido relações sexuais...
Jovens ameaçados por Freddy Krueger o enfrentam na dimensão onírica em A hora do pesadelo 3
O outro personagem emblemático do final do século passado foi Freddy Krueger, um fantasma que assombrava os sonhos da moçada da rua em que ele havia sido linchado, podendo até causar a morte de quem não acordasse depressa. 

O ponto de partida – um embaralhamento dos limites entre sonho e realidade – foi ótimo, mas a série se estendeu até a saturação. Vale pelos dois filmes que o criativo Wes Craven  dirigiu: o inicial A hora do pesadelo (1984) e  O novo pesadelo: o retorno de Freddy Krueger (1994), no qual a entidade, aproveitando as filmagens de um novo título da franquia, consegue sair da dimensão onírica e interagir com realizadores e atores (estes assumindo dois papéis, o de seus personagens e o deles próprios).
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CANIBALISMO, EPIDEMIAS E APOCALIPSE ZUMBI.
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Hannibal Lecter, o canibal carismático...
Finalmente, no século 21 está havendo um verdadeiro boom de filmes de terror de baixo orçamento, com pouco rock e pouco humor, tendo como elenco meros catados de ilustres desconhecidos em busca da fama, com argumentos sempre centrados em grupos de adolescentes e seus hormônios, interesses e tecnologias (por mais indigesta que seja a mistura da modernidade de celulares e internet com o primitivismo do sobrenatural).

Podem ser, de forma meio esquemática, divididos em quatro grupos.

Há os filhotes de A bruxa de Blair (d. Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, 1999), os falsos documentários, com suas imagens tremidas que chegam a desaparecer por momentos, como se se tratasse de algo verdadeiro filmado pelos envolvidos na ação com seus telefones celulares. Os enredos costumam ser mais toscos ainda do que o visual.

Os filhotes de O massacre da serra elétrica (d. Tobe Hopper, 1974), A montanha dos canibais (d. Sergio Martino, 1978), Holocausto canibal (d. Ruggero Deodato, 1980) e O silêncio dos inocentes (d. Jonathan Demme, 1991),  explorando de forma doentia a repulsa que a antropofagia desperta nas pessoas comuns.

Os filhotes da novela I'm the legend, do genial escritor de sci-fi Richard Matheson, que deu origem aos filmes Mortos que matam (1964), A última esperança da Terra (1971, disparado o melhor dos três) e Eu sou a lenda (2007), além de todo o mundaréu de títulos sobre epidemias que dizimam a espécie humana.
Apocalipse zumbi: o ápice do besteirol cinematográfico.
E os filhotes de A noite dos mortos-vivos, com que George A. Romero atualizou e revitalizou em 1968 o tema dos zumbis, já não mais mostrados como vítimas individuais dos feiticeiros do vudu haitiano, mas sim como cadáveres que algum tipo de contaminação no cemitério (química, radiativa, etc.) faz saírem em massa das tumbas para trucidarem e/ou devorarem os vivos.

Os dois últimos conjuntos, o do contágio e o do apocalipse zumbi, denotam um paradoxal medo da morte por parte dos jovens, que não deveriam estar nem aí para isto. Por trás de sua aparente insensibilidade, eles se mostram atraídos por produções que giram em torno dos últimos dias de (nossa) Pompéia

É difícil identificarmos o motivo inconsciente de tal fascínio, até porque nem sequer catarse tais filmes fornecem: são distopias que acabam muito mal, com os raros sobreviventes geralmente condenados ou sem grandes esperanças. 

Será apenas porque as fatalidades deixam de nos aterrorizar tanto quando nos acostumamos à ideia?

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O filme do dia: "ENCURRALADO". Qualquer semelhança com o ENCALACRADO Delcídio do Amaral é mera coincidência...

A engrenagem capitalista nas artes tem o toque de Sadim (Midas ao contrário): todo ouro que toca vira cascalho. É interminável a lista de grandes talentos que minguaram por se prostituírem ao cinemão, limitando-se a prover as banalidades inócuas que os espectadores medianos apreciam.

Steven Spielberg ocupa lugar de destaque na relação. Poderia ter feito cinema de verdade, a julgar pelo pique inicial. Mas, o primeiro grande sucesso, Tubarão (1975), foi o último grande filme. Nunca mais deixou de bajular os consumidores em troca de um punhado de dólares. 

Estreou com um filme feito para a TV, tão bom que acabou passando antes pelos cinemas: Encurralado (1971). Vocês podem assisti-lo na janelinha abaixo.

