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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

PULSÃO ASSASSINA DO CAPITALISMO CONDUZ A HUMANIDADE PARA A BARBÁRIE

 


Dissemos em artigo recente que o capitalismo provoca o irracionalismo social e citamos alguns exemplos disso.  

Poderíamos ter citado um corolário de outros exemplos, como a incineração de alimentos por produtores objetivando a manutenção dos preços, e isto num contexto onde cresce o fantasma da fome; ou citarmos o uso indiscriminado de matérias plásticas descartáveis que após o uso que vão poluir os mares matando as algas dos oceanos, tão importantes para todo o ecossistema, bem como para a fauna marinha.  

Mas aqui queremos nos concentrar na análise da essência e pulsão assassina desse modo de relação social, pois assim será considerada pelas gerações futuras, os quais terão pena dos nossos padecimentos, isso se a espécie humana não sucumbir antes, diante da sanha socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma capitalista. 

São muitos os adjetivos comportamentais capitalistas convergentes para a sua essência assassina e genocida como exemplos e, neste momento de debacle da sua própria forma, ele age tal qual um suicida criminoso revoltado incapaz de viver sua própria vida e que quer levar para a morte toda a humanidade. 

A xenofobia capitalista, expressão da existência dos Estados Nacionais, se traduz num patriotismo nacionalista étnico excludente daqueles situados além das fronteiras nacionais, leva ao assassinato pela guerra dos estrangeiros, considerados contrários aos interesses do país.  


A formação das nações, de configurações jurídicas geopolíticas recentes, obedeceu ao critério capitalista de produção nacional de mercadorias visando à exportação e proteção destas por barreiras alfandegárias, enviando e recebendo excedentes da produção social de cada região de acordo com as suas capacidades geológicas, climáticas, minerais, tecnológicas, culturais, etc. Estas barreiras representam o contrário do que é - ou deveria ser - a fraternidade humana entre os povos, pois coloca a concorrência acima da solidariedade. 

Portanto, a xenofobia é assassina e, juntamente com outros fatores, compõe a base da motivação bárbara e genocida da guerra entre os povos.  

As nações e os Estados capitalistas foram formatados dentro dos interesses de sustentação à lógica social a eles inerentes e imanentes, de modo que todas as nações se submetem a todas as decomposições do agir e pensar independentemente da sua forma política.  

A forma política sob o capital não tem soberania de vontade e por isto são tão similares as posturas de governos mais fechados e centralizadores do comando, ditatoriais, e as posturas de governos sob cânones descentralizadores do poder governamental, como pretendem ser os governos republicanos de alternância eleitoral de poder.  

As ditaduras burguesas têm diferenciações para com as democracias burguesas no varejo e por dependerem da disputa cíclica do poder por grupos políticos em seu interior, tendem a ter mais flexibilização ditatorial de mando, vez que os pesos e contrapesos das suas instâncias estatais freiam melhor o absolutismo governamental opressor do Estado - mesmo os que se autointitulam pretensamente proletários.  

Entretanto, na hora do vamos ver, o que vigora é o interesse do capital representado pelos detentores de poder de mando do governo; dos representantes parlamentares e seus partidos - sempre em maioria pelos que são ligados ao capital e que contam com a participação dos que se dizem críticos da capital, pois o legitimam com sua presença; dos empresários dos vários ramos das atividades econômicas; e até mesmo dos sindicatos de trabalhadores, sempre buscando as melhorias dentro do capital sem questionar sobre a necessidade de sua própria superação enquanto categorias contributivas para a ordem capitalista.  

Já ouvi de um trabalhador o questionamento sobre os coreanos trabalhadores na siderúrgica do Pecém, na grande Fortaleza, por considerar que lhe roubam o emprego pertencente aos trabalhadores brasileiros  - pode?! Este é um exemplo de como o capitalismo torna os trabalhadores xenófobos e adversários entre si.  

Guerra concorrencial de mercado como altar do sacrifício humano – Adam Smith, pai do liberalismo clássico de mercado, cunhou a expressão mão invisível para explicar, de modo elogioso, a capacidade do mercado em intervir espontaneamente, por mecanismos próprios e internos, na equalização de preços e premiação para quem produz mais em menos tempo e melhor.  

Mas a mão invisível não é santa!  

O mercado é o altar da guerra concorrencial de mercado onde ocorre o confronto épico da disputa do capital com ele mesmo de forma destrutiva e autodestrutiva no longo prazo. 

O capitalista que produz mais e melhor em menos tempo, reduzindo custos de produção e ganhando qualidade, ganha a guerra concorrencial de mercado eliminando os seus concorrentes. Assim, concentra a riqueza em suas mãos na medida que acumula o lucro e se torna mais competitivo em aplicação de capital fixo - máquinas e instalações -, e até mesmo compram concorrentes menos expressivos economicamente, mas que incomodam, para eliminar a produção destes. 

Mas ao ampliar a sua produção, o capitalista vencedor da guerra concorrencial de mercado concentra riqueza e horizontaliza pobreza salarial; ao usar máquinas cada vez mais sofisticadas que reduzem valor e preço das mercadorias - que são coisas diferentes - provocam o desemprego estrutural, o qual reduz completamente a capacidade de compra e colide com o objetivo empresarial de vender e ganhar capital cada vez mais.  

