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terça-feira, 27 de agosto de 2024

A GIGANTESCA CRISE CAPITALISTA ESTÁ CADA DIA MAIS PRÓXIMA

Uma expectativa de tsunami na economia mundial faz com que qualquer notícia menos alvissareira vinda dos Estados Unidos, a maior economia do mundo, seja suficiente para provocar abalos sísmicos na especulação financeira sob a qual gira o capitalismo na sua fase de circulação gigantesca de valor sem lastro.  

A consequência do desacoplamento das moedas fiduciárias como representação de valor válido advindo da produção de mercadorias, e oriundo da emissão de moedas sem lastro, tem provocado a inflação mundial que se situou na faixa anual de 5,8%, em 2023, sendo que na União Europeia ficou em 6,3%, e nos Estados Unidos se situou em 4,1%.  

Há quem considere que tais níveis de inflação são elementos essenciais para a estabilidade monetária, mas já são índices preocupantes.  

Isto tem provocado a elevação das taxas de juros que fazem a alegria dos rentistas, mas acende a luz amarela de perigo porque o aumento do endividamento público, que sacrifica os países pobres com os juros extorsivos para fazer face à rolagem de suas dívidas, cada vez mais está se aproximando dos níveis de inadimplência dos juros, também chamados de serviços da dívida - nome educado para a agiotagem do sistema bancário internacional -, que deverá ser catastrófico para a economia mundial.  

Após a queda vertiginosa do PIB dos Estados Unidos, ocorrida durante a pandemia da Covid19 em 2020, que chegou a -2,2% ao ano, houve uma recuperação em 2021 para 5,8%, e 1,9% em 2022, e 2,5% em 2023, que corresponde a uma média de 2,0% nesses últimos quatro anos, considerada renitentemente baixa desde a crise do subprime de 2008/2009, vez que o crescimento médio do PIB de lá de 2008 a 2019, se situou em 1,78% ao ano.  

A dívida pública dos Estados Unidos, acima de 100% do seu PIB, subiu recentemente a mais de US$ 30 trilhões, e vem crescendo constantemente, fato que implicou no pagamento de juros num total de US$ 1 trilhão no período de 19 meses, representando 15,9% do orçamento federal para o ano fiscal de 2022. Segundo o FMI, a continuar nessa pisada, a dívida pública nos Estados Unidos deve atingir 133,9% do seu PIB em 2029, acima dos 122,1% de 2023, o que significa existência de um endividamento constante e explosivo.                  

Os dados oficiais ora analisados, de inconteste veracidade, demonstram que há um freio de mão puxado na locomotiva da economia mundial, os Estados unidos, mesmo sendo detentor e emissor do dólar, divisa internacional que serve de referência como equivalente geral válido, e que assim é respeitado. 

Ora, se a locomotiva da economia mundial e detentora do seu maior PIB apresenta dados que demonstram fragilidade, o que se dizer dos vagões que são por ela puxados e que pagam taxas de juros bem mais elevadas sobre suas dívidas?! 

É graças a isso que na segunda-feira, 05/08, bastou a apresentação de dados negativos de empregabilidade e redução de crescimento para o último trimestre nos Estado Unidos, para desabarem as bolsas de valores do mundo inteiro, que embora recuperadas do susto nos dias seguintes, bem demonstram a instabilidade do sistema financeiro internacional cujo prenúncio é de cataclisma.    

O que está na base dessa instabilidade é a consciência que os agentes financeiros têm de que já não se produz um volume de valor válido necessário para a irrigação saudável do fluxo monetário, bem como de volume de lucros advindos de extração de mais-valia na produção de mercadorias - setores primário e secundário - e que tal fato tem data aprazada de possibilidade de sustentação de todo o sistema financeiro, que se vê ameaçado de colapso. 

Esses tempos especulativos financeiros provocou a prática do carry trade por grandes especuladores privados internacionais e que consiste em se contrair empréstimos a juros mais baratos para aplicar o dinheiro obtido em taxas mais altas, obtendo-se lucros em tais operações.  

Tal prática bem demonstra que a questão das taxas de juros na economia globalizada, na qual se transferem valores eletronicamente em segundos, é o que tem gerado lucros financeiros meramente especulativos que em algum momento vão se esfumar nas labaredas do incêndio anunciado, transformando o dinheiro sem valor em congelamentos bancários e/ou moeda podre sem poder de compra.  

As criptomoedas, hoje tão em voga, são também uma demonstração da prática de especulação financeira visando a obtenção de lucros com dinheiro gerando dinheiro fora da produção de mercadorias por mecanismo de oferta e procura limitada de fundos de várias moedas fora do sistema bancário e fora controle fiscal do estado, que num dado momento irão ruir pelo mesmo fator de inconsistência de valor das moedas fiduciárias que compõem tais fundos monetários.   

Quando se olha para a economia chinesa, que os desavisados consideram como um fenômeno de sucesso no mundo capitalista, e se vê o crescimento de sua dívida pública crescente, que o FMI prevê que em 2029 chegue a 110,1% do seu PIB provocando uma obrigação de juros de 3% ao ano em média, e num país que está enfrentando quedas anuais de crescimento do PIB - cerca de 4,7% em base anual de 2024 -, pode-se antever o tamanho da encrenca para os anos vindouros. 

A China já enfrenta sérios problemas de inadimplência da dívida pública de governos de várias cidades e uma crise no setor imobiliário provocada pela incapacidade de aquisição de unidades construídas ou mesmo de inadimplência das dívidas existentes de aquisições anteriores.  

Não é diferente o quadro financeiro na União Europeia, que aglutina as locomotivas da economia mundial no velho continente. Em que pese a queda da inflação ocorrida em 2023 e 2024 em torno de 3% ao ano, as taxas de inflação dos anos anteriores foram extremamente altas - em torno de 10% ao ano -, fato que denuncia a instabilidade econômica havida nos 27 países que compõem a comunidade do euro.   

As altas taxas de desemprego e a dívida pública em torno de 83,7% do PIB da União Europeia calculado em US$ 19,8 trilhões, sobre a qual incide juros de 3,7% ao ano, indica que estes últimos se equivalem ao crescimento do PIB antes referido, de onde se pode concluir que há prenúncio de estagnação ao invés de crescimento da economia como um todo.  