O título original, Duel, é mais apropriado. Caminhoneiro antipatiza com um caixeiro viajante (Dennis Weaver) que buzinou insistentemente pedindo passagem.

Por este único motivo passa a persegui-lo e a hostilizá-lo desmedidamente ao longo da estrada, até o pacato sujeito se convencer de que não tem como escapar do duelo. Só sobreviverá se assumir o desafio.

Afora a maestria com que Speilberg faz crescer o suspense a cada segundo do seu estranho road movie, há todo um simbolismo por trás da ação, remetendo-nos à história bíblica de Davi e Golias: o vendedor tem o alusivo nome de David Mann e confronta um gigantesco monstro mecânico cujo condutor nunca é visto. 

Indo mais além, eram tempos de Guerra do Vietnã e da contestação jovem, que desestabilizavam o mundinho careta (segundo o jargão da época) no qual David Mann se acostumara a viver. Assim como ele, a chamada maioria silenciosa sentia-se repentinamente ameaçada, tendo de travar duelos para os quais não se havia preparado. Encurralado flagra tal desconforto.

Situação semelhante é mostrada no filme que representou um divisor de águas na carreira de Spielberg, Tubarão, quando o perigo inesperado se corporifica num monstro marinho, que também surge do nada e atrai para um duelo mortal o xerife prosaico e sem porte de herói (Roy Scheider).

Maior faturamento da história do cinema até então, tonteou Spielberg, tornando-o um obcecado por bilheterias. A partir de então ele realizaria um sem-número de besteirinhas caça-níqueis, além de recorrer a uma apelação manjadíssima (fazer coro com a cantilena dos judeus, os magnatas que comandam Hollywood) quando se dispôs a obter, custasse o que custasse, o seu primeiro Oscar.  

Seu A lista de Schindler desperdiçou uma ótima história e um personagem histórico exemplar ao satanizar demais os nazistas, enfatizar demais suas bestialidades e vitimizar demais suas vítimas, acabando por se tornar esquemático, repetitivo e tedioso .

Essencializado, poderia ter sido uma obra-prima. Não consigo lembrar de um filme mais carente de cortes, tantas são as excrescências (pieguices e redundâncias) a clamarem por exclusão.

domingo, 3 de novembro de 2013

SPIELBERG FOI GRANDE... ANTES DE CAPITULAR AO CINEMÃO

A engrenagem capitalista nas artes tem o toque de Sadim (Midas ao contrário): todo ouro que toca vira cascalho. É interminável a lista de grandes talentos que minguaram por se prostituírem ao cinemão, limitando-se a prover as banalidades inócuas que os espectadores medianos apreciam.

Steven Spielberg ocupa lugar de destaque na relação. Poderia ter feito cinema de verdade, a julgar pelo pique inicial. Mas, o primeiro grande sucesso, Tubarão (1975), foi o último grande filme. Nunca mais deixou de bajular os consumidores em troca de um punhado de dólares. 

Estreou com um filme de TV tão bom que acabou nos cinemas: este Encurralado (1971), a que vocês podem assistir na janelinha abaixo.

O título original, Duel, é mais apropriado. Caminhoneiro antipatiza com um caixeiro viajante (Dennis Weaver) que buzinou insistentemente pedindo passagem. Por este único motivo passa a persegui-lo e a hostilizá-lo desmedidamente ao longo da estrada, até o pacato sujeito se convencer de que não tem como escapar do duelo. Só sobreviverá se assumir o desafio.

Afora a maestria com que Speilberg faz crescer o suspense a cada segundo do seu estranho road movie, há todo um simbolismo por trás da ação, remetendo-nos à história bíblica de Davi e Golias: o vendedor tem o alusivo nome de David Mann e confronta um gigantesco monstro mecânico cujo condutor nunca é visto. 

Indo mais além, eram tempos de Guerra do Vietnã e da contestação jovem, que desestabilizavam o mundinho careta (segundo o jargão da época) no qual David Mann se acostumara a viver. Assim como ele, a chamada maioria silenciosa sentia-se repentinamente ameaçada, tendo de travar duelos para os quais não se havia preparado. Encurralado flagra tal desconforto.

Situação semelhante é mostrada no filme que representou um divisor de águas na carreira de Spielberg, Tubarão, quando o perigo inesperado se corporifica num monstro marinho, que também surge do nada e atrai para um duelo mortal o xerife prosaico e sem porte de herói (Roy Scheider).