A China, que cresceu muito nos últimos anos reduzindo custos de produção com uso da tecnologia, salários baixos e estímulos fiscais, agora vê-se na condição da redução drástica do crescimento, causando problemas para si e para todo o mercado financeiro ao qual deve cerca de 300% do seu PIB anual e para quem deve pagar os juros incidentes.  

O mundo é credor da China e o seu colapso será causa de turbulências mundiais severas. Entretanto, foi na guerra concorrencial de mercado que a China pôde se elevar à condição de segundo maior PIB do mundo apostando num crescimento econômico constante e crescente, mas cujo limite agora esbarra na capacidade de expansão capitalista.   

O mercado é a categoria capitalista para a qual converge toda concentração de trabalho abstrato produtor de valor, a mercadoria força de trabalho transformada em valor e todas as mercadorias sensíveis com seu valor de uso e de troca, sendo infenso a controles externos. Quando o Estado entende dever tributar a produção ele consegue afastar tal produção por incapacidade concorrencial de preço e leva os produtores à falência.  

Destarte, o mercado funciona como a hora da verdade do capitalismo na qual se evidencia toda a sua falibilidade.  

Hipocrisia governamental, deseducação, escravização, misoginia, homofobia, racismo, supremacismo e guerra - os governantes de todos os matizes ideológicos estão sempre a afirmar os seus propósitos de boa vizinhança e solidariedade para com as outras nações.  

Mas todos os países do G7 – Estados Unidos, Inglaterra. Alemanha, Franças, Japão, Itália, Canadá - têm histórico de beligerância e de desrespeito à autonomia dos povos quando estes não rezam pelas suas cartilhas e contrariam os seus interesses.  

Os Estados Unidos foram os grandes beneficiários das guerras mundiais das quais saiu com seu território ileso, além  de credor de vendas feitas aos países -principalmente os participantes do conflito, não importa se ganhadores ou perdedores-, além de instituir a sua moeda como moeda universal - o maior de todos os ganhos. A partir daí se tornou palmatória do mundo e se sentiu autorizado a intervir em quaisquer conflitos de poder nos países para colocar ali dirigentes submissos e simpáticos aos seus interesses.  

Não é para lá que fugiu o corrupto cubano Fulgêncio Batista que jamais foi alvo de qualquer embargo econômico quando era ditador de Cuba? Não fugiu para lá o igualmente iraniano corrupto, Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi e sua família, queridinho dos Estados Unidos, quando removido do poder pela revolução islâmica teocrática do Aiatolá Ruhollah Khomeini? Seriam infindáveis os exemplos de intervenção militar estadunidense em países de todos os quadrantes do mundo para a manutenção dos seus interesses.  

Nessa onda histórica estão incluídos até antigos aliados que se voltaram contra os Estados Unidos como o bilionário fundamentalista religioso saudita Osama Bin Laden e o ditador iraquiano Saddam Hussein, ambos assassinados pelos marines estadunidenses.    

O que dizer da Alemanha nazista, ajudada pelo fascismo italiano e japonês, responsável pelo maior genocídio mundial em apenas cinco anos e poucos meses num conflito mundial no qual se calcula que morreram cerca de 50 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial à época? 

Não dá para deixar de falar nos colonialismos inglês e francês que explorou até onde pôde as Américas, África e Ásia, e hoje, após as guerras de independências, ainda tentam manter por outros mecanismos capitalistas o seu poder de mando. 

A hipocrisia da boa convivência mundial entre as nações esbarra na lógica capitalista mundial, hoje mais globalizada do que nunca, substituindo a fraternidade e cooperação mundiais por uma concorrência mercantil-financeira que atingiu o seu estágio de contradição interna irresolúvel e nos coloca diante de impasses como a migração humana rejeitada pelo nacionalismo xenófobo e a ameaça de hecatombe nuclear que toma o noticiário internacional como a coisa mais natural do mundo em face dos desdobramentos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, além do conflito entre China e Estados Unidos à espreita.  

Outro aspecto a ser destacado é a deseducação causada por um critério moral capenga no qual levar vantagem é a tônica a ser observada pelos mais jovens no seu desespero pela falta de perspectivas de vida contributiva e saudável futura.  

Misoginia decorrente de um patriarcalismo obsoleto; homofobia calcada em preceitos religiosos e costumes ultrapassados; supremacismo racial derivado de uma falsa ideia de superioridade de raça são elementos que compõem este universo de criações capitalistas  negativas os quais somos obrigados a suportar graças a uma forma de relação social que os preserva. 

Mas ainda dá tempo de revermos tudo isso!!! (por Dalton Rosado) 


quarta-feira, 22 de abril de 2020

DIANTE DO QUARTEL, ELES CLAMAM POR PRISÕES, SANGUE, TORTURA E VIOLÊNCIA

marcelo coelho
FANATISMO DOS BOLSONARISTAS JÁ SUPERA
QUALQUER CÁLCULO OU INTERESSE RACIONAL
Em São Paulo, eles buzinam e põem o carro de som bem debaixo de um hospital. 

Em Brasília, reúnem-se diante de um quartel para pedir o fechamento do STF e do Congresso.

O interessante é que muitos deles usam máscara para se proteger do vírus. Aparentemente, essa turma não segue por completo a ideia de que a Covid-19 na maioria dos casos teria apenas o efeito de uma gripezinha.

Não. Esses fanáticos acham, sem dúvida, que o vírus mata mesmo. São contra a quarentena mesmo assim.

