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quarta-feira, 28 de julho de 2021

AO CAÍREM NO VAZIO, OS BLEFES MILITARES FORTALECEM O CENTRÃO COMO OPÇÃO RACIONAL AO PRESIDENTE ENLOUQUECIDO

marcelo coelho
ULTRABOLSONARISMO MILITAR SERIA UM
BAITA TIRO PELA CULATRA DO BRASIL
É tanta ameaça, tanta soberba, tanta certeza de impunidade por parte de chefes militares brasileiros que eu poderia ficar totalmente desanimado e achar que toda a construção da democracia no país nos últimos 40 anos foi trabalho perdido.

Talvez não seja para tanto. Uma coisa interessante, na semana passada, foi ver que as provocações do general Braga Netto, questionando a legitimidade do voto eletrônico, não intimidaram ninguém.

Comentaristas televisivos experientes, sem nenhum traço de porra-louquice, reduziram a pó as desculpas inventadas pelo general, depois que ele resolveu assoprar a mordida anterior. Não vi sombra daquele antigo temor que se tinha na imprensa, durante os tempos da abertura, diante de despautérios e violências dos machões de quatro estrelas.

Hoje, diz-se claramente (na TV por assinatura, pelo menos) que este general mentiu, que aquele outro não diz a verdade, que o terceiro não podia ter dito o que disse.

Claro que também não vejo as reações que seriam necessárias num país plenamente emancipado e democrático. O caso seria de prisão imediata de qualquer militar que se metesse a dar recados ao poder civil.

Seja como for, não prevalece um sentimento de medo frente ao que os militares possam fazer. Por enquanto, a hipótese de que tentem um golpe é muito remota. Difícil começar um regime de força com popularidade em queda livre.

Seria preciso investir na criação de um caos social, com agentes provocadores ou atentados terroristas, ao estilo do que se tentou na década de 1980.

Ou forjar, como se fez em décadas anteriores (*), algum documento provando entendimentos de personalidades de esquerda com redes subversivas internacionais…

Essa gente é tão doida e radical que é capaz de tudo. Mas, felizmente, aqui estamos entrando no reino da especulação extrema.

Por que, então, esses chefes militares estariam caprichando em declarações golpistas? A pergunta, formulada assim, pode parecer meio boba.

Fazem declarações golpistas porque são golpistas, sempre foram golpistas, sempre serão golpistas.

Nunca se conformaram com a democracia; não sabem o que é democracia. Consideram que o ponto alto da história militar brasileira foi instaurar uma ditadura, que prendeu, matou, torturou e estuprou tantas pessoas quanto quis, e se ofendem diante de qualquer menção aos crimes cometidos.

Antidemocráticos por formação, calaram-se (mais ou menos) por um tempo. Animaram-se com a vitória de Bolsonaro e com o apoio que encontraram junto a alguns grupos de fanáticos.

Mas acredito que haja motivos mais conjunturais para essa temporada de provocações.

Primeiro, a CPI começa a pisar nos calos das Forças Armadas. Acusações envolvendo compra de cloroquina, contratos duvidosos, omissões, engavetamentos e corrupção deixaram de ser monopólio do elemento civil de nossa sociedade. Uma vez acuado, todo pelotão que se preza trata de resistir.

Segundo, o centrão avança sobre os cargos da República. Natural que alguns chefes militares queiram mostrar a Bolsonaro que, na hora H, serão mais fiéis ao presidente do que os líderes de partidos fisiológicos.

Na política tradicional, a rebeldia partidária sempre compensa o presidente é forçado a entregar novas fatias do Estado a quem ameaça retirar seu apoio.

O ultrabolsonarismo militar seria, então, um tiro pela culatra. Ameaças de golpe, uma vez caindo no vazio, fortalecem o papel do centrão como sustentáculo razoável de um presidente enlouquecido.
Mas a ameaça persiste, como plano B. Então, eu sonho com um modo de o Congresso silenciar a arrogância golpista. Ponha-se em votação um plano para rever todas as aposentadorias e privilégios militares. 

O chefe disposto a melar o jogo da democracia não teria moral, imagino, para falar grosso num caso em que seria tão evidente seu empenho de agir em causa própria. (por Marcelo Coelho)
.
* alusão ao Plano Cohen, documento falsificado em setembro/1937 por Olímpio Mourão Filho, membro do Estado Maior do Exército e chefe do serviço secreto integralista.