Maior faturamento da história do cinema até então, tonteou Spielberg, tornando-o um obcecado por bilheterias. A partir de então ele realizaria um sem-número de besteirinhas caça-níqueis, além de recorrer a uma apelação manjadíssima (fazer coro com a cantilena dos judeus, os magnatas que comandam Hollywood) quando se dispôs a obter, custasse o que custasse, o seu primeiro Oscar.  

Seu A lista de Schindler desperdiçou uma ótima história e um personagem histórico exemplar ao satanizar demais os nazistas, enfatizar demais suas bestialidades e vitimizar demais suas vítimas, acabando por se tornar esquemático, repetitivo e tedioso .

Essencializado, poderia ter sido uma obra-prima. Não consigo lembrar de um filme mais carente de cortes, tantas são as excrescências (pieguices e redundâncias) a clamarem por exclusão.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

BAÚ DO CELSÃO: O FANTÁSTICO E O SOBRENATURAL NO DIVÃ

Invocado pelas novas gerações, o sobrenatural se alastra por vídeos e telas. Que 
sortilégios o rejuvenescram? Por que os possuídos e assombrados são 
agora os jovens? Trata-se de enigmas que só desvendaremos 
se reconstituírmos sua trajetória maligna...

Tão imensa quanto King Kong...
O sobrenatural, através dos tempos, sempre deu expressão a facetas da índole humana que não são admitidas pela sociedade e pela própria personalidade consciente do indivíduo.

Possessões demoníacas, p. ex., eram a reação extrema contra a repressão sexual vigente à época em que as energias corporais tinham de ser, tanto quanto possível, poupadas para o trabalho braçal.

As proibições inculcadas desde cedo constituíam obstáculos de tal forma intransponível que, para ceder aos instintos, as mulheres precisavam criar fantasias em que se supunham vítimas de íncubos (demônios tentadores).

...seria a volúpia de Fay Wray.
A lenda do vampiro, que forneceu a Bram Stocker a matéria-prima para o clássico Drácula, é uma variante dessas crenças. O canino que cresce para invadir jugulares tem óbvias características fálicas, tanto que, inclusive, perpetua a espécie, ao contaminar outras pessoas com o vírus do vampirismo.

Nos clássicos do gênero, por sinal, a simbologia é riquíssima.

A dualidade instintiva, os conflitos entre o eu aparente e os ímpulsos inconscientes (entre o ego e o id, na terminologia freudiana) constituem o motivo secreto do fascínio de O Médico e o Monstro e O Retrato de Dorian Gray, novelas em que eventos fortuitos acabam por revelar a personalidade real dos personagens, até então inibidas pelas convenções sociais.

E o sentimento difuso de que a ciência estivesse causando danos irreparáveis à natureza e à humanidade explica o fascínio de Frankenstein, em que os cientistas são apresentados como fabricantes de monstros.

Sensualidade latente no Drácula de 1931
Na transição para o cinema, a carga erótica implícita em várias novelas de terror foi atenuada. Afinal, dificilmente o moralismo dominante em Hollywood permitiria, p. ex., uma expressão mais ousada do lesbianismo latente no clássico Carmilla, de Sheridan Le Fannu.

E a própria penetração dos caninos de Drácula nos alvos pescocinhos das heroínas era convenientemente encoberta pela do vampiro, que neste momento estratégico erguia o braço para ocultar a cena dos espectadores.

Apesar disto, a imagem filmada conseguia sugerir muito e o clássico Drácula (1932), de Ted Browing, deveu grande parte do seu impacto à perturbadora aura sensual do personagem interpretado por Bela Lugosi.

E uma das principais criações do próprio cinema (não da literatura) -- King Kong (1933), de Ernest B. Schoedaksack e Merian C. Cooper -- foi por alguns analistas decifrado como uma gigantesca idealização da volúpia que fervia dentro daquela mocinha tão pura e ingênua protagonizada por Fay Wray.

GRANDE DEPRESSÃO x ESCAPISMO

O apogeu do terror na década de 1930, obviamente, tem tudo a ver com a grande depressão estadunidense. O cinema assume nessa época características eminentemente escapistas, levando os espectadores, em voos de imaginação, para longe de uma realidade insuportável, ao mesmo tempo que fornece fantasias compensatórias.

Frankenstein fazia esquecer a penúria
Assim, o homem comum na platéia se identificava com o herói que derrotava lobisomens, vampiros e múmias, e isto servia de alento para a batalha que ele próprio travava contra o desemprego e a miséria.

