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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

PULSÃO ASSASSINA DO CAPITALISMO CONDUZ A HUMANIDADE PARA A BARBÁRIE

 


Dissemos em artigo recente que o capitalismo provoca o irracionalismo social e citamos alguns exemplos disso.  

Poderíamos ter citado um corolário de outros exemplos, como a incineração de alimentos por produtores objetivando a manutenção dos preços, e isto num contexto onde cresce o fantasma da fome; ou citarmos o uso indiscriminado de matérias plásticas descartáveis que após o uso que vão poluir os mares matando as algas dos oceanos, tão importantes para todo o ecossistema, bem como para a fauna marinha.  

Mas aqui queremos nos concentrar na análise da essência e pulsão assassina desse modo de relação social, pois assim será considerada pelas gerações futuras, os quais terão pena dos nossos padecimentos, isso se a espécie humana não sucumbir antes, diante da sanha socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma capitalista. 

São muitos os adjetivos comportamentais capitalistas convergentes para a sua essência assassina e genocida como exemplos e, neste momento de debacle da sua própria forma, ele age tal qual um suicida criminoso revoltado incapaz de viver sua própria vida e que quer levar para a morte toda a humanidade. 

A xenofobia capitalista, expressão da existência dos Estados Nacionais, se traduz num patriotismo nacionalista étnico excludente daqueles situados além das fronteiras nacionais, leva ao assassinato pela guerra dos estrangeiros, considerados contrários aos interesses do país.  


A formação das nações, de configurações jurídicas geopolíticas recentes, obedeceu ao critério capitalista de produção nacional de mercadorias visando à exportação e proteção destas por barreiras alfandegárias, enviando e recebendo excedentes da produção social de cada região de acordo com as suas capacidades geológicas, climáticas, minerais, tecnológicas, culturais, etc. Estas barreiras representam o contrário do que é - ou deveria ser - a fraternidade humana entre os povos, pois coloca a concorrência acima da solidariedade. 

Portanto, a xenofobia é assassina e, juntamente com outros fatores, compõe a base da motivação bárbara e genocida da guerra entre os povos.  

As nações e os Estados capitalistas foram formatados dentro dos interesses de sustentação à lógica social a eles inerentes e imanentes, de modo que todas as nações se submetem a todas as decomposições do agir e pensar independentemente da sua forma política.  

A forma política sob o capital não tem soberania de vontade e por isto são tão similares as posturas de governos mais fechados e centralizadores do comando, ditatoriais, e as posturas de governos sob cânones descentralizadores do poder governamental, como pretendem ser os governos republicanos de alternância eleitoral de poder.  

As ditaduras burguesas têm diferenciações para com as democracias burguesas no varejo e por dependerem da disputa cíclica do poder por grupos políticos em seu interior, tendem a ter mais flexibilização ditatorial de mando, vez que os pesos e contrapesos das suas instâncias estatais freiam melhor o absolutismo governamental opressor do Estado - mesmo os que se autointitulam pretensamente proletários.  

Entretanto, na hora do vamos ver, o que vigora é o interesse do capital representado pelos detentores de poder de mando do governo; dos representantes parlamentares e seus partidos - sempre em maioria pelos que são ligados ao capital e que contam com a participação dos que se dizem críticos da capital, pois o legitimam com sua presença; dos empresários dos vários ramos das atividades econômicas; e até mesmo dos sindicatos de trabalhadores, sempre buscando as melhorias dentro do capital sem questionar sobre a necessidade de sua própria superação enquanto categorias contributivas para a ordem capitalista.  

Já ouvi de um trabalhador o questionamento sobre os coreanos trabalhadores na siderúrgica do Pecém, na grande Fortaleza, por considerar que lhe roubam o emprego pertencente aos trabalhadores brasileiros  - pode?! Este é um exemplo de como o capitalismo torna os trabalhadores xenófobos e adversários entre si.  

Guerra concorrencial de mercado como altar do sacrifício humano – Adam Smith, pai do liberalismo clássico de mercado, cunhou a expressão mão invisível para explicar, de modo elogioso, a capacidade do mercado em intervir espontaneamente, por mecanismos próprios e internos, na equalização de preços e premiação para quem produz mais em menos tempo e melhor.  

Mas a mão invisível não é santa!  