Imagino várias razões para essa atitude. A primeira é que, protegidos por algum plano de saúde privado, eles querem simplesmente sair de casa e continuar tocando suas empresas.

O isolamento busca evitar o colapso na saúde pública? Que se dane a saúde pública. Meu quarto no Einstein ou no Sírio-Libanês —caso o pior aconteça— está garantido de qualquer jeito.

Querer o fim da quarentena tem pouco a ver com algum tipo de solidariedade com o pessoal realmente pobre.

Sei que o desempregado, o diarista, o catador de lata, todos precisam sobreviver; o contaminado que mora num quartinho com quatro filhos não conhece os prazeres e confortos do meu isolamento movido a Amazon, Spotify e Netflix.
É claro que a ajuda financeira aos mais prejudicados, votada rapidamente pelo Congresso (ah, o Congresso!) e reforçada pelo próprio Bolsonaro, poderia ser estendida. Imagino que ainda haja milhares de problemas específicos, casos particulares e dramas pessoais por resolver.

Quem prega o fim da quarentena pode dizer, como Bolsonaro, que se preocupa com essa gente.

Desconfio que seja o contrário. Preocupa-se, isto sim, com o fato de o Estado ajudar —mesmo que de forma provisória— toda essa ralé.

Os bolsonaristas já não eram contra o Bolsa Família? Já não diziam que nossos impostos sustentam a vagabundagem no Nordeste? Já não eram a favor da meritocracia?

Querem o fim da quarentena para que a vida volte ao normal. Ou seja, com o catador de lata voltando a ganhar o que merece, e com a empregada fazendo faxina.

Claro que eles também lutam pelo futuro das próprias atividades —a loja de bijuterias, a butique pet, a consultoria de moda, a assessoria de eventos, a decoração de interiores para festas de noivado, o recolhimento do dízimo.

O jornalista Eugênio Bucci observou certa vez que o pensamento da direita se resume a um princípio simples. Trata-se, dizia ele, de pôr o direito à propriedade acima de qualquer outro direito.

A sobrevivência do planeta, a terra dos índios, a educação gratuita, o acesso à saúde —tudo para a direita pode ser posto em segundo plano. A liberdade, para a direita, tampouco tem valor.

Registro, de passagem, minha repugnância diante do velho ramerrão de Norberto Bobbio, que num livro de muito sucesso identificou a esquerda com a defesa da igualdade e a direita, com a defesa da liberdade.

Santo equilíbrio! Esqueceu-se da América Latina, da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Alemanha e da própria Itália —para falar só nas ditaduras do século 20.

Em nome da liberdade, os bolsonaristas defendem o fechamento do Congresso. É o direitismo clássico, sem novidade.

Mas quem buzina em frente ao hospital e chama Doria de comunista já foi muito além.

O mundo fanático —no islã de Osama Bin Laden, no Camboja de Pol Pot, na Alemanha de Hitler e no Brasil de Bolsonaro— ignora qualquer cálculo racional.

A caveira nos quepes da SS e nas insígnias do Bope simboliza o que constitui um verdadeiro culto da morte, do genocídio e (por que não?) do autossacrifício até.

Tirem as máscaras, seus dementes.

Um dos mais fanáticos seguidores do direitismo franquista, o general espanhol Millan Astray, celebrizou-se por um discurso feito em 1936, na Universidade de Salamanca.

Morra a inteligência!, disse ele, um mutilado de guerra. Viva a morte!

Os fanáticos gritam na frente do quartel; querem prisões, sangue, tortura e violência.

Buzinam na frente dos hospitais: querem a contaminação, querem os cadáveres dos pobres empilhados no meio da rua, querem a solução final para a miséria brasileira.

Viva Bolsonaro, viva o vírus, viva la muerte. (por Marcelo Coelho)

domingo, 19 de abril de 2020

DALTON ROSADO, SOLIDARIZANDO-SE A BATTISTI, ENFATIZA: A TORTURA NADA MAIS É DO QUE UM ATO DE CRUELDADE COVARDE.

Não quero entrar no mérito do comportamento de Cesare Battisti diante da possibilidade de prisão (que terminou por se confirmar) e do terror pessoal dele às retaliações vingativas do sistema que o levaram a assumir culpas que certamente, contextualizadas, sequer existem (ou não são apenas suas, se assim quisermos considerar). 

A pretensa civilidade capitalista tira a sua máscara de caráter e evidencia toda a sua crueldade praticando a tortura quando está em jogo a sua sustentabilidade. Tudo é relevado quando a causa a ser defendida é a pretensa democracia burguesa.

É o que está acontecendo, hoje, diante da pandemia e da paralisia das atividades econômicas, quando governantes e demais pessoas dependentes da circulação de mercadorias ou pessoas desavisadas sobre outras possibilidades de vida social defendem o grave risco da contaminação e mortes coletivas pela quebra da reclusão reflexiva (assim escolho chamar a quarentena). 

Está muito claro que Battisti, consumada a sua prisão na Bolívia graças ao pusilânime Evo Morales, negociou a sua incolumidade física com seus algozes. 
Depois das quatro décadas de sua fuga sem fim...

Mas confiou em quem jamais se pode confiar: o comportamento dos pretensamente civilizados condottieres da repressão, quando querem mostrar à sociedade como são tratados os opositores do capitalismo.