Continha diretrizes comunistas para a tomada de poder no Brasil, só que não passava de uma colagem de trechos de documentos autênticos da 3ª Internacional, mas produzidos noutras épocas e referentes a outros países. 

A farsa teve o objetivo de fornecer pretexto para a instauração do Estado Novo, que acabaria ocorrendo em novembro/1937. (CL)

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O BRASIL DERRETE, MAS O ALVO Nº 1 DOS PATRULHEIROS CRICRIS CONTINUA SENDO LOBATO, QUE TRAVAVA O BOM COMBATE!

demétrio magnoli
EU ACUSO!
N
a Califórnia, o Conselho de Educação de São Francisco mudou os nomes de 44 escolas, varrendo figuras racistas do passado e, de passagem, também Abraham Lincoln. 

Na Folha de S. Paulo, Marcelo Coelho reativou a campanha pelo cancelamento de Monteiro Lobato, rotulando-o como um “racista delirante”. Ezra Klein tem razão ao concluir que, por essas vias, transforma-se a política mais em estética que em programa.

Cada geração tende a reinventar a história à sua imagem, atribuindo aos personagens do passado as virtudes ou pecados que tocam nas sensibilidades do presente. O Lincoln oficial é Grande Emancipador; o dos dirigentes escolares de São Francisco é o político que se opunha tenazmente ao exercício do sufrágio pelos negros. 

Depois de cancelar os líderes da Confederação, a esquerda identitária estadunidense precisa seguir adiante, condenando ao opróbrio todos os que não abraçam seus valores. 

O primeiro dever do historiador é, inscrevendo os personagens que estuda na moldura de sua própria época, fugir da armadilha do anacronismo. Mas o anacronismo constitui a ferramenta imprescindível dos emissários da atual política simbólica.

Lincoln simplesmente compartilhava as ideias predominantes no seu tempo. Lobato debatia-se com as encruzilhadas reais ou imaginárias da metade inicial do século 20. O método de pinçar frases racistas em suas obras ou cartas pessoais serve, exclusivamente, para obter aplausos da plateia cúmplice que milita no identitarismo acadêmico.

Que tal democratizar o anacronismo? Eu acuso W.E.B. Du Bois,
pai fundador do movimento negro estadunidense, de nutrir certas simpatias pelo nazismo. 

Acuso Abdias do Nascimento, prócer do moderno movimento negro brasileiro, de propagar as ideias fascistas da Ação Integralista Brasileira. 

E acuso milhares de negros do Brasil do século 19 de terem sido proprietários de escravos. 

Minhas cápsulas de verdades fora de contexto, artimanhas no palco do ilusionismo, esclarecem tanto quanto a sentença inquisitorial lançada contra Lobato.

As musas da Sorbonne costumavam soprar nos ouvidos dos intelectuais brasileiros. Não mais. Hoje, os cavaleiros andantes da política identitária seguem gurus estadunidenses –e querem que o Brasil seja os EUA. 

O problema é que, quando se trata de nação e raças, a América Latina tomou rumo diferente. Enquanto os EUA praticavam a segregação racial oficial, o mexicano José Vasconcelos e o brasileiro Gilberto Freyre enalteciam a miscigenação. Lobato não adotou nenhum dos dois polos, ensaiando um raciocínio inclinado à conciliação de raças. 

Os três, porém, pisavam um chão ladrilhado por conceitos raciais que só seriam superados na metade final do século 20. A acusação a Lobato nada diz sobre o escritor, mas pinta um retrato preciso de seus acusadores.

A crítica literária Ana Lúcia Brandão recolocou o debate sobre Lobato no seu devido lugar, descortinando amplos horizontes para divergências civilizadas. Vã esperança: Coelho retrucou comparando-a aos terraplanistas. 
Se não rezam pela cartilha de Bolsonaro, são comunistas; se contestam o manual de cancelamento da política identitária, serão terraplanistas. Vamos mal.

A política estetizada ignora os dilemas que interessam às pessoas comuns. As escolas de São Francisco permanecem fechadas –mas seus nomes foram devidamente sanitizados. 

O Pisa revela que o ensino público brasileiro continua a sonegar o direito à educação aos filhos de famílias de baixa renda de todas as cores –mas temos cotas raciais nas universidades e cercaremos com bandeiras de alerta as frases suspeitas de Lobato. 

São Paulo empurra seus pobres a periferias cada vez mais distantes –mas logo removerá a Estátua do Empurra da entrada do Ibirapuera.