O mercado é o altar da guerra concorrencial de mercado onde ocorre o confronto épico da disputa do capital com ele mesmo de forma destrutiva e autodestrutiva no longo prazo. 

O capitalista que produz mais e melhor em menos tempo, reduzindo custos de produção e ganhando qualidade, ganha a guerra concorrencial de mercado eliminando os seus concorrentes. Assim, concentra a riqueza em suas mãos na medida que acumula o lucro e se torna mais competitivo em aplicação de capital fixo - máquinas e instalações -, e até mesmo compram concorrentes menos expressivos economicamente, mas que incomodam, para eliminar a produção destes. 

Mas ao ampliar a sua produção, o capitalista vencedor da guerra concorrencial de mercado concentra riqueza e horizontaliza pobreza salarial; ao usar máquinas cada vez mais sofisticadas que reduzem valor e preço das mercadorias - que são coisas diferentes - provocam o desemprego estrutural, o qual reduz completamente a capacidade de compra e colide com o objetivo empresarial de vender e ganhar capital cada vez mais.  

A China, que cresceu muito nos últimos anos reduzindo custos de produção com uso da tecnologia, salários baixos e estímulos fiscais, agora vê-se na condição da redução drástica do crescimento, causando problemas para si e para todo o mercado financeiro ao qual deve cerca de 300% do seu PIB anual e para quem deve pagar os juros incidentes.  

O mundo é credor da China e o seu colapso será causa de turbulências mundiais severas. Entretanto, foi na guerra concorrencial de mercado que a China pôde se elevar à condição de segundo maior PIB do mundo apostando num crescimento econômico constante e crescente, mas cujo limite agora esbarra na capacidade de expansão capitalista.   

O mercado é a categoria capitalista para a qual converge toda concentração de trabalho abstrato produtor de valor, a mercadoria força de trabalho transformada em valor e todas as mercadorias sensíveis com seu valor de uso e de troca, sendo infenso a controles externos. Quando o Estado entende dever tributar a produção ele consegue afastar tal produção por incapacidade concorrencial de preço e leva os produtores à falência.  

Destarte, o mercado funciona como a hora da verdade do capitalismo na qual se evidencia toda a sua falibilidade.  

Hipocrisia governamental, deseducação, escravização, misoginia, homofobia, racismo, supremacismo e guerra - os governantes de todos os matizes ideológicos estão sempre a afirmar os seus propósitos de boa vizinhança e solidariedade para com as outras nações.  

Mas todos os países do G7 – Estados Unidos, Inglaterra. Alemanha, Franças, Japão, Itália, Canadá - têm histórico de beligerância e de desrespeito à autonomia dos povos quando estes não rezam pelas suas cartilhas e contrariam os seus interesses.  

Os Estados Unidos foram os grandes beneficiários das guerras mundiais das quais saiu com seu território ileso, além  de credor de vendas feitas aos países -principalmente os participantes do conflito, não importa se ganhadores ou perdedores-, além de instituir a sua moeda como moeda universal - o maior de todos os ganhos. A partir daí se tornou palmatória do mundo e se sentiu autorizado a intervir em quaisquer conflitos de poder nos países para colocar ali dirigentes submissos e simpáticos aos seus interesses.  

Não é para lá que fugiu o corrupto cubano Fulgêncio Batista que jamais foi alvo de qualquer embargo econômico quando era ditador de Cuba? Não fugiu para lá o igualmente iraniano corrupto, Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi e sua família, queridinho dos Estados Unidos, quando removido do poder pela revolução islâmica teocrática do Aiatolá Ruhollah Khomeini? Seriam infindáveis os exemplos de intervenção militar estadunidense em países de todos os quadrantes do mundo para a manutenção dos seus interesses.  

Nessa onda histórica estão incluídos até antigos aliados que se voltaram contra os Estados Unidos como o bilionário fundamentalista religioso saudita Osama Bin Laden e o ditador iraquiano Saddam Hussein, ambos assassinados pelos marines estadunidenses.    

O que dizer da Alemanha nazista, ajudada pelo fascismo italiano e japonês, responsável pelo maior genocídio mundial em apenas cinco anos e poucos meses num conflito mundial no qual se calcula que morreram cerca de 50 milhões de pessoas, ou 3% da população mundial à época? 

