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sábado, 31 de maio de 2025

SOBRE O FILME 'NO CALOR DA NOITE', UM CLÁSSICO DE 1967, E A NOITE QUE HOJE SE ADENSA E AMEAÇA NOS TRAGAR A TODOS

F
oi por causa da insônia que resolvi rever No calor da noite (disponível no streaming da Prime Vídeo).

É que, quando acordo no meio da madrugada, assistir a um filme qualquer geralmente me ajuda a reencontrar o sono perdido.

A receita só não funcionou desta vez porque o velho clássico de Norman Jewison me provocou uma reflexão sobre a alternância dos humores do respeitável público, que oscilam do ótimo para o péssimo e vice-versa, sem alterarem o fundamental: enquanto o capitalismo continuar sobrevivendo à sua disfuncionalidade, os paliativos adotados pelas pessoas para seguirem vivendo não passarão de tempestades de som e fúria significando nada, como diria Shakespeare.

Evidentemente, sempre nos será mais gratificante vivermos em circunstâncias otimistas do que nas agônicas.  E os melhores dentre nós optam por resistirem com todas as forças ao avanço da desumanidade nos  regimes agônicos, ao invés de prostrarem-se a eles. 

Estimo que assim seja e minha opção de uma vida adulta inteira foi engrossar as fileiras dos resistentes. Tento, ademais, alertar os meus leitores e seguidores de que a alternância desses ciclos não significa que a solução esteja num deles. 

Não está. Ora sobreviveremos razoavelmente (mas muito aquém dos potenciais de melhora existentes) dentro do capitalismo, ora  comeremos o pão que o diabo amassou submetidos ao dito cujo, até que nos decidamos tomar a História nas mãos para destravá-la, livrando-nos do regime da exploração do homem pelo homem. É simples assim.

Atendo-nos ao passado mais recente, o século 20 começou com a ilusão de que os avanços científicos trariam grande progresso para a humanidade, que estaria entrando numa idade do ouro. 

Veio, no entanto, o primeiro conflito mundial e foi como um balde de água fria, com os horrores da guerra de trincheira superando os piores augúrios. E a paz precária acabou sendo apenas um intervalo no qual se incubaram totalitarismos e crises econômicas agudas, as quais desembocaram na Grande Depressão que perdurou durante toda a década de 1930 e só foi superada a partir de uma nova guerra mundial, seguida da penosa reconstrução do que fora destruído.

Assim como hoje falamos de décadas perdidas, poderíamos qualificar toda a primeira metade do século passado como perdida, do ponto de vista da ascensão da humanidade a um estágio superior de civilização.

A década de 1950 começou com a guerra fria pendendo como uma guilhotina sobre o futuro da humanidade e com uma repulsiva caça às bruxas ressurgindo em plenos EUA, o macartismo. 
Mas, após os Estados Unidos mostrarem sua pior face na perseguição arbitrária a alguns inimigos reais mas inofensivos e uma expressiva maioria de inimigos apenas imaginários, sucumbindo a uma grotesca histeria que foi insuflada ao máximo para servir à manipulação política, seria também lá que uma página mais digna da História começaria a ser escrita.

Foi a eclosão de movimentos para que os direitos civis dos negros passassem a ser respeitados, com os ditos cujos não mais sendo tratados como cidadãos de segunda categoria no seu próprio país. 

Hollywood, ainda que movida pelo interesse e não por convicção, não ficou indiferente aos ventos de mudança: a partir do metade final dos anos 50 produziu muitos filmes contrários ao racismo ou que abordavam criticamente as injustiças e desigualdades que continuavam existindo no país mais rico e poderoso do mundo.

A década de 1960 nasceu por lá sob o signo de esperanças ingênuas (John Kennedy não ascendeu ao poder por acaso!). E, embora houvesse uma encarniçada resistência dos setores mais retrógrados, foram crescendo as iniciativas para a erradicação de mazelas há muito arraigadas na sociedade. 

Os assassinatos de Martin Luther King e Malcon X reentronizariam o princípio da realidade, mas é impossível não simpatizarmos com aqueles esforços bem intencionados... e nem sempre bem concretizados em termos cinematográficos
.

A sequência de filmes que adotaram essas novas abordagens se inicia com Sementes de violência (d. Richard Brooks, 1955), seguindo-se Um homem tem três metros de altura (d. Martin Ritt, 1957), Acorrentados (d. Stanley Kramer, 1958), O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962), Ao mestre, com carinho (d. James Clavell, 1967), Adivinhe quem vem para jantar (d. Stanley Kramer, 1967) e A libertação de L. B. Jones (d. William Wyler, 1970), entre outros.