A estética nos consome: lancetamos símbolos. Sorte da direita populista. (por Demétrio Magnoli)

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

DESTA VEZ NÃO SE TRATA DE UMA ARMAÇÃO ELEITOREIRA PARA PRESERVAR CANDIDATO MEDÍOCRE: TRUMP ESTÁ MESMO EM PERIGO!

marcelo coelho
MÉDICOS DE TRUMP ATIRAM PARA TODO LADO
Há quem diagnostique, no tratamento das respectivas infecções presidenciais com o coronavírus Sars-CoV-2, uma profunda diferença entre Brasil e Estados Unidos: lá, quando o bicho pega, recorre-se à ciência; aqui, à cloroquina.

Até certo ponto é verdade. No entanto, as conclusões a extrair das tentativas terapêuticas a que Donald Trump se submeteu, pelo que se sabia na manhã de domingo (4), são ambas preocupantes:
  1. O caso do presidente estadunidense é grave;
  2. A estratégia dos médicos da Casa Branca tem algo de barata-voa farmacológica.
Dois dos medicamentos ministrados a Trump, remdesivir e REGN-COV2, são frutos de pesquisa científica recente, de primeira linha. E são eles, também, a sugerir que o estado do republicano deve ser pior do que a equipe do jaleco branco quis fazer crer na confusa entrevista de sábado (3) à porta do hospital Walter Reed.
A equipe médica recorreu ainda a um kit extravagante de outros compostos, desses que farmácias brasileiras e médicos sem apuro científico adoram vender para desavisados: zinco, vitamina D, melatonina, aspirina e antiácido. Note que a cloroquina não está entre eles, para desgosto da família Bolsonaro.

O remdesivir, desenvolvido pelo laboratório Gilead contra o vírus ebola e os coronavírus das pandemias Sars e Mers, é a primeira droga aprovada pela agência americana FDA contra o Sars-CoV-2. Detalhe: a autorização só vale para uso emergencial em pacientes hospitalizados com doença grave.

A internação de Trump, portanto, não teria ocorrido só por excesso de cautela, como propagou a versão oficial. Ou sua condição já inspirava cuidados que só um hospital avançado pode oferecer, ou ele foi transferido precisamente para poder tomar o medicamento respeitando a indicação oficial.

O antiviral da Gilead enfrentou três testes clínicos randomizados controlados (RCTs, padrão ouro da pesquisa biomédica). Comprovou-se ser seguro, reduzir o tempo de recuperação, melhorar o estado clínico do paciente e, mais importante, possível redução de mortalidade –possível, é bom repetir.

Num dos ensaios (NIAIDACTT-1), com 1.060 pessoas, constatou-se que a maior parte dos pacientes hospitalizados com dano pulmonar tratados com remdesivir se recuperava em 11 dias, contra 15 dias no grupo que recebeu droga inócua (placebo). Observou-se alguma redução na mortalidade, mas não foi possível excluir que o resultado seja fruto do acaso.

Noutro estudo (Severe Study 5773/5807), que comparou 312 pacientes graves tratados com remdesivir a 818 que receberam tratamento padrão, o risco de morte calculado reduziu-se de 12,5% para 7,6%.

Além dos EUA, o remdesivir conta com aprovação na Europa, na Austrália, no Japão, no Canadá e noutros seis países. No Brasil, o pedido de autorização foi enviado à Anvisa em 6 de agosto. Comercializado sob o nome
Veklury, cada frasco custa US$ 520 (cerca de R$ 3 mil), e o tratamento dura de 5 a 10 dias.

A segunda droga ministrada a Trump, REGN-COV2, é ainda mais experimental. Os quatro testes clínicos com o medicamento da Regeneron sequer foram concluídos.

A empresa anunciara em junho que dois artigos sobre sua dupla de anticorpos haviam sido aceitos para publicação pela revista Science (o que ocorreria na edição de 21 de agosto). Depois, em 29 de setembro, divulgou dados preliminares dos ensaios em curso.

Por ora, o preparado REGN-COV2 provou ser capaz de reduzir a carga viral de pacientes infectados. Também se verificou quantidade menor de visitas ao médico entre os não hospitalizados. Mais de 2 mil pessoas haviam tomado o medicamento até aquele dia, e nenhuma morte ocorrera.