Não dá para deixar de falar nos colonialismos inglês e francês que explorou até onde pôde as Américas, África e Ásia, e hoje, após as guerras de independências, ainda tentam manter por outros mecanismos capitalistas o seu poder de mando. 

A hipocrisia da boa convivência mundial entre as nações esbarra na lógica capitalista mundial, hoje mais globalizada do que nunca, substituindo a fraternidade e cooperação mundiais por uma concorrência mercantil-financeira que atingiu o seu estágio de contradição interna irresolúvel e nos coloca diante de impasses como a migração humana rejeitada pelo nacionalismo xenófobo e a ameaça de hecatombe nuclear que toma o noticiário internacional como a coisa mais natural do mundo em face dos desdobramentos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, além do conflito entre China e Estados Unidos à espreita.  

Outro aspecto a ser destacado é a deseducação causada por um critério moral capenga no qual levar vantagem é a tônica a ser observada pelos mais jovens no seu desespero pela falta de perspectivas de vida contributiva e saudável futura.  

Misoginia decorrente de um patriarcalismo obsoleto; homofobia calcada em preceitos religiosos e costumes ultrapassados; supremacismo racial derivado de uma falsa ideia de superioridade de raça são elementos que compõem este universo de criações capitalistas  negativas os quais somos obrigados a suportar graças a uma forma de relação social que os preserva. 

Mas ainda dá tempo de revermos tudo isso!!! (por Dalton Rosado) 


terça-feira, 24 de novembro de 2020

O CAPITAL É GENOCIDA, MISÓGINO, RACISTA, PREDADOR DO ECOSSISTEMA, XENÓFOBO E OCIDENTAL – 2

 (continuação deste post)
A
LÉM DE GENOCIDA, O CAPITAL É MISÓGINO, RACISTA, PREDADOR DO ECOSSISTEMA, XENÓFOBO E OCIDENTAL – Como lógica de relação social matemática subtrativa do esforço coletivo em favor de si mesmo que é (ainda que beneficie seus detentores capitalistas), o capital não poderia deixar de ser racista. 

Assim, uma lógica abstrata desce ao mundo da realidade social para realizar a sua cruel função escravista e segregacionista.

Os negros trazidos da África como mercadorias e propriedade de quem as comprou dos mercadores internacionais de escravos, eram protegidos por uma legislação (isto estava admitido na nossa Constituição imperial e legislação originária, a qual admitia a propriedade dos negros) que assim tornava legal tal absurdo. 

Aprendam, Mourão e Boçalnaro, que negam o racismo no Brasil: nosso país foi o penúltimo a abolir formalmente a escravidão. Tal estigma nos acompanha até hoje. 

Com a abolição a bela etnia africana passaria a ser escravizada pelo salário, opção até mais cômoda do ponto de vista mercantil, uma vez que passariam a ser compradores de mercadorias dos seus antigos senhores e ensejariam uma forma de acumulação do capital sem riscos de custos de manutenção das senzalas.  
Basta olharmos a formação social brasileira e nos indagarmos: 
— quantos afrodescendentes são proprietários ou detêm parcela expressiva das ações das grandes empresas nacionais e multinacionais que aqui operam, apesar de 9,4% dos brasileiros se considerarem negros e 46,8%, pardos? 
— qual a percentagem de encarcerados negros nos nossos presídios, comparativamente  às outras etnias?
— qual a percentagem de negros que ocupam cargos na alta esfera política e institucional brasileira , , comparativamente  às outras etnias?
— seria justo atribuir-se o alto índice de criminalização dos negros em relação às outras etnias a uma criminalidade intrínseca?

Além de racista o capital é xenófobo, isto porque as historicamente recentes formações nacionais dos Estados (e seu nacionalismo prepotente, como o America First recém-derrotado) se deram como forma de proteger a produção nacional e as condições de governabilidades existentes a partir dos impostos nacionais arrecadados das transações mercantis internacionais. 

Entretanto, como o capital é uma contradição em processo, a dialética de seu movimento conspirou contra esse xenofobismo. A sua busca frenética de vida em face do seu limite histórico de expansão acabou quebrando parte desse xenofobismo nacionalista, ao levar empresas nacionais a se instalarem noutros países atrás de mão-de-obra escrava barata. 
Foi assim que os chineses puderam mexer no tabuleiro mercantil nacionalista internacional e assumir um protagonismo decrépito ainda mais escravista (os salários médios dos trabalhadores chineses e as condições de produção industrial do seu povo são aviltantes), a que denomino de
crescimento rabo de cavalo: sempre para baixo. 