Os dados ora indicados, das maiores economias do mundo, e que significam cerca de 75% do PIB mundial, com dívidas públicas superiores aos respectivos PIBs, dá bem a dimensão de como vive o restante dos países da periferia capitalista, obrigados ao pagamento de taxas de juros elevadas e com Produtos Internos muito inferiores àqueles existentes nos países ditos ricos, além de altas taxas de desemprego e inflação. 

Segundo o FMI, a dívida pública mundial está em torno de US$ 91 trilhões e a dívida pública se situa em 92% do PIB mundial, ou seja, o que o mundo produz de riqueza abstrata, valor, em um ano, não é suficiente para pagá-la, mesmo que fosse possível, e não é, obviamente, que todos os recursos fossem apenas destinados para tal fim. É graças a isto que nos aproximamos do momento em que nem os juros da dívida serão possíveis de serem saldados, e todo o sistema financeiro ruirá inapelavelmente.  

A razão pela qual os Estados não conseguem refrear o crescimento de suas dívidas públicas deriva de uma realidade inafastável: se não se endividam, deixam de pagar as suas contas e de cumprir a função fundamental de fornecer infraestrutura para o desenvolvimento econômico pífio já existente; e se se endividam apenas adiam a hora da verdade, quando anunciarão aos rentistas o congelamento dos seus ativos.  

É que na economia mundial já não se produz valor no volume necessário numa economia interligada e dependente desse mesmo valor para continuar existindo.    

A constatação é de que, além do quadro de dificuldades que se avolumam nos países detentores da hegemonia capitalista, conforme demonstramos, a pobreza mundial reproduz a concentração de riqueza abstrata produzida pelo capitalismo levando miséria à maioria da humanidade. 

O mais grave é que com a depressão econômica mundial renitente, o quadro de dificuldades vem causando e se agravando com a eclosão de guerras, levantes populares e crises ecológicas provocadas pelo aquecimento global que se traduz em fenômenos atmosféricos e terrestres da natureza cada vez mais intensos.   

Há que se conjecturar, urgentemente, novos parâmetros de socialização fora dos critérios estabelecidos por uma lógica de relação social capitalista que tem se mostrado incapaz de usar os avançados conhecimentos da ciência em favor do bem-estar coletivo.  (por Dalton Rosado)  

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

O IMPÉRIO EM RUÍNAS DO CAPITAL FICTÍCIO E DOS JUROS - PARTE 2

 

Continuação deste post.

Aos países de economia fraca, como o Brasil e tantos outros, com pouca representatividade de PIB, para os quais não acorrem mais facilmente o capital ocioso, somente se obtém recursos com ofertas de juros mais expressivos, circunstância que representa uma exploração inaceitável aos povos destes países pobres que se constituem como a grande maioria das populações humanas no Planeta Terra.  

É a famigerada lei do mercado expressa na regra da oferta e da procura na qual a mercadoria dinheiro tem preço e na qual a remuneração, para quem não tem crédito, representa maior risco e juros altos como aqueles pagos pelo Brasil, que somente em 2022 representou um total de R$ 586 bilhões. 

Se considerarmos que em 2022 houve um déficit da previdência social brasileira da ordem de R$ 270 bilhões, vamos facilmente concluir que retirar direitos previdenciários de quem passou a vida pagando contribuição é um crime, principalmente se estabelecermos relação com a extorsão bancária mundial à qual os governantes brasileiros se submetem sem altivez, por compactuarem com o sistema mundial de exploração sob o qual governam vaidosamente.  

Bolsonaro e Lula se ajoelham diante do capital mundial, e nisto se assemelham por não terem coragem de dizer a verdade e correrem o risco de represálias no confronto com um sistema que lhes garante poder político, cada vez mais decrépito.  

Mas a fatura de tal situação ainda está por chegar, e os sintomas de tal precariedade já se fazem sentir expressos na migração mundial em busca da sobrevivência junto aos países que exploram os emigrantes de muitas formas - vendendo armas e mercadorias, que são armas também -, mas principalmente pela via de cobrança de juros no presente: são os mesmos que exploraram ditos povos em suas colônias escravistas no passado.  

A hipocrisia é tanta que os ricos adoram fazer alguma benemerência aos países africanos enviando alguns alimentos, por exemplo, numa espécie de chá das cinco horas de dondocas elitistas que posam de caridosas. 

Acresce-se à incapacidade mundial de reprodução de lucros na produção de mercadorias, que por si só já denuncia a falência sistêmica que se observa hoje num processo mais acelerado do que antes, fatores outros que denotam a incapacidade de convivência sob os critérios atuais, quais sejam: 

- desemprego estrutural, que impossibilita a subsistência dos trabalhadores abstratos e a extração de mais-valia vital para a economia e para o Estado cobrador de impostos, fonte vital para a exploração pelo capital; 

-  queda na arrecadação fiscal

- inflação de preços das mercadorias

- emissão de CO² em volumes cada vez maiores na atmosfera que provocam o aquecimento global sem que a irracionalidade do sistema possa contê-la; 

- desespero fratricida da luta pela hegemonia de blocos econômicos na guerra concorrencial de mercado;  

- permanência das guerras bélicas - com anúncio de hecatombe nuclear cada vez mais presente nos discursos dos estadistas estatistas

- aumento da violência urbana e do crime organizado

- aumento da fome no mundo em meio ao anúncio de avanços tecnológicos antes inimagináveis.  

Não tenho dúvidas de que o passo mais próximo no sentido da saturação do modelo capitalista, cujo colapso histórico anunciado num tempo relativamente breve, se considerarmos o tempo histórico e as mutações sociais havidas ao longo da existência humana, vem sendo postergado permanentemente, será iniciado com a crash financeiro do sistema bancário mundial e correspondente colapso dos padrões monetários e seu poder de compra e venda - invenção histórica macabra que de tão usual parece natural como a satisfação das necessidades físicas. 

As febres que aparecem aqui e acolá em alguns grandes bancos e imobiliárias já denunciam as infecções no organismo financeiro, que somente sobrevive graças ao crédito que se dá às moedas oficiais falsas e fortes, porque sem conexão com a produção de mercadorias - fonte da inflação global -, e ao extermínio populacional pelas guerras - como no século passado com as duas guerras mundiais e outras localizadas que ocorreram e ocorrem permanentemente -, fome e pestes. 