Considero que a tortura a um preso indefeso é o mais covarde e bestial ato de crueldade de um ser humano sobre outro. 

A civilidade capitalista colora com tinta viva de sangue as cores da sua tradicional hipocrisia.

O relato de Battisti na sua carta desta 6ª feira, 17 (clique aqui para acessá-la), deixa claro que o tratamento que lhe está sendo dado na prisão é o mesmo e habitual tratamento que o regime impõe aos que eles querem destruir psicologicamente como forma de demonstração pública patética de que não vale a pena ninguém lutar pela liberdade social, como se isto fosse uma quimera infrutífera.

Battisti não está sendo punido pelo risco ao sistema que hoje ele possa eventualmente oferecer (pois a sua condição de pacato escritor de romances, sem nenhuma militância política clandestina ou pública, está muito longe de constituir-se em ação ou doutrinação revolucionária), mas pelo exemplo que ele representa.   
...ele quer apenas exercer seu ofício em paz.
O regime pode soltar bombas a 10 mil pés de altura sobre Bagdá, matando crianças que dormiam, sob a falsa alegação de que lá existiriam armas químicas fabricadas pelo antigo aliado, o sanguinário Saddam Hussein, quando este se tornou desinteressante no jogo de xadrez pela hegemonia capitalista da apropriação do petróleo.

Caso semelhante foi o de Osama Bin Laden, usado pelos Estados Unidos na guerra do Afeganistão e depois executado num ato de pirataria internacional.

Nenhuma guerra capitalista é considerada criminosa e punidos os seus promotores como criminosos de guerra. O que dizer da guerra do Vietnã, na qual quase 60 mil jovens estadunidenses morreram e outros 300 mil foram feridos, a 20 mil quilômetros de sua terra natal, sem saber exatamente o porquê de tal empreitada genocida?! 

Battisti, receba a nossa solidariedade, independentemente de qualquer crítica que se possa fazer aos movimentos táticos e estratégicos de luta contra a opressão, pois, como dizia Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. 

Abaixo a tortura! (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

CRISTO APOIARIA OS EVANGÉLICOS NUMA INVASÃO DA VENEZUELA?

Neste quinto mês de governo com a economia em recesso; queda do apoio da população; desconfiança dos mais pobres, dos professores, mulheres e trabalhadores rurais quanto aos efeitos da revisão da Previdência nas suas futuras aposentadorias; oposição de todos os organismos internacionais ligados aos direitos humanos; e rachadura com o vice-presidente comprometendo a relação com os militares, tudo parece ir mal com a família Bolsonaro no poder.

Fiéis ainda a Bolsonaro, só os evangélicos, hoje cerca de 30% da população. A quase totalidade, vivendo do salário-mínimo ou menos, seguia, ainda há alguns anos o líder Lula.

De formação primária, leitores de um livro só (a Bíblia), são alimentados ideologicamente por pastores, blogs e fake news produzidos pela direção dos diversos movimentos evangélicos.

Só um acontecimento marcante poderá evitar a degringolada do governo, saudado, na sua vitória eleitoral, como messiânico e uma intervenção direta da mão divina na política brasileira. Não é preciso ser vidente e nem ter os dons esotéricos do feiticeiro de Virgínia, Olavo de Carvalho, para adivinhar qual poderá ser o fator capaz de provocar uma união nacional em torno de Bolsonaro.

Bastará ocorrer um incidente militar com a Venezuela capaz de sensibilizar a opinião pública brasileira e provocar uma reação patriótica. Pode estar mesmo em gestação adiantada esse incidente, que colocaria o povo revoltado nas ruas pedindo vingança.

Imaginem uma armação, na qual um grupo de soldados brasileiros são metralhados dentro de nossas fronteiras por venezuelanos bolivarianos, sem faltar a filmagem do começo dessa afronta por um dos soldados, pouco antes de ser também baleado.

Numa situação dessas, no calor patriótico, será fácil convencer o povo da necessidade de uma resposta. E nem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, conseguiria conter uma declaração de guerra.

Entretanto, o voto do grupo de deputados evangélicos e a pregação dos pastores evangélicos poderão evitar essa aventura guerreira.

Por isso, a questão que colocamos, diante dessa hipotética situação, é de cunho teológico – os evangélicos, professando uma fé baseada no amor e no perdão, aceitarão aprovar essa aventura guerreira?
O Deus do Velho Testamento é tão cruel quanto Júpiter...

Fizemos essa pergunta num reduto evangélico e obtivemos algumas respostas preocupantes e sintomáticas. A maioria preferiu não responder o que é também alarmante, pois como bons cordeiros esperam a decisão de seus pastores.

Os favoráveis a uma guerra de invasão da Venezuela se reportam ao Deus do Velho Testamento, que incentivava guerras de invasão, ocupação, tendo, numa delas, chegado mesmo a parar o Sol e a Lua no céu para dar a vitória ao seu povo contra os amorreus.

Esse trecho da Bíblia, contando uma intervenção direta de Deus numa guerra, está no Livro de Josué 10: 12 a 14 (1). 

Entretanto, embora tal narração reforce para muitos fiéis sua fé em Deus, um Deus guerreiro que não abandona seu povo, ela é absurda diante dos conhecimentos científicos que temos hoje da astronomia e movimento dos astros no Universo.