O remédio emprega uma estratégia baseada na seleção natural darwiniana, que os apoiadores fundamentalistas de Trump e Bolsonaro renegam. Mais exatamente, a droga cria uma armadilha para os vírus que se valem dela para tentar vencer as defesas do organismo.

Uma linha crucial de defesa são anticorpos, que se ligam à espícula do Sars-CoV-2 na tentativa de inutilizar essa chave que abre as portas das células para a multiplicação do coronavírus e a consequente destruição delas. 
A Regeneron selecionou dois deles, com ajuda de camundongos geneticamente modificados para parecerem humanos, e os empacotou juntos no REGN-COV2.

É um golpe duplo, pois os dois anticorpos se ligam a locais diferentes da espícula. Caso o vírus sofra uma mutação que impeça o acoplamento e a inutilização da chave num desses sítios, ganharia uma vantagem evolutiva enorme e passaria a produzir mais cópias do que suas variantes não mutadas.

Ocorre que o outro anticorpo na dupla da Regeneron ainda continuará disponível para inativar a espícula, impedindo a invasão das células. E é praticamente nula a chance de que o vírus sofra mutações concomitantes nos dois alvos visados pelo medicamento. Darwin explica.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro, Trump também dedicou muitos meses decisivos a minimizar a pandemia, menosprezar centenas de milhares de mortes de compatriotas e fazer propaganda da cloroquina. Mas na hora do aperto, aquela em que a realidade o reduziu à insignificância mortal, correu para os braços da ciência.

Para azar dos brasileiros, Bolsonaro mostra mais coerência em seu combate ao conhecimento científico, à razão, ao bom senso e à humanidade. 

Mais uma diferença entre Brasil e EUA: os mortos da Covid-19 no turno do capitão são 682 por milhão de habitantes, contra 630/milhão do topetudo estadunidense abatido pelo corona.​
(por Marcelo Leite)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

A FRASE DO DIA É SOBRE DEMÔNIOS À SOLTA

"A extrema-direita brasileira se compõe de uma ala financeira, de uma ala criminosa e de outra fanática. Um raciocínio mágico une esquadrões da morte, especuladores do mercado e pastores adeptos de surrar os filhos" (Marcelo Coelho, esgotando o assunto num único parágrafo)

quarta-feira, 17 de junho de 2020

MARCELO COELHO BOTA O DEDO NA FERIDA: "POR QUE LULA E O PT FAZEM TANTO CORPO MOLE NA RESISTÊNCIA A BOLSONARO?"

marcelo coelho
UM DIA DE BOLSONARO JUSTIFICA 5
 IMPEACHMENTS E 20 PROCESSOS CRIMINAIS
Começam, felizmente, as reações contra a escalada bolsonarista. A prisão de alguns defensores do golpe militar, como a doida do acampamento armado, chega em boa hora, se é que não veio com atraso.

O presidente do STF, Dias Toffoli, respirou fundo e criou alguma coragem para repudiar os sistemáticos ataques que se fazem à corte. Gilmar Mendes tem sido duríssimo, Luiz Fux deu uma interpretação decisiva sobre o papel das Forças Armadas e Alexandre de Moraes vai em frente.

Evitando confrontos inúteis, as torcidas organizadas mostram a importância de um mínimo de manifestação contra a demência da direita.

Ainda assim, uma grande parcela de opositores a Bolsonaro parece intimidada; ainda há quem vacile diante da tese do impeachment.

Fico pensando quais seriam as causas para tanta hesitação.
Claro que existem fatores objetivos —a correlação de forças no Congresso, os 30% que apoiam o governo nas pesquisas de opinião, a presença de um general como vice.

Discuti esses pontos em artigo na semana passada: para mim, nada disso seria um obstáculo muito forte.

Mas também há componentes subjetivos, psicológicos em jogo.

Começo com um caso específico. Por que Lula e o PT fazem tanto corpo mole na resistência a Bolsonaro?

É possível, em primeiro lugar, que a ideia de um impeachment tenha traumatizado demais a companheirada. No convencimento de que a destituição de Dilma foi um golpe (concordo em boa parte), o lulismo fica temeroso de ser chamado de golpista.

Mas os incontáveis crimes de responsabilidade de Bolsonaro só reforçam, na verdade, a percepção de que as pedaladas de Dilma foram uma insignificância, um pretexto, uma lorota.

Não: o medo de encarar Bolsonaro tem raízes mais profundas.