 Veremos o colapso via consumo mediada pela compra e venda de mercadorias em face da inexistência de moeda capaz de promover o intercâmbio comercial, fato que nos impelirá a uma produção de bens destinada exclusivamente à satisfação do consumo, e tudo em meio a grandes convulsões sociais.  

Se sobrevivermos à barbárie atual, e estabelecermos outro modo de relação social baseada apenas na produção para satisfação do consumo, com o uso dos saberes tecnológicos aplicados a essa produção, de modo ecologicamente sustentável e sob outro ordenamento jurídico constitucional e de direito ordinário, então viveremos em outro estágio da civilização. 

 Mas será que continuaremos a correr para o abismo - como uma manada irracional de bois - seguindo cegamente o fetichismo da mercadoria sem questioná-lo e superarmo-lo?  

Sobreviveremos a isto?  

Esta é uma pergunta que não quer calar! (por Dalton Rosado) 

terça-feira, 10 de outubro de 2023

O IMPÉRIO EM RUÍNAS DO CAPITAL FICTÍCIO E DOS JUROS - PARTE 1

 


F
oi Karl Marx quem cunhou a expressão capital fictício como sendo aquele representado por créditos a receber em data futura dos devedores. A palavra fictício é usada em sentido figurativo e significa a incerteza do resultado desejado pelos credores de realização objetiva de retorno acrescido do capital emprestado.   

Já os juros, como se sabe, representam a remuneração do capital dado pelo credor emprestador ao devedor que paga tal remuneração acrescida da devolução do valor líquido recebido por conta do empréstimo por ele recebido.  

Os donos dos meios produtores de mercadorias, a burguesia industrial, diferentemente dos banqueiros, costumam dizer - sub-repticiamente - que o capital fictício e os juros são parasitários porque ganham dinheiro sem nada produzir. Entendem, os primeiros, que ao produzir mercadorias estão contribuindo para a vida social e que os banqueiros são meros usurários e usurpadores dos esforços dos empreendedores da indústria, da pecuária e dos serviços.  

Antes mesmo de adentrarmos na questão do que representa, hoje, o capital fictício e os juros, devemos analisar dois aspectos dessa relação: 

1) a atividade empreendedora dos produtores de mercadorias e serviços representada pelo ciclo  D=M=D+ - dinheiro que se transforma em mercadoria que gera mais dinheiro -, nada mais é do que a fórmula capitalista de acumulação do capital pela extração de mais valia de quem produziu as mercadorias pela via do trabalho abstrato; 

2) a relação dos banqueiros emprestadores de dinheiro obedece ao intento de remuneração do capital como forma de manutenção aumentada do capital sob a forma de juros, apostando no sucesso da vida mercantil empresarial.  

Os lucros e níveis diferenciados de taxas desses na produção e venda de mercadorias obedece ao mesmo critério de lucros, taxas e interesses dos banqueiros com relação ao capital. São faces de uma mesma moeda

 Nessa relação, e sob qualquer das duas formas ora elencadas, nada é santo, vez que se trata de uma subjugação social à lógica ditatorial do capital, que é segregacionista, contraditória, assassina da vida social, destrutiva da vida humana e ecológica, além de autodestrutiva - da forma e conteúdo - no final da linha, como ora se está a observar neste período limite da capacidade de expansão e reprodução do capital nos níveis necessários da economia, que por isso definha. 

Não são benfeitores da humanidade os empreendedores, e nem meros sanguessugas os banqueiros - como costumam classificá-los os industriais, como sentimento de exploração pelos juros pagos -, vez que ambos se apropriam indebitamente do trabalho abstrato do qual dependem para obter a remuneração do capital pelos lucros e juros. 

Os primeiros o fazem de modo direto e os segundos de modo indireto; e não custa acrescentar que ambos são um tipo mais confortável de escravos da lógica do capital, pois que dela se beneficiam com os confortos materiais que o capital lhes proporciona.  

O capital fictício nunca fez tanto jus ao seu significado como agora, exatamente porque há uma impossibilidade concreta de restituição pelos devedores, privados e estatais, dos valores de capital tomados - a expressão de direito comercial aqui começa a se assemelhar ao seu significado popular - aos credores banqueiros ou rentistas - aqueles que aplicam capital no mercado financeiro via sistema bancário -, e até mesmo dos juros, em muitos casos. 

Os empréstimos, hoje, se resumem substancialmente ao financiamento da dívida pública crescente e impagável, levando à crise da dívida, porque a atividade empresarial empacou e é muito alto o risco de financiamento dos empreendimentos da economia real - há uma crença ilusória de muitos dos rentistas de que o Estado produz valor válido.  

Os banqueiros emprestam seu capital na expectativa de que os tomadores de empréstimos, assim chamados de devedores, possam obter lucros capazes de remunerar os custos do capital emprestado, juros, e os próprios lucros empresariais, e desta forma, ambos estão ligados por laços indissolúveis de dependência dos resultados obtidos no mercado onde são negociadas as mercadorias. 

Em março deste ano, com a falência de Silicon Valley Bank e Signature Bank, ambos dos Estados Unidos, houve um estremecimento do sistema financeiro mundial pelo medo de contaminação do sistema bancário mundial que já sobrevive por aparelhos, o que obrigou o Federal Reserve dos Estados Unidos a um socorro de urgência na ordem de US$ 143 milhões, pequeno tapa buraco para evitar o rompimento do dique que contém a hecatombe financeira de mais adiante, já anunciada. 

Tal fato assustou o mercado financeiro por medo de uma nova crise que seria gerada pelo impasse ora existente entre a desesperada expansão monetária sem lastro mesmo em meio à alta da inflação dos Estados Unidos, que implicou num aumento das suas taxas de juros oficiais para 5,5% ao ano, algo antes inimaginável. 

Do mesmo modo o Banco Central Europeu está elevando as taxas de juros para 4,5% ao ano em face da necessidade de expansão monetária sem lastro como forma de tentativa de debelar a crise da depressão econômica multipolar que atinge todos os níveis da economia, tanto no âmbito fiscal como da guerra concorrencial de mercado em face de hiperprodutividade tecnológica de mercadorias sem a correspondente capacidade de compra dessa produção. 

Por sua vez, a China dita comunista é tão apegada ao capitalismo e dele dependente quanto os Estados Unidos, para ficarmos apenas na citação das duas mecas do capitalismo mundial da atualidade.  