Pior ainda, durante séculos, esse trecho bíblico reforçou a crença praticamente transformada em dogma, de que a Terra era plana, fixa e que o Sol girava em torno dela. E muitos cientistas dessa época que provaram o contrário (como Giordano Bruno) foram queimados por apostasia. Galileu que afirmava ser a Terra que girava em tornou do Sol, só escapou da fogueira por ter-se renegado.
...diferentemente da imagem de um Deus paternal e compassivo

Pode parecer um tanto absurda aos leitores esta referência a um livro religioso, e mesmo aos sombrios anos da Idade Média. Porém, entendam, naquela época, em lugar dos evangélicos, era a Igreja Católica quem fazia a cabeça do povo e mesmo dos dirigentes, tendo como um dos argumentos principais o castigo da fogueira. 

Retornando ao nosso tema, justificar a necessidade de uma guerra contra a Venezuela não será difícil aos pastores evangélicos porque, neste caso, embora se digam seguidores da nova aliança criada por Jesus Cristo, prefeririam o Deus cruel de nome Jeová ou Adonai.

O qual, vale dizer, era tão cruel quanto o Júpiter, da mitologia greco-romana, que devorava seus filhos. Um exemplo, o Velho Testamento conta que Onã foi morto por praticar masturbação, coito interrupto ou cunilíngua, não se sabe ao certo, para evitar descendência (2).

Diante disso, entende-se o provérbio de Salomão no livro bíblico Eclesiastes, “o temor de Deus é o princípio da sabedoria”. A mensagem do perdão e do amor divino veio com Cristo, mas persistiu a pena da punição eterna, assimilada ao fogo do inferno.

No Catecismo de Westminster, um dos livros básicos doutrinários do presbiterianismo consta a possibilidade da guerra justa, um conceito flexível que não impediu tantas guerras injustas, como o ataque e invasão do Iraque.
Billy Graham no Maracanã (1974)

O que se passa hoje nos EUA é semelhante ao Brasil. Um terço da população, a com menos poder aquisitivo ou a camada popular, é evangélica praticante ou fundamentalista.

Diante da dificuldade de terem uma vida terrena melhor social e economicamente, aderem em massa ao culto da transposição de suas esperanças para o além depois da morte, com as prometidas riquezas e delícias espirituais do céu, não bem explicadas, junto de Deus.

O evangelismo atual nasceu do fundamentalismo ou interpretação literal das Escrituras, defendido pelo pastor presbiteriano Carl McIntire, que morreu em 2002 com 95 anos e esteve em São Paulo nos anos 60, quando pronunciou conferências no Teatro Municipal (um de seus seguidores no Brasil foi o pastor Boanerges Ribeiro, que durante 12 anos dirigiu o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana).

O mais conhecido defensor do evangelismo atual era o pregador Billy Graham, que enchia estádios nos Estados Unidos e mesmo noutros países, proclamando a necessidade de um reavivamento cristão, que era também moral e conservador.

Para quem se surpreendeu com a cerimônia evangélica transmitida pela televisão, tão logo confirmada a vitória do candidato Bolsonaro na eleição presidencial, vale lembrar que a posse de Bill Clinton também se assemelhou a um culto evangélico com oração por um pastor, canto de hino evangélico e presença de Billy Graham.

Os democratas perderam o pouco da simpatia que lhes restava dos evangélicos estadunidenses, transferida para o atual presidente Donald Trump.  
Aliás, a maioria dos evangélicos já estava com os republicanos dos presidentes pai e filho Bush (o sonho dos Bolsonaros seria de repetir isso no Brasil). Em 2001, logo depois do atentado islamita contra as Torres Gêmeas, os evangélicos deram total apoio à guerra de Bush contra o Iraque, chamada de a guerra contra o terror da nova Babilônia.

Na verdade, se fosse uma guerra de reação contra os atentados praticados pelos islamitas, o alvo seria o Afeganistão, onde vivia Bin Laden, e não o Iraque (cujo dirigente era ateu) e contra os islamitas. Porém, para os EUA a guerra não era uma vingança, mas visava outra coisa: o petróleo iraquiano.

Hoje, a Venezuela não é chamada de Babilônia nem atacou ninguém, mas o pretexto é acabar com o marxismo ou comunismo, embora a ameaça de bolivarização da América Latina não exista. Esse pretexto, contudo, é suficiente para mobilizar os evangélicos e obter seu apoio com orações, pregações e talvez até soldados combatendo em nome de Deus.

Mas, a razão principal do interesse dos Estados Unidos pela democracia na Venezuela é bem outra. Trata-se da mesma que provocou a guerra no Iraque e gerou o caos reinante até hoje no Oriente Médio: tomar posse do petróleo.
Um artigo de Rui Martins

A participação do Brasil – que está entregando docilmente seu petróleo sem guerra – tornará a invasão uma questão latino-americana, evitando um confronto direto dos EUA com a Rússia, disposta a defender Maduro.
notas 
1 Sobre o Dia mais Longo
Josué 10: 12 a 14
12 Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse na presença de Israel: Sol, detém-se sobre Gibeão, e tu, lua, sobre o vale de Aijalom. 
13 E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos. Não está isto escrito no livro de Jasar? O sol, pois, se deteve no meio do céu, e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro. 
14 E não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois dele, atendendo o Senhor assim a voz de um homem; pois o Senhor pelejava por Israel. 
2 Sobre Onã e masturbação
Gênesis 38:8 a 10
Então disse Judá a Onã:
Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão.Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

DALTON ROSADO DISSECA O ABOMINÁVEL TERRORISMO DE ESTADO

"No manicômio global, entre um senhor que julga ser Maomé e outro que acredita ser Buffalo Bill; entre
o terrorismo dos atentados e o terrorismo da 
guerra, a violência está nos arruinando."
(Eduardo Galeano, escritor uruguaio)
Há o terrorismo de estado; de grupos; e de tresloucados lobos solitários. Todos eles apenas representam a bestialidade do estágio inferior da sociabilidade humana e são igualmente abomináveis.  