É como se a esquerda ainda não acreditasse que ele foi eleito. A ascensão desse grupo de psicopatas foi tão rápida que continuamos a esfregar os olhos, pensando estar num pesadelo.

Um dia de governo Bolsonaro seria suficiente para cinco impeachments e 20 processos criminais. Como a realidade parece incrível em qualquer detalhe, há uma espécie de resistência a admitir o conjunto dos fatos.

É a teoria do não é assim, não pode ser: eles não estão preparando um golpe, a fala sobre armar a população é só uma fala, eles não vão conseguir, ora essa, o país é uma democracia.

Cria-se um sofisma. Como estamos numa democracia, os atos antidemocráticos não são para valer. Como os direitistas deliram, eles não passam de ilusão.

Parte da oposição se deixa levar por uma espécie de fascínio hipnótico. A cada barbaridade, parece que estamos esperando um pouco mais.

Quem sabe, no próximo absurdo, diminui em um ponto percentual o apoio ao governo...

Quem sabe, com umas dez mortes a mais pela Covid, um pouquinho mais de pessoas desiste de Bolsonaro...

Vive-se então uma esperança passiva, um pessimismo cor-de-rosa. Deixa piorar, que acaba. Há uma parcela de raiva também. É a atitude do eu não disse?.

Tudo o que Bolsonaro faz de detestável termina servindo como uma espécie de lista numa argumentação imaginária. Quanto mais ele continuar, mais ficará provado que nós, oposicionistas, tínhamos razão.
O anti-intelectualismo brutal de Bolsonaro parece encontrar uma espécie de hiperintelectualismo em muitos de seus adversários.

Nunca vi tanta sofisticação de raciocínio para provar que não é o momento de lutar pelo impeachment, ou que manifestações contra o governo são exatamente o que Bolsonaro deseja.

Manifestantes de máscara, preocupadíssimos em evitar quebra-quebra, são criticados por entrar em contradição.

Mas uma coisa é a extrema-direita negar o perigo do coronavírus e usar máscara ao mesmo tempo. Isso é contradição. Ainda por cima, aplaudem o presidente que não usa.

Outra coisa é se manifestar contra Bolsonaro, usando máscara, e tentando (verdade que isso não foi respeitado) manter a distância de dois metros.

A contradição é outra. Está em manter uma aceitação horrorizada; é a crença na cloroquina política do uma hora cai, não é preciso fazer nada. É a oposição pelo uso do álcool em gel.

Basta continuar dizendo que Bolsonaro é um horror e se congratular por não ter votado nele. Bárbaros, ignorantes! Que asco.

Sei do que estou falando; vejo em mim esse elitismo.

O povão que apoiou Bolsonaro? Bem-feito. Quanto aos gaviões e porcos que protestam, mon Dieu! Quelle exagération. (por Marcelo Coelho)

quarta-feira, 10 de junho de 2020

MARCELO COELHO DIZ O ÓBVIO ULULANTE: "É INCRÍVEL QUE TANTOS BRASILEIROS SE SINTAM FRACOS DIANTE DE UM PATETA"

marcelo coelho
MEDO DO IMPEACHMENT ENTORPECE A OPOSIÇÃO
Fora algum incidente mínimo, as manifestações pela democracia e contra o racismo no domingo passado foram expressivas, bem organizadas e incapazes de dar pretexto a infiltrados e aproveitadores.

Talvez a movimentação contra Bolsonaro ganhe mais força a partir de agora.

Não é nenhum bicho de sete cabeças, afinal, sair às ruas com a devida máscara cirúrgica e todas as precauções de praxe.

Se o presidente e seus seguidores descreem do coronavírus, nem por isso precisam ter exclusividade nos atos de protesto.

E as ruas vinham fazendo falta na luta pela democracia.

Nunca vi tantos abaixo-assinados. Nunca cliquei tantos apoios a documentos na internet. O problema é que o mundo virtual, por mais que tenha lá suas estatísticas, não dá ideia da dimensão real das coisas.

Mil fanáticos de amarelo, com um presidente no meio, acabam projetando uma imagem superdimensionada de seu peso político.

Não minimizo a ameaça que representam. Muito ao contrário: estão se armando e naturalmente tendem a crescer, porque se julgam mais fortes do que são.

Como não havia manifestantes do outro lado, iam até acreditando que eram, de fato, a maioria da população.