A China, com sua dívida pública impagável, de 300% do PIB, instituiu a chamada nova rota da seda visando se salvar com uma hegemonia econômica junto aos países asiáticos, africanos e sul-americanos, através de empréstimos com taxas de 5% a.a, mais altas do que os 2,5% a.a do FMI. Após ter concedido empréstimos na ordem de US$ 832 bilhões, hoje se vê às voltas com uma inadimplência de cerca de USS$ 240 bilhões, vendo-se obrigada a efetuar uma rolagem de dívida que representa uma bola de neve a engolir tudo pelo caminho em não pouco tempo.  

A nova rota da seda mais se parece com o terremoto no Destino do Poseidon, clássico filme de 1972, hoje não muito lembrado. 

Encalha o capital mundial produtor de mercadorias por conta do encalhe da capacidade de compra causada pela perda da capacidade de compra resultante do desemprego estrutural e redução sistemática da extração de mais-valia global e do lucro; que encalha a receita fiscal; que torna o capital fictício uma miragem que se dissolve num deserto seco, numa disrupção definitiva do processo de relação social capitalista. 

São dois cegos batendo numa mesma porta. 

Indicadores econômicos calculam que a dívida pública e privada mundiais, consolidada perante credores internacionais, esteja em US$ 226 trilhões - ano de 2020, que em nossa moeda seria de mais de R$ 1 quatrilhões - e que vem aumentando, é montante incompatível com o PIB mundial calculado pelo Banco Mundial de US$ 71,6 trilhões.   

Se considerarmos que nesse PIB mundial estão incluídas as despesas correntes - manutenção da máquina governativa nos seus vários níveis e custos de produção de mercadorias - dos países nele incluídos, vamos deduzir, facilmente, numa conta macroeconômica rápida e simplória, que até mesmo os juros dessa dívida estão se tornando impagáveis. Muito brevemente não haverá dinheiro para o tal serviço da dívida, nome pomposo para os juros. 

Vivemos sob uma bola de neve de capital fictício e sua rolagem para uma data futura na qual a verdade da insolvência de tal dívida tornar-se-á evidente e substancialmente previsível, e esse será o dia do início do juízo final do capitalismo.  

Essa é a explicação pela qual o capital ocioso mundialmente está sendo aplicado em títulos da dívida pública com remuneração baixíssima para os países de moeda forte, e até mesmo com juros decrescentes em alguns casos, posto que há uma ilusão de que ditos títulos merecem credibilidade. (por Dalton Rosado, continua neste post)

sábado, 15 de abril de 2023

CONSEGUIRÁ O PARTIDO "COMUNISTA" CHINÊS DOMAR O CAPITAL?

 


Sempre fico a me perguntar se Mao Tse Tung, que tinha Josef Stalin como exemplo de pragmatismo pretensamente comunista a ser seguido, diria ao constatar que sua revolução armada contra os nacionalistas de Chiang Kai-Shek, ao invés de superar as categorias capitalistas, iria aprofundá-las no capitalismo mais selvagem do planeta Terra e com isto solapar o próprio capitalismo sob o qual o país dos Mandarins e de Deng Xiaoping se desenvolveu desde 1976. 

A nova rota da seda chinesa, ou belt and road iniciative, na tradução em inglês, é uma tentativa do capitalismo chinês de sobreviver tentando alcançar uma hegemonia capitalista mundial para fazer face ao esperado e presente emperramento do crescimento do seu Produto Interno Bruto, causado pelo inevitável limite interno da expansão da forma valor, e com isto poder tornar solvável a sua proibitiva dívida pública e privada que ascende a quase 300% deste indicador econômico sobre o qual incidem juros de 2,75% a 3,00% ao ano em dólar dos Estados Unidos. 

Para pagar os juros de sua dívida colossal, calculada em 51,8 trilhões de dólares, que corresponde a cerca de US$ 1,5 trilhões, ou R$ 7,5 trilhões, ou seja, valor correspondente a pouco mais do PIB anual do Brasil, há que haver lucros empresariais capazes de aguentar a remuneração ao capital internacional globalizado.  

Mao Tsé-Tung

A economia chinesa - como de resto a economia no resto do mundo - que parece portentosa em termos econômico, na verdade é um grande Titanic indo ao encontro do iceberg capaz de furar o seu casco e fazê-la naufragar irremediavelmente. 

A China procura expandir os seus negócios capitalistas nas regiões a partir da Rússia, na Ásia Maior e Menor e na América latina - como agora com o Uruguai, Argentina e Brasil - como forma de criar laços capitalistas tão volumosos que possam causar uma relação de recíproca dependência capitalista mundial ao sistema financeiro internacional capaz de inverter a cara exigência de remuneração cobrada por este mesmo capital bancário globalizado à própria China - enquanto o Japão rola sua dívida com juros negativos, à China são cobrados juros extorsivos. 

Paradoxalmente, porque o capitalismo não sobreviverá ao avanço tecnológico aplicado à produção de mercadorias, a China vem desenvolvendo avanços técnicos nas áreas da comunicação eletrônica e robótica que ao mesmo tempo em que lhe oferece grandes oportunidades de negócios, cria a substituição acelerada e substancial do trabalho abstrato, único produtor de valor e base de sustentação da economia capitalista. 

Como dizia Karl Marx, o capitalismo cava a sua própria sepultura, e os chineses, na sua tentativa desesperada de sobrevivência dentro da lógica capitalista, ao invés de tentar superá-la, estão cada vez mais dentro do Titanic, e continuam a tocar a música antes do naufrágio, tal como fizeram os músicos naquela tragédia marítima do início de século 20.  

A velha China agrícola deu lugar a um país industrializado e urbano, com os ganhos e prejuízos inerentes ao processo de desenvolvimento do capital e de sua lógica autotélica. De um modo geral, a milenar miséria chinesa da época dos Mandarins deu lugar a uma nova configuração de classes sociais próprias ao capitalismo no qual se formam ilhas de riqueza rodeadas de pobreza.  

A renda per capita chinesa é hoje equivalente à renda per capital brasileira, situada em torno de US$ 12,500,00, com alguns milhares de bilionários empresariais em contrate com a vida de operários que trabalham num regime de produção de valor próprio à rígida disciplina e obediência cultural chinesa à hierarquia administrativa, com baixos salários que propiciam a competitividade dos seus produtos na guerra concorrencial da economia de mercado internacional.  