Entretanto, quando praticado pelo Estado, e em nome de uma suposta razão justificadora incensada pela propaganda oficial, pode parecer aos olhos desavisados como menos grave. Mas não é. O terrorismo é sempre repugnante, não devendo ser confundido com ação que represente a legítima defesa da vida. Covarde e cruel, o terrorismo vitima inocentes.    
"Veem? Este é o pauzinho de amassar ideologias"

As ações revolucionárias verdadeiramente emancipacionistas não podem, portanto, apoiar o terrorismo e a barbárie social (que é uma de suas formas), caso contrário se igualaria aos déspotas do capital de todos os tempos, que sempre a praticaram.

A força das manifestações populares, quando canalizadas para o repúdio à opressão sistêmica, não deve ser contaminada por depredações e saques como as que ocorrem em períodos e momentos de anomia social, pois tais atos as enfraquecem moralmente.  

Devemos ser o oposto da violência sob a égide do capital. Deixemos a truculência despropositada para a força militar sistêmica que sempre agride os manifestantes em nome de uma ordem opressora. Nos casos em que sofrem violências, os manifestantes terão legitimidade para o revide até o limite de suas legítimas defesas, que não deve ser confundido com ação terrorista. 

Ressalte-se que o revide revolucionário das massas contra o terrorismo de estado não é ação bárbara, mas, pelo contrário, uma legítima defesa contra a barbárie terrorista institucionalizada. 
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APOCALYPSE NOW
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Os estados nacionais são instituições recentes em termos históricos, tendo sido criados pelo desenvolvimento das relações pré-capitalistas, as quais necessitavam de espaços e formas político-institucionais que dessem vasão ao seu desenvolvimento e abrissem caminhos para o que viria a ser o capitalismo desenvolvido. 

O capitalismo, por sua vez, necessitava do estado nacional que fizesse o controle monetário; mantivesse uma força militar permanente e bem equipada; e promovesse o desenvolvimento econômico com a inserção cada vez maior do escravismo indireto do trabalho abstrato em substituição ao escravismo direto feudal, predominantemente rural. 

O capital passou a ser o senhor e o sujeito do poder; uma lógica funcional abstrata que dita ordens de terror aos seus súditos. 

Para a imposição da nova ordem econômica-politico-institucional e sua expansão mundo afora, fez-se então, mais do que nunca, necessário o uso das armas de fogo com contingente militar permanente remunerado em dinheiro. Tudo visava à imposição das guerras, que se tornaram mais frequentes e com maior capacidade letal dada a variedade de armamentos. Isto custava dinheiro que somente poderia ser assegurado pela nova ordem. O capital passou a alimentar a guerra e por ela ser alimentado.  

A nova ordem burguesa, na qual toda riqueza material passou a ser dimensionada abstratamente (pela forma-valor), eclipsou o estado feudal monárquico, fundou o estado nacional (o nacionalismo é capitalista) e colocou-o a seu serviço de modo impessoal.  

A guerra de conquista para a implantação da nova ordem planetária, na qual se estabelecessem relações mercantis sob a hegemonia bélica dos conquistadores, transformou-se na pedra de toque. A produção do dinheiro como modo de relação social hegemônico nasce, assim, sob o pálio da violência das armas de fogo, com o terrorismo de estado passando a ser a sua tônica usual.  

Não há capitalismo desenvolvido ou subdesenvolvido sem terrorismo de estado; é da sua natureza constitutiva. 

Mas foi infundido na consciência coletiva o falso conceito de que o capitalismo é a forma social da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em contraponto à tirania das sociedades do escravismo direto. Assim, as sociedades mercantis não querem se reconhecer como terroristas, somente aplicando tal rótulo àquele que é praticado pelos outros. 

O exemplo mais eloquente disto foi o repúdio ao ataque praticado por fanáticos suicidas vindo das trevas da irracionalidade do fundamentalismo religioso contra as torres gêmeas no WTC em Nova York, que legitimou o bombardeio a Bagdá (no qual milhares de crianças foram mortas enquanto dormiam, sem que o Iraque e seu cruel ditador Saddam Hussein tivessem qualquer relação com o ataque de 11 de setembro). 
Um terrorismo não justifica outro e a desproporção deste segundo genocídio com o primeiro foi gritante, sem que tenha havido qualquer autocrítica oficial. 

[Muito menos filme de Hollywood lamentando o extermínio das crianças iraquianas, enquanto as vítimas do WTC já foram choradas em várias dezenas deles...]

No ataque ao Iraque de 2003, mais desproporção: os dados dos EUA contabilizam 172 marines que foram mortos no curso da invasão terrorista de estado, contra cerca de 30 mil militares e 7.269 civis iraquianos atingidos por balas e bombas. 