Um magnífico exemplar de tal tendência é o que motivou esta digressão,  
No calor da noite (1967), que consegue passar sua mensagem edificante sem ranço didático nem pieguice. 

Começa com um sofisticado policial negro da Filadelfia, Virgil Tibbs (Sidney Poitier), de passagem por uma cidadezinha sulista atrasada e preconceituosa, se envolvendo com a investigação do assassinato de um grande empresário.

O xerife Bill Gillespie (Rod Steiger), cuja mentalidade é igualmente tacanha, se vê obrigado a pedir sua colaboração, pois é inexperiente em episódios de tal gravidade e os cidadãos não lhe perdoarão um fracasso, ainda mais sabendo que ele tinha um especialista à mão.

Então, mais do que o esclarecimento do crime, o filme vale mesmo é pela interação entre Gillespie e Virgil, que começa em choques de personalidade e acaba em respeito mútuo; e pela reação da comunidade racista à momentânea ascendência que o policial negro adquire.

Assistir de novo, tanto tempo depois, este filme bem intencionado foi paradoxal porque os preconceitos e a obtusidade que estavam então em fase de superação são exatamente aquilo que o presidente Donald Trump tudo faz para restabelecer, cometendo uma lambança atrás da outra. 

Trata-se de missão impossível e que causará enormes danos à humanidade (principalmente no enfrentamento das alterações climáticas), além de poder levar os EUA a deixarem de ser potência dominante. A China, que já morde seus calcanhares, deverá ser a grande beneficiada pela guerra que Trump move contra a ciência e o pensamento. 

Quem tenta fazer a História andar para trás invariavelmente  quebra a cara, como o Jair Bolsonaro aprendeu (e o Lula, que parece não ter compreendido o porquê do retumbante fracasso da política econômica da Dilma Rousseff, mostra-se tentado a repetir as mesmas besteiras...). 

Quanto à esquerda, mais do que nunca precisa compenetrar-se de que seu papel hoje é o de lutar contra os retrocessos civilizatórios e resistir à desumanização. mas não dentro da perspectiva de restaurar o status quo anterior.   
E há um forte motivo para tanto: as perspectivas que pareciam existir na última virada de século, de que finalmente a humanidade se beneficiaria em larga escala dos avanços científicos e tecnológicos, desfez-se como bolhas de sabão.

Outra vez se comprovou que o capitalismo não pode ser regenerado, nem os principais ganhos obtidos com as melhoras nas atividades produtivas serem redirecionado para os mais necessitados, pois sua lógica é a do aumento incessante da desigualdade econômica e tais ganhos acabam servindo apenas para reforçar a dominação exercida pelos bilionários, uma minoria de repulsivos Eltons Musks. (por Celso Lungaretti)

sábado, 18 de dezembro de 2021

EU SOU A REVOLUÇÃO, MAS PODE ME CHAMAR DE WESTERN ITALIANO

Um dos gêneros cinematográficos que mais falou da revolução para plateias amplas foi o western italiano. Poucos, hoje, sabem disso.

Nascido em meados da década de 1960, o spaghetti-western foi também muito caro para a minha geração noutro aspecto: lavou a alma de todos que gostávamos dos bangue-bangues, mas não da  caretice  dos estadunidenses.

Teve surpreendente sucesso nas bilheterias: O Dólar Furado (1), p. ex., chegou a ficar em cartaz durante cerca de um ano num cinema de São Paulo. Isto se deveu não só a ter ocupado um espaço vazio, já que os estadunidenses haviam deixado de fazer bangue-bangues, como também a haver trazido um novo enfoque e uma nova moldura para o gênero.

Tirando obras de exceção como Matar ou Morrer (2), Sem Lei e Sem Alma (3), O Matador (4), Estigma da Crueldade (5) e Rastros do Ódio (6), os faroestes made in USA de até então tinham o insuportável defeito de tentarem nos impingir aquela ladainha da luta eterna do Bem contra o Mal – um tédio!

mocinho não fumava, não bebia, não praguejava e nem trepava. A mocinha era recatada donzela. O xerife, pachorrento mas digno. Os índios, selvagens bestiais que tinham de ser tirados do caminho para não atrapalharem o progresso. Os mexicanos, beberrões subumanos.