Para entrar no mercado mundial, a China desenvolveu o aprendizado do saber tecnológico destrinchando as estruturas de hardwares e softwares para somente depois, pelo uso reiterado da imitação, chegar a uma produção tecnológica mais esmerada a partir de sua própria criatividade. Ou seja, praticou a chamada engenharia reversa, se apropriando da produção tecnológica de países mais adiantados, como os EUA e as nações da Europa. 

O envio de chineses para universidades do exterior - Deng Xiaoping é fruto do início desse processo de apreensão do saber fora da China, já que estudou em Moscou em 1926, antes da revolução chinesa a qual se integrou - foi e ainda é parte deste processo cognitivo industrial que tem proporcionado o desenvolvimento em diversos campos do saber, como nas seguintes áreas: 

- da tecnologia da informação cibernética e de satélites - adaptadas à terceira revolução industrial microeletrônica, inclusive com a criação do LIFI, um novo tipo de comunicação superior ao WIFI; 

- da biotecnologia, com a indústria farmacêutica - a vacina contra a civid19 é bom exemplo desta última faceta industrial chinesa; 

- da produção de energias limpas - eólica e fotovoltaica - e mecânica - os carros elétricos chineses. 

Deng Xiaoping
Este processo de engenharia reversa já ficou para trás, dando lugar ao avanço da criatividade industrial chinesa no campo da telecomunicação, que em muitos casos supera aquela conhecida no mundo capitalista ocidental.  

A China investiu em pesquisa tecnológica cerca de US$ 344 bilhões e, para se ter uma ideia do que isto representa, basta considerarmos que a União Europeia e seus 28 países investiu cifra inferior à chinesa, segundo dados de 2014 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos).

Mas a China, em que pese os seus esforços ecológicos, ainda é um dos maiores emissores de CO2 na atmosfera, fato que se reflete na poluição atmosférica em várias das suas cidades industriais. Seu padrão salarial baixo em termos per capitas não permite à população média a aquisição da casa própria face aos juros altos, o que tem causado graves problemas no setor imobiliário, como ocorreu com a quebra da gigante Evergrande, segunda maior empresa imobiliária do país, e dos imensos conjuntos habitacionais desocupados e construídos com dívida imobiliária, e que estão à espera de compradores habilitados ao pagamento da aquisição que não aparecem.  

A China se expande economicamente com suas exportações não apenas nos setores antes referidos, mas também na construção de infraestrutura como estradas, usinas elétricas e grandes obras da construção civil, como se pode inferior dos seus investimentos em obras na África, seja a partir de empresas chinesas diretamente ou por empresas locais financiadas pelos chineses.  

Este é um espaço de exploração capitalista que vinha sendo modestamente perseguido pelos governos Lula e Dilma e que foram sobrestados pelos escândalos da Lava-jato envolvendo empresas e agentes públicos daqui e de lá.  

A guerra monetária capitalista está em curso, pois quem detém hegemonia de moeda fiduciária na economia capitalista dita as regras do jogo. Como sabermos, desde a cúpula internacional de Bretton Woods, em New Hampshire, realizada em 1944, com a segunda guerra mundial já definida em favor dos aliados e com os Estados Unidos com sua infraestrutura industrial incólume, o dólar estadunidense foi considerado como moeda internacional.  

 Até 1971 as moedas eram lastreadas em ouro, mas naquele ano passaram a se lastrear apenas no dólar estadunidense. Entretanto, como as moedas hoje são fiduciárias, a emissão desvinculada do valor que deveria representar é a causa de termos hoje uma grande e proibitiva soma de circulação de moeda sem valor mundo afora, que não causam inflação aos seus emissores, mas provocam uma anomalia de reservas cambiais sem substância de valor que mais cedo ou mais tarde provocará um colapso internacional financeiro na hora da verdade. 

Xi Jinping 

A dívida mundial crescente dos governos já atinge cerca de US$ 300 trilhões, conforme dados do IIF – Institute of International Finance -, e representa cerca de 225% do PIB mundial, tornando-se impagável se considerarmos os níveis de capacidade de geração de lucros dos países devedores.   

Tal fenômeno representa um impasse econômico sem precedentes e acarretará, num futuro próximo, um colapso monetário quando, tanto as reservas cambiais acumuladas pelos países, como as suas dívidas, representarem tão somente para os credores rentista um título de crédito de um devedor falido e insolvente.  

Esta bomba vai estourar no colo dos rentistas e do sistema financeiro internacional, que já demonstra fragilidade com a quebra de alguns bancos, vez ou outra,  os quais ainda estão sendo passíveis de socorro, mas que quando a avalanche ocorrer, isso não será mais possível.  

A China tem reservas monetárias em dólar estadunidense num montante de cerca de US$ 3 trilhões, para uma dívida de cerca de US$ 50 trilhões, o que significa que precisa gerar lucros para conservar a credibilidade de seu crescimento econômico e sua capacidade de solver o serviço da dívida que, como vimos, é equivalente a cerca de 50% de todas as suas reservas cambiais.  

Entretanto, tanto as reservas cambiais chinesas como sua dívida, nada significarão para a economia global no momento do colapso final claramente previsível, mas escamoteado pelo otimismo infundado dos analistas econômicos atrelados à ordem capitalista de onde tiram seu sustento.    

Assim, a investida chinesa de criar uma vida monetária paralela ao dólar estadunidense, a partir do yuan, ou  renminbi (RBM), nome oficial da moeda chinesa, é algo vital para sua sustentabilidade e independência financeira, bem como para o seu crescimento a partir de relações com países que adotem negociações sob tal critério financeiro.  

Registre-se que o crescimento do PIB chinês anda enfraquecido por conta de vários fatores conjunturais a pandemia foi um deles -, mas tem como principal fator a incapacidade de consumo que é delimitada pelo poder de compra da população mundial e pela própria necessidade de consumo desta: ninguém usa dois sapatos por vez.  

A necessidade de crescimento da produção de valor obedece a um critério ad infinitum, mas a capacidade de consumo é definida pelos fatores acima expostos, e isto se constitui como uma equação irresolúvel para o mundo capitalista e seu dilema existencial lógico.   