E na semana passada fomos informados de que os militares estadunidenses lançaram, na fronteira do Afeganistão, a chamada mãe de todas as bombas, não nuclear, de 10 toneladas e com efeito de destruição devastador, na fronteira do Afeganistão. A decisão do tresloucado presidente Donald Trump atesta que está se iniciando uma nova escalada do terror de estado.   

O sangrento governo sírio de Bashar Al-Assad não fica atrás, como se pode inferir do morticínio de civis causado pelo bombardeio com armas químicas que matou adultos e crianças com crueldade repugnante.
The Wall, do Pink Floyd: crítica contundente à fascistização sob o capitalismo agônico.
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Há um liame entre a escalada do terrorismo de estado (e, por incrível que pareça, também existe um nexo causal com a corrosiva corrupção política brasileira) e a decadência do capitalismo mundial, que quer se manter vivo pela força, a despeito de ser exatamente o bom senso ocidental-democrático que patrocina tal mega-terror...

A cada ação terrorista do inimigo a mídia oficial legitima o contra-terror dos mocinhos ofendidos, sem que se culpe o substrato econômico-jurídico-institucional-miliar que está na base de todos os terrorismos em curso.          
Um salvador da pátria desastroso

Depois de a indústria cultural ter martelado suficientemente nas mentes dos seus mesmerizados públicos a falsa dicotomia entre o capitalismo liberal e o capitalismo de estado do chamado socialismo real, o tal bom senso ocidental-capitalista-democrático alardeou a vitória definitiva do capital. 

Mas, paradoxalmente, aquilo não passava do esgotamento de uma etapa evolutiva do capitalismo, representando, na verdade, o início do seu fim. 

Assim, com a aparentemente definitiva derrota da razão crítica, sobreveio o ódio assassino como forma de sustentação da irracionalidade de um sistema fadado à auto-extinção por suas contradições endógenas e exógenas. A resultante disso é o terrorismo de estado, legitimado pelo apoio político das massas desesperadas aos outsiders que se candidatam ao papel de salvadores da pátria. 

O terror de estado passa a ser legitimado como forma de combate ao abominável terrorismo fundamentalista religioso, equivocadamente eleito (juntamente com a corrupção e os desvios burocráticos) como o grande vilão causador de todos os infortúnios sociais da atualidade. O mega-terror de estado assume, então, uma nova e tenebrosa dimensão. 

Os Osama Bin Laden e Saddam Hussein da vida, criados pelo terror de estado para combater inimigos estratégicos do Ocidente como os aiatolás no Irã, saíram do controle, passaram a disputar poder, e foram eliminados. 

O caldo de cultura que os originou, contudo, permaneceu o mesmo; e agora ressurgiu revigorado sob a forma do abominável terrorismo fundamentalista autodenominado Al-Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haram e tantas outras seitas que florescem sobre os escombros da miséria capitalista.
(por Dalton Rosado)
O mega-terror de estado agora deixa perplexa a humanidade, horrorizada com a possibilidade de utilização do arsenal nuclear por parte da Coréia do Norte e dos Estados Unidos, que têm dois aloprados a comandarem os botões que acionam tais armas.

Mas, a utopia emancipatória da paz não morreu: vive sob a forma da crítica categorial ao capitalismo, que é especialmente avessa a todo tipo de terrorismo, seja ele estatal ou sob qualquer outra forma. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

A OPÇÃO ENTRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE ASSUME FEIÇÃO DRAMÁTICA PARA NÓS

O martírio de Alexandre Ulianov  motivou...
Ao nascerem, tanto o marxismo quanto o anarquismo prometiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A proposta de ambos era a de um melhor aproveitamento do potencial produtivo existente, direcionando-o para a promoção da felicidade coletiva, ao invés de desperdiçá-lo em desigualdade e parasitismo.

A hipótese anarquista nunca foi testada: não houve país em que cidadãos livres organizassem, por tempo suficiente para extrairmos conclusões, a economia e a sociedade sem a tutela do estado.

A hipótese marxista não foi testada da forma como seus enunciadores previam: em países cujas forças produtivas estivessem plenamente desenvolvidas.

Nas duas nações ditas socialistas que realmente contam, a revolução teve de cumprir uma etapa anterior, qual seja a de acumulação primitiva do capital, já que se tratava de países ainda desprovidos da infra-estrutura básica de uma economia moderna.

Acabaram tendo de exigir esforços extremos dos trabalhadores; e, como eles não se dispunham livremente a isto, a URSS e a China, cedendo ao imperativo da sobrevivência, coagiram-nos a dar essa quota de sacrifício.

Ou seja, tornaram-se tiranias. Uma mais brutal e genocida, a stalinista. A outra mais messiânica e fanática, a maoísta.
...o irmão Lênin (que não repetiu seus erros).

Aos trancos e barrancos, cumpriram a função histórica de trazer países atrasados até o século XX. A partir daí, entretanto, passaram a emperrar as forças produtivas, ao invés de as deslanchar.

O socialismo real da União Soviética e satélites caiu de podre, com tais nações voltando ao capitalismo.

O maoísmo tentou ainda resistir aos ventos de mudança com a revolução cultural, em vão. Depois de uma luta travada na cúpula, sobreveio o pior dos mundos possíveis, um amálgama de capitalismo de estado na economia com ditadura do partido único na política.

De 1989 para cá não surgiu uma proposta revolucionária alternativa capaz de vingar nos países economicamente mais desenvolvidos -- aqueles que, segundo Marx, desbravam os caminhos que depois são seguidos por todos os outros.