Um pouco de gente real, protestando contra o fascismo, era indispensável. Se não houver vandalismo e violência (algo que lamentavelmente seduz parcelas dos manifestantes), é possível que a coisa cresça.

Agora começa a cair a ficha. A oposição anda intimidada, entorpecida e confusa, enquanto o bolsonarismo não para de avançar.

Não há sinal mais claro disso do que a quantidade de argumentos invocados contra o impeachment:
1não há maioria no Congresso  Sim, pode ser verdade. Mas Bolsonaro tem se isolado cada vez mais. Quem poderia imaginar, há poucos meses, que Lobão, Moro, Joice e Janaina estariam na oposição?

No Brasil, o improvável acontece todo dia. Talvez o Congresso precise de mais alguns empurrõezinhos. Na eventualidade de novas mobilizações de rua, ou de novas barbaridades presidenciais, pode ser que se mexa. Só não vai se mexer se, mesmo entre opositores convictos de Bolsonaro, o medo do impeachment predominar.
E será estranho se o Congresso continuar apoiando as forças que pretendem fechá-lo.
2. de que adianta tirar um capitão para dar posse a um general?  Poucos argumentos me parecem tão acovardados como este.

Na hipótese de uma vitória do impeachment, o clima político do país seria totalmente diverso. Estaríamos vendo um fortalecimento entusiasmante da democracia e uma recomposição radical do equilíbrio de forças. Mourão teria de se adaptar a esse esquema ou negociar uma transição.
3também pode acontecer de Bolsonaro vencer a batalha do impeachment, e sair ainda mais fortalecido — Mas não é bem assim. Trump não ficou melhor nem pior depois de confirmado no cargo.

Você pode dizer que o Brasil é diferente; mesmo antes de ser votado, o impeachment poderia dar pretexto para Bolsonaro dar o seu desejado golpe. Discordo. Quanto mais forte a bandeira do impeachment, menor a sua ousadia. 

Ele é evidentemente um burro e um descontrolado. Lembro de 1992. Posto contra a parede, Fernando Collor se perdia em caretas, acessos e pronunciamentos desesperados. Foi seu próprio coveiro.
4o momento agora é de unir forças contra a Covid-19, sem uma crise política por cima  Este argumento saiu um pouco de moda. Todos sabemos que Bolsonaro é o maior obstáculo ao enfrentamento do coronavírus. 

A tentativa de esconder os dados de letalidade é sua última proeza. Ele faz tudo o possível para espalhar a doença. Deseja o vírus com a mesma intensidade com que deseja as armas de fogo e as queimadas da Amazônia.
5ele ainda tem o apoio de um terço do eleitorado — o rebanho bolsonarista só se mantém em um terço porque não está confrontado com a existência fatual dos outros 70%. Vive numa bolha. A loucura se transmite, como um vírus. 

Mas a razão também tem seus poderes: estaríamos na idade da pedra se não fosse assim. Com imensos esforços, o nazismo e o stalinismo foram derrotados. 

É incrível que tantos brasileiros se sintam fracos diante de um pateta. (por Marcelo Coelho)
Toque do editor — este artigo do Marcelo é um daqueles que eu gostaria de haver escrito, pois expressa com máxima fidelidade as minhas avaliações e sentimentos ante a extrema mediocridade do Bozo e a extrema pusilanimidade da nossa esquerda, que fica atribuindo suas patetadas aos mais inverossímeis desígnios secretos e chegou ao absurdo de desaconselhar as manifestações de domingo, decisivas para empurrarmos definitivamente o (des)governo atual ladeira abaixo.

Digo e repito: o Bozo é apenas um trapalhão destrambelhado, com uma ignorância política abismal, que tinha imensas chances de dar um golpe no início do seu governo mas, por absoluta falta de noção, deixou a situação inverter-se por completo. 

Hoje não passa de um cadáver político à espera de que o rabecão institucional passe para o recolher. 
.
(por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

BOLSONARO E SUAS HORDAS MALDITAS MENTEM. E TÃO BURROS ELES SÃO QUE ACREDITAM NAS PRÓPRIAS LOROTAS!

marcelo coelho
AS VÁRIAS FACES DA 
BURRICE BOLSONARISTA
Está ainda para ser escrito um estudo sobre o papel da burrice na política brasileira. Comentaristas e historiadores sempre supõem que um homem de Estado se move por estratégia e cálculo.

Os melhores instrumentos de análise podem se quebrar, entretanto, quando confrontados com os atos de um verdadeiro energúmeno.