Não é por menos que a China tenta atrelar as suas relações financeiras ao China Interbank Payment System, alternativa chinesa ao ocidental Swift, que conecta milhares de instituições financeiras mundo afora, para assim livrar-se, pelo menos num primeiro momento, dos grilhões monetários do ocidente capitalista com o qual disputa hegemonia usando as mesmas armas.  

Comparado aos citados líderes, Lula é um anão
mas o Brasil possui sua importância.

O governo brasileiro acaba de assinar acordo para fazer parte deste sistema chinês e adotar a moeda chinesa como forma de pagamento de suas exportações e importações, o que deverá incomodar os Estados Unidos, apesar de que isto não representa muito financeiramente, se considerarmos que o dólar estadunidense corresponde a 88% das transações cambiais do mundo e o Brasil é peixe pequeno neste campo da riqueza abstrata, ainda que seja importante geopoliticamente.    

Lula, tal como a China, tenta desesperadamente encontrar alternativas para o crescimento econômico sem o qual sua popularidade desabará, possivelmente implicando no médio prazo um fortalecimento da elitista direita brasileira que demonstrou força no último pleito eleitoral.  

Mas o capitalismo é uma guerra concorrencial de mercado e nele não há parceiros generosos, mas sempre alguém que quer levar vantagens, se aproximando mais da famosa Lei do Gerson, da antiga propaganda, e num mundo em depressão a melhor alternativa seria uma nova relação social, sem a hipocrisia das relações internacionais capitalistas, mas com a solidez de relações sociais contributivas transnacionais e ecologicamente sustentáveis. 

Os líderes mundiais buscam no incremento da forma valor a solução dos seus problemas tal qual um viciado busca na droga o alívio do mal que o aflige.  Assim, querer uma virada de chave brasileira seria querer demais de um Lula, que tal qual Xi Jinping, acredita na possibilidade da prosperidade linear capitalista.  

O pior cego é o que não quer ver. (por Dalton Rosado

sábado, 11 de fevereiro de 2023

CHOQUE ECONÔMICO ENTRE CHINA E EUA É SINAL DO DECLÍNIO CAPITALISTA -2


OS DOIS GIGANTES TÊM OS PÉS DE BARRO- 2

(continuação deste post)

O Financial Times divulgou a informação que somente os três maiores devedores de Pequim – Paquistão, Sri Lanka e Argentina – receberam pacotes de resgate no valor de US$ 32,8 bilhões desde 2017. A lista de países que tiveram que ser estabilizados por Pequim através de empréstimos de crise inclui Quênia, Venezuela, Angola, Nigéria, Laos, Belarus, Egito, Turquia e Ucrânia, com redução forçada das taxas de juros.  

 Mas os problemas chineses não param por aí, pois a China tem uma séria crise no setor imobiliário, representando de modo direto e indireto cerca de 29% do PIB chinês. 

A crise imobiliária chinesa se evidenciou com os problemas de inadimplência da gigante Evergreen, cuja dívida é de US$ 300 bilhões e esteve à beira da falência no verão de 2021 sendo socorrida pelo Estado Chinês via o que chamaram de programa de restruturação, nada mais sendo que injeção de dinheiro impresso nas gráficas do Banco Central sem nenhuma correspondência com chamado valor válido - dinheiro respaldado pela produção de mercadorias que criam valor.

 Cerca de 1,5 milhões de compradores chineses ficaram à espera de receber casas que haviam sido pagas e estavam com obras semiparalisadas nos canteiros de construção.

 Este mesmo procedimento ocorreu com a crise imobiliária do subprime dos Estados Unidos de 2008/2009, que, diante da iminência de um crash do setor financeiro daquele país com consequências mundiais, foi socorrida pelo Federal Reserve, o qual injetou cerca de USS 14 trilhões - cerca de 26% da dívida chinesa -, com a emissão de dólares sem valor válido, providência que tem sido, em boa parte, a causa da alta inflação estadunidense: 9,1% de junho de 2021 a junho de 2022, uma das mais altas dos últimos 41 anos.  

 Um estudo feito pelo economista estadunidense Kennet Rogoff informa haver incompatibilidade de preços entre as unidades habitacionais populares chinesas e o padrão salarial chinês. 


 São necessários três anos e quatro meses para um trabalhador chinês conseguir juntar o valor de uma casa. Ora, se se considerar os gastos pessoais e familiares dele, fica impossível, em tal período, fazer a aquisição da casa própria. Se se ele gastar 10% do seu salário com moradia, levará 33 anos para pagar a hipoteca. Quando se acresce a isso os juros de mercado da dívida - que é o que se pratica por lá -, fica fácil de se deduzir a paralisia e crise do mercado imobiliário inflacionado pela bolha imobiliária chinesa.

 No Brasil, um trabalhador de renda mensal de R$ 2.000,00 levaria quatro anos e dois meses para a mesma operação, ou seja, se considerarmos as despesas pessoais e os altos juros praticados por aqui, há uma equivalência de impossibilidade aquisitiva e miséria tanto aqui como no país do segundo maior PIB mundial.  

 Não é por menos existirem hoje verdadeiras cidades fantasmas de conjuntos habitacionais na China à espera de quem compre e pague os custos e valores das unidades habitacionais vazias.

 Recentemente houve confrontos entre a polícia e correntistas de banco na província de Henan, na China Central, em razão do congelamento de contas bancárias. Da mesma forma o Partido Comunista da China teve que enfrentar uma greve de suspensão do pagamento de hipotecas imobiliárias em face da não entrega de unidades habitacionais. 

 O vertiginoso crescimento do PIB chinês, baseado em alta taxa de endividamento externo e salários baixos, encontrou o seu ponto de limite de expansão na saturação do mercado exterior comprador que não cresce ad infinitum, mas dentro da capacidade de consumo humano, como dissemos.

 O capital tem necessidade de crescimento constante, ad aeternum, como força motora sem a qual perde credibilidade e se invalida como forma de relação social minimamente viável. Os limites antes referidos referem-se ao ponto de perda dessa força motora do capital.  

  Mas a crise chinesa se soma a outros componentes conjunturais como:

-  a crise mundial do desemprego estrutural mundial citado - no momento escrevemos este artigo o Reino Unido, outrora a império onde o sol nunca se põe, está enfrentando a mais grave onda de greve desde a segunda guerra mundial, e o carro chefe é a previdência social deficitária;

- protecionismo estatal de muitos países contra a importação de produtos chineses que roubam os empregos nacionais;

- o aquecimento global que torna improdutivas imensas extensões territoriais e causa desastres climáticos genocidas e destrutivos graves - o terremoto da Turquia e Síria, de 7,8 pontos da escala Ritcher, terá sido intensificado por isto?; as chuvas torrenciais de São Paulo e Rio de Janeiro de ainda hoje serão naturais e tradicionais?