Tal fenômeno está desfalcando substancialmente a reprodução global de valor, questão que se coloca como a ponta de lança do colapso futuro.

Mas os asiáticos chineses não entram nessa história apenas com salários baixíssimos que lhes permitem ganhar a guerra concorrencial de mercado, mas, também, por conta de sua colossal dívida pública e privada (de quase 300% de um PIB cuja percentagem de crescimento vem diminuindo como consequência do limite de expansão capitalista determinado pelo limite de consumo) e com juros diferenciados cobrados pelo sistema de crédito mundial (formado pelos bancos dos países capitalistas hegemônicos) a maior do que daqueles cobrados aos países considerados ricos. 

O racismo e a xenofobia próprios do capital se quedam diante da sua necessidade de sobrevivência e, assim, o ocidentalismo do capital concilia com os chineses, ainda que mantenha uma visão preconceituosa quanto ao bravo e escravizado povo chinês, que não tem nada a ver com seu capitalismo regido por uma regime político fechado, pseudo-comunista. 

Por fim, o capitalismo é misógino. As mesmas perguntas que se fazem à inserção dos negros na vida social do ponto de vista humano, podem ser feitas com relação às mulheres, que ganham menos do que os homens em funções idênticas (as exceções apenas confirmam a regra). 

Se é mulher e negra, aí a coisa se potencializa. Não são poucas as mulheres negras que têm de se virar nos trinta para alimentar suficientemente os filhos, uma vez que, desde morada, alimento e educação, tudo lhe falta; principalmente respeito!

A pergunta que não quer calar: por que se finge que tudo isso é normal?

Por que a consciência cívica não aceita discutir um novo modo de produção e de organização social que supere todos esses preconceitos, exploração e genocídio suicida?

A resposta não pode ser outra senão aquela que diz: somos submetidos por uma lógica escravista contra a qual, mesmo sendo maioria, não nos insurgimos por ignorância e covardia diante do medo do novo que desconhecemos!!! (por Dalton Rosado)

terça-feira, 3 de novembro de 2020

UMA VEZ EXTIRPADO O PIOR TUMOR, A CURA DOS RESTANTES SERÁ MENOS TRABALHOSA

cristina serra
O MUNDO SEM TRUMP
Nunca uma eleição foi tão crucial para os EUA, o mundo e o Brasil. A derrota de Trump é a única opção para os que se preocupam com a democracia e o bem-estar da civilização. 

Sua política criminosa de separar crianças de seus pais imigrantes já seria motivo suficiente para desejar não só seu malogro como sua prisão por crime de lesa-humanidade. Mas ele vai além, ao corroer a democracia aos poucos e por dentro, como cupim. 

Trump desacredita eleições, regras e instituições. Mente e agride. Estimula grupos racistas e milícias, investe na violência e no caos, semeia ódio. Esticou a corda a tal ponto que se aventa a possibilidade de conflitos armados nas ruas caso não vença. Quem diria, os EUA com vapores de república bananeira?

Um segundo mandato do republicano teria o impacto de um meteoro para a democracia nos EUA e fortaleceria projetos de ditadores mundo afora. E aqui, seria um reforço colossal à pretendida reeleição do clone mal-ajambrado que ocupa o Planalto.
Em se tratando de EUA, é verdade que não se deve ter grandes ilusões. Os interesses estadunidenses já levaram o país a cometer barbaridades em diferentes lugares e épocas: Hiroshima, Nagasaki, Vietnã, Iraque. 

No Brasil, apoiaram o golpe de 1964 e em 2013, no governo Obama-Biden, estavam a nos espionar, como revelou Edward Snowden.

Portanto, a eventual eleição de Joe Biden não significaria, em absoluto, a paz mundial. Mas, se as pesquisas estiverem certas, o fracasso de Trump trará a restauração de algum patamar de civilidade no ainda maior centro irradiador de poder do planeta. O negacionismo científico, o racismo, a xenofobia e a aversão ao multilateralismo deixariam a Casa Branca junto com ele.