Ademais, segundo a dialética dos instintos proposta por Freud, a repressão de Eros leva a balança a pender para Thanatos. As dificuldades materiais e consequente prostração acarretam quase sempre esfriamento da libido e, como decorrência disto, o indivíduo se vê impregnado de morte, que se volta contra ele na forma de melancolia ou é descarregada para o exterior por meio da agressividade.

Assim, durante a depressão, as fitas de terror cumpriam exatamente o papel de permitir a projeção (para a tela) e catarse do instinto de morte que as pessoas carregavam dentro de si.

A morte aparecia como ameaça aterrorizante, colhia vítimas aqui e ali, mas acabava derrotada. Aos espectadores restava a sensação de terem estado (magicamente) próximos do perigo, mas escapado.

HORRORES NUCLEARES x CATARSE

O surto de fitas de monstros dos anos 50, quando dezenas de criaturas disformes e ameaçadores povoaram os pesadelos dos espectadores, é uma consequência do impacto que teve sobre a humanidade a barbárie e violência da 2ª Guerra Mundial.

Um mundo que supostamente caminharia a passos largos para o progresso e a civilização, foi surpreendido pela regressão à selvageria em sua forma mais brutal.

Godzilla: menos aterrorizante do que Hiroshima
O espanto e a perplexidade das pessoas precisavam ser expressos e expurgados de alguma manteira, daí o surgimento desses filmes em que os terrores primitivos irrompiam inopinadamente diante dos homens, corporificando-se nas figuras de seres pré-históricos e de animais que nos são temíveis ou repugnantes (insetos, polvos, aranhas, etc.), tornados gigantescos devido a qualquer incidente.

Na sua trajetória destrutiva, os monstros realizavam tudo aquilo que os espectadores mais temiam -- e, morbidamente, desejavam --, para, afinal, serem exterminados e a ameaça, afastada.

Por meio da morte de cada criatura dessas, exorcizavam-se simbolicamente os receios de uma nova guerra.

Isto fica ainda mais claro nas películas japonesas, em que os monstros eram engendrados ou despertavam de uma milenar hibernação a partir, quase sempre, de explosões atômicas.

Postêres ingênuos, mas muito impactantes
Os horrores reais de Hiroshima e Nagasaki, demasiadamente latentes na lembrança dos nipônicos, encontravam aí uma expressão atenuada -- pois, afinal, nenhum Godzilla imaginário poderia causar terror remotamente equiparável ao dos artefatos nucleares.

Outra característica significativa é a apresentação dos monstros como descomunais, evocação óbvia da idade em que o mundo nos parece ameaçador e povoado de seres gigantescos e muito mais poderosos do que nós: a infância.

Indo ao encontro dos temores primitivos e inconscientes dos homens, as fitas de monstros reconstituíram a situação de dependência das crianças -- tão impotentes face aos adultos, animais e ao meio ambiente quanto as multidões mesmerizadas desses filmes o eram em relação às tarântulas escorpiões gigantes que atacavam cidades.

O ÚLTIMO APOGEU  DO TERROR CLÁSSICO

Christopher Lee, o melhor Drácula
A partir de 1957, estendendo-se pelos anos 60, o terror clássico tem novo e derradeiro apogeu, com os estúdios britânicos Hammer e Amicus revivendo os velhos mitos das telas (Drácula, Frankenstein, o lobisomem, a múmia, Dr. Jeckill/Mr. Hide, o fantasma da ópera, etc.), sob a direção competente dos artesãos Terence Fisher, Freddie Francis, Roy Ward Baker e Jimmy Sangster, dentre outros.

Foi, também, a revelação dos dois últimos grandes atores referenciais do gênero: Peter Cushing e Christopher Lee.

Enquanto isto, nos EUA, o genial fabricante em série de filmes B, Roger Corman, transpunha em ritmo frenético para as telas os contos de Edgar Allan Poe, com elencos de veteranos ilustres (Vincent Price, Boris Karloff, Peter Lorre, Basil Rathbone, John Carradine, Ray Milland) e uma jovem promessa (Jack Nicholson).

Este  revival  terrorístico foi por alguns avaliado como uma reação à vida insípida e sedentárias das metrópoles modernas e ao cipoal burocrático no qual o cidadâo comum sente-se enredado e tolhido.

A complexidade das relações sociais em nossa época é tamanha que desperta no homem a nostalgia por desafios simples, inimigos concretos que se pudesse vencer numa luta corpo-a-corpo.