Mesmo no mato, conduzindo boiada, o mocinho tinha a decência de manter-se sempre limpo e escanhoado. Bah!

O western italiano surgiu meio por acaso. A indústria cinematográfica italiana conseguira nos anos anteriores faturar uma boa grana com filmes épicos e mitológicos. Hércules, Maciste, Ursus, Golias, fundação de Roma, guerra de Tróia, etc. O filão, entretanto, estava esgotando-se e a Cinecittà saiu à cata de um novo produto.
James Coburn e Rod Steiger em "Quando explode a vingança"

Sergio Leone, então com 34 anos, tinha começado a carreira no neo-realismo italiano (como assistente de direção e diretor de segunda unidade), mas não conseguira alçar-se à direção. 

Era difícil abrir um espaço entre mestres como Vittorio De Sica, Lucchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, etc.

Então, entre atuar eternamente à sombra dos medalhões do cinema de arte ou mostrar seu trabalho no cinema dito comercial, escolheu a segunda opção. Depois de dirigir os épicos Os Últimos Dias de Pompéia (7) e O Colosso de Rodes (8), teve a sorte de estar no lugar certo, no momento exato, para dar o pontapé de partida num novo ciclo.

Adaptou para o Oeste a história de Yojimbo (9), um filme de Akira Kurosawa sobre samurai que açula a discórdia entre dois senhores feudais para prestar-lhes serviço alternadamente, sem que percebam seu jogo duplo. O que Leone fez em Por Um Punhado de Dólares (10), basicamente, foi mudar a ambientação e colocar um pistoleiro caça-prêmios no lugar do samurai.

O protagonista também teve aí seu grande golpe de sorte. Clint Eastwood não emplacara em Hollywood como mocinho, ficando relegado a séries de TV e a filminhos classe “B” e “C”.
Sergio Leone vislumbrou em Clint
Eastwood o anti-herói emblemático

Leone percebeu nele um bom anti-herói. Compôs seu personagem (o 
Estranho Sem Nome) com barba rala, chapéu sobre os olhos, charuto na boca, fala arrastada e um poncho. Com isto, acabou alçando-o ao estrelato e fazendo jus à homenagem que depois Eastwood lhe prestaria, ao dedicar-lhe sua obra-prima Os Imperdoáveis (11).

O que diferenciou o western italiano foi exatamente ter sido feito por cineastas bem diferentes dos tarefeiros hollywoodescos (os ditos artesãos, que se limitavam ao feijão-com-arroz artístico que lhes garantisse o dito cujo gastronômico).

Damiano Damiani, Carlo Lizzani e Sergio Corbucci eram outros talentos com a cabeça feita pelo cinema de arte, assim como o superlativo roteirista Sergio Donatti (aliás, até os grandes diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento chegaram a escrever histórias para westerns).

Então, não se limitaram a realizar filmes com muita ação e nenhuma vida inteligente; fizeram questão de deixar sua marca, passando mensagens cifradas, dando toques, propondo outra abordagem para o gênero. Em vez de um palco em que o Bem vence sempre o Mal, o bangue-bangue italiano mostrou o  velho Oeste como uma terra de ninguém, primitiva e selvagem, em que todos perseguem seus objetivos como podem. 

Evidentemente, há muito mais verossimilhança nesse enfoque do que no estadunidense. O Oeste do século 19 seria algo como o garimpo de Serra Pelada no seu apogeu. Um grotão selvagem onde prevalecia a lei do mais forte.

No lugar do herói, o western italiano consagrou o anti-herói: barbudo, desgrenhado, com roupas sinistras, muitas vezes um caça-prêmios, quase sempre um mau-caráter. No fundo, só se diferenciando dos bandidos por agir sozinho enquanto os outros atuam em bando.
Imagem icônica: Franco Nero como Django, ex-soldado
que chega à cidade enlameada arrastando um caixão

Lembrem-se: era a década de 1960, quando havia um imenso desencanto com a ordem estabelecida. Rebeldes eram tudo que queríamos ver. Não suportávamos mais os heroizinhos
cdf de Hollywood, daí termos sido imediatamente cativados pela alternativa europeia, os Djangos, Sabatas e Sartanas (os  únicos  mocinhos  nos moldes estadunidenses eram os protagonizados por Giuliano Gemma).

E, enquanto os poderosos viraram vilãos, os índios e os peões mexicanos passaram a ser mostrados como vítimas e heróis. Afinal, vários cineastas italianos tinham inclinações revolucionárias, mas não havia nada revolucionário para destacar nos EUA do século 19.