Sua derrota ajudaria a resgatar um pouco de esperança num mundo ainda sob o impacto de um vírus terrível que —com a ajuda de governantes como ele— fez de 2020 um ano inimaginável. 

Para o Brasil, o fim da era Trump seria também o primeiro lance da queda de Bolsonaro daqui a dois anos. 

Ou, quem sabe, até antes. (por Cristina Serra, jornalista e escritora paraense cujo pai era o professor de química José Serra e não o hoje senador por São Paulo José Serra Chirico)

sábado, 25 de agosto de 2018

SURTO DE XENOFOBIA DESEMBESTADA NOS FAZ RETROCEDER À IDADE DA PEDRA

hélio schwartsman
PELO FIM DAS FRONTEIRAS
Imigração é um fenômeno estranho. Do ponto de vista puramente racional, ela é a solução para vários problemas globais. Mas, como o mundo é um lugar menos racional do que deveria, pessoas que buscam refúgio em outros países costumam ser recebidas com desconfiança quando não com violência, o que diminui o valor da imigração como remédio multiuso.

No plano econômico, a plena mobilidade da mão de obra seria muito bem-vinda. Segundo algumas estimativas, ela faria o PIB mundial aumentar em até 50%. Mesmo que esses cálculos estejam inflados, só uma fração de 10% já significaria um incremento da ordem de US$ 10 trilhões (uns cinco Brasis).

Uma das principais razões para o mundo ser mais pobre do que poderia é que enormes contingentes de humanos vivem sob sistemas que os impedem de ser produtivos.

Um estudo de 2016 de Clemens, Montenegro e Pritchett estimou que só tirar um trabalhador macho sem qualificação de seu país pobre de origem e transportá-lo para os EUA elevaria sua renda anual em US$ 14 mil.

A imigração se torna ainda mais tentadora quando se considera que é a resposta perfeita para países desenvolvidos que enfrentam o problema do envelhecimento populacional.

Não obstante tantas virtudes, imigrantes podem ser maltratados e até perseguidos quando cruzam a fronteira, especialmente se vêm em grandes números. Isso está acontecendo até no Brasil, que não tinha histórico de xenofobia. Desconfio de que estão em operação aqui vieses da Idade da Pedra, tempo em que membros de outras tribos eram muito mais uma ameaça do que uma solução.

De todo modo, caberia às autoridades incentivar a imigração, tomando cuidado para evitar que a chegada dos estrangeiros dê pretexto para cenas de barbárie. Isso exigiria recebê-los com inteligência, minimizando choques culturais e distribuindo as famílias por regiões e cidades em que podem ser mais úteis. É tudo o que não estamos fazendo. (por Hélio Schwartsman)

terça-feira, 14 de junho de 2016

A ANÁLISE DO ATENTADO EM ORLANDO POR UM LEIGO EM PSIQUIATRIA

"De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver
agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o
homem chega a rir-se da honra, desanimar-se
da justiça e ter vergonha de ser honesto."
          (Rui Barbosa)
Há um provérbio que diz: “mais vale um exemplo do que mil palavras”. Seguindo tal ensinamento, e num sentido inverso, podemos concluir que um exemplo negativo positivado como algo bom pode gerar contradições na mente humana, resultando em inconformismos individualizados ou coletivos, ou ainda, posturas consentâneas com a negatividade –neste último caso, expressa no prazer da subjugação do outro como sentimento de poder (uma forma especial de psicopatia social). 

Talvez a psiquiatria médica consiga explicar com exatidão a razão da patologia social representada por tantos atentados que matam aleatoriamente pessoas desconhecidas no país de melhor renda per capita mundial, os Estados Unidos. Mas me arrisco a dizer, como leigo, que se trata de uma esquizofrenia social. O atentado em Orlando superou todos os congêneres anteriores, significando um passo adiante na escalada do horror contemporâneo.

Pessoalmente, e pedindo desculpas de antemão por me imiscuir no tema sem ser um especialista na análise das patologias psíquicas do ser humano, atribuo os atentados aleatórios a uma participação da psique da natureza socialmente deformada das sociedades mercantis, nas quais os seres humanos se tornam inimigos uns dos outros como consequência da forma competitiva e cada vez mais difícil de busca diária de obtenção para si dos meios de suas subsistências materiais, que somente são viabilizados a partir de uma disputa de mercado fratricida. 