 A resultante disso é que caem as reservas cambiais chinesas que segundo o Financial Times decresceram de US$ 4 trilhões para US$ 3 trilhões nos últimos anos.   

 Assim, a soma de tantos problemas internos e externos torna o capitalismo chinês projetado por Deng Xiao Ping em 1976, responsável por tornar a china dita comunista no país praticante do mais selvagem e predador capitalismo mundial, já se fazem sentir em manifestações populares de grandes dimensões por lá.

 A pretendida hegemonia do Globo Sul pela China e sua nova rota da seda esbarra na impossibilidade de criação de um novo, mas num conceito antigo, bloco sob seu comando e influência vez que os seus problemas internos se comunicam com problemas externos insolúveis sob a lógica do capital.

 São os próprios Estados Unidos, líder mundial do ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e detentor de moeda universal, quem também vê faltar terra sob seus próprios pés com seus desequilíbrios constantes na balança comercial, e como credor maior da China, sabe que o resfriado por lá pode causar pneumonia grave por cá. 

 O capitalismo global implodirá a partir do crash concomitante das duas maiores potências econômicas mundiais e demais componentes do G7, e a nós caberá contarmos com nós mesmos e demais países pobres do mundo integrados a uma nova ordem mundial de solidariedade sob um novo modo de produção social e ordem jurídico-constitucional para superar o impasse e continuar a vida humana.  

 Se der tempo... (por Dalton Rosado


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CHOQUE ECONÔMICO ENTRE CHINA E EUA É SINAL DO DECLÍNIO CAPITALISTA -1

 


OS DOIS GIGANTES TÊM OS PÉS DE BARRO-1

Os dois maiores Produtos Internos Brutos mundiais, dos Estados Unidos e da China,  assentam-se sobre bases inconsistentes. Ambos têm dívidas públicas e privadas incompatíveis com suas respectivas economias, atualmente encontrando-se em franca desaceleração de crescimento em face de dois fatores básicos: a perda da capacidade aquisitiva da população mundial e o limite humano da capacidade de consumo.

A perda da capacidade aquisitiva da população mundial é provocada pela queda global de renda graças à redução do volume de valor da extração de mais-valia mundial, e ocorre em razão de um fenômeno causado pela terceira revolução industrial da microeletrônica, responsável por racionalizar  procedimentos e substituir o trabalho abstrato produtor de valor em maior proporção na produção de mercadorias e serviços do que os novos nichos de trabalho abstrato por ela mesma criados. 

O desemprego estrutural na terceira revolução industrial da microeletrônica provoca a perda total de salário, e sem o dito cujo, por mais que as mercadorias percam valor e preço - que são coisas diferentes, vez que valor é salário médio coagulado no custo de produção de mercadorias, e preço é circunstância de mercado - o desempregado nada pode comprar.   

O limite se refere ao fato de que o ser humano, mesmo quando tem maior capacidade aquisitiva de compra - e é cada vez menor o número per capita dos que estão nesta situação - não almoça mais de uma vez por dia, e nem usa mais de um sapato por vez.

Na terceira revolução industrial da microeletrônica atingimos o ponto previsto por Karl Marx  nos Grundrisse há 165 anos, tendo ele predito a possível existência de uma situação onde houvesse substancial substituição do trabalho abstrato produtor de valor (capital variável) pelas máquinas (capital fixo), o custo de produção das mercadorias seria reduzido, reduzindo, contudo, pari passu, a massa de mais-valia produzida por tal lógica, levando toda a engrenagem capitalista e sua forma de relação social à implosão.

Trata-se do fenômeno da auto destrutibilidade da relação social capitalista quando atinge o ponto de contradição irreversível entre forma e conteúdo. O processo é historicamente lento, mas irreversível, sendo determinada pela revolução do modo de produção industrial. 

A microeletrônica viabilizou e introduziu todo o sistema de robotização computadoriza, comunicação instantânea via satélite e programação por algoritmos - definidos como procedimentos matemáticos altamente precisos e eficientes, não ambíguos, e padronizados - na produção de mercadorias. 

       Tal fenômeno alterou profundamente a lógica de produção mercantil, criando um impasse entre: 

- a forma-mercadoria, modo de produção desenvolvido substancialmente a partir da mercadoria trabalho abstrato remunerado pela mercadoria dinheiro, ambos produtores de valor abstrato, riqueza abstrata, valor econômico das mercadorias;

- e o conteúdo da mediação social na qual tudo se mede ou somente se faz a partir de tal critério, a vida social se circunscrevendo ao ato de ganhar dinheiro para provê-la gastando dinheiro e da restringente viabilidade econômica mercantil.  

    Ganha a guerra concorrencial de mercado quem produz melhor e a custos mais baixos neste confronto épico entre coisas inanimadas que ganham vida, as mercadorias, obtendo-se os lucros daí advindos mediante a concentração de riqueza abstrata, mas reduzindo a massa global de valor.  

    O desenvolvimento tecnológico aplicado à produção de mercadorias nos setores primário, secundário e terciário da economia corresponde ao apogeu e declínio da relação social capitalista e decreta o seu fim irremediável.  

A contradição da lógica capitalista, que é fenômeno histórico, com data de nascimento, vida e morte, diferentemente da crença dos desavisados de uma suposta essencialidade desta forma em nossa existência, tal como a água o é, explicita-se de várias formas demonstrando a sua finitude.

      Outra delas, exógena, citado en passant, é o aquecimento global provocado pela emissão de gases na atmosfera, que os países capitalistas teimam em preservar em obediência às ordens ditatoriais do capital, num ecocídio planetário.

       O capital, além de ditatorial, é autodestrutivo, socialmente destrutivo e tem uma pulsão de morte o transformando em genocida.                                                                                 

                 

Assim, Estados Unidos e China disputam hoje a hegemonia econômica como pretensos herdeiros de um espólio cuja falência é inexorável. Vão morrer abraçados e ainda colocam em risco a vida de toda a humanidade. 