Clássico de Corman: O Corvo
No cotidiano, trabalhamos em companhias das quais só conhecemos os escalões intermediários, enquanto a cúpula está longe, inatingível, como o senhor do castelo kafkiano. Somos obrigados a cumprir decisões de que não participamos, nem sabemos como foram tomadas.

E tratamos com outras organizações impressoais, como bancos, imobiliárias, repartições públicas, universidades, das quais só conhecemos funcionários, mas jamais atingimos o  todo, o  cérebro.

Quando temos queixar a fazer, acabamos perdidos no labirinto das várias burocracias arrogantes. Se nos sentimos oprimidos ou logrados,
dificilmente conseguimos identificar o que vai mal em nossas vidas.

Não seria mais fácil lidar com o Mal, um ente definido, poderoso, poderoso, mas também vulnerável? Não seria preferível combater Drácula do que o demônio do vesbibular, os ogros dos testes de admissão, o fantasma do desemprego, a esfinge das dificuldades de ascensão econômica e social?

Não seria mais simples queimar o laboratório do barão Frankenstein do que livrarmo-nos dos cientistas loucos do governo que nos impõem políticas econômicas monstruosas?

O SANGUINOLENTO TERROR ZOOLÓGICO

Na década seguinte, veio a voga do terror zoológico, desencadeada em 1975 por Tubarão, de Steven Spielberg. Desta vez, o homem se via confrontado por animais de dimensões comuns (cobras, abelhas, aranhas, cães, polvos, baleias, piranhas). Mas que, por conta dos desvarios ecológicos ou de experiências científicas malogradas, voltavam-se contra ele.

Roy Scheider e sua pescaria complicada...
São filmes em que se percebe certo complexo de culpa pelos danos causados à natureza e às espécies animais, mas, ao mesmo tempo, aprofunda-se o fosso entre o homem e a vida selvagem. Ou seja, parecem reforçar o condicionamento dos urbanóides que subsistiam em oposição ao habitat natural, reconfigurando-o ao invés de harmonizar-se com ele.

Além disto, a crueza com que são mostrados os ataques de animais contra seres humanos denunciam uma enorme carga de agressividade reprimida nas platéias, que vibravam ao verem gente sendo estraçalhada.

A FÚRIA DAS CRIANÇAS MIMADAS

A morbidez se manteve nos anos 80, com dilacerações explícitas salpicando de sangue os espectadores. Segundo o psiquiatra Thomas Radecki, existem aproximadamente mil estudos e científicos e reportagens sobre a violência desmedida nos filmes, sendo que 75% deles concluem que há um sensível aumento de atitudes anti-sociais e violentas depois que as pessoas assistem a tais fitas.

O público-alvo desse terror de base sadomasoquista é o infanto-juvenil. Praticamente desde o início da década, nas salas de exibição a predominância é dos menores de 18 anos, daí a produção ter sido cada vez mais direcionadas para estas faixas etárias. E, com a disseminação do VHS e do DVD, o terror roqueiro virou verdadeira mania.

Trata-se de um filão em que o sobrenatural tem como adversários não mais os amadurecidos mestres em ocultismo, mas sim garotos e adolescentes; as carnificinas alternam-se com alívios cômicos; e a trilha sonora é de  heavy metal.

Jason: punição para o sexo adolescente?
A extrema agressividade implícita nos jovens consumidores dessas fitas advém do narcisismo exacerbado que as crianças desenvolvem na sociedade de consumo. Mimadas e paparicadas à exaustão, sentem como um crime de lesa-majestade os golpes que a realidade vai desferindo contra suas ilusões de onipotência, daí a agressividade que acumulam e para qual estes filmes oferecem projeção e catarse.

Além disto, após o período dourado da juventude vem o ingresso na sociedade extremamente competitiva dos dias atuais, a começar pela guilhotina do vestibular. Estes filmes em que jovens derrotam vampiros e monstros são simbolizações dosritos de passagem, servindo magicamente para revigorar a confiança dos adolescentes quanto a enfrentar com êxito os desafios que marcarão sua transição para o mundo dos adultos.

Finalmente, a liberação sexual das últimas décadas não é isenta de castigos (simbólicos). Grande parte desses filmes, e a série  Sexta-feira 13 em especial, insiste em mostrar,  ad nauseam, jovens namorados sendo trucidados por entes malígnos logo após terem mantido relações sexuais...
Obs.:  escrevi este artigo em 1980, para a revista  Fiesta Cinema, com o título de O que há por trás das histórias e filmes de terror?. Depois, várias vezes o atualizei, para outras publicações.
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