Os seres humanos, submetidos a uma relação social entre coisas –um fetichismo da mercadoria, segundo Marx–, perdem completamente a noção de solidariedade e se tornam o lobo do homem (frase de Plautus, dramaturgo da Roma antiga, que o pensador Thomas Hobbes  popularizou em seu Leviatã).

Alguns, da laia do bilionário Donald Trump, veem na megalomaníaca razão da acumulação sem limites da riqueza abstrata, em contraponto à pobreza mundial circundante, um sentido virtuoso, adotando uma postura xenófoba e racista que lhes permite justificar até mesmo a exclusão social de pessoas que não tenham conseguido vencer na vida (mesmo os estadunidenses brancos, mas pobres, são tratados com desdém pelos estadunidenses vencedores, que se referem a eles como white poor trash, ou lixo branco pobretão). Não é de se estranhar, pois, que um Donald Trump encontre nas suas posturas uma multidão de adeptos fervorosos e agressivos. 

Outros se acomodam de modo submisso e aceitam a canga, sublimando-a em catarse a partir de prazeres singelos como a vitória de seu time preferido, ou nos copos de um bar, etc.; e, infelizmente, há muitos que derivam para um fundamentalismo político ou religioso irracional que rapidamente se transforma em ódio genocida e suicida. 

Todos se tornam, enfim, mentes deformadas por um exemplo negativo de um modo de ser socialmente negativo, no qual todas as ações sociais restam contaminadas.            

O conceito de vencer na vida, tido como algo virtuoso, encerra em si uma aberrante negatividade, pois sempre que alguém vence, há, implicitamente, outro(s) que perde(m); e tal postura é própria à lógica da competitividade mercantil, na qual até a vida está em disputa.

A meritocracia, padrão de competitividade fratricida expresso no lema vencer na vida, tido como virtude da capacidade e do esforço pessoal contra os perdedores, foi inculcado nas mentes humanas desde priscas eras, pois, historicamente, os detentores do poder e da riqueza sempre serviram como exemplo a ser seguido, não entrando em questão o modo como isso se dá, mas considerando-se apenas o resultado. 

Tal conceito perdura até os dias de hoje, pois um bicheiro rico ou traficante que compra consciências pode ser mais cultuado comunitariamente do que o descobridor de uma vacina contra a poliomielite, como o dr. Albert Sabin, p. ex. Assim, funcionam como substratos da negatividade social indutora da criminalidade genocida, aspectos de natureza moral e material que se inter-relacionam. 

A moral da concorrência de mercado, a chamada meritocracia, antes de ser virtuosa, é exclusivista, negando a necessária solidariedade que deve caracterizar uma relação humanista, somando-se à questão de natureza material, expressa no dinheiro, que impõe uma briga encarniçada para sua obtenção e é o objeto material dessa negatividade das relações interpessoais.

Deplorando a barbárie em curso, quisemos explicar a esquizofrenia social justamente a partir de sua análise enquanto patologia social crescente, na qual coisas inanimadas (mercadorias) determinam critérios negativos de comportamentos aos humanos, estabelecendo um ponto de identidade entre atos aparentemente diferenciados como:
  • entre posturas como o atentado por homofobia em uma boate gay e o holocausto racial judeu promovido pelo nazismo;
  • entre os policiais que prendem os imigrantes latinos na fronteira dos Estados Unidos e os votos dados aos políticos anti-imigração na Europa;
  • entre as ações fundamentalistas do Estado Islâmico, da Al Qaeda, do Boko Haram, etc., e as cidades cindidas por estratos sociais absurdamente discrepantes;
  • entre o cinismo dos políticos brasileiros e o discurso anticorrupção;
  • entre os 5% que detêm a riqueza mundial e os 80% atolados na miséria; etc.
Esse ponto de identidade entre fatos que ora se exacerbam derivam da injustiça própria a uma forma de relação social subtrativa e excludente, que caminha para o seu ocaso deixando um rastro de destruição que insiste em nos levar de roldão. Oxalá consigamos superá-la, freando o instinto animal que ainda habita em cada um de nós. (por Dalton Rosado)
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