A China vem desenvolvendo um programa de financiamento a diversos países e em vários continentes parecido com aquele realizado pelo Fundo Monetário Internacional chamado de Nova Rota da Seda, sem, entretanto, exigir os  tradicionais ajustes fiscais feitos por aquele organismo.   

A amplitude dos financiamentos externos chineses é ambiciosa e se situa em torno de US$ 838 bilhões, colocando o país asiático como o maior credor bilateral do mundo em programas de promoção de desenvolvimento aos países emergentes ou em desenvolvimento. A estratégia chinesa tem como objeto a consolidação de influência econômica no Sul do Globo, particularmente na Ásia, África e América Latina.   

A competição pela hegemonia com os Estados Unidos é flagrante e visa obter rendimentos de juros e comércio, tal qual fez e faz seu competidor da América do Norte, o qual impôs seu domínio como potência financeira ao financiar com o plano Marshall a reconstrução da Europa devastada pela guerra, tendo gasto injetado à época algo hoje correspondente a US$ 100 bilhões, bem menor, portanto, que os empréstimos da rota da seda.

Ao leitor desavisado pode parecer viver a China uma situação de comodidade a ponto de poder financiar a infraestrutura dos países tomadores dos seus empréstimos, bem como abrir espaços comerciais para os seus produtos. Lucros financeiros e influência comercial estão na base desse comportamento de país governado por um partido dito comunista. É mole?!

Mas a aparência das coisas costuma enganar, diz o sábio ditado. Na realidade, a China tem uma dívida pública e privada da ordem de USS 51,7 trilhões - cerca de 300% do seu PIB - para com o sistema financeiro internacional, e os financiamentos que oferece aos países do Sul Global não passam de repasses diminutos de sua própria dívida. 

     A China toma emprestado para emprestar com juros diferenciados e assim obter lucro e influência, mas o emprestado pela China é apenas 1,5% do que ela deve. Porém, a suposta solução tem se tornado problema, pois a  crise econômica que se abateu sobre o mundo, agravada pela pandemia da covid19, tornou muitos países inadimplentes dos empréstimos chineses, forçando seu socorro através de mais empréstimos, sob pena de se tornarem insolventes. (por Dalton Rosado, continua neste post) 


terça-feira, 15 de novembro de 2022

O ERRO DO KEYNESIANO DE GARANHUNS É CRER NUM CAPITALISMO BONZINHO – 2

(continuação deste post)
S
e os Estados Unidos pagassem juros de 10,7% ao ano como o nosso país, estaria irremediavelmente falido. 

Motivo: tal custo representaria um ônus anual insuportável de R$ 48 mil para cada pessoa dos EUA (incluindo todos os velhos, inválidos e crianças que não trabalham e nem geram riqueza). A queda na renda média dos estadunidenses seria brutal.

O déficit global do orçamento da seguridade social brasileira foi de R$ 218,3 bilhões, ou seja, pagamos de juros um valor três vezes maior que aquilo que o orçamento da União despendeu com o déficit da previdência social. É por estas e por outras que se cortam gastos com os, e direitos dos velhinhos e inválidos do Brasil.

Os juros da dívida pública do Brasil fazem a alegria dos rentistas e é o nosso povo quem os paga.

Para os Estados Unidos o endividamento colossal não representa problema, porque os investidores estão dispostos a aplicar seus recursos em dólares estadunidenses a juros irrisórios ou até negativos.

Devemos bem menos, mas pagamos maior valor de juros que os EUA; isto dá bem a dimensão do que significa ser periferia do capitalismo.

Afinal, quando se deve sem obrigação de quitar a dívida no vencimento e se pode aumentá-la sem pagar juros, como ocorre com os países do G7, esta prática pode ir longe (mas somente até o dia do juízo final capitalista, que está próximo.

O Brasil recebe tratamento diferenciado: este nos é dado pelo mercado, a megera que baliza a vida social a partir de critérios altamente negativos e que ora estremece diante da perspectiva do descontrole fiscal pelo governo entrante.

Henrique Meireles afirma que Lula dilmou. Isto, partido de um seu tradicional apoiador, significa que a desobediência aos conselhos do executivo-mor do Banco Boston tem preço. 

Quando Armínio Fraga e Elena Laudau, entre muitos outros economistas que apoiam Lula, criticam as propostas de priorização das demandas sociais sem respeito ao teto de gastos e à responsabilidade fiscal, também tem preço.

Como conciliar, portanto, um Guilherme Boulos e o pessoal da Fiesp que apoiou Lula por medo do fascismo (mesmo com o dedo no nariz alguns e outros nem tanto, estando na última categoria os maiorais da Febraban)???

A depressão mundial do capitalismo não é uma marolinha. Quando os países do COP27, que se realiza no Egito, defendem recursos para os países situados próximos e abaixo da linha do equador que estão sofrendo mais com o aquecimento global e a queda na produção de alimentos, é sintoma do que o estrago vem sendo muito sério.

É neste cenário que Lula vai governar o Brasil, um país fraturado (mais do que dividido entre Norte e Nordeste de um lado e Sudeste, Centro-Oeste e Sul do outro) e com péssimos indicadores econômicos com relação ao cenário mundial, mesmo neste período depressivo do dito cujo. Estamos péssimos entre os que estão ruins.
Conforme se depreende, não vai mesmo demorar para aparecerem as contradições próprias de um governo que terá de escolher o que cobrir no corpo social brasileiro com o lençol curto da debilidade financeira estatal decorrente dos pesados custos de sua máquina cara e opressora.

Mas as viúvas da ditadura militar (acometidas de amnésia histórica) e a elite conservadora do Brasil já vociferam seu ódio paranoico e delirante diante dos quarteis das Forças Armadas. 

Acabarão se cansando por ora, mas logo estarão colocando nas costas do novo governo as agruras próprias de um capitalismo decadente e agravadas pelo desgoverno derrotado.

As tais manifestações, em grande parte financiadas por empresários insensíveis e megalomaníacos, juntos com uma classe média desesperada porque vem perdendo renda, têm também atraído trabalhadores que, embora oprimidos, não percebem estarem conspirando contra seus próprios interesses.

Será Lula capaz de mobilizar o povo trabalhador em defesa da vida e em contraponto aos ditames da economia capitalista autofágica e insensível que nos quer arrastar a todos para o cadafalso de sua decadência?

Quem viver verá. (por Dalton Rosado)
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