A solução foi transferir a ação para o efervescente México, como em Quando Explode a Vingança (12), Uma bala para o general (13), Reze a Deus e Cave Sua Sepultura (14), Réquiem Para Matar (15), Os Violentos Vão Para o Inferno (16), Companheiros (17),  O Dia da Desforra (18) e Tepepa (19).

Toques esquerdistas, sim, eles podiam inserir em filmes cuja ação transcorria nos EUA:
Roqueiro francês, Johnny Hallyday 
estrelou um western: O Especialista
  • Django (20), no qual os vilões são obviamente inspirados na Ku-Klux-Khan;
  • Quando os Brutos Se Defrontam (21), reflexão sobre a gênese de líderes oportunistas;
  • O Especialista (22), que coloca jovens rebeldes (referência às barricadas francesas de 1968) em ação no Oeste;
  • O Vingador Silencioso (23), denunciando o massacre de Johnson Country, quando centenas de imigrantes eslavos foram dizimados pelos barões de gado do Wyoming – o mesmo episódio histórico que seria depois retratado na superprodução O Portal do Paraíso (24); e
  • o extraordinário Três Homens em Conflito (25), com algumas das mais marcantes sequências antibelicistas do cinema em todos os tempos.
Uma última característica notável foi libertar a trilha musical da tirania do country. Não mais o que realmente existia nos EUA do século retrasado, como violões, violinos, banjos, gaitas e sanfonas, mas também flauta, saxofone, órgão, sintetizadores, castanholas – tudo que se harmonizasse com o clima daquela trecho do filme, pouco importando se tais instrumentos eram encontrados ou não no velho Oeste.

Para completar, o uso criativo de sinos, caixas de música, assobios e outros achados. Ennio Morricone é, com certeza, o melhor criador de trilhas musicais de todos os tempos.

E as músicas diferentes se casaram às mil maravilhas com as apresentações diferentes dos créditos iniciais, misturando cenas da fita com grafismos. O cinema estadunidense nunca se preocupara muito em valorizar a abertura do filme e levou um banho de criatividade do faroeste italiano,  que adotou esta particularidade como uma espécie de marca registrada. Gosto particularmente da introdução de O dia da desforra, cuja canção-tema, por sinal, é um arraso! (por Celso Lungaretti)
"Caminha, rapaz, caminha, a fronte contra o sol! Caminha, rapaz,
caminha, até chegar à liberdade, até chegar aonde eles
nunca, nunca, nunca terão prisão para você!" 
Filmes citados:
  1. Un Dollaro Bucato, 1965, d. Giorgio Ferroni
  2. High Noon, 1952, d. Fred Zinneman
  3. Gunfight at O.K. Corral, 1957, d. John Sturges
  4. The Gunfighter, 1950, d. Henry King
  5. The Bravados, 1958, d. Henry King
  6. The Searchers, 1956, d. John Ford
  7. Gli Ultimi Giorni di Pompei, 1959
  8. Il Colosso di Rodi, 1961, d. Sergio Leone
  9. Yojimbo, 1961, d. Akira Kurosawa
  10. Per un Pugno di Dollari, 1964
  11. Unforgiven, 1992, d. Clint Eastwood
  12. Giù la Testa, 1971, d. Sergio Leone
  13. El Chuncho, Quién Sabe?, 1967, d. Damiano Damiani
  14. Prega Dio... e scavati la fossa, 1968, d. Edoardo Mulagia
  15. Requiescant, 1967, d. Carlo Lizzani
  16. Il Mercenario, 1968, d. Sergio Corbucci
  17. Vamos a Matar, Compañeros, 1970, d. Sergio Corbucci
  18. La Resa dei Conti, 1966, d. Sergio Sollima
  19. Tepepa,  1969, d. Giulio Petroni
  20. Django, 1966, d. Sergio Corbucci
  21. Faccia a Faccia, 1967, d. Sergio Sollima
  22. Gli Specialisti, 1969, d. Sergio Corbucci
  23. Il Grande Silenzio, 1968, d. Sergio Corbucci
  24. Heaven’s Gate, 1980, d. Michael Cimino
  25. Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966, d. Sergio Leone

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A VISÃO DO MESTRE SERGIO LEONE SOBRE AS REVOLUÇÕES INAUGURA O FESTIVAL DO WESTERN ITALIANO NO BLOG DO NÁUFRAGO

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. 

Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
Este extermínio de prisioneiros numa vala alude a episódios ocorridos sob o fascismo na Itália 
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".


Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros,  perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no OesteEra uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)

sábado, 22 de dezembro de 2018

IMPERDÍVEL: O BLOG AFINAL DISPONIBILIZA A OBRA-PRIMA DE SERGIO LEONE SOBRE MOVIMENTOS REVOLUCIONÁRIOS!

Perdi a conta de quantas vezes assisti a Quando Explode a Vingança desde o seu lançamento em 1971, mas seguramente não terão sido menos de 15. Na primeira, saí emocionado do saudoso cine Marrocos, no centro velho de São Paulo: acabara de conhecer a visão que um dos meus diretores favoritos tinha dos movimentos revolucionários... e era, em muitos aspectos, semelhante à minha!

Concluí que Leone também se desencantara com a postura repulsiva do Partido Comunista Italiano em 1968 (que se agravaria nos anos seguintes, até chegar ao pacto faustiano com a putrefata democracia-cristã): quando os ventos da mudança sacudiam a Europa, o PCI optara pela omissão, que logo mais viraria cumplicidade com as forças da ordem.

O desencanto de Leone se expressou num filme em que ele, fervorosamente, toma o partido do homem simples que se engaja em revoluções; mas, mostra os dirigentes desses movimentos como sempre propensos a traírem a causa.
James Coburn e Rod Steiger: atuações inesquecíveis! 
Assim, o irlandês John Mallory (James Coburn) é convencido pelo seu melhor amigo, o intelectual revolucionário Nolan (David Warbeck), a ingressar no IRA. E seria Nolan, preso e torturado, quem pessoalmente o apontaria aos policiais britânicos.

Mallory escapa atirando e foge para o México, onde aproveita a experiência que adquirira com a dinamite para garimpar prata. Lá acaba conhecendo Juan Miranda (Rod Steiger), pequeno bandido mexicano cuja quadrilha é constituída principalmente por sua filharada e cujo sonho dourado é assaltar o banco mais tentador da região. 

Meio sem querer, ambos vão se envolvendo cada vez mais com a revolução mexicana. E a história se repete: abnegação e heroísmo das pessoas simples, traição do líder Dr. Villega (Romolo Valli). Percebe-se claramente que Nolan e Villega sintetizam a imagem que Leone tinha dos dirigentes do PCI.

Mesmo desencantado ("Quando comecei a usar a dinamite, acreditava nos grandes ideais. Acreditava em tudo! Agora só acredito na dinamite"), Mallory permanecerá até o fim no campo ao qual pertence.  
O extermínio em massa dos rebeldes evoca matanças ocorridas nos estertores do regime de Mussolini
Mas, sem ilusões. Quando alguém pede sua opinião sobre dirigentes que ele sabe não terem honrado seu compromisso com a causa, ele ironicamente se refere a eles como "grandes e gloriosos heróis da revolução".

Ou seja, não tendo sequer a esperança de que a história venha a retratar o que realmente aconteceu, ele antecipa a forma distorcida como serão vistos: os líderes oportunistas, manipuladores e vacilões, endeusados; e os idealistas sinceros (como Battisti) perseguidos em vida e denegridos depois de mortos.  

Mas, claro, é um filme e não um panfleto. Tem uma ação tão envolvente que só os iniciados captam tal subtexto. Dá para se ver e gostar muito do filme sem perceber/entender nada disso.

Em alguns mercados foi lançado com um título equivalente a Por um punhado de dinamite, para relacioná-lo a Por um punhado de dólares e Por uns dólares a maisLeone, contudo, o concebeu como o segundo filme de outra trilogia: Era uma vez no Oeste, Era uma vez a revolução e Era uma vez na América.

Coburn e Steiger têm atuações magistrais. O roteiro escrito a dez mãos (inclusive as do Leone e do ótimo Sergio Donati) é simplesmente perfeito. E a trilha musical de Ennio Morricone, um arraso!

Também gostei muito do enfoque que Leone dá à repressão, personificada no comandante Gutierez (Anthony Saint-John): despreza-o tanto que lhe nega até a dignidade da fala. 

Gutierez aparece escovando repulsivamente os dentes, chupando um ovo, ordenando fuzilamentos com simples gestos de cabeça. Um desumanizado visto em toda sua desumanização, sem os habituais discursos redundantes. Só gênios como Leone criam soluções tão simples e eficazes. (por Celso Lungaretti)
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