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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

EIS UMA MULHER TÃO DESUMANA QUANTO MUITOS DOS PIORES HOMENS

Esta mulher é feminista. Esta mulher é monstruosa.

Você ficou espantada(o) ao ler estas afirmações juntas? Não deveria. 

Os seres humanos, seja qual for sua ideologia, preenchem cada ponto da escala que vai de superlativamente bondosos a espantosamente horrorosos. 

Alguém que se proclamava revolucionário pôde ter liderado o extermínio de cerca de 2 milhões de conterrâneos, como o carrasco cambojano Pol Pot (1925-1928) fez.

Alguém que se proclama feminista pode proferir frases tão hediondas como as  da ministra da Igualdade Social e Empoderamento Feminino de Israel, May Golan, que acaba de afirmar no seu parlamento:
"Estou pessoalmente orgulhosa das ruínas em Gaza. Que daqui a 80 anos todos os bebês possam contar aos seus netos o que os judeus fizeram quando [àqueles que] assassinaram suas famílias, os estupraram e sequestraram seus cidadãos!"
E o que, afinal, os judeus fizeram em resposta a tais crimes abomináveis? Exatamente o mesmo, só que várias vezes multiplicado. Quase quatro milênios depois do enunciado da Lei do Talião aparecer no Código de Hamurabi, é por ela que se guiam! Sua terra prometida nada mais é do que uma nova Babilônia? 
Kassif, o judeu que não compactuou com a carnificina... 

Os agressores iniciais não passavam de um movimento, ainda que desvairado e covarde ao extremo (não se conscientiza o próprio povo atraindo desgraças sobre ele). 

Os retaliadores são uma nação armada até os dentes, também desvairada (porque considera ter o direito de sempre reagir à bestialidade com bestialidade muitas vezes maior) e também covarde (porque considera aceitável utilizar sua enorme superioridade de forças para abrir as portas do inferno e deixar atrás de si terras arrasadas). 

Ambos têm o mesmíssimo espírito, o de encarar civis como vermes a serem exterminados, pouco importando se são homens, mulheres, pessoas idosas, crianças, estudantes na escola, doentes no hospital, loucos no hospício, etc. 

Ambos são a escória da humanidade, não podendo receber a aprovação de quem quer que se pretenda civilizado.  Das ações deles só podemos esperar a paz dos cemitérios.

Quanto à ministra sinistra, não foi apenas um mau momento. Em dezembro ela já havia dito este assombro:
"Não ligo para Gaza. Por mim, eles podem ir nadar no mar. Quero ver corpos de terroristas mortos em Gaza. É isso que eu quero ver!"
...ora cometida contra os civis palestinos.
Agora a bela fera rugiu também que "escolheram fugir como porcos" os parlamentares israelenses que abandonaram o plenário para não "fazerem parte de uma causa política, democrática e, acima de tudo, sionista" (qual seja a de empilhar cadáveres para defender a usurpação a mão armada, passada e presente, de terras pertencentes aos palestinos).

Tais abominações repulsivas foram proferidas a respeito da expulsão do único parlamentar judeu que teve a coragem de manifestar solidariedade aos palestinos massacrados, Oler Kassif. 

Como se vê, alguns de seus colegas também discordaram da medida, mas preferiram apenas não coonestá-la com seus votos, evitando o risco de serem também expulsos mas perdendo a chance de igualarem a dignidade de Kassif. Alguém deveria explicar-lhes que, como diziam os antigos, não existe meia virgem...

Quanto à alfinetada que dei nas feministas, foi apenas para alertá-las do excesso no qual incidem ao sustentarem que as mulheres são sempre as vítimas e os homens são invariavelmente os vilãos, seja qual for o episódio. A vida não é assim e tal cegueira acaba prejudicando-lhes a causa.