Inexiste hoje uma estratégia que contemple a concretização simultânea das três bandeiras principais do marxismo e do anarquismo: a promoção da justiça social, o estabelecimento da liberdade plena e o incremento da civilização.

Unir essas três pontas soltas, na teoria e na prática, é nossa principal tarefa no século XXI.

FLERTANDO COM O RETROCESSO

Até lá, devemos esforçar-nos para, pelo menos, não nos tornarmos agentes da tirania e da barbárie.

O capitalismo globalizado é tão decadente, putrefato e destrutivo quanto a escravidão nos estertores do Império Romano. Já não oferece valor positivo nenhum à sociedade, só os negativos.

É mais um motivo para não nos comportarmos como a imagem invertida de nossos inimigos.
Revolucionários não podem condescender com a barbárie

Se a indústria cultural deles se tornou totalmente parcial e tendenciosa, não é justificativa para substituirmos a reflexão pela propaganda em nossos meios de comunicação, endeusando líderes, exagerando acertos e minimizando/escondendo erros.

A imprensa burguesa se desacredita e desmoraliza a olhos vistos. Temos de ocupar esse espaço vazio, mostrando-nos capazes de cumprir melhor as três funções do jornalismo: informar, formar e opinar.

E não deixarmos que a função opinativa impregne tudo e determine o conteúdo das outras duas. Se eles não dispõem mais de credibilidade, só teremos a ganhar zelando escrupulosamente pela nossa.

E não é qualquer forma de luta que nos serve, como serve para eles.

P. ex., devemos repudiar firmemente o verdadeiro terrorismo --não confundir com o embaralhamento manipulatório de conceitos por parte da imprensa burguesa, que tenta desqualificar como terroristas as ações de legítimo exercício do direito de resistência a tiranias (caso das guerrilhas latino-americanas da segunda metade do século passado).

Existimos para despertar nos explorados a consciência de sua condição real sob o capitalismo, a fim de que eles comecem a buscar a libertação. Não para aterrorizar a classe dominante com bombas e balas que, desde os tempos do irmão do Lênin (*), jamais a impediram de continuar dominando.
O preço desta travessura foi pago em fascistização. Saiu caro.  

Tais demonstrações de força, quando não são promovidas durante ascensos revolucionários (carecendo, portanto, do apoio ou simpatia da sociedade), levam água para o moinho dos fascistas, facilitando-lhes a disseminação do autoritarismo. Foi o que sucedeu depois do atentado ao WTC e é o que ocorrerá a partir da matança no Charlie Hebdo.

O pior é que a recaída no terrorismo clássico, hoje descartado como contraproducente tanto por marxistas quanto por anarquistas, provém de agrupamentos que nada --ABSOLUTAMENTE NADA!!!-- têm a ver com o ideário e as tradições da esquerda: os fundamentalistas religiosos.

Do ponto de vista de quem quer fazer a História avançar PARA ALÉM DO CAPITALISMO, é de uma incongruência extrema qualquer identificação ou condescendência para com fanáticos asnáticos que lutam contra o progresso e a modernidade, tentando fazer com que a História retroceda PARA ANTES DO CAPITALISMO. 

Acumpliciarmo-nos com a pobreza espiritual, o atraso e a intolerância medievais só nos traz descrédito, fazendo com que deixemos de ser vistos como uma alternativa consequente à dominação burguesa.

Que cidadão bem informado e dotado de espírito crítico levará a sério os apologistas de Bin Laden, Saddam Hussein, Muammar  Gaddafi, etc.? Vislumbrar insuspeitadas virtudes em tiranetes, torturadores e assassinos é a receita certa para o isolamento. E, se não conseguirmos transcender os limites de uma seita, jamais transformaremos em profundidade a sociedade brasileira. É simples assim.
Esta é a luta na qual temos um papel a desempenhar

Então, não podemos encarar a política com o mesmo simplismo passional das torcidas organizadas de futebol. Se continuarmos desculpando e justificando todas as vilanias cometidas por vilões que confrontem ou pareçam confrontar os EUA, Israel e que tais, acabaremos reduzidos à insignificância e à impotência, justamente nestas décadas cruciais em que se decidirá se a marcha da insensatez vai ser detida... ou não.

A opção entre civilização e barbárie hoje assume feição dramática para nós.

Pensadores como Norman O. Brown avaliam o capitalismo, em última análise, como um instrumento cego de destruição da humanidade. Isto se torna bem plausível se considerarmos, p. ex., as alterações climáticas e a dilapidação de recursos naturais essenciais à nossa sobrevivência.

Para nós, os empenhados na construção de um mundo melhor, o grande desafio é evitarmos que o enterro do capitalismo seja também o da espécie humana. E só cumpriremos tal papel se tivermos plena consciência do nosso compromisso fundamental com a civilização.

Cabe-nos não apenas preservá-la e aprimorá-la incessantemente, como colocar suas conquistas ao alcance de todos, dando-lhes condições de desenvolverem plenamente suas potencialidades humanas.

Como diria Marx, temos de dar o melhor de nossos esforços para que a humanidade saia de sua pré-história. Se depender dos fundamentalistas religiosos, isto jamais acontecerá.

* Alexandre Ulianov, integrante de um grupúsculo de extrema esquerda que tentou assassinar o czar Alexandre III. Foi executado em 1897, aos 21 anos.
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