O presidente Bolsonaro nem precisaria ter feito aquele discurso. Só a foto dele, com todos os ministros enfileirados, já vale por um atestado clínico.

Qual o sentido de chamar todo o gabinete para ouvir, com cara de pastel, aquelas explicações sobre a demissão de Moro? Só se reconhecia, com isso, o tamanho da crise.

O presidente juntou Damares, Weintraub, Araújo, Mourão, Guedes e companhia, como se estivesse anunciando um grande plano para o Brasil. O que apresentou foi um discurso disperso, patético, mentiroso e oco, incapaz de responder à única pergunta que importava no momento: por que trocar o chefe da Polícia Federal?

Pela versão de Bolsonaro, tratava-se apenas de atender a um pedido do próprio demitido. E, confessadamente, de pôr alguém na Polícia Federal com quem ele pudesse se entender, sem interferências de Moro.

Reduzido ao seu ponto básico, o discurso de Bolsonaro é um escândalo. Mas o presidente é tão falto de inteligência que nem mesmo percebe o que está dizendo.

Há burrices e burrices. Uma das que predominam, hoje em dia, talvez seja efeito do Facebook e das geringonças digitais: as imagens, as piadinhas e memes se sucedem com tanta rapidez, que o sujeito perde a memória.

Presidentes como Trump ou Bolsonaro escrevem qualquer coisa no Twitter e, no dia seguinte, já não se lembram mais.

Abre o comércio, fecha o STF, usa a máscara, tira a máscara, tanto faz. As falas de Bolsonaro se sucedem como disparos num estande de tiro esportivo.

Pá, pá, pá. Aí o instrutor pega aquele cartaz com uma silhueta humana para ver quantas balas chegaram ao alvo. Nosso herói nem mesmo se interessa pela pontuação que obteve. “Acertei tudo, claro, está OK?”

No está OK? se esconde uma insegurança. Mas a insegurança não se confunde com autocrítica. Estimula, apenas, uma nova rodada de disparos.

Junto com a falta de memória, surge a incapacidade de distinguir entre o anedótico e o essencial. O discurso do presidente sobre a demissão de Moro se perdeu, como é notório, em considerações sobre o aquecimento da piscina, os feitos do número quatro, a certidão de nascimento da sogra.

É claro, aquilo fazia sentido em sua argumentação —ele queria dizer que foi investigado com base em suposições infundadas. Um advogado talentoso organizaria o discurso nesse rumo, como quem demonstra um teorema.

Bolsonaro é incapaz disso; vai pulando de fato em fato, de caso em caso, de anedota em anedota, como quem clica nas histórias do Instagram ou vagueia num game tipo GTA.

É esse o comportamento mental do bolsominion típico.

Primeiro, ignora o sentido mais amplo de um fenômeno para se aferrar a um detalhe de fácil compreensão.

Aparece um livro sobre educação sexual, p. ex.. O bolsominion não leu, mas fica sabendo que ali tem uma ilustração meio estranha. Será o pretexto para gritar, espernear, denunciar o diabo a quatro.

Mas ninguém vive sem entender as coisas num contexto. Depois de tirar um fato de seu contexto, o bolsominion terá de achar outro.

Aí entra o papel de alguma grande conspiração internacional que, de tão evidente, não tem como ser contestada.
Se alguém contestar, entra a terceira fase do processo. Trata-se de rotular o inimigo: comunista, petralha etc. Os nazistas preferiam falar em judeus. O tiro sempre acerta, porque o atirador é completamente míope e confunde tudo.

Segue-se a fase autocongratulatória. Moro abandona o barco? Não faz mal. Ele era falso; e nós estamos lutando o bom combate, como diz Bolsonaro.

Se, apesar de tudo, vier o desmentido, o desastre, o vexame, nenhum problema. Basta se esquecer do que foi dito e do que foi feito. “Torturador? Eu?". Como assim?

Os próprios eleitores de Bolsonaro já se esquecem que votaram nele. “Bolsonarista? Eu? Votei no Amoêdo.”

O bolsominion mente. Mas não tem a inteligência do mentiroso comum. É tão burro que acredita na própria mentira; é otário até quando se arrepende. (por Marcelo Coelho)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

DIANTE DO QUARTEL, ELES CLAMAM POR PRISÕES, SANGUE, TORTURA E VIOLÊNCIA

marcelo coelho
FANATISMO DOS BOLSONARISTAS JÁ SUPERA
QUALQUER CÁLCULO OU INTERESSE RACIONAL
Em São Paulo, eles buzinam e põem o carro de som bem debaixo de um hospital. 

Em Brasília, reúnem-se diante de um quartel para pedir o fechamento do STF e do Congresso.

O interessante é que muitos deles usam máscara para se proteger do vírus. Aparentemente, essa turma não segue por completo a ideia de que a Covid-19 na maioria dos casos teria apenas o efeito de uma gripezinha.

Não. Esses fanáticos acham, sem dúvida, que o vírus mata mesmo. São contra a quarentena mesmo assim.

Imagino várias razões para essa atitude. A primeira é que, protegidos por algum plano de saúde privado, eles querem simplesmente sair de casa e continuar tocando suas empresas.

O isolamento busca evitar o colapso na saúde pública? Que se dane a saúde pública. Meu quarto no Einstein ou no Sírio-Libanês —caso o pior aconteça— está garantido de qualquer jeito.

Querer o fim da quarentena tem pouco a ver com algum tipo de solidariedade com o pessoal realmente pobre.

Sei que o desempregado, o diarista, o catador de lata, todos precisam sobreviver; o contaminado que mora num quartinho com quatro filhos não conhece os prazeres e confortos do meu isolamento movido a Amazon, Spotify e Netflix.
É claro que a ajuda financeira aos mais prejudicados, votada rapidamente pelo Congresso (ah, o Congresso!) e reforçada pelo próprio Bolsonaro, poderia ser estendida. Imagino que ainda haja milhares de problemas específicos, casos particulares e dramas pessoais por resolver.

Quem prega o fim da quarentena pode dizer, como Bolsonaro, que se preocupa com essa gente.

Desconfio que seja o contrário. Preocupa-se, isto sim, com o fato de o Estado ajudar —mesmo que de forma provisória— toda essa ralé.

Os bolsonaristas já não eram contra o Bolsa Família? Já não diziam que nossos impostos sustentam a vagabundagem no Nordeste? Já não eram a favor da meritocracia?

Querem o fim da quarentena para que a vida volte ao normal. Ou seja, com o catador de lata voltando a ganhar o que merece, e com a empregada fazendo faxina.

Claro que eles também lutam pelo futuro das próprias atividades —a loja de bijuterias, a butique pet, a consultoria de moda, a assessoria de eventos, a decoração de interiores para festas de noivado, o recolhimento do dízimo.

O jornalista Eugênio Bucci observou certa vez que o pensamento da direita se resume a um princípio simples. Trata-se, dizia ele, de pôr o direito à propriedade acima de qualquer outro direito.

A sobrevivência do planeta, a terra dos índios, a educação gratuita, o acesso à saúde —tudo para a direita pode ser posto em segundo plano. A liberdade, para a direita, tampouco tem valor.

Registro, de passagem, minha repugnância diante do velho ramerrão de Norberto Bobbio, que num livro de muito sucesso identificou a esquerda com a defesa da igualdade e a direita, com a defesa da liberdade.

Santo equilíbrio! Esqueceu-se da América Latina, da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Alemanha e da própria Itália —para falar só nas ditaduras do século 20.

Em nome da liberdade, os bolsonaristas defendem o fechamento do Congresso. É o direitismo clássico, sem novidade.

Mas quem buzina em frente ao hospital e chama Doria de comunista já foi muito além.

O mundo fanático —no islã de Osama Bin Laden, no Camboja de Pol Pot, na Alemanha de Hitler e no Brasil de Bolsonaro— ignora qualquer cálculo racional.

A caveira nos quepes da SS e nas insígnias do Bope simboliza o que constitui um verdadeiro culto da morte, do genocídio e (por que não?) do autossacrifício até.

Tirem as máscaras, seus dementes.

Um dos mais fanáticos seguidores do direitismo franquista, o general espanhol Millan Astray, celebrizou-se por um discurso feito em 1936, na Universidade de Salamanca.

Morra a inteligência!, disse ele, um mutilado de guerra. Viva a morte!

Os fanáticos gritam na frente do quartel; querem prisões, sangue, tortura e violência.

Buzinam na frente dos hospitais: querem a contaminação, querem os cadáveres dos pobres empilhados no meio da rua, querem a solução final para a miséria brasileira.

Viva Bolsonaro, viva o vírus, viva la muerte. (por Marcelo Coelho)
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