Mas, suponho que, desta vez, não haverá nenhuma tão fanática a ponto de defender a indefensável May Golan. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 14 de abril de 2021

SENTIRÃO OS PÓSTEROS IDÊNTICA REPULSA PELOS NOMES DE BOLSONARO, HITLER, IDI AMIN DADA, VLAD DRAKUL E TORQUEMADA?

ruy castro
EXTINÇÃO DO NOME BOLSONARO
Imagine se, nascido na Romênia, você portar o sobrenome Drakul. 

Será difícil esconder que, por mais correto como cidadão, marido e pai exemplar e dedicado colecionador de selos, você é tatatatatataraneto de Vlad Drakul (1431-1476) –ou príncipe Vlad, o Empalador, famoso por ter executado 40 mil inimigos atravessando-os do ânus à boca, vivos, lentamente, com estacas pontiagudas. 
Drakul foi também o nome em que se inspirou o irlandês Bram Stoker ao batizar seu vampiro Drácula, em 1897. Não é sobrenome dos mais confortáveis para se levar pela vida.

Mas, assim como há séculos não deve haver mais Drakuls por lá, não se conhecem também Torquemadas na Espanha –quem vai admitir ser descendente de Tomás de Torquemada, que mandou milhares de hereges e judeus para a fogueira no século 15? 

E de quantos Hitlers você ouviu falar na Alemanha e na Áustria desde o suicídio de Adolf em 1945? É verdade que, possivelmente broxa, o führer não deixou filhos, mas não terão sobrado sobrinhos e primos com seu nome? 

E será conveniente ter hoje o sobrenome Tsé-tung na China, Amin Dada em Uganda e Pol Pot no Camboja? Os três somados ordenaram quase 80 milhões de mortes no século 20.

Façanhas invejáveis até por Jair Bolsonaro, responsável por boa parte dos por enquanto 13,6 milhões de brasileiros contaminados com a Covid e 358 mil mortos, números de que logo sentiremos saudade. Aos quais Bolsonaro chegou por um somatório de negação, sabotagem e mentiras, imortalizadas em tantas declarações gravadas. Nunca um criminoso se entregou tanto pela palavra.

O nome Bolsonaro também desaparecerá por falta de quem ouse usá-lo. Claro que, sabendo como seus filhos devem lavar o cérebro de seus próximos, talvez leve mais uma ou duas gerações para ele se tornar uma maldição.

Neste momento, pelo menos, já desprende um hálito putrefato, impossível de disfarçar. (por Ruy Castro)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

DIANTE DO QUARTEL, ELES CLAMAM POR PRISÕES, SANGUE, TORTURA E VIOLÊNCIA

marcelo coelho
FANATISMO DOS BOLSONARISTAS JÁ SUPERA
QUALQUER CÁLCULO OU INTERESSE RACIONAL
Em São Paulo, eles buzinam e põem o carro de som bem debaixo de um hospital. 

Em Brasília, reúnem-se diante de um quartel para pedir o fechamento do STF e do Congresso.

O interessante é que muitos deles usam máscara para se proteger do vírus. Aparentemente, essa turma não segue por completo a ideia de que a Covid-19 na maioria dos casos teria apenas o efeito de uma gripezinha.

Não. Esses fanáticos acham, sem dúvida, que o vírus mata mesmo. São contra a quarentena mesmo assim.

Imagino várias razões para essa atitude. A primeira é que, protegidos por algum plano de saúde privado, eles querem simplesmente sair de casa e continuar tocando suas empresas.

O isolamento busca evitar o colapso na saúde pública? Que se dane a saúde pública. Meu quarto no Einstein ou no Sírio-Libanês —caso o pior aconteça— está garantido de qualquer jeito.

Querer o fim da quarentena tem pouco a ver com algum tipo de solidariedade com o pessoal realmente pobre.

Sei que o desempregado, o diarista, o catador de lata, todos precisam sobreviver; o contaminado que mora num quartinho com quatro filhos não conhece os prazeres e confortos do meu isolamento movido a Amazon, Spotify e Netflix.
É claro que a ajuda financeira aos mais prejudicados, votada rapidamente pelo Congresso (ah, o Congresso!) e reforçada pelo próprio Bolsonaro, poderia ser estendida. Imagino que ainda haja milhares de problemas específicos, casos particulares e dramas pessoais por resolver.

Quem prega o fim da quarentena pode dizer, como Bolsonaro, que se preocupa com essa gente.

Desconfio que seja o contrário. Preocupa-se, isto sim, com o fato de o Estado ajudar —mesmo que de forma provisória— toda essa ralé.

Os bolsonaristas já não eram contra o Bolsa Família? Já não diziam que nossos impostos sustentam a vagabundagem no Nordeste? Já não eram a favor da meritocracia?

Querem o fim da quarentena para que a vida volte ao normal. Ou seja, com o catador de lata voltando a ganhar o que merece, e com a empregada fazendo faxina.

Claro que eles também lutam pelo futuro das próprias atividades —a loja de bijuterias, a butique pet, a consultoria de moda, a assessoria de eventos, a decoração de interiores para festas de noivado, o recolhimento do dízimo.

O jornalista Eugênio Bucci observou certa vez que o pensamento da direita se resume a um princípio simples. Trata-se, dizia ele, de pôr o direito à propriedade acima de qualquer outro direito.

A sobrevivência do planeta, a terra dos índios, a educação gratuita, o acesso à saúde —tudo para a direita pode ser posto em segundo plano. A liberdade, para a direita, tampouco tem valor.

Registro, de passagem, minha repugnância diante do velho ramerrão de Norberto Bobbio, que num livro de muito sucesso identificou a esquerda com a defesa da igualdade e a direita, com a defesa da liberdade.

Santo equilíbrio! Esqueceu-se da América Latina, da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Alemanha e da própria Itália —para falar só nas ditaduras do século 20.

Em nome da liberdade, os bolsonaristas defendem o fechamento do Congresso. É o direitismo clássico, sem novidade.

Mas quem buzina em frente ao hospital e chama Doria de comunista já foi muito além.

O mundo fanático —no islã de Osama Bin Laden, no Camboja de Pol Pot, na Alemanha de Hitler e no Brasil de Bolsonaro— ignora qualquer cálculo racional.

A caveira nos quepes da SS e nas insígnias do Bope simboliza o que constitui um verdadeiro culto da morte, do genocídio e (por que não?) do autossacrifício até.

Tirem as máscaras, seus dementes.

Um dos mais fanáticos seguidores do direitismo franquista, o general espanhol Millan Astray, celebrizou-se por um discurso feito em 1936, na Universidade de Salamanca.

Morra a inteligência!, disse ele, um mutilado de guerra. Viva a morte!

Os fanáticos gritam na frente do quartel; querem prisões, sangue, tortura e violência.

Buzinam na frente dos hospitais: querem a contaminação, querem os cadáveres dos pobres empilhados no meio da rua, querem a solução final para a miséria brasileira.

Viva Bolsonaro, viva o vírus, viva la muerte. (por Marcelo Coelho)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O PETRÓLEO NÃO É NOSSO

Artigos em que eu faço críticas geralmente civilizadas ao PT ou desanco merecidamente o Reinaldo Azevedo costumam suscitar, em espaços virtuais, o mesmíssimo comentário dos prosélitos, de que eu teria prevenção exagerada contra um e outro.

Na verdade, sou apenas fiel a mim mesmo: quase tudo que provém de ambos contraria minhas convicções de uma vida inteira.

P. ex., o RA costuma escrever que denunciou tais ou quais internautas à Polícia por lhe terem mandado mensagens intimidatórias. Cansei de receber ameaças de morte durante o Caso Battisti e não tomei providência nenhuma, pois dava para perceber claramente que era molecagem de reaças adolescentes. 

Quem pretende mesmo matar, não manda aviso. E minha geração acreditava que homem tem de resolver tais situações por si próprio, ao invés de ir choramingar no colo do delegado, como criança se queixando à professora de que o coleguinha aprontou...

Já a defesa estridente da Petrobrás por parte do PT & intelectuais afins me irrita profundamente porque jamais considerei que revolucionários devessem apoiar companhias estatais em particular e o capitalismo de estado em geral. 

O objetivo final de comunistas e anarquistas é uma sociedade sem patrões, sem classes, sem Estado e sem fronteiras. Os primeiros admitiram, depois do esmagamento da Comuna de Paris, que durante algum tempo se mantivessem algumas estruturas do Estado, para defender a revolução dos seus inimigos internos e externos. Os anarquistas advertiram que seria um passo em falso, e a História lhes daria inteira razão.

Vale ainda lembrar que, conforme teorizou Lênin em O Estado e a revolução, o fortalecimento e a perpetuação do Estado não eram nem um pouco desejáveis para os comunistas. 

Durante tal fase, caber-lhes-ia irem transferindo o poder real, paulatinamente, ao povo; o aparato estatal deveria ser desmontado pouco a pouco, até extinguir-se completamente por desusoDa administração das pessoas, passaríamos, tão depressa quanto possível, à administração das coisas.

Salta aos olhos que, em todos os países nos quais se estabeleceu a famigerada ditadura do proletariado, o estado não foi definhando; muito pelo contrário, cresceu desmesuradamente, engendrou castas burocráticas de privilegiados (as chamadas nomenklaturas), travou a economia e intimidou ou aterrorizou a cidadania. O colapso do socialismo real se deu, principalmente, por causa deste desvirtuamento das concepções marxistas.

Antes mesmo de minha geração (a de 1968), já houvera revolucionários repudiando o envolvimento da esquerda na campanha do petróleo é nosso e subsequente criação da gigante petroleira, por terem bem claro que o estatismo e o nacionalismo jamais conduzirão à sociedade sem classes e à revolução mundial. 

Empresas em mãos do estado nada significam para revolucionários; o que conta, num primeiro momento, são empresas sob o controle dos trabalhadores, e isto a Petrobrás nunca foi. Num segundo momento, as empresas, tal como as conhecemos (entidades lucrativas), têm de ser extintas, pois todas as atividades econômicas se voltarão para o atendimento das necessidades humanas.

Mais: o pesadelo stalinista, principal responsável (ao tornar execrável a própria ideia de revolução) pela sobrevida parasitária que o capitalismo está tendo depois de haver mais do que esgotado sua função histórica, nos mostrou quão nociva pode ser a estatização da economia, quando desacompanhada da transferência do poder aos explorados. 

Ela fornece sustentação econômica ao autoritarismo, que tende a desembocar no totalitarismo, como aconteceu na URSS, na China, no Camboja, etc. É outro motivo para mantermos máxima distância da estatização sem revolução. 

Assim, nunca vi relevância nenhuma na defesa das estatais brasileiras e repúdio às privatizações, do ponto de vista revolucionário. Trata-se apenas de mais um conflito de interesses que se trava dentro do capitalismo, envolvendo grupos que nada mais almejam além de auferirem vantagens sob o capitalismo. A Petrobrás jamais pertenceu ao povo brasileiro (nem a ele beneficiou), mas sim ao Estado brasileiro, às curriolas vorazes que o saqueiam e aos gananciosos acionistas. O resto não passa de conversa pra boi dormir.

Por último, é patético que esquerdistas se proponham a defender com unhas e dentes a energia suja que está minando as possibilidades de sobrevivência da humanidade. A era do petróleo tem de acabar, ou somos nós que acabaremos. 

Esse PT que quase nada conserva de suas bandeiras originais de esquerda, marcha atualmente na contramão de uma infinidade de valores que sempre cultivei. Deles não abro mão. Sou dos poucos que têm coragem de desafinar o coro dos contentes, nestes tristes tempos em que a esquerda regrediu ao monolitismo e ao pensamento único que pareciam ter sido definitivamente extirpados em 1968. 

Enquanto tiver vida, lucidez e forças, não deixarei de continuar apresentando o contraponto a visões dominantes dos quais divirjo, até porque a experiência histórica tem demonstrado que a unanimidade pode mesmo ser burra, como dizia o Nelson Rodrigues...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MASSACRES, VIOLÊNCIA SEXUAL, CRIMES CONTRA A HUMANIDADE: É A SÍRIA

Navi Pillay, alta comissária de direitos humanos das Nações Unidas, é quem fala neste momento em nome dos seres humanos dignos deste nome, ao posicionar-se vigorosamente contra a bestial carnificina deflagrada pelo açougueiro Bashar al-Assad na Síria.

Diz-se "particularmente chocada com a violência em Homs", principal reduto da oposição ao tirano. O veto imoral da Rússia e China à adoção de sanções por parte da ONU teria encorajado al-Assad a usar uma "força esmagadora" (palavras dela) contra a cidade de Homs.

Acrescenta que o número de vítimas da repressão aumentou tanto nos dois últimos meses que o simples registro dos óbitos se tornou tarefa "quase impossível". Mas, garante que "o número de mortos e feridos continua a crescer a cada dia".

Fala-se em 400 pessoas assassinadas em Homs só em fevereiro. E, desde março, no país inteiro, o total ultrapassaria 7 mil, dentre as quais 400 menores.

O regime sírio utiliza inclusive violência sexual para humilhar os rebeldes, informa Pillay:
"Relatos extensos sobre violência sexual, em particular estupro em locais de detenção, principalmente contra homens e meninos, são especialmente perturbadores. Crianças não foram poupadas".
Em balanço por ela encaminhado à Assembleia Geral da ONU, a comissária avaliou que "a escala dos abusos cometidos pelas forças sírias" já configura crimes contra a humanidade.

Minhas conclusões:
  • está certíssima a Liga Árabe ao pleitear da ONU o envio urgente de uma força de paz conjunta à Síria;
  • quem se mancomuna com tal escalada de matanças e atrocidades, perpetradas por um tirano que jamais teve qualquer identificação com a causa dos explorados, é tudo menos um seguidor de Marx ou Proudhon.
Tais herdeiros de Pol Pot afastam de nossas fileiras os cidadãos idealistas e equilibrados de cuja adesão desesperadamente carecemos para recolocarmos a revolução na ordem do dia. Ninguém, exceto fanáticos sanguinários, moverá uma palha para ajudar a instalar em seu país uma ditadura como a de al-Assad.

Enquanto priorizarmos a justiça social em detrimento de nossa outra grande bandeira histórica --a liberdade--, continuaremos desempenhando papel político secundário e quase irrelevante no Brasil.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

REFLEXÕES SOBRE A MORTE DE UM TIRANO

Nas pegadas de Stálin: assim se cultuava a
personalidade do ditador que já foi tarde.
"Metida tenho a mão na consciência
e não falo se não as verdades puras
que me ditou a viva experiência"
(Camões)

Pelos motivos que vou expor adiante, nunca me interessou particularmente o que acontecia na Coréia do Norte. A idade me ensinou a manter distância daquilo que só me deprimirá.

Mas, para os interessados, recomendo a ótima análise de Elio Gaspari em sua coluna Já foi tarde (acesse íntegra aqui) da qual destaco estes parágrafos estarrecedores:
"Em 1945, a península coreana foi dividida entre duas ditaduras. A do Norte, comunista e rica. A do Sul, capitalista e pobre. Nos anos 60, quando se falava em  milagre coreano, o tema era a supremacia socialista. Em 1970, todos os vilarejos do país tinham eletricidade. 

Passou-se uma geração, o Sul tem uma democracia e o Norte tem uma tirania enlouquecida, que mais se parece com a  Spectre  do romance de Ian Fleming do que com um Estado. Em apenas quatro anos, entre 1991 e 1995, a renda per capita da população caiu de US$ 2.460 para US$ 719. O regime vive do socorro cúmplice da China.

Falta eletricidade, mas as 34 mil estátuas do  Pai da  Pátria Socialista  são iluminadas mesmo de dia.

A professora Mi-Ran conta que via alunos de cinco ou seis anos morrerem de fome nas salas de aula. Sua turma de jardim de infância de 50 alunos caiu para 15.
De Hitler a Kim Jong-un, os grandes ditadores
sempre tiveram paradas militares como fetiche
 Nas casas desse paraíso, uma parede da sala deve ser reservada para o retrato do  Líder, que é distribuído com um pano. Fiscais zelam para que nenhuma família deixe de limpá-lo.
A fome dos anos 90 matou entre 600 mil e 2 milhões de coreanos do norte. Em algumas cidades morreram dois em cada dez habitantes. Um médico conta que ensinou mães a ferver demoradamente a sopa de capim. A certa altura, as famílias preferiam que as crianças morressem de fome em casa, porque nos hospitais, onde não havia remédio, faltava também comida".
O PODER MANTIDO A FERRO E FOGO,
SOBRE MONTANHAS DE CADÁVERES

 Um conceito do marxismo clássico que até hoje considero axiomático é do que o destino do mundo se decide nos países com economia avançada, não nos periféricos.

Era nesses que Marx queria iniciar a construção do socialismo, convicto de que arrastariam os demais na sua esteira.

Mas, quando foi o reformismo e não a revolução que neles prevaleceu após a revolução soviética de 1917, os apressadinhos correram a trocar o foco, passando a tentar mudar o mundo a partir das nações menos pujantes --o que só gerou decepções e fez brotarem tiranias como cogumelos.

As potências centrais acabam sempre por anular tais arroubos, seja forçando trocas de regime, seja asfixiando tais nações mediante embargos econômicos como o imposto a Cuba.

Muitos, por estarem sendo forçados a socializar a penúria e não a abundância, acabaram descambando para os piores despotismos, como o Camboja do Pol Pot. A palavra de ordem de tais  nomenklaturas  é a manutenção do poder a ferro e fogo, sobre montanhas de cadáveres.

Barricadas parisienses, 1968: os comunistas
franceses preferiram salvar Charles De Gaulle.
E os esquerdistas que, desde Stalin, traem a proposta libertária do marxismo e se põem a defender brutais tiranos, tornam execrável a imagem da revolução aos olhos dos explorados das nações prósperas, aqueles que precisaríamos reconquistar para voltarmos a oferecer uma perspectiva revolucionária global, como havia um século atrás.

A mesmerizante indústria cultural burguesa martela dia e noite na cabeça dos   videotas  que a alternativa ao capitalismo é miséria e chicote.

Os movimentos de contestação de 1968 e anos seguintes foram os últimos que abriram uma possibilidade real de revolução nos países prósperos. Nunca saberemos o que aconteceria se o Partido Comunista Francês tivesse se colocado no lado certo das barricadas, junto aos estudantes e operários jovens que se rebelaram, e não esfaqueando-os pelas costas.

Resta, para nós, a titânica tarefa de recolocarmos a revolução aos trilhos, reentronizando sua componente libertária, sem a qual ela jamais voltará a ser atrativa para os melhores seres humanos --mormente na era da internet! 

É impensável, para cidadãos tão ciosos da sua liberdade pessoal como os de hoje, a perspectiva de desperdiçarem esforços na construção de regimes que lhes imporão camisas de força. Tanto quanto em 1968, temos, isto sim, de encarnar a esperança do  paraíso agora!

E as terríveis frustrações com o stalinismo (degeneração burocrática da revolução que culminou na volta ao capitalismo e à democracia burguesa) e com o maoísmo (de cuja derrocada resultou o pior dos mundos possíveis, um capitalismo de estado altamente despótico) servem como sonoro alerta de que a nova revolução terá, obrigatoriamente, de ser global, tanto quanto o capitalismo hoje é global.

O chamado  socialismo real  implantado em países isolados, nem serviu como estopim para a revolução mundial, nem se manteve... socialista. Na verdade, tornou-se uma caricatura odiosa do socialismo, que melhor serviu à burguesia como espantalho do que para nós como cartão de visita.

É hora de reassumirmos a revolução mundial --e, eminentemente, libertária-- como meta suprema.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

FIM DE UMA TIRANIA

O povo líbio em festa: contra imagens não há argumentos
No jogo de xadrez, as peças menores são sacrificadas em nome da vitória final. É comum a partida acabar sem que reste um peão sequer no tabuleiro.

Na vida, isto é inconcebível e inaceitável. Se não priorizarmos a existência humana como valor supremo, propiciaremos o advento da barbárie.

Para os revolucionários, mais ainda. Existimos para defender os peões, não os reis ameaçados.

Então, é simplesmente grotesco e indefensável o alinhamento de qualquer esquerdista com déspotas como o que está sendo derrubado na Líbia e o que precisa ser derrubado na Síria.

Devemos, sim, fazer tudo que pudermos para evitar que sejam substituídos por outros tiranos e/ou joguetes dos EUA e de Israel.

Pode um revolucionário identificar-se com ISTO?!
Mas, estendermo-lhes as mãos significa trairmos nossa missão, conforme foi brilhantemente enunciada por Marx.

Cabe-nos conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, sentenciou, com máxima clareza, o velho barbudo. Não acumpliciarmo-nos com retrocessos históricos. Jamais!

Absolutismo, feudalismo, estados teocráticos, tiranias pessoais, tudo isso foi merecidamente para a lixeira da História. E é lá que deve permanecer.

Nosso compromisso é com a construção de uma sociedade que concretize, simultaneamente, as duas maiores aspirações dos homens através dos tempos: a justiça social e a liberdade.

Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad, brutais genocidas, não nos aproximaram dessa sociedade um milímetro sequer. São carniceiros comparáveis a Átila e Gengis Khan.

Todos deveríamos manter deles a mesma distância que mantivemos de Pol Pot a partir do momento em que ficaram comprovadas, sem sombra de dúvida, as características monstruosas do regime do Khmer Vermelho.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

BÁRBAROS EMPEDERNIDOS E CRUÉIS ASSASSINOS

Quando saí dos cárceres da ditadura militar, com uma lesão física permanente, muitos problemas psicológicos e terríveis danos morais, havia aclarado meu conceito sobre ditaduras.

Antes já repudiava as de direita, claro, mas me deixara iludir pelos textos que impingiam, como mal necessário, uma ditadura do proletariado, atenuada nas ressalvas: seria tão cirúrgica quanto possível, durando apenas o tempo necessário para se criarem os pré-requisitos de sua abolição.

A experiência vivida falou mais alto do que qualquer argumento: decidi que nada, absolutamente nada, justificava que um indivíduo fosse colocado na condição de vítima indefesa do Estado, qualquer que fosse o Estado.

Meus algozes podiam me torturar como e quando bem entendessem.

Privar-me do sono, de roupas, de alimentos, de higiene, de assistência médica e até da luz solar.

Ameaçar-me de estupro (com as mulheres, muitas vezes iam às vias de fato).

Simular roletas russas e fuzilamentos.

Emitir comunicados mentirosos a meu respeito.

E me matar, seja por excessos involuntários nas sessões de tortura, seja por tédio.

Aos 19 anos, estive próximo de um enfarte no terceiro dia de prisão, quando, após medirem minha pressão, suspenderam as torturas e me encheram de calmantes.

Ao contrário do que aconteceria a partir de 1971, ainda não haviam partido para a matança indiscriminada -- não por respeito à vida humana, mas porque as mortes chocantes davam ensejo a campanhas humanitárias exortando governos estrangeiros a suspenderem linhas de crédito para o Brasil.

A partir do quarto diplomata trocado por presos políticos, no entanto, os tiranos decidiram absorver os prejuízos de ordem econômica, de preferência a exilar militantes que pudessem depois voltar e contribuir para a libertação do povo brasileiro.

Então, ao invés de oficializar suas prisões, passaram a sequestrá-los, levá-los para centros de tortura clandestinos, submetê-los aos piores suplícios, executá-los e dar sumiço nos cadáveres.

Mesmo quando a ordem ainda não era matar, contudo, houve oficial que me incentivou a tentar a fuga, "agora que ninguém está olhando", para me fuzilar pelas costas e depois apresentar seu ato como necessário. Por quê? Porque havia tido um mau dia e estava enfastiado...

A PRIMEIRA BRECHA

Enfim, percebi que jamais se deveria conceder ao Estado tamanho poder sobre o cidadão, por não haver garantia nenhuma de que, mesmo sendo fixados limites, estes não seriam ultrapassados ao sabor dos acontecimentos.

Os textos marxistas sobre ditadura do proletariado e, p. ex., nem de longe justificam os massacres de camponeses durante a coletivização forçada na URSS ou os genocídios de Pol Pot no Camboja. No entanto, estes decorreram daqueles.

Vale lembrar uma frase antológica do filme O Julgamento de Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961).

Face ao desabafo de um magistrado alemão, estupefato por as coisas terem saído tanto do controle durante a era nazista, um membro do tribunal explica:
"Esses horrores todos começaram quando o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".
Então, não se pode deixar que seja aberta a primeira brecha, ainda que ínfima, pois haverá sempre os que a alargarão.

Quem luta para criar a sociedade perfeita, com a concretização plena da liberdade e da justiça social, não deve  transigir com nenhuma ditadura e nenhuma forma de desigualdade, seja em que ponto for da caminhada. Caso contrário, não chegará aonde pretendia, mas a lugar bem pior.

FARSA CONTRA SAKINEH

Foram as reflexões que me vieram à mente após ler que as autoridades iranianas exibiram na TV um vídeo com uma suposta Sakineh Ashanti, em fala  ademais dublada, praticamente admitindo a cumplicidade jamais provada no assassinato do seu marido.

Foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério, só por adultério.

Como isso teve a pior repercussão possível junto às pessoas civilizadas do mundo inteiro, armaram uma farsa para justificar a sentença hedionda.

E o fizeram depois de privarem sakineh do seu advogado, com abusos grotescos, inclusive o de aprisionar-lhe os entes queridos para usá-los como reféns.

Assim como quando Stalin fazia condenarem dignos revolucionários sob pretextos os mais falaciosos e ridículos, depois de triturados em seus cárceres, não existe condescendência possível com tais práticas por parte de quem pretende sinceramente transformar o mundo.

Há que se defender, sim, o Irã das ameaças de intervenção armada dos EUA, como represália por seu programa nuclear.

Mas, isto não pode -- jamais!!! -- implicar nossa conivência com o estupro sistemático dos direitos humanos por parte das autoridades iranianas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu oficialmente asilo a Sakineh, dando aos aloprados do Irã uma saída honrosa neste episódio, ao menos.

Então, o assassinato com requintes de extrema crueldade que tramam só servirá à propaganda dos EUA enquanto eles mantiverem sua postura de fanática/asnática intransigência.

E enquanto a mantiverem, não merecem a simpatia de ninguém. São bárbaros empedernidos e cruéis assassinos. Nada